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63Educ. Pesqui., So Paulo, v. 41, n. 1, p. 63-77, jan./mar. 2015.

Campo e grupo: aproximao conceitual entre Pierre Bourdieu e a teoria moscoviciana das representaes sociais

Rita de Cssia Pereira LimaI

Pedro Humberto Faria CamposI

Resumo

O objetivo deste artigo examinar a viso da realidade (ou do espao) social no pensamento de Pierre Bourdieu e na teoria das representaes sociais (TRS) de Serge Moscovici, tomando por desencadeador uma discusso sobre a noo de campo, proposta por Bourdieu, particularmente quando expe a sociologia do gosto, e a noo de grupo na TRS. Na sociologia de Bourdieu, o campo organizado por princpios como capital econmico e capital cultural, supondo lutas no espao social, conforme posies sociais, habitus e prticas culturais dos agentes. Na teoria das representaes sociais (TRS), os grupos, em suas comunicaes, voltam-se para o campo de um objeto que os mobiliza, supondo igualdade na relao de seus membros ao construrem um conhecimento do senso comum, consensual, a respeito desse objeto. Em uma sociologia do gosto dos artistas, por exemplo, o socilogo de inspirao bourdiesiana pode fazer tambm um quadro das prticas sociais desse grupo, no somente as referentes a um nico objeto (arte). Porm, Bourdieu parece no se ater ao estudo de grupos. Paralelamente, pode-se reprovar os estudiosos de representao social por nem sempre darem importncia suficiente base dos objetos materiais. Os dois autores tm em comum o fato de privilegiarem a dimenso simblica na construo da realidade social. Tm tambm como desafio comum superar a dicotomia subjetividade x objetividade na relao indivduo-sociedade. Por meio dessa aproximao conceitual, o texto busca constituir um olhar psicossocial para a educao, particularmente a escola, sem adotar de antemo uma teoria (TRS) em detrimento da outra (Bourdieu), mas problematizando-as reciprocamente.

Palavras-chave

Teoria dos campos Grupos Teoria das representaes sociais Escola Educao. I- Universidade Estcio de S

(UNESA), Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Contatos: ritalima@netsite.com.br; pedrohumbertosbp@terra.com.br

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-97022015011454

64 Educ. Pesqui., So Paulo, v. 41, n. 1, p. 63-77, jan./mar. 2015.

Field and group: a conceptual approximation between Pierre Bourdieu and the social representation theory of Moscovici

Rita de Cssia Pereira LimaI

Pedro Humberto Faria CamposI

Abstract

The aim of this article is to examine the view of social reality (or social space) both in Pierre Bourdieus thinking and in Serge Moscovicis social representation theory (SRT), starting from a discussion on Bourdieus notion of field, particularly when he explains the sociology of taste, and on the notion of group in SRT. In Bourdieus sociology, the field is organized by principles such as economic and cultural capital, assuming that struggles occur in the social space according to agents social positions, habitus, and cultural practices. In the social representation theory (SRT), groups orient themselves, in their communication, towards the field of an object that mobilizes them, assuming that there is equality in the relationships of members as they build consensual, common sense knowledge about this object. In a sociology of the taste of artists, for example, the Bourdieusian sociologist can also make a description of the social practices in this group, rather than describing only practices referring to a single object (art). However, Bourdieu does not seem to focus on the study of groups. On the other hand, social representation researchers could be criticized for not always giving enough importance to the foundation of material objects. Both authors have in common the fact of privileging the symbolic dimension in the construction of social reality. They also have in common the challenge of overcoming the subjectivity-objectivity dichotomy in the individual-society relationship. By means of such conceptual approximation, the article aims to build a psychosocial view of education, particularly of the school, without adopting in advance one theory (SRT) to the detriment of the other (Bourdieu).

Keywords

Field theory Groups Social representation theory School Education.

I- Universidade Estcio de S (UNESA), Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Contacts: ritalima@netsite.com.br; pedrohumbertosbp@terra.com.br

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-97022015011454

65Educ. Pesqui., So Paulo, v. 41, n. 1, p. 63-77, jan./mar. 2015.

Introduo

H algum tempo, um mal-estar atormen-ta os estudos que se fundam na teoria das repre-sentaes sociais (TRS) para tentar compreender fenmenos no campo da educao. O incmodo no menor do lado de alguns construtivismos atuais, muito zelosos da noo de subjetivida-de, contra os determinismos ditos no-crticos. Porm, considerando seu maior afastamento do campo prprio da sociologia, estes (os constru-tivistas scio-histricos) parecem atualmente ensimesmados o suficiente para no apreciarem um debate interteorias ou, como preferem os ps-modernistas, um debate transterico.

O mal-estar refere-se, no por acaso, ao desafio que se colocaram autores como Bourdieu e Moscovici quanto a superar a dicotomia subjetividade x objetividade na relao indivduo-sociedade. Em um primeiro momento, esse ponto comum pode conduzir pesquisadores da rea da educao, incluindo estudantes de ps-graduao, a estabelecerem relaes prximas entre Bourdieu e a TRS proposta por Moscovici (1976), correndo o risco de simplificarem aquilo que no simples. O presente artigo busca compreender melhor certos princpios tericos defendidos pelos autores, inseridos respectivamente na sociologia e na psicologia social, enfatizando a relevncia dessa aproximao conceitual para fundamentar questes complexas ligadas educao.

Desde o incio de suas respectivas carreiras acadmicas, uma atitude fundante do pensamento de Bourdieu e de Moscovici: retomar o valor da dimenso simblica na construo da realidade social, sem buscar estruturas de base dj l, como inspiraria a obra de Lvi-Strauss. Inspirados pelo, e em ruptura com o, pensamento de Lvi-Strauss, assim podemos situar, no sem levantar algum debate, as obras dos dois autores que ora enfocamos. A viso do espao social como composto de campos nos quais estruturas e formaes simblicas constituem um todo, uma nica realidade articulada, impe-se em

ruptura com o determinismo estruturante das noes de classe social e modo de produo. Ruptura, igualmente, com o determinismo dito de esquerda, sem retorno aos determinismos herdeiros de Hobbes, Durkheim e Weber.

A atitude epistmica dessa ruptura e a inteno de integrar subjetividade e objetividade no bastam para fundamentar uma viso de realidade social. Estruturas, instituies, grupos, habitus, prticas, papis, identidade, podem se amalgamar em uma afirmativa que parece unir a todos: o social uma construo. O cenrio de lusco-fusco: pode-se afirmar que enxergamos a realidade social, pois ainda no est escuro, mas a imagem que se oferece retina fosca. Um olhar psicossocial se apresenta como fogo-ftuo que a sociologia no mede esforos para exorcizar, debatendo-se com os conceitos de identidade ou de trajetria (DUBAR, 2009; DUBET, 1994; LAHIRE, 2002).

O mal-estar j referido pode ser interrogado em suas margens: como abordar a escola como uma instituio social, mais precisamente, como evento psicossocial? A escola, com seu espao, seu territrio, suas condies de trabalho, seus horrios, rotinas, normas, seus procedimentos (planejamento, avaliao, ensino, atividades ldicas, entre outros). A escola pblica em sua dupla injuno identitria: instituio escolar (lcus da relao ensino-aprendizagem, da transmisso e da produo de conhecimento) e a instituio pblica, aparelho de Estado. Ou a escola privada, em sua tripla injuno identitria: escola, empresa e, tambm, aparelho de Estado.

A escola pode ser estudada em sua dimen-so institucional, recortada em vrios elementos que marcam seu peso de espao ou de realidade social instituda. O problema que, ao faz-lo, as-sim, por partes, quebra-se qualquer possibilidade de ruptura, pois a descrio do institudo a fora da reproduo. Como se a escola fosse o stio mes-mo da desigualdade, a fonte da reproduo, da di-viso social do trabalho, da diferena de gneros e de toda dominao deles derivados. A narrativa possvel, nessa perspectiva, seria de grande ironia:

6666 Rita de Cssia P. LIMA; Pedro Humberto F. CAMPOS. Campo e grupo: aproximao conceitual entre Pierre Bourdieu...

a escola pensada pelos iluministas como prtica social de produo da nova ordem para combater o tradicionalismo e a aristocracia (lancien regi-me), sonhada como aparelho da Repblica para criar e sustentar o novo, findaria por se tornar a mquina da reproduo, para adaptar os indi-vduos sociedade do contrato social (desigual!).

Esse olhar para a escola permite interrogar a distncia entre o pensamento de Bourdieu (1979, 1980, 1982, 1984a, 1984b, 1986, 1987, 1989, 1991, 1994, 1998) e a teoria das representaes sociais (MOSCOVICI, 1976, 1986, 2003), com a finalidade de alcanar um terceiro prisma de investigao, outro parmetro para abordar a instituio escolar como componente de uma realidade social. Ou seja, buscamos a constituio de um olhar psicossocial, sem adotar de antemo uma das teorias (TRS) em detrimento da outra (Bourdieu), mas problematizando-as reciprocamente. Duas chaves de leitura so introduzidas e anunciadas de pronto: na viso (comum a ambos pensadores) do espao social como espao constitudo por e atravs do conflito social, o campo necessariamente campo de tenses; a segunda chave de leitura a postulao, ou no, nos dois autores, de uma explicao para a mudana social. O conflito social o motor da mudana. Porm, o que ns vamos buscar como segunda chave de leitura o entendimento e a explicitao da natureza dos p