cardoso e cunha - razao provisoria

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RAZO PROVISRIA

TITO CARDOSO E CUNHA

2005

www.lusosoa.net

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TITO CARDOSO E CUNHA

Razo ProvisriaEnsaio sobre a mediao retrica dos saberes

UNIVERSIDADE DA BEIRA INTERIOR

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Coleco - TA PRAGMATA Direco: Jos Manuel Santos Design da capa: Jorge Bacelar Desenho da capa: Francisco Paiva Edio e Execuo Grfica: Servios Grficos da Universidade da Beira Interior Tiragem: 400 exemplares Covilh, 2004 Depsito Legal N 214076/04 ISBN 972-8790-21-X

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ndiceAgradecimentos ................................................................. 7 Prefcio .............................................................................. 9 1. Retrica e sofstica ................................................... 13 2. Retrica e cepticismo ............................................... 41 3. Retrica e conhecimento cientfico ......................... 63 4. Retrica e cincias sociais ....................................... 87 5. Retrica e hermenutica ......................................... 109 6. Retrica e linguagem .............................................. 131 Concluso ...................................................................... 145

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AgradecimentosO trabalho necessrio escrita deste livro foi realizado na Universidade da Califrnia em Berkeley. Agradeo ao Prof. Richard Herr ter tornado possvel essa estadia bem como ao Prof. Shawn Parkhurst. Para a Dra. Deolinda Ado vai tambm a minha gratido por todo o apoio dado durante o ano de permanncia em Berkeley. Finalmente, este livro no teria sido possvel sem a bolsa de estudo proporcionada pela Fundao para a Cincia e a Tecnologia, que agradeo. Igualmente agradeo o apoio da Fundao Luso Americana para o Desenvolvimento.

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PrefcioA expresso que serve de ttulo Razo provisria inspirada num texto de Hans Blumenberg que teremos ocasio de comentar neste livro. O prprio Blumenberg alude a ao famoso passo cartesiano sobre a moral provisria. que a retrica pode assim ser entendida como o que resta do que a evidente necessidade do saber cientfico no alcana. Quando as verdades evidentes faltam, resta a retrica para dizer a verosimilhana. E no entanto, tambm as cincias se dizem por palavras apesar da generalizada retreat from the word a que G. Steiner faz aluso. A mediao retrica dos saberes cientficos constitui a tema central deste livro; isto , o que de mais provisrio se apresenta construo de pura racionalidade por eles pretendida. Cincia e Retrica, no seu uso corrente, evocamnos conotaes bem diferentes. O termo retrica remetenos para uma conotao assaz negativa que tem a ver com um pathos (emocional) pouco propcio racionalidade de um discurso argumentado e que apresenta provas das suas asseres.9

J os gregos, e particularmente os sofistas como Grgias, sabiam que a persuaso se obtinha por duas vias: a emotiva e a que usa a fora dos argumentos. Em suma, se toda a argumentao retrica, nem toda a retrica argumentativa, embora o que esteja sempre em causa, em ambos os casos, seja a persuaso. Podem diferir os modos de a atingir. Nenhum dos aspectos aqui se exclui, embora a ateno tenda a recair mais na vertente argumentativa da retrica. O acento na contemporaneidade de ambas tem um sentido que convir esclarecer. De outro modo pareceria incongruente a inicial referncia ao que de aparentemente menos contemporneo se poderia invocar, os sofistas. Da sua mais profunda antiguidade, o que o seu nome em ns desperta a convico de uma doutrina que, j no seu tempo, o de Plato e Aristteles, pareceria ultrapassada ou pelo menos estes, afinal quem mais profundamente marcou o nosso ocidente cultural, assim o tero pensado. Mas, precisamente, por as aparncias no serem de fiar, bem como os esteretipos inquestionados, que aqui se procurar interrogar a configurao do pensar sofstico luz do que nos possvel, hoje, saber. Posteriormente, se o cepticismo est na base do que os sofistas nos ensinaram pensando e praticando a retrica, esse mesmo cepticismo podemos reencontr-lo em Montaigne, paradigmtico que , segundo Stephen Toulmin, de uma outra modernidade que no a que encontra em Descartes o seu mais conhecido expoente. Desta modernidade temos ns vivido, confiantes que fomos, at h bem pouco, numa ideia da cincia e do discurso em que ela se diz que dava um lugar bem maior evidncia do que tortuosa sinuosidade dos processos persuasivos.10

Impunha-se igualmente uma releitura da retrica luz da sua parceria histrica com a hermenutica, seguindo assim o percurso a que um Gadamer nos convida. Ambas desempenham um papel central na razo provisria, ou nas razes provisrias, a que a discursividade se atm do lado de c do que resta na distino com o campo cientfico, no sentido estrito do termo, aquele que se retira da palavra, no dizer de Steiner. Finalmente, as propostas de G. Lakoff e M. Johnson sobre esse dispositivo retrico por excelncia que a metfora, parecem-nos igualmente centrais para se poder pensar a retrica contempornea no mbito alargado de um campo de saber que, com Blumenberg, pensamos poder ser seguido a caminho de uma antropologia filosfica.

Berkeley, Agosto 2002

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1. Retrica e sofsticaAo iniciar este livro pelo tema das origens sofsticas da retrica no se pretende fazer uma abordagem historicista ou diacrnica do assunto. A referncia s origens, pretende-se aqui que seja entendida no modo de uma revisitao particularmente atenta e orientada para aquilo que dessa origem nos prximo, hoje. Dito de outro modo, revisitando a retrica na sua primordialidade a nossa ateno dirige-se formulao da seguinte pergunta: o que que, do princpio, sustenta ainda a actual possibilidade de pensar com os seus meios? Dito de outro modo, porque que hoje podemos pensar to "retoricamente", o que se nos esclarecer por esta revisitao, assim se espera. Revisitar de maneira compreensiva a retrica na sua origem , necessariamente, investir o problema da sofstica. Antes do mais, pondo a seguinte questo: retrica e sofstica so o mesmo? A verso corrente d-nos a retrica como tendo sido "inventada" pelos sofistas e ser conhecendo os sofistas que conheceremos a retrica na sua origem. Diz a lenda que ela apareceu, como prtica discursiva de argumentao agonstica (antilgica, contraditria), em13

Siracusa, no sc. V a.C., nos seus tribunais, praticada por Corax e Tisias que sobre a sua tcnica escreveram os primeiros tratados. Sobre a "inveno" da retrica pelos sofistas, diznos W. C. Guthrie que o termo tem, neste contexto, um sentido preciso: nomeadamente a introduo do apelo probabilidade em vez do facto, o estabelecimento de regras para a sua aplicao e a sua incorporao nos manuais escritos1. Mas, quem foram os sofistas no seu tempo? A maior parte das vezes conhecemo-los atravs de Plato. No entanto, como escreveu W. Benjamin nas suas reflexes sobre a histria, o continuum da histria o dos opressores. Enquanto que a representao do continuum tudo nivela, a representao do descontinuum a base de toda a tradio autntica2. Ocorre-nos este passo ao pensar nesse afrontamento entre Plato e os Sofistas. Que aquele tenha sado vencedor desse embate, atesta-o o que ns ainda hoje trivialmente pensamos da retrica e que era precisamente o que opunha Plato aos Sofistas. A vitria platnica, predominante no continuum da histria da filosofia, como a vitria dos opressores que votam a memria dos oprimidos ao esquecimento: o continuum da histria o dos opressores. A histria dos oprimidos um descontinuum. O descontinuum de uma tradio, a dos sofistas, que se ope "historia como continuum dos acontecimentos" em que Plato e Aristteles iniciam um continuum em que os sofistas e a retrica se inscrevem em excluso.______________________________

W. K. C. Guthrie, A history of Greek Philosophy. III The FifthCentury Enlightenment. Cambridge U. P., 1969, p. 178. 2 In crits franais. Gallimard, 1991, p. 352.

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Apesar da lenda, alguns3 pensam que teria sido afinal Plato a "inventar" a palavra retrica tendo a sua primeira apario sido atestada no dilogo Grgias. Os especialistas discutem ainda a justeza de uma tal alegao mas, mesmo que ela no viesse a ser confirmada, o que no parece provvel a avaliar pelo estado da discusso, a tese no deixaria de indicar o papel determinante tido por Plato na definio futura da ento recente disciplina. A discusso platnica com a sofstica, afinal to obsessivamente presente ao longo de toda a obra de Plato, acabou por ser um dos elementos mais determinantes, se no o mais determinante, na construo da prpria disciplina. Determinante certamente na definio da negatividade que a foi acompanhando at aos tempos mais prximos. Negatividade atenuada, poder-se-ia dizer, porque o apenas de uma "mereness" no dizer de Gaonkar 4, negatividade que faz dela uma mera secundaridade com o estatuto de "suplemento". E, para mais, suprfluo. No pois uma negatividade que se afirma por si, apenas algo a que falta o essencial. O essencial do sentido, entenda-se, neste caso. Se mediante o discurso fosse possvel tornar pura e lmpida, aos olhos dos ouvintes, a verdade dos factos, seria fcil a sentena logo aps o que foi dito. Mas, como assim no ...5.______________________________

Cf. E. Schiappa, Protgoras and Logos: a study in Greek philosophy and rhetoric. University of South Carolina Press, 1991. 4 D. Gahonkar, Rhetoric and its double, in H. Simons (Ed.), The Rhetorical Turn. Chicago University Press, 1990. 5 Grgias, Testemunhos e fragmentos. Ed. Colibri, 1993. Fr.11a, p. 59 desta edio.

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O que aqui posto em causa a possibilidade de a verdade poder ser dita, existir discursivamente. No fundo, como no-lo lembra Perelman, Descartes anda aqui por perto quando argumenta o seu cepticismo metdico: se a verdade se dissesse, impor-se-ia por si ao esprito