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Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 1

Cartografando os Estudos Culturais no Cone Sul: anlise preliminar do projeto

editorial Debates Crticos en Amrica Latina.

Silvia Cceres1

silviacaceres@ufrj.br

A Revista de Crtica Cultural, editada no Chile por Nelly Richard entre

1990 e 2008, constitui um dos lugares de encontro de uma rede intelectual internacional

vinculada aos Estudos Culturais em sua vertente britnica2. A mesma passa a circular no

ano simblico que fora 1990 para o Chile: ano que demarca o processo de reabertura

democrtica chilena aps quase duas dcadas de ditadura militar.

Em 2008, por razes que desconhecemos, a mesma encerra suas atividades e sua

editora organiza uma edio de volumes de artigos selecionados das quase duas dcadas

da revista. O resultado deste trabalho o lanamento, at o presente momento, de trs

volumes de artigos entitulados: Debates Crticos en Amrica Latina: 36 nmeros de la

Revista de Crtica Cultural (1990-2008).

No presente trabalho nosso intento apresentar uma sistematizao parcial dos

artigos compilados nos dois volumes lanados do referido projeto editorial. Esse tipo de

sistematizao compe o trabalho inicial de nosso projeto de doutorado, que versa sobre

a constituio de uma rede de intelectuais no Cone Sul da Amrica do Sul em torno da

identidade com os chamados Estudos Culturais. Efetivamente, a Revista de Crtica

Cultural, junto com a revista Punto de Vista (editada na Argentina por Beatriz Sarlo)

so lcus centrais articulao da rede intelectual dos Estudos Culturais no Cone Sul.

O desejo de Revista: Os Estudos Culturais como projeto intelectual.

Na apresentao dos artigos selecionados de Revista de Crtica Cultural, Nelly

Richard sintetiza a empreitada editorial da Revista com as seguintes palavras:

1 Doutoranda do PPGHIS/UFRJ.

2 Os Estudos Culturais de vertente britnica certa tradio intelectual que remete inicialmente aos

trabalhos desenvolvidos por E.P. Thompson, Hoggart, Raymond Williams e Stuart Hall nas dcadas

de sessenta e setenta do sculo XX. Um estudo histrico, sociolgico e filosfico desta tradio

encontrado no trabalho de CEVASCO, Maria Elisa. Dez Lies sobre Estudos Culturais. So Paulo,

Boitempo, 2008.

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Las paginas de la Revista de Crtica Cultural se constituyeron, durante

casi veinte ans, en el escenario editorial de textos determinantes en la

conyuntura del debate terico y cultural en Amrica Latina: unos

textos que conjugan las disciplinas universitarias y las

transformaciones polticas; los desbordes sociales y los lenguajes

estticos; las memorias en vivo y la reflexin acadmica; la crtica

institucional y los imaginarios de cambio.(RICHARD, 2008)

Nas primeiras linhas de Nelly Richard j se delineia a ambio do projeto: a

Revista de Crtica Cultural serviu, segundo sua editora, como uma arena onde se

lanaram textos determinantes na conjuntura de debates tericos e culturais da Amrica

Latina, havendo uma polissemia de temas e assuntos abordados nos mesmos, que no se

limitaram aos debates de fundo terico/acadmico, embora os textos que por ali

circulem sejam majoritariamente redigidos por intelectuais alocados em sistemas

acadmicos. Prossegue Richard com o seguinte:

Una Revista como la Revista de Crtica Cultural, en tanto revista

independiente (que no obedece a ningn encargo y que, por lo mismo,

slo responde a la voluntad y energa de quienes se sienten

autoconvocados por su proyecto), depende fuertemente de lo que

Beatriz Sarlo llama el deseo de revista. Y cuando ese deseo deja de

hacerse sentir, es la seal de que la revista ya no es necesaria.(Idem)

Aqui Richard apresenta a revista como projeto independente, movido to

somente pela vontade e energia de quem o convoca. Por um lado a expresso delineia a

autonomia relativa que costuma estar inscrita em projetos intelectuais/culturais;

contudo, a nfase nica na autonomia bloqueia a leitura do lugar de enunciao do

projeto. Que projeto intelectual/cultural que est por trs da Revista de Crtica Cultural?

Como a revista serve a tal projeto e como ela conseguiu ser articulada social e

institucionalmente? Qual desejo de revista molda a publicao e a que pblico a mesma

comunica, (in)forma e responde?

Essas perguntas devero ser respondidas como perguntas laterais de meu projeto

de pesquisa para o doutoramento; sendo este um trabalho que acaba de se iniciar,

certamente as perguntas aqui listadas no sero respondidas ao longo do artigo. Como j

anunciado, nosso objetivo no presente artigo apresentar uma sistematizao de parte

dos artigos da Revista de Crtica Cultural a partir da anlise de certas categorias e

conceitos contidos nos dois volumes de Debates Crticos en Amrica Latina.

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necessrio fixar que trata-se de dois projetos editoriais distintos; a Revista de Crtica

Cultural (1990-2008) e sua seleo e rememorao a partir dos artigos selecionados no

projeto editorial Debates Crticos en Amrica Latina (2008)3.

Os dois volumes de Debates Crticos en Amrica Latina possuem subdivises

temticas nas quais os artigos so agrupados. No volume I h os seguintes subttulos:

Autoritarismo, postdictadura y transiciones democrticas, com 12 artigos; Biografias

apasionadas, com 2 artigos biogrficos; Esfera Pblica, imaginrios sociales y

discursos de la otredad com 20 artigos. No volume II esto os subttulos:

Transformaciones universitrias y cruces de disciplinas com 16 artigos; De la Battalla

de Chile a Salvador Allende, com trs artigos sobre a produo cinematogrfica e

memria sobre o perodo Allende; por fim a seo De Paso, com 5 artigos de/sobre

intelectuais de projeo internacional.4

Os volumes concentram seus debates em certo crculo de discusses

relacionadas. Esse crculo parece estar amarrado por um grande eixo: as condies de

produo/difuso da cultura em perodo ps-traumtico e ps-moderno. A partir desse

grande tema, interelacionam-se os debates acerca das transformaes universitrias nos

ltimos trinta anos, os relatos memorialsticos de diversos sujeitos margem dos

circuitos dominantes de produo/difuso cultural, os debates acerca das teorias sociais

contemporneas, entre outros.

Dentro da gama de conceitos e debates que circulam em Debates Crticos,

optamos por trabalhar com as seguintes categorias: intelectuais, disciplinas,

universidade. A escolha se justifica: neste primeiro momento, antes de mapearmos de

maneira extensiva a trajetria de discusses da rede de intelectuais que pretendemos

estudar, pretendemos localizar a(s) anunciao(s) discursiva(s) dos mesmos acerca do

conceito de intelectual e de sua funo social. De fato, uma das caractersticas mais

marcantes da rede intelectual vinculada aos Estudos Culturais no Cone Sul sua

deteno no tema dos intelectuais e a postura atuante que parte desta rede possu ao

3 Como o material a que temos acesso no presente momento a edio Debates Crticos en Amrica

Latina, estamos cientes de que a presente sistematizao efetivamente uma sistematizao do projeto

de celebrao/rememorao da revista a partir do encerramento de suas atividades. Posteriormente

pretendemos adquirir os 36 volumes da Revista de Crtica Cultural e assim sistematizar a revista em

si.

44 Um terceiro tomo do referido projeto editorial foi lanado no Chile em 2010, porm ainda no tivemos

acesso ao mesmo.

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trabalhar em prol da reabilitao da funo intelectual.5 A extensa produo de Beatriz

Sarlo sobre a temtica, bem como diversos artigos e livros de Nelly Richard, Idelber

Avelar entre outros autores, uma prova contundente da importncia desta reflexo na

trajetria de composio desta rede intelectual.6

Apesar das palavras um pouco evasivas de Richard na apresentao de Debates

Crticos evidente que a Revista de Crtica Cultural compe um projeto intelectual de

articulao de um campo de ao/reflexo em torno da tradio dos Estudos Culturais.

A partir do comentrio de alguns artigos presentes em Debates Crticos, pretendemos

esmiuar alguns pontos que parecem centrais a esse projeto intelectual. Mas antes

parece ser necessrio responder: por que o tema intelectual to significativo em tal

campo?

Coordenadas: relembrar e/ou perecer.

Estudar uma rede de intelectuais contempornea que tem como um dos eixos de

reflexo central o tema dos intelectuais pode parecer um grande debate circular feito

dentro de uma sala de espelhos, onde os personagens se multiplicam imageticamente ao

infinito. De fato, a descrio no deixa de ser um pouco verdadeira e alinhada com a

descrio de socilogos contemporneos que identificam o debate acadmico atual

como altamente reflexivo7. Contudo no devemos sugerir que o que motiva tal debate

(somente) um impulso egico. H de fato um boom das anlises sobre intelectuais nos

ltimos vinte ou trinta anos nas academias de todo o mundo, no ensejo da chamada

crise dos intelectuais com o declnio das grandes narrativas que compunham o

cenrio de desenvolvimento da intelectualidade moderna.

A chamada crise dos intelectuais como sabemos trata-se da crise de um

modelo especfico de intelectual que emerge no ps-guerra e tem como um dos palcos

5 O debate sobre crise dos intelectuais bem apresentado pelo conjunto de artigos de Bobbio em:

BOBBIO, N. Os Intelectuais e o Poder : dvidas e opes dos homens de cultura na sociedade

contempornea. So Paulo, UNESP, 1997.

6 Vide referncias bibliogrficas para alguns trabalhos dos autores nos quais os mesmos refletem sobre o

tema intelectuais e intelectualidade.

7 Embora no partilhemos de boa parte das concluses de Giddens, sua descrio da arena pblica e da

produo de conhecimento contemporneo como eminentemente reflexivos nos parece procedente.

Ver: BECK, U.; GIDDENS, A. ; LASH, S. (orgs). Modernizao Reflexiva: poltica, tradio e

esttica na ordem social moderna. So Paulo, Unesp, 1997.

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de atuao mais relembrados o maio de 68 francs e internacional. Trata-se do

intelectual engajado, aquele que intencionava atar seu destino ao destino da classe

trabalhadora e ou de outros segmentos que representariam a possibilidade de mudana

social.

Essa crise atua sobre a intelectualidade latino-americana do Cone Sul e

vivenciada pela mesma dentro dos processos de reabertura democrtica dos anos 80. Se

em perodos anteriores s ditaduras o vnculo entre intelectual de esquerda e segmentos

populares parecia bvio, nos anos que se seguem ao fim dos regimes autoritrios se

assiste a um crescente questionamento acerca dos papis pblicos e os vnculos sociais e

de classe que a intelectualidade de esquerda poderia vir a assumir nas democracias em

construo.

O que intenta essa rede de intelectuais identificada aos Estudos Culturais quando

aborda a temtica dos intelectuais? Nosso primeiro palpite que a mesma intenta

reabilitar o papel do intelectual atuante socialmente dentro de um balano crtico que

tem como objetivo relembrar e/ou perecer. A tradio dos Estudos Culturais britnicos,

nas palavras de Stuart Hall, um de seus fundadores, possui uma vocao poltica.

Relembrando esta tradio, John Beverley diz que:

Desde el principio, la escuela, que naci en unas de las

universidades perifricas creadas despus de la Segunda Guerra

Mundial por El gobierno laborista precisamente para democratizar El

sistema universitrio, tuvo, o mejor dicho quiso tener, una relacin

orgnica con la clase obrera inglesa. Por un lado quera hacer una

prctica acadmica institucional que representara, en el doble sentido

de hablar por y hablar de, el protagonismo de esa clase; de all la

vinculacin con los historiadores asociados al marxismo ingles, como

Thompson; por otro lado se relacionaba tambin con el out culture

del proletariado nuevo en formacin, y con los nuevos movimientos

sociales que empezaban a surgir en los setenta: el feminismo, los

movimientos de los gays, de la poblacin inmigrante caribea y

asitica. (BEVERLEY, 2008).

Portanto possvel identificar que a tradio dos Estudos Culturais nasce da

confluncia de debates que tenderiam a separar-se geralmente conflitivamente com a

emergncia da pauta acadmica/terica ps-moderna: por um lado temos a tradio do

marxismo e seu grande conceito chave (classe) e de outro os chamados novos

movimentos sociais que em parte seriam responsveis pelo impulso da pauta ps-

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moderna e sua crtica contundente a toda grande narrativa tal qual a idia de

totalidade social operada pelo marxismo para o trabalho com o conceito de classe.

O lugar de anunciao do intelectual dos Estudos Culturais desta forma

bastante polmico, por tentar orquestrar um trnsito entre espectros do pensamento

contemporneo que talvez tenham mais conflitado do que convergido em suas anlises.

Os Estudos Culturais no Cone Sul refletiram/refletem acerca da pertinncia dessas

matrizes de pensamento, bem como sobre a possibilidade de sua convergncia dentro de

um cenrio ps-moderno, cenrio este que tende dissoluo/carnavalizao das

tradies terico analticas, privilegiando mais o trabalho de colagem do que o de

sntese (sendo este ltimo to caro tradio marxista). De fato, embora os Estudos

Culturais reflitam constantemente sobre a condio ps-moderna, seus representantes

no exatamente partilham das concluses do ps-modernismo terico, to bem

representado pelos trabalhos de Lyotard e Baudrillard.

Assim, a deteno sobre o tema dos intelectuais, sobretudo na passagem ditadura

ps-ditadura, deveria servir para relembrar a funo pblica dos intelectuais, e servir

tambm para no perecer diante do catastrofismo da anlise de que todo o passado do

intelectual engajado fora um erro absoluto. Relembrar para no perecer, e relembrar

para deixar perecer certas posturas que de fato podem ter sido equivocadas. Relembrar

para deixar perecer os binarismos contemporneos que recaem sobre a memria da

intelectualidade atuante no cenrio do ps-guerra. Esta defesa organizada por Sarlo

parece ser um programa central rede intelectual que propomos estudar. A Revista de

Crtica Cultural parece ter sido um espao de interveno de perfil acadmico voltado

arena pblica com o fim de defender e projetar esse projeto intelectual/poltico.

Palavras-Chave: intelectuais, disciplinas, universidade.8

Dentro dos seis eixos de debates em que os artigos da Revista de Crtica

Cultural so agrupados em Debates Crticos, um deles se destaca para o recorte que

aqui propomos: Transformaciones universitrias y cruces de disciplinas. Localizado no

8 Referncia ao trabalho de Raymond Williams entitulado Palavras-Chave; tal trabalho uma mostra de

que o esforo por sistematizaes scio-histrica dos conceitos que est presente desde o incio do

projeto dos Estudos Culturais. Ver: WILLIAMS, Raymond. Palavras-Chave: um vocabulrio de

Cultura e Sociedade. Traduo de Sandra Guardini Vasconcelos. So Paulo, Boitempo Editorial,

2007.

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segundo volume, este eixo agrupa 16 artigos todos eles de autores identificados ou

relacionados - mesmo que pelo vis crtico-negativo - ao campo dos Estudos Culturais

na Amrica Latina.

Mapeamos alguns circuitos argumentativos que se encontram em

Transformaciones universitrias e merecem ser destacados como elementos identitrios

da rede intelectual que estudamos; so eles:

- O marco inaugural do trnsito recente da intelectualidade do Cone Sul: ditadura/ps

ditadura.

- O dilogo com a histria e o programa dos Estudos Culturais britnicos e o debate

sobre institucionalizao/disciplinarizao do saber.

- A demarcao do lugar de anunciao: uma identidade latino-americana (?)

- O debate modernidade ps-modernidade.

Cada um desses grandes eixos so articulados, o que no significa que os

mesmos sejam apresentados ou lidos de forma homognea. Como elementos

cartogrficos, os mesmos so pontos de apoio e referncia num mapa de debates que

caracteriza a rede intelectual em questo. Sobre eles discorreremos rapidamente,

apresentando marcos gerais do debate e os autores que se centram neles no projeto

editorial Debates Crticos.

Trnsitos intelectuais: ditadura/ ps-ditadura

O debate sobre ditaduras e transies a formas democrticas crucial tradio

dos Estudos Culturais no Cone Sul por compor a cena histrica de sua formao e por

ser um leitmotiv dessa mesma tradio. possvel subdividir esse tema em trs grandes

temticas, todas analisadas pelo prisma da mudana (eventualmente lida como

traumtica):

- A transformao do Estado no intercurso ditadura ps-ditadura. Descrito at antes da

ditadura como Estado desenvolvimentista e/ou populista o ps-ditadura marcaria a

transformao desse Estado luz de desgnios de mercado. Dentro desse debate h

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ainda a anlise sobre os economistas como intelectuais proeminentes nesse cmbio; essa

a linha de argumentao presente no artigo de Willy Thayer, por exemplo.

- A transformao da (incipiente) cidadania dos pases latino-americanos no pr-

ditadura em cidadania de mercado no ps-ditadura. Tal tese ressoa para a localizao

dos intelectuais na esfera pblica: possvel dialogar com a cidadania de mercado? De

que forma? Entre os artigos preocupados com tais questes encontram-se os de

Carmano-Huechante, o artigo de Beatriz Sarlo e o de Ral Antelo.

- A transformao das disciplinas e da forma de se organizar os sistemas universitrios

nacionais. Todos os pases do Cone Sul passaram por ajustes nos sistemas universitrios

no transcurso dos perodos ditatoriais e no ps-ditadura. Nos artigos dedicados ao tema,

tais transformaes permitiram o ajuste dos sistemas universitrios forma mercado,

inclusive na forma de normatizao da produo intelectual. H ainda artigos que

trabalham dentro de uma perspectiva de mais longo prazo, localizando o declnio das

humanidades ao longo de todo o sculo XX, dentro de uma transformao mais larga

da(s) modernidade(s). o caso dos artigos de Brunner e Subercaseaux.

Esses trs grandes trnsitos - Estado, formas de cidadania,

disciplinas/universidades que so geridos pelo marco maior ditadura ps-ditadura

marcam uma transformao global da cena intelectual, uma vez que a intelectualidade

universitria que vivenciou o nacional-desenvolvimentismo durante os anos 50 e 60, por

mais querelas internas que possussem, pareciam estar familiarizados, habituados a

identificar em seus horizontes de ao (1) a gesto do Estado, (2) a profisso do dever

intelectual sobre a formao da cidadania e (3) a alocao profissional e disciplinar de

sua(s) rea(s) de dedicao acadmica.

Este primeiro subtpico dentro dos textos alocados em Cruces de Disciplinas

nos parece formar um conjunto de textos mais coesos entre si. Essa ao menos aparente

coeso pode ser explicada da seguinte maneira: se h uma polifonia de posies dentro

da intelectualidade vinculada aos Estudos Culturais na Amrica Latina e no Cone Sul,

um dos eixos fundantes de sua articulao como rede intelectual o partilhamento de

quadros gerais sobre o trnsito dos tempos, sobre a experincia e a vivncia da

modernidade latino-americana. Esse marco inaugural poderia, portanto ser interpretado

como uma espcie de programa mnimo na formao da identidade intelectual em

torno dos Estudos Culturais no Cone Sul.

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O dilogo com a histria e o programa dos Estudos Culturais britnicos e o debate

sobre institucionalizao/disciplinarizao do saber.

A questo sobre o manejo da tradio dos Estudos Culturais est intimamente

relacionada ao ltimo subtpico de trnsitos listados no item anterior. Efetivamente, ela

poderia ser reelaborado na forma de perguntas com localizao tempo-espacial:

Como a tradio dos Estudos Culturais britnicos desenvolve-se no Cone Sul

latino-americano no transpasso ditadura- ps-ditadura? Quais as fidelidades e

afastamentos que esse desenvolvimento mantm em relao aos autores britnicos

(Hoggart, Williams, Stuart Hall)? Esse campo intelectual conseguiu formar um

programa intelectual? Qual a natureza desse programa e qual seu alcance na cena

pblica? Tem se tornado os Estudos Culturais mais um campo de saber

disciplinarizado e portanto, burocratizado?

Essas perguntas so quase todas formulaes nossas, mas pretendem

transparecer a preocupao latente de artigos como os de John Beverley. Efetivamente,

Beverley o autor que de maneira mais direta trs a questo baila localizando o

carter eminentemente poltico da tradio dos Estudos Culturais britnicos, localizando

a tradio marxista e classista por trs da motivao intelectual de Hoggart, Williams e

Stuart Hall.

Mas a poltica no emerge somente do recurso aos quadros de referncia

marxista e com recurso ao conceito de classe. H uma polifonia de tradies crticas,

conceitos e temticas que desaguam no quadro de relaes dos Estudos Culturais na

Amrica Latina. Notoriamente o feminismo, os debates sobre identidade tnica,

subalternidade e ps-colonialismo so linhas mestras das chaves de desenvolvimento e

relao da tradio dos Estudos Culturais na Amrica Latina. Tais discusses surgem

por vezes de forma memorialista na forma de entrevista com intelectuais que se

dedicaram a algum desses campos. Entre os artigos dedicados a tais temticas

integradas e paralelas ao desenvolvimento da tradio dos Estudos Culturais encontram-

se os de Ileana Rodriguz abordando os debates sobre subalterno e Kemy Oyarzn,

oferecendo um balano sobre certa trajetria do feminismo na Amrica Latina.

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A demarcao do lugar de anunciao: uma identidade latino-americana (?).

A noo de identidade latino-americana subjacente ao debate sobre programa

dos Estudos Culturais no Cone Sul. Afinal, h mesmo especificidades que tornariam a

modernidade latino-americana mpar e portanto, configurariam elementos a que projetos

alternativos de modernidade/ emancipao deveriam se reportar?

O debate sobre identidade de forma irremedivel de alguma maneira conectado

noo de projeto e destino9. Definir qualquer projeto definir certo marco identitrio

que agrupa a pluralidade da vida. Definir um projeto intelectual vinculado aos Estudos

Culturais na Amrica Latina definir tambm uma identidade latino-americana. Para a

rede que aqui analisamos possvel e desejvel formular um projeto identitrio para

este cenrio hbrido chamado Amrica Latina?

A hibridez talvez seja mesmo a palavra-chave para os projetos de identidade

latino-americana para a rede aqui mencionada. E na operao com o conceito de

hibridez, cpor certo Nestor Garcia Canclini e sua anlise sobre culturas hbridas so uma

base importante de referncia.

Como o ttulo do livro de Canclini sugere, - Culturas hibridas: estratgias para

entrar e sair da modernidade - hibridez um conceito articulado leituras sobre o

desenvolvimento da modernidade na Amrica Latina. Uma das caractersticas marcantes

da hibridez cultural da Amrica Latina seria a sobreposio de temporalidades e levas

de modernizao sobrepostas.

A leitura de Canclini no contudo unvoca dentro dos quadros de

relao/desenvolvimentos dos Estudos Culturais tal qual apresentados no projeto de

Debates Crticos. O artigo de Mabel Morna intitulado El boom del subalterno

apresenta contrapontos s teses de Canclini luz das teorias sobre o subalterno, as

quais no podemos ainda esmiuar por falta de leituras nesse campo que nos permitam

apresenta-lo com maior propriedade.

9 A articulao intrnseca entre memria, projeto e identidade tecida de maneira clara na obra de

VELHO, Gilberto. Projeto e Metamorfose: antropologia das sociedades complexas. Rio de Janeiro,

Jorge Zahar, 1994.

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O debate modernidade ps-modernidade.

Se a tradio dos Estudos Culturais britnicos remete-se ao compromisso da

intelectualidade com um(s) projeto(s) de emancipao das sociedades, por certo tal

perspectiva insere-se dentro de uma leitura moderna sobre a intelectualidade e seu

papel. Caberia replicar tal perspectiva dentro de um cenrio ps-moderno? O que

significa este corte, esta passagem cultural: modernidade - ps-modernidade?

A discusso modernidade ps-modernidade coincide e se sobrepe ao debate

ditadura ps-ditadura conforme diversos autores, mas entre eles notoriamente Beatriz

Sarlo, asseguram. Esta transio um grande debate que mobiliza e articula aos demais

e por isso perseguida em um vasto conjunto de artigos. A ps-modernidade um tema

amplamente analisado, porm, sendo uma temtica encarada como crise muito mais do

que como oportunidade como o quer Canclini, por exemplo, no parece ser discusso

que esteja se encaminhando para qualquer consenso no que diz respeito s

possibilidades de se cogitar uma sada para a crise que a cultura ps-moderna leva em

seu bojo. Possveis solues para a crise dos projetos modernos passariam por

definies em torno da forma como opera e pode ser mobilizada a agncia humana em

tempos de alargamento do domnio capitalista sobre as formas culturais e as

sensibilidades, nos dizeres de Frederic Jameson.

Balano parcial: afinal, o que Estudos Culturais no Cone Sul?10

em definitivo cedo para que possamos tecer quaisquer teses sobre o

desenvolvimento da rede intelectual vinculada a tradio dos Estudos Culturais no Cone

Sul. Na breve aproximao que tecemos ao longo do texto a partir das leituras de uma

seo do projeto editorial Debates Crticos percebemos a pluralidade de posies e a

dificuldade de tentar achar fios identitrios claros em uma tradio que possui como

marca seu carter no disciplinar. Os tpicos que listamos so plataformas de debates

caras ao desenvolvimento dos Estudos Culturais no Cone Sul. Mas de fato, nos parece

difcil num primeiro momento distinguir com clareza a interseo entre Estudos

10 Parodiamos aqui o ttulo do livro de Thomas T. Silva: o que , afinal, Estudos Culturais?. Vide

referncia completa nas referncias bibliogrficas.

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Culturais e teorias feministas, Estudos Culturais e Estudos subalternos, Estudos

Culturais e ps-colonialismo, s para listarmos os trs exemplos que nos parecem mais

prementes dentro dos textos analisados de Debates Crticos.

Dentro deste primeiro balano parcial conclumos que os Estudos Culturais e a

identidade com tal tradio, parece ser sobretudo um compromisso com a tentativa de

ler a cultura e formular/ ajudar a formular projetos emancipacionistas para as sociedades

latino-americanas atravs do transpasso do trauma ditatorial. Portanto a identificao

com os Estudos Culturais parece estar associada ideia de reativao da poltica, do

espao pblico e da interveno intelectual na arena pblica. Compreendemos que tal

definio ainda insipiente. Mas um primeiro passo dentro do vasto trabalho de

cartografar uma rede intelectual que se quer no disciplinar.

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