Capítulo 1.1

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<p>Captulo 1 A Questo Agrria Portuguesa: anlise histrica, bibliogrfica e literriaDefinitivamente, a Reforma Agrria portuguesa no foi um movimento espontneo, de inspirao imediata por parte de vrios grupos simultneos de iluminados. Se de facto se verificou pela primeira vez uma ocupao efectiva de uma quantidade enorme de terras por parte de trabalhadores aparentemente sem qualquer relao entre eles a no ser o grupo scioprofissional a que pertenciam, este fenmeno no pode ser retratado como o foi pelos seus contemporneos: como um belo sonho quase de inspirao divina (isto ainda agravado pelo facto de estarmos a lidar com uma populao com muitos baixos ndices de religiosidade). Pelo contrrio, este movimento e os legisladores a ele associados foram herdeiros de uma srie de correntes fisiocrticas e mercantilistas, cujas tentativas de resoluo dos problemas sociais ligados terra e agricultura atravessaram os sculos. Se bem que a sua grande maioria no tenha ultrapassado o contexto terico e literrio, alguns marcos significativos da legislao portuguesa introduziram alteraes profundas no panorama agrrio e nas relaes sociais nos campos portugueses. Num trabalho de Histria impe-se a apresentao cuidada desta questo e das respectivas origens histricas, pretendendo-se, sem ser completamente exaustiva, pelo menos estudar a evoluo dos diagnsticos e propostas relativas ao problema agrcola portugus, tendo o cuidado de no descuidar a linguagem e cair na tentao de alguns autores que descrevem A Reforma Agrria de D. Afonso Henriques quando distribuiu as terras pelas ordens militares; ou a reforma agrria avant la lettre de D. Fernando com a lei das Sesmarias, referida por Oliveira Marques 1 ; ou ainda a reforma agrria absolutista, descrita por Hlder Fonseca e Rui Santos 2 . Se bem que estes momentos histricos, assim como a legislao liberal da primeira metade do sculo XIX e a legislao proteccionista do final do mesmo 3 , tenham alterado profundamente o meio rural portugus, a nenhum deles se atribuiu formalmente a designao de Reforma Agrria. Tentando algum rigor lingustico, a primeira expresso que se vulgarizou para definir as preocupaes com o abastecimento alimentar do reino e com a necessidade do recurso 1</p> <p>A. H. de Oliveira Marques Lei das Sesmarias, in Joel Serro (dir.) Dicionrio de Histria de Portugal, vol. V, Livraria Figueirinhas, Porto, 1981, pp. 544. lvaro Cunhal tambm escreveu sobre As lutas de classes em Portugal nos fins da Idade Mdia (2 ed. revista e aumentada, Estampa, Lisboa, 1980). 2 Hlder Adegar Fonseca e Rui Santos Trs sculos de mudanas no sector agrrio alentejano: a regio de vora nos sculos XVII a XIX, Ler Histria, 40 (2001), p. 70.</p> <p>27</p> <p>importao dos cereais foi consagrada por Jos Luciano de Castro em 18564 com a sua obra A Questo das Subsistncias, ttulo adaptado por Salazar em 1916 para o seu texto Alguns Aspectos da Crise das Subsistncias 5 . E se de subsistncias se tratava nos textos dos polticos portugueses, o problema mais amplo da situao social e econmica nos campos portugueses foi sintetizado em 1908 por Lino Netto, que pela primeira vez usou em Portugal o ttulo Questo Agrria, traduzido directamente da obra de Karl Kautsky 6 , cujos temas, alm de outros que exprimiam as preocupaes da Sociologia Agrria da poca, foram desenvolvidos e adaptados realidade portuguesa por Lino Netto (1873-1961), um professor do Instituto Industrial de Lisboa, com fortes ligaes grande propriedade fundiria alentejana. Salientando os defeitos da repartio da propriedades do solo, os preos dos produtos agrcolas mais baixos que os das indstrias, a tradio nacional de orientar a economia poltica noutro sentido, os capitais fugindo da agricultura, o despovoamento dos campos e a emigrao com destino permanente para os centros urbanos, o autor alterou, contudo, a soluo apresentada: props a colectivizao parcial da terra e o seu parcelamento por meio de aforamento 7 . Mas a sua concretizao s seria possvel com uma diferente atitude psicolgica em relao ao mundo rural, que deveria ser valorizado, face aos atractivos das cidades, focos de vida social e poltica. Para tal o autor considerava necessrio fomentar o associativismo rural e, por isso, fez uma importante recenso da legislao sobre associaes de classe 8 .</p> <p>As quais Manuel Villaverde Cabral tambm classifica de Reforma Agrria, Algumas indicaes sobre os passos essenciais da Histria Agrria do Portugal Moderno, Materiais para a Histria da Questo Agrria em Portugal, scs. XIX e XX, Editorial Inova, Porto, 1974, p. 39. 4 Jos Luciano de Castro A Questo das Subsistncias, Tipografia Universal, Lisboa, 1856. 5 Antnio de Oliveira Salazar O gio do Ouro e outros textos econmicos 1916 1918, Coleco de Obras Clssicas do Pensamento Econmico Portugus, n 16, introduo de Nuno Valrio, Banco de Portugal, Lisboa, 1997, pp. 221-275. 6 Karl Kautsky afirmou a sua posio na II Internacional Socialista e pretendeu completar o volume dO Capital sobre a agricultura, descrevendo as formas, dentro da sociedade capitalista, da agricultura precapitalista e no capitalista. Esta descrio assume uma forma romntica, na qual a sociedade medieval composta por camponeses trabalhando em comunidades familiares que exploravam o seu prprio solo com o seu trabalho, e que foi desestruturada a partir do sculo XVII com a introduo das grandes exploraes que tinham uma corte de trabalhadores assalariados, o que fez crescer o antagonismo entre o explorador e o explorado, entre o possuidor e o proletrio, La cuestin agraria, 1 ed. de 1899, Ruedo Ibrico, Paris, 1970, p. 19. Entre os temas desenvolvidos salientam-se a conquista do poder poltico por parte do proletariado e a socializao da indstria, a formao de cooperativas agrcolas de grandes dimenses e a substituio do trabalhador assalariado por um cooperante livre. 7 Antnio Lino Netto A Questo Agrria, Typ. Emp. Litteraria e Typographica, Porto, 1908, p. 179. Esta sua obra foi precisamente a dissertao que apresentou como ttulo de candidatura ao concurso para provimento da 16 cadeira do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, aps a qual assumiu a posio de Professor Catedrtico daquele instituto. 8 Sobre o associativismo rural e a criao dos Sindicatos Agrcolas, alm de uma sntese da histria da ACAP (fundada em 1860), mais tarde RACAP, ver Conceio Andrade Martins Agricultor, in Conceio Andrade Martins e Nuno G. Monteiro (orgs.) op. cit., pp. 15-24 e Raul Miguel Rosado Fernandes Associao Central da Agricultura Portuguesa (ACAP), in Antnio Barreto e Maria Filomena Mnica (coords.) Dicionrio de Histria de Portugal Suplemento A/E, vol. VII, Livraria Figueirinhas, Porto, 1999, pp. 137-138. Tambm no livro CAP. Recortes de uma Luta, Edies CAP, Viseu, 1977, se encontra uma sntese do movimento associativo rural, assim como em Manuel de Lucena Sobre as</p> <p>3</p> <p>28</p> <p>Esta abordagem das questes ligadas economia agrria e sobretudo ao eterno problema do abastecimento alimentar portugus, apresentando os problemas considerados mais importantes e sugerindo solues cuja originalidade vai diminuindo ao longo dos sculos, tem origens remotas na literatura cientfica portuguesa (ver resumo dos autores e temas tratados no anexo 2), cuja leitura nos revela um complexo de problemas sociais e polticos diversos que preocuparam geraes de tericos. Jaime Reis resumiu criticamente (negando cada uma) as tentativas de explicao do atraso econmico portugus e da decadncia que se verificava nos finais do sculo XIX a trs factores fundamentais presentes em praticamente toda a bibliografia: em primeiro lugar, o mal radicava-se na dependncia externa do Pas (...) a economia via-se relegada a uma especializao produtiva, a primria, de produtividade no s baixa, como difcil de elevar; depois, a estrutura fundiria vinda do Antigo Regime, alterada e consolidada pela reformas liberais do sculo XIX, que resultou numa excessiva concentrao da propriedade nas mos dos latifundirios do Sul, a par de uma excessiva fragmentao e disperso da propriedade camponesa no Norte; finalmente, as estruturas sociais e mentais da poca, a dominao aristocrtico-religiosa da sociedade do Antigo Regime e uma burguesia fraca, dividida e indecisa 9 .</p> <p>1.1 Autores e Temas Sem dvida o primeiro dos autores de referncia que teorizou sobre a Questo Agrria portuguesa e deu origem ao seu debate ao longo dos sculos foi o Padre Manuel Severim de Faria, que em 1655 descreveu as causas da falta de populao do Alentejo e a necessidade do uso de mo-de-obra escrava e deu sugestes para o seu povoamento, com o objectivo de abastecer o reino de cereais 10 . A sua citao de Plnio consagrou para sempre a palavra latifndio 11 , o qual contribura para a decadncia do Imprio Romano. Por esse motivo, Severim Faria sugeriu a diviso das herdades e a sua colonizao por aforamentos 12 . Os</p> <p>federaes de grmios da lavoura (breve resumo sobre o que fizeram e deixaram de fazer), Anlise Social, vol. XVI (64), 1980, pp. 738-739. 9 Jaime Reis O atraso econmico portugus em perspectiva histrica (1860 1913), Anlise Social, vol. XX (80), 1984, pp. 9-10. 10 I Discurso, cap. V: Porque no he to povoado como as demais Provincias do Reyno, Manuel Severim de Faria Noticias de Portugal oferecidas a el-rei D. Joo IV, 2 impresso acrescentada pelo Padre D. Joz Barbosa (1 ed. Officina Craesbeeckiana, 1655), Oficina de Antnio Isidoro da Fonseca, Lisboa, 1740. 11 O latifndio de Plnio passou a fazer parte das expresses mais citadas, ver, por exemplo, Joaquim Jos Varela in Teresa Fonseca Joaquim Jos Varela e a Memria Estatstica cerca da notvel vila de Montemor-o-Novo (1816), Edies Colibri, Lisboa, 1997, p. 49 e o abuso que dela foi feita na segunda metade do sculo XX em Portugal. 12 Manuel Severim de Faria op. cit., p. 22.</p> <p>29</p> <p>temas da deficiente distribuio da populao portuguesa e da colonizao do Sul por gente do Norte foram repetidos ainda em pleno sculo XX em vrios planos de colonizao interna do Estado Novo. Para quem objectasse com a falta de gua ou de produtividade da terra no Alentejo, Severim Faria respondeu com a abertura de poos e a possibilidade de diversificao das culturas, soluo retomada nos diversos planos de hidrulica agrcola dos finais do sculo XIX (incluindo os projectos de lei de Oliveira Martins e, j no sc. XX, de Ezequiel de Campos) e concretizados na segunda metade do sculo XX com a construo de barragens no Ribatejo e Alto Alentejo. A lista dos temas abordados por este autor e as solues por ele propostas parecem ter perseguido a literatura agrria, o que constituiu motivo de lamento para alguns defensores da lavoura alentejana tradicional. o caso de Jos Adriano Pequito Rebelo, grande proprietrio do concelho do Gavio, que descreveu em 1926 as Falsas ideias claras, erros falsamente evidentes, sofismas que subtilmente captam o nosso assentimento e depois se pem a correr como boa moeda, frmulas perentrias (sic) de um intelectualismo fcil 13 , assim como o seu sobrinho Jos Hiplito Raposo, que em 1977 considerou o padre Severim de Faria responsvel por uma enorme quantidade de ideias erradas que se divulgaram e que deram origem ao movimento de Reforma Agrria. Segundo este autor, Severim de Faria espalhou mitos (usa tambm o termo mania, repetido por Villaverde Cabral 14 ) que muito mal fizeram agricultura alentejana: Mal sonhava que essa obra iria influenciar sucessivas geraes de polticos, economistas e agrnomos at aos nossos dias. Estes mitos foram consolidados no projecto legislativo de Oliveira Martins, distorcendo os problemas e impedindo a sua verdadeira resoluo 15 . De facto, desde as Memrias da Academia das Cincias de Lisboa que esta herana bastante visvel nos textos dos mais variados autores, chegando ao final do milnio quase intacta. Por este motivo no surpreende que o Sr. General Vasco Gonalves, na entrevista que me deu, tenha feito questo de citar a obra de Severim de Faria, alm da Antologia dos economistas portugueses, de Antnio Srgio, e a tese de Jlio Silva Martins, com as quais ele concluiu que desde h 3 sculos se falava de Reforma Agrria em Portugal 16 . Um sculo depois de Severim de Faria, D. Lus da Cunha escreveu o seu Testamento Poltico, sob a forma de uma carta a D. Jos (no incio do seu reinado), na qual deu conselhosJos Pequito Rebelo As falsas ideias claras em economia agrria, Nao Portuguesa, Lisboa, 1926, p. 13. Jos Rebelo Raposo Amargas Verdades Agrrias, e. a., Lisboa, 1962, p. 69 e Villaverde Cabral op. cit., p. 543. 15 Jos Hiplito Raposo Alentejo: Dos princpios chamada Reforma Agrria, O Sculo, Lisboa, 1977, pp. 63, 81. Salienta-se que Jos Rebelo Raposo o mesmo que Jos Hiplito Raposo. 16 Entrevista realizada em Lisboa, em 30/10/1998.14 13</p> <p>30</p> <p>ao jovem rei e enumerou as obrigaes dos pais de famlia, com a inteno de lhe dar exemplos de boa conduta 17 . Nesta obra, a abordagem diferente da de Severim de Faria, pois as causas apresentadas para o atraso da agricultura residem antes nos grandes encargos que incidiam sobre as terras e que impediam o investimento. Estes encargos eram devidos ao sistema de enfiteuse, j apontado em 1610 por Duarte Nunes do Leo 18 como negativo. Este foi, alis, um dos pontos de discrdia desta questo: enquanto os herdeiros de Severim de Faria defenderam a diviso da propriedade a sul e a sua distribuio por aforamento, outros atacaram a enfiteuse como maior responsvel pela decadncia da agricultura portuguesa. Esta segunda posio, mais vocacionado para os problemas do norte de Portugal, no impediu D. Lus da Cunha de abordar alguns dos defeitos da estrutura fundiria alentejana e entender que, nos casos em que as terras estivessem incultas, os proprietrios deviam ser obrigados a aforlas. Por isso o autor aconselhou o rei a mandar avaliar essas terras para se saber se eram capazes de alguma produo, ou, em alternativa, aconselhou a sua florestao 19 . Na mesma linha do tema da falta de capitais para a agricultura e da necessidade de se facilitar o acesso ao crdito escreveu o Conde de Linhares, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, em 1798 20 , cujas preocupaes incidiram sobre o facto dos domnios directos e teis estarem dividido por diferentes pessoas, o que implicava a cobrana de direitos excessivos. O seu plano, bastante pormenorizado, advoga o fomento das instituies de crdito e a melhoria dos meios de comunicao, preocupando-se ainda com a questo do arrendamento rural e da industrializao do pas para aumentar o consumo; foi seguido de um Projecto de Carta de Lei sobre Reformas na Agricultura (c. 1800) que antecedeu a legislao liberal, prevendo a remisso de todos os direitos enfituticos e censuais em prdios rsticos e urbanos, em morgados e bens vinculados, e a abolio dos bens de mo-morta.</p> <p>D. Lus da Cunha Testamento Poltico (1747), Iniciativas Editoriais, Lisboa, 1978. Duarte Nunes do Leo Descripo do Reino de Portugal em que se trata da sua Origem, Produces, das Plantas, Mineraes, e Fructos: com huma breve noticia de alguns Heres, e tambem Heronas, que se fizero distintos pelas virtudes, e valor, 2 ed. (1 ed. 1610), Officina de Simo Thaddeo Ferreira,...</p>