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Artigo sobre as bonecas Karajás, escrito por Telma Camargo.

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  • 1

    Modos de fazer Boneca Karaj, circulao de conhecimento

    e a construo do territrio1

    Telma Camargo da Silva PPGAS, FCS - UFG2

    Resumo: O projeto Bonecas Karaj, que subsidiou o registro desse artefato cermico como

    Patrimnio da Cultura Brasileira, levantou dados que permitem discutir a relao entre os

    modos de fazer a boneca (ritxoko) com a circulao do povo Karaj pelo vale do rio Araguaia.

    Possibilita tambm problematizar a noo de tradio e memria na configurao de

    identidade e territrio tnicos. Entre as mais de vinte aldeias Karaj registradas, a de Santa

    Isabel do Morro, localizada na Ilha do Bananal, no Estado do Tocantins, se constitui como

    centro simblico do saber-fazer a boneca ao qual recorrem ceramistas de outras aldeias,

    estudiosos, colecionadores e comerciantes. A partir dessas consideraes, esta comunicao

    discute o trnsito do conhecimento sobre o modo de fazer ritxoko e a circulao das

    ceramistas como reveladores da complexa relao entre tradio e mudana culturais.

    Palavras-Chave: Construo do lugar; corpo, memria e identidade; ceramistas; boneca

    Karaj

    Introduo

    (...) Temos de seguir as coisas em si mesmas, pois seus significados esto inscritos

    em suas formas, seus usos, suas trajetrias.

    Somente pela anlise destas trajetrias podemos interpretar as transaes

    e os clculos humanos que do vida s coisas.

    Arjun Appadurai, 2008 [ 1986]

    Nesse trabalho3 discuto a circulao do conhecimento sobre o modo de fazer a boneca

    Karaj um artefato cermico - como indicador da relao entre corpo, lugar, memria e

    1 Trabalho apresentado no XXXV Convegno Internazionale di Americanistica, no GT Segni, simboli e

    dinamiche di cosntruzione del territrio indigeno, coordenado por Piero Gorza (Universit degli Studi di Turino, Itlia; Centro Studi Americanistici Circolo Ameridiano; Instituto de Estudios Indgenas da Universidad Nacional Autnoma de Chiapas, Mxico) e Pedro Pitarch Ramn (Universidad Complutense de

    Madrid, Espanha). O evento, organizado pelo Centro Studi Americanistici Circolo Ameridiano, foi realizado em Perugia, Itlia, nos dias 3 a 10 de maio de 2013.

    2 A participao no XXXV Convegno Internazionale di Americanistica e o deslocamento de Goinia (Brasil)

    para apresentao oral do trabalho em Perugia (Itlia) foram financiados pela Fundao de Amparo Pesquisa

    do Estado de Gois FAPEG -, Edital Chamada Pblica 03/2012 para participao em eventos no exterior (2013 10 26 7000 134).

  • 2

    identidade social (CASEY, 1996). Argumento que a circulao do corpo que sabe o trnsito

    de ceramistas mestras entre diferentes aldeias - carrega consigo as memrias expressas em

    narrativas e em objetos que configuram identidades sociais: gnero, gerao, etnia.

    A minha participao na equipe do projeto Bonecas Karaj: arte, memria e

    identidade indgena no Araguaia4 que subsidiou o registro desse artefato

    5 como Patrimnio

    Cultural Imaterial do Brasil6 me possibilitou trabalho de campo

    7, em diferentes momentos dos

    anos de 2009, 2010 e 2011, junto a esse grupo indgena brasileiro8. Embora a pesquisa

    englobe as aldeias de Santa Isabel do Morro, Werebia, Watau e JK na Ilha do Bananal (TO) e

    Buridina e Bd-Bur9 (GO), o projeto focou posteriormente trs delas: Santa Isabel do Morro,

    Buridina e Bd-Bur. Os dados etnogrficos construdos sobre o oficio e o modo de fazer a

    ritxoko - registrada como um bem do povo Karaj - apontam para especificidades que

    distinguem o oficio executado em Santa Isabel daquele executado em Buridina e Bd Bur:

    diferenas na matria prima usada; na transmisso do conhecimento; na circulao do objeto

    entre os habitantes da aldeia e entre estes e os no- ndios. Estas observaes levantam

    3 Com exceo das imagens de nmeros 06 e 07, todas as outras fotografias usadas nesse artigo so de autoria de Telma Camargo da Silva e pertencem ao acervo do Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional IPHAN.

    4 Projeto que teve sua origem no Museu Antropolgico da Universidade Federal de Gois e foi executado por

    uma equipe de pesquisa composta por esta instituio e formada pelos antroplogos: Manuel Ferreira Lima

    Filho, Nei Clara de Lima, Rosani Moreira Leito e Telma Camargo da Silva. Contou tambm com a participao

    de Nbia Vieira Teixeira, como assistente de pesquisa e Michellle Nogueira de Resende como bolsista. Foi

    financiada no ano de 2008, pela Fundao de Apoio Pesquisa do estado de Gois (FAPEG), e recebeu apoio

    da Secretaria de Estado de Polticas Pblicas para Mulheres e Promoo da Igualdade Social (SEMIRA). Em

    2010, o projeto contou com a parceria e financiamento do Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional

    (IPHAN), Superintendncia de Gois. A pesquisa foi desenvolvida no perodo de novembro de 2008 a agosto de

    2011. A segunda fase da pesquisa (2010-2011) esteve sob minha coordenao.

    5 As bonecas foram registradas nas categorias ofcio e modos de fazer e formas de expresso. Esse registro foi

    aprovado em 25 de janeiro de 2012.

    6 A figura do registro de bens culturais de natureza imaterial foi instituda pelo Decreto n 3.551, de 4 agosto de

    2000 que criou o Programa Nacional do Patrimnio Imaterial e visa identificar e reconhecer os valores de bens

    que tm relevncia nacional para a memria, a identidade e a formao da sociedade brasileira bem como promover a salvaguarda e promoo dos mesmos (IPHAN, 2000, p. 25). Este programa desenvolvido no

    Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional IPHAN,vinculado ao Ministrio da Ciultura. O registro pode ser feito em um dos seguintes livros: Livro de Registro dos Saberes, Livro de Registro das Celebraes,

    Livro de Registro das Formas de Expresso e Livro de Registro dos Lugares. 7 Para a redao desse trabalho integrei dados bibliogrficos e de pesquisa de campo etnogrfica.

    8 Existem hoje aproximadamente vinte aldeias Karaj. A populao de aproximadamente 3.000 pessoas.

    (FUNASA 2011).

    9 Em 2008, nas viagens de apresentao aos Karaj do Projeto Bonecas Karaj, encontramos a formao de uma

    nova aldeia, Bd Bur, chefiada pelo Cacique Tohobahi Karaj, sobrinho do cacique Raul Hawakati, de

    Buridina. Em 2010, Tohobari e sua famlia j haviam se transferido para o Aric (REA III), onde segundo ele

    se situa a nova aldeia.

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    algumas questes: se o bem reinvindicado pelo povo e marca uma identidade grupal, que

    sentidos so construdos pelas particularidades no oficio e modo de fazer? Em Buridina, as

    ceramistas apontam as oleiras de Santa Isabel do Morro, dado recorrente na fala de Kari10

    -

    como a fonte do conhecimento tradicional do saber fazer a boneca. Qual o sentido desta

    relao? Kari tambm assinala a importncia da vinda dessas ceramistas para Buridina para

    ministrar oficinas. Que sugere esta recorrncia ao saber produzido em Santa Isabel do Morro

    (Hawal Mahhu) como uma referncia de tradio para as ceramistas de Buridina? Este

    texto analisa estas questes a partir do entendimento de que os objetos e as detentoras do

    conhecimento sobre suas fabricaes expressam em suas trajetrias processos comunicativos

    e desvelam a memria do grupo envolvido.

    As formas/ os estilos / os usos: Os Karaj e a produo das bonecas cermica

    Habitantes do vale do Rio Araguaia, esse rio considerado como eixo de referncia

    mitolgica e social do povo Karaj (LIMA FILHO, 2005, 325). As aldeias se localizam

    prximas aos lagos e afluentes dos rios Araguaia e Javas que formam a Ilha do Bananal, a

    maior ilha fluvial do mundo11

    , situada no curso mdio do Araguaia. O mito de origem narra

    que eles moravam no fundo do rio e formavam uma comunidade denominada Berahatxi

    Mahadu, chefiada por Koboi. Conta o mito que depois eles vieram superfcie e se

    espalharam pelas terras que margeavam o rio12

    . Assim, os trs sub-grupos que constituem o

    povo Karaj so nomeados pela posio de ocupao em relao ao curso do Araguaia trazida

    pela representao espacial contida na narrativa mtica: os Java, considerados o Povo do

    Meio Itua Mahadu; os Xambio, o Povo de Baixo Iraru Mahadu; e os Karaj

    proprimente ditos, o Povo de Cima Ib Mahadu. Os Karaj que habitam ao sul da Ilha do

    Bananal, como os moradores de Santa Isabel do Morro e das Aldeias de Buridina e Bd-Bur,

    em Aruan, Gois, so alguns dos representantes dos Ibo Mahadu. Com algumas variaes

    dialetais, os trs sub-grupos so falantes de inyryb, pertencente ao tronco lingustico macro-

    10

    a mesma Kari que sugere ao antroplogo Eduardo Soares Nunes, ento em trabalho de campo na aldeia

    Buridina, ir para alguma aldeia Karaj da Ilha do Bananal porque afinal l que se mantm a cultura forte. (2009, p. 3)

    11

    Com aproximadamente 2 milhes de hectares. 12

    Quando habitavam no fundo das guas, o ambiente era frio e restrito mas eles estavam contentes e eram gordos. Certo dia, um jovem Karaj encontrou uma passagem (inysedena) , na Ilha do Bananal saiu e ficou

    encantado com o espao para correr, com as praias e riquezas do Rio Araguaia. Ele voltou, reuniu outros jovens

    e voltou para a superfcie. Ao tentarem voltar, encontraram a passagem fechada por ordem de Koboi, chefe do

    povo das guas. A passagem estava guardada por