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Catalogo da exposicao realizada por Cristina Ribas em Belo Horizonte em Maio de 2012. Exposicao Premio Brasil Arte Contemporanea 2010 da Funarte.

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  • Prottipos/cortado

    /Cristina Ribas

  • Prottipos/cortado

    /Cristina Ribas

    Funarte MGBelo Horizonte

    2012

    Realizao

    Este projeto foi contemplado pela Funarte no Prmio Funarte Arte Contempornea 2011Estao Funarte de Artes Visuais Belo Horizonte

    Concepo_ Cristina Ribas

    EquipeProduo_ Lusa HortaMonitoria_ Hortencia AbreuMontagem e marcenaria_ Marcelo Damasceno e Fabrcio MarottaDesenho do catlogo_ Cristina RibasFotografias da exposio_ Cristina Ribas, Christopher Jones e Lusa Horta

    Agradecimentos_ Ana Paula Santos, Breno Silva, Christopher Jones, Davi Marcos, Helmut Batista, Laura Belm, Lusa Horta, Neno del Castillo, Marcelo Tera-Nada, Miguel Prates, Paloma Parentoni, Welligton Canado, Yana Tamaio, e pequena Hannah.

    Distribuio gratuita, proibida a venda

    A exposio Prottipos/cortado foi realizada em Maio de 2012 no Galpo 5 da Estao Funarte de Artes Visuais Belo HorizonteTtulo original do projeto selecionado Lies de Arquitetura/Lies de Urbanismo

  • A constante destruio e reconstruo das cidades contamina minha produo em artes visuais h alguns anos. As destruies parecem ser repetitivas, eu sei, o que poderia permitir que eu me desfizesse dessas imagens assim que um certo nmero delas fosse colecionado. Contudo, a singularidade possvel de cada repetio, ou seja, cada nova quase-runa e cada desaparecimento no deixa esquecer que so processos econmicos, sociais, culturais que causam essas destruies. Portanto, no posso parar. Os processos reincidem em diversos lugares, como projeto global de comercializao das cidades, tornando o urbano um quase mesmo territrio, tratado como espao em branco a ser "revitalizado". Por sua vez, so singulares as subjetividades atravessadas por essas alteraes, e so comuns as lutas que reclamam a integridade das polticas para a garantia de direitos no territrio, de modos de vida, de habitao, de ocupao. Qual a contribuio das prticas artsticas nesse contexto de uma realidade em constante alterao cujo ciclo de construo e destruio parece no cessar?

    Prottipos/cortado foi uma exposio de artes visuais que reuniu uma coleo de imagens de arquivo e fotografias realizadas por mim desde mais ou menos dez anos atrs, em diversas cidades. Antes de responder pergunta acima, a exposio apresenta uma abordagem parcial em relao complexidade dos problemas urbanos atuais. As imagens, que constituem o principal corpo da exposio, foram apresentadas em montagens usando fotografia, backlight, colagem e vdeo, junto aos conceitos "maquete" ou "prottipo".Os painis criados como suporte so por sua vez outro trabalho, em cinza recortado com silhueta de escombro, so uma espcie de escultura. E mais uma proposio de que o pblico tomasse parte nesse imaginrio realizando colagens, recortando fotografias do arquivo e compondo novas imagens (como eu tinha realizado em Londres em 2009). As colagens produzidas na exposio foram expostas junto instalao. Apresentei tambm quatro textos como sugesto de leitura (que podem ser baixados na verso do catlogo disponvel na internet). E dois filmes foram exibidos, "Mos sobre a cidade" (Francesco Rosi, 1963) e "Berlin Babylon" (Hubertus Siegert, 2001).

    Imagens > 1_ Cena do filme Mos sobre a cidade 2_ Fotografia do London Metropolitan Archives, bombardeio da 2a. Guerra em Londres 3_ Montagem das colagens 4_ Anotaes urbanas e 5_Ao lado, fotografia recortada, papel-carto e cimento na instalao Prottipos/cortado

    Prottipos/cortado, uma instalao

    O catlogo feito de maneira a funcionar como um livro de recortes que voc pode usar para realizar suas prprias verses dessas cenas de destruio. Recortar e remontar intenciona apresentar um pouco do processo de colagem realizado com os visitantes da exposio, e, de alguma maneira, deseja amplificar o espao relacional que a exposio criava, mobilizando o arquivo dessas imagens, dando continuidade a conversas dispersas sobre a experincia das cidades, complexificando uma constelao de cenrios e realidades sobre esse territrio comum.

    Papel e tesoura

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  • O desafio que refiro aqui de considerar minha subjetividade permevel e as possibilidades de produo artstica, considerando os diversos aportes a isso (portanto afeces minhas) desde algum tempo anterior em minha produo. A observao do trabalho pendular da destruio e da reconstruo me coloca em um stio mais fludo do que aquele agarrado a qualquer imagem de estabilidade (digo isso no sentido de pensar um posicionamento em relao ao contexto, como um representao dessa anlise). O peso dos projetos urbanos que desconfiguram bairros inteiros em nome de uma valorizao ou substituio econmica (gentrificao), assim como em configuraes efmeras de construes e apropriaes, tornam prprios "para o capital" a edificao, o terreno, o espao pblico e, em meu ponto de vista, destroem o ntimo e "prprio para a vida". Por meio dessas alteraes, apagam os direitos, planificam as diferenas, as especificidades, as micro histrias, as apropriaes, as culturas, etc. Os movimentos de resistncia no so inexistentes, mas encontram uma dificuldade monstra de produzir alguma fora diante dos conluios entre a poltica governamental e os poderes econmicos. De alguma maneira, a observao e a participao nessa realidade (tambm nas lutas sociais) me conduzem a um olhar dessa vez talvez pouco potico e eventualmente mais documental, mais analtico, mais direto, e assumidamente parcial, precrio, pequeno.

    Na dimenso contrria da dureza dos projetos urbanos (uma tal monumentalidade ou poder destrutivo algumas vezes megalomanacos cuja contradio e subervo bem exposta por Walter Benjamin em "O Carter Destrutivo"), o prottipo, entendido como algo no definitivo, aponta para uma incompletude. A fragilidade da proposio artstica transposta em mais uma dobra. Como tentativa de evidenciar isso, apresento na entrada da instalao uma maquete da exposio que vemos em seguida, o que, por sua vez, faz com que a exposio tenha sua escala questionada, ou ns, nossos corpos, reduzidos nesse espao-maquete. A maquete apresenta tambm dois trabalhos no existentes na instalao: um carro coberto de cimento e um piso em declive. O principal suporte dos trabalhos na exposio so os painis em cinza, recortados com uma silhueta de escombro, que pretendem divergir das paredes apticas dos expaos expositivos, no sendo, contudo, nem parede, nem fachada, nem imagem. A maquete ampliada se torna parte de um jogo que permite questionar seu prprio discurso, assim como qual a real dimenso dessas imagens, dessa instalao? Qual o tamanho do gesto ou o tamanho do corpo diante dessas cidades? Dessas imagens?

    > 1_3_ Maquete da exposio Prottipos/cortado, com o carro, ao lado (inexistente na instalao)

    Como o projeto toma o desafio de falar de uma realidade urbana atual a partir da minha vivncia, considera o conceito de prottipo para criar uma instalao onde habitam essas imagens de maneira a fazer pensar a realidade de constantes alteraes no tecido da superfcie urbana e, fazer pensar (pela insistncia na sua ausncia) os corpos que desaparecem, que so forados a mover-se, que buscam novos espaos para a vida. Relacionando o conceito de prottipo com o de runa (que seria o lugar comum dessas cenas ou imagens no campo da arte), se a destruio pode gerar uma imagem atemporal, estvel, intensa (por isso a possvel runa), a curta temporalidade do prottipo parece caber na justeza de algo em constante alterao, imprevisto, intensivo, temporalizado. O prottipo e a maquete so tambm a ironia de um poder de construo e destruio que atua nas cidades, poder que as trata antes como objetos manipulveis numa escala no humana, mais do que como territrio habitado.

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  • Quando fiz uma residncia no Capacete em So Paulo, no Edifcio COPAN, em 2010, realizei imagens que simulam gestos de uma manipulao literal da cidade. O prottipo cortado apresenta-se como um comentrio regularidade dessas destruies, eventual passividade ou incapacidade de agir diante dessa paisagem (analisada como paisagem ps-industrial ou paisagem do capital, em , artigo de John Cunningham, 2011), ausncia de corpos, que foram expulsos desse cenrio - corpos que s so autorizados a rehabit-los quando os projetos de revitalizao so completados como uma espcie de espao para um falso-vivo. Parece que a caracterstica central das aes de revitalizao minar o vivo e introduzir o mrbido.

    Boredom in the Charnel House, Theses on Post-industrial Ruins

    > 1_ Fotografia, sobreposio de imagens do Edifcio COPAN e da Escola de Arquitetura da UFMG 2_3_ Montagem do backlight com Lies de Arquitetura / Lies de urbanismo,na instalao Prottipos/cortado 4_ Ao lado, um dos trs conjuntos de slides to trabalho

    Contrastando com as quase-runas, selecionei para a exposio uma coleo de imagens de minha autoria que d conta de abordar o que posso chamar de estudo, memria e "escultura" da arquitetura modernista brasileira, acessada aqui a partir de fotografias de So Paulo, tomadas do alto do Edifcio COPAN (e do prprio edifcio), de Braslia, e da Escola de Arquitetura da UFMG, em Belo Horizonte. Inicialmente a exposio queria focar mais no que chamei momentaneamente de "lies" da arquitetura e do urbanismo modernistas, contudo, preferi lidar com a insistncia no fluxo de reconstruo e runa do que criar uma relao entre projetos urbanos atuais, as polticas pblicas (muitas vezes inexistentes), com os projetos modernos do comeo do sculo o que resultaria numa exposio bastante diferente. As "lies" se tornaram agora simplesmente essas imagens, realizadas em fotografia de negativo e em fotografia digital, organizadas como em um copio de negativos, e sobrepostas entre si. Recortadas para expor um branco, um positivo completo, para abrir lacunas nesses excessos, nessas superdeterminaes de espao (e tempo). Afinal, essa arquitetura foi feita para um sem-tempo, ou para um eterno futuro, que aqui se contrape s possveis runas