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  • 80 | Trabalhos de Antropologia e Etnologia, 2016, volume 56

    Marina Prieto Afonso Lencastre

    CREBRO SOCIAL, MENTALIZAO E PSICOPATOLOGIA EVOLUTIVA

    Indicaes da psicopatologia dos primatas no humanos para a psicopatologia humana

    por

    Marina Prieto Afonso Lencastre1

    Resumo: Estudos sobre o crebro social humano apontam para a sua homologia evolutiva com o crebro e com motivaes e comportamentos sociais de outros primatas. A psicopatologia dos primatas no humanos poder ajudar a refundar a psicopatologia humana. Mas a esquizofrenia e as perturbaes psicticas aparentadas podem corresponder a psicopatologias especificamente humanas, j que implicam competncias cognitivas exclusivas do crebro humano como a capacidade de mentalizao de segunda e terceira ordens, a simbolizao e a produo de realidades mentais internas.

    Palavras-chave: Evoluo, crebro social, psicopatologia evolutiva dos primatas no humanos, mentalizaes de segunda e terceira ordem, psicose.

    Abstract: Research on human social brain shows its evolutionary homology with the brain and social motivations and behaviors of other primates. The psychopathology of nonhuman primates can help refound human psychopathology. Nevertheless, schizophrenia and related psychotic disorders may be specific human psychopathologies, as they imply exclusive cognitive habilities of the human brain, such as second and third order mentalization capacities, symbolization and the production of internal mental realities.

    Key-words: Evolution, social brain, nonhuman primate evolutionary psychopathology, second and third order mentalization, psychosis.

    INTRODUO

    Nos ltimos anos temos assistido a um renovado interesse pela psicopatologia evolutiva e as recentes descobertas sobre as relaes entre crebro, mente e comportamento normal e patolgico tm mostrado que a teoria da evoluo a mais adequada para entender essas relaes (Brune, 2008; Panksepp, 2012; Solms & Panksepp, 2012). A ideia de que os comportamentos, e a actividade mental asso

    1 Professora Catedrtica na Universidade Fernando Pessoa. Psicoterapeuta Especialista da Sociedade Portuguesa de Psicologia Clnica. Email: marina.prieto.afonso@gmail.com

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    ciada, so fenmenos biolgicos, no nova; desenvolveuse na Europa desde 1920 com observaes decisivas sobre o comportamento animal e, a partir de meados do sculo passado, foi aplicada ao comportamento humano, com contribuies importantes da biologia evolutiva para a etologia humana (EiblEibesfeldt, 1989). A ecologia e a gentica do comportamento deram s descries detalhadas da etologia humana um enquadramento selectivo do comportamento social, permitindo previses baseadas na hiptese de que servem sobretudo para maximizar a sobrevivncia e a reproduo gentica individual e familiar, e tambm dos reciprocantes no aparentados (Darwin, 1859, 1871; Hamilton, 1968; Trivers, 1972, 1973). Estas previses foram recentemente estendidas aos grupos mais alargados atravs de uma reviso do conceito de seleco de grupo (Sloan Wilson, 2007), que cresceu da investigao sobre padres altrustas e de cooperao em grupos de animais no humanos e humanos. Apesar de controverso, este conceito instigou mudanas na investigao sobre as espcies ultrasociais e culturais, como a espcie humana, e deu nova importncia hiptese do crebro social (Dunbar, 2003). Este autor props que o tamanho do neocrtex humano evoluiu como uma adaptao a um grupo social complexo e crescente, que requeria novas competncias para o sucesso no acasalamento, na comunicao social, na cooperao e na integrao grupal alargada. Estas novas competncias cerebrais associamse, entre outras, ao aparecimento da linguagem de dupla articulao, capacidade metarepresentacional do sistema cognitivo generalista humano e a novas formas de mentalizao (Bering, 2010). As mentalizaes primrias do crebro social esto envolvidas na possibilidade de captar outras mentes de modo a orientar a aco no grupo, e esta competncia est presente nos outros primatas, particularmente nos chimpanzs. Os humanos acrescentamlhe as mentalizaoes secundrias e tercirias, permitidas pela expanso das competncias associativas do neocrtex, pela nova sintaxe e pela dupla articulao da fala, que produz palavras. Esta expanso cerebral e mental trouxe com ela um catlogo de novas realidades internas como as brincadeiras imaginativas, a produo de objectos abstractos, a distino entre animadoinanimado, a atribuio de caractersticas animadas a entidades que, partida, no as possuiriam, a defesa contra entidades mentais e a sua agncia, a concepo psicolgica da morte, por oposio sua concepo biolgica ou material (Bering, 2001). As novas competncias cognitivas assentam sobre emoes e cognies mais antigas, largamente homlogas com o grupo dos mamferos, sobretudo os primatas; estas so adaptaes que orientam os comportamentos ecolgicos e sociais atravs de respostas neuromotoras biologicamente preparadas. Encontramos as adaptaes antigas nas novas competncias evoludas, cooptadas para os nveis comportamentais e mentais onde se geram as experincias especificamente humanas. Estas

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    englobam, por exemplo, os sentimentos culturais baseados nas emoes primrias, as experincias estticas e religiosas orientadas pela experincia corporal e os afectos relacionais, os pensamentos analgicometafricos, as narrativas mticas inspiradas pelos temas selectivos humanos e, tambm, as derivas psicopatolgicas associadas a eles2.

    O presente artigo discutir algumas destas questes, mostrando que a psicopatologia humana necessita ser refundada a partir da psicopatologia dos animais no humanos, particularmente os primatas e, dentro deles, os chimpanzs que, em termos filogenticos, se encontram mais prximos dos humanos. Esta proposta no deixa de levantar questes de vria ordem e aparecer como controversa para leitores em psicologia humana. No entanto, resultados recentes da investigao sobre o crebro social humano e os seus sistemas emocionais e cognitivos apontam amplamente para a sua configurao evolutiva e homloga com outros primatas (Brune et al, 2003, Panksepp, 2012). certo que a evoluo de Homo seguiu uma linhagem prpria, diferente da linhagem dos chimpanzs contemporneos e, como vimos mais acima, acrescentoulhe caractersticas que no encontramos nos primatas no humanos. O que nos propriamente humano aparece, portanto, tambm reflectido na psicopatologia. o estudo das semelhanas e das diferenas entre ns e os outros animais que nos permite melhor compreender o que, em ns, tantas vezes parece culturalmente incompreensvel mas que, luz das lentes evolutivas, se torna claro e terapeuticamente fecundo. Estas, e outras questes, sero o foco da nossa ateno nos prximos pargrafos.

    DEFINIO DE PSICOPATOLOGIA NOS PRIMATAS NO HUMANOS

    A ideia de procurar sinais psicopatolgicos nos animais no humanos, particularmente nos primatas mais prximos de ns como os chimpanzs e gorilas, tem sido acolhido com alguma relutncia por parte dos tericos evolutivos. Em geral, estes tm preferido no atribuir experincias de sofrimento aos animais e manter uma atitude descritiva objectiva; no entanto, muitos destes padres de sofrimento so criados artificialmente em laboratrio para desenvolver modelos biomdicos da doena (Fabrega, 2002). Assim podemos, com alguma segurana, tentar manter uma perspectiva clnica e tambm evolutiva quando se trata de avaliar comportamentos psicopatolgicos espontneos, tanto no ambiente natural como

    2 Ver o artigo de Solms & Panksepp (2012) para uma interessante interpretao neuropsicanaltica da ligao entre o corpo evoludo, o inconsciente psicolgico e as funes da conscincia.

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    em laboratrio (Ibidem). Alm disso, podemos tambm apoiarnos na inferncia de estados internos a partir da observao de comportamentos que, por analogia, evocam em ns sofrimento mental (Troisi, 2003). Como os animais no falam, os estudos em psicopatologia animal tero que se basear essencialmente em indicadores comportamentais e fisiolgicos, particularmente nos desvios quantitativos e qualitativos de padres de comportamento comuns (ou estatisticamente normais) e os seus correlatos neuroqumicos.

    claro que esta questo da psicopatologia animal levanta imediatamente a questo dos critrios para a sade e a doena, que so em grande parte dependentes de normas culturais. A prpria psicopatologia humana est dependente de normas culturais e o modelo biomdico universal esbarra frequentemente com a questo do localismo psicopatolgico (Kirmayer & Ban, 2013). Nos animais em liberdade, difcil distinguir entre normal e patolgico porque os comportamentos so adaptaes a condies ecolgicas e sociais que implicam por vezes comportamentos extremos que consideraramos patolgicos na sociedade humana ocidental. Nos animais no humanos no se pode equacionar simplesmente a norma estatstica com a norma social. Os desvios da norma podem ser neutros ou benficos, em termos adaptativos. Nos animais em liberdade correspondem a padres que aparentemente no s no impedem a sobrevivncia do grupo, como at a promovem. O critrio normativo, apoiado somente em indicadores estatsticos, aparece como insuficiente para avaliar o carcter psicopatolgico, ou no, do comportamento observado; e esta afirmao vlida para os no humanos e tambm para os humanos.

    O caso do infanticdio nos langures que, durante muitos anos, foi considerado como aberrante e disfuncional, interessante neste aspecto. A primatologia descreveu nos anos 1960 o homicdio de recmnascidos langures por vrios machos agressivos que invadiram o harm e expulsaram o macho residente. No seguimento desta