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O carter esttico do texto literrio na formao do leitor

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  • Revista ContraPonto, Belo Horizonte, v. 3, n. 4, 2013. 111

    O CARTER ESTTICO DO TEXTO LITERRIO NA FORMAO DO

    LEITOR

    THE AESTHETIC CHARACTER OF LITERARY TEXT IN THE READERS

    FORMATION

    Audemaro Taranto Goulart*

    Viviane de Cssia Maia Trindade**

    Resumo

    O presente texto tem por finalidade argumentar sobre o potencial de

    efeito esttico das estruturas lingusticas do texto literrio sobre o

    leitor. Nos espaos de formao de leitor, quase sempre, ao se

    explorar os textos literrios, d-se enfoque s questes psicolgicas,

    opinies subjetivistas e expresses individuais sem que a estrutura

    lingustica seja ressaltada como o elemento propulsor das

    elucubraes do leitor. No outro extremo, h tambm as abordagens

    que deixam de lado a relao forma e contedo e seus efeitos,

    destacando somente as estruturas textuais, em nome de uma

    interpretao do texto com foco em elementos gramaticais.

    Considerando-se esse aspecto, sero ressaltadas as ideias de Wolfgang

    Iser sobre o carter esttico da obra literria e seus efeitos sobre o

    leitor. Outra questo que ser abordada diz respeito ao potencial

    humanizador da literatura, que ser discutido a partir das ideias de

    Friedrich Schiller e do texto O direito literatura, de Antonio Candido.

    Palavras-chave: Formao de leitor; Efeito esttico; Carter

    humanizador da literatura.

    Abstract

    This paper aims to discuss the potential aesthetic effect of linguistic

    structures on literary texts on the reader. In readers educational training circles, while exploring literary texts, the focus is driven most

    frequently to psychological issues, subjective opinions and individual

    expressions, without emphasizing the linguistic structure as the

    propulsive element of the readers reflections. On the opposite extreme we find approaches that leave aside the relationship between

    * Professor doutor da Pontifcia Universidade Catlica de Minas Gerais.

    **

    Mestra em Literaturas de Lngua Portuguesa pela PUC Minas. Tcnica da Secretaria Municipal de

    Educao de Belo Horizonte.

  • Audemaro Taranto Goulart e Viviane de Cssia Maia Trindade

    Revista ContraPonto, Belo Horizonte, v. 3, n. 4, 2013. 112

    form and content and its effects, emphasizing just the textual

    structures on behalf of an interpretation of the text with a focus on

    grammatical elements. Considering this aspect, Wolfgang Iser's ideas

    about the aesthetic character of the literary work and its effect on the

    reader will be highlighted. Another issue that will be addressed

    concerns the humanizing potential of literature, which will be

    discussed in the perspective of Friedrich Schillers ideas and through the text "The right to literature" by Antonio Candido.

    Keywords: Readers formation; Aesthetic effect; Humanizing character of literature.

    INTRODUO

    No presente artigo trataremos dos aspectos que definem um texto como literrio,

    ou de como sua estrutura pode ser a causa de um efeito esttico.

    Nos espaos de formao de leitor, quase sempre, ao se explorar os textos

    literrios, d-se enfoque s questes psicolgicas, opinies subjetivistas e expresses

    individuais sem que a estrutura lingustica seja ressaltada como o elemento propulsor

    das elucubraes do/no leitor. No outro extremo, h tambm as abordagens que deixam

    de lado a relao forma e contedo e seus efeitos, destacando somente as estruturas

    textuais, em nome de uma interpretao do texto com base em elementos gramaticais.

    Porm, a experincia de dar sentido a um texto, que resulta na realizao da

    leitura, motivada pela estrutura aberta do texto esttico. No jogo de escolhas de

    sentidos para um texto, a forma esttica a grande motivao para que o leitor mobilize

    seu conhecimento de mundo, suas experincias, e atualize cada texto que l.

    Outra questo que ser abordada diz respeito a um aspecto da literatura que o

    de facilitar ao homem rever sua condio trgica de assujeitado diante do destino e, por

    meio da forma esttica, ter cincia dessa condio, compreender, denunciar, negar.

    Nessa acepo, a literatura pode ser vista como um exerccio de reflexo do homem

    sobre sua prpria condio. No apontamento desses aspectos, as cartas de Friedrich

    Schiller oferecero os elementos de compreenso do papel de formao pela arte. Tal

    carter humanizador ser enfatizado tambm a partir de O direito literatura, de

    Antonio Candido.

    O panorama da presente discusso ser traado, portanto, por meio de princpios

    filosficos ligados a uma definio geral do carter esttico da arte. Como o objeto

  • O carter esttico do texto literrio na formao do leitor

    Revista ContraPonto, Belo Horizonte, v. 3, n. 4, 2013. 113

    esttico que ser tratado por esta anlise o literrio, outra dimenso a ser apresentada

    pela discusso a do campo da teoria literria. Considerando-se esse aspecto, sero

    ressaltadas as ideias de Wolfgang Iser sobre o carter esttico da obra literria e seus

    efeitos sobre o leitor. Aps fazer esse percurso por alguns aspectos do campo da

    Esttica e da Teoria da Literatura, ser analisado o texto Por parte de pai, de

    Bartolomeu Queiroz, com base na funo de suas estruturas lingusticas. A noo de

    estrutura lingustica com a qual sero operadas as anlises est relacionada com o que

    Iser prope, ou seja, que o aspecto verbal do texto dirige, at certo ponto, a reao do

    leitor, impedindo sua arbitrariedade interpretativa. Essa noo revela que para o autor as

    estruturas do texto so a prefigurao da recepo, j que elas possuem um potencial de

    efeito que se realiza com o ato do leitor. Desse modo, na acepo apresentada, o que se

    pode concluir que, para Iser, as estruturas do texto so, ao mesmo tempo, estrutura

    verbal, medida que do forma ao texto, e estrutura afetiva, j que preenchem sua

    funo medida que afetam o leitor. Assim, o texto ser dividido em trs partes. Uma

    tratar dos pressupostos tericos que explicam o carter humanizador da literatura, a

    outra, o aspecto ficcional como ato intencional de formatao de um imaginrio e, por

    fim, na ltima parte, pretende-se evidenciar a forma do texto literrio e seus efeitos

    estticos.

    FRIEDRICH SCHILLER E ANTONIO CANDIDO

    Antonio Candido (2004), no artigo O direito literatura, desenvolve

    importantes reflexes sobre a sociedade contempornea que muito se assemelham s

    ideias de Friedrich Schiller (1990) sobre a sociedade de sua poca. Seus argumentos

    denunciam a barbrie na qual vivemos, porm, diferentemente do momento sobre o qual

    Schiller faz suas reflexes, quando os avanos tcnicos comeavam a interferir nos

    modos de vida da sociedade, Antonio Candido flagra uma sociedade altamente

    tecnolgica, mas que, nem por isso, mais justa. Consciente dessa contradio, o crtico

    brasileiro define a barbrie como estando ligada ao mximo da civilizao, e, apesar de

    possuirmos meios materiais e tecnolgicos para fazermos essa sociedade mais justa,

    isso no ocorre. Essa constatao nos permite aproximar tal fato afirmao de Schiller

    (1990) de que a sociedade de seu tempo vivia uma incoerncia entre a teoria e a prtica,

  • Audemaro Taranto Goulart e Viviane de Cssia Maia Trindade

    Revista ContraPonto, Belo Horizonte, v. 3, n. 4, 2013. 114

    j que, com o Iluminismo, o esclarecimento, do qual as camadas mais altas daquela

    poca se vangloriavam, tratava-se apenas de uma cultura terica. Da mesma maneira

    que Schiller ansiava por uma cultura que transformasse o cotidiano das formas de vida,

    Antonio Candido, por sua vez, argumenta em favor de uma sociedade mais democrtica,

    em que os direitos humanos fossem garantidos, pois, em sua opinio, fazemos parte de

    uma era na Histria em que possvel, ainda que do ponto de vista terico, solucionar

    as grandes injustias e desarmonias.

    A FORMA ESTTICA COMO ESTRATGIA HUMANIZADORA

    No artigo O direito literatura, Antonio Candido constri seus argumentos no

    sentido de conclamar aqueles que lutam pelos direitos humanos1 a pensarem que o

    fundamento de tal causa reconhecer que aquilo que consideramos indispensvel para

    ns tambm indispensvel para o prximo (CANDIDO, 2004, p. 172). Nesse sentido,

    dentre o direito de todos a bens fundamentais como casa, sade, comida, educao, ele

    insere o direito literatura, pois, como todos os outros, esta tambm um bem

    incompressvel. Seu argumento para insero da literatura entre aquilo que essencial

    se baseia no fato de que a literatura uma manifestao universal de todos os povos em

    todos os tempos. A partir da, Candido conclui que sua importncia se constitui como

    fator indispensvel de humanizao. Na opinio desse intelectual, homem algum pode

    viver sem entrar em contato com alguma fabulao, e as criaes literrias agem como

    fator de equilbrio social, confirmando o homem na sua humanidade. Argumenta ainda

    que cada sociedade cria as suas manifestaes ficcionais, poticas e dramticas de

    acordo com seus impulsos, as suas crenas, os seus sentimentos, as suas normas, a fim

    de fortalecer em cada um a presena e atuao deles (CANDIDO, 2004, p. 175).

    Mais uma vez, assim como Schiller, Candido recorre arte como meio

    pedaggico de emancipao da humanidade. Ele reivindica o direito literatura por ser

    esta um meio de humanizao. O autor v nesses argumentos a justificativa para o

    interesse sobre a literatura como instrumento p