câmara escura, por guilherme dearo

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Pea escrita por Guilherme Dearo. Todos os direitos reservados. Apresentada no festival Satyrianas 2014, em novembro de 2014.

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  • 1

    Cmara escura

    _Guilherme Dearo

    Maio de 2015

  • 2

    PERSONAGENS

    O jovem

    O irmo

    Uma testemunha

    Um fotgrafo

    Homem

  • 3

    Prefcio

    HOMEM Sobrevoo a velha Sria na volta para casa. Escolhi sentar na janela. Na verdade, o nico lugar vago. Olho pelo vidro. Nada vejo.

    Sa do hotel onde estava havia uma semana ainda tarde. O Sol era

    forte. Dava para ver as casas e as pessoas e o que ainda estava de p. A

    destruio j chegou por aqui. Mas o horizonte era visvel, ainda que

    em chamas.

    O meu voo saiu de Damasco depois de trs horas de atraso, aps uma

    ameaa de bomba ser descartada. O avio decolou com a escurido

    tomando conta de todos ns.

    nessa hora que olho pela janela. Nada mais existe. Cinco minutos

    depois, no h mais luz. A capital ficou para trs. O deserto, onde antes

    existiam pequenas cidades, no conhece mais ningum.

    o quarto ano da guerra e so mais de duzentos mil mortos. Perdi trs

    amigos. Outros, com mais dinheiro, fugiram faz tempo. Eu tive de

    trabalhar mais para conseguir sair daqui. Alguns deles no tiveram a

    mesma sorte e sei que nunca tero.

    Leio que estamos na Idade das Trevas. Uma nova era de escurido nos

    abateu em pleno sculo 21. Estamos cegos. No enxergamos nossa

    prpria mo frente, no vemos quem amamos.

    Leio que 83% das luzes desse pas se apagaram. Eles as apagaram,

    entre os flashes dos bombardeios e o cheiro da morte. como um

    grande medidor oficial. Conseguimos contar quanta energia e quantas

    vidas ainda restam antes do fim. Em Aleppo, 97% se foram.

    Eu esperava ver as ruas e os prdios, mas o que vi foi o grande vcuo.

    Grande vcuo da razo e do entendimento. Esto sendo enterrados

    vivos. Onde no h mais rastro no cu, as pessoas lutam pela

    sobrevivncia at o ltimo suspiro.

    O JOVEM Estamos esquecidos onde no h mais nada. Foram embora. Viraram as costas, partiram enquanto ainda viviam. No tinham outra

    escolha.

  • 4

    Dissolvidos entre as sombras, no podemos ser vistos. Assim, nos resta

    o esquecimento. Eles querem esquecer porque no podem fazer nada

    por ns. uma forma cruel de piedade. O que nos aguarda, o que nos

    foi reservado: o apagamento.

    Ns, apenas, imersos na prpria escurido e conscincia, nesse espao

    flutuante. Silncio. Ouo apenas meus pensamentos quando a noite cai.

    Deito na cama e no preciso fechar os olhos. A grande questo, o que

    no me deixa dormir, que nada poderei escrever. Sem luz, no h o

    que desenhar, o que dizer. Sem luz, no h nada.

    O que farei das coisas que precisam ser vistas? O que farei das coisas

    que precisam ver?

    I. Quero ser terrorista

    1.

    O JOVEM Quero ser terrorista. este meu desejo agora.

    UMA TESTEMUNHA Quando o vi pela primeira vez, no imaginei essa

    frase saindo de sua boca.

    O JOVEM Eu preciso ser um terrorista. Enquanto estou aqui,

    pensando nisso, ele empilha os corpos, um por um, com a frieza de um

    tecnocrata em seu terno de muitos mil dlares.

    UMA TESTEMUNHA Ele causa esse efeito nas pessoas.

    O JOVEM O futuro no podia me reservar mais nada. No tinha como

    ser diferente. Tinha?

    UMA TESTEMUNHA Eu no sei.

  • 5

    O JOVEM Olhe para mim. Veja o que fizeram com minha famlia. Veja

    meu irmo. Tinha como ser diferente?

    UMA TESTEMUNHA Cabelo cortado de acordo com a moda. Jaqueta

    de couro, camisa da Gr-Bretanha. Cala jeans. Sapatos caros.

    Smartphone no bolso.

    O JOVEM Eu amarraria bombas em meu corpo.

    UMA TESTEMUNHA Ele sorri para as fotos. Tira as suas com um

    iPhone. Posa na frente de espelhos, brinca com os reflexos. Fotografa

    os seus amigos, que lhe sorriem.

    O JOVEM Eu vi o meu amigo morrer. E ontem uma criana foi retirada

    dos escombros.

    UMA TESTEMUNHA Ele olha para a cmera com deciso. Sorri de

    canto de boca. Fixa os olhos direto em seu interlocutor. No tem medo.

    Sorri. Ele sabe o que no sabemos.

    O JOVEM preciso por um fim nisso tudo.

    UMA TESTEMUNHA Ele tem um perfil no Facebook. E no Twitter. E

    no Instagram. Ele sabe falar ingls.

    O JOVEM Aqui tinha uma rua. Eu costumava andar por aqui. Nessas

    pedras.

    UMA TESTEMUNHA um garoto normal. seu amigo, seu vizinho.

    O JOVEM Serei o prximo?

    UMA TESTEMUNHA Dias normais em um mundo anormal.

    O JOVEM Ele se veste como um ocidental. Eu me visto com um

    ocidental? Somos parecidos?

  • 6

    2.

    O JOVEM Se Deus quiser, vou voltar amanh para Aleppo. Deus

    garante a vitria ao que certo.

    UMA TESTEMUNHA Muita gente no vai sair dessa terra arrasada.

    Eles acreditam na vitria. Acredita que certo.

    O JOVEM Eu vi Arabs Got Talent ontem noite. A televiso l de casa

    ainda funciona. Mas eu tive de contar ao meu amigo quem ganhou

    porque no bairro dele no tem luz. Ele to viciado quanto eu. Eu

    gosto de msica. Gosto desse Arabs Got Talent.

    UMA TESTEMUNHA A vida nunca deixa de continuar, hora aps hora,

    mesmo que o mundo exploda l fora.

    O JOVEM Mas muita gente por aqui no assiste e acha um absurdo.

    O IRMO O meu irmo especial. Ele um garoto comum. Ele tem

    amigos. Reza sempre. Sonha com uma Sria melhor. Antes disso, entra

    no Facebook, assiste aos seus programas, ouve as suas msicas.

    O JOVEM Acham estranho que eu goste de Katy Perry, Shakira, essas

    coisas. No sei por qu. Todo mundo na Amrica escuta, no escuta?

    Elas so bem famosas. Ento a gente escuta aqui tambm.

    O IRMO No gostam do meu irmo. Dizem que ele estranho. Ele

    posta fotos dos seus amigos, muitas fotos. Gosta de fotografar. Sempre

    com muitos coraes nos comentrios. Ele os ama.

    UMA TESTEMUNHA A quem pertence o seu corao?

    O JOVEM Este aqui meu melhor amigo, Khalid.

    UMA TESTEMUNHA preciso ter amigos do lado nos momentos

    difceis.

  • 7

    O IRMO E eu sou o irmo.

    UMA TESTEMUNHA H o nosso sangue e o sangue que escolhemos

    para ns. Podemos morrer por ambos.

    3.

    O IRMO No me lembro de como aconteceu.

    O JOVEM Eu nem tinha nascido.

    O IRMO No me lembro dele.

    O JOVEM Eu o vejo em fotos. E sinto a devida raiva.

    O IRMO Mas um escrito em um tmulo em Maqburat me lembra a

    sua vida. Vm algumas memrias.

    O JOVEM Foi quando ele nasceu para o que hoje.

    O IRMO Sinto saudade do meu av.

    O JOVEM Queria me lembrar mais dele.

    O IRMO Estamos aqui, combatendo, afinal.

    O JOVEM Ele quer nos derrubar.

    O IRMO Estamos aqui, dia aps dia. Estamos em p.

    O JOVEM Eu preciso de dinheiro. E ele deve morrer.

    O IRMO E estamos aqui.

    O JOVEM Sonho em conhecer a Inglaterra.

    O IRMO No h nada l. Eles no fazem nada por ns.

  • 8

    O JOVEM Mas jamais explodiria a Inglaterra. Eu queria ir e andar

    naqueles nibus vermelhos.

    O IRMO Um dia no ter diferena.

    O JOVEM No vou destruir o lugar que eu quero conhecer.

    O IRMO A nossa luta longa. No terminar to cedo. Mas

    venceremos.

    O JOVEM Eu sei.

    O IRMO Somos os libertadores.

    O JOVEM Conte-me. Do tempo dos libertadores.

    O IRMO Eu tambm no sei. E nossa me no fala.

    O JOVEM Nunca falou?

    O IRMO Silenciou desde aquele dia. Nunca me contou nada.

    O JOVEM Mas ela guarda a foto, no guarda?

    O IRMO Sim, a nica foto. Ele vive ali.

    UMA TESTEMUNHA Um dia ele me mandou por e-mail esta frase:

    Aps o fim do evento, a foto ainda existir, conferindo ao evento uma

    espcie de imortalidade (e de importncia) que de outro modo ele

    jamais desfrutaria. Enquanto pessoas reais esto no mundo real

    matando a si mesmas ou matando outras pessoas reais, o fotgrafo se

    pe atrs de sua cmera, criando um pequeno elemento de outro

    mundo. O mundo-imagem, que promete sobreviver a todos ns.

    O JOVEM H um imortal vivendo dentro de ns.

  • 9

    4.

    O JOVEM Ele destruiu a nossa civilizao, o nosso futuro. Mas tudo

    barato se comparado com a liberdade.

    UMA TESTEMUNHA No faa isso.

    O JOVEM Recebo onze mil libras srias enquanto analisam a minha

    candidatura.

    UMA TESTEMUNHA isso mesmo? o que realmente quer?

    O JOVEM Esse dinheiro suficiente. Compro as minhas coisas. Ajudo

    a minha famlia. Ser bom por um tempo.

    UMA TESTEMUNHA Voc no precisa.

    O JOVEM Quando eu morrer, j no importa. Ficar para a minha me.

    Ajudar o meu irmo.

    UMA TESTEMUNHA Voc morreria por essa causa?

    O JOVEM Mas sei que no iro me aceitar.

    UMA TESTEMUNHA Essa a sua causa?

    O JOVEM Eles iro pagar diante de Deus por tudo o que esto fazendo.

    UMA TESTEMUNHA Voc pode vir comigo.

    O JOVEM Mas no iro me aceitar.

    UMA TESTEMUNHA Por qu?

    O JOVEM - No tenho barba. Tenho muitas amigas mulheres no

    Facebook. No mostro que sou religioso o suficiente. Eles no gostam

    disso.

  • 10

    UMA TESTEMUNHA Voc reza todos os dias?

    O JOVEM No iro me aceitar. Sei que no.

    UMA TESTEMUNHA Eu no contei para ele. Mas estava torcendo por

    isso.

    O JOVEM O que farei, ento?

    UMA TESTEMUNHA Eu tambm no sabia o que fazer.

    O JOVEM Como poderei olhar para meu irmo? Como serei digno a

    ele?

    5.

    O IRMO Sempre me orgulhei de lutar pelo meu pas, pelo