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NEM TUDO ERA CRISE: NEGCIOS E NEGOCIANTES EM BELM NO PS

CABANAGEM

Mbia Aline Freitas Sales (PPGH-UFF)

Carlos Gabriel Guimares (Faculdade de Histria UFF)

Palavras-chave: Cabanagem, comrcio dos portugueses, Imprio.

A defesa de que o ltimo quinqunio da dcada de 1830 teria sido marcada

exclusivamente por uma crise econmica tornou-se um lugar comum entre relatos de

presidentes da Provncia, economistas, historiadores desde o sculo XIX. A crise

econmica, seria o resultado dos conflitos polticos e sociais causados pelos motins

cabanos, segundo o discurso dos legalistas. A construo de uma nova ordem seria

garantida por Soares de Andra, incumbido de reerguer a Provncia a partir de 1836.

Em 1838, Soares de Andra traava um quadro sombrio da economia paraense

agravado pela destruio dos ativos (...), uma diminuio dos engenhos, das fazendas,

dos campos de agricultura, pecuria, etc.1 Esse discurso em tom desanimado sobre a

economia do Par encontrou eco em outros discursos produzidos no calor dos

acontecimentos ou a posteriori. Domingos Antonio Raiol, contemporneo da Cabanagem,

que teve seus pais mortos pelos cabanos, ajuda a compor um cenrio desastroso do

movimento que, para ele, no fez distino de individualidades ou de classes, alcanando

desde os maons, bicudos, brancos at os tapuios e homens de cor.

Para Raiol, os motins, que por largos anos agitaram a sociedade paraense,

repercutiram nas camadas sociais, com perturbao da ordem e sacrifcios incalculveis

segurana individual, propriedade, indstria, s artes, ao comrcio, a toda a

provncia2 [grifo meu]. Segundo a afirmativa do autor, o comrcio seria um dos aspectos

atingidos pelos movimento dos rebeldes.

Roberto Santos, por sua vez, afirmou que de 1805 a 1840 a tendncia geral da

economia foi declinante. Segundo ele, isso teria ocorrido no s pelos azares da

economia mundial que inverteriam o movimento antes ascendente do preo do cacau e

desencorajaria a agricultura nos trpicos, mas tambm devido a ao de fatores

especficos de outra natureza. Assinalou como um desses fatores o prolongado perodo

1SANTOS, Roberto. Histria econmica da Amaznia (1800-1920). So Paulo: T. A. Queiroz, 1980, p.

35. 2 RAIOL, Domingos Antonio. Motins polticos ou Histria dos principais acontecimentos polticos da

Provncia do Par. Tomo V. Belm: Universidade Federal do Par, 1970, p. 1005.

de distrbios polticos que viriam a culminar na guerra civil amaznica (1835).3 Na

narrativa de Santos, mais uma vez a Cabanagem aparece como um dos pontos nevrlgicos

da economia da Provncia.

Em contraposio a essa ideia, autores j comearam a sugerir, alguns at h

bastante tempo, que data do ano de 1836 o incio de uma recuperao do comrcio no

Par. Um desses autores Ernesto Cruz. Ele destaca que em 1835 o comrcio esteve em

ponto morto, e os navios no se aventuravam a entrar num porto dominado pelos

rebeldes. Mas, de 1836 a 1837, 66 embarcaes de procedncia estrangeira entraram no

porto da capital.4

Nesse mesmo caminho, Daniele Moura destacou que ao longo do governo de

Soares de Andra eram inmeras as referncias s tentativas de ordenamento da produo

e do comrcio. Aponta que a documentao d conta de uma riqueza e variedade da

produo e movimentao comercial na Provncia, mesmo em dias to repletos de

incertezas e conflitos.5

Entre os autores h um pequeno consenso de que foi a partir de 1840 que a

economia do Par comearia a prosperar. O prprio Ernesto Cruz, j citado anteriormente,

embora tenha apontado alguns pontos de crescimento no tocante a navegao j a partir

de 1836, diz que vem exatamente do ano de 1840 a restaurao da paz, do comrcio e

da indstria, proporcionando a todos os habitantes da capital e do interior perspectivas

mais acalentadoras.6 Simia Lopes corrobora essa ideia quando fala que aps a

pacificao da populao abalada pelas agitaes polticas, o Gro-Par experimentava

um reflorescimento econmico.7 Esse reflorescimento, de acordo com a autora, foi

possvel em funo da modernizao da produo agrcola e extrativa paralela aos

investimentos econmicos.

3 SANTOS, Roberto. Op. cit. 4 CRUZ, Ernesto. Histria da Associao Comercial do Par. 2 Ed. Belm: Editora Universitria. UFPA,

1996, p. 113. 5 Moura, Daniele. Economia e idias de civilizao no contexto da Cabanagem, 1836-1839. In:

FIGUEIREDO, Aldrin Moura de; ALVES, Moema de Barcelar (Orgs.). Tesouros da Memria: Histria

e Patrimnio do Gro-Par. Belm: Ministrio da Fazenda, 2009. 6 CRUZ, Ernesto. Histria da Associao Comercial do Par. 2 Ed. Belm: Editora Universitria. UFPA,

1996, p. 115. 7 LOPES, Simia de Nazar. O comrcio interno no Par oitocentista: atos sujeitos sociais e controle

entre 1840-1855. Dissertao (Mestrado em Planejamento do Desenvolvimento). Belm: Universidade

Federal do Par, 2002, p. 39.

De acordo com a descrio, existem pelo menos dois grupos de autores. Os que

defendem uma profunda crise da economia paraense que s comearia a mudar partir de

1840 e os que acreditam que o reflorescimento do comrcio teria comeado logo a partir

de 1836. Isso para no falar dos que postulam que a economia somente teria tomado

flego a partir de 1850 com a exportao da borracha. inegvel que quanto mais se

apaga os efeitos da Cabanagem h uma tendncia para o crescimento da economia.

Entretanto, defende-se a ideia de que a Cabanagem causou maior estagnao do comrcio

somente de julho de 1835 a maio de 1836. E mesmo com as intempries que assolaram

os comerciantes portugueses, h uma continuidade do negcio dos portugueses.

Assim, o discurso de Andra e outros que seguem a mesma linha, ajudam a

construir uma imagem sobre a economia do Par que destoa de outros dados disponveis

para o mesmo perodo. Ainda em 1833, o oficial graduado do Regimento de Artilharia de

Belm, Antnio Ladislau Monteiro Baena descrevendo a estrutura comercial da cidade

relata que:

A cidade numera dois jurisconsultos sem exerccio de cargo ou lugar judicial;

dois rbulas; dois mdicos; quatro cirurgies; nove boticrios; vinte

negociantes matriculados; dezesseis negociantes estrangeiros; setenta e

duas lojas de fazenda; cento e vinte e seis tavernas: cinco pequenas lojas de

ourives; oito botequins; cinco bilhares; quinze lojas de sapateiro; vinte lojas de

alfaiate; oito lojas de barbeiro; dez ferrarias; nove lojas de marceneiro; uma tanoa; dois relojeiros; trs penteeiros; um caldeireiro e picheleiro; um funileiro

dezenove seges e carrinhos; quatro casas de pasto assim chamadas, e duas

destas so semelhantes aos armazns da Boa Vista, de que se lembra o lpido

e polido Tolentino pintando uma bulha de dois bbados. H tambm pedreiros,

e carpinteiros de construo civil e nutica; exceto os ofcios indicados faltam

todas as mais artes fabris. [grifo meu]8

Entenda-se que os vinte negociantes matriculados eram portugueses e nacionais

e os dezesseis negociantes estrangeiros eram de diferentes nacionalidades, incluindo

ingleses, norte americanos, franceses, italianos e espanhis. Destaca-se tambm o elevado

nmero de lojas (72) e tabernas (126).

J em 1848, a presena marcante do comrcio dos portugueses foi registrada pelo

viajante naturalista Henry Walter Bates que esteve em Belm pela primeira vez, em 1848.

Ele escreveu que no Par,

O comrcio, tanto em grosso como a retalho, estava em mos dos

portugueses, que eram ento uns 2.500. Muitos ofcios manuais so

exercidos pela gente de cor mulatos, mamelucos, negros forros e ndios. Os

8 BAENA, Antonio Ladislau Monteiro. Ensaio Corogrfico sobre a provncia do Par. Braslia: Senado

Federal, 2004, p. 211.

brasileiros das classes mais elevadas detestam o ofcio insignificante do

comrcio a retalho, e se no so negociantes atacadistas, preferem a vida de

agricultores no interior. [grifo meu]9

Tambm o norte americano James Orton que esteve em Belm em 1868,

referindo-se ao comrcio escreveu: Commerce is carried on almost exclusively by

Portuguese, Fruit Peddlers and other foreigners.10

No final da dcada de 1860, a presena dos portugueses que atuavam no

comrcio nas mais diversas atividades era marcante. Em dezembro de 1868 Belm

contava com 1.578 negociantes e 495 martimos,11 dos quais a maioria era portuguesa.

Essas descries ajudam a construir um cenrio local muito demarcado pela atuao dos

lusos em vrias frentes de atuao, sobretudo no comrcio.

A introduo da navegao a vapor em 1853,12 a abertura do rio Amazonas ao

comrcio internacional13 e a ascendente valorizao da borracha14 poderia sugerir que o

comrcio portugus tendeu a esmorecer em funo da intensificao da presena de

outros estrangeiros no Par. Todavia, os portugueses tendem a acompanhar o

desenvolvimento da Provncia e estabelecer relaes comerciais e de outras ordens15 em

um contexto cada vez mais favorvel ao comrcio.

9 BATES, Henry Walter. O naturalista no rio Amazonas. So Paulo: Brasiliana, 1944, p. 72-73. 10 ORTON