BREVE HISTRIA DA LEITURA NO BRASIL: OS LIVROS, alb.com.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais17/txtcompletos/...social e cultural do Brasil na poca colonial: Histria da Vida Privada no Brasil, organizado por Fernando A. Novais e Formao do Brasil Colonial, de Arno Wehling.

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  • BREVE HISTRIA DA LEITURA NO BRASIL: OS LIVROS, AS TENSES E OS SABERES NA COLNIA (SC. XVIII) CARMELICE AIRES PAIM DOS SANTOS (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS- UNICAMP). Resumo Durante todo o Perodo Colonial, Estado e Igreja viam nas obras literrias uma ameaa soberania do Imprio, visto que algumas dessas obras apresentavam temas que suscitavam questionamentos nocivos estrutura da Metrpole. Sendo assim, desde o sculo XVI at meados do sculo XVIII, as obras devocionais e religiosas compunham, em sua maioria, o acervo das bibliotecas brasileiras. Entretanto, a partir do seculo XVIII, os livros sobre cincia e saberes profanos ganharam um espao nas bibliotecas da Amrica portuguesa e, com eles, as idias que estimulavam as movimentaes polticoliterrias que questionavam a F, a Lei e a ordem na Colnia a exemplo das redes de sociabilidade construdas em torno da leitura de livros proibidos. Inserido neste universo terico, o presente trabalho, que situa seu eixo organizacional nas transformaes polticas e sociais ocorridas no Brasil do sculo XVIII, propese a investigar a influncia da literatura europia no cenrio sociopoltico do Brasil colonial, visando os seguintes objetivos: a) observar a multiplicidade de funes atribudas aos livros no sculo XVIII e, b) pontuar a ao das obras literrias como agentes modificadores dos costumes e das idias polticas da Colnia. A pesquisa ser organizada a partir da anlise, de base interpretativa, de duas importantes obras da literatura brasileira que tratam da vida social e cultural do Brasil na poca colonial: Histria da Vida Privada no Brasil, organizado por Fernando A. Novais e Formao do Brasil Colonial, de Arno Wehling. A escolha dessa temtica justificase pelo fato da Literatura do sculo XVIII ter atuado como elemento capital para as transformaes das estruturas sociais, poltica e cultural da Colnia e para os primeiros movimentos intelectuais que culminaram na independncia do Brasil em relao dominao portuguesa. Palavras-chave: Brasil, Colnia , Leitura.

    Situao educacional no Brasil - colnia

    O perodo colonial configurou-se como um grande desafio para as elites coloniais. A diferenciao cultural entre essa elite e seus subordinados, o distanciamento geogrfico permanentemente instaurado entre a realidade vivida na colnia e as designaes rgias anunciadas na metrpole portuguesa, figuravam apenas como as fontes capitais do dito desafio. Somando-se a isso, as influncias da intelectualidade francesa, bebidas nas pginas das obras proibidas e os constantes questionamentos ordem econmica e social instauradas pela Coroa portuguesa, fomentavam uma tenso permanente nas terras da colnia. Nessa perspectiva "Estado e igreja tomaram livros e saberes escolares como fonte de inquietao, de questionamento e, no limite, de ruptura dos laos coloniais".(VILLALTA, 1997, p.347).

    Por tudo isso, a gama de argumentos que justificavam tais temores buscava cada vez mais no discurso religioso a sua fonte de preservao A exemplo do padre Antnio Vieira, que exaltava a importncia dos conhecimentos religiosos em detrimento dos saberes da cincia e caracterizava o poder nocivo do primeiro atravs dos exemplos da bblia e das experincias de corrupo espiritual entre os prprios jesutas. Nos argumentos de Vieira, o desejo de saber era a arma letal que

  • havia destrudo Ado e Eva. Segundo ele, nem mesmo o prprio Cristo interessava-se pelo saber das cincias, visto que na sua passagem pela terra dedicou-se salvao das almas e no ao conhecimento material gerados pela sabedoria humana. Permeada por tais argumentaes a vida na colnia era orientada, para um tipo de conduta que privilegiava a religiosidade em detrimento da pedagogia, que buscava a salvao da alma em detrimento da libertao pelo conhecimento. Assim, orientada por uma viso poltica pautada no temor pelo conhecimento, o processo de escolarizao na colnia recebeu pouca ateno da metrpole portuguesa e ainda por volta do sculo XVIII tinha-se o seguinte cenrio educativo:

    At 1759, a Companhia de Jesus foi o principal agente da educao, possuindo vrias escolas, voltadas para a formao de clrigos e leigos. Alm dos colgios jesuticos, existiram as escolas vinculadas s ordens dos beneditinos, dos franciscanos e dos carmelitas, e, a partir dos fins do sculo XVII, os seminrios, criados em vrias localidades do pas e marcados pela influncia jesutica. Embora nos colgios houvesse curso de nvel superior, el-rei procurou manter a dependncia em relao Universidade de Coimbra, considerada um aspecto nevrlgico do pacto colonial. Assim, impediu a criao de universidades na Amrica portuguesa; recusou-se, at 1689, a conceder todos os graus e privilgios universitrios aos alunos dos colgios jesuticos; rejeitou em 1768 um pedido da Cmara de Sabar para que se criasse uma aula de cirurgia."(VILLALTA, 1997, p.347-348)".

    A expulso dos jesutas, a chegada da Corte portuguesa e as reformas implantadas pelo Marqus de Pombal, com medidas culturais e educacionais que visavam o aumento da produo de matria-prima; apoio s academias e implementao de instituies educacionais voltadas para o conhecimento prtico creditou ao estado a responsabilidade pelos processos educacionais nas terras colonizadas. A despeito do carter elitista, ornamentista e circunstancial, voltados para a reproduo (e manuteno) da ordem patriarcal e estamental portuguesa, tais medidas no foram suficiente para, impulsionar um avano cientfico significativo, nem para conduzir as prticas educacionais a uma situao de maior prestgio. Ditadas sob a gide repressiva da Coroa portuguesa, os princpios educacionais implantados na colnia, moviam-se paradoxalmente entre o progresso e a subordinao aos limites impostos pelos colonizadores, considerando-se que estes priorizaram, de um lado, uma no-pedagogia, acionando no cotidiano o aparato repressivo para inculcar a obedincia s F, L,R e, de outro, cultivaram uma educao para a mera sobrevivncia atribuindo iniciativa privada tarefas educacionais cujo sentido restringia-se reproduo da ordem social.(VILLALTA, 1997, p. 351).

    A despeito do mbito de atuao restrito s elites, essa prtica pedaggica limitada ao espao privado tornou-se dominante entre os poucos privilegiados que podiam alimentar expectativas em relao instruo escolar. Contrariando-se as expectativas de manuteno de poder alimentadas pela metrpole, a educao privada delineou os fundamentos de uma nova percepo sobre o saber na colnia, considerando-se que, apesar de destinada ao ensino das primeiras letras e ao ensino de ofcios da poca, ao transformar o ambiente domstico num espao particular de administrao do saber, o 'estado' colocou o indivduo como elemento capital da construo do prprio conhecimento e este, por sua vez, buscou, na prtica autodidtica, nos livros das bibliotecas, o caminho da sua formao.

    Os livros, as tenses e os saberes na colnia

    A ocorrncia de livros mostrou-se debilitada nos sculos iniciais da ocupao portuguesa. Os primeiros livros de que se tem notcia no Brasil, eram livros instrucionais - de religio ou Latim - enviados a pedido dos jesutas. Movidos pela

  • escassez da poca, esses religiosos copiavam a mo os livros existentes para serem utilizados por seus discpulos durante as aulas e nas instrues religiosas. Partindo de tais perspectivas, as obras religiosas e devocionais compunham a literatura predominante no sculo XVI. Entretanto, apesar das interdies, era freqente na colnia a leitura de obras proibidas: a Diana, de Jorge Montemor; Metamorfoses, de Ovdio; a Eufrasina; e os livros de sorte, freqentemente presente no meio rural, so apenas alguns exemplos dessas obras.

    Em Ilhus nos idos de 1574, o italiano Rafael Olivi - talvez o mais afortunado indivduo em termos de livros de ento - tinha uma livraria com 27 volumes, atualizadssima, que fugia aos padres, mesmo queles que iriam viger nos sculos posteriores, no se compondo apenas de obras devocionais. Embora estas fossem majoritrias havia um tratado sobre a arte de cavalgar e ttulos e autores de cincia e filosofia: La nuova cincia, de Nicolo Tartaglia; Aristteles; Libelus de tactus; e Discorsi, de Nicolo Machiavelli (MOTT, 1988. Apud. VILLALTA, 1997, p.360).

    O sculo seguinte no apresentou grandes alteraes em relao posse e ao tipo de livros disponvel na colnia: as bibliotecas ainda eram escassas e os livros devocionais - os catecismos, resumos de histrias santas, diretivas, exerccios espirituais, livros de novena, etc - ainda predominavam entre o acervo literrio da poca. Embora houvesse alguns ttulos referentes ao aspecto profano da literatura -como as Crnicas do gro capito, de Gonalo de Crdova e Novelas, de Miguel Cervantes ou as obras jurdicas Ordenaes do reino ou ainda obras didticas como Prosdia, de Bento Teixeira e o Tratado Prtico de aritmtica, a preocupao em manter um acervo direcionado aos estudos devocionais ainda era bastante evidente. Mas, contraditoriamente ao gosto literrio apresentado na poca, o interesse pela Bblia era quase inexistente.

    Entretanto, a partir do sculo XVIII, as bibliotecas, foram paulatinamente sofrendo mudanas na sua composio, ao dividir o espao dos livros devocionais, com as obras profanas, o saber da cincia e as ilustraes. Transformao que se deu primeiramente pelo gosto dos mais intelectualizados e s depois se expandiu aos demais acervos da colnia. Considerada como um dos plos dessa disseminao, a capitania de Minas Gerais foi a localidade onde se presenciou o avano mais rpido e significativo em relao ao volume, leitura e aquisio de obras literrias no Oitocentos, considerando-se que at o incio do perodo, somando-se toda a populao de homens livres, o nmero de pessoas que possuam algum tipo de livro representava uma parcela absolutamente insignificante da populao e no perodo referente mudana de tal situao conseguiu se apropriar de um volume de livros to significativo que superava a quantidade de obras existentes em todas as outras capitanias nos sculos anteriores. Esse aumento expressivo na quantidade de livros existentes na capitania foi promovido pelo crescimento da populao urbana e pela criao de setores de servios (a exemplo do comrcio de livros) dedicados a essa populao

    Um exame dos inventrios e dos autos da devassa da Inconfidncia acusa a presena de livros em Diamantina, Mariana, Vila Rica e So Jos del Rei. Os principais centros urbanos de Minas no sculo XVIII. A distribuio da posse de livros diferenciava-se conforme a categoria profissional e a posio dos inventariados e inconfidentes, concentrando-se nos proprietrios, funcionrios pblicos e letrados. O tamanho das bibliotecas mineiras era diverso, no sendo determinada pela riqueza, mas pelo grau de refinamento intelectual e de escolaridade dos proprietrios. Padres, advogados e cirurgies possuam, via de regra, as maiores bibliotecas (VILLALTA, 1997, p.362).

  • O acervo das bibliotecas dos homens ligados ao clero era indicativo da diversidade de concepes predominante entre os religiosos j naquela poca. Apesar da presena quase unnime de obras como Pronturio da teologia moral, de Francisco Larraga, tais bibliotecas possuam desde obras que apresentavam uma concepo de mundo baseada em idias arcaicas, mas pouco ortodoxas, at aquelas cujas idias apontavam para as mais recentes inovaes conceptuais daquele sculo, a exemplo das bibliotecas dos clrigos inconfidentes cujo acervo diferenciava-se dos pertencentes aos demais religiosos, pelo volume de obras dedicados s cincias profanas, o que apontava para um maior grau de interesse sobre questes seculares e uma maior sensibilidade s inovaes polticas, filosficas cientficas. Um timo exemplo dessa diferenciao e da sensibilizao s causas externas igreja o do cnego Vieira da Silva, o qual, embora possusse obras de pensadores comprometidos com a filosofia clerical, preservava em seu acervo particular, alm de obras de escritores e filsofos importantes da poca, clssicos de pensadores que contriburam para a cincia moderna. Anacreonte, Catulo, Ccero, Demstenes, Horcio, Jlio, Csar, Ovdio, Cames, Diderot, Montesquieu, Voltaire, Condilac e Robertson estavam entre os presentes em sua extensa coleo.

    Em outras partes da colnia, a situao das bibliotecas era bem semelhante quela encontrada na capitania de Minas: "na Bahia, o padre Francisco Agostinho Gomes, ilustrado da passagem do sculo XVIII para o sculo XIX, reunia a melhor e maior livraria particular do Brasil de ento, composta de milhares de livros". Situao semelhante, mas em menor proporo, era vivida no Rio de Janeiro, onde, a despeito do grande volume de livros possudos pelos inconfidentes, encontrava-se bibliotecas particulares com at 250 volumes. As remessas de ttulos para Maranho, S. Paulo, Paraba, Gois e Pernambuco, atestavam o interesse cada vez mais pontual pelas obras que versavam sobre cincia, pedagogia, direito, histria, geografia, artes militares e outras reas do conhecimento. Entre o comrcio legal e as remessas contrabandeadas, a mudana das mentalidades acompanhavam o alargamento e a ousadia das posses literrias. Tornava-se comum a entrada de livros proibidos pela censura e com eles o questionamento da ordem e do poder na colnia.

    Se para alguns leitores os livros trouxeram inquietaes, para os escritores serviram para conquistar benesses pblicas, resguardar interesses econmicos, reforar o prestgio no interior da sociedade e auxiliar na conquista amorosa. Os genealogistas, por exemplo, dedicavam-se a achar e a fabricar linhagens, mapeando o lugar ocupado pelos indivduos e famlias dos estratos superiores, criando com isso um saber til para selar alianas consangneas, rupturas matrimoniais e brigas de sucesso em torno de heranas obras prestavam-se, alm disso, para confirmar ou questionar privilgios de fundo estamental, que excluam os "impuros de sangue", isto , aqueles que possuam ascendncia judaica, negra, moura, mulata, crist-nova (at Pombal) ou ainda ancestrais punidos pelo Santo Ofcio ou que exerceram ofcios mecnicos. (MELLO, 1989. Apud. VILALTA, 1997, p. 369-370).

    No Brasil oitocentista a presena do livro era o retrato do contexto social da poca, onde as restries, as desigualdades e os privilgios ditavam as regras do acesso e da posse de obras literrias. No caso dos mais humildes, a inacessibilidade era elemento estratgico de controle e excluso. Esse mecanismo de controle e excluso fazia-se sentir principalmente em tornos dos livros proibidos, para os quais a concesso rgia era a via legal de obteno. A concesso de tais licenas orientava-se de acordo com o status e a profisso, colocando-se esta ltima como principal argumento para a liberao. Sob essa perspectiva alguns profissionais podiam obter livros proibidos sob o argumento instrumentalizar-se teoricamente para combater aquilo que consideravam como idias esprias e nocivas ao sistema

  • vigente. Caracterizados como escritos "libertinos", esses livros eram alvos das mais restritas recomendaes no podendo ser expostos publicamente.

    Os livros foram alvos dos usos mais inusitados: ligados prtica religiosa ou as atividades seculares, serviam a propsitos que iam desde o auxlio das devoes at as operaes puramente decorativas: era prtica comum entre a sociedade da poca utilizao de livros novos, minuciosamente bem decorados, com ttulos dourados, para compor as estantes de 'livros simulados'. Casos no muito raros eram dos falsos religiosos e exorcistas que utilizavam a capacidade de leitura como fonte de seduo e satisfao dos prazeres sexuais. Como no caso de Frei Luiz de Nazar, exorcista que viveu na Bahia, e conduzia as sesses de exorcismo atravs das relaes sexuais com as mulheres 'possudas', argumentando seguir as recomendaes contidas em seus manuais de exorcismo; ou do Padre Antnio Jos de Azevedo, que aps engravidar uma jovem em Minas, receitou-lhe uma frmula tirada de um livro para restituir a virgindade da 'vitima'.

    Presena cada vez mais constante na vida da colnia, e elemento capital na distino entre o pblico e o privado, o livro trouxe consigo mudanas significativas nos hbitos e na cultura do local, estando entre estes o cultivo da leitura oral, mais particularmente a leitura oral pblica. O cultivo dessa modalidade de leitura se deu primeiramente por fora do analfabetismo dominante na poca, considerando-se que esta se apresentava como nica fonte de informao para os analfabetos ou para os que compreendiam unicamente a lngua portuguesa. A leitura privada, entretanto, cultivada principalmente entre as elites intelectuais, ganha objetos prprios (estantes, tinteiros, papeleiras, etc.) no final do sculo XVIII, mas medida que o hbito de ler e escrever foram se incorporando ao cotidiano dos intelectuais, alm dos objetos de leitura, surgem tambm espaos especficos para esse fim. Mais tarde, tais espaos passaram a assumir funes outras alm do exerccio intelectual, constituindo-se em locais onde, alm da leitura e escrita, tratavam-se tambm dos negcios e organizavam-se reunies para tratar de assuntos diversos. Entretanto, apesar da crescente valorizao da privacidade, as leituras orais e pblicas conquistavam espaos cada vez mais significativos.

    Largamente cultivado na metrpole, a leitura oral era vivenciada dentro das mais diversas classes da sociedade portuguesa, onde era comum a contagem de histrias em praas pblica e o sistema de audio de leitura, presente principalmente nos sales da Corte, era atividade corrente. Era comum entre os estudantes de Coimbra, muitos deles brasileiros, a leitura de livros em praas pblicas e as discusses sobre os respectivos contedos, no raro relacionados contestao de dogmas religiosos do catolicismo.

    No Brasil sucedia o mesmo, tanto que as Constituies Primeiras do Arcebispado da Bahia, editadas no incio do sculo XVIII, proibiam no apenas a leitura de obras defesas, mas tambm ouvir ler as mesmas. Ademais, a documentao inquisitorial e as devassas das conjuraes do sculo XVIII - analisadas mais profundamente, neste livro por Instvn Jancs - revelam a ocorrncia se no de ouvir ler, ao menos de uma sociabilidade calcada na disputa oral sobre os contedos dos livros. (VILALTA, 1997, p. 379).

    Exemplo pontual desse tipo de sociabilidade eram as reunies promovidas na residncia de Diogo Henrique - cristo-novo, residente em Minas - para a leitura oral do livro Eva e Ave, no intuito de conhecer e comentar sobre a vida dos santos.

    Na capitania das Minas Gerais, a difuso da leitura, especialmente a modalidade oral e pblica, resultou, dcadas mais tarde, na transformao dos espaos privados em verdadeiras oficinas (ou mercados) literrios, destinados ao

  • emprstimo troca de publicaes, exposio e aperfeioamento de poesias, tradues de pequenos textos e trechos de obras e, principalmente discusses sobre a situao scio-polticas da capitania. Situao semelhante ao Rio de Janeiro, onde em espaos diversos, a circulao de livros, por via de emprstimos, se fazia de forma intensa. No Rio, o hbito das leituras orais e das discusses sobre obras polmicas, se deu primeiro, em locais pblicos, como o cais, a praia, os adros de igreja, as escadas de hospcio e a academia literria. Em segundo lugar, em ambientes privados, como as residncias. Por fim em espaos que ficavam entre uma e outra categoria, como lojas, boticas, casas de professores rgios e mestres-escolas, os quais de um lado, por serem propriedade particular, inscreviam-se no privado e, por outro, por permitirem a afluncia indiscriminada de pessoas, fregueses ou alunos, no garantindo a privacidade, vinculavam-se ao pblico. (Op. Cit. p.382)

    Inspiradas nos escritos do abade Raynal sobre do despotismo, os direitos dos povos, a situao das ex-colnias inglesas da Amrica do Norte e as rebelies de fins libertrios que anteciparo a emancipao de tais colnias, essas discusses motivaram as reflexo sobre a situao poltica da capitania, a organizao dos planos de rebelio e a visualizao de um quadro ps-revolucionrio.

    Em Minas, nos primeiros momentos onde se delineava o movimento da inconfidncia, o palco de tais reunies era a casa de Francisco Paula Freire de Andrade, tenente-coronel, residente em Vila Rica. No caso do Alferes - oficial com patente inferior ao tenente -, os espaos pblicos (o cais, a praia, os adros de igreja, as escadas de hospcio e academia literria) tambm eram utilizados para esse fim. Paulatinamente, com o nmero reduzido de assistncia, outras residncias, como a de Cludio Manuel da Costa, Domingos Vieira, Tomz Antonio Gonzaga, Joo Rodrigues Macedo, tambm passaram a ser utilizadas como sede de reunies no menos polmicas.

    Concluso

    O sculo XVIII instaurou-se como o sculo de mudanas profundas nas mentalidades da colnia. O hbito da leitura entre poucos intelectuais e a prtica da oralidade resultante desse hbito foram pontos significativos na luta contra o domnio colonial. Nos espaos pblicos, o conhecimento tirado dos livros deu origens a discursos que, se ainda no provocavam emergncias de lutas armadas, ao menos questionavam a F, a Lei e o Rei, lanando as bases das futuras lutas contra o domnio colonial.

    Referncias bibliogrficas

    Histria da vida privada no Brasil, 1: cotidiano e vida privada na Amrica portuguesa. Fernando A. Novais (Coordenador geral da coleo); Laura de Melo e Souza (organizadora de volume). So Paulo. Companhia das Letras. 1997

    MELLO, Evaldo Cabral de. O nome e o sangue. In: Histria da vida privada no Brasil, 1: cotidiano e vida privada na Amrica portuguesa. Fernando A. Novais (Coordenador geral da coleo); Laura de Melo e Souza (organizadora de volume). So Paulo. Companhia das Letras. 1997

    MOTT, Luiz. A Inquisio em Ilhus. Revista FESPI. Ilhus. Julho a dezembro de 1988-89. n. 10, pp. 74-75. In: Histria da vida privada no Brasil, 1: cotidiano e vida privada na Amrica portuguesa.Fernando A. Novais (Coordenador geral da coleo); Laura de Mello e Souza (organizadora de volume). So Paulo. Companhia das Letras. 1997

  • VILALTA, Luiz Carlos. O que se fala e o que se l: lngua, instruo e leitura. In: Historia da vida privada no Brasil, 1: cotidiano e vida privada na Amrica portuguesa. Fernando A. Novais (Coordenador geral da coleo); Laura de Mello e Souza (organizadora de volume). So Paulo. Companhia das Letras. 1997. 332-385 p.

  • Breve histria da leitura no Brasil: os livros, as tenses e os saberes na Colnia (Sc. XVIII)

    Breve histria da leitura no Brasil:

    os livros, as tenses e os saberes na Colnia (Sc. XVIII)

    Carmelice Aires Paim UNICAMP

    Resumo

    Durante o Perodo Colonial, Estado e Igreja viam nas obras literrias uma ameaa soberania do

    Imprio, visto que algumas dessas obras apresentavam temas que suscitavam questionamentos nocivos

    estrutura da Metrpole. Sendo assim, desde o sculo XVI at meados do sculo XVIII, as obras

    devocionais e religiosas compunham, em sua maioria, o acervo das bibliotecas brasileiras. Entretanto, a

    partir do sculo XVIII, os livros sobre cincia e saberes profanos ganharam um espao nas bibliotecas

    da Amrica portuguesa e, com eles, as idias que estimulavam as movimentaes poltico-literrias que

    questionavam a F, a Lei e a ordem na Colnia - a exemplo das redes de sociabilidade construdas em

    torno da leitura de livros proibidos. Inserido neste universo terico, o presente trabalho, que situa seu

    eixo organizacional nas transformaes polticas e sociais ocorridas no Brasil do sculo XVIII, prope-

    se a investigar a influncia da literatura europia no cenrio sociopoltico do Brasil colonial, visando os

    seguintes objetivos: a) observar a multiplicidade de funes atribudas aos livros no sculo XVIII e, b)

    pontuar a ao das obras literrias como agente modificador dos costumes e das idias polticas da

    Colnia. A pesquisa ser organizada a partir da anlise, de base interpretativa, de uma das mais

    significativas obras da literatura brasileira que trata da vida social e cultural do Brasil na poca

    colonial: Histria da Vida Privada no Brasil, organizado por Fernando. A escolha dessa temtica

    justifica-se pelo fato da Literatura do sculo XVIII ter atuado como elemento capital para as

    transformaes das estruturas sociais, poltica e cultural da Colnia e para os primeiros movimentos

    intelectuais que culminaram na independncia do Brasil em relao dominao portuguesa.

    Palavras-chave: Educao -Literatura- Brasil-Colnia

  • Carmelice Aires Paim - UNICAMP

    Situao educacional no Brasil - colnia

    O perodo colonial configurou-se como um grande desafio para as elites coloniais. A diferenciao

    cultural entre essa elite e seus subordinados, o distanciamento geogrfico permanentemente instaurado

    entre a realidade vivida na colnia e as designaes rgias anunciadas na metrpole portuguesa,

    figuravam apenas como as fontes capitais do dito desafio. Somando-se a isso, as influncias da

    intelectualidade francesa, bebidas nas pginas das obras proibidas e os constantes questionamentos

    ordem econmica e social instauradas pela Coroa portuguesa, fomentavam uma tenso permanente nas

    terras da colnia. Nessa perspectiva Estado e igreja tomaram livros e saberes escolares como fonte de

    inquietao, de questionamento e, no limite, de ruptura dos laos coloniais.(VILLALTA, 1997, p.347).

    Por tudo isso, a gama de argumentos que justificavam tais temores buscava cada vez mais no discurso

    religioso a sua fonte de preservao A exemplo do padre Antnio Vieira, que exaltava a importncia do

    conhecimento religiosos em detrimento do saber da cincia e caracterizava o poder nocivo do primeiro

    atravs dos exemplos dos bblias e das experincias de corrupo espiritual entre os prprios jesutas.

    Nos argumentos de Vieira, o desejo de saber era a arma letal que havia destrudo Ado e Eva. Segundo

    ele, nem mesmo o prprio Cristo interessava-se pelo saber das cincias, visto que na sua passagem pela

    terra dedicou-se salvao das almas e no ao conhecimento material gerados pela sabedoria humana.

    Permeada por tais argumentaes a vida na colnia era orientada, para um tipo de conduta que

    privilegiava a religiosidade em detrimento da pedagogia, que buscava a salvao da alma em

    detrimento da libertao pelo conhecimento. Assim, orientada por uma viso poltica pautada no temor

    pelo conhecimento, o processo de escolarizao na colnia recebeu pouca ateno da metrpole

    portuguesa e ainda por volta do sculo XVIII tinha-se o seguinte cenrio educativo:

    At 1759, a Companhia de Jesus foi o principal agente da educao, possuindo vrias escolas,

    voltadas para a formao de clrigos e leigos. Alm dos colgios jesuticos, existiram as escolas

    vinculadas s ordens dos beneditinos, dos franciscanos e dos carmelitas, e, a partir dos fins do

    sculo XVII, os seminrios, criados em vrias localidades do pas e marcados pela influncia

    jesutica. Embora nos colgios houvesse curso de nvel superior, el-rei procurou manter a

    dependncia em relao Universidade de Coimbra, considerada um aspecto nevrlgico do

    pacto colonial. Assim, impediu a criao de universidades na Amrica portuguesa; recusou-se,

  • Breve histria da leitura no Brasil: os livros, as tenses e os saberes na Colnia (Sc. XVIII)

    at 1689, a conceder todos os graus e privilgios universitrios aos alunos dos colgios

    jesuticos; rejeitou em 1768 um pedido da Cmara de Sabar para que se criasse uma aula de

    cirurgia.(VILLALTA, 1997, p.347-348).

    A expulso dos jesutas, a chegada da Corte portuguesa e as reformas implantadas pelo Marqus de

    Pombal, com medidas culturais e educacionais que visavam o aumento da produo de matria-prima;

    apoio s academias e implementao de instituies educacionais voltadas para o conhecimento prtico

    creditou ao estado a responsabilidade pelos processos educacionais nas terras colonizadas. A despeito

    do carter elitista, ornamentista e circunstancial, voltados para a reproduo (e manuteno) da ordem

    patriarcal e estamental portuguesa, tais medidas no foram suficiente para, impulsionar um avano

    cientfico significativo, nem para conduzir as prticas educacionais a uma situao de maior prestgio.

    Ditadas sob a gide repressiva da Coroa portuguesa, os princpios educacionais implantados na colnia,

    moviam-se paradoxalmente entre o progresso e a subordinao aos limites impostos pelos

    colonizadores, considerando-se que estes priorizaram, de um lado, uma no-pedagogia, acionando no

    cotidiano o aparato repressivo para inculcar a obedincia s F, L,R e, de outro, cultivaram uma educao

    para a mera sobrevivncia atribuindo iniciativa privada tarefas educacionais cujo sentido restringia-se

    reproduo da ordem social.(VILLALTA, 1997, p. 351).

    A despeito do mbito de atuao restrito s elites, essa prtica pedaggica limitada ao espao privado

    tornou-se dominante entre os poucos privilegiados que podiam alimentar expectativas em relao

    instruo escolar. Contrariando-se as expectativas de manuteno de poder alimentadas pela metrpole,

    a educao privada delineou os fundamentos de uma nova percepo sobre o saber na colnia,

    considerando-se que, apesar de destinada ao ensino das primeiras letras e ao ensino de ofcios da poca,

    ao transformar o ambiente domstico num espao particular de administrao do saber, o 'estado'

    colocou o indivduo como elemento capital da construo do prprio conhecimento e este, por sua vez,

    buscou, na prtica autodidtica, nos livros das bibliotecas, o caminho da sua formao.

    Os livros, as tenses e os saberes na colnia

    A ocorrncia de livros mostrou-se debilitada nos sculos iniciais da ocupao portuguesa. Os primeiros

    livros de que se tem notcia no Brasil, eram livros instrucionais - de religio ou Latim enviados a

  • Carmelice Aires Paim - UNICAMP

    pedido dos jesutas. Movidos pela escassez da poca, esses religiosos copiavam a mo os livros

    existentes para serem utilizados por seus discpulos durante as aulas e nas instrues religiosas.

    Partindo de tais perspectivas, as obras religiosas e devocionais compunham a literatura predominante

    no sculo XVI. Entretanto, apesar das interdies, era freqente na colnia a leitura de obras proibidas:

    a Diana, de Jorge Montemor; Metamorfoses, de Ovdio; a Eufrasina; e os livros de sorte,

    freqentemente presente no meio rural, so apenas alguns exemplos dessas obras.

    Em Ilhus nos idos de 1574, o italiano Rafael Olivi talvez o mais afortunado indivduo em

    termos de livros de ento tinha uma livraria com 27 volumes, atualizadssima, que fugia aos

    padres, mesmo queles que iriam viger nos sculos posteriores, no se compondo apenas de

    obras devocionais. Embora estas fossem majoritrias havia um tratado sobre a arte de cavalgar e

    ttulos e autores de cincia e filosofia: La nuova cincia, de Nicolo Tartaglia; Aristteles;

    Libelus de tactus; e Discorsi, de Nicolo Machiavelli (MOTT, 1988. Apud. VILLALTA, 1997,

    p.360).

    O sculo seguinte no apresentou grandes alteraes em relao posse e ao tipo de livros disponvel

    na colnia: as bibliotecas ainda eram escassas e os livros devocionais - os catecismos, resumos de

    histrias santas, diretivas, exerccios espirituais, livros de novena, etc - ainda predominavam entre o

    acervo literrio da poca. Embora houvesse alguns ttulos referentes ao aspecto profano da literatura -

    como as Crnicas do gro capito, de Gonalo de Crdova e Novelas, de Miguel Cervantes ou as

    obras jurdicas Ordenaes do reino ou ainda obras didticas como Prosdia, de Bento Teixeira e o

    Tratado Prtico de aritmtica, a preocupao em manter um acervo direcionado aos estudos

    devocionais ainda era bastante evidente. Mas, contraditoriamente ao gosto literrio apresentado na

    poca, o interesse pela Bblia era quase inexistente.

    Entretanto, a partir do sculo XVIII, as bibliotecas, foram paulatinamente sofrendo mudanas na sua

    composio, ao dividir o espao dos livros devocionais, com as obras profanas, o saber da cincia e as

    ilustraes. Transformao que se deu primeiramente pelo gosto dos mais intelectualizados e s depois

    se expandiu aos demais acervos da colnia. Considerada como um dos plos dessa disseminao, a

    capitania de Minas Gerais foi a localidade onde se presenciou o avano mais rpido e significativo em

    relao ao volume, leitura e aquisio de obras literrias no Oitocentos, considerando-se que at o

    incio do perodo, somando-se toda a populao de homens livres, o nmero de pessoas que possuam

  • Breve histria da leitura no Brasil: os livros, as tenses e os saberes na Colnia (Sc. XVIII)

    algum tipo de livro representava uma parcela absolutamente insignificante da populao e no perodo

    referente mudana de tal situao conseguiu se apropriar de um volume de livros to significativo

    que superava a quantidade de obras existentes em todas as outras capitanias nos sculos anteriores.

    Esse aumento expressivo na quantidade de livros existentes na capitania foi promovido pelo

    crescimento da populao urbana e pela criao de setores de servios (a exemplo do comrcio de

    livros) dedicados a essa populao

    Um exame dos inventrios e dos autos da devassa da Inconfidncia acusa a presena de livros

    em Diamantina, Mariana, Vila Rica e So Jos del Rei. Os principais centros urbanos de Minas

    no sculo XVIII. A distribuio da posse de livros diferenciava-se conforme a categoria

    profissional e a posio dos inventariados e inconfidentes, concentrando-se nos proprietrios,

    funcionrios pblicos e letrados. O tamanho das bibliotecas mineiras era diverso, no sendo

    determinada pela riqueza, mas pelo grau de refinamento intelectual e de escolaridade dos

    proprietrios. Padres, advogados e cirurgies possuam, via de regra, as maiores bibliotecas

    (VILLALTA, 1997, p.362)

    O acervo das bibliotecas dos homens ligados ao clero era indicativo da diversidade de concepes

    predominante entre os religiosos j naquela poca. Apesar da presena quase unnime de obras como

    Pronturio da teologia moral, de Francisco Larraga, tais bibliotecas possuam desde obras que

    apresentavam uma concepo de mundo baseada em idias arcaicas, mas pouco ortodoxas, at aquelas

    cujas idias apontavam para as mais recentes inovaes conceptuais daquele sculo, a exemplo das

    bibliotecas dos clrigos inconfidentes cujo acervo diferenciava-se dos pertencentes aos demais

    religiosos, pelo volume de obras dedicados s cincias profanas, o que apontava para um maior grau de

    interesse sobre questes seculares e uma maior sensibilidade s inovaes polticas, filosficas

    cientficas. Um timo exemplo dessa diferenciao e da sensibilizao s causas externas igreja o

    do cnego Vieira da Silva, o qual, embora possusse obras de pensadores comprometidos com a

    filosofia clerical, preservava em seu acervo particular, alm de obras de escritores e filsofos

    importantes da poca, clssicos de pensadores que contriburam para a cincia moderna. Anacreonte,

    Catulo, Ccero, Demstenes, Horcio, Jlio, Csar, Ovdio, Cames, Diderot, Montesquieu, Voltaire,

    Condilac e Robertson estavam entre os presentes em sua extensa coleo.

  • Carmelice Aires Paim - UNICAMP

    Em outras partes da colnia, a situao das bibliotecas era bem semelhante quela encontrada na

    capitania de Minas: na Bahia, o padre Francisco Agostinho Gomes, ilustrado da passagem do sculo

    XVIII para o sculo XIX, reunia a melhor e maior livraria particular do Brasil de ento, composta de

    milhares de livros. Situao semelhante, mas em menor proporo, era vivida no Rio de Janeiro, onde,

    a despeito do grande volume de livros possudos pelos inconfidentes, encontrava-se bibliotecas

    particulares com at 250 volumes. As remessas de ttulos para Maranho, S. Paulo, Paraba, Gois e

    Pernambuco, atestavam o interesse cada vez mais pontual pelas obras que versavam sobre cincia,

    pedagogia, direito, histria, geografia, artes militares e outras reas do conhecimento. Entre o comrcio

    legal e as remessas contrabandeadas, a mudana das mentalidades acompanhavam o alargamento e a

    ousadia das posses literrias. Tornava-se comum a entrada de livros proibidos pela censura e com eles o

    questionamento da ordem e do poder na colnia.

    Se para alguns leitores os livros trouxeram inquietaes, para os escritores serviram para

    conquistar benesses pblicas, resguardar interesses econmicos, reforar o prestgio no interior

    da sociedade e auxiliar na conquista amorosa. Os genealogistas, por exemplo, dedicavam-se a

    achar e a fabricar linhagens, mapeando o lugar ocupado pelos indivduos e famlias dos estratos

    superiores, criando com isso um saber til para selar alianas consangneas, rupturas

    matrimoniais e brigas de sucesso em torno de heranas obras prestavam-se, alm disso, para

    confirmar ou questionar privilgios de fundo estamental, que excluam os impuros de sangue,

    isto , aqueles que possuam ascendncia judaica, negra, moura, mulata, crist-nova (at

    Pombal) ou ainda ancestrais punidos pelo Santo Ofcio ou que exerceram ofcios mecnicos.

    (MELLO, 1989. Apud. VILALTA, 1997, p. 369-370).

    No Brasil oitocentista a presena do livro era o retrato do contexto social da poca, onde as restries,

    as desigualdades e os privilgios ditavam as regras do acesso e da posse de obras literrias. No caso

    dos mais humildes, a inacessibilidade era elemento estratgico de controle e excluso. Esse mecanismo

    de controle e excluso fazia-se sentir principalmente em tornos dos livros proibidos, para os quais a

    concesso rgia era a via legal de obteno. A concesso de tais licenas orientava-se de acordo com o

    status e a profisso, colocando-se esta ltima como principal argumento para a liberao. Sob essa

    perspectiva alguns profissionais podiam obter livros proibidos sob o argumento instrumentalizar-se

    teoricamente para combater aquilo que consideravam como idias esprias e nocivas ao sistema

  • Breve histria da leitura no Brasil: os livros, as tenses e os saberes na Colnia (Sc. XVIII)

    vigente. Caracterizados como escritos libertinos, esses livros eram alvos das mais restritas

    recomendaes no podendo ser expostos publicamente.

    Os livros foram alvos dos usos mais inusitados: ligados prtica religiosa ou as atividades seculares,

    serviam a propsitos que iam desde o auxlio das devoes at as operaes puramente decorativas:

    era prtica comum entre a sociedade da poca utilizao de livros novos, minuciosamente bem

    decorados, com ttulos dourados, para compor as estantes de 'livros simulados'. Casos no muito raros

    eram dos falsos religiosos e exorcistas que utilizavam a capacidade de leitura como fonte de seduo e

    satisfao dos prazeres sexuais. Como no caso de Frei Luiz de Nazar, exorcista que viveu na Bahia, e

    conduzia as sesses de exorcismo atravs das relaes sexuais com as mulheres 'possudas',

    argumentando seguir as recomendaes contidas em seus manuais de exorcismo; ou do Padre Antnio

    Jos de Azevedo, que aps engravidar uma jovem em Minas, receitou-lhe uma frmula tirada de um

    livro para restituir a virgindade da 'vitima'.

    Presena cada vez mais constante na vida da colnia, e elemento capital na distino entre o pblico e

    o privado, o livro trouxe consigo mudanas significativas nos hbitos e na cultura do local, estando

    entre estes o cultivo da leitura oral, mais particularmente a leitura oral pblica. O cultivo dessa

    modalidade de leitura se deu primeiramente por fora do analfabetismo dominante na poca,

    considerando-se que esta se apresentava como nica fonte de informao para os analfabetos ou para

    os que compreendiam unicamente a lngua portuguesa. A leitura privada, entretanto, cultivada

    principalmente entre as elites intelectuais, ganha objetos prprios (estantes, tinteiros, papeleiras, etc.)

    no final do sculo XVIII, mas medida que o hbito de ler e escrever foram se incorporando ao

    cotidiano dos intelectuais, alm dos objetos de leitura, surgem tambm espaos especficos para esse

    fim. Mais tarde, tais espaos passaram a assumir funes outras alm do exerccio intelectual,

    constituindo-se em locais onde, alm da leitura e escrita, tratavam-se tambm dos negcios e

    organizavam-se reunies para tratar de assuntos diversos. Entretanto, apesar da crescente valorizao

    da privacidade, as leituras orais e pblicas conquistavam espaos cada vez mais significativos.

    Largamente cultivado na metrpole, a leitura oral era vivenciada dentro das mais diversas classes da

    sociedade portuguesa, onde era comum a contagem de histrias em praas pblica e o sistema de

    audio de leitura, presente principalmente nos sales da Corte, era atividade corrente. Era comum

  • Carmelice Aires Paim - UNICAMP

    entre os estudantes de Coimbra, muitos deles brasileiros, a leitura de livros em praas pblicas e as

    discusses sobre os respectivos contedos, no raro relacionados contestao de dogmas religiosos do

    catolicismo.

    No Brasil sucedia o mesmo, tanto que as Constituies Primeiras do Arcebispado da Bahia,

    editadas no incio do sculo XVIII, proibiam no apenas a leitura de obras defesas, mas tambm

    ouvir ler as mesmas. Ademais, a documentao inquisitorial e as devassas das conjuraes do

    sculo XVIII analisadas mais profundamente, neste livro por Instvn Jancs revelam a

    ocorrncia se no de ouvir ler, ao menos de uma sociabilidade calcada na disputa oral sobre os

    contedos dos livros. (VILALTA, 1997, p. 379).

    Exemplo pontual desse tipo de sociabilidade eram as reunies promovidas na residncia de Diogo

    Henrique cristo-novo, residente em Minas para a leitura oral do livro Eva e Ave, no intuito de

    conhecer e comentar sobre a vida dos santos.

    Na capitania das Minas Gerais, a difuso da leitura, especialmente a modalidade oral e pblica,

    resultou, dcadas mais tarde, na transformao dos espaos privados em verdadeiras oficinas (ou

    mercados) literrios, destinados ao emprstimo troca de publicaes, exposio e aperfeioamento de

    poesias, tradues de pequenos textos e trechos de obras e, principalmente discusses sobre a situao

    scio-polticas da capitania. Situao semelhante ao Rio de Janeiro, onde em espaos diversos, a

    circulao de livros, por via de emprstimos, se fazia de forma intensa. No Rio, o hbito das leituras

    orais e das discusses sobre obras polmicas, se deu.

    primeiro, em locais pblicos, como o cais, a praia, os adros de igreja, as escadas de hospcio e a

    academia literria. Em segundo lugar, em ambientes privados, como as residncias. Por fim em

    espaos que ficavam entre uma e outra categoria, como lojas, boticas, casas de professores

    rgios e mestres-escolas, os quais de um lado, por serem propriedade particular, inscreviam-se

    no privado e, por outro, por permitirem a afluncia indiscriminada de pessoas, fregueses ou

    alunos, no garantindo a privacidade, vinculavam-se ao pblico. (Op. Cit. p.382)

    Inspiradas nos escritos do abade Raynal sobre do despotismo, os direitos dos povos, a situao das ex-

  • Breve histria da leitura no Brasil: os livros, as tenses e os saberes na Colnia (Sc. XVIII)

    colnias inglesas da Amrica do Norte e as rebelies de fins libertrios que anteciparo a emancipao

    de tais colnias, essas discusses motivaram as reflexo sobre a situao poltica da capitania, a

    organizao dos planos de rebelio e a visualizao de um quadro ps-revolucionrio.

    Em Minas, nos primeiros momentos onde se delineava o movimento da inconfidncia, o palco de tais

    reunies era a casa de Francisco Paula Freire de Andrade, tenente-coronel, residente em Vila Rica. No

    caso do Alferes - oficial com patente inferior ao tenente -, os espaos pblicos (o cais, a praia, os adros

    de igreja, as escadas de hospcio e academia literria) tambm eram utilizados para esse fim.

    Paulatinamente, com o nmero reduzido de assistncia, outras residncias, como a de Cludio Manuel

    da Costa, Domingos Vieira, Tomz Antonio Gonzaga, Joo Rodrigues Macedo, tambm passaram a ser

    utilizadas como sede de reunies no menos polmicas.

    Concluso

    O sculo XVIII instaurou-se como o sculo de mudanas profundas nas mentalidades da colnia. O

    hbito da leitura entre poucos intelectuais e a prtica da oralidade resultante desse hbito foram pontos

    significativos na luta contra o domnio colonial. Nos espaos pblicos, o conhecimento tirado dos

    livros deu origens a discursos que, se ainda no provocavam emergncias de lutas armadas, ao menos

    questionavam a F, a Lei e o Rei, lanando as bases das futuras lutas contra o domnio colonial.

    Referncias bibliogrficas

    Histria da vida privada no Brasil, 1: cotidiano e vida privada na Amrica portuguesa. Fernando A. Novais (Coordenador geral da coleo); Laura de Melo e Souza (organizadora de volume). So Paulo. Companhia das Letras. 1997 MELLO, Evaldo Cabral de. O nome e o sangue. In: Histria da vida privada no Brasil, 1: cotidiano e vida privada na Amrica portuguesa. Fernando A. Novais (Coordenador geral da coleo); Laura de Melo e Souza (organizadora de volume). So Paulo. Companhia das Letras. 1997 MOTT, Luiz. A Inquisio em Ilhus. Revista FESPI. Ilhus. Julho a dezembro de 1988-89. n. 10, pp. 74-75. In: Histria da vida privada no Brasil, 1: cotidiano e vida privada na Amrica portuguesa.Fernando A. Novais (Coordenador geral da coleo); Laura de Mello e Souza (organizadora de volume). So Paulo. Companhia das Letras. 1997

  • Carmelice Aires Paim - UNICAMP

    VILALTA, Luiz Carlos. O que se fala e o que se l: lngua, instruo e leitura. In: Historia da vida privada no Brasil, 1: cotidiano e vida privada na Amrica portuguesa. Fernando A. Novais (Coordenador geral da coleo); Laura de Mello e Souza (organizadora de volume). So Paulo. Companhia das Letras. 1997. 332-385 p.

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