CARNEIRO, Edison. Antologia Do Negro Brasileiro

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  • Edison Carneiro

    Mensagem da Junta Francesa deEmancipao ao Imperador do Brasil

    em Julho de 1866

    A Sua Majestade o Imperador do Brasil,

    Senhor!No momento em que a Repblica dos Estados-Unidos, vitoriosa d

    uma guerra longa e mortfera, acaba de dar a liberdade a quatro milhde escravos; no momento em que a Espanha parece prestes a ceder ti v()~da humanidade e da justia, ousamos dirigir a V. M. um ardente ap 10em favor dos escravos do vosso Imprio.

    Sabemo-lo, Senhor, e ningum na Europa o ignora, que V. M. poderoso no vosso Imprio, e a vossa fora reside na administrao reconhcida e no amor sincero do vosso povo.

    J abolstes o trfico; mas essa medida incompleta; uma palavra,uma vontade de V. M. podem trazer a liberdade de dois milhes do homens. Podeis dar o exemplo, Senhor, e tende a certeza de que sereis aCOIII "panhado, porque o Brasil nunca olhou a servido como uma institui o 1divina.

    Vozes generosas levantam-se todos os anos nas assemblias, na imprensa, no plpito, para pedir a abolio. O nmero de escravos menorque o dos homens livres; e quase um tero j existe nas cidades exercendoofcios ou servindo de criados, e fcil elev-los condio de assalarlndos. A emigrao dirigir-se- para as vossas provncias, desde que a servi-do tiver desaparecido. A obra da abolio, que deve atender aos fatos,interesses, situaes, parece menos difcil no Brasil, onde alis os CORtumes so brandos, e os coraes humanos e cristos.

    Desejamos a V. M., j ilustre pelas armas, pelas letras, pela arte dt fgovernar, uma glria mais bela e mais pura, e podemos esperar que o Brn rsil no ser por mais tempo a nica terra crist afetada pela servido.

    Temos a honra de ser, de V. M., muito humildes e respeitosos servos.](aa.) - Duque de Broglie (membro da Academia Francesa, Presid n-,

    te Honorrio da Junta) - Guizot (idem, idem) - Laboulaye (membro dOIInstituto, presidente da Junta) - A. Cochin (idem, secretrio) - Andaluz(membro da Sociedade das Artes de Londres) - Borsier (pastor) - Prfn-lcipe de Broglie (membro da Academia Francesa) - Gaumont - UOIl vedau (redator do Correspondant) - Henri Martim (autor da Histoire di'France) - Conde de Mont'Alembert (membro da Academia Francesa)Henri Moreau (advogado) -- Edward de Pressens (pastor) - Wallon (mem-bro do Instituto) - Eug. Yung (redator do Joumal des Dbats).

    L 40

    Antologia do Negro Brasileiro

    Uma Questo de Forma e de Oportunidade(Resposta do governo "aos senhores membros da Associao para a

    Abolio da Escravatura", 22 de agosto de 1866).

    Senhores.Tive a honra de levar ao conhecimento de S. M. o Imperador a carta

    na qual manifestveis os vossos ardentes votos pela abolio da escravatu-ra no Brasil.

    Encarregado por S. M. de vos responder em seu nome e em nomedo ~overn~ brasileiro, congratulo-me em poder-vos asseverar que as vos-,sas intenes encontraram o mais simptico acolhimento.

    Cabia-vos, senhores, a vs, cujas nobres expresses se elevam sempreem favor dos grandes princpios da humanidade e da justia, testemunharo ard?r ~ue empenhais ~o c?liseg~imento de uma empresa to grande co-mo ?1~cIl., e com a .maIs VIva satisfao que o governo brasileiro viu quefuzelsJuSti~a.aos ~ntImentos pessoais de S. M. o Imperador, aos dos mem-bros do Miru~tno, bem como tendncia da opinio pblica no Brasil.

    A emancipao dos escravos, conseqncia necessria da abolio dotrfico, no passa de uma questo de forma e de oportunidade.

    Quando as penosas circunstncias em que se acha o pas o consenti-r~m, o g~ver~o brasileiro considerar como objeto de primeira importn-CIa a realizao do que o esprito do Cristianismo desde h muito reclamado mundo civilizado.

    Aceitai, senhores, a segurana de minha alta considerao.

    Martim Francisco Ribeiro de Andrada

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  • Edison Carneiro

    Escravos no ExrcitoDecreto n? 'J72S-A, de 6 de novembro de 1866.

    Hei por bem ordenar que, aos escrav~s da na?, que estiverem nascondies de servir no Exrcito, se d gratuitamente hberdade para se em-pregarem naquele servio; e, sendo casados, estenda-se o mesmo benef-cio s suas mulheres.

    Zacarias de Gis e Vasconcelos, do meu Conselho, senador do Imp-rio, presidente do Conselho de Ministros, etc., assim o tenha entendidoe faa executar.

    Palcio do Rio de Janeiro, aos seis de novembro de mil oitocentos ses-senta e seis quadragsimo quinto da Independncia e do Imprio.

    Com a rubrica de Sua Majestade o Imperador.

    Zacarias de Gis e Vasconcelos

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    Antologia do Negro Brasileiro

    o ltimo RedutoPerdigo Malheiro

    A emancipao imediata, isto , declarar desde logo livres todos osescravos existentes no Brasil, soluo absolutamente inadmissvel na atua-lidade, e mesmo em futuro prximo; porque o grande nmero de escravosque ele ainda conta (1 500 000, termo mdio) um obstculo insupervel,visto como traria necessariamente a desorganizao do trabalho, atacariaportanto a produo mais importante e a fonte mais poderosa da riquezaentre ns, introduziria a desordem nas famlias, e daria lugar a ataques ordem pblica, desenfreando-se to grande nmero de escravos, tudo comgrande dano particular e do Estado, assim como dos prprios escravos.

    . .. E que destino dar a toda essa gente assim repentinamente solta dasujeio e das relaes em que se achava? Deix-Ios entregues a si, eles,incapazes no geral de se regerem por causa da escravido em que jazerame de que seriam assim bruscamente retirados? A vagabundagem, os vcios,o crime, a priso, a devassido, a misria, eis a sorte que naturalmenteos esperaria.

    No haveria em tal soluo bem algum para o Estado, nem para osprprios escravos; esse rompimento irrefletido seria antes um mal para to-dos, sob qualquer ponto de vista encarado.

    Demais, seria necessrio que o Estado pagasse o valor deles a seussenhores, visto como a indenizao neste caso seria de inteira justia hu-mana, porque o escravo representa um valor, uma propriedade possudaem boa-f e sujeita a transaes, como se fora tal por natureza, em virtudeda prpria lei humana, e sob a f e garantia dela. Ora, a cifra, a que mon-taria a indenizao, calculada termo mdio a 800$ por cabea (9), sobre1 500 000 escravos (termo mdio da populao escrava), tal, que bastaenunci-Ia para convencer da impossibilidade da sua execuo; ela seriade 1 200 000 contos!

    Se ns contssemos apenas algumas dezenas de mil escravos, eu pro-poria que o Brasil fizesse o sacrifcio dessas dezenas de mil contos de rise abolisse imediatamente a escravido, libertando-os todos. Seria um grandebenefcio para o Estado; e, sendo os escravos em muito menor nmero,no haveria nisso os mesmos inconvenientes acima ponderados, emboraalguns ainda se pudessem dar. Esses inconvenientes seriam prevenidos ouremediados do melhor modo; e as vantagens largamente os compensariam,bem como o nus da desapropriao. Por enquanto, porm, soluo quede forma alguma se pode admitir; nem creio que haja atualmente quema proponha ou adote.

    Tem havido quem pense que o melhor deixar ao tempo; porque, di-zem, a mortandade nos escravos, as alforrias parciais, a desproporo des-favorvel nessa classe entre a mortalidade e os nascimentos, tendem a ex-tinguir os escravos; e assim a escravido h de acabar naturalmente porsi mesma, embora em uma poca que se no pode desde j precisar. Mas

  • Edison Carneiro

    este pensamento, conquanto em parte infelizmente verdadeiro, no o to-talmente. Desde que se mantm o princpio perpetuador da escravido -o nascimento, embora tenda a diminuir, no se extinguir. Essa mesmaopinio, reconhecendo dessarte que a escravido obsta a favorvel aumen-to da populao, e que ela portanto deletria e nociva, refora a conve-nincia e necessidade de se cuidar na sua abolio. Demais, seria deixaras coisas no statu quo, mantendo o mal com todas as suas necessrias eperniciosas conseqncias, sem prover de remdio; seria abandonar umenfermo grave sua triste sorte, entregando-o ao destino .

    ... Desde que se visa no unicamente libertar os escravos por um prin-cpio, alis bem entendido, de humanidade e caridade crist, mas tambme principalmente com o grande intuito de, extinguindo a escravido, subs-tituir o trabalho escravo pelo trabalho livre, organizar assim melhor e maisnaturalmente a nossa sociedade em bem de todos e do Estado, a 'matriasobe de importncia, eleva-se a uma altura que demanda exame de outrasquestes, sobretudo da ordem econmica e social. A questo, que a prin-cpio e primeira vista se afigura simples e fcil, torna-se complexa e dif-cil por forma a exigir ainda maior cuidado na sua apreciao, e na soluoa dar s inmeras dvidas que o problema sugere .

    .. .Para se obter a extino completa da escravido, preciso atac-Iano seu reduto, que entre ns no hoje seno o nascimento. Cumpre, por-tanto, declarar que so livres todos os que nascerem de certa data em dian-te, v.g., desde o dia 25 de dezembro (Nascimento de Cristo) seguinte aoda promulgao da lei ou de outro igualmente solene e de uno religiosapara interessar a-s conscincias e assinalar de modo sensvel o ato: a Or-dem dos Beneditinos declarou livres todos os que nascessem de escravosda mesma Ordem desde o dia 3 de maio de 1866 em diante (Inveno daSanta Cruz). Esta emancipao do ventre, esta liberdade dos filhos, im-porta a grande justia da revogao do odioso e injustificvel brbaro prin-cpio mantenedor da perpetuidade da escravido, o clebre partus sequi-tur ventrem; e deve ser a pedra angular da reforma.

    Desde que no se pode adotar a emancipao imediata, no h outromeio.

    (A escravido no Brasil)

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  • Edison Carneiro

    Queima dos Arquivos da Escravido(Aviso do Ministro da Fa$nda Ruy Barbosa, 1890)

    Manda queimar todos os papis, livros dematricula e documentos relativos escravido,

    existentes no Ministrio da Fazenda.

    Ruy Barbosa, Ministro e Secretrio de Estado dos Negcios da Fa-zenda e presidente do Tribunal do Tesouro Nacional:

    Considerando que a nao brasileira, pelo mais sublime lance de suaevoluo histrica, eliminou do solo da ptria a escravido - a instituiofunestssima que por tantos anos paralisou o desenvolvimento da socieda-de, inficionou-lhe a atmosfera moral;

    Considerando que a Repblica est obrigada a destruir esses vestgiospor honra da ptria, e em homenagem aos nossos deveres de fraternidadee solidariedade para com a grande massa de cidados que pela aboliodo elemento servil entraram na comunho brasileira;

    Resolve:1.0 _ Sero requisitados de todas as tesourarias da Fazenda todos os

    papis, livros e documentos existentes nas reparties do Ministrio da Fa-zenda, relativos' ao elemento servil, matrcula dos escravos, dos ingnuos,filhos livres de mulher escrava e libertos sexagenrios, que devero ser semdemora remetidos a esta capital e reunidos em lugar apropriad na Re-cebedoria.

    2.0 _ Uma comisso composta dos Srs. Joo Fernandes Clapp, presi-dente da Confederao Abolicionista, e do administrador da Recebedoriadesta capital dirigir a arrecadao dos referidos livros e papis e procede-r queima e destruio imediata deles, o que se far na casa da mquinada Alfndega desta capital, pelo modo que mais conveniente parecer comisso.

    Capital Federal, 14 de dezembro de 1890 - Ruy Barbosa

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    Antologia do Negro Brasileiro

    A Escravido e a MonarquiaEdison Carneiro

    I

    Os Monarcas da Casa de Bragana, apesar dos seu oitenta anos detrato direto, no Brasil, com os problemas da escravido, no passaram muitoalm do ponto a que, relutantemente, chegara D. Joo VI, em 1810,con-cordando com a Inglaterra na "gradual abolio" do comrcio de escravos.

    O trfico de negros era uma das maiores fontes de renda, tanto de Por-tugal como do Brasil.

    A aceitar os clculos de Renato Mendona, entraram no pas, trazi-dos no bojo dos navios negreiros, 4830000 negros, da Costa d~frica eda Contracosta. Mas estes clculos parecem muito otimistas. A impor-tao de escravos oscilava entre 20 e 30 000 negros por ano, em temposnormais, tendo mesmo chegado, nos anos posteriores ao bill Aberdeen,a 600. Se havia bom vento, fazia-se a viagem entre a Costa da Mina eo Recife em 15 dias. Os navios negreiros transportavam, em mdia, 300negros. Quando comearam as limitaes e as perseguies ao trfico al-guns navios houve que transportassem m negros. A princpio as "peas"eram vendidas a l00$()()(),mas, com as limitaes, esse preo se elevoua 300$()()()por cabea. Assim, o carregamento de um navio negreiro nun-ca valia menos de 60 ()()()cruzados. Nestas condies, o nmero de escra-vos importados no podia ser to reduzido.

    O elevado nmero de escravos no trouxe vantagens materiais aos ne-gros. Havia um ttulo, nas Ordenaes Manuelinas, que regulava "de co-mo se podem rejeitar escravos ou bestas por doena ou manqueira" e atmesmo a Assemblia Constituinte de 1823 s em emenda a um pargrafoda Constituio do Imprio considerou brasileiros os escravos, embora nocidados, porque cidados s poderiam ser os que tivessem rendimentoslquidos anuais superiores "ao valor de 150 alqueires de farinha de man-dioca". A justia era a justia de classe, do senhor contra o escravo. Umaviso de 1853declarava: "O escravo no pode ser considerado pessoa mi-servel para que em seu lugar o Promotor Pblico possa agir contra quemo ofenda criminalmente". Um acrdo do Tribunal da Relao do Rio deJaneiro, em 1879,estabelecia: "No pode o escravo dar queixa contra pes-soa alguma, ainda que seja contra aquele que o quer reduzir escravido' '.O tribunal da Relao de Ouro Preto, em acrdo de 1883, ia mais longe:"No cabe recurso legal da sentena que condenou o escravo pena demorte". Entretanto, o negro era, em certos pontosdo pas, a maioria es-magadora da populao. Houve um tempo, no Rio de Janeiro, em que, pa-ra 660 000 negros, havia apenas J7 000 brancos: e, na Bahia, havia 19ne-gros para cada branco ...

    O aparecimento do artesanato urbano marca o incio do declnio fatalda sociedade escravagista. Surgiu Eusbio de Queiroz. A colnia portu-guesa na Amrica s se pudera manter custa da explorao da cana-de-

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  • Edison Carneiro

    acar, trabalho de negros. Mais tarde, quando a concorrncia internacio-nal diminuiu os lucros desse comrcio, a lavoura do caf, trabalho de ne-gros, substituiu-o. No intervalo, o negro fora utilizado ainda nas bandei-ras, na reduo do gentio, na minerao. Sobre os ombros do escravo afri-cano criara-se a sociedade que o esmagava. Mas, no desenvolvimento dasociedade brasileira, estava prevista a libertao do elemento servil. Vinhaem marcha ascendente o movimento abolicionista.

    A lavoura do Brasil - trabalho de escravos - estava enterrada em gran-des dvidas. E j no dava lucros, mesmo em 1823, como o advertia JosBonifcio, na Assemblia Constituinte. Os senhores mais liberais e pro-gressistas alforriavam os seus escravos, utilizando-os no trabalho assala-riado, produtor de capital. As leis se aproximavam sempre mais do desfe-cho de 1888. H uma linha ascendente ligando as leis da extino do trfi-co, do ventre livre e dos septuagenrios ao decreto Joo Alfredo. Quando,sob delirantes aplausos, a conscincia nacional se rejubilava com a aboli-o total da escravatura, na verdade o governo monrquico apenas reco-nhecia um estado de fato. O negro escravo era menos de 5% sobre a popu-lao nacional. Assim mesmo, o decreto de 1888 causou um prejuzo totalde cerca de 500 000 contos de ris, custo aproximado dos 720000 escra-vos ainda existentes no Brasil.

    Esta medida custou, aos Braganas, o Trono do Brasil. existnciada escravido estava condicionada a da monarquia, j que Pedro II a redu-zira a simples "poder moderador", uma fora neutra, que estabelecia oequilbrio entre as ambies retr6gradas dos escravagistas e dos conserva-dores e os interesses mais profundos dos abolicionistas e dos liberais. Aao da Princesa precipitou os acontecimentos. De modo que o beijo de-positado por Patrocnio aos ps da Regente estava destinado a ser a ltimahomenagem prestada Casa Imperial. No estava muito longe a manhde 15 de novembro de 1889...

    (De uma conferncia na Faculdade de Direito da Bahia, 1937)

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  • Edison Carneiro

    Antologia do Negro Brasileiro

    o Batalho dos Libertos

    oBatalho dos Libertos teve o seu batismo de fogo, na guerra da In-dependncia da Bahia, em 2 de maio de 1823.

    Esta operao - um reconhecimento em fora - fez parte dos prepa-rativos para o ataque geral, marcado para o dia 3 pelo General Labatut,comandante do Exrcito Pacificador, contra as foras do General Madei-ra, que ocupavam a capital.

    Como os demais destacamentos avanados das tropas independentes,a segunda companhia do Batalho dos Libertos se atirou contra as linhasportuguesas. A ao se travou nas vizinhanas do Tanque da Conceio.Os homens do General Madeira esperaram os pardos do Batalho "em or-dem estendida" e lhes ofereceram obstinada resistncia, mas finalmentetiveram de ceder terreno, fugindo em debandada e deixando oito mortosno campo de batalha, com os libertos nos seus calcanhares.

    Esta escaramua foi o acontecimento mais importante do dia.O Exrcito Pacificador, no dia seguinte, desfechavaa sua ofensiva, avan-

    ando sobre a Cruz do Cosme, pelo Cabula e por So Gonalo, e sobreo Tanque da Conceio. As linhas lusitanas foram destroadas neste setore as tropas independentes levaram as suas vanguardas s vizinhanas dosentrincheiramentos da Lapinha, enquanto, mais a leste, os portugueses ti-veram de recuar as suas posies to profundamente que, em Brotas, o co-mandante portugus, General Madeira, perdeu o chapu esporeando o ca-valo, acompanhado do seu Estado-Maior, em desabalada carreira para ocentro da cidade. O inimigo perdeu cem homens, armas e equipamentos,enquanto os independentes registravam a perda de 20 homens, dos quais7 mortos.

    O Batalho dos Libertos foi criado por iniciativa do General Labatut.O comandante em chefe notava que somente homens das classes mdiase das camadas populares acorriam s fileiras e, queixando-se da falta depatriotismo dos senhores de engenho do Recncavo, que no alistavam osseus filhos no Exrcito Pacificador, pedia s autoridades que instassem comos senhores pela libertao dos seus escravos pardos, para com eles se for-marem dois batalhes. Com os pardos disponveis, o General Labatut or-ganizou o batalho dos Libertos do Imperador.

    Ainda nesse ms de maio, com a deposio de Labatut, o Coronel Li-ma e Silva, novo comandante em chefe, reorganizou o comando do Exr-cito Pacificador, mandando que os Libertos do Imperador - ento sob ocomando do Capito Bulco Limeira - servissem de "casco" para outrobatalho, o Batalho n.o 9.

    Seis dias depois de constitudo, o Batalho n,? 9 participava, a 3 dejunho, da grande ofensiva geral contra os entrincheiramentos portugueses,que esmagou a resistncia do inimigo na Cruz do Cosme, em Brotas, no

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  • Edison Carneiro

    Rio Vermelho, na Pituba, no Alto d'Areia e no Rio de So Pedro. O Bata-lho dos Libertos teve cinco feridos, dois gravemente, em ao provavel-mente no setor da Cruz do Cosme.

    Os ataques de 3 de maio e de 3 de junho prepararam o caminho paraa entrada triunfal do Exrcito Pacificador, a 2 de julho de 1823, na cidadeque sitiara por cerca de um ano. Os homens do General Madeira j esta-vam embarcando, apressadamente, de volta a Portugal, nos transportes queos esperavam no porto e que a esquadra de Lord Cochrane deveria perse-guir e acossar at alm de guas territoriais brasileiras. O grosso do Exr-cito Pacificador, sob o comando de Lima e Silva, entrou na Bahia pela Es-trada das Boiadas (Estrada da Liberdade), tendo como uma das suas pri-meiras unidades o Batalho n.o 9 que, com mais outra formao, vinhachefiado pelo tenente-coronel Manuel Gonalves da Silva. Enquanto essesdestacamentos passavam sob os arcos de flores naturais preparados pelasfreiras da Soledade, e eram recebidos sob os aplausos e as aclamaes dopovo da capital libertada, o Coronel Pelisberto Caldeira, comandando ou-tras unidades do Exrcito Pacificador, entrava na cidade pelo lado da es-querda, pelo Rio Vermelho, completando o triunfo das armas brasileiras.

    Na Bahia, o Batalho dos Libertos - ao todo 3Z7 praas - ficou aquar-telado no Noviciado.

    0 Exrcito Pacificador, ao entrar na Bahia, constava de 8783 pra-as - ou 9515 homens, contando o Batalho do Imperador, - mas j emabril de 1823 o nmero de "bocas consumidoras" do xrcito se elevavaa 10148.

    n

  • Antologia do Negro Brasileiro

    Deformaes de Corpo dos Negros FugidosGilberto Freyre

    Nos anncios de negros fugidos, de que esto cheios os jornais dotempo do Imprio, encontra-se muito sinal de deformao de corpo do ho-mem, da mulher e do menino escravo. Deformao por excesso de traba-lho, por doena, por tatuagem, por condies anti-higinicas de vida e tal-vez de alimentao em certas senzalas. Tambm cicatrizes de aoites e deferro quente .

    .. .So numerosos os casos de negros "rendidos" e "quebrados"; depretos com "veias estouradas" ou calombos no corpo; os de escravos deandar cambaio ou banzeiro; vrios os de negros fugidos com mscara oumordaa de Flandres na boca. s vezes mscaras ou mordaas fechadascom cadeado. Essas mordaas seriam menos castigo que medida profilti-ca: contra o chamado vcio de comer terra. As mscaras se usavam - in-forma em artigo nos Anais Brasilienses de Medicina o mdico Gama Lo-bo - contra a voracidade por toda espcie de frutas, at as verdes, dosescravos sofrendo de oftalmia a que denominou de brasiliana. Doena queseria causada pela m alimentao em certas fazendas do Imprio .

    .. .Outros negros aparecem nos anncios de jornais com os olhos doen-tes: sapiranga, olhos vermelhos de cachaceiros ou de bebedeiras de fumo- e talvez de maconha - alguns cegos de um olho, outros zarolhos, v-rios com "carne sobre os olhos".

    Aparecem negros de brao esquerdo mais comprido que o direito, al-guns com seis dedos nos ps, outros faltando o dedo mindinho, velhos pu-xando pela perna, talvez inchada. No so raros os doentes de boubas eI!lcera~,os de ps cheios de bichos, os de postemas pelo corpo, os de "fe-rldas que nunca saram" no p ou na perna. E surgem uma vez por outraON negros lesos ou malucos, os.inclinados violncia, ou valentes, osIristonhos, sorumbticos e calados que nem caboclos - efeito, talvez, emIlgnns casos, de influncias sociais deformadoras da alma, e no apenasdo corpo.

    Sem falar nos gagos e canhotos, e num ou noutro corcunda, nos ho-IIll'lIS de fala de mulher, nas mulheres de barba no queixo, nas molecasIml s - talvezbosqumanas - que quase no se distinguem dos homens,II peitos duros e pequenos contrastando com os grandes ou murchos de111, Ims negras, passam pelos anncios de jornal pretalhes excessivamenteI ibcludos no peito, barba cerrada que nem australianos; alguns encabela-do por peito e pernas; um at de "fisionomia sevandija", "suas e bar-1111 icabanadas", Esse excesso de cabelo acusando, talvez, mestiagem,1111 luunita-semita, ou mais recente, do mesmo modo que o cabelo liso, co-11111 d caboclo, e o sarar, com que se apresentam outros "negros" fu-,,1110

    Vririos os casos de esteatopigia: ndegas arrebitadas para trs, n-

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  • Edison Carneiro

    degas empinadas, ndegas salientes, "bunda grande". Evidncia da im-portao de hotentotes e bosqumanos.

    Numerosos os casos de deformaes do corpo por tatuagem, sinaisde nao, marcas de fogo que no devem ser confundidas com as de ferroquente - castigo dos negros fujes. A~tatuagens africanas eram ao longodo nariz, talhos imitao de ps de galinha, na testa e na face, talhinhosou recortes, verdadeiras rendas, pelo rosto todo. Outros negros aparecemcom tatuagem j abertas no Brasil, umas lricas, outras religiosas: cora-es feitos com tinta azul e, no meio dos coraes, iniciais; signo de Salo-mo; a cruz.

    Vrios pretos surgem, dos anncios de jornal, com orelhas furadaspara argolas ou brincos, um deles, um pretalho caanje, de "suas volta-das' '. Outro, de nao Congo, com uma meia lua pendurada do buraco daorelha. So tambm freqentes os escravos com dentes limados.

    Aparecem pretos com a cara picada de bexiga; vrios banguelas outramarca de nao; alguns com dentes podres. De outros se anunciam doen-as venreas.

    Numerosos os que apresentam nas coxas ou.nas costas, letras, sinaisou carimbo de propriedade, como hoje o gado, ou, ento, marcas de surrae castigo, o corpo deformado pela crueldade dos senhores brancos; unsmanquejando, os quartos arriados em conseqncia de surras tremendas;outros com cicatriz de relho pelas costas ou nas ndegas; ou ento cicatrizde anjinho, de tronco, de corrente no pescoo, de ferro nos ps, de lubam-bo no tornozelo. Alguns com queimaduras na barriga.

    Tambm surgem dos anncios negros com o corpo deformado no porcastigo ou surra dos senhores, mas pelos golpes ou "talhos que deram emsi" - na garganta ou no peito. Tentativas fracassadas de suicdio, nos mo-mentos de banzo ou de raiva.

    Grande nmero de pretos fugidos apresentam deformaes daspernase da cabea, algumas das quais devem ser atribudas ao hbito das mesescravas trazerem os molequinhos de mama escanchados s costas durantehoras e horas de trabalho; tambm dormida em esteira, sobre o cho du-ro das senzalas. Mas tambm admissfvel que parte dessas deformaesacusem possveis efeitos de raquitismo ... O fato que os anncios de ne-gros fugidos, no Jornal do Comrcio, do Rio, no Dirio de Pernambuco,no Dirio do Rio de Janeiro, em outras gazetas brasileiras do tempo doImprio, por n6s examinadas, esto cheios de negros de "pernas cambaias","joelhos tocando um no outro", "pernas tortas para dentro", "joelhos me-tidos para dentro", "pernas e braos exageradamente finos", "zambos",arqueados, peitos estreitos, cabeas puxadas para trs ou achatadas de la-do. O fato de virem da frica para o Brasil, em viagens que duravam me-ses, e aos magotes, uns por cima dos outros, nos pores midos, tantosnegros ainda moleques e at molequinhos, toma admissivel que fossemefeitos de raquitismo algumas daquelas freqentes deformaes das per-nas e da cabea. Tambm o regime de trabalho e de alimentao em certasfazendas e para certo nmero de escravos - trabalho desde quase a ma-

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    Antologia do Negro Brasileiro

    drugada at o sol posto, debaixo de telheiros acachapados, e acrescido dealimentao deficiente e de dormida no cho, em senzalas midas e fecha-das - talvez favorecesse o raquitismo, apesar de todo o desfavor dostr6picos. .

    Resta salientar nos anncios de jornal de escravos fugidos as deforma-es de corpo por especializao, vamos dizer, profissional e por precoci-dade ou excesso de trabalho. So inmeros os casos de deformao profis-sional das mos, dos ps, da cabea, do corpo inteiro do negro. Vriosnegrinhos, meninos de dez, doze anos, j aparecem de croa na cabea, norapada com todo o ritual como a dos meninos brancos que iam estudarpara padre, mas feita fora pelo peso de carretos brutos: tabuleiro, tijolo,nrcia, pipa, barril. "Croa na moleira de carregar areia", diz-se de doismolequinhos fugidos de uma casa do Recife em 1830, cada um com sua roa de marrio. E felizes os que s6 carregavam cabea areia ou tijolo.

    H casos de negros com os dedos dos ps torados por serem amassa-dores de cal e a cal lhes ter aberto feridas e comido os dedos; outros ded dos e munhecas inteiras comidas - talvez pelas moendas dos engenhos.Vrrios de "mos muito calejudas e tortas" por serem carpinteiros; ofi-('llIs de alfaiate com os dedos deformados pela agulha, alguns com o dedopl 'lIdode debruar tamancos; outros de "dedos da mo com calos de amassarp u", Quase todos de ps e mos enormes, deformados pelo trabalho.

    Os anncios de negros fugidos... apresentam o negro importado da1II'a para o Brasil no como o elemento cacognico ou transmissor de

    dI!( uas e males africanos, de que tanto se fala, mas desprestigiado nasu ( qualidades eugnicas e nas suas virtudes nativas por deformaes, na

    1IIIIId maioria, de causas nitidamente sociais e brasileiras: excesso de tra-li Illio m plantaes e em casas burguesas, s vezes m dormida, m ali-1111 ula' o e ms condies de vida nas senzalas, castigos, vcios, aciden-11 11 trabalho, precocidade no esforo bruto.

    1\11I eontraste com esse negro socialmente patol6gico - sem desco-1111" (IIIIOS, claro, casos de portadores de taras e de doenas africanas,11111 1111 numero bem menos significativo que os portadores de doenasI 1\ o aqui adquiridos - passam, em grande nmero, pelos anncios,I 1111 1 idmiravelmente eugnicas: negros e negras fortes, altas, bonitas,111 111 li II lil de corpo, os dentes alvos e perfeitos.

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