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Calvrio Redentor

Antonieta V. Meyer, pelo Esprito Jos Euclides

8* edio - janciro/2013 3.000 exemplares (55.501 ao 58.500) internet:

APRESENTAAO

Ditei esta obra irm abnegada que vem batalhando, h muitos anos, cm benefcio

destes desventurados irmos leprosos*, recolhidos c esquecidos nos leprosrios...

Ditci-a recordando a dor do meu prximo que foi a minha prpria dor. No a ditei

para os crticos nem para os intelectuais, mas sim para os irmos de infortnio, para os

atacados da molstia hedionda e terrvel que os mantm tolhidos da sua liberdade, prisioneiros num limitado espao de terra...

A triste histria dos leprosrios, espalhados pelo mundo, jamais ser completamente

contada, to dolorosa e to impressionante ela se revelar para a sensibilidade das criaturas.

Os homens tm olvidado os seus irmos que residem no vale silencioso dos

longnquos leprosrios... Entretanto, eu lhes tornarei a dizer que um homem no vale pela

deformidade que lhe marca a face, nem pelos trapos que lhe escondem as chagas... mas...

vale, sim, pelo Esprito...

Com esta simples apresentao, volto minha tranquilidade no Infinito, na

verdadeira Ptria Espiritual, onde, graas ao Supremo Criador, posso agora fluir as ddivas

de uma paz benfazeja.

(')lloje, as expresses lepra e leproso, definindo a doena infecciosa e o enfermo, no

so mais usadas na rea mdica, substitudas, respectivamente, por hansenase (Mal de

Hansen) e hanseniano, e, portanto, com o tempo, sero totalmente esquecidas pelo povo. Isso

porque elas representam um passado de terrveis preconceitos, com rejlexos ate os dias

atuais, no mais justificveis, pois, inclusive, tal enfermidade no mais incurvel. - Nota

da Editora

Ucdico esta despretensiosa obra a todos aqueles que se imolam nos lcprosrios pela

sade coletiva... e tambm uma homenagem irm que recebeu estas pginas, e que to

modesta e devotada causa dos que sofrem nos lcprosrios.

Fortaleza, 15 de maro de 1950.

Jos Euclides.

ESCLARECIMENTO

Prisioneiro no crcere terrvel de um leprosrio, onde, na condio de msero farrapo

humano, sorvi lenta c doloridamente todo o clice de amargor, vendo dias passarem

morosamente e as noites chegarem sem estrelas, vendo a vil matria desfazer-se e cair

apodrecida, insensvel dor fsica, mas apurado na sensibilidade do esprito, aprofundei-me

na meditao e, no silncio da minha vida, no ermo do vasto e triste reduto da dor, elevei o

meu pensamento e pedi a Deus a explicao e a conformao para meu sofrimento.

Ento contemplava o cu azul, os campos floridos, os pssaros ligeiros cortando a

amplido imensa, aspirava o ar embalsa-mado de perfumes sutis, ouvia o trinado delicado c

mavioso dos passarinhos felizes, pousados nos ramos verdes das rvores, sentia o vento leve

bater no meu rosto disforme, enfim, via, contrito, toda essa exuberante beleza e entusiasmado

dizia: Como linda e perfeita a natureza e ento rendia o meu tributo de admirao

ao supremo Criador desta portentosa maravilha... mas depois olhava para minhas mos

mutiladas, sem tato, sem parte de seus dedos, que para mim eram como o pincel para o pintor

e o cinzel para o escultor, olhava para os meus ps disformes e pesados, que mal me podiam

proporcionar pequenos e doloridos passeios, procurava um pedao de espelho pendurado na

branca parede do meu crcere e olhava firmemente para o meu rosto hediondo...

Na contemplao e na anlise da minha prpria pessoa, fazia a interrogao aflita e

revoltada, quele mesmo Criador a quem eu tinha rendido o meu tributo de admirao e

respeito.

E, alucinado, bradava:

Por que, Deus, fizeste isto ao Teu filho? Por que deste ao homem, a Tua mais

elevada criao, a Tua mais perfeita c admirvel obra, a tortura da lepra, a mais terrvel das

molstias, a mais repugnante... por que deste a um punhado de filhos Teus, esta tortura

indescritvel?!

Que mal fizemos para recebermos to grande castigo?

Tu que fizeste a natureza rica c deslumbrante, porque na Tua criao tudo perfeito

e obedece ao ritmo certo, desde o trovo que reboa impiedoso e forte, at o desabrochar da

singela florzinha agreste nos prados fecundos, Tu que deste ao homem a inteligncia para

poder compreender toda essa maravilha da Tua obra, deste, a este mesmo homem, a desdita

de poder ser como sou, um leproso atirado sem piedade no reduto estreito de um pobre

leprosrio, perdido numa msera povoao deste sofredor pedao de terra do Brasil; deste

Cear pequeno, mas valente; deste Cear que mc serviu de bero e que amei muito...

Dize, Deus, se possvel for, a causa deste meu sofrer doloroso...

No quero descrer da Tua bondade, no quero acreditar que s capaz de castigar um

filho Teu, que nunca Te ofendeu; no quero acusar injustamente quele que eu amo e rendo a

minha obedincia; mas, Deus, tenho o direito de poder pedir explicao para a minha desdita

c para o meu sofrer, que julgo injusto, pois nada fiz para ofender aquele que o Supremo

Criador de tudo.

No pedi a Ti, Deus! para aqui vir... e se o fizeste sem o meu consentimento, me

deste o direito de pedir esclarecimentos, porque sofro, porque sou leproso e pobre. Por qu?

Sinto a lepra roer a minha carne e vejo cair, aos meus ps, pedaos pobres do meu corpo... por

que, Deus, no tenho a dita de poder apertar ao encontro do meu corao, que pulsa

normalmentc, a minha filha inocente e pura?... E ainda, no contente com o meu sofrer,

fizeste retir-la at da minha presena, atirando-a para bem longe do seu infeliz c desgraado

pai.

Por que, Deus, fizeste isto com um filho Teu, que nunca Te ofendeu?

Assim, peo explicao para a minha infelicidade, porque tenho direito c no

compreendo como pudeste fazer a flor, que embeleza e perfuma, os pssaros que cantam, o

cu azul e lmpido, os rios caudalosos, o mar imenso, as noites estreladas, as montanhas

altaneiras, os prados verdejantes, pudeste fazer tambm a Lepra e, ainda mais, pudeste

atir-la aos Teus filhos indefesos...

Talvez no saibas mesmo avaliar o que seja ouvir esta sentena: - Ests leproso,

no saibas o que seja ouvir dizer: Tens de deixar o teu lar, os teus filhos, a ma esposa, os teus

amigos, tudo quanto amas, para, como um trapo velho e imundo, ser atirado bem longe de

tudo c de todos...; ser repelente, no ter direito nem mesmo de poder ver os seus filhos, no

ter direito de poder reclamar os seus prprios direitos.

por tudo isto, Deus, que ao contemplar certo dia o meu rosto, no velho pedao de

espelho pendurado na parede branca do meu crcere, no leprosrio, e que confesso revoltado,

fiz essas perguntas que me torturavam a existncia e que me faziam ser considerado como

um rebelde, ate pelos meus prprios companheiros de infortnio...

Perguntas essas que me martirizaram toda a vida, todos os longos anos que passei

interno e que, at o fim da minha vida tormentosa, no deixei de fazer, sem encontrar nunca a

explicao que desejava.

S depois que a morte quebrou os grilhes pesados que me prendiam, foi que

compreend a razo do meu destino e da minha dor, e agora, para consolo dos meus queridos

irmos, ainda sofrendo nos leprosrios, e que, com permisso dada pelos bondosos guias do

Alm, que posso dar esta mensagem de esperana e estmulo, contando a minha vida

passada e a razo de ter sido leproso.

I - DOENA CRUEL

Nas margens plcidas e buclicas do lendrio Canto, cujas guasAranquilas

refletem o cu de anil, deslizavam calmamente as embarcaes, pesadas de vrias

mercadorias para o comrcio da rica cidade da velha China.

Eram barcos que levavam grande quantidade de ch, que era, at aquele momento,

um dos maiores comrcios da tradicional cidade.

Outros transportavam cuidadosamente as peas de finos tecidos e delicadas sedas,

que iriam causar admirao a outros povos menos hbeis do que os pacientes artfices

chineses, que vinham deslumbrando a todos com as maravilhas da sua pacincia c tenacidade

do seu esforo...

Da China grande, sulcada de rios caudalosos e vales imensos, de clima ameno, cuja

histria ser sempre um poema de dignidade e trabalho, encontravam-se, em todos os seus

rinces, inspirao para as mais belas crnicas c os mais decantados feitos.

Foi, pois, nas margens do rio Canto, que veio ao mundo, como primeiro filho de

ricos comerciantes, Kiang F.

Eram seus pais, Tung e Li, casados h muitos anos, no tendo filhos, e foi, para eles,

uma verdadeira surpresa, a vinda do primognito.

Passaram meses de espera, numa nsia de curiosidade, como seria o amado filho, e ao

mesmo tempo amedrontados com a possibilidade de vir uma menina, que seria o desmoronar

de todos os seus anseios e de todas as suas esperanas.

Precisamos de um filho dizia Tung sua mulher. Ele ser nosso herdeiro,

no s das tradies, como da nossa fortuna. Seguir as nossas leis e trabalhar por nossa

famlia, que precisa ter um chefe enrgico e corajoso.

Foram preparadas grandes solenidades para a chegada do to desejado rebento da

velha e austera famlia.

Na magnfica residncia de estilo mongol, tudo era feito como exigia o