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  • Carlos Drummond de Andrade

    Prof. Cadu Siqueira

    Colgio Magno

    2017

  • Drummond: autor representativo da 2a fase do Modernismo (1930); "signo de uma dramtica insuficincia (Alcides Villaa); ironia, humor, confidncia; primeira poesia: dialtica entre os valores do indivduo e os valores do

    mundo; ressentimento drummondiano: impossibilidade de construo de uma

    ordem ideal; A poesia de Drummond inaugura-se dividida entre a altivez de um sujeito

    decididamente fincado em seu prprio posto de observao e o sentimento de desamparo do tmido que bem desejaria sair dele para realizar sem culpa os tantos desejos (Alcides Villaa);

    Poesia de Drummond at A rosa do povo: embate entre o eu e o mundo / eu lrico gauche, inadaptado; eu tenta intervir na realidade (poesia de engajamento social, caracterstica em obras como Sentimento do mundo e A rosa do povo).

  • Claro enigma: mudana em relao s obras anteriores; centramento do eu, desencanto, amargura, em relao ao mundo; eu resignado, amargo, fechado em si mesmo; tom mais filosfico, elevado; perspectiva metafsica; ttulo: paradoxo que representa o estado do eu lrico (desencanto, sem

    caminhos definidos); versos clssicos (soneto, decasslabos); relao com autores clssicos (Cames - Os lusadas); Minas Gerais: A mesa (reencontro com o pai); poemas em homenagem aos amigos (como Mrio de Andrade e Mrio

    Quintana); epgrafe: Les vnements mennuient (Paul Valry) Os acontecimentos

    me entediam

  • Se em suas obras anteriores, Drummond era capaz de evidenciar sua postura forte e contrria a qualquer situao que o incomodasse, em Claro Enigma ele apenas se mostra inconformado e perplexo, porm sem foras para reagir. Sua poesia deixa de focar a busca de respostas e passa a centralizar-se em perguntas que devem ser feitas, tematizando, melancolicamente, as incertezas e angstias que atormentavam o escritor quanto ao rumo que seria seguido aps perder suas certezas polticas;

    a mudana de foco, contudo, nada tem a ver com um eventual distanciamento da realidade. Drummond muda de objeto potico, afastando-se dos fatos concretos para falar de ausncias, perdas e temas abstratos como o tempo e a vida;

    sentimento de culpa que oprime o poeta; viso crepuscular d o tom da obra: a noo da impossibilidade,

    estabelecida entre o transitrio e o definitivo, a essncia das coisas e seu fracasso diante do tempo.

  • O livro est dividido em 6 sees.

    1. Entre lobo e co-Seo mais extensa da obra;-observar a oposio entre lobo e co presente no ttulo da seo;-os poemas desta seo destacam a postura conflitiva do eu lrico, que serevela pessimista, niilista;-niilismo: reduo ao nada, aniquilamento, no existncia;-Friedrich Nietzsche (filsofo alemo do final do sculo XIX): seu niilismoimplica negao, declnio ou recusa, em curso na histria humana eespecialmente na modernidade ocidental, de crenas e convices com seusrespectivos valores morais, estticos ou polticos que ofeream um sentidoconsistente e positivo para a experincia imediata da vida;-em Claro enigma, o eu lrico expe logo o comando da aspirao presente: afiel indiferena, capaz de sugerir o fim sem a injustia dos prmios.

  • Escurece, e no me seduztatear sequer uma lmpada.Pois que aprouve ao dia findar,aceito a noite.

    E com ela aceito que broteuma ordem outra de serese coisas no figuradas.Braos cruzados.

    Vazio de quanto amvamos,mais vasto o cu. Povoaessurgem do vcuo.Habito alguma?

    E nem destaco minha peleda confluente escurido.Um fim unnime concentra-see pousa no ar. Hesitando.

    E aquele agressivo espritoque o dia carreia consigo,j no oprime. Assim a paz,destroada.

    Vai durar mil anos, ouextinguir-se na cor do galo?Esta rosa definitiva,ainda que pobre.

    Imaginao, falsa demente,j te desprezo. E tu, palavra.No mundo, perene trnsito,calamo-nos.E sem alma, corpo, s suave.

  • - Aceitao da noite, do vazio;- noite: espao-tempo do desconhecido (ordem outra de seres / e coisas no

    figuradas). Observar a perspectiva metafsica do poeta em relao realidade;

    - Braos cruzados: aceitao, fechamento do poeta, inatividade;- vazio = vasto;- Habito alguma?: questionamento do poeta sobre sua relao com o

    mundo. O poeta faz parte de alguma povoao?- E nem destaco minha pele / da confluente escurido: o eu lrico no se

    destaca da multido;- fim unnime: iminncia da morte, do fim;- opresso X paz (destroada);- descrena na imaginao e na fora da palavra potica;- alma X corpo.

  • A madureza, essa terrvel prendaque algum nos d, raptando-nos, com ela, todo sabor gratuito de oferendasob a glacialidade de uma estela,

    a madureza v, posto que a venda interrompa a surpresa da janela, o crculo vazio, onde se estenda, e que o mundo converte numa cela.

    A madureza sabe o preo exatodos amores, dos cios, dos quebrantos, e nada pode contra sua cincia

    e nem contra si mesma. O agudo olfato, o agudo olhar, a mo, livre de encantos, se destroem no sonho da existncia.

  • - Observar a recuperao da forma clssica: soneto, versos decasslabos;- soneto: forma clssica que acolhe a reflexo sobre a realidade;- Gaia cincia: conhecimento (cincia) alegre, vivaz; termo dado arte

    potica na cultura provenal (Idade Mdia);- A gaia cincia (1882): ttulo de um dos tratados filosficos de Friedrich

    Nietzsche. Para esse filosfo, a gaia cincia refere-se no apenas poesiamas prpria atitude enrgica e transgressiva dos cantores provenais, eleita por ele como uma espcie de nova moral contra o mecanicismo;

    - ingaia cincia: cincia triste;- madureza: tema recorrente em Claro enigma; a velhice como constatao

    da iminncia do fim;- a conscincia resultante da madureza ope-se ao sabor gratuito da

    oferenda (novidade, surpresa);- o amadurecimento do ser associado ao desencanto, perda das

    esperanas.

  • Que lembrana darei ao pas que me deutudo que lembro e sei, tudo quanto senti?Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceuminha incerta medalha, e a meu nome se ri.

    E mereo esperar mais do que os outros, eu?Tu no me enganas, mundo, e no te engano a ti.Esses monstros atuais, no os cativa Orfeu,a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.

    No deixarei de mim nenhum canto radioso,uma voz matinal palpitando na brumae que arranque de algum seu mais secreto espinho.

    De tudo quanto foi meu passo caprichosona vida, restar, pois o resto se esfuma,uma pedra que havia em meio do caminho.

  • - Mais um exemplo da recuperaco das formas clssicas (soneto, decasslabos);

    - reflexo sobre o legado do poeta;- legado: reflexo desencantada sobre o papel da poesia e do poeta em

    relao ao mundo (Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu / minha incerta medalha, e a meu nome se ri.);

    - o poema revela o afastamento do poeta em relao aos fatos, poesia social, to marcada em obras anteriores (Sentimento do mundo, A rosa do povo);

    - Esses monstros atuais, no os cativa Orfeu, / a vagar, taciturno, entre o talvez e o se: Orfeu, personagem da mitologia grega, capaz de encantar as feras com sua lira. Os monstros atuais representam metaforicamente os fatos concernentes realidade. Trata-se, pois, da constatao de que a poesia (Orfeu) no instrumento eficaz para transformar a realidade (afastamento de temas abertamente sociais);

    - intratextualidade: No meio do caminho.

  • Que metro servepara medir-nos?Que forma nossae que contedo?

    Contemos algo?Somos contidos?Do-nos um nome?Estamos vivos?

    A que aspiramos?Que possumos?Que relembramos?Onde jazemos?

    (Nunca se findanem se criara.Mistrio o tempoinigualvel.)

  • - Observar a relao entre as formas do cavalo-marinho e do ponto de interrogao;

    - reflexo sobre a poesia (metalinguagem) X reflexo sobre o ser;- por meio de perguntas breves e incisivas, o poeta incita o leitor a pensar

    no apenas nos sentidos da existncia humana, mas tambm no que constitui o prprio poema, tomado como um organismo vivo, feito de medidas, formas, sentidos, sempre em estado de movimento;

    - tempo: misterioso e implacvel (tema recorrente em Claro enigma).

  • Onde nasci, morri. Onde morri, existo. E das peles que visto muitas h que no vi.

    Sem mim como sem ti posso durar. Desisto de tudo quanto misto e que odiei ou senti.

    Nem Fausto nem Mefisto, deusa que se ri deste nosso oaristo,

    eis-me a dizer: assisto alm, nenhum, aqui, mas no sou eu, nem isto.

  • - Interpretao da heteronmia pessoana;- identidade X multiplicidade;- impossibilidade de se considerar a identidade de forma clara, objetiva;- antteses, oposies, paradoxos;- a existncia do indivduo no se submete s leis da realidade objetiva.

    possvel existir mesmo diante da morte (memrias, lembranas);- o apagamento do sujeito, da subjetividade um caminho para a existncia;- o poeta no Fausto (aquele que vendeu sua alma ao Diabo) nem

    Mefistfeles (demnio, signo do mal).

  • Noite. Certomuitos so os astros. Mas o edifciobarra-me a vista.

    Quis interpret-lo.Valeu? Hojebarra-me (h luar) a vista.

    Nada escrito no cu,sei.Mas queria v-lo.O edifcio barra-mea vista.

    Zumbidode besouro. Motorarfando. O edifcio barra-mea vista.

    Assim ao luar mais humilde.Por ele que sei do luar.No, no me barraa vista. A vista se barraa si mesma.

  • - Opacidade: impossibilidade de ver, de conhecer;- edifcio: metonmia da cidade, barra a vista do eu lrico, que no consegue

    ver o cu;- Zumbido / de besouro = Motor / arfando sensaes equivalentes; o

    espao urbano impe obstculos percepo do eu lrico;- observar a concluso do poema: por mais que parea controlar o processo

    de escrever, o poeta sempre sabe que h limitaes desconhecidas aoredor dele, to ntimas e habituais que nem pode defini-las (A vista se barra/ a si mesma). Os poema