caos, complexidade e ling¼­stica

Download Caos, complexidade e Ling¼­stica

Post on 31-Oct-2015

27 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • Caos, complexidade e LingsticaAplicada: dilogos transdisciplinares

    Antnio Carlos Soares MartinsUniversidade Estadual de Montes Claros

    Jnia de Carvalho Fidelis BragaUniversidade Federal de Minas Gerais

    RESUMO: Neste texto, apresentamos um panorama de estudos na rea daLingstica Aplicada que discutem questes relativas ao processo dedesenvolvimento de segunda lngua, bem como aspectos relacionados aosambientes interacionais de aprendizagem na perspectiva das teorias doCaos e Complexidade. Para isso, discutimos as principais noes daperspectiva da complexidade, retomando alguns aspectos da fsica clssicae contempornea.

    PALAVRAS CHAVE: teorias do caos e da complexidade; lingstica aplicada;transdisciplinaridade; aprendizagem de lnguas.

    ABSTRACT: In this paper, we present a panorama of studies in the area ofApplied Linguistics that discuss questions regarding second languagedevelopment as well as aspects related to interactional learning environmentsin the light of Chaos and Complexity theories. To accomplish this, we discussthe main notions of complexity through the rethinking of some aspects ofclassic and contemporary physics.

    KEY-WORDS: chaos and complexity theories; applied linguistics;transdisciplinarity; language learning.

    Surgida inicialmente nas cincias naturais, a teoria da complexidadetem sido cada vez mais utilizada para a compreenso de sistemas humanose sociais. Como destaca Morin (1990), a vida humana um fenmeno deauto-eco-organizao extraordinariamente complexo e, portanto, osfenmenos antropossociais no podem obedecer a princpios deinteligibilidade menos complexos do que aqueles requeridos para osfenmenos naturais.

    Nesse sentido, apresentamos contribuies na rea da LingsticaAplicada que compartilham o pensamento de que existem similaridadesentre as proposies das teorias do caos e da complexidade e os fenmenos

    09-Antonio-Carlos.p65 26/11/2007, 10:24215

  • Rev. Brasileira de Lingstica Aplicada, v. 7, n. 2, 2007216

    que se manifestam no processo de desenvolvimento1 de uma segundalngua.2

    Compartilhamos a idia de Demo (2002) de que o conhecimento e aaprendizagem so considerados atividades imbudas de processos nolineares, tanto em seu processo de formao e reconstruo quanto em suatessitura interna, uma vez que sinalizam fenmenos tipicamente complexos,porque no se exaurem em alinhamentos lgicos.

    O que a complexidade?

    primeira vista, a complexidade um fenmeno que acolhe umaextrema quantidade de interaes e de interferncia entre um grande nmerode unidades. Porm, a complexidade no compreende apenas quantidadesde unidades e interaes que desafiam at mesmo as possibilidades declculo; a complexidade compreende, efetivamente, o tecido deacontecimentos, aes, interaes, retroaes, determinaes, acasos queconstituem o nosso mundo fenomenal (MORIN, 1990, p. 20).

    Na cincia, a complexidade ainda um campo novo, abrangente,sem uma definio exata e limites palpveis, o que se d, principalmente,devido ao fato de a pesquisa nessa rea tentar explicar questes que desafiamtodas as categorias convencionais (WALDROP, 1992). Algumas dessasquestes, levantadas por Waldrop (1992), esto aqui resumidas em:

    1 Embora o termo aquisio seja consagrado nos estudos em Lingstica Aplicada,preferimos, neste trabalho, utilizar os termos aprendizagem, desenvolvimento eemergncia, que nos parecem mais adequados a uma perspectiva terica queconsidera toda a complexidade desses processos. Mantemos o termo aquisio aoreferirmo-nos a outros trabalhos que utilizam esse termo.2 Neste trabalho, utilizamos o termo segunda lngua para referirmo-nos a qualqueroutra lngua aprendida subseqentemente lngua materna. Reconhecemos asdistines e dualidades existentes na literatura da rea, mas alinhamo-nos a umaperspectiva terica que utiliza o termo segunda lngua para referir-se, de formageral, ao desenvolvimento de outras lnguas alm da lngua materna (ELLIS, 2003).Utilizamos o termo lngua estrangeira apenas em momentos particulares, quandofor relevante marcar que se trata de aprendizagem por meio de instruo formalem sala de aula em contexto em que a lngua em desenvolvimento no faladacomo lngua materna.

    09-Antonio-Carlos.p65 26/11/2007, 10:24216

  • Rev. Brasileira de Lingstica Aplicada, v. 7, n. 2, 2007 217

    Por que a hegemonia poltica da Unio Sovitica entra em colapso em1989? Por que o colapso do comunismo foi to completo e to rpido?

    Por que o mercado de aes caiu mais de 500 pontos em um nico diaem outubro de 1987? Muitos culpam transaes comerciais realizadaseletronicamente, mas os computadores j eram utilizados h muitos anos.Alguma razo especfica para a queda da bolsa ter acontecido naqueladata em especial?

    Por que as espcies ancestrais e ecossistemas permanecem estveis emestado fssil por milhes de anos?

    De acordo com Waldrop (1992), num primeiro momento, as questessupracitadas tm a mesma resposta: ningum sabe. Algumas dessasquestes nem mesmo parecem questes cientficas. Entretanto, se analisadascriteriosamente, percebe-se que tm muito em comum: todas elas se referema um sistema complexo, considerando-se que muitos dos agentesindependentes interagem uns com os outros de diversas maneiras; em todosos exemplos, a riqueza das interaes permite que o sistema como um todopasse por uma auto-organizao espontnea.

    Inspirados nos estudos de Cameron (1999), Finch (2001, 2004), Larsen-Freeman (1997, 2000, 2002a), Paiva (2002, 2005, 2006), Bowsfield (2004),Parreiras (2005) e Van Lier (1996, 2002), que utilizam a teoria da complexidadepara iluminar seus estudos e reflexes sobre questes relacionadas ao ensinoe aprendizagem de lnguas, propomos o seguinte desafio para a rea daLingstica Aplicada:

    por que to difcil prever resultados de aprendizagem em uma salade aula presencial ou virtual onde os alunos aparentemente usufruemdas mesmas condies: professor, instituio, nvel social, materiais,recursos tecnolgicos, abordagem pedaggica etc.?

    O pensamento cientfico: do clssico ao contemporneo3

    Um dos primeiros movimentos cientficos no Mundo Ocidentalcomeou com a necessidade de explicar a natureza com base no menornmero possvel de elementos, representado pela escola de Pitgoras com

    3 As consideraes sobre o pensamento cientfico aqui apresentadas foram elaboradasa partir dos estudos de MacGill (2005), Rossi (2001) e Prass (2005).

    09-Antonio-Carlos.p65 26/11/2007, 10:24217

  • Rev. Brasileira de Lingstica Aplicada, v. 7, n. 2, 2007218

    promissores estudos como os de Euclides, na rea de geometria, deAristteles, na gravidade, entre outros.

    Tais iniciativas cientficas tiveram um declnio na Idade Mdia, masforam redescobertas com a conquista de novos mundos, dando origem aoMovimento Renascentista. Ren Descartes, um dos expoentes dessemovimento no campo das cincias naturais, prope pela primeira vez ummtodo que estabelece regras formais de investigao cientfica, retomandoo legado grego. A revolucionria proposta de Descartes conta com o apoioe adeso da comunidade cientfica da poca, marcando o incio dasistematizao da pesquisa cientfica. Como exemplo de estudos que aderiram metodologia cartesiana, podem-se citar os estudos sobre mecnica, deGalileu Galilei, os quais abrem novos horizontes para a matemtica modernae para a fsica experimental, servindo de fundamentao para estudosexpressivos na fsica como, por exemplo, os estudos de Newton.

    Foi com Newton, entretanto, que a cincia clssica chega ao seu apogeu.Newton, usando a intuio de Galileu de abstrair o que relevante do mundofsico, o mtodo de Descartes como guia metodolgico de investigao, ea metodologia axiomtica de Euclides para sistematizar suas descobertas,apresenta comunidade cientfica os princpios matemticos da filosofianatural.

    O extraordinrio sucesso dos trabalhos de Newton provocou umaprofunda mudana na viso de mundo, o que Kuhn (2005)4 chamaria dequebra de paradigma, com seus conceitos de espao e tempo absoluto, quepreviam a existncia do espao, independente do observador e de um tempoque flui, homogeneamente, tambm desvinculado do observador. Essesprincpios, associados obra Princpios Matemticos da Filosofia Natural,desenvolvida posteriormente por Newton, marcam o incio de uma visocientfico-filosfica de mundo, conhecida como determinismo mecanicista.

    Um dos desdobramentos dessa viso a tentativa de se descrever otodo reduzindo-o investigao das partes isoladas, dando origem ao quese denomina reducionismo. A ttulo de exemplo, basta pensarmos nas idiasnewtonianas de que o Universo um grande relgio (big clock), fazendoaluso ao fato de que para que possamos entender o funcionamento deum relgio, se faz suficiente estudar isoladamente suas partes constituintes.

    4 Thomas Kuhn, em seu texto seminal publicado inicialmente em 1962, foi oresponsvel por cunhar a expresso quebra de paradigma.

    09-Antonio-Carlos.p65 26/11/2007, 10:24218

  • Rev. Brasileira de Lingstica Aplicada, v. 7, n. 2, 2007 219

    a era quntica, todavia, que desponta no fim do sculo XIX e queconduz a fsica sua fase contempornea. As possveis interpretaes damecnica quntica fazem florescer correntes cientfico-filosficas que doincio s novas vises de mundo, gerando hipteses que buscam a descrioda realidade objetiva.

    Das correntes atuais encontradas na fsica contempornea, pode-semencionar a Cincia da Complexidade, que inova ao propor uma visoholstica que incorpora a no-linearidade, a imprevisibilidade, o dinamismoda relao entre as partes, a alta sensibilidade s condies iniciais e auto-organizao de um fenmeno.

    A nova cincia

    Os conceitos bsicos que fundamentavam a concepo clssica domundo encontraram, hoje, seus limites num processo terico que oscientistas naturais no hesitam em chamar de metamorfose (PRIGOGINE;STENERS, 1984; PRIGOGINE, 1996). Essa concepo que prev a reduode um conjunto de processos naturais a um pequeno nmero de leis foi