CARNEIRO, Edison. Antologia Do Negro Brasileiro

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  • Edison Carneiro

    Mensagem da Junta Francesa deEmancipao ao Imperador do Brasil

    em Julho de 1866

    A Sua Majestade o Imperador do Brasil,

    Senhor!No momento em que a Repblica dos Estados-Unidos, vitoriosa d

    uma guerra longa e mortfera, acaba de dar a liberdade a quatro milhde escravos; no momento em que a Espanha parece prestes a ceder ti v()~da humanidade e da justia, ousamos dirigir a V. M. um ardente ap 10em favor dos escravos do vosso Imprio.

    Sabemo-lo, Senhor, e ningum na Europa o ignora, que V. M. poderoso no vosso Imprio, e a vossa fora reside na administrao reconhcida e no amor sincero do vosso povo.

    J abolstes o trfico; mas essa medida incompleta; uma palavra,uma vontade de V. M. podem trazer a liberdade de dois milhes do homens. Podeis dar o exemplo, Senhor, e tende a certeza de que sereis aCOIII "panhado, porque o Brasil nunca olhou a servido como uma institui o 1divina.

    Vozes generosas levantam-se todos os anos nas assemblias, na imprensa, no plpito, para pedir a abolio. O nmero de escravos menorque o dos homens livres; e quase um tero j existe nas cidades exercendoofcios ou servindo de criados, e fcil elev-los condio de assalarlndos. A emigrao dirigir-se- para as vossas provncias, desde que a servi-do tiver desaparecido. A obra da abolio, que deve atender aos fatos,interesses, situaes, parece menos difcil no Brasil, onde alis os CORtumes so brandos, e os coraes humanos e cristos.

    Desejamos a V. M., j ilustre pelas armas, pelas letras, pela arte dt fgovernar, uma glria mais bela e mais pura, e podemos esperar que o Brn rsil no ser por mais tempo a nica terra crist afetada pela servido.

    Temos a honra de ser, de V. M., muito humildes e respeitosos servos.](aa.) - Duque de Broglie (membro da Academia Francesa, Presid n-,

    te Honorrio da Junta) - Guizot (idem, idem) - Laboulaye (membro dOIInstituto, presidente da Junta) - A. Cochin (idem, secretrio) - Andaluz(membro da Sociedade das Artes de Londres) - Borsier (pastor) - Prfn-lcipe de Broglie (membro da Academia Francesa) - Gaumont - UOIl vedau (redator do Correspondant) - Henri Martim (autor da Histoire di'France) - Conde de Mont'Alembert (membro da Academia Francesa)Henri Moreau (advogado) -- Edward de Pressens (pastor) - Wallon (mem-bro do Instituto) - Eug. Yung (redator do Joumal des Dbats).

    L 40

    Antologia do Negro Brasileiro

    Uma Questo de Forma e de Oportunidade(Resposta do governo "aos senhores membros da Associao para a

    Abolio da Escravatura", 22 de agosto de 1866).

    Senhores.Tive a honra de levar ao conhecimento de S. M. o Imperador a carta

    na qual manifestveis os vossos ardentes votos pela abolio da escravatu-ra no Brasil.

    Encarregado por S. M. de vos responder em seu nome e em nomedo ~overn~ brasileiro, congratulo-me em poder-vos asseverar que as vos-,sas intenes encontraram o mais simptico acolhimento.

    Cabia-vos, senhores, a vs, cujas nobres expresses se elevam sempreem favor dos grandes princpios da humanidade e da justia, testemunharo ard?r ~ue empenhais ~o c?liseg~imento de uma empresa to grande co-mo ?1~cIl., e com a .maIs VIva satisfao que o governo brasileiro viu quefuzelsJuSti~a.aos ~ntImentos pessoais de S. M. o Imperador, aos dos mem-bros do Miru~tno, bem como tendncia da opinio pblica no Brasil.

    A emancipao dos escravos, conseqncia necessria da abolio dotrfico, no passa de uma questo de forma e de oportunidade.

    Quando as penosas circunstncias em que se acha o pas o consenti-r~m, o g~ver~o brasileiro considerar como objeto de primeira importn-CIa a realizao do que o esprito do Cristianismo desde h muito reclamado mundo civilizado.

    Aceitai, senhores, a segurana de minha alta considerao.

    Martim Francisco Ribeiro de Andrada

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  • Edison Carneiro

    Escravos no ExrcitoDecreto n? 'J72S-A, de 6 de novembro de 1866.

    Hei por bem ordenar que, aos escrav~s da na?, que estiverem nascondies de servir no Exrcito, se d gratuitamente hberdade para se em-pregarem naquele servio; e, sendo casados, estenda-se o mesmo benef-cio s suas mulheres.

    Zacarias de Gis e Vasconcelos, do meu Conselho, senador do Imp-rio, presidente do Conselho de Ministros, etc., assim o tenha entendidoe faa executar.

    Palcio do Rio de Janeiro, aos seis de novembro de mil oitocentos ses-senta e seis quadragsimo quinto da Independncia e do Imprio.

    Com a rubrica de Sua Majestade o Imperador.

    Zacarias de Gis e Vasconcelos

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    Antologia do Negro Brasileiro

    o ltimo RedutoPerdigo Malheiro

    A emancipao imediata, isto , declarar desde logo livres todos osescravos existentes no Brasil, soluo absolutamente inadmissvel na atua-lidade, e mesmo em futuro prximo; porque o grande nmero de escravosque ele ainda conta (1 500 000, termo mdio) um obstculo insupervel,visto como traria necessariamente a desorganizao do trabalho, atacariaportanto a produo mais importante e a fonte mais poderosa da riquezaentre ns, introduziria a desordem nas famlias, e daria lugar a ataques ordem pblica, desenfreando-se to grande nmero de escravos, tudo comgrande dano particular e do Estado, assim como dos prprios escravos.

    . .. E que destino dar a toda essa gente assim repentinamente solta dasujeio e das relaes em que se achava? Deix-Ios entregues a si, eles,incapazes no geral de se regerem por causa da escravido em que jazerame de que seriam assim bruscamente retirados? A vagabundagem, os vcios,o crime, a priso, a devassido, a misria, eis a sorte que naturalmenteos esperaria.

    No haveria em tal soluo bem algum para o Estado, nem para osprprios escravos; esse rompimento irrefletido seria antes um mal para to-dos, sob qualquer ponto de vista encarado.

    Demais, seria necessrio que o Estado pagasse o valor deles a seussenhores, visto como a indenizao neste caso seria de inteira justia hu-mana, porque o escravo representa um valor, uma propriedade possudaem boa-f e sujeita a transaes, como se fora tal por natureza, em virtudeda prpria lei humana, e sob a f e garantia dela. Ora, a cifra, a que mon-taria a indenizao, calculada termo mdio a 800$ por cabea (9), sobre1 500 000 escravos (termo mdio da populao escrava), tal, que bastaenunci-Ia para convencer da impossibilidade da sua execuo; ela seriade 1 200 000 contos!

    Se ns contssemos apenas algumas dezenas de mil escravos, eu pro-poria que o Brasil fizesse o sacrifcio dessas dezenas de mil contos de rise abolisse imediatamente a escravido, libertando-os todos. Seria um grandebenefcio para o Estado; e, sendo os escravos em muito menor nmero,no haveria nisso os mesmos inconvenientes acima ponderados, emboraalguns ainda se pudessem dar. Esses inconvenientes seriam prevenidos ouremediados do melhor modo; e as vantagens largamente os compensariam,bem como o nus da desapropriao. Por enquanto, porm, soluo quede forma alguma se pode admitir; nem creio que haja atualmente quema proponha ou adote.

    Tem havido quem pense que o melhor deixar ao tempo; porque, di-zem, a mortandade nos escravos, as alforrias parciais, a desproporo des-favorvel nessa classe entre a mortalidade e os nascimentos, tendem a ex-tinguir os escravos; e assim a escravido h de acabar naturalmente porsi mesma, embora em uma poca que se no pode desde j precisar. Mas

  • Edison Carneiro

    este pensamento, conquanto em parte infelizmente verdadeiro, no o to-talmente. Desde que se mantm o princpio perpetuador da escravido -o nascimento, embora tenda a diminuir, no se extinguir. Essa mesmaopinio, reconhecendo dessarte que a escravido obsta a favorvel aumen-to da populao, e que ela portanto deletria e nociva, refora a conve-nincia e necessidade de se cuidar na sua abolio. Demais, seria deixaras coisas no statu quo, mantendo o mal com todas as suas necessrias eperniciosas conseqncias, sem prover de remdio; seria abandonar umenfermo grave sua triste sorte, entregando-o ao destino .

    ... Desde que se visa no unicamente libertar os escravos por um prin-cpio, alis bem entendido, de humanidade e caridade crist, mas tambme principalmente com o grande intuito de, extinguindo a escravido, subs-tituir o trabalho escravo pelo trabalho livre, organizar assim melhor e maisnaturalmente a nossa sociedade em bem de todos e do Estado, a 'matriasobe de importncia, eleva-se a uma altura que demanda exame de outrasquestes, sobretudo da ordem econmica e social. A questo, que a prin-cpio e primeira vista se afigura simples e fcil, torna-se complexa e dif-cil por forma a exigir ainda maior cuidado na sua apreciao, e na soluoa dar s inmeras dvidas que o problema sugere .

    .. .Para se obter a extino completa da escravido, preciso atac-Iano seu reduto, que entre ns no hoje seno o nascimento. Cumpre, por-tanto, declarar que so livres todos os que nascerem de certa data em dian-te, v.g., desde o dia 25 de dezembro (Nascimento de Cristo) seguinte aoda promulgao da lei ou de outro igualmente solene e de uno religiosapara interessar a-s conscincias e assinalar de modo sensvel o ato: a Or-dem dos Beneditinos declarou livres todos os que nascessem de escravosda mesma Ordem desde o dia 3 de maio de 1866 em diante (Inveno daSanta Cruz). Esta emancipao do ventre, esta liberdade dos filhos, im-porta a grande justia da revogao do odioso e injustificvel brbaro prin-cpio mantenedor da perpetuidade da escravido, o clebre partus sequi-tur ventrem; e deve ser a pedra angular da reforma.

    Desde que no se pode adotar a emancipao imediata, no h outromeio.

    (A escravido no Brasil)

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  • Edison Carneiro

    Queima dos Arquivos da Escravido(Aviso do Ministro da Fa$nda Ruy Barbosa, 1890)

    Manda queimar todos os papis, livros dematricula e documentos relativos escravido,

    existentes no Ministrio da Fazenda.

    Ruy Barbosa, Ministro e Secretrio de Estado dos Negcios da Fa-zenda e presidente do Tribunal do Tesouro Nacional:

    Considerando que a nao brasileira, pelo mais sublime lance de suaevoluo histrica, eliminou do solo da ptria a escravido - a instituiofunestssima que por tantos anos paralisou o desenvolvimento da socieda-de, inficionou-lhe a atmosfera moral;

    Considerando que a Repblica est obrigada a destruir esses vestgiospor honra da ptria, e em homenagem aos nossos deveres de fraternidadee solidariedade para com a grande massa de cidados que pela aboliodo elemento servil entraram na comunho brasileira;

    Resolve:1.0 _ Sero requisitados de todas as tesourarias da Fazenda todos os

    papis, livros e documentos existentes nas reparties do Ministrio da Fa-zenda, relativos' ao elemento servil, matrcula dos escravos, dos ingnuos,filhos livres de mulher escrava e libertos sexagenrios, que devero ser semdemora remetidos a esta capital e reunidos em lugar apropriad na Re-cebedoria.

    2.0 _ Uma comisso composta dos Srs. Joo Fernandes Clapp, presi-dente da Confederao Abolicionista, e do administrador da Recebedoriadesta capital dirigir a arrecadao dos referidos livros e papis e procede-r queima e destruio imediata deles, o que se far na casa da mquinada Alfndega desta capital, pelo modo que mais conveniente parecer comisso.

    Capital Federal, 14 de dezembro de 1890 - Ruy Barbosa

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    Antologia do Negro Brasileiro

    A Escravido e a MonarquiaEdison Carneiro

    I

    Os Monarcas da Casa de Bragana, apesar dos seu oitenta anos detrato direto, no Brasil, com os problemas da escravido, no passaram muitoalm do ponto a que, relutantemente, chegara D. Joo VI, em 1810,con-cordando com a Inglaterra na "gradual abolio" do comrcio de escravos.

    O trfico de negros era uma das maiores fontes de renda, tanto de Por-tugal como do Brasil.

    A aceitar os clculos de Renato Mendona, entraram no pas, trazi-dos no bojo dos navios negreiros, 4830000 negros, da Costa d~frica eda Contracosta. Mas estes clculos parecem muito otimistas. A impor-tao de escravos oscilava entre 20 e 30 000 negros por ano, em temposnormais, tendo mesmo chegado, nos anos posteriores ao bill Aberdeen,a 600. Se havia bom vento, fazia-se a viagem entre a Costa da Mina eo Recife em 15 dias. Os navios negreiros transportavam, em mdia, 300negros. Quando comearam as limitaes e as perseguies ao trfico al-guns navios houve que transportassem m negros. A princpio as "peas"eram vendidas a l00$()()(),mas, com as limitaes, esse preo se elevoua 300$()()()por cabea. Assim, o carregamento de um navio negreiro nun-ca valia menos de 60 ()()()cruzados. Nestas condies, o nmero de escra-vos importados no podia ser to reduzido.

    O elevado nmero de escravos no trouxe vantagens materiais aos ne-gros. Havia um ttulo, nas Ordenaes Manuelinas, que regulava "de co-mo se podem rejeitar escravos ou bestas por doena ou manqueira" e atmesmo a Assemblia Constituinte de 1823 s em emenda a um pargrafoda Constituio do Imprio considerou brasileiros os escravos, embora nocidados, porque cidados s poderiam ser os que tivessem rendimentoslquidos anuais superiores "ao valor de 150 alqueires de farinha de man-dioca". A justia era a justia de classe, do senhor contra o escravo. Umaviso de 1853declarava: "O escravo no pode ser considerado pessoa mi-servel para que em seu lugar o Promotor Pblico possa agir contra quemo ofenda criminalmente". Um acrdo do Tribunal da Relao do Rio deJaneiro, em 1879,estabelecia: "No pode o escravo dar queixa contra pes-soa alguma, ainda que seja contra aquele que o quer reduzir escravido' '.O tribunal da Relao de Ouro Preto, em acrdo de 1883, ia mais longe:"No cabe recurso legal da sentena que condenou o escravo pena demorte". Entretanto, o negro era, em certos pontosdo pas, a maioria es-magadora da populao. Houve um tempo, no Rio de Janeiro, em que, pa-ra 660 000 negros, havia apenas J7 000 brancos: e, na Bahia, havia 19ne-gros para cada branco ...

    O aparecimento do artesanato urbano marca o incio do declnio fatalda sociedade escravagista. Surgiu Eusbio de Queiroz. A colnia portu-guesa na Amrica s se pudera manter custa da explorao da cana-de-

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  • Edison Carneiro

    acar, trabalho de negros. Mais tarde, quando a concorrncia internacio-nal diminuiu os lucros desse comrcio, a lavoura do caf, trabalho de ne-gros, substituiu-o. No intervalo, o negro fora utilizado ainda nas bandei-ras, na reduo do gentio, na minerao. Sobre os ombros do escravo afri-cano criara-se a sociedade que o esmagava. Mas, no desenvolvimento dasociedade brasileira, estava prevista a libertao do elemento servil. Vinhaem marcha ascendente o movimento abolicionista.

    A lavoura do Brasil - trabalho de escravos - estava enterrada em gran-des dvidas. E j no dava lucros, mesmo em 1823, como o advertia JosBonifcio, na Assemblia Constituinte. Os senhores mais liberais e pro-gressistas alforriavam os seus escravos, utilizando-os no trabalho assala-riado, produtor de capital. As leis se aproximavam sempre mais do desfe-cho de 1888. H uma linha ascendente ligando as leis da extino do trfi-co, do ventre livre e dos septuagenrios ao decreto Joo Alfredo. Quando,sob delirantes aplausos, a conscincia nacional se rejubilava com a aboli-o total da escravatura, na verdade o governo monrquico apenas reco-nhecia um estado de fato. O negro escravo era menos de 5% sobre a popu-lao nacional. Assim mesmo, o decreto de 1888 causou um prejuzo totalde cerca de 500 000 contos de ris, custo aproximado dos 720000 escra-vos ainda existentes no B...