boris fausto_20 08 2010

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  • FUNDAO GETULIO VARGAS

    CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAO DE

    HISTRIA CONTEMPORNEA DO BRASIL (CPDOC)

    Proibida a publicao no todo ou em parte; permitida a citao. A citao deve ser textual, com indicao de fonte conforme abaixo. FAUSTO, Boris. Boris Fausto (depoimento, 2009). Rio de Janeiro, CPDOC/FGV; LAU/IFCS/UFRJ; ISCTE/IUL; IIAM, 2010. 28 p.

    BORIS FAUSTO

    (depoimento, 2010)

    Rio de Janeiro

    2010

  • Transcrio

    2

    Nome do Entrevistado: Boris Fausto

    Local da entrevista: So Paulo

    Data da entrevista: 20 de agosto de 2010

    Nome do projeto: Cientistas Sociais de Pases de Lngua Portuguesa (CSPLP): Histrias de

    Vida

    Entrevistadores: Paulo Fontes e Ludmila Ribeiro

    Cmera: Eduardo Ferraz

    Transcrio: Maria Izabel Cruz Bitar

    Data da transcrio: 10 de outubro de 2010 ** O texto abaixo reproduz na ntegra a entrevista concedida por Boris Fausto em 20/08/2010. As partes destacadas em vermelho correspondem aos trechos excludos da edio disponibilizada no portal CPDOC. A consulta gravao integral da entrevista pode ser feita na sala de consulta do CPDOC.

    P.F. Ento, para comear, professor, ser que o senhor poderia contar um pouco da trajetria

    biogrfica do senhor, quando o senhor nasceu, onde, e um pouco como isso refletiu na

    formao, no incio da sua formao acadmica?

    B.F. Bom, eu nasci em So Paulo, em 1930, e parte alguns perodos, que no foram muito

    longos, no exterior, eu vivi a vida toda em So Paulo. Eu me formei em direito terminei a

    Faculdade do Largo de So Francisco em 1953 e passei a advogar , mas sempre tive uma

    atrao...

    [INTERRUPO EXTERNA]

    B.F. mais ou menos nessa linha que voc quer?

    P.F. mais ou menos nessa linha.

    B.F. No precisa comear a contar...

    P.F. Porque a a gente j vai direto para a coisa da... profissional, que eu acho que o ponto,

    no ?

  • Transcrio

    3

    L.R. . A no ser que tenha alguma coisa, algum fato muito marcante na sua infncia que

    interferiu na sua escolha.

    P.F. Ou o fato, no sei... O senhor de famlia judaica. Isso tem alguma coisa a ver? Porque

    se tiver, a talvez seja relevante. Mas se no...

    L.R. Com a escolha. Ou do direito.

    P.F. Ou do direito.

    B.F. No. A famlia judaica tem uma marca...

    P.F. Educacional.

    B.F. , de valorizao da educao forte e tal.

    P.F. De valorizao forte.

    B.F. A minha famlia era... Meu pai no era religioso e uma parte da famlia era formalmente

    religiosa, ento...

    P.F. O pai do senhor era brasileiro?

    B.F. No. Meu pai nasceu no que era o Imprio Austro-Hngaro.

    P.F. Em qual parte, o senhor lembra?

    B.F. Em qual parte? Sim. Ele nasceu na Bucovina. Sabe onde ?

    P.F. No.

    B.F. perto da Bessarbia, l perto dos Crpatos.

  • Transcrio

    4

    P.F. Do Samuel Wainer? perto do Samuel Wainer?

    B.F. perto do Samuel Wainer, perto dos vampiros. [risos]

    P.F. A Transilvnia, no isso?

    B.F. A Transilvnia. por ali. E ele veio para a Argentina... Mas ele veio para a Argentina,

    ele tinha... A histria desse pessoal nesse perodo meio mtica, voc no sabe... A idade deles,

    voc no sabe ao certo. E a ltima coisa que voc pode confiar nos documentos. Eles

    inventavam. Mas acho que ele veio l com 13 ou 14 anos mais ou menos.

    L.R. Mas ele vem parar no Brasil...?

    B.F. Ele vem parar no Brasil. Ele morou vrios anos na Argentina. Ele, em 1913, em 1912 ou

    1913, porque ele sempre dizia que foi um pouco antes da Primeira Guerra, ele veio para o

    Brasil, e da no saiu. Ele morreu em 1975, quer dizer, ele teve 60 anos de Brasil.

    [REINCIO DA ENTREVISTA]

    P.F. Ento, professor, como a gente estava dizendo, eu gostaria que o senhor comeasse

    contando um pouco dos dados biogrficos do senhor, onde o senhor nasceu, e como que isso de

    alguma forma se relaciona com a sua formao profissional.

    B.F. Eu nasci em So Paulo, em dezembro de 1930, ano em que ocorreu uma revoluo sobre

    a qual eu escrevi um livro. Depois passei para outros assuntos. A minha origem de uma

    famlia judaica no religiosa, e isso, me parece, tem a ver com uma valorizao do estudo muito

    grande na minha casa. No havia ancestrais intelectuais, mas havia essa valorizao do saber. A

    frase que era muito comum, no s na minha casa, era: Se voc tiver que mudar de pas, voc

    leva consigo uma coisa que ningum pode te tirar, que o conhecimento. Eu fiz a Faculdade

    de Direito do Largo de So Francisco, me formei em 1953, portanto, com 23 anos, e passei a

    exercer a advocacia privada por algum tempo, e muito incentivado pela minha mulher, Cynira,

  • Transcrio

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    eu resolvi fazer o curso de histria, porque eu gostava muito de histria e achava que o direito

    era apenas uma via de sustento, uma via profissional, mas o meu gosto era a histria. Ento, eu

    fiz a histria bem depois de ter feito o curso de direito isso nos anos 1960. Mas, por uma srie

    de razes, inclusive pela emergncia, ou pelo golpe de 1964, eu acabei ficando num cargo, por

    concurso, de consultor jurdico da Universidade de So Paulo (USP). Ento, eu passei um bom

    perodo da vida profissional como advogado da USP. S depois desse perodo, depois que eu

    me aposentei da Consultoria Jurdica da USP, foi que eu fiz uma experincia de dez anos como

    professor no Departamento de Cincia Poltica, e no da histria. De forma que muita gente

    pensa que eu estou ligado histria, fui ligado histria, que sempre fui historiador, e no

    bem verdade. Eu fui historiador, alm de advogado.

    P.F. Pelo que o senhor conta, a trajetria do senhor um pouco atpica, digamos assim, de

    alguns dos... O senhor diria que ela um pouco atpica dos historiadores da gerao do senhor?

    E se for atpica, o quanto o fato de o senhor navegar nessa interdisciplinaridade, o fato de o

    senhor ter feito direito e depois histria e ter dado aula de cincia poltica, o quanto isso

    influenciou o trabalho do senhor em alguma medida?

    B.F. Olha, eu acho que, na minha gerao, eu j fui uma exceo. As carreiras comearam a

    se profissionalizar, a ps-graduao foi instituda, as pessoas iam ser professores. Essa era a

    alternativa. Eu me comparo um pouco com os que vieram antes: os historiadores do passado,

    raros deles eram professores, at porque o sistema de ensino era muito mais restrito. De que

    maneira esse percurso me influiu? Acho que teve uma influncia no sentido da liberdade, do

    que fazer, do que escrever, do que optar. Porque embora eu tenha feito doutoramento, livre-

    docncia, mestrado enquanto era consultor da USP, embora eu tenha feito isso, eu fiz tudo isso

    com muita liberdade, porque os meus orientadores eram orientadores um pouco entre aspas, j

    que eu no tinha um comprometimento de carreira. Outra coisa que pode... Agora, h um outro

    aspecto, que um aspecto negativo: como eu no era professor, a minha possibilidade de

    pesquisar por um tempo longo fora de So Paulo era muito restrita. Eu tinha que explicar e o

    meu chefe contribuiu muito para isso, o Fbio Prado, meu amigo at hoje , eu tinha que

    explicar longamente por que eu queria, sendo advogado da Consultoria Jurdica, passar dois

    meses da Inglaterra, num centro de histria. No era fcil e nem havia muita simpatia pelo meu

    nome, por parte dos ocupantes da Reitoria, todos eles, depois do golpe. Ento, isso me limitou.

  • Transcrio

    6

    Isso limitou muito o meu campo de atuao. Da que essa seja uma das razes pelas quais eu me

    concentrei muito em estudos em torno de So Paulo, tendo por objeto So Paulo. No todos,

    mas So Paulo vai aparecendo, de uma forma ou de outra, nos meus trabalhos. E a razo no

    s essa, claro; a razo que, tambm, eu tenho uma profunda ligao com a cidade. Mas a

    dificuldade de me movimentar fora desse circuito pesou muito.

    L.R. E a deciso de ter cursado histria durante a ditadura? O fato de toda a...? Ou melhor:

    toda a movimentao poltica de alguma forma contribuiu para a escolha da histria? Ou no?

    B.F. No, porque eu j gostava de histria desde menino. No velho ginsio, eu gostava de

    histria; no colegial, eu gostava de histria. Tive uma professora no colegial que representou

    um incentivo muito grande, que foi a Emlia Viotti da Costa, que veio a ser professora da

    faculdade e foi, tambm, minha professora na faculdade. Ento, o meu gosto por histria vem

    muito antes do golpe e muito antes da fermentao.

    P.F. Mas talvez valesse a pena o senhor falar um pouco sobre... O senhor pega esse perodo

    bastante de fermentao poltica do pr-1964 e o senhor teve uma militncia, uma atuao

    poltica. O senhor podia falar um pouco disso para ns?

    B.F. Posso falar. Eu fui... Bom, eu fiz um percurso... Eu comecei... A h um aspecto

    interessante: como que se deu o meu interesse pela poltica? O interesse pela poltica veio

    muito cedo e de uma forma muito curiosa. Eu tinha um av cego foi progressivamente ficando

    cego , e ele era um leitor, sem fazer propaganda, e