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Língua portuguesa: ultrapassar fronteiras, juntar culturas (Eds.) Mª João Marçalo & Mª Célia Lima-Hernandes, Elisa Esteves, Mª do Céu Fonseca, Olga Gonçalves, Ana LuísaVilela, Ana Alexandra Silva © Copyright 2010 by Universidade de Évora ISBN: 978-972-99292-4-3 SLG 42 – O “Poder da palavra”: análise do discurso. 22 CENAS DO PROFESSOR NA MÍDIA LEITE, 1 Maria Alzira RESUMO O trabalho a seguir, desenvolve uma reflexão sobre o discurso de um professor pela voz da mídia na Seção Leitor. Partindo-se do pressuposto de que a linguagem pode ser tratada em uma dimensão social, discursiva e persuasiva, o estudo aqui, propõe investigar as representações do leitor sobre sua própria profissão, e ainda, como os mecanismos enunciativos contribuem para tornar esse discurso persuasivo a ponto de construir um determinado ethos de professor. PALAVRAS-CHAVE: Mídia, representação e ethos. Introdução Imparcialidade, verdade, informação, eis as palavras chave que acompanham as novas campanhas publicitárias da esfera jornalística. Cada vez que surge um novo escândalo político ou uma tragédia, a mídia está ali presente, criando uma cena de verdade, buscando até mesmo a justiça. É nesse ponto que os veículos de comunicação iniciam uma concorrência e se tornam objetos de todas as atenções. Charaudeau (2006) nos chama a atenção, em seu livro Discurso das Mídias, para a seguinte questão: “as mídias nos manipulam”? É uma resposta complexa. Sabemos que um mesmo fato permite muitas leituras. Os acontecimentos noticiados por jornais, revistas e TV são frequentemente apresentados de maneira bastante variada. Tendemos a pensar que, ao ler um texto no jornal, automaticamente sabemos como as coisas se passaram na vida real. Esquecemos que aquilo é uma versão dos 1 Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUCMINAS Programa de Pós-Gradução em Letras Rua São Domingos, 441 – Barreiro – CEP.: 30.642-050 - BH – MG – Brasil [email protected]

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Língua portuguesa: ultrapassar fronteiras, juntar culturas (Eds.) Mª João Marçalo & Mª Célia Lima-Hernandes, Elisa Esteves, Mª do Céu Fonseca, Olga Gonçalves, Ana LuísaVilela, Ana Alexandra Silva © Copyright 2010 by Universidade de Évora ISBN: 978-972-99292-4-3 SLG 42 – O “Poder da palavra”: análise do discurso.

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CENAS DO PROFESSOR NA MÍDIA

LEITE,1 Maria Alzira

RESUMO O trabalho a seguir, desenvolve uma reflexão sobre o discurso de um professor pela voz da mídia na Seção Leitor. Partindo-se do pressuposto de que a linguagem pode ser tratada em uma dimensão social, discursiva e persuasiva, o estudo aqui, propõe investigar as representações do leitor sobre sua própria profissão, e ainda, como os mecanismos enunciativos contribuem para tornar esse discurso persuasivo a ponto de construir um determinado ethos de professor.

PALAVRAS-CHAVE: Mídia, representação e ethos.

Introdução

Imparcialidade, verdade, informação, eis as palavras chave que acompanham as

novas campanhas publicitárias da esfera jornalística. Cada vez que surge um novo

escândalo político ou uma tragédia, a mídia está ali presente, criando uma cena de

verdade, buscando até mesmo a justiça. É nesse ponto que os veículos de comunicação

iniciam uma concorrência e se tornam objetos de todas as atenções.

Charaudeau (2006) nos chama a atenção, em seu livro Discurso das Mídias, para

a seguinte questão: “as mídias nos manipulam”?

É uma resposta complexa. Sabemos que um mesmo fato permite muitas leituras.

Os acontecimentos noticiados por jornais, revistas e TV são frequentemente

apresentados de maneira bastante variada.

Tendemos a pensar que, ao ler um texto no jornal, automaticamente sabemos

como as coisas se passaram na vida real. Esquecemos que aquilo é uma versão dos

1 Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUCMINAS Programa de Pós-Gradução em Letras Rua São Domingos, 441 – Barreiro – CEP.: 30.642-050 - BH – MG – Brasil [email protected]

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fatos, ou seja, uma história construída por alguém, que pode se valer de elementos

verdadeiros, mas que, ao compor um texto irá se projetar.

O ato de comunicar da esfera jornalística possui um poder que abarca muitos

leitores e estes se tornam fiéis:

“Sou leitor de VEJA há mais de 15 anos e confio piamente no que é publicado. Para falar a verdade eu nem confiro as publicações, pois acredito na idoneidade da revista.” Leitor A MACEIÓ

Isso nos faz lembrar os dizeres de Focault:

“Mas quando penso na mecânica do poder, penso em sua forma capilar de existir, no ponto em que o poder encontra o nível dos indivíduos, atinge seus corpos, vem se inserir em seus gestos, suas atitudes, seus discursos, sua aprendizagem, sua vida cotidiana.” (FOCAULT, 2001: 131)

O leitor abre espaço e se deixar seduzir, como nos diz Emediato (2008), o poder

delegado à mídia existe porque o leitor acredita que não existe transparência no mundo

social e assim surge o veículo de comunicação para desvendar o que está oculto.

A crença na credibilidade da mídia está vinculada à maneira de conduzir o

discurso, ou seja, à sua argumentação.

Mas até que ponto essa preocupação pode nortear o discurso do outro?

Para responder essa questão, retomamos conceitos de Mocovicci (1981)

Charaudeau (2006/2008), Amossy (2005), e como corpus a capa da revista VEJA de 20

de agosto de 2008 e o fragmento publicado na Seção Cartas, em 27 de agosto do mesmo

ano, para analisar as representações que emergem dos dizeres desse professor, os

mecanismos enunciativos que tornam o discurso persuasivo e assim perceber a

construção do ethos do trabalho docente que emerge da revista e do próprio leitor. A

título de ilustração, o esquema abaixo resume essa ideia:

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Leitor professor

Representações

Figura 1 - A imagem do professor pela mídia Elaborado pelo pesquisador

Revista VEJA: o erro é de quem?

Em agosto de 2008 a revista VEJA, em matéria especial, apresentou uma

pesquisa que mostra, segundo ela, “a realidade da educação”. A capa da revista

apresentava um aluno escrevendo no quadro o seguinte: “o inssino no Brasiu é ótimo”,

em seguida, com letra de fôrma grande: “OS ERROS NÃO SÃO SÓ DELE”. Abaixo,

em letras menores: “Os estudantes brasileiros são os piores nos rankings

internacionais mas... mais de 90% dos professores e pais aprovam as escolas.”

Discurso Ethos

M I D I A

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Figura 2 - Revista VEJA,

Edição 2074. 20 de agosto de 2008.

De acordo com VEJA esta pesquisa sobre “educação” foi encomendada à

CNT/Sensus que visitou algumas escolas públicas e particulares, assistiu e gravou às

aulas, e ainda, entrevistou pais, alunos e professores. O resultado geral dessa pesquisa

mostra que “90% dos professores se acham bem preparados para dar aulas e 89% dos

pais consideram receber das escolas um bom serviço em troca do que pagam.”

O primeiro ponto que chama a atenção na reportagem de VEJA é a análise que a

própria revista faz da aula de um professor de história, de Porto Alegre. A revista relata

que a aula era “animada por um jogral” e o professor questionava no decorrer de sua

disciplina: “Quem provoca o desemprego dos trabalhadores, gurizada?” Os alunos

respondem: “A máquina”. Indaga, mais uma vez, o professor: “Quem são os donos

das máquinas?” E os estudantes: “Os empresários!” No final o professor: “Então,

quem tem pai empresário aqui deve questionar se ele está fazendo isso”. Fim de

aula.

VEJA nos apresenta esta aula como:

INÍCIO

1º. Jogral;

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2º. Questões orientadas;

3º. Orientação final do professor.

FIM DE AULA

A partir disso, podemos verificar a encenação abaixo:

ENUNCIAÇÃO

Informar/persuader

Locutor: VEJA

Enunciado: “o inssino no Brasiu é ótimo”

Representação da mídia Jornalismo de referência

Comportamento enunciativo: Delocutivo com traços alocutivos

Ethos da mídia: Denúncia Quadro 1 - Cena Enunciativa Elaborado pelo pesquisador

Em resumo, “VEJA” apresenta a seguinte imagem do professor na capa:

Posto: O ensino no Brasil está fraco

Subentendido: A responsabilidade é de alguém

Pressuposto: Professores, pais e escolas não estão atentos.

E VEJA se apresenta como:

+ jornalismo + denúncia

+ revista + informação

+ VEJA + esclarecimento

A intenção dessa revista vai além de informar algo. Ela almeja orientar o leitor a

uma determinada conclusão.

Observe que há indícios que o enfoque maior da matéria esteja para o professor,

devido ao ambiente reproduzido na capa, a postura do aluno escrevendo no quadro, e

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ainda, o profissional da língua portuguesa, devido a ilustração da escrita “incorreta.”

Talvez se o aluno estivesse fazendo uma operação matemática inadequada, essa capa

não fosse tão peculiar.

Assim, podemos registrar o seguinte efeito persuasivo:

SENTIDO DO ARGUMENTO SENTIDO DA CONCLUSÃO

Os estudantes brasileiros são os piores nos rankings internacionais mas...

mais de 90% dos professores e pais aprovam as escolas.

Quadro 2 – Rede de sentido Elaborado pelo pesquisador

A asserção de VEJA remete o leitor para um fato. O sentido argumentativo se

instaura com uma afirmação do verbo “ser”, com o uso do modalizador “mas” e a

pontuação reticências, que exprimem uma ressalva de pensamento, indicado uma

advertência. Logo a seguir, a conclusão se inicia com outro modalizador “mais” e

reforça a indicação de quantidade posta pela expressão: “90% dos professores e

pais...” O verbo “aprovar”, como um ato ilocucionário, encerra a “força” com que o

enunciado é produzido.

O segundo aspecto que impressiona é a carta de um professor de São Paulo,

publicada na semana posterior, a respeito dessa matéria.

Leia:

“Considerei um verdadeiro presente a reportagem especial da última edição de VEJA. Sou professor e curso o último semestre de matemática. Promovi uma avaliação em algumas escolas para coletar dados mais efetivos para meu projeto de pesquisa científica. Fiquei assustado com o que encontrei: além da absurda e inquestionável falta de conhecimento dos alunos, deparei com professores despreparados, que mal sabem o que estão dizendo e que dão graças aos céus ao encontrar uma sala onde impera a desordem, pois assim, podem cruzar os braços. Os jovens de hoje não são menos capazes; os professores, sim, são muito menos. De nada adianta ficar avaliando o desempenho dos alunos se quem deve ser avaliado são os professores. Chega de incompetência e mediocridade na educação.”

Leitor X Tupã, SP Revista VEJA, Edição 2075. 27 de agosto de 2008.

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Para a uma melhor compreensão do texto, dividiremos o fragmento acima em

partes:

Introdução: Elogio a revista;

Apresentação do leitor legitimando-se.

Desenvolvimento: Apreciação do leitor quanto ao conhecimento dos alunos;

Avaliação da imagem do professor;

Apreciação quanto aos professores e jovens de hoje.

Conclusão: O professor deve ser avaliado.

A opinião desse leitor é o reflexo do posicionamento de VEJA. Mas de que

maneira isso é feito?

Nas diversas situações de comunicação o locutor ao se posicionar sobre um

determinado assunto, constrói o seu texto e produz um sentido. Retomando Charaudeau

(2008: 76) ao falar ou escrever, o locutor, organiza o discurso “em função de sua

própria identidade, da imagem que se tem de seu interlocutor e do que já foi dito.”

No caso da mídia, ela está interessada em apresentar uma matéria. Desse modo,

constrói a imagem de seu interlocutor para influenciá-lo Para isso, articula o seu

discurso apoiando-se nas crenças e nos valores de seus leitores.

De acordo com Emediato (2008: 75) a influência sobre as crenças do leitor surge

a partir de uma prática negociada, regulada e dialógica, isto é, nasce “da crença cidadã

de que não há transparência no mundo social”.

O leitor – cidadão participante que interage com outras pessoas - escreve aquilo

que ele vive e sente, porém de maneira orientada, tanto pela mídia quanto pela

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sociedade, que estabelece os seus estereótipos2 e estes se atrelam com as nossas

representações refletindo na formação de uma opinião.

Nesse enfoque, “as ações verbais são mediadoras e constitutivas do social, onde

interagem múltiplos e diversos interesses, valores, conceitos, teorias, objetivos e

significações de si e dos outros.” (BRONCKART, 1997: 42).

A formação e o agir representado no texto

Ao observar o discurso3 do professor de São Paulo, percebemos que em seus

dizeres há indícios de representações sociais que contribuem para a sua formação como

cidadão, como leitor e como profissional.

Ao tratar de representação é interessante relembrar o seu conceito. Como

salienta Moscovici (1981) a Representação Social, é entendida como um conjunto de

conceitos, proposições e explicações que se originam na vida e no curso de

comunicações interpessoais.

Então, a representação é uma forma de conhecimento socialmente elaborada e

partilhada, que tem um objetivo prático e concorre para a construção de uma realidade

comum a um conjunto social.

Assim, na carta em análise, percebemos algumas dimensões que estruturam a

sua representação. Uma delas é a informação. Esta se refere à organização dos

conhecimentos que um grupo possui a respeito de um objeto social:

2 Tajfel (1982) apresenta uma visão geral do conceito de estereótipo; "uma imagem mental hipersimplificada de uma determinada categoria (normalmente) de indivíduo, instituição ou acontecimento, compartilhada, em aspectos essenciais, por grande número de pessoas. ( p.161).

3 É importante destacar que o discurso do professor está publicado na Seção Leitor e passou por uma avaliação do editor, o que compromete o sentido.

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Figura 3 A informação estruturando a representação Elaborado pelo pesquisador

Constantemente a mídia veicula o resultado de avaliações do governo mostrando

o fraco desempenho dos alunos, tanto da escola pública quanto particular. A

informação que vem à tona é que algo está errado na educação. O campo de

representação da responsabilidade de um possível “fracasso educacional” parece ser

direcionado ao professor, profissional que tem como um modelo de imagem para a

instância cidadã como o “conhecedor”, aquele que “transforma a vida das pessoas por

meio da educação.”

Abric (2003) enfatiza que as representações têm a função de situar os indivíduos

e os grupos no campo social, permitindo a elaboração de uma identidade social e

pessoal, isto é, compatível com sistemas de normas e de valores social e historicamente

determinados.

Então, a partir da ideia de um possível “fracasso educacional” /“responsabilidade

do professor”, percebemos uma orientação que emerge da sociedade guiando os

comportamentos e as práticas sociais. Nesse ponto, se insere a mídia, que também

reproduz o discurso representado pela sociedade, porém seleciona e filtra as

informações de acordo com a sua conveniência; legitima a informação e a torna

aceitável por um determinado grupo.

É o que pode se notar no fragmento, em análise, da carta publicada na Seção

Leitor

INFORMAÇÃO

EDUCAÇÃO CONHECIMENTO

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Analisando essa carta, destacamos a relação de influência do locutor sobre o

interlocutor: “Considerei ...” Notamos um comportamento enunciativo Elocutivo, ou

seja, a primeira pessoa do discurso denota uma relação do locutor consigo mesmo e

assim apresenta o seu ethos de satisfação: “verdadeiro presente a reportagem

especial” Em seguida, o leitor reafirma sua condição de “autoridade” para emitir sua

opinião: Sou professor e curso o último semestre de matemática. Promovi uma

avaliação em algumas escolas para coletar dados mais efetivos para meu projeto de

pesquisa científica, reproduzindo o ethos de conhecimento. Nesse sentido, há também

um comportamento enunciativo Elocutivo, porém com traços Alocutivo, pois existe

uma relação de influência (locutor/interlocutor). A seguir, observamos novamente o

comportamento enunciativo Elocutivo: “Fiquei assustado com o que encontrei: além da

absurda e inquestionável falta de conhecimento dos alunos, deparei com professores

despreparados, que mal sabem o que estão dizendo e que dão graças aos céus ao

encontrar uma sala onde impera a desordem, pois assim, podem cruzar os braços.”

Apresentando o ethos de um professor indignado. Observe que nesse ponto há um

conflito entre a idéia representada pela sociedade de “professor conhecedor” e a

representação de um profissional da mesma área “professor incompetente”, e ainda, a

representação também de VEJA dessa idéia. Cabe destacar que como não temos a carta

original, é difícil perceber o que foi selecionado para publicação. Mas há indícios que a

carta publicada legitima o que a revista apresenta. Por mais que esse leitor tenha a

imagem construída de um “professor incompetente”, a revista VEJA, com a sua linha

argumentativa, vem reafirmando o seu posicionamento em matérias anteriores sobre o

mesmo tema. Dando prosseguimento, o leitor vai concluindo: “Os jovens de hoje não

são menos capazes; os professores, sim, são muito menos.” Nesse excerto, o

comportamento enunciativo Elocutivo se relaciona com o Delocutivo. Há uma

apreciação do locutor a respeito da capacidade do professor e ao mesmo há uma

asserção desse ponto de vista, com o modalizador “sim”. Conclui o seu raciocínio: “De

nada adianta ficar avaliando o desempenho dos alunos sem quem deve ser avaliado

São os professores. Chega de incompetência e mediocridade na educação.”

A partir dessa análise, temos a seguinte cena:

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ENUNCIAÇÃO

Opinar/persuadir

Locutor: “Leitor” “Editor” VEJA

Enunciado: O fragmento publicado

Representação da mídia Jornalismo de referência

Comportamento enunciativo: Elocutivo

Ethos da mídia: Imparcialidade Quadro 3 - Cena Enunciativa Elaborado pelo pesquisador

Em resumo, o leitor apresenta a seguinte imagem do professor:

Posto: Os professores estão despreparados

Subentendido: Os alunos não têm conhecimento

Pressuposto: Os professores não estão preocupados com a

educação.

E apresenta VEJA como:

+ jornalismo + esclarecimento

+ revista + informação

+ VEJA + exclusividade

Observe que certas expressões da capa e da carta indicam o posicionamento de

VEJA e do leitor. A apresentação de VEJA volta-se em maior ângulo para o

esclarecimento: “os erros não são só deles”, enquanto que a do leitor para a

exclusividade: “verdadeiro presente”.

Considerações finais

Ao analisar os diferentes gêneros da mídia impressa, percebemos que nos

enunciados estão inscritos representações de valores tanto por parte de quem elabora,

quanto de quem lê. Ambos estão em uma competência axiológica, avaliando saberes de

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crença que circulam na sociedade, assumindo posições, produzindo e interpretando

textos.

Amossy (2006) salienta que a noção de doxa (opinião comum) traduz o conjunto

de saberes e crenças coletivos/partilhados que constituem os pontos de ‘acordo’ que

fundamentam qualquer argumentação e dos quais depende o efeito de adesão/persuasão.

Galatanu (1994:95) salienta que “a argumentação comporta uma zona axiológica

que recobre uma dimensão avaliativa não só dos valores morais e éticos, mas também

de outros campos da experiência individual.” Afinal, “eu” escrevo, leio e penso de

acordo com a minha vivência. Nesse sentido, o “meu” discurso constrói o mundo social

ao avaliá-lo. Através de enunciados argumentativos, esse discurso constrói uma

orientação permitindo avaliar as representações propostas sobre o mundo.

O texto da capa de VEJA se apresenta como um processo de comunicação entre

mídia e leitor. É como se esse texto ‘falasse’. Nessa comunicação, a sua linha

argumentativa, mostra qual é o seu posicionamento frente a um tema. Para isso, vale-se

das vozes dos sujeitos (Mídia, Professor, Leitor, Editor) que compõem aquela cena para

atingir o seu objetivo: persuasão. No caso, da nossa análise, VEJA pretende “construir”

uma determinada imagem de professor que toda a mídia televisiva e impressão já estão

apresentando.

Assim, é importante ressaltar Mangueneau (2005:98,) quando diz que o discurso

não é apenas uma cadeia de argumentação, vai além disso, é sobretudo uma voz que

emerge no texto. Isso me faz lembrar Ducrot (1995:132) quando reitera que o sentido de

um segmento S da língua não são informações contidas nesse segmento S, mas os

encadeamentos discursivos evocados por S, ou suas continuações possíveis.

Nesse sentido, observe que a carta, aqui abordada, enfoca a imagem do

professor.

A voz do locutor (VEJA) comanda as outras vozes (leitor e professor). No

entanto, aquela voz que emerge é de VEJA. Em seu discurso, há subentendido um ethos

de credibilidade, que foi construído ao longo da história dessa revista. O seu discurso

visa, ainda, produzir sua seriedade (condição de sinceridade); a sua virtude – forma

como apresenta uma informação – (condição de desempenho) e sua competência –

legitima o que preconiza – (condição de eficácia).

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O leitor se deixa persuadir e permite a construção do ethos de credibilidade e

reafirma o ethos de competência de VEJA e concorda com o que ela prega:

Enfim uma maravilhosa e lúcida reportagem sobre a real situação do ensino brasileiro ("Você sabe o que estão ensinando a ele?", 20 de agosto). Finalmente VEJA conseguiu retirar do cenário o grande vilão da história – o aluno – e deixar o rei completamente nu: a instituição escola, os pais e os professores. O processo ensino-aprendizagem e a formação do pensamento crítico construtivo e criativo dos alunos são de responsabilidade e competência da escola; o papel do professor é de facilitador do aprendizado, mesmo porque ele dispõe de inimagináveis recursos para isso. O papel dos pais não se restringe à escolha de uma "boa" escola – de renome. Os pais têm de estar de olho na qualidade do ensino.

Leitor B Brasília, DF

Revista VEJA, Edição 2054. 27 de agosto de 2008.

Referências

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Língua portuguesa: ultrapassar fronteiras, juntar culturas (Eds.) Mª João Marçalo & Mª Célia Lima-Hernandes, Elisa Esteves, Mª do Céu Fonseca, Olga Gonçalves, Ana LuísaVilela, Ana Alexandra Silva © Copyright 2010 by Universidade de Évora ISBN: 978-972-99292-4-3 SLG 42 – O “Poder da palavra”: análise do discurso.

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