camila silva

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  • Arquivo, histria e memria: a constituio e patrimonializao de um acervo

    privado (Coleo Varela AHRS, 1850/1930)

    Camila Silva*

    A presente comunicao busca compartilhar os esboos iniciais da tese de

    doutorado que desenvolvo no Programa de Ps-Graduao da Universidade do Vale do

    Rio do Sinos. A pesquisa prope investigar o processo de constituio e

    patrimonializao da Coleo Varela, um dos principais conjuntos documentais sobre a

    Revoluo Farroupilha, atualmente custodiada pelo AHRS (Arquivo Histrico do Rio

    Grande do Sul). Este fundo composto por mais de dez mil documentos, organizados

    em 64 maos, os quais se encontram parcialmente transcritos e publicados em formato

    impresso e digital.

    O primeiro contato com a Coleo Varela, objeto e fonte deste estudo, iniciou-se

    durante o estgio realizado junto ao AHRS. Naquela ocasio, tive a oportunidade de

    trabalhar no projeto de transcrio da documentao referente ao decnio farroupilha,

    participando da publicao de dois volumes dos Anais do AHRS1. No entanto, poca

    do estgio, meu olhar sobre este conjunto ainda no estava atento para as questes

    pertinentes ao seu contexto de produo e a histria de sua constituio. Ainda que a

    experincia no arquivo tenha me possibilitado cruzar a fronteira da sala de pesquisa,

    nota-se que a carncia de um arquivista nesta instituio de guarda documental e a

    ausncia de debates sobre os princpios da prtica arquivstica nos cursos de graduao

    em Histria2 (MIRANDA, 2012:901), acabam restringindo a abordagem dos

    historiadores ao contedo das fontes contidas nos acervos, sem que a construo

    histrica dos mesmos seja discutida.

    * Doutoranda do Programa de Ps-Graduao em Histria na Universidade do Vale do Rio dos Sinos, sob

    orientao do Prof. Dr. Paulo Roberto Staudt Moreira. Bolsista CAPES/PROSUP. 1 ARQUIVO HISTRICO DO RIO GRANDE DO SUL. Os segredos do Jarau: documentos sobre a

    Revoluo Farroupilha. Anais. Vol. 18. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2009. ARQUIVO HISTRICO DO

    RIO GRANDE DO SUL. Os soldados libertos so os mais valentes: documentos da Coleo Varela

    sobre a Revoluo Farroupilha. Anais. Vol. 20. So Leopoldo: Oikos, 2014. 2 Sobre esta questo, sugere-se o trabalho: MIRANDA, Marcia Eckert. Os arquivos e o ofcio do

    historiador. In.: XI Encontro Estadual de Histria: histria, memria e patrimnio, 2012, Rio Grande.

    Anais do XI Encontro Estadual de Histria. Rio Grande: FURG, 2012. Disponvel em:

    http://www.eeh2012.anpuhrs.org.br/resources/anais/18/1346099851_ARQUIVO_XIEncontroAnphuRegi

    onal_HistoriadoresnosArquivos_MarciaEckertMiranda.pdf. Acesso em: 03062015.

  • 2

    Salomon chama a ateno para esta problemtica, alertando que o discurso

    metodolgico e o discurso terico da histria pressupe os arquivos como dados, e

    evitam a todo custo uma reflexo sobre sua construo e sobre sua produo

    (SALOMON, 2011:14). Sobre este tema, tambm o historiador e arquivista Terry Cook,

    lembra que a dificuldade em perceber a dimenso das funes arquivsticas reside, em

    grande medida, na reduo do papel do arquivista figura de um guardio imparcial e

    do documento noo de evidncia, compreendida como um resduo natural do

    passado (COOK, 2012:153-154). Assim, esta comunicao pretende compartilhar as

    principais reflexes que contriburam para a transformao da minha percepo sobre o

    acervo ora estudado e, sobretudo, que provocaram as indagaes que motivam esta

    pesquisa.

    Tendo feito estas consideraes iniciais, reporta-se de imediato incontornvel

    reflexo de Marc Bloch, em Apologia da Histria:

    A despeito do que s vezes parecem imaginar os iniciantes, os documentos

    no surgem, aqui ou ali, por efeito de no se sabe qual misterioso decreto dos

    deuses. Sua presena ou ausncia em tais arquivos, em tal biblioteca, em tal

    solo, deriva de causas humanas que no escapam de modo algum anlise, e

    os problemas que sua transmisso coloca, longe de terem apenas o alcance de

    exerccios de tcnicos, tocam eles mesmos no mais ntimo da vida do

    passado, pois o que se encontra assim posto em jogo nada menos do que a

    passagem da lembrana atravs das geraes (BLOCH, 200:83).

    Os arquivos, neste sentido, no so desinteressadamente constitudos e

    organizados. Ao contrrio, eles possuem uma histria prpria, para alm daquela que

    guardam. Se o ofcio do historiador se baseia na observao dos testemunhos do

    passado, muitas vezes reunidos em arquivos, primordial que os mesmos sejam

    tomados como vestgios ou rastros do passado, como objeto de investigao interrogado

    pelo discurso histrico, e no seguido por este.

    Outro ponto importante destacado por Bloch a relao entre arquivo e memria.

    Nesta esteira, Mastrogregori refora que os arquivos so aes e resultados de tradies

  • 3

    de lembranas, constituindo elementos fundamentais na busca de identidades e insero

    temporal, e assinala que:

    O estudo do passado no baseado em uma fora de inrcia na produo e na

    localizao de rastros, de fontes, de documentos, mas na participao ativa de

    eras passadas uma ao que vai em direo a conservao e a destruio

    (MASTROGREGORI, 2008:46-72).

    Nesta perspectiva vai-se ao encontro de uma sociologia histrica dos arquivos 3,

    apoiando-se nas proposies de Anheim e Poncet4 sobre a necessria diferenciao

    entre arquivos e documentos. De acordo com os autores, as fontes arquivadas

    disponveis para o historiador foram fabricadas em dois tempos: o primeiro enquanto

    documento, o segundo como arquivo, isto , como documentos preservados,

    classificados e inventariados 5 (2004:3). Neste sentido, ambos chamam a ateno ao

    que denominam como mise en archives, etapa da construo simblica e material do

    arquivo, operao que altera as lgicas documentais para criar outras, afetando cada

    documento, ordenando-os em sries, fundos e lugares - elementos que se tornam

    indissociveis dos arquivos (2004:3) 6.

    Dentro desta concepo, a Arquivologia passa a ser refletida como uma disciplina

    histrica e no somente como um conjunto de tcnicas de conservao, ou uma

    ferramenta auxiliar da Histria. Os autores sugerem, portanto, uma abordagem

    interdisciplinar, na qual a Arquivstica, entendida como uma cincia que fabrica

    arquivos pode fornecer ao historiador os meios para melhor compreender como ele

    mesmo fabrica a histria (2004:3). Dialogando com esta concepo, Heymann

    observa que,

    Nessa nova perspectiva os arquivos so tomados como construtos sociais capazes de

    revelar valores e padres de comportamento; so analisados como artefatos

    3 Sobre esta questo, ver: HEYMANN, Luciana. O lugar do arquivo: a construo do legado de Darcy

    Ribeiro. Rio de Janeiro: Editora Contra Capa, 2012:75. 4 Esta obra, organizada por um historiador e um arquivista, rene uma srie de estudos que colocam em

    dilogo o estatuto epistemolgico dos arquivos, sob o ponto de vista da Arquivologia e da Histria

    (ANHEIM & PONCET, 2004:1-14). 5 Les sources archives dont dispose lhistorien ont t fabriques en deux temps: une premire fois em

    tant que documents, une seconde em tant quarchives, cest--dire ds documents conservs, classs et

    inventoris (traduo nossa). 6 La mise en archives des documents est une opration part entire, qui bouleverse des logiques

    documentaires pour em crer dautres, qui affecte chaque document ds coordonnes dans des sries,

    des fonds, des lieux autant dlments qui sont em sute indissociables du document (traduo nossa).

  • 4

    produzidos ao longo de uma srie de investimentos de naturezas distintas,

    resultantes da ao da entidade produtora do arquivo, mas tambm de seus

    organizadores e custodiadores, os quais, muito antes do trabalho seletivo

    empreendido pelo historiador, realizam em diferentes tempos e circunstncias

    suas prprias selees, classificaes e monumentalizaes (HEYMANN, 2012:38).

    A partir deste ponto de vista busca-se esquematizar uma proposta investigativa

    que restitua Coleo Varela a sua condio de objeto histrico. Na crtica scio-

    histrica indicada por Anheim e Poncet encontram-se elementos para que o arquivo em

    questo possa ser pensado para alm da sua dimenso textual, voltando-se, ento,

    ateno para a sua materialidade.

    Nessa direo, pertinente retomar as indagaes de Cook:

    Por que temos os documentos que temos em fundos de arquivos? Por que os

    descrevemos da forma que o fazemos? Por que adotamos uma mitologia

    profissional de guarda passiva ao invs da mediao ativa com o passado?

    (2012:144).

    Ao questionar os principais parmetros da prtica arquivstica, o autor reclama aos

    arquivistas um novo olhar sobre o seu objeto de trabalho, mediante o qual a tradicional

    equivalncia entre arquivo e produto, seja substituda pela noo de processo. Assim

    como em mise en archive, a ideia de processo preocupa-se em iluminar as aes que

    precedem a formao do arquivo, fazendo emergir questes pertinentes ao estudo aqui

    proposto, tais como a inter-relao de grupos e interesses na construo do arquivo, os

    critrios da dinmica da seleo e do arquivamento, e as vinculaes entre arquivo e

    memria.

    Para refletir a relao por ltimo mencionada, lembra-se de Pomian, para quem a

    reconstruo do passado funda-se em vestgios, imagens ou relquias que so os

    suportes da memria (2000:509). No mesmo sentido, Lowenthal

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