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  • CECLIA MEIRELES

    OBRA POTICA

    Nota Editorial AFRNIO COUTINHO

    Poesia do Sensvel e do- Imaginrio Notcia Biogrfica e Bibliografia

    DARCY DAMASCENO

    Fortuna Crtica MRIO DE ANDRADE, SMAR PIMENTEL, CUNHA LEO,

    Jos PAULO MOREIRA DA FONSECA MENOTTI DEL PICCHA, NUNO DE SAMPAIO,

    PAULO RNAI, MURILO MENDES, JOO GSPAR SIMES

    Xilogravuras de RACIELA FUENSALIDA

    RIO DE JANEIRO, EDITORA NOVA AGUJLAR S.A., 1983

  • RITMO

    O RITMO em que gemo douras e mgoas um dourado remo por douradas guas.

    Tudo, quando passo, olha-me e suspira. - Ser meu compasso que tanto os admira?

    EPITFIO DA NAVEGADORA

    SE TE PERGUNTAREM quem era essa que s areias e gelos quis ensinar a primavera;

    e que perdeu seus olhos pelos mares sem deuses desta vida, sabendo que, de assim perd-los,

    ficaria tambm perdida; e que em algas e espumas presa deixou sua alma agradecida;

    essa que sofreu de beleza e nunca desejou mais nada; que nunca teve uma surpresa

    em sua face iluminada, dize: "Eu no pude conhec-la, sua histria est mal contada,

    mas seu nome, de barca e estrela, foi: "SERENA DESESPERADA".

    A Gast6n Figueira

  • 144 CECiL!A MEIRELES / OBRA POTICA

    O REI DO MAR

    MUITAS VELAS. Muitos remos. ncora outro falar ... Tempo que navegaremos no se pode calcular. Vimos as Pliades. Vemos agora a Estrela Polar. Muitas velas. Muitos remos. Curta vida. Longo mar.

    Por gua brava ou serena deixamos nosso cantar, vendo a voz como pequena sobre' o comprimento do ar. Se algum ouvir, temos pena: s cantamos para o mar ...

    Nem tormenta nem tormento nos poderia parar. (Muitas velas. Muitos remos. ncora outro falar ... ) Andamos entre gua e vento procurando o Rei do Mar.

    MAR EM REDOR

    MEus ouvrnos esto como as conchas sonoras: msica perdida no meu pensamento, na espuma da vida, na areia das horas ...

    Esqueceste a sombra no vento. Por isso, ficaste . e partiste, e h finos deltas de felicidade abrindo os braos num oceano triste.

    Soltei meus anis nos alns da saudade. Entre algas e peixes vou flutuando a noite inteira. Almas de todos os afogados chamam para diversos lados esta singular companheira.

    VAGA MSTCA

    PEQUENA CANO DA ONDA

    Os PEIXES de prata ficaram perdidos, com as velas e os remos, no meio do mar. A areia chamava, de longe, de longe, ouvia-se a areia chamar e chorar!

    A areia tem rosto de msica e o resto tudo luar!

    Por ventos contrrios, em noite sem luzes, do meio do oceano deixei-me rolar! Meu corpo sonhava com a areia, com a areia, desprendi-me do mundo do mar!

    Mas o vento deu na areia. A areia de desmanchar. Morro por seguir meu sonho, longe do reino do mar!

    CANO DA MENINA ANTI9A

    145

    A Diogo de Macedo

    ESTA a dos cabelos louros e da roupinha encarnada, que eu via alimentar pombos, sentadinha numa escada.

    Seus cabelos foram negros, seus vestidos de outras cores, e alimentou, noutros tempos, a corvos devoradores.

    Seu crnio estar vazio, seus ossos sem vestiml;!nta, - e a terra haver sabido o que ela ainda alimenta.

    Talvez Deus veja em seus sonhos - ou talvez no veja nada -que essa a dos cabelos louros e da roupinha encarnada,

  • 146 CECILIA MEIRELES / OBRA POP:TICA

    que do alto degrau do dia s covas da noite, escuras, desperdiou sua vida pelas outras criaturas . ..

    REGRESSO

    (CAMPO perdido. Msicas suspirando, ai! sem meu ouvido!)

    Bois esperam, mirando: corpo cheio de cu, luas nos olhos recordativos.

    Rodas, charruas, sol, abelhas ... Colar de prata dos rios sbre gargantas vermelhas.

    (Eu andava batalhando - ai! como andei batalhando! com mortos e vivos, campo!)

    Levai-me a esses longes verdes, cavalos do vento! Pois o tempo est chorando por no ver colhido meu contentamento!

    EPIGRAMA

    A SERVIO da Vida fui, a servio da Vida vim;

    s meu sofrimento me instrui, quando me recordo de mim.

    (Mas toda mgoa se dilui: permanece a Vida sem fim.)

    A L. F. Xam111a1

    VAGA MSICA

    AGOSTO

    SOPRA, VENTO, sopra, vento ai, vento do ms de agosto', passa por sobre meu rosto e sobre o meu pensamento. Vai levando meu desgosto!

    Lana destes altos montes s frias covas do oceano meu sonho sem horizontes, claro, puro e sobre-humano.

    Sem saudade mais nenhuma te ofereo meus segredos, para serem flor de espuma que a praia mova em seus dedos, quando se vestir de bruma ...

    Mova entre a lua inconstante e a inconstantssima areia, que todo o mundo assim creia meu sonho morto e distante,

    morto, distante, acabado, vento do cu profundo! que tudo bom, no passado, que nos fez sofrer, no mundo, ao ter de ser suportado ..

    MSICA

    Do LADO de oeste, do lado do mar, h rosas silvestres para respirar, e o cho se reveste de musgos de luar.

    Do lado de oeste do lado do mar,' h um suave cipreste para me embalar. Pssaros celestes me viro cantar.

    147

  • 148 CECILIA MEIRELES / OBRA POTICA

    Corao sem mestre, sonho sem lugar, quem h que me empreste barco de embarcar?

    Do lado de oeste, do lado do mar, descerei com Vsper at me encantar; Quero estar inerte, sob a chuva e o luar.

    Tu, que me fizeste, me virs buscar, do lado de oeste, do lado do mar?

    CANO EXC~NTRICA

    ANDO PROCURA de espao para o desenho da vida. ' n Em nmeros me embarao e perco sempre a medida. Se penso encontrar sada, em vez de abrir um compasso, , projeto-me num abrao e gero uma despedida.

    Se volto sobre o meu passo, j distncia perdida.

    Meu corao, coisa de ao, comea a achar um cansao esta procura de espao para o desenho da vida. J por exausta e descrida no me animo a um breve trao: - saudosa do que no fao, - do que fao, arrependida.

    CANO QUASE INQUIETA

    DE UM LADO, a eterna estrela, e do outro a vaga incerta,

    VAGA MSICA

    meu p danando pela extremidade da espuma, e meu cabelo por uma plancie de luz deserta.

    Sempre assim : de um lado, estandartes do vento . . . - do outro, sepulcros fechados. E eu me partindo, dentro de mim, para estar no mesmo momento de ambos os lados.

    Se existe a tua Figura, se s o Sentido do Mundo, deixo-me, fujo por ti, nunca mais quero ser minha!

    (Mas, neste espelho, no fundo desta fria luz marinha, como dois baos peixes, nadam meus olhos minha procura ... Ando contigo - e sozinha. Vivo longe -,- e acham-me aqui .. . . )

    Fazedor da minha vida, no me deixes! Entende a minha cano! Tem pena do meu murmrio, rene-me em tua mo!

    Que eu sou gota de mercrio, dividida, desmanchada pelo cho .. .

    VIGfLIA DO SENHOR MORTO

    TEU ROSTO PASSAVA, teu nome corria por esses lugares do sol e da lua. Como se contava a tua biografia!

    E eu, ~la esperana de poder ser tua, como vim de longe, teimando com a terra, deixando suspiros para cada rua!

    Guerreiro cortado de injrias de guerra no trouxe consigo nenhuma ferida como esta que tenho e que j se no cerra.

    149

  • 150 CECILIA MEIRELES / OBRA POTICA

    Por tanta subida, por tanta descida, aqui dou contigo, no teu morto .leito, _ eu, que vim por ti salvando a mmha vida!

    Fria sombra, apenas, teu rosto perfeito. Covas de cegueira, teus olhos, a~nas. Muro de silncio teu tombado peito.

    Sangue que tiveste, por iperdidas cenas derramou-se, longe, e p do p sem glria, preso no destino das coisas terrenas.

    Por que serei triste com a ~inha me!llria, diante do teu corpo sem aureolas? Tnste pela minha viagem? pela tua histria?

    Este o Senhor Morto - e este, somente, existe.

    Noite de viglia, sem mais esperana, alguma coisa em mim o assiste que no se vai, que no se cansa.

    VIAGEM

    No PERFUME dos meus dedos, h um gosto de sofrimento, como o sangue dos segredos no gume do pensamento.

    Por onde que vou?

    Fechei as portas sozinha. Custaram tanto a rodar! Se chamasse, ningum vinha. Para que se h de chamar?

    Que caminho estranho!

    Eras coisa to sem forma, to sem tempo, to sem nada ... - arco-ris do meu dilvio! que nem podias ser vista nem quase mesmo pensada.

    Ningum mais caminha?

    VAGA MS!CA

    A noite bebeu-te as cores para pintar as estrelas. Desde ento, que dos meus olhos? Voaram de mim para as nuvens, com redes para prend-las.

    Quem te alcanar?

    Dentro da noite mais densa, navegarei sem rumores, seguindo por onde fores como um sonho que se pensa.

    Por onde que vou?

    EPIGRAMA DO ESPELHO INFIEL

    151

    A Jolio de Caslro Osrio

    ENTRE o DESENHO do meu rosto e o seu reflexo, meu sonho agoniza, perplexo.

    Ah! pobres linhas do meu rosto, desmanchadas do lado oposto, e sem nexo!

    E a lgrima do seu desgosto sumida no espelho convexo!

    EXLIO

    DAS TUAS GUAS to verdes nunca mais me esquecerei. Meus lbios mortos de sede para as ondas inclinei. Romperam-se em teus rochedos: s bebi do que chorei.

    Perderam-se os meus suspiros desanimados, no vento. Recordo tanto o martrio em que andou meu pensamento! E meus sonhos ainda giram como naquele momento.

  • 152 CECJLTA MEIRELES / OBRA POTICA

    Os marinheiros cantavam. Ai, noite do mar nascida! Estrelas de luz instvel saam da gua perdida.

    Pousavam como assustadas em redor da minha vida.

    Dos teus horizontes quietos nunca mais me esquecerei. Por longe que ande, estou perto. Toda em ti me encontrarei. Foste o campo mais funesto por onde me dissipei .

    Remos de sonho passavam por minha melancolia . Como um nufrago entre os salvos, meu cor-ao se volvia. - Mas nem sombra de palavras houve em minha boca fria .

    No rogava. No chorava. Unicamente morria.

    CANO DO CAMINHO

    PoR AQUI vou sem programa, sem rumo, sem nenhum itinerrio. O destino de quem ama vrio, como o trajeto do fum

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