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Cenrios Macroeconmicos para o Brasil: 2005-20141 Dezembro de 2004

SUMRIO

Cenrios Macroeconmicos para o Brasil: 2005-2014 ....................................0

1. A Conjuntura Econmica em 2004 e as Perspectivas para 2005..................1

2. Os Riscos Presentes na Conjuntura Internacional e suas Implicaes para os Cenrios para o Brasil.....................................................................7

3. Trs Cenrios para a Economia Brasileira: 2005-2014 .............................11

4. Projees para as Principais Variveis nos 3 Cenrios .............................16

1 Texto preparado por Francisco Eduardo Pires de Souza, com a colaborao da equipe do Grupo de Conjuntura do Instituto de Economia da UFRJ.

1. A Conjuntura Econmica em 2004 e as Perspectivas para 2005

Depois de atravessar uma recesso no primeiro semestre de 2003, a economia brasileira

iniciou um processo de retomada do crescimento, que j completou 5 trimestres. Pelas ltimas

informaes do IBGE, referentes ao PIB do perodo julho-setembro de 2004, a taxa de

expanso da economia ao longo desses 5 trimestres foi de 6,8% (equivalentes a uma taxa

anualizada de 5,5%). Considerando-se uma variao positiva de 0,9% no ltimo trimestre do

ano, a expanso do PIB em 2004 deve chegar a 5,3% - a maior desde 1994. Trata-se de um

desempenho surpreendente que exige uma anlise cuidadosa dos fatores que o tornaram

possvel, bem como de suas caractersticas, com o objetivo de avaliar as chances de que este

processo tenha continuidade.

Primeiramente, cabe destacar que o crescimento de 2004 surpreendeu no apenas porque

foi mais vigoroso do que as mais otimistas das projees formuladas no incio do ano, mas

tambm porque se deu concomitantemente com um aumento substancial do supervit

comercial. E mais, apesar da taxa de inflao ter superado o centro da meta (5,5%), ela ficou,

pela primeira vez desde 2000, dentro da banda fixada pelo Conselho Monetrio Nacional

(2,5% para cima ou para baixo do valor central, de 5,5%). Para completar, tudo isso ocorreu

num contexto de queda da relao dvida pblica/PIB. Esse conjunto de resultados compe um

quadro de solidez macroeconmica que no tem precedentes nos ltimos anos.

Observando-se a composio da demanda agregada, de forma a identificar os fatores

responsveis pelo impulso dado economia, conclui-se que, se inicialmente as exportaes

tiveram um papel decisivo, pouco a pouco a liderana da expanso foi sendo transferida para a

demanda domstica. De fato, como se pode observar na tabela 1 a seguir, nos primeiros nove

meses do corrente ano (comparado com igual perodo de 2003) a exportao foi o componente

do PIB que mais cresceu, seguida de perto pelo investimento. Mas considerando a variao

num perodo mais recente somente o terceiro trimestre de 2004 (contra igual perodo de

2003) o investimento j foi o componente da demanda agregada a apresentar maior taxa de

variao (20%). Por fim, considerando que a contribuio de cada componente da demanda

para o crescimento do PIB depende no apenas de seu crescimento, mas tambm de seu peso

no total da demanda, pode-se verificar, na tabela 2, que no perodo mais recente (terceiro

trimestre de 2004 contra igual perodo de 2003), a demanda interna j explicava 91% do

crescimento total da economia no perodo, sendo que o investimento (no conceito de formao

1

bruta de capital fixo) foi a varivel que deu a maior contribuio isolada para o resultado

(47%).

Tabela 1

Perodo PIBConsumo

das Famlias

Consumo do Governo

Formao Bruta de

Capital FixoExportao Importao

Acumulado em 2004 5,3 3,9 0,6 11,8 18,6 14,9

3o trimestre 2004 6,1 5,7 0,3 20,1 18,2 17,7Fonte: IBGE.

Taxa de Crescimento dos Componentes da Demanda Agregada (var % sobre igual perodo do ano anterior)

Tabela 2

Componentes da Demanda 1Acumulado at o 3o

trimestre de 2004

3o trimestre de 2004 contra igual perodo de

2003

Consumo das Famlias 40 43Consumo do Governo 2 1Formao Bruta de Capital Fixo 37 47Total dos Componentes Internos 79 91

Exportaes de Bens e Servios 55 39Importaes de Bens e Servios 34 30Total dos Componentes Externos 21 9

PIB 1 100 1001 Exclusive variao de estoquesFonte: IBGE. Elaborao do Grupo de Conjuntura do IE/UFRJ.

Contribuies para o Crescimento dos Diferentes Componentes da Demanda Agregada(em % do Crescimento do PIB)

O deslocamento do impulso dinmico para dentro da economia (demanda interna)

contribui para que o crescimento tenha prosseguimento em 2005 ainda que a demanda externa

se torne mais fraca. Alm disso, o fato de que o investimento o gasto que mais cresce sugere

que, pelo menos no prximo ano, a ampliao da capacidade instalada dever aumentar,

reduzindo o risco de que a expanso da economia seja detida por uma rigidez da oferta.

Apesar de estarem presentes na conjuntura atual um elenco de fatores favorveis

continuidade, em 2005, de um processo de expanso vigorosa, no perodo recente verificou-se

uma certa desacelerao da economia. Os grficos 1 e 2 a seguir mostram uma acomodao no

ritmo de expanso do produto industrial, ao mesmo tempo em que o grau de utilizao da

2

capacidade instalada tambm parou de avanar nos meses mais recentes. Os dados das vendas

do comrcio tambm confirmam esta tendncia.

Grfico 1

ndice da Produo Industrial com Ajuste Sazonal (Mdias Mveis Trimestrais)

90,0

95,0

100,0

105,0

110,0

115,0

jan/

03

fev/

03

mar

/03

abr/0

3

mai

/03

jun/

03

jul/0

3

ago/

03

set/0

3

out/0

3

nov/

03

dez/

03

jan/

04

fev/

04

mar

/04

abr/0

4

mai

/04

jun/

04

jul/0

4

ago/

04

set/0

4

out/0

4

Fonte: IBGE. Elaborao: Grupo de Conjuntura do IE/UFRJ.

Grfico 2

Grau de Utilizao da Capacidade Instalada na Indstria (CNI)

76

77

78

79

80

81

82

83

84

2002

10

2002

11

2002

12

2003

01

2003

02

2003

03

2003

04

2003

05

2003

06

2003

07

2003

08

2003

09

2003

10

2003

11

2003

12

2004

01

2004

02

2004

03

2004

04

2004

05

2004

06

2004

07

2004

08

2004

09

Fonte: CNI. Elaborao: Grupo de Conjuntura do IE/UFRJ.

A presente desacelerao provavelmente corresponde a uma combinao de um

processo natural de interrupo temporria aps um perodo de crescimento muito rpido

fenmeno observvel em qualquer processo de expanso com uma reao da economia ao

3

processo de alta dos juros iniciado em setembro ltimo. Na verdade, como antes desse ms o

COPOM j sugeriu que iria comear a elevar a taxa Selic, as taxas de juros de longo prazo, no

mercado futuro, comearam a subir bem antes da taxa bsica do Banco Central, comeando a

afetar a demanda.

Se de um lado a taxa de juros em alta contribui para moderar a demanda domstica, de

outro, a taxa de cmbio, que comeou a baixar de maneira acentuada a partir de agosto, deve

contribuir para piorar o desempenho das exportaes. Ambos os fatores atuam, portanto, no

sentido de conter o aumento do nvel das atividades econmicas. Surge assim a questo de

saber se o processo de retomada do crescimento que j dura 5 trimestres prosseguir ou no ao

longo de 2005.

Tendo em conta os fatores positivos inicialmente levantados e as restries acima

examinadas, o cenrio mais provvel para o ano que vem deve ser de um crescimento um

pouco menor do que o do ano corrente, mas ainda assim elevado (cerca de 4%). Alm disso,

deve-se reforar a tendncia para a predominncia das fontes internas de demanda

relativamente s exportaes. Por fim, cabe destacar que dever se caracterizar um quadro

econmico que, de certa forma, o oposto do de 2004: a inflao que se acelerou em 2004,

tornando-se o centro das preocupaes da poltica macroeconmica e levando alta dos juros,

deve ceder e deixar de preocupar; por outro lado, a expanso espetacular do saldo da balana

comercial deve ser interrompida, sendo substituda por uma retrao do supervit.

De fato, em 2005 a inflao deve sofrer uma desacelerao por conta de uma menor

presso dos preos administrados, com destaque para o arrefecimento dos preos do petrleo, e

dos preos das demais commodities no mercado internacional (fenmeno que j comea a se

manifestar, como se pode ver no grfico 3), em decorrncia da desacelerao da economia

mundial. Este fator, lado a lado com o esfriamento recente da demanda domstica parece

sugerir que o ciclo de alta da taxa de juros bsica pelo Banco Central est prximo do fim, e

dever ser substitudo por um processo de reduo progressiva ao longo do ano que vem.

Tendo isto em conta, muito provvel que a economia continue desacelerando no primeiro

trimestre de 2005, mas retome a trajetria de expanso rpida a partir do segundo trimestre do

ano.

4

Grfico 3

Preos Internacionais das Commodities(jan/95=100, em mdias mveis trimestrais)

60,00

70,00

80,00

90,00

100,00

110,00

120,00

mar

-02

abr-0

2

mai

-02

jun-

02

jul-0

2

ago-

02

set-0

2

out-0

2

nov-

02

dez-

02

jan-

03

fev-

03

mar

-03

abr-0

3

mai

-03

jun-

03

jul-0

3

ago-

03

set-0

3

out-0

3

nov-

03

dez-

03

jan-

04

fev-

04

mar

-04

abr-0

4

mai

-04

jun-

04

jul-0

4

ago-

04

set-0

4

out-0

4

Alimentos e Bebidas Metais

Fonte: FMI. Elaborao: Grupo de Conjuntura do IE/UFRJ.

Por outro lado, o desaquecimento da economia mundial e a queda dos preos das

commodities devem contribuir, juntamente com a apreciao cambial, para uma piora nos

resultados da balana comercial, seja por uma queda grande no ritmo de crescimento das

exportaes seja pela continuidade do crescimento vigoroso das importaes que vem

ocorrendo nos ltimos meses (impulsionado pela atividade econmica domstica e, a partir de

agora, tambm pelo cmbio apreciado). H, por certo, um risco de que uma apreciao

excessiva da taxa de cmbio acabe produzindo uma queda mais drstica do saldo comercial.

Mas as intervenes recentes do Banco Central no mercado de cmbio sugerem que o governo

no est disposto a deixar que isto ocorra.

Admitindo pois que o crescimento prosseguir em 2005 - ainda que a uma taxa de

expanso um pouco abaixo da alcanada neste ano cabe agora examinar as perspectivas para

o longo prazo.

Nos ltimos 15 anos a economia brasileira evoluiu atravs de uma trajetria que ficou

conhecida como de stop and go: surtos de crescimento com durao mdia inferior a dois

anos, seguidos de recesses com durao mdia de 3 trimestres. As reverses dos processos de

crescimento foram sempre provocadas por retraes sbitas dos fluxos de financiamento

externo, que provocavam uma forte presso no mercado de cmbio, s quais o Banco Central

reagia com elevaes drsticas das taxas de juros, que acabavam precipitando uma recesso na

economia. Na raiz deste processo estava a extrema vulnerabilidade externa da economia

5

brasileira, derivada da combinao de uma enorme necessidade de financiamento externo com

indicadores de capacidade de pagamento (em particular, as relaes dvida pblica/PIB e

dvida externa/exportaes) muito negativos.

Nos ltimos anos, contudo houve uma reduo acentuada da necessidade de recursos

externos (de quase US$ 80 bilhes em 1999 para cerca de US$ 23 bilhes na atualidade), lado

a lado com uma excepcional melhora dos fundamentos externo e interno da economia,

expressos nos indicadores de endividamento pblico e externo. A queda da relao dvida

externa/PIB (Grfico 4) para um nvel que, segundo os critrios do Banco Mundial, coloca o

pas, em 2004, na categoria dos moderadamente endividados, um dos resultados mais

significativos da reduo da vulnerabilidade externa do pas.

Grfico 4

Dvida Externa/Exportaes de Bens e Servios

0,0

0,5

1,0

1,5

2,0

2,5

3,0

3,5

4,0

4,5

5,0

1999 2000 2001 2002 2003 2004

1,32

2,2

Fontes: Banco Central do Brasil e Banco Mundial. Elaborao: Grupo de Conjuntura do IE/UFRJ.

Em decorrncia da melhoria dos fundamentos macroeconmicos, e em particular da

reduo da vulnerabilidade externa, pode-se esperar que a economia esteja ingressando numa

rota de crescimento sustentado (em oposio a um processo de stop and go). Evidentemente,

isto no significa que a economia domstica no possa sofrer uma desacelerao ou mesmo

recesso, caso ocorra uma crise internacional de propores significativas. O risco deste evento

ser analisado na prxima seo.

6

2. Os Riscos Presentes na Conjuntura Internacional e suas Implicaes para os Cenrios para o Brasil

A economia mundial deve apresentar em 2004 um dos melhores desempenhos das

ltimas dcadas. De acordo com as mais recentes previses do FMI (World Economic Outlook,

09/2004) o PIB mundial deve crescer 5% - a maior taxa de expanso em 28 anos. A

recuperao econmica iniciada em 2002 de forma desbalanceada com o crescimento

apoiado principalmente nas economias dos EUA e da China foi se generalizando at

converter-se numa espcie de boom sincronizado2.

O comrcio mundial deve crescer em 2004, de acordo com projees da OMC, 8,5% em

termos reais. E a expanso nominal deve ser bem superior, devido alta dos preos, sobretudo

de commodities, em relao ao ano passado. No primeiro semestre o crescimento estimado do

comrcio mundial em valor (contra igual perodo de 2003) foi nada menos do que 18%3, sendo

esta tambm a projeo do FMI para o ano. Este desempenho da economia mundial

certamente foi um dos fatores que contriburam decisivamente para o comportamento positivo

da economia brasileira em 2004.

Para 2005, a expectativa da maioria dos analistas de uma continuidade do quadro de

expanso mundial, porm a um ritmo mais baixo do que o verificado em 2004. Para que se

tenha um critrio de comparao para avaliar o desempenho de 2004 e aquele previsto para

2005, a tabela 3 a seguir apresenta as taxas mdias de crescimento do PIB e do comrcio

mundial desde 1973, separando os perodos de expanso e os de recesso. Como se pode

verificar o desempenho tanto do PIB como do comrcio mundial em 2004 ficaram bem acima

da mdia dos perodos de expanso da economia mundial. J para 2005, as projees mdias de

alguns dos principais organismos multilaterais indicam um comportamento mais prximo da

mdia dos anos de expanso.

2 De acordo com levantamento da revista The Economist, pela primeira vez desde 1980 as 55 economias monitoradas pela publicao esto em expanso. O ndice de disperso do crescimento elaborado pelo JP Morgan tambm mostra um elevado grau de sincronizao no crescimento mundial. Vide The Economist, November 13th-19th 2004. 3 Estimativa do Grupo de Conjuntura do IE/UFRJ, usando-se as importaes da OECD mais as da China (que correspondem ao total das importaes mundiais) como proxy do comportamento do comrcio internacional.

7

Tabela 3

Perodo PIB Comrcio Mundial em VolumePerodos de Expanso 1 4,2 7,0Perodos de Recesso 2 2,1 2,3Mdia 1970-2003 3,6 5,72004 P 5,0 9,62005 P 4,3 8,3Fontes: Banco Mundial, Global Economic Prospects, 2005; FMI, World Economic Outlook, 09/2004;

OECD, Economic Outlook no 76, November 2004.P Mdia das previses do FMI, Banco Mundial e OECD.1 Mdia dos perodos: 1970-73, 1976-79, 1983-90, 1994-2000 e 2002-2003.2 Mdia dos perodos: 1974-75, 1980-82, 1991-93 e 2001.

PIB e Comrcio Mundial em Fases de Recesso e Expanso (var. %)

A questo que se coloca se a atual performance virtuosa sustentvel por um perodo

mais longo?

H um razovel consenso na identificao dos trs principais fatores que poderiam

causar uma crise de grandes propores, interrompendo a trajetria de crescimento mundial.

So eles: os desequilbrios macroecnomicos dos EUA, uma eventual crise do petrleo e uma

retrao da economia chinesa. Destes trs fatores, o que vem causando maiores preocupaes

na atualidade so os dficits fiscal e em transaes correntes nos EUA, considerados como

insustentveis.

Os dois desequilbrios mais flagrantes da economia norte-americana so o dficit fiscal e

o de conta corrente. O primeiro, chama a ateno pela rapidez com que se formou: em apenas 3

anos sofreu uma deteriorao de 6,2 pontos percentuais do PIB: de um supervit de 1,6% em

2000 para um dficit de 4,6% do PIB em 2003 (grfico 5). Quanto ao dficit do balano de

pagamentos em conta corrente, vem alcanando valores anuais prximos a 6% do PIB, o que

tem levado a um impressionantemente rpido processo de acumulao de um passivo externo

lquido (Grfico 6). Roubini e Setzer4 estimam que, mantidas as condies atuais, o dficit em

conta corrente chegaria a 8% do PIB e o passivo externo lquido a 50% do PIB (o dobro da

relao atual) em 2008.

Por outro lado, o dficit em conta corrente americano implica uma necessidade de

financiamento externo gigantesca, que vem sendo provida principalmente pelas autoridades

monetrias asiticas. Estas vem aceitando adquirir ativos em dlar para evitar uma apreciao

de suas moedas e manter a competitividade de suas exportaes. A questo que muitos

4 Roubini, N., e Setser, B., The US as a Net Debtor: The Sustainability of the US External Imbalances. Nov. 2004. Verso eletrnica disponvel em http://www.stern.nyu.edu/globalmacro.

8

analistas internacionais vem colocan

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