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  • Brasil: do ensaio aogolpe (1954-1964)

  • INTRODUO

    Durante a curta existncia do governo Joo Goulart (setembro de 1961 amaro de 1964), um novo contexto poltico-social emergiu no pas. Suas ca-ractersticas bsicas foram: uma intensa crise econmico-financeira; constan-tes crises poltico-institucionais; crise do sistema partidrio; ampla mobiliza-o poltica das classes populares paralelamente a uma organizao e ofensivapoltica dos setores militares e empresariais (a partir de meados de 1963, asclasses mdias tambm entram em cena); ampliao do movimento sindicaloperrio e dos trabalhadores do campo e um indito acirramento da luta ideo-lgica de classes.

    Passados quarenta anos, o governo e os tempos de Goulart so ainda ob-

    1964: O golpe contra as reformase a democracia

    Caio Navarro de ToledoProfessor da Unicamp

    RESUMO

    Busca-se argumentar neste artigo que o

    movimento poltico-militar de abril de

    1964 representou, de um lado, um golpe

    contra as reformas sociais que eram de-

    fendidas por setores progressistas da so-

    ciedade brasileira e, de outro, um golpe

    contra a incipiente democracia poltica

    nascida em 1945.

    Palavras-chave: Golpe de Estado; Demo-

    cracia poltica; Reformas sociais e eco-

    nmicas.

    ABSTRACT

    It is our intention in this article to de-

    monstrate that the beginning of the mi-

    litary dictatorship in 1964 represented

    on one hand a blow against social re-

    forms defended by Brazilian progressist

    groups and on the other hand a blow

    against the inchoate political democracy

    established in 1945.

    Keywords: Coup dtat; Political demo-

    cracy; Social and economical reforms.

    Revista Brasileira de Histria. So Paulo, v. 24, n 47, p.13-28 - 2004

  • jeto de interpretaes controversas e antagnicas. Liberais e conservadoresatribuem ao perodo e ao governo apenas aspectos negativos e perversos: ba-derna poltica, crise de autoridade e caos administrativo; inflao des-controlada e recesso econmica; quebra da hierarquia e indisciplina nas for-as armadas; subverso da lei da ordem e avano das foras de esquerda ecomunizantes etc.1

    Enquanto existe um forte consenso entre liberais e conservadores, diver-gentes so as vises entre os setores de esquerda acerca da natureza e do sig-nificado do governo Goulart. Para estes, vrios foram os juzos aplicados: go-verno de traio nacional, de orientao social-democrata ou democrticopopular; governo populista de esquerda ou nacional-reformista e at mes-mo de orientao revolucionria.2 Haveria, no entanto, praticamente umconsenso entre os setores da esquerda ao interpretarem o perodo de 1961-1964 como um momento em que a luta de classes no Brasil alcanou um deseus momentos mais intensos, dinmicos e significativos.3

    Neste breve texto, procuramos argumentar que o movimento poltico-militar de abril de 1964 representou, de um lado, um golpe contra as refor-mas sociais que eram defendidas por amplos setores da sociedade brasileirae, de outro, representou um golpe contra a incipiente democracia poltica bur-guesa nascida em 1945, com a derrubada da ditadura do Estado Novo.

    Neste sentido, a seguinte formulao de Florestan Fernandes aqui ple-namente endossada:

    O que se procurava impedir era a transio de uma democracia restrita para

    uma democracia de participao ampliada ... que ameaava o incio da consoli-

    dao de um regime democrtico-burgus, no qual vrios setores das classes tra-

    balhadoras (mesmo de massas populares mais ou menos marginalizadas, no

    campo e na cidade) contavam com crescente espao poltico.4

    Assim, de imediato, rejeita-se a verso dos vitoriosos de 1964 que, na bus-ca de legitimao e justificao do movimento, denominaram-no de Revolu-o.5 Por sua rara lucidez, as palavras do general-presidente Ernesto Geiseldeveriam ser levadas mais a srio, at mesmo por historiadores e cientistaspolticos no-conservadores. Num depoimento em 1981, afirmou Geisel queo que houve em 1964 no foi uma revoluo. As revolues se fazem por umaidia, em favor de uma doutrina.6

    Para o vitorioso de 1964, o movimento se fez contra Goulart, contra acorrupo, contra a subverso. Estritamente falando, afirmou o general, o mo-

    Caio Navarro de Toledo

    Revista Brasileira de Histria, vol. 24, n 4714

  • vimento liderado pelas Foras Armadas no era a favor da construo de algonovo no pas.

    Embora lcidas na medida em que rejeitavam a noo de Revoluo, as formulaes do ex-ditador podem ser objeto de uma releitura. Assim,com legitimidade terica, podemos ressignificar todos os contras presentesno depoimento do militar. Mais apropriado seria ento afirmar que 1964 sig-nificou um golpe contra a incipiente democracia poltica brasileira; um mo-vimento contra as reformas sociais e polticas; uma ao repressiva contra apolitizao das organizaes dos trabalhadores (no campo e nas cidades); umestancamento do amplo e rico debate ideolgico e cultural que estava em cur-so no pas.

    Em sntese, as classes dominantes e suas elites ideolgicas e repressivas,no pr-64, apenas enxergavam baderna, anarquia, subverso e comunizaodo pas diante de legtimas iniciativas dos operrios, camponeses, estudantes,soldados e praas etc. Por vezes, expressas de forma altissonante e retrica,tais demandas, em sua substncia, reivindicavam o alargamento da democra-cia poltica e a realizao de reformas do capitalismo brasileiro.

    UM GOVERNO NO TRAPZIO7

    A rigor, o governo de Goulart se inicia em janeiro de 1963, aps a con-tundente derrota do regime parlamentarista. Com o apoio de amplos setoresempresariais, e dos setores polticos nacionalistas e conservadores, a campa-nha para o retorno ao presidencialismo foi vitoriosa. A partir desse momen-to, Goulart deixava de desempenhar o papel que foi a ele atribudo com a im-plantao do parlamentarismo; deixava, pois, de ser uma autntica rainhada Inglaterra que, embora reinasse, no governava...

    Assumindo o governo no regime presidencialista, a grande indagaoque se fazia era: conseguiria Goulart superar a crise econmico-financeira,atenuar as graves tenses sociais e afastar as crises polticas que havia doisanos desgastavam o Executivo federal? As propostas que as diversas classessociais e setores polticos ofereciam para resolver os problemas da inflao,do endividamento externo, do dficit no balano de pagamentos e da reces-so econmica no deixavam de ter orientaes conflitantes e antagnicas.

    Nesse sentido, importante assinalar como adiante se mostrar deforma mais elaborada que o perodo de Goulart foi ideologicamente mui-to significativo, pois nele se processaram intensos debates com as orienta-

    1964: O golpe contra as reformas e a democracia

    15Julho de 2004

  • es tericas mais diversas (monetaristas, estruturalistas, nacional-desenvol-vimentistas) sobre os rumos e as direes que deveriam orientar a econo-mia e o Estado brasileiros.

    Como era previsvel, o Executivo anunciou que seu plano de governo ti-nha condies de resolver em profundidade os impasses e as dificuldades en-frentados pelo conjunto da sociedade brasileira. Essa ambiciosa proposta, de-nominada de Plano Trienal de desenvolvimento econmico-social: 1963-1965,foi elaborada pelo renomado e respeitado economista Celso Furtado (Minis-tro do Planejamento), com a colaborao do jurista e professor San ThiagoDantas (Ministro da Fazenda).

    De incio, assinale-se que a composio do primeiro ministrio presi-dencialista de Goulart revelaria de forma muito expressiva as ambigidades,as limitaes e o estilo conciliador que predominariam durante todo o gover-no. No ministrio encontravam-se polticos conservadores do PSD, petebis-tas fisiolgicos e nacionalistas e militares dos setores duros. O Minist-rio era, assim, a expresso dos difceis compromissos assumidos por Goulartpara tomar posse: conciliar nacionalistas radicais e setores conservadores almde reformistas, anti-reformistas e simpatizantes socialistas.

    O Plano Trienal procurava compatibilizar o combate ao surto inflacio-nrio com uma poltica de desenvolvimento que permitisse ao pas retomaras taxas de crescimento semelhantes s do final dos anos 50. Como reconhe-ciam alguns setores de esquerda, o Plano constitua-se num avano em rela-o s teses ortodoxas dominantes, pois afirmava ser possvel combater o pro-cesso inflacionrio sem sacrificar o desenvolvimento. Apesar de no atribuiraos salrios efeitos inflacionrios, na prtica, o Plano pedia como todos osplanos de salvao nacional que os trabalhadores (novamente) apertas-sem os cintos, em nome de benefcios que viriam obter a mdio e a longoprazo. Os tradicionais apelos colaborao e ao patriotismo da classe tra-balhadora eram reiterados pelos formuladores do Plano.

    Inicialmente, os empresrios industriais saudaram a proposta governa-mental; mas esta sofreria os seus primeiros (e fortes) abalos com os protestosvindos dos setores sindicais e das organizaes nacionalistas e de esquerda.Logo nos primeiros dias de fevereiro, o CGT difundia um manifesto em quese denunciava o carter reacionrio do plano do governo Goulart. As crti-cas se aprofundaram a partir do momento em que as conseqncias da pol-tica de eliminao de subsdios ao trigo e ao petrleo comearam a ter efeitossobre os salrios das classes populares. CGT, PUA, FPN, UNE e o grupo na-

    Caio Navarro de Toledo

    Revista Brasileira de Histria, vol. 24, n 4716

  • cionalista do PTB se unem na condenao do Plano Trienal de Furtado eDantas.

    O caso da tentativa de compra da American Foreign Power Amforpveio comprometer ainda mais a imagem do chamado governo nacionalista.Ao mesmo tempo em que retirava os subsdios para o trigo e o petrleo e cor-tava investimentos pblicos, o governo anunciou que estava prestes a adqui-rir, por 188 milhes de dlares, doze usinas do setor de energia eltrica nor-te-americanas. Visivelmente Jango