calvino, italo - fabulas italianas

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  • 7/22/2019 CALVINO, Italo - Fabulas Italianas

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    SUMRIO

    Nota primeira edio brasileira Introduo Agradecimentos JoozinhoSem Medo Corpo Sem Alma O pastor que no crescia nunca Nariz de Prata

    A barba do conde A menina vendida com as peras O prncipe-canrio Osbiellenses, gente dura A linguagem dos animais As trs casinhas A terra ondeno se morre nunca As trs velhas O prncipe-caranguejo O menino no saco A camisa do homem feliz Uma noite no paraso Jesus e so Pedro no Friul O anel mgico O brao de morto A cincia da preguia Bela Testa Luna O corcunda Sapatim O Ogro com penas Belinda e o Monstro A rainhaMarmota O filho do mercador de Milo O palcio dos macacos O palcioencantado Cabea de bfala A filha do Sol O florentino O presente doVento do Norte A moa-ma Salsinha O Pssaro Bem Verde Grozinho

    e o boi A gua na cestinha Catorze Joo Bem Forte que a quinhentos deu amorte Galo-cristal O soldado napolitano Belmel e Belsol Chico Pedroso O amor das trs roms Jos Peralta que, quando no arava, tocava flauta Corcunda, manca e de pescoo torto A falsa av O ofcio de Francisquinho Cric, Croc e Mo de Gancho A primeira espada e a ltima vassoura Os cincodesembestados Eiro-eiro, burro meu, faa dinheiro Leombruno Os trsrfos O reizinho feito mo O rei-serpente Cola Peixe Grtula-Bedtula desventura A cobra Pepina dono de gros-de-bico e favas O sulto comsarna Alecrina Diabocoxo A moa-pomba Jesus e so Pedro na Siclia Orelgio do barbeiro A irm do conde O casamento de uma rainha com umbandido Pelo mundo afora Um navio carregado de O filho do rei nogalinheiro A linguagem dos animais e a mulher curiosa O bezerrinho comchifres de ouro A velha da horta A rainhazinha com chifres Yuf O homemque roubou aos bandidos Santo Antnio d o fogo aos homens Maro e opastor Pule no saco! Notas Bibliografia Sobre o autor

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    NOTA PRIMEIRA EDIO BRASILEIRA (1990)

    Em 1954, o editor italiano Einaudi decidiu publicar uma antologia de fbulas

    italianas que pudesse ser comparada s coletneas francesa e alem, j clssicas, dePerrault e dos Irmos Grimm. Encomendou a tarefa de escolher e transcrever oscontos a um escritor jovem, mas de grande reputao: Italo Calvino.

    Nos anos que se seguiram publicao do volume, quando j era consideradounanimemente um dos maiores escritores europeus, Calvino lembrou emrepetidas ocasies a importncia desse trabalho para a sua formao. A ltima vezfoi no ciclo de aulas que a morte no lhe permitiu ministrar, as Seis propostas parao prximo milnio, na conferncia dedicada rapidez.

    De fato, o que interessa ao autor, em seu mergulho no mundo da fbula, no

    tanto a riqueza das imagens, ou o valor simblico delas, mas a economia danarrao, a capacidade de descrever as situaes mais inverossmeis empouqussimas frases. Aqui, Calvino encontra uma narrao puramente funcional,no descritiva, que luta contra o tempo e contra os obstculos que ela prpriaope realizao de um desejo (uma princesa, um tesouro). Nas fbulas, observao escritor nas Seis propostas, a narrativa um cavalo: um meio de transporte cujotipo de andadura, trote ou galope, depende do percurso a ser executado.

    A prova de que Calvino estava certo, ao interpretar a fbula dessa forma, seencontra em sua obra posterior, na qual o autor se liberou da matriz neo-realistada juventude para inventar um estilo pessoal, construdo na base da narrativapopular; mas est tambm no xito da obra que Einaudi, com feliz intuio, lheencomendou. Pois asFbulas italianas realmente se tornaram, como o editorpretendia, um clssico italiano. Mais moderno do que Perrault e Grimm, escritopor um autor que j conhece a psicanlise, a sociologia, a lingustica. Masigualmente popular, igualmente querido.

    Lorenzo Mamm

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    INTRODUOa

    UMA VIAGEM ENTRE AS FBULAS

    O impulso inicial para produzir este livro surgiu de uma exigncia editorial:pretendia-se publicar, ao lado dos grandes livros de contos popularesestrangeiros, uma antologia italiana. Mas que texto escolher? Existiria umGrimm italiano?

    sabido que os grandes livros de fbulasb italianas nasceram antes dos outros. em meados do sculo XVI, em Veneza, nas Piacevoli notti de Straparola, a

    novela cede espao sua mais antiga e rstica irm, a fbula de maravilhas e deencantos, com um retorno de imaginao entre gtico e oriental, maneira deCarpaccio, e uma pequena contribuio dialetal na linha da prosa boccaciana. Nosculo XVII, em Npoles, Giambattista Basile escolhe para suas acrobacias deestilista barroco-dialetal os cunti, as fbulas de peccerillec e nos d um livro, oPentameron (restitudo s nossas leituras pela verso de Benedetto Crocel), que como o sonho de um disforme Shakespeare partenopeu, obcecado por umfascnio pelo horrendo para o qual no h ogros nem bruxas que bastem e por umgosto pela imagem alambicada e grotesca em que o sublime se mistura ao vulgar eao sujo. E no sculo xVIII, sempre em Veneza, mas desta vez com a suficincia eostentao de quem se entrega a um jogo, o desdenhoso e severo Carlo Gozzi

    possibilita aos contos ganhar o palco, entre as mscaras da commedia dellarte.Tratava-se, porm, de um divertimento pesado e solene: contudo, a hora dafbula j vinha soando desde os tempos do Rei Sol na corte de Versalhes, onde,nos estertores do Grand Sicle, Charles Perrault inventara um gnero e,finalmente, recriara no papel um equivalente rebuscado daquela simplicidade detom popular por meio da qual a fbula se perpetuara de boca em boca at ento.O gnero tornou-se moda, desnaturando-se: aristocratas eprcieusespassaram atranscrever e a inventar fbulas. Floreada e edulcorada nos 41 volumes do Cabinetdes fes, a fbula prosperou e morreu na literatura francesa, com o sabor de jogo

    de fantasia elegante, temperado por simtrica racionalidade cartesiana.Ressurgiu pesada e truculenta no alvorecer do sculo xIx, na literaturaromntica alem, como criao annima do Volksgeist, com uma antiguidadeancestral que continha cores de uma Idade Mdia atemporal, por obra dos IrmosGrimm. O culto patritico da poesia popular difundiu-se entre os literatos daEuropa; Tommaseo pesquisou os cantos toscanos, corsos, gregos e ilricos;porm, as novelline (como eram chamadas as fbulas entre ns no sculo XIX)

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    aguardaram em vo que surgisse entre nossos romnticos seu descobridor.Educada na escola de Tommaseo, a condessa camponesa Caterina Percotoescreveu em dialeto friulano contos e lendas patriticas e morais, algumas dasquais foram coletadas na tradio oral; e do filo dos autores didticos,conservadores ao modo de Cant, o sienense Temistocle Gradi (1824-87), em

    seus ensaios de leitura1 para os jovens do povo, traduziu fbulas para a faladialetal, visando dar quelas mentes o po que considerava menos corruptor.

    Foram necessrios os diligentes estudiosos de folclore da gerao positivistapara que se comeasse a escrever sob a imposio das avs. Eles acreditavam com Max Muller na ndia ptria de cada histria e mito humano (quando node todo o gnero humano), e nas religies solares, to complicadas que, paraexplicar a aurora, inventavam Cinderela e, para a primavera, Branca de Neve.Entretanto, sob o primeiro exemplo dos alemes (widter e wolf em Veneza,Hermann Knust em Livorno, o austraco Schneller na regio do Trentino edepois Laura Gonzenbach na Siclia), passaram a reunir novelline: ngelo deGubernatis na rea de Siena, Vittorio Imbriani em Florena, na Campnia e naLombardia, domenico Comparetti em Pisa, Giuseppe Pitr na Siclia, alguns deforma aproximativa e sumria, outros com um escrpulo que consegue salvar efazer chegar at ns todo o frescor dessas fbulas. A paixo foi transmitida a umgrande nmero de pesquisadores locais, colecionadores de curiosidades dialetais ede mincias, que constituram a rede dos correspondentes das revistas de arquivofolclrico: Giambattista Basile de Luigi Molinaro del Chiaro, em Npoles;

    rchivio per lo studio delle tradizioni popolari de Pitr, em Palermo;Rivista delletradizioni popolari italiane de de Gubernatis, em Roma. At mesmo BenedettoCroce, com dezessete anos, ainda ignorando que perseguia um falso conceito,registrava os cantos e lenga-lengas que lhe ditavam as lavadeiras da regio doVmero para o Basile de del Chiaro.

    Assim se acumulou, em especial nos ltimos trinta anos do sculo, graas aosnunca suficientemente louvados demopsiclogos (como preferiram serchamados, usando um termo cunhado por Pitr), uma montanha de narrativasextradas da boca do povo em vrios dialetos. Porm, tratava-se de um

    patrimnio destinado a ficar imobilizado nas bibliotecas dos especialistas e no acircular em meio ao pblico. No surgiu um Grimm italiano, embora j em1875 Comparetti houvesse tentado uma antologia geral de vrias regies,publicando, na coleo dirigida por ele e por dAncona dos Canti e raccontidel popolo italiano, um volume deNovelle popolari italiane e prometendo dois outros,que no saram.

    E o gnero fbula, enquanto era confinado pelos estudiosos em doutas

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    monografias, no conheceu entre nossos escritores e poetas a moda romnticaque percorreu a Europa de Tieck a Puchkin, mas tornou-se domnio dos autoresde livros para crianas, tendo por mestre Collodi, que adquirira o gosto pelafbula nos contes de fesfranceses do sculo xVIII.2 Eventualmente, algum escritorilustre tentou o livro de contos populares para crianas; lembraremos, como

    excepcional xito potico, Cera una volta de Capuana, livro de fbulasalimentado, ao mesmo tempo, por fantasias e esprito popular.3 (Recorde-se queCarducci levou a