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    CADERNO DE TEXTOS

    1 Verso

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    EIXO I

    O SUAS e a Erradicao da Extrema Pobreza no Brasil

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    A Superao da Extrema Pobreza no Brasil e a Centralidade da Poltica Pblica de Assistncia Social

    Ana Fonseca

    I Construir uma sociedade livre, justa e solidria; II Garantir o desenvolvimento nacional;

    III Erradicar a pobreza e a marginalizao e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV Promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raa, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de

    discriminao. (Art. 3 da Constituio de 1988 - objetivos fundamentais da Repblica Federativa do Brasil)1

    1. Introduo No Brasil esto dadas as condies para que realizemos os objetivos da nossa Constituio. Aos avanos propiciados pela institucionalizao da seguridade social, a partir de 1988, somaram-se outras conquistas objetivas que nos permitem esse passo frente. O pas venceu o ciclo inflacionrio, realizamos e projetamos uma recuperao do salrio mnimo, o crdito foi responsavelmente ampliado, reencontramos o caminho do desenvolvimento econmico, estabelecemos polticas pblicas que alcanaram setores excludos das melhorias macroeconmicas, aumentamos as possibilidades de mobilidade social e abrimos perspectivas para o crescimento do investimento produtivo. Como bem caracterizou Lena Lavinas (2011), o Brasil logrou reduzir significativamente os nveis de extrema pobreza, ao longo da dcada de 2000, ao conjugar retomada do crescimento econmico com criao de empregos, ganhos reais do salrio mnimo e ampliao da cobertura dos programas voltados aos mais destitudos. Associou, portanto, dinamismo econmico com mais proteo social.2 No entanto, a permanncia de muitos milhes de brasileiros em situao de grave vulnerabilidade social evidencia que o crescimento econmico, as transferncias de renda e a valorizao do salrio mnimo so condies necessrias, mas no suficientes para afastar a misria do quadro de urgncia nacional. Parcela significativa dos que vivem na extrema pobreza enfrenta barreiras sociais para vencer a trama da misria: insero em territrios de baixo dinamismo econmico, qualificao formal deficiente, falta de acesso a mercados que poderiam consumir seus servios ou produtos, e excluso no acesso a servios sociais bsicos.

    Secretria da Secretaria Extraordinria para Superao da Extrema Pobreza (SESEP\MDS). A autora agradece a Nathalie Beghin e Luciana Jaccoud pela leitura atenta e pelas pertinentes sugestes. 1Quarenta anos antes da Constituio de 1988, a Declarao dos Direitos Humanos (1948) em seu artigo XXV afirmava: Toda pessoa tem direito a um padro de vida capaz de assegurar a si e a sua famlia sade e bem estar, inclusive alimentao, vesturio, habitao, cuidados mdicos e os servios sociais indispensveis, e direito segurana em caso de desemprego, doena, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistncia fora de seu controle. 2 LAVINAS, Lena (2011). Erradicao da Misria no Brasil: processos e parmetros (verso preliminar).

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    Ao governo da presidenta Dilma Rousseff coube apresentar sociedade aes, instrumentos e metas que induzam a nao a vencer este desafio. Este sentido do Plano Nacional para Superao da Extrema Pobreza batizado Brasil sem Misria.3 A gesto do Plano ser interministerial e contar com instrumentos gerenciais modernos e eficazes. A eficincia tambm estar dada pela capacidade de monitorar, avaliar e aprender. As falas das ruas, dos especialistas, das organizaes no governamentais, dos movimentos sociais, dos povos e comunidades tradicionais, das universidades sero escutadas e incidiro no ciclo gerencial do Plano. As empresas estatais, os bancos pblicos, as empresas privadas e todas as pessoas de bem j foram convocadas. Ganhar especial destaque no Plano a participao dos governos estaduais e municipais. Nosso pas uma federao com trs nveis de governo. Nada se faz de eficiente sem a ativa colaborao destes entes federativos. Uma poltica federal se transforma em poltica federativa com a cooperao das instncias subnacionais. Note-se que o Brasil sem Misria se vincula a uma concepo de Estado e democracia respaldada no reconhecimento da atribuio estatal de garantia de direitos. O Plano tem por meta realizar o preceito constitucional de consolidar uma oferta ampliada, coerente e consistente de polticas de promoo e proteo social. Essa oferta dever ser ampla, coerente e consistente, sob responsabilidade pblica, contando com a participao e o controle social, e visando a garantia e acesso aos direitos sociais por parte de toda a populao, em especial os que ainda esto mais distantes da atuao do Estado. Nesse processo de avanos das nossas polticas sociais, a assistncia social central para a efetiva implementao do Brasil sem Misria. Como ressaltaremos mais adiante, tal centralidade deve-se a diversos fatores. Esta poltica pblica tem por atribuio processar, nos territrios, as mltiplas demandas da populao que vive em situao de pobreza extrema; tambm opera na referncia e contraferncia dos potenciais beneficirios do Plano no somente para sua prpria rede de servios socioassistenciais como para os equipamentos das demais polticas sociais; e, a assistncia social pode realizar o acompanhamento dos grupos familiares sempre que necessrio. Os expressivos avanos ocorridos nos ltimos anos na consolidao do Sistema nico de Assistncia Social (SUAS) permitem que a Assistncia Social passe a cumprir papel cada vez mais relevante no mbito da proteo social brasileira. Contudo, muito ainda precisa ser feito. E, est entre nossas atribuies continuar envidando esforos para fortalecer a assistncia social como poltica pblica, ampliando e fortalecendo sua capacidade protetiva, assim como promovendo, cada vez mais, sua integrao com as demais polticas sociais de modo a que todos os que habitam o territrio brasileiro possam ter seus direitos sociais efetivados. 2. A Superao da Extrema Pobreza como Alavanca para o Desenvolvimento.

    Os quatro eixos estratgicos que organizam as aes do governo da Presidenta Dilma Infra-estrutura, Desenvolvimento Econmico, Direitos e Cidadania e Superao da Extrema Pobreza apontam para um ciclo de desenvolvimento sustentado, com estabilidade, distribuio de renda, acesso a servios pblicos, incluso produtiva e convergncia entre aes universais e focalizadas. O Brasil sem Misria visa a alcanar e ampliar o bem estar social e parte indissocivel da estratgia de desenvolvimento do Brasil e expresso da prioridade condensada no slogan: um pas rico um pas sem pobreza. Isto , o Plano pretende ser uma nova e poderosa alavanca para o desenvolvimento do pas. Afinal, o processo de ascenso social dos

    3 O Plano foi institudo pelo Decreto N 7.492 de 02 de junho de 2011. Para maiores informaes, consultar o portal do Brasil sem Misria: www.brasilsemmiseria.gov.br

    http://www.brasilsemmiseria.gov.br/

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    ltimos oito anos foi decisivo para diminuir as desigualdades, ampliar o mercado interno e acelerar o crescimento do pas. Agora, ao assumir o desafio de superar a misria, damos mais um passo para ampliar essas conquistas a todos os brasileiros. O ponto de partida do Plano que a pobreza atende por diversos nomes: insuficincia de renda; acesso precrio gua, energia eltrica, sade e moradia; baixa escolaridade; insegurana alimentar e nutricional; formas precrias de insero no mundo do trabalho, entre outros. As diversas caractersticas que traduzem as distintas manifestaes da pobreza tm expresso no territrio e assim se pode afirmar que a misria tem nome, endereo, cor e sexo e, embora a renda tambm seja um indicador de pobreza, trata-se de um mecanismo insuficiente para medir o bem estar. A pobreza se manifesta, sobretudo, em privao de bem estar. Com isto, afirmamos que a pobreza um fenmeno multidimensional e, portanto, requer tambm indicadores no monetrios para seu dimensionamento. Esta a perspectiva que organiza o Brasil sem Misria. Ademais, a extrema pobreza tambm se manifesta de diversas maneiras, a depender do territrio, de aspectos culturais ou de grupos especficos da populao: assim, por exemplo, as demandas de pessoas que vivem no campo so diferentes daquelas que habitam nas periferias dos grandes centros urbanos. O mesmo acontece com as populaes da regio Norte em relao s do Semi-rido nordestino ou com comunidades quilombolas e catadores de material reciclvel. Para levar esses fatores em conta, o Brasil sem Misria contm estratgias diferenciadas, que se adquam as distintas necessidades de seus diversos pblicos-alvo. As cerca de 70 aes do Plano, implementadas por diversos ministrios, esto articuladas em torno de trs grandes eixos: Garantia de Renda, Incluso Produtiva e Acesso a Servios Pblicos. Note-se, ainda, que as aes do Brasil sem Misria sero agrupadas com base em diversos recortes especficos. Dentre eles destaca-se aquele que rene as aes de cunho universal (educao e sade), mas, tambm, os que respeitam as especificidades das reas urbanas e rurais, com aes distintas para enfrentar os problemas centrais dessas regies, alm daqueles recortes que respeitam os diferentes perfis da populao (etrio, ocupacional, escolaridade). Dessa feita, com o intuito de promover o desenvolvimento sustentvel, o Brasil sem Misria tem por objetivo promover a incluso social e produtiva da populao extremamente pobre, tornando residual o percentual dos que vivem abaixo da linha da pobreza. 3. A Linha de Pobreza Extrema e o Pblico do Brasil sem Misria

    3.1 A linha de pobreza extrema do Brasil sem Misria

    Ao longo do processo de elaborao do Plano houve um grande debate sobre a escolha da linha de pobreza extrema. Opes no faltaram. Seria multidimensional ou seria um corte de renda monetria per capita? Uma linha nacional ou vrias linhas region