BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA MARÇO 2016 ?· de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), com a Associação…

Download BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA MARÇO 2016 ?· de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), com a Associação…

Post on 18-Nov-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

TRANSCRIPT

  • MEU NOME NO CRACUDOA CENA ABERTA DE CONSUMO DE DROGAS DA RUA FLVIA FARNESE, NA MAR, RIO DE JANEIRO

    REDES DA MAR E CESeC

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA MARO 2016

    22

  • Eu me chamo Reginaldo Gomes de Arruda, sou um usurio de crack e quero ser chamado pelo nome, no de cracudo. [ morador da cena de consumo da flvia farnese ]1

    1. O ttulo deste artigo se inspira na fala de Reginaldo e na matria Prazer, meu nome Reginaldo, no cracudo, de Rosilene Miliotti, publicada no jornal Mar de Notcias em 29/09/2015, vencedora em segundo lugar do Prmio Gilberto Velho de Mdia e Drogas de 2015 (disponvel em http://redesdamare.org.br/blog/noticias/prazer-meu-nome-e-reginaldo-nao-cracudo/. ltimo acesso: 15/12/2015). Afora Reginaldo, que optou por identificar-se, todos os nomes de moradores da cena citados neste trabalho so fictcios.

    http://redesdamare.org.br/blog/noticias/prazer-meu-nome-e-reginaldo-nao-cracudohttp://redesdamare.org.br/blog/noticias/prazer-meu-nome-e-reginaldo-nao-cracudo

  • RESUMO

    Em 2015 a Redes da Mar desenvolveu um processo de aproximao cena aberta de consumo de drogas da rua Flvia Farnese, na Mar, atpica no Rio de Janeiro por sua estabilidade geogrfica e demogrfica. Combinando observao participante, criao de vnculos, interveno, articulao institucional e entrevistas semiabertas com 59 dos cerca de 80 moradores da cena, buscou-se traar o perfil e identificar as demandas dos moradores, entender as dinmicas incidentes no espao que ocupam e mapear as polticas de atendimento que ali atuam. Ponto de convergncia de problemas sociais urbanos e contexto marcado por diversas violncias, discriminaes e trajetrias de marginalizao, o estudo da cracolndia revela a urgente necessidade de polticas pblicas integradas, capazes, inclusive, de ampliar as prticas de reduo de danos para alm das relacionadas diretamente ao uso de drogas. Revela tambm a importncia da mediao de uma organizao da sociedade civil integrada no territrio para articular demanda e oferta de polticas pblicas, e facilitar a formulao de estratgias sustentveis de atendimento aos usurios de drogas em situao de rua.

  • COORDENAOELIANA SOUSA SILVA (Redes da Mar)JULITA LEMGRUBER (CESeC)

    EQUIPE

    COORDENADORA DE CAMPO E PESQUISADORAMARA GABRIEL ANHORN (Redes da Mar)

    ASSISTENTE SOCIAL E PESQUISADORALIDIANE MALANQUINI (Redes da Mar)

    PESQUISADORAANA CLARA TELLES (CESeC)

    MEDIADORES COMUNITRIOSHENRIQUE GOMES (Redes da Mar)NLSON TEIXEIRA (Associao de Moradores de Parque Mar)

    PARCERIA

    NCLEO INTERDISCIPLINAR DE AES PARA A CIDADANIA (NIAC-DIUC-UFRJ)

    COORDENADORAMIRIAM KRENZINGER

    ESTAGIRIASCRISTIALANE CARVALHO DE LIMA JESSICA DUTRA

    REVISO TCNICALEONARDA MUSUMECI (IE/UFRJ e CESeC)

    APOIOOPEN SOCIETY FOUNDATIONS

    INTRODUO

    Tornou-se moeda corrente no Brasil a imagem das chamadas cracolndias como verdadeiros infernos na Terra: antros de zumbis teleguiados pela droga, violentos, imprevisveis, repug-nantes e desprovidos de qualquer capa-cidade de escolha ou discernimento. Rtulos que geram medo e descon-fiana, e fornecem o caldo de cultura ideal para estratgias conservadoras empenhadas em esconder problemas sociais ou tentar elimin-los por meio da represso. O desconhecimento sobre esses espaos e sobre seus ocupantes desempenha papel central na repro-duo dos esteretipos. Por sua vez, o preconceito, alimentado pela falta de conhecimento, torna-se parte central do problema, acrescentando j eleva-dssima vulnerabilidade social dos usu-rios de drogas em situao de rua o estigma que fecha portas, reduz alter-nativas e bloqueia horizontes. Descons-truir chaves em torno de cracudos e cracolndias , portanto, uma tarefa imprescindvel caso se queira efetiva-mente abrir caminhos para lidar com os problemas relacionados populao em situao de rua e ao uso abusivo de drogas no pas.

    A pesquisa cujos resultados se apre-sentam aqui consistiu num processo de aproximao aos moradores e fre-quentadores de uma cena de consumo de crack do municpio do Rio de Janeiro atpica por sua longevidade e estabilidade. Localizada na rua Flavia Farnese, no Parque Mar uma das 16 comunidades que formam o Com-plexo da Mar, na regio da Leopoldina, zona norte da cidade , essa cena fixou-se territorial e demograficamente desde 2013. O processo foi elaborado e conduzido pela Associao Redes

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22Maro 2016 4

  • de Desenvolvimento da Mar (Redes da Mar), em parceria com o Centro de Estudos de Segurana e Cidadania (CESeC), com a Associao de Mora-dores do Parque Mar e com o Ncleo Interdisciplinar de Aes para Cida-dania (NIAC/UFRJ). Combinou obser-vao participante, interveno e arti-culao institucional com o objetivo de conhecer o perfil scio-demogrfico do grupo; compreender as dinmicas relacionais e territoriais constitutivas da cena de consumo; mapear as insti-tuies e as formas de atendimento populao local; conhecer e analisar as principais demandas dos moradores, e oferecer-lhes algumas experincias que pudessem propor temporalidades e sociabilidades distintas.

    De fevereiro a julho de 2015, a equipe da pesquisa visitou regular-mente a cena de consumo da Flavia Farnese (por comodidade, referida doravante como CCFF), conversando informalmente com moradores, fre-quentadores e profissionais de ateno e cuidado a usurios de drogas em situao de rua; realizando entre-vistas; aplicando questionrios semia-bertos e observando as dinmicas locais.2 Paralelamente, desenvolve-ram-se estratgias e espaos para o estabelecimento de outras formas de interao entre a equipe e o grupo de moradores, capazes de acionar outras subjetividades e representaes para alm da identidade de cracudo: encontros fotogrficos, produo de imagens (pinhole e vdeos), sesses de cinema, rodas de capoeira e sadas para palestras e espetculos. Auxlio para inscrio em cursos oferecidos por instituies locais, rodas de con-versas com profissionais da Mar visando a debater o tema das drogas, aproximao da equipe do jornal

    comunitrio Mar de Noticias aos moradores da CCFF e facilitao do dilogo entre rgos de atendimento aos usurios foram alguns dos desdo-bramentos mais importantes da pes-quisa-interveno cujos resultados so expostos resumidamente a seguir.

    TERRITRIOS EM MOVIMENTO: A CENA DA RUA FLAVIA FARNESE E A SEGURANA PBLICA DO RIO DE JANEIRO

    Fixao e itinerncia das cenas de consumo de crack e de seus usurios no Rio de Janeiro esto diretamente rela-cionadas agenda da segurana pblica e s obras urbansticas do PAC-Favelas, assim como a arranjos especficos nos territrios onde essas cenas se estabe-lecem. Diferentemente do caso de So Paulo, em que h grande concentrao de usurios de crack na rea central da cidade, o Rio se caracteriza por uma multiplicidade de cenas abertas de consumo localizadas, na sua maioria, em reas perifricas no interior ou no entorno de favelas e ao longo de linhas frreas na zona norte da cidade. Em 2015, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social identificou 18 cenas na regio, cujas localizaes se explicam pela facilidade de acesso droga, pela negociao com grupos cri-minosos armados locais, pela invisi-bilidade dos espaos e/ou pela inter-veno menor e menos sistemtica de agentes de segurana pblica.

    A partir de 2008, porm, a imple-mentao das Unidades de Polcia Pacificadora (UPPs) em diversas favelas gerou intensa movimentao das cenas de consumo de crack pela cidade do Rio de Janeiro, uma vez que a chamada pacificao quase invaria-velmente implicou o desalojamento das

    2. Informaes mais detalhadas sobre a metodologia adotada no trabalho de campo encontram-se no relatrio completo do projeto Reflexes sobre polticas de drogas na perspectiva de uma cena de consumo na Mar : o caso da cena da Flvia Farnese. Rio de Janeiro: Redes da Mar/CESeC, novembro de 2015.

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22Maro 2016 5

  • cracolndias existentes no interior ou no entorno dos territrios a serem ocu-pados por UPPs. Assim ocorreu sucessi-vamente com as cenas de consumo do Pavo-Pavozinho em 2009; do Com-plexo do Alemo e de Tabajaras em 2010; da Mangueira em 2011; de Santo Amaro, Arar, Manguinhos e Jacare-zinho em 2012. Como ressaltam Frgoli Jr. e Cavalcanti,

    Trata-se de fluxos considerveis de usurios que, expulsos de regies em que se inicia o processo de pacifica-o, refazem suas rotinas e retomam os esforos territorializantes associa-dos prtica constante do uso da dro-ga em novos espaos. A prpria itine-rncia dessas territorialidades acaba por produzir naqueles que antes se encontravam nesses locais a sensao de que as cracolndias brotam rpida e espontaneamente em espaos in-tersticiais, quando o que se observa, no caso carioca, so deslocamentos de prticas, agentes, rotinas e socia-bilidades ancoradas no uso do crack, para alm das regies em que vigora a poltica de pacificao.3

    No caso da Mar, esse movimento se torna mais evidente aps a insta-lao, em outubro de 2012, das UPPs de Manguinhos e Jacarezinho, abran-gendo a rea onde na poca se situava a maior cracolndia do Rio de Janeiro. quando ocorre considervel migrao de usurios de crack dessa rea para as margens da Avenida Brasil, na vizi-nhana do Parque Unio, pertencente ao conjunto de favelas da Mar, onde se formaria a nova cena da moda a partir do final de 2012.4

    Em contraste com as cenas tpicas do Rio, a grande visibilidade desse espao de consumo, instalado numa das principais vias expressas da cidade, chamou ateno da imprensa e dos

    moradores, que passaram a clamar das autoridades solues para o pro-blema. Como sublinha Taniele Rui, a apario no espao pblico de consi-dervel nmero de indivduos que com seus corpos, movimentaes e ocu-paes inusitadas se tornam visveis para a cidade incitam produo de dis-tintos aparatos de gesto, tratamento e ateno.5 Mas a tentativa de afas-tamento da visibilidade pblica que parece constituir um dos principais motores das estratgias voltadas s cenas abertas de usurios de crack.

    Assim, no final de 2012, operaes de Choque de Ordem da Secretaria Municipal de Ordem Pblica (Seop) e aes conjuntas com a Comlurb, com apoio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, procu-raram remover as cenas de consumo da Avenida Brasil/Parque Unio, por meio de recolhimento, internao compulsria ou simples expulso dos moradores e frequentadores do local em intervenes muitas vezes vio-lentas. Tencionava-se, sobretudo, pr fim desordem urbana e combater delitos atribudos cracolndia que vitimizavam pedestres e motoristas na Avenida Brasil. Paralelamente s inter-venes coercitivas, porm, surgem nessa rea e nas cenas de consumo de crack instituies e servios de assis-tncia e sade direcionados populao em situao de rua e usuria de drogas, pautados no cuidado e na garantia de direitos, que vm completar as aes do Consultrio na Rua instalado em Manguinhos desde 2011: o projeto Pro-ximidade, da SMDS, criado em feve-reiro de 2014, e o CAPSad III Miriam Makeba, inaugurado em abril de 2014.6

    Agentes institucionais ouvidos pela pesquisa estimam em cerca de 500 pessoas o total de moradores e

    3. FRGOLI JR., Heitor; CAVALCANTI, Mariana. Territorialidades da(s) cracolndia(s) em So Paulo e no Rio de Janeiro.Anurio Antropolgico 2012. Braslia, UnB, 2013, v. 38, n.2, p. 76 (disponvel em http://www.dan.unb.br/images/pdf/anuario_antropologico/Separatas%202012_II/Artigo%20Frugoli%20Jr.%20e%20Cavalcanti.pdf. ltimo acesso: 20/11/2015).

    4. Cena da moda uma expresso ouvida durante o trabalho de campo para designar as cracolndias mais em evidncia no momento, seja pelo grande nmero de usurios, seja pela visibilidade pblica, seja ainda pela vulnerabilidade mais alta dos moradores, que faz com que os servios pblicos disponveis, sempre mingua de recursos e pessoal, migrem para atender a esses moradores, reduzindo sua presena nas cenas de consumo mais estabilizadas ou sadas da moda.

    5. RUI, Taniele Cristina. Corpos Abjetos: Etnografia em cenrios de uso e comrcio de crack. Tese de Doutorado em Antropologia Social. Campinas: IFCH/Unicamp, 2012 (disponvel em http://www.neip.info/downloads/Taniele_Rui_Tese.pdf. ltimo acesso: 20/11/2015).

    6. Ver, mais adiante, a descrio desses projetos e servios na seo Polticas de atendimento e cuidado.

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22Maro 2016 6

    http://www.dan.unb.br/images/pdf/anuario_antropologico/Separatas%202012_II/Artigo%20Frugoli%20Jr.%20e%20Cavalcanti.pdfhttp://www.dan.unb.br/images/pdf/anuario_antropologico/Separatas%202012_II/Artigo%20Frugoli%20Jr.%20e%20Cavalcanti.pdfhttp://www.dan.unb.br/images/pdf/anuario_antropologico/Separatas%202012_II/Artigo%20Frugoli%20Jr.%20e%20Cavalcanti.pdfhttp://www.dan.unb.br/images/pdf/anuario_antropologico/Separatas%202012_II/Artigo%20Frugoli%20Jr.%20e%20Cavalcanti.pdfhttp://www.dan.unb.br/images/pdf/anuario_antropologico/Separatas%202012_II/Artigo%20Frugoli%20Jr.%20e%20Cavalcanti.pdfhttp://www.dan.unb.br/images/pdf/anuario_antropologico/Separatas%202012_II/Artigo%20Frugoli%20Jr.%20e%20Cavalcanti.pdfhttp://www.neip.info/downloads/Taniele_Rui_Tese.pdfhttp://www.neip.info/downloads/Taniele_Rui_Tese.pdfhttp://www.neip.info/downloads/Taniele_Rui_Tese.pdf

  • frequentadores da cena Avenida Brasil/Parque Unio em 2012. As sucessivas intervenes de agentes de segurana pblica e a ampla divulgao dessa cracolndia despertaram preocu-paes tambm em grupos criminosos armados, que, temendo riscos para o controle dos espaos sob sua influncia e possveis prejuzos para o comrcio de drogas, proibiram, num primeiro momento, a venda e o consumo de crack na favela Parque Unio.7 Mas, a partir de uma negociao entre esses grupos e a Associao de Moradores local, a cena de consumo foi trans-ferida para um espao delimitado dentro do Parque Mar. No exata-mente dentro, pois o local da insta-lao foi em uma esquina prxima da Avenida Brasil, em rea comercial, no limite da residencial. E, de qualquer modo, um dentro, instvel, na fron-teira entre territrios controlados por dois grupos criminosos rivais.

    O arranjo encontrado para a per-manncia da cena na Flvia Farnese ocorreu com a responsabilizao da Associao de Moradores do Parque Mar pelo controle e pela assistncia aos usurios de crack ali instalados. Ao longo de 2013, os cerca de 500 frequen-tadores dessa cena de consumo desloca-ram-se entre as ruas 7 de Maro e Flvia Farnese, na esquina com a 29 de Julho. Tais perambulaes explicam-se tanto pelas queixas dos comerciantes, que impediam a permanncia dos usurios na 7 de Maro durante o dia, quanto pela localizao da Flvia Farnese na linha de tiro entre os dois grupos cri-minosos rivais, com alto risco de con-frontos e tiroteios durante a noite. Moradores relatam que, nesse perodo, desmontavam e remontavam barracos diariamente, permanecendo na Flvia Farnese at o fim do horrio comercial

    e deslocando-se para passar a noite em maior segurana na rua 7 de Maro.

    Com a entrada das Foras Armadas na Mar, em abril de 2014, reduzem-se consideravelmente os confrontos entre grupos criminosos armados, o que con-tribui, paradoxalmente, para fixao da cena de consumo e para a sua orga-nizao interna. Ao contrrio do que vinha ocorrendo nas reas de instalao de UPPs, a ocupao militar da Mar entre abril de 2014 e maio de 2015 no implicou a remoo da cena de consumo de crack, como de incio os usurios temiam. Seja pelo dilogo das asso-ciaes de moradores locais e da Redes da Mar com o comando das tropas de ocupao, seja pelo fato de essa ocu-pao no ter como objetivo imediato o combate venda e ao consumo de drogas, mas sim o controle do terri-trio para posterior instalao de UPPs, tornou-se possvel a permanncia dos usurios de crack e sua fixao numa esquina da rua Flvia Farnese. Desde o final de 2014, porm, anunciava-se a sada progressiva do Exrcito e a inau-gurao de UPPs no primeiro semestre de 2015. Foi nesse perodo de grande incerteza quanto ao futuro da cena de consumo da Mar que se desenvolveu a pesquisa aqui relatada, cujas entre-vistas e observaes captaram fortes apreenses dos usurios com relao entrada da UPP, baseadas em experi-ncias anteriores de desterritorializao. Essa entrada, no entanto, foi sendo sucessivamente adiada e at o momento da redao deste trabalho (fevereiro de 2016) ainda no se havia concretizado.

    O processo de fixao da CCFF deve-se, em suma, combinao com-plexa dos seguintes fatores: (a) trans-ferncia para uma localizao rela-tivamente invisvel no interior da Mar; (b) gerncia e mediao da

    7. Em 11/01/2011, uma foto publicada pelo jornal carioca O Dia mostrava uma grande faixa com os dizeres Aqui na comunidade do Parque Unio no h mais venda de crack.

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22Maro 2016 7

  • Associao de Moradores do Parque Mar; (c) entrada das Foras Armadas; (d) regulao da cena pelo grupo cri-minoso armado local. E tambm a outros aspectos que sero abordados mais adiante, tais como (e) organizao da cena em torno de lideranas internas e (f) forte presena de moradores com vnculos prvios com a Mar.

    Desde janeiro de 2013, a CCFF vem se constituindo num espao de consumo fixo, em um permetro de aproximadamente 80m2, onde se abriga um nmero de pessoas que variou, no perodo da pesquisa, entre 80 e 100, incluindo moradores e frequen-tadores regulares. Em julho de 2015, no ltimo levantamento, identifica-ram-se 83 pessoas, das quais 42 viviam nos 16 barracos existentes, 21 moravam na cena mas no possuam barraco e 20 frequentavam regularmente o local. Desses 83, 59 responderam maior parte das perguntas do questionrio-en-trevista aplicado durante a pesquisa.

    PERFIS, VNCULOS E TRAJETRIAS EM CENA

    IDADE, SEXO, ESCOLARIDADE

    Os moradores da Flvia Farnese so majoritariamente adultos jovens, com idade mdia de 31,5 anos. Quase metade situa-se na faixa de 20 a 29 anos e 74% tm de 20 a 39 anos de idade.

    H praticamente paridade quanto ao sexo dos 59 moradores entrevis-tados: 28 mulheres e 31 homens, o que confirma os resultados de algumas pes-quisas sobre o perfil geral dos usurios de cocana e crack, mas contraria as que apontam forte predominncia mas-culina nas cenas abertas de consumo, como o levantamento nacional da Fiocruz, que calcula em cerca de 79%

    a proporo de usurios do sexo mas-culino nesses locais.8 Mesmo no con-junto de 107 pessoas que foi pos-svel observar ao longo da pesquisa, incluindo as que no responderam ao questionrio, a predominncia mas-culina mostrou-se relativamente pequena: 62 homens, ou 58% do total.

    Pretos e pardos esto quase sempre sobrerrepresentados nos grupos e situ-aes de vulnerabilidade socioeco-nmica, e a cena da Flvia Farnese no foge regra: 30% de autodeclarados pretos, 53% de pardos, 25% de brancos e 2% de indgenas compem o perfil racial dos moradores. Baixa escolaridade tambm caracteriza a populao sob anlise: 86% dos entrevistados tinham nvel educacional inferior a ensino mdio completo proporo bem maior que a verificada no conjunto da popu-lao da Mar com 16 anos ou mais de idade (68,2%) e muito maior que a regis-trada no conjunto da populao carioca com 15 anos ou mais (47,8%).9 Quase metade dos moradores da CCFF (46%) no havia sequer completado o ensino fundamental, enquanto essa parcela era de 28,1% na populao total da cidade com 15 anos ou mais, segundo o Censo Demogrfico de 2010.

    LAOS FAMILIARES

    No que se refere situao con-jugal, 61% dos entrevistados declara-ram-se solteiros; 23 pessoas disseram viver como casado ou estar casado e, destes, apenas um afirmou que o cnjuge no vivia na CCFF. A equipe de campo identificou 12 casais que per-maneceram estveis ao longo da pes-quisa; todos eles tinham se conhecido em cenas de consumo anteriores ou na prpria Flvia Farnese. Dos 59 entre-vistados, 47 disseram ter filhos, sendo

    8. BASTOS, Francisco Incio; BERTONI, Neilane (orgs.) Pesquisa Nacional sobre o uso de crack: Quem so os usurios de crack e/ou similares do Brasil? Quantos so nas capitais brasileiras? Rio de Janeiro: Editora ICICT/Fiocruz, 2014, p. 48 (disponvel em http://www.icict.fiocruz.br/sites/www.icict.fiocruz.br/files/Pesquisa%20Nacional%20sobre%20o%20Uso%20de%20Crack.pdf. ltimo acesso: 20/11/2015).

    9. O percentual relativo Mar foi obtido de dados preliminares do Censo Mar 2015; o da populao carioca do Censo Demogrfico 2010, do IBGE.

    OS MORADORES DA FLVIA FARNESE SO MAJORITARIA-MENTE ADULTOS JOVENS, COM IDADE MDIA DE 31,5 ANOS. QUASE METADE SITUA-SE NA FAIXA DE 20 A 29 ANOS E 74% TM DE 20 A 39 ANOS DE IDADE

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22

    Maro 2016 8

    http://www.icict.fiocruz.br/sites/www.icict.fiocruz.br/files/Pesquisa%20Nacional%20sobre%20o%20Uso%20de%20Crack.pdfhttp://www.icict.fiocruz.br/sites/www.icict.fiocruz.br/files/Pesquisa%20Nacional%20sobre%20o%20Uso%20de%20Crack.pdfhttp://www.icict.fiocruz.br/sites/www.icict.fiocruz.br/files/Pesquisa%20Nacional%20sobre%20o%20Uso%20de%20Crack.pdfhttp://www.icict.fiocruz.br/sites/www.icict.fiocruz.br/files/Pesquisa%20Nacional%20sobre%20o%20Uso%20de%20Crack.pdfhttp://www.icict.fiocruz.br/sites/www.icict.fiocruz.br/files/Pesquisa%20Nacional%20sobre%20o%20Uso%20de%20Crack.pdfhttp://www.icict.fiocruz.br/sites/www.icict.fiocruz.br/files/Pesquisa%20Nacional%20sobre%20o%20Uso%20de%20Crack.pdf

  • a mdia de dois filhos por morador(a). Dos que tinham filhos, 32 disseram manter algum tipo de relao com eles, mas s em um caso o filho tambm morava na CCFF. Filhos menores de idade quase sempre moram com membros prximos da famlia, espe-cialmente com tias ou avs. Alm dos filhos, outro vnculo familiar impor-tante que 22 entrevistados declararam foi o que mantinham com suas mes.

    A grande maioria dos moradores ouvidos mais sistematicamente pela pesquisa 55 em 59 no rompera completamente os vnculos familiares e declarou ter visitado ou entrado em contato com membro(s) da famlia durante o perodo do levantamento. Para alguns, a casa de parentes pr-ximos um possvel lugar de retorno ainda que esse retorno, na maior parte dos casos, no seja desprovido de tenses e conflitos.

    Os moradores costumam referir-se a estadias temporrias em casa como spa familiar, aonde vo para dar um alvio ao corpo, recuperar foras e engordar. Isso contraria o estere-tipo do cracudo ou, mais gene-ricamente, da pessoa em situao de rua como algum que rompeu ou perdeu todos os seus vnculos afetivos e sociais. Ademais, os casos de usurios que recorrem ao spa familiar indicam certa preocupao com a sade e com o controle sobre o consumo de drogas.

    No se pode minimizar, por outro lado, a complexidade das relaes fami-liares marcadas por longos perodos de afastamento e violncia, como exem-plifica o caso de Vivian,10 21 anos de idade, moradora de rua desde os sete, quando fugiu dos sucessivos castigos fsicos da me. Na poca da pesquisa, a me cuidava do filho de Vivian, as duas se comunicavam regularmente

    por telefone e Vivian eventualmente buscava abrigo em casa, mas, como a equipe de campo pde presenciar uma vez, essas idas e vindas eram alvo de speras reclamaes por parte da me, d. Maria, que, alm do neto, cuidava de mais oito filhos. Outro tipo de tenso, responsvel pela curta durao dos spas, ilustrado por Zlia, quando relata: assim que eu chego l [na casa da irm], todo mundo me abraa e me beija, mas depois comeam as cobranas, querem que eu pare de usar [crack], comece a trabalhar, a prefiro voltar pra a rua.

    Entre os moradores que tm fami-liares na Mar, observamos uma fre-quncia grande, muitas vezes diria, de retorno casa desses familiares para comer, descansar e satisfazer necessi-dades bsicas. o caso de Eduarda, que, mesmo possuindo um barraco no local, vai todos os dias de manh casa da me para dormir, tomar banho e se ali-mentar, retornando cena de consumo no final da tarde. Esses exemplos revelam, de um lado, a manuteno de importantes vnculos e, por outro, uma grande ambivalncia, constituindo-se a famlia ao mesmo tempo em espao de cuidado e conflito: recuo e refgio pos-svel, mas tambm motivo para a per-manncia na rua.

    J para aqueles que no conseguem manter esses vnculos, a autorrepro-vao e a vergonha podem ser fatores de peso, como na fala de Reginaldo:

    Nem lembro a ltima vez que fui em casa, sinto saudade do meu filho. Mi-nha famlia sabe que estou aqui, j vieram me buscar, mas a vergonha de ser o que sou no me permite voltar. Tenho vergonha e decepo de mim mesmo, de tentar e no conseguir. Pra eu voltar pra casa tenho que voltar a ser uma pessoa normal, sem o vcio

    10. Como j dito, so fictcios todos os nomes de moradores da CCFF mencionados neste artigo.

    A GRANDE MAIORIA DOS MORADORES OUVIDOS MAIS SISTEMATICA-MENTE PELA PESQUISA NO ROMPERA COMPLETAMENTE OS VNCULOS FAMILIARES E DECLAROU TER VISITADO OU ENTRADO EM CONTATO COM MEMBRO(S) DA FAMLIA DURANTE O PERODO DO LEVANTAMENTO

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22

    Maro 2016 9

  • do crack. Preciso s de uma oportuni-dade, tirar meus documentos de novo e um trabalho. S vou sair daqui quan-do eu tiver condies de me sustentar. [...] No quero voltar pra minha fam-lia na situao em que me encontro. Eles no merecem.

    Essa reprovao moral tambm pode atingir os familiares, como expressa a me de um dos moradores da cena:

    muito cansativo saber que ele est l e eu ter que receb-lo todo dia, mas pior de tudo que a prpria famlia e os meus vizinhos me julgam por isso.

    ORIGENS E FLUTUAES

    Na quase totalidade, os moradores da CCFF provm de bairros populares ou favelas na regio metropolitana do Rio de Janeiro: 52 dos 59 entrevis-tados citaram as zonas Norte e Oeste da cidade ou a Baixada Fluminense como reas onde foram criados. Desses, 22 mencionaram a Mar como lugar de criao, ou seja, uma proporo signi-ficativa (37,2%,) das pessoas ouvidas eram moradores da Mar antes de se tornarem moradores da cena de consumo. Esse mais um dado que contraria o imaginrio social sobre os cracudos como seres totalmente estrangeiros aos espaos nos quais se estabelecem. E que tambm possibilita repensar estratgias de atendimento a essa populao por parte tanto dos moradores da Mar quanto dos atores institucionais que operam no territrio.

    A grande maioria dos entrevistados j passara por outras cenas (quatro, em mdia), via de regra localizadas na Zona Norte da cidade. Muitos usurios j se conheciam de cenas anteriores e em vrios casos haviam estabelecido

    vnculos e afinidades designados por famlia de rua.

    As principais razes apresen-tadas para a escolha da CCFF foram as relaes afetivas e familiares ali esta-belecidas; o grau de violncia menor e a tranquilidade maior, em compa-rao com as cenas de consumo ou outros locais de moradia anteriores, e o vnculo prvio com a Mar. A facilidade de obteno e/ou a qualidade da droga aparece em quarto lugar entre tais motivos mais uma vez na contramo do esteretipo dos zumbis movidos unicamente pelo desejo do crack. Esse espao, como o de muitas outras cra-colndias, de uma comunidade que se organiza em torno do uso do crack, mas tambm a partir de relaes afetivas, sociabilidades, vivncias e convivncia.

    Embora no haja correlao direta entre usar crack e morar na rua, os estudos que focalizam cenas abertas tm muita chance de encontrar uma combinao entre consumo abusivo de drogas e situao de rua, isto , de encontrar pessoas que passam a maior parte do tempo nessa situao, seja de forma permanente, temporria ou intermitente. Com efeito, na pesquisa sobre a cena da Flvia Farnese, apenas quatro pessoas disseram no estar em situao de rua no momento da entrevista. Dos 59 entrevistados, 76% encontravam-se nessa situao havia pelo menos um ano, sendo que cerca de 1/3 do total tinham pelo menos seis anos de moradia na rua.

    Um fato curioso que novamente contraria esteretipos e clichs a presena do que poderia ser chamado direito de propriedade ou direito moradia em relao aos barracos existentes na cena. No obstante hou-vesse um fluxo de moradores que iam

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22Maro 2016 10

  • e vinham ou que eram expulsos e no voltavam, de novos moradores e de fre-quentadores regulares e irregulares, a territorializao da cena de consumo da rua Flvia Farnese resultara numa considervel estabilidade demogrfica: a maioria dos moradores estava no local, em situao de rua, desde janeiro de 2013 e constitua um ncleo autodenominado fundadores da cra-colndia. Por terem participado de um modo ou de outro das lutas para permanecer ali e para obter melhorias no espao, desfrutariam consequente-mente de certos direitos e privilgios. Entre eles, a precedncia na obteno do barraco uma prerrogativa que, como se ver a seguir, no afeta somente as condies de moradia, mas tambm as possibilidades de renda.

    FONTES DE RENDA

    A pesquisa no tentou determinar a renda dos entrevistados, tarefa muito difcil em cenrios que envolvem ativi-dades ilegais, mas procurou entender de que modos eles satisfaziam neces-sidades como alimentao, vestimenta e o prprio consumo de drogas. Com-binando respostas a diferentes per-guntas do questionrio, obtiveram-se os seguintes resultados:

    31 dos 59 entrevistados afirmaram exercer alguma atividade remu-nerada e 28, no.

    Dos 31 com atividade remunerada, 17 mencionaram trabalhos informais e espordicos (como garimpo, fla-nelinha, consertos e vendas), 12 mulheres citaram prostituio e dois entrevistados reportaram atividades ilegais, como roubo, furto e venda de drogas como forma principal de obteno de renda.

    Para dez moradores, a fonte prin-cipal de receita deriva da posse de um barraco onde se podem vender produtos, especialmente gua e cigarros, e que pode ser alugado temporariamente para visitantes.

    Oito entrevistados declararam ter sua principal fonte de renda como pequeno intermedirio ou olheiro do trfico de drogas na CCFF.

    Sete moradores disseram depender essencialmente de uma rede de apoio familiar ou institucional e dois afirmaram que sua renda pro-vinha sobretudo de aposentadorias.

    Com todas as ressalvas neces-srias ao tratamento de respostas que envolvem admisso de atividades ilegais, muito frequentemente sub-notificadas, cabe sublinhar o fato de um nmero considervel de mora-dores recorrer a trabalhos lcitos, embora informais, para obter renda. No mnimo, isso relativiza o suposto de que, premido pela motivao eco-nmica, o usurio de drogas no teria outra escolha seno o caminho do crime; em outras palavras, de que a vio-lncia derivaria diretamente do uso de drogas. No se quer dizer com isso que moradores da CCFF no pratiquem ati-vidades ilegais e at violentas para obter dinheiro, mas sim que, mesmo numa populao extremamente vulnervel e marginalizada como so os usurios de crack em situao de rua, esse no o nico e muitas vezes est longe de ser o principal meio de financiar a droga e outras necessidades do dia a dia.

    Importa ressaltar a alta parcela de mulheres que diz fazer da prosti-tuio sua fonte mais importante de renda: 12 das 29 ouvidas pela pesquisa dado que refora a importncia de

    A TERRITORIALI-ZAO DA CENA DE CONSUMO DA RUA FLVIA FARNESE RESULTARA NUMA CONSIDERVEL ESTABILIDADE DEMOGRFICA: A MAIORIA DOS MORADORES ESTAVA NO LOCAL, EM SITUAO DE RUA, DESDE JANEIRO DE 2013 E CONSTITUA UM NCLEO AUTO-DENOMINADO FUNDADORES DA CRACOLNDIA

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22

    Maro 2016 11

  • uma abordagem especfica de gnero no atendimento a esse tipo de popu-lao. Tambm ressalta no universo estudado uma forma peculiar de satis-fazer s necessidades, que o uso comercial ou leasing do espao interno dos barracos, no qual se vendem produtos como copos pls-ticos descartveis (recipientes para uso de crack), cigarros avulsos ou cachaa, e que tambm pode ser alugado a visi-tantes que buscam privacidade para usar drogas ou fazer sexo. Tais visi-tantes geralmente residem ou tra-balham na Mar e identificam a cena de consumo como rea livre para esses fins, dispondo-se a pagar pelo uso tem-porrio dos barracos seja em dinheiro ou em presentes como drogas, roupas e eletrodomsticos.

    Observou-se de modo geral que, para satisfazer necessidades lcitas alimentao, vestimenta e outras os entrevistados declaravam com mais frequncia fontes de renda lcitas, por exemplo, doaes, emprstimos e tra-balhos informais, enquanto para a aquisio de drogas mencionava-se mais frequentemente o recurso a ativi-dades ilegais (trfico, roubos, furtos) ou legais mas socialmente estigmatizadas, como a prostituio. Um mesmo indi-viduo pode, assim, combinar diferentes formas de obteno de dinheiro ou pro-dutos. A nica caracterstica uniforme salvo para os poucos moradores que recebem aposentadoria a ausncia de fontes de renda oriundas de insero no mercado formal de trabalho.

    PADRES DE USO DA DROGA

    Na maioria, os moradores da CCFF so poliusurios, isto , consomem no s crack como outras drogas: lol,11

    maconha e cocana figuram entre as mais frequentes. Doze dos 59 entrevis-tados declararam usar somente crack. Apenas duas pessoas declaram no usar crack; outras duas disseram nunca con-sumir crack puro, mas somente na forma de zirr (misturado com maconha), e cinco afirmaram que o crack no era a droga que usavam com mais frequncia.

    O tempo mdio de uso de drogas (ilcitas) de 15 anos e meio. Na faixa etria majoritria, 20 a 29 anos de idade, o tempo mdio de 10,3 anos.12 A primeira droga ilcita foi con-sumida, em mdia, aos 16 anos e pri-meiro consumo de crack ocorreu aos 21. Nota-se, assim, que h um tempo bastante longo entre o consumo da pri-meira substncia proibida na maioria dos casos maconha, thinner ou cola e o primeiro uso de crack. Mas quando se focaliza a faixa etria mais frequente e excluem-se os moradores que tinham menos de 16 anos em 2000, momento em que o crack teria feito sua apa-rio no mercado do Rio de Janeiro, o tempo de transio cai para cerca de dois anos. Isso coincide com o relato de profissionais do CAPSad, que dizem ter observado um tempo mdio de dois anos entre a primeira experincia com substncias ilcitas e o que denominam uso descontrolado de drogas.

    A pesquisa realizada na CCFF no buscou analisar os motivos nem quan-tificar o consumo, mas apenas saber dos prprios entrevistados como avaliavam o seu uso de drogas: pouco mais da metade (54%) disse consumi-las todos os dias, alguns sempre na mesma quan-tidade (19%) e outros, em quantidades variveis (35%). Dos que disseram no fazer uso dirio das substncias, 27% classificaram seu consumo como con-trolado e 19%, como descontrolado.

    11. Substncia inalante manufaturada com solventes qumicos, benzina, ter e essncias aromticas.

    12. A pergunta sobre o uso da primeira substncia foi aberta e no apresentou uma relao prvia de drogas lcitas ou ilcitas. Pela quase ausncia do lcool nas respostas dos entrevistados, infere-se que a grande maioria interpretou a pergunta como dirigida apenas ao uso de substncias ilcitas.

    A PRIMEIRA DROGA ILCITA FOI CONSUMIDA, EM MDIA, AOS 16 ANOS E PRIMEIRO CONSUMO DE CRACK OCORREU AOS 21

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22

    Maro 2016 12

  • Tais categorias, subjetivas, possivel-mente no convergem com avaliaes baseadas apenas em volume e frequncia do consumo. Por exemplo, quando Joana diz sorrindo que usa drogas para dormir e acorda para usar drogas pode suscitar uma ideia de descontrole; observou-se, entretanto, que, para a maioria dos usu-rios da CCFF, o consumo intensivo e dirio no exclui o conhecimento indi-vidual sobre efeito e quantidade das dife-rentes substncias, a partir do qual so escolhidas as formas de uso, seja para intensificar ou reduzir sensaes, seja para desfazer efeitos de outras drogas. o que exemplifica Rafaela:

    uso crack mas no deixei de fumar maconha pura, porque se eu no fu-masse a maconha pura, eu acho que seria a pior das piores, das piores cra-cudas. No seria como sou hoje. Por isso que hoje em dia eu fumo a maco-nha. Me desconcentra um pouquinho e me faz perder um pouco a noo de querer fumar o crack.

    A noo de consumo controlado traduz-se no s em domnio sobre a quantidade e os efeitos, mas tambm na passagem de perodos sem drogas ou com menos drogas. Dos 59 entrevis-tados, 49 disseram j ter tentado parar ou diminuir o consumo; entre eles, 27 afirmaram ter recorrido a algum tipo de tratamento e 32, ter tentado por conta prpria ou com ajuda da famlia. Como j se mencionou, laos familiares interferem diretamente no cuidado de si e no padro de consumo de droga. Reginaldo, por exemplo, relata uma mudana recente no seu padro de uso do crack, associada preocupao com a sade e ao medo da morte:

    No fumo mais como antes. Hoje, desde que eu acordei (s 8 hs) at agora (16 hs) s fumei uma pedra. Eu fumava toda hora, nem que fosse uma pedra de cinco reais. Por dia eu che-gava a fumar quatro pedras de vinte reais, cinco de dez reais, as de cinco reais eu nem lembro quantas. Eu gas-tava, em mdia, mais de 150 reais por dia. Comecei a diminuir j tem uns cinco meses por causa da pneumo-nia. Eu no sabia que estava doente e mesmo assim continuei a fumar at que fui ao mdico e ele disse o que eu tinha. Minha famlia da cracolndia me ajudou. Eles me negavam a droga e eu sabia que era pro meu bem, mas a vontade era grande. Estou toman-do os remdios e te digo uma coisa, tenho medo de morrer, j at sonhei com isso. Acho que se eu voltar a fu-mar como antes, eu morro. Sou um homem de um metro e 75 e antes do crack eu pesava 64 quilos, hoje estou com 56, mas j pesei 49.

    COTIDIANO, CONTROLE SOCIAL E VIOLNCIA

    O DIA-A-DIA

    Na CCFF, a semana comea na sex-ta-feira, dia de maior atividade, maior consumo e maior nmero de visitantes. O fim de semana organizado em torno do baile funk da Rua Teixeira, no Parque Mar, bem prximo da cena de uso de crack da Flvia Farnese. Momento de diverso, mas tambm de oportunidades de trabalho e renda: muitos moradores da cena se ocupam em atividades rela-cionadas ao baile, como organizao do estacionamento ou coleta de frascos vazios de lana-perfume, que so reven-didos a pessoas que comerciam drogas

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22Maro 2016 13

  • na regio. Muitos dizem no dormir de sexta a segunda, empenhados em divertir-se e gerar provises para o resto da semana.

    Essa temporalidade afeta, entre outras coisas, o atendimento das dife-rentes instituies de sade: profis-sionais do CAPSad, por exemplo, per-cebem mais movimento de sexta a domingo, com a demanda de pacientes que procuram evitar as tentaes do fim de semana; j os do Consultrio na Rua dizem que o movimento cai na quinta e na sexta-feira, intensifi-cando-se de segunda a quarta, quando pacientes os procuram para compensar excessos do fim de semana. Outro impacto do ritmo de vida dos usurios sobre os horrios de atendimento: de modo geral, os moradores da CCFF no acordam antes das 11 hs da manh, justamente o perodo em que os profis-sionais de sade e assistncia social cos-tumam passar na cena, encontrando-os muitas vezes recm-acordados, mergu-lhados no sono ou ainda virados da noite anterior.

    Ao meio-dia, vrios moradores almoam no Restaurante Popular ou compram quentinhas. tarde geral-mente saem da cena para satisfazer necessidades e vontades individuais: trabalhar, comer, visitar a famlia, ir a uma consulta mdica, passear, comprar drogas, obter produtos para venda, fazer um ganho. Quando esto na cena de consumo, ficam dentro dos bar-racos ou na frente deles. Conversam, ouvem msica em rdios portteis, jogam cartas, descansam ou assistem televiso. No fim da tarde, o movi-mento se intensifica com a chegada de frequentadores e visitantes.

    Nota-se certa imobilidade espacial dentro da cena de consumo, como se cada pessoa tivesse um lugar

    delimitado: ao chegar ao local, a equipe de pesquisa quase sempre encontrava as mesmas pessoas ocupando os mesmos lugares. Essa imobilidade tem relao com a propriedade de um barraco, com afinidades entre grupos e famlias de rua, e com as relaes de poder ali estabelecidas. particularmente visvel no caso dos donos de barracos, que no costumam sair da cena com medo de que seus pertences e mercadorias sejam roubados insegurana que torna esse segmento mais resistente a envolver-se em atividades externas CCFF.

    OS BARRACOS: PRIVILGIO E CONFLITO

    A territorializao da cena de consumo da Flvia Farnese materiali-zou-se na construo de barracos des-montveis, mas estruturados, que tes-temunham o carter ao mesmo tempo fixo e provisrio da presena no espao. Espao, como j dito, limitado e no-ex-tensvel: a rea autorizada de aproxima-damente 80m2 e dentro dela existiam, no perodo da pesquisa, 16 barracos nos quais viviam 42 pessoas. Esses barracos tinham tamanhos variados, mas geral-mente seu interior abrigava uma cama ou um sof, um local para armazenar pertences, fotos ou outros objetos de decorao e cortinas para proporcionar alguma privacidade. Todos tinham energia eltrica e em alguns havia fogo, TV e aparelho de som.

    Moradores sem teto, aproximada-mente 20 pessoas, dormem na rua, em frente aos barracos ou embaixo de um toldo prximo da esquina onde se situa a CCFF. Como est vedada a expanso dessas construes para alm do per-metro delimitado, a configurao tende a se alterar com o tempo: bar-racos so divididos e seus proprietrios

    NOTA-SE CERTA IMOBILIDADE ESPACIAL DENTRO DA CENA DE CONSUMO, COMO SE CADA PESSOA TIVESSE UM LUGAR DELIMITADO

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22

    Maro 2016 14

  • redefinidos. Trata-se de um espao que permite relativa proteo, priva-cidade, conforto e consolidao da per-manncia no local, alm de possibi-litar um meio adicional de renda: s os proprietrios de barracos, como j dito anteriormente, podem manter bancas para venda de produtos e alugar espao a visitantes. Trata-se, em suma, de um bem escasso, cobiado e disputado fonte de boa parte dos conflitos entre moradores da cena.

    Desde fevereiro de 2015, seis pro-prietrios de barracos foram expulsos da CCFF. Tais episdios geram dois tipos de tenses: um inerente causa da expulso e ao afastamento de amigos; outra relativa alocao do barraco liberado. A pesquisa identificou Jorge, representante da Associao de Mora-dores, como principal responsvel pela distribuio e pela administrao da lista de espera. Suas decises, contudo, no so solitrias nem arbitrrias, mas derivadas de negociao com lide-ranas internas da cena e com inte-grantes de grupos criminosos armados que atuam na rea. Antiguidade, estado de sade, incluindo situaes de gravidez, tamanho da famlia de rua, proximidade com lideranas e participantes do comrcio ilcito de drogas so os principais elementos considerados nessas negociaes. Mas h tambm usurios histricos que, mesmo reunindo condies para pleitear moradia fixa, preferem no faz-lo exatamente para no se verem fixados na condio de cracudos. A frase no pretendo terminar minha vida aqui!, ouvida algumas vezes durante a pesquisa, distinguia de certo modo os moradores que buscavam per-manncia na cena, por meio da posse de barracos, dos que a enxergavam apenas como temporria estadia.

    LEIS, AUTORIDADES E CONTROLE SOCIAL

    Longe do senso comum que enxerga nas cracolndias espaos sem lei, vigora na cena da Flvia Farnese um conjunto bastante rgido de regras, hie-rarquias de poder, mecanismos de reso-luo de conflitos e controle social. O problema no a falta de regulao, e sim seu carter frequentemente ilegal, assentado no uso ou na ameaa de uso da violncia.

    Antes de mais nada, como em toda rea sob domnio de grupos criminosos armados, existem as leis do trfico, que no caso da cena de consumo de crack, adquirem algumas conotaes especficas, por vezes ainda mais rgidas que as aplicveis aos demais habi-tantes: normas internas e externas que regulam comportamentos, circulao dos usurios, relaes com moradores e comerciantes da Mar. Tais regras e as correspondentes punies em caso de transgresso so bem conhecidas pelos usurios da CCFF.

    As leis locais distinguem trans-gresses mais leves, como no limpar o barraco, das mais graves, como roubar e agredir moradores da comu-nidade. Foram identificadas tambm trs esferas de poder atuantes na reso-luo de conflitos ou na punio dos que infringem as regras: (a) duas lide-ranas femininas internas cena; (b) a Associao de Moradores do Parque Mar e (c) os integrantes de grupos criminosos armados que circulam e atuam nas proximidades da cena. Transgresses consideradas leves so geralmente mediadas pelas lideranas internas, com apoio de Jorge, membro da associao e responsvel pelo geren-ciamento do espao, enquanto as mais graves, sobretudo quando envolvem

    LONGE DO SENSO COMUM QUE ENXERGA NAS CRACOLNDIAS ESPAOS SEM LEI, VIGORA NA CENA DA FLVIA FARNESEUM CONJUNTO BASTANTE RGIDO DE REGRAS, HIERARQUIAS DE PODER, MECANISMOS DE RESOLUO DE CONFLITOS E CONTROLE SOCIAL

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22

    Maro 2016 15

  • agresses e violaes patrimoniais a moradores da Mar, devem passar obri-gatoriamente pelas decises do grupo criminoso armado. Examinaremos mais detidamente, a seguir, os papis de cada uma dessas instncias de poder:

    Lideranas internas Fundadora da CCFF e identificada

    num primeiro momento como principal liderana local, Joana quem recebe visitantes, instituies e pesquisadores, e lhes apresenta a cracolndia. Foi por meio dela que a equipe iniciou o pro-cesso de aproximao. Com 62 anos, Joana uma das moradoras mais velhas daquele espao, sendo chamada de me ou av pelos usurios da cena. Durante a pesquisa foi possvel observar a atuao de Joana apartando brigas ou repreendendo quem desrespeitava orien-taes mdicas. Mas havia tambm outra mulher com funo de liderana interna, reconhecida, sobretudo pelos moradores no fundo da cena. Bianca, de 30 anos, trazia um histrico de dez anos em situao de rua e experincia de liderana em cenas de consumo de crack na zona norte do Rio de Janeiro, nas quais sempre fora apadrinhada por integrantes do grupo criminoso armado atuante na regio, o que ocorria tambm na Mar durante o perodo da pesquisa. Apesar de no morar permanentemente na cena, era dona de um barraco, onde acolhia amigos e sua famlia de rua. Bianca funcionava como contato do grupo criminoso armado local, repor-tando transgresses s regras por ele impostas, mesmo quando mantinha laos afetivos com o autor do chamado vacilo. Segundo afirmou, no tem como proteger quem vacila, quem vacila sabe as consequncias, e eu no posso esconder nada da boca, se no sou eu quem me dou mal.

    Gerncia dos usurios: a mediao da Associao dos Moradores

    Importante ativista da AMPM e gerente da cracolndia, Jorge tivera papel central, como j se viu, na fixao da cena de consumo na rua Flvia Farnese. Ele no morava na cena, mas frequentava-a diariamente e desem-penhava ali o duplo papel de controle/represso e cuidado/proteo. Era quem exercia no s a mediao entre lide-ranas internas e o grupo criminoso armado, mas tambm o dilogo com ins-tituies pblicas e ONGs atuantes na CCFF. A grande maioria dos usurios o reconhecia como liderana e foi por intermdio dele que a equipe da pes-quisa pde realizar a aproximao e as atividades com os moradores da cena. Durante o desenvolvimento do projeto, observaram-se algumas mediaes reali-zadas por Jorge em defesa dos usurios.

    Evidentemente, a relao de Jorge com os moradores est longe de ser desprovida de tenses e violncias. Nela se mesclam reconhecimento, afeto, gracejo, desavenas e conflitos de maior ou menor gravidade. O poder mediador e protetor que exerce essa liderana, autodenominada dono da cracolndia, baseia-se na confiana de que desfruta junto a diferentes seg-mentos que convivem na regio.

    A voz maior No topo da hierarquia de poder

    exercida sobre a cena de consumo da Flvia Farnese esto membros do grupo criminoso armado atuante no Parque Mar, a quem os usurios se referem como voz maior. As manifestaes mais expressivas desse poder so o controle espacial da cena e da circu-lao dos seus moradores. J se viu que a delimitao do espao ocupvel, a

    NO TOPO DA HIERARQUIA DE PODER EXERCIDA SOBRE A CENA DE CONSUMO DA FLVIA FARNESE ESTO MEMBROS DO GRUPO CRIMINOSO ARMADO ATUANTE NO PARQUE MAR, A QUEM OS USURIOS SE REFEREM COMO VOZ MAIOR

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22

    Maro 2016 16

  • construo de barracos, a circulao dos moradores pela favela e a punio das transgresses mais graves so deter-minadas pelo grupo criminoso armado. Basicamente, os usurios podem circular nas principais ruas comerciais para ir at a boca de fumo ou at o Parque Unio, onde fica outra cena de uso na Mar, mas esto proibidos de entrar nas ruas internas e residenciais, assim como de consumir drogas, permanecer ou dormir em qualquer lugar fora da CCFF.

    A desobedincia a essas regras geral-mente acarreta corretivos fsicos e/ou expulso. Observam-se com frequncia nos usurios mutilaes e cicatrizes que podem ter causas diversas, como atro-pelamento, brigas e violncia policial, mas que provm, sobretudo, de corre-tivos aplicados pelos grupos criminosos que dominam a rea. Funcionam, assim, como marcas-estigmas, ou, na gria local, marcas de vacilao, que inscrevem permanentemente no corpo o sinal do castigo. Alguns moradores da cena fogem antes de receber o corretivo para pro-teger seus corpos, evitar um estigma suplementar ou mesmo escapar da morte. Foi o que ocorreu, por exemplo, com Japa, quando um dos carros sob sua vigilncia foi arrombado. Temendo ser acusado de roubo, Japa fugiu e passou desde ento a morar embaixo de um viaduto na Avenida Brasil: Moro h 30 anos na rua e nunca tive marca de vaci-lao, no vai ser agora, depois de velho, que vou ter. Outro caso foi o de Nlio, que preferiu refugiar-se numa viatura da Polcia Militar na entrada da Mar a enfrentar punies do grupo criminoso armado, aps uma briga violenta com outro morador da CCFF.

    H maior tolerncia frente s transgresses cometidas por crias da comunidade, independentemente usarem ou no crack, de morarem ou

    no na cena de consumo. Durante seis meses, a equipe da pesquisa observou consequncias de transgresses subme-tidas ao julgamento do grupo criminoso armado: 12 expulses e 13 corretivos, sendo o mais grave deles o esfaquea-mento de um morador da cena acusado de ter roubado um morador da Mar. A frequncia dos castigos em mdia um por semana denota no s a regu-laridade das transgresses como o alto nvel de violncia a que est exposta a populao da cena de uso de crack no Parque Mar.

    Ora autores, ora vtimas, os usurios da CCFF mostram o quanto complexa a relao entre drogas e violncia. Mas, no h dvida, como ressaltam Minayo e Des-landes, de que o mais consistente e pre-dizvel vnculo entre violncia e drogas se encontra no fenmeno do trfico de drogas ilegais, que faz da violncia o principal meio para disciplinar o mercado e seus atores: na medida em que no h recursos legais para dirimir as dis-putas, a violncia ou ameaa de violncia so mecanismos para reforar as regras sociais de troca no mercado ilcito.13

    A ingerncia do trfico armado, que j se exerce de vrios modos sobre toda a populao da favela, fortemente exa-cerbada no caso da CCFF, cujos mora-dores conjugam situao de rua e uso abusivo de drogas. Primeiro, por ser um espao definido pelo consumo de drogas e atividades ilegais, ilcitas ou criminalizveis; segundo, pela parti-cular dificuldade dessa populao de recorrer a qualquer das instncias legais que, em outros casos, podem mitigar ou contrabalanar o poderio dos grupos criminosos armados: famlia, igrejas e rgos pblicos, especialmente Polcia e Judicirio. O duplo papel do grupo criminoso local em relao cena de consumo proteo e garantia de

    13. MINAYO, Maria Cecilia; Deslandes, Suely Ferreira. A complexidade das relaes entre drogas, lcool e violncia. Cadernos de Sade Pblica. Rio de Janeiro, v. 14, n. 1, jan-mar, 1998, p. 38 (disponvel em http://www.scielosp.org/pdf/csp/v14n1/0123.pdf. ltimo acesso: 20/11/2015).

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22Maro 2016 17

    http://www.scielosp.org/pdf/csp/v14n1/0123.pdfhttp://www.scielosp.org/pdf/csp/v14n1/0123.pdf

  • fixao; represso e violncia gera sentimentos ambguos nos moradores: apenas cinco entrevistados admitiram ter relaes ruins com os membros desse grupo, ainda que 19 dissessem j ter sofrido algum tipo de violncia por parte deles; 40 afirmaram que a relao era boa e 13 a classificaram como razovel. Pode-se dizer que h tolerncia dos usurios regu-lao violenta, por entenderem que ela garante, seja o respeito a regras de con-vivncia, seja a permanncia da cena de consumo naquele local.

    REPERTRIO DE VIOLNCIAS E VISES DA SEGURANA PBLICA

    Dos 59 usurios ouvidos pela pes-quisa, s 17 disseram nunca ter sofrido nenhum dos tipos de violncia previstos no questionrio desde que passaram a morar na CCFF. Os outros 42 rela-taram 84 episdios, dois por pessoa, em mdia: 14 mulheres e 12 homens repor-taram violncia conjugal; 10 mulheres e 16 homens relataram violncia policial; sete mulheres e 12 homens, violncia do grupo criminoso armado; 12 mulheres e um homem, violncia sexual. Como em outros contextos, homens esto mais expostos a certos tipos de violncia e mulheres a outros. O que atpico neste caso o relativo equilbrio do nmero de homens e mulheres vtimas de violncia conjugal. Esse tipo de agresso rara-mente se torna objeto de intervenes: muito embora sejam proibidas brigas dentro da cena, as que se passam entre marido e mulher no costumam ser apartadas ou mediadas internamente, nem tampouco levadas s instncias externas de regulao.

    Considerando ainda que as agresses perpetradas pelos grupos criminosos no admitem recurso a

    nenhuma instncia superior e que muito pouco provvel que usurios de drogas em situao de rua encontrem abrigo na justia formal quando agre-didos pela polcia, conclui-se que mais da metade (45 em 84) das violncias relatadas pelos moradores esto fora de qualquer possibilidade de reivindi-cao de justia. Na maior parte dos casos, essa reivindicao no chega sequer a ser formulada: apenas 10 das 42 pessoas que disseram ter sofrido vio-lncia queixaram-se ou recorreram a algum trfico, associao de mora-dores, instituies de sade em busca de reparao. Grande parcela das agresses vividas pelos moradores da cena escapa, portanto, aos mecanismos locais de regulao de conflitos.

    Mesmo assim, quando perguntados se se sentiam seguros na CCFF, 38 dos 59 entrevistados responderam que sim, sendo maior a proporo de mulheres (75%) do que de homens (54,8%) que disseram sentir-se seguros(as). Inda-gados qual seria o lugar onde se sentiriam mais seguros do que na cena, a maioria tanto de homens quanto de mulheres mencionou a casa de familiares.

    Como j dito, pessoas com as carac-tersticas dos moradores da CCFF tm pouca chance de obter proteo de ins-tncias formais salvo daquelas especi-ficamente direcionadas ao atendimento de pblicos vulnerveis, quase sempre nas reas de sade e assistncia social. Da segurana pblica, particularmente, os segmentos marginalizados e estigma-tizados via de regra tm pouco a esperar alm de represso, violncia, desres-peito e violao de direitos humanos. Entretanto, as avaliaes sobre o Exrcito e a Polcia Militar repor-tadas por usurios da Flvia Farnese expressam em grande medida a situao peculiar vivida pela cena de consumo

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22Maro 2016 18

  • no momento da pesquisa, com a ocu-pao militar na Mar e a expectativa da entrada prxima da UPP.

    A relao tanto com as foras armadas como com a PM majorita-riamente avaliada como ruim, mas o Exrcito recebe mais juzos positivos do que a Polcia: sete pessoas classificaram a relao com o primeiro como boa e 15 como razovel, enquanto s dois respondentes avaliaram a relao com a PM como boa e dez, como razovel. Tudo indica que pesaram nessas ava-liaes, por um lado, a percepo de que a estabilidade da CCFF deveu-se indire-tamente ocupao militar que, alm de reduzir os tiroteios e a ingerncia dos grupos criminosos armados na rea, no implicou expulso dos usurios de crack e, por outro, s experincias prvias de represso violenta e dester-ritorializao vivenciadas em reas de implantao de UPPs.

    Isso confirmado pelas respostas a perguntas sobre o grau de segurana antes e depois da ocupao militar e sobre as expectativas quanto pos-svel chegada da UPP: enquanto 27 entrevistados disseram que a chegada do Exrcito aumentara a segurana da CCFF, 32 responderam que a entrada da UPP iria piorar a situao, tornando a vida menos segura para os usurios da cena. Vinte entrevistados acreditavam que a UPP os expulsaria de l e 22 dis-seram no saber o que aconteceria. Em abril de 2015, s vsperas da sada do Exrcito, era visvel o crescimento nos moradores da ansiedade, do medo e da incerteza quanto possibilidade de per-derem aquele espao. A avaliao ligei-ramente melhor atribuda ao Exrcito no se traduzia, contudo, em qualquer tipo de interao com os militares, joco-samente apelidados de periquitos, nem em crena na eficcia da ocupao.

    O que se observou durante a pesquisa foi apenas uma adeso ritualizada ao acordo de cavalheiros responsvel pela permanncia da CCFF: quando os militares se aproximavam, prece-didos pelo barulho de fogos (utilizados nas favelas para avisar da presena de foras de segurana), uma das lide-ranas atravessava toda cena gritando l vm os homens!. Copos de crack eram escondidos, usurios entravam nos barracos, desligavam-se os rdios, as conversas cessavam e o espao per-manecia em completo silncio. To logo os periquitos terminavam de passar, tudo voltava ao normal. Eles respeitam a gente, ento a gente tem que respeitar eles foi a explicao de uma liderana interna para esse curioso comportamento.

    Em maio, conforme previsto, o Exrcito retirou-se da Mar, mas a implantao da UPP foi adiada no se sabe para quando. Embora se propague oficialmente que o Complexo da Mar est ocupado pela Polcia Militar, isso no corresponde realidade: grupos criminosos armados voltaram a rea-lizar livremente o comrcio de drogas, a expor armas pelas favelas e a impor abertamente suas leis, enquanto a PM apenas ocupa as principais entradas e realiza suas tradicionais incurses pon-tuais e frequentemente truculentas. Mas, apesar disso, no final da pes-quisa de campo, aps a tenso mxima gerada pela sada das Foras Armadas, parece ter diminudo o receio imediato de expulso dos moradores da cena da Flvia Farnese.

    Vale a pena sublinhar novamente a forte relao entre a agenda da segu-rana pblica no Rio de Janeiro e a ter-ritorialidade ou itinerncia das cenas abertas de consumo de drogas, que refora o carter provisrio e precrio

    VALE A PENA SUBLINHAR A FORTE RELAO ENTRE A AGENDA DA SEGURANA PBLICA NO RIO DE JANEIRO E A TERRITORIA-LIDADE OU ITINERNCIA DAS CENAS ABERTAS DE CONSUMO DE DROGAS, QUE REFORA O CARTER PROVISRIO E PRECRIODESSES AMBIENTES

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22

    Maro 2016 19

  • desses ambientes. No caso da Mar, a indefinio quanto aos prximos passos da agenda produz forte instabi-lidade no s nas vidas e nas expecta-tivas dos moradores, mas, como se ver, tambm no trabalho de profissionais que buscam consolidar prticas de ateno e cuidado baseadas na garantia de direitos a essa populao.

    DEMANDAS E DESEJOS

    MELHORAR DE VIDA

    Um dos objetivos centrais do projeto de aproximao CCFF foi o de conhecer os desejos e aspiraes dos seus moradores vistos geral-mente como zumbis sem individu-alidade e sem capacidade alguma de discernimento ou controle sobre a prpria vida. Quem se dispe a ouvi-los nota que muitos dos seus desejos so semelhantes aos da maior parte dos brasileiros: oportunidades, respeito, moradia, emprego, sade, melhor relao com a famlia. Mas, evidente-mente, h aspiraes especficas como a de suspender ou diminuir o uso de drogas e h tambm uma dificuldade especial, prpria de populaes mar-cadas por fortes privaes sociais e existenciais, de formular necessidades e demandas, pois isso pressupe o reco-nhecimento de direitos e de interlo-cutores a quem reivindic-los, assim como a possibilidade de projetar-se no futuro e a disponibilidade de recursos pessoais e sociais:

    Todos ns que estamos vivendo essa vida aqui pensamos em parar..., mas faltam coisas. No ajuda de ningum no. Vem de ns mesmos, o que vi-vemos no passado, nossas vidas, mui-tos no sabem a trajetria das nossas vidas. Cada um tem uma historia di-

    ferente, cada um passou por situaes diferentes. Ningum est aqui porque gosta de drogas no. Mas devido s circunstncias nas quais crescemos, fomos criados e demos isso a, desde criana na rua. (entrevista com Japa)

    Coisas que faltam e o que vivemos no passado traduzem a ausncia de condies para algum se reconhecer como sujeito de direitos e demandas, ser capaz de reinventar-se e traar novos horizontes. Essa ncora fincada numa longa trajetria de situao de rua, em privaes objetivas e subjetivas, no uso abusivo de drogas, em violncias sofridas e perpetradas com o reforo do estigma e da rejeio social con-figura sem dvida o alvo mais impor-tante de qualquer atuao junto a popu-laes como a da cena de consumo da Flvia Farnese.

    pergunta sobre as trs prin-cipais coisas de que voc sente neces-sidade para viver, as respostas mais frequentes foram vnculos familiares e sociais (33), sade (23), moradia (21) e emprego (21). Quando indagados sobre o desejo de permanecer ou no na cena, 28 disseram que queriam ficar e 23, que prefeririam sair. Dos 59 entrevis-tados, apenas 11 afirmaram estar satis-feitos com a qualidade de vida atual; 16 disseram no estar nem satisfeitos nem insatisfeitos e 32 disseram-se insa-tisfeitos. Mas, quando perguntados especificamente sobre as condies de vida na CCFF, o grau de insatisfao foi menor: 19 se disseram satisfeitos; outros 19, nem satisfeitos nem insatis-feitos e 21 afirmaram-se insatisfeitos.

    Nota-se, assim, que, no obstante os enormes problemas, conflitos e pri-vaes, existe certo apego dos mora-dores ao espao de moradia e uma sen-sao de pertencimento ao local. Mais do que uma comunidade organizada em

    QUEM SE DISPE A OUVI-LOS NOTA QUE MUITOS DOS SEUSDESEJOS SO SEMELHANTES AOS DA MAIOR PARTE DOS BRASILEIROS: OPORTUNI-DADES, RESPEITO, MORADIA, EMPREGO, SADE, MELHOR RELAO COM A FAMLIA

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22

    Maro 2016 20

  • torno do uso de drogas, a cena para muitos o principal, quando no o nico, espao de sociabilidade, de referncia e de proteo:

    bom que as pessoas saibam que aqui na cracolndia, apesar dos pro-blemas, vivemos como famlia para conseguirmos sobreviver. A gente briga e se entende e eu acabo perma-necendo aqui tambm por causa dis-so [...] No quero sair daqui sem ter para onde ir. Pelo menos aqui eu sei que tenho um cho pra dormir, aqui ningum vai me matar de bobeira. (entrevista com Reginaldo).

    Os vnculos de afeto e proteo so o motivo mais citado para justificar a per-manncia nesse espao. Mas as relaes interpessoais tambm aparecem nas respostas dos entrevistados como o pior aspecto da vida na CCFF. Se, por um lado, a estabilizao do grupo e a con-vivncia por longo tempo geram uma sensao de bem-estar e proteo, sus-citam, por outro, insatisfaes relacio-nadas aos inmeros conflitos cotidianos entre moradores. Assim, junto com demandas de melhoria do ambiente fsico ampliao do espao da cena, aumento do nmero e melhoria da estrutura dos barracos, fornecimento de gua e banheiros, limpeza etc. aparecem reivindicaes de paz, com a presena de lideranas efetiva-mente capazes de reduzir os conflitos internos. Como disse Valria, a cra-colndia podia ser mais unida, mesmo se a gente no est vivendo em casa. Ou no depoimento de Japa:

    Amigos? Amigos mesmo? No. Vocs, que estou conhecendo agora, falo que amigo, saram da casa de vocs, vie-ram at aqui, me dando um minuto de ateno de vocs, eu explicando minha situao para vocs. Vocs so

    meus amigos, vocs no vo fazer mal-dade contra minha pessoa. Agora com quem eu convivo no submundo das drogas eu no posso chamar de amigo no. Cada um deles pode me dar uma facada, pode me levar para a morte. doido, doido, doido.

    Aliadas ao apoio da famlia, oportu-nidades de emprego e de capacitao so vistas como cruciais por 21 mora-dores para possibilitar o que chamam de reestruturao pessoal, isto , a sada da cena, a suspenso ou diminuio do uso de drogas e a insero em outros espaos de sociabilidade. Alguns con-sideram, porm, que mais importante seria a oferta de atividades para ocupar a mente, ficar mais tempo fora da cena e amenizar o tdio (sono, preguia e tdio so frequentemente mencionados como disposies predominantes nos moradores da CCFF).

    Como j dito, o objetivo do projeto de aproximao a essa cena de consumo, ademais de produzir conhecimento, foi experimentar intervenes que aten-dessem a demandas formuladas pela populao local e propusessem outros espaos de sociabilidade no organi-zados em torno do uso de drogas. Desen-volveram-se, assim, durante os seis meses da pesquisa, diversas atividades de lazer e experimentao artstica, tais como: (a) encontros fotogrficos de pinhole com a fotgrafa Tatiana Altberg, que resultaram na exposio--varal Flavia Farnese: Anotaes de uma aproximao, realizada na prpria cena de uso e no Centro de Artes da Mar; (b) um cineclube que exibia quinzenal-mente na CCFF filmes propostos pelos moradores ou pela equipe da Escola de Cinema Olhares da Mar; (c) a rea-lizao do curta-metragem Cena, com entrevistas filmadas documentando o processo de aproximao entre a equipe

    MAIS DO QUE UMA COMUNIDADE ORGANIZADA EM TORNO DO USO DE DROGAS, A CENA PARA MUITOS O PRINCIPAL, QUANDO NO O NICO, ESPAO DE SOCIABILIDADE, DE REFERNCIA E DE PROTEO

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22

    Maro 2016 21

  • de campo e os moradores; (d) sadas para conferncias e espetculos; (e) incentivos para que moradores partici-passem das oficinas e da programao do Centro de Artes da Mar; (f) rodas de capoeira; (g) mobilizao da rede de parceiros para inserir moradores em cursos profissionalizantes oferecidos por organizao locais, como o Gam-biarra Tech, ministrado pelo Observa-trio de Favelas e o de gastronomia do projeto Mar de Sabores, coordenado pela Redes da Mar.

    Todas essas iniciativas, e, sobretudo, as relacionadas produo de imagens buscavam tambm ajudar os usurios no reconhecimento de direitos e na formu-lao de demandas para alm do trip moradia/renda/sade. Por contraste, segundo a percepo dos prprios mora-dores, elas evidenciaram o quanto as ati-vidades e os atendimentos que lhes so normalmente oferecidos privilegiam as trajetrias passadas e as necessi-dades imediatas do presente, com pouca nfase em possibilidades e perspec-tivas futuras. Como diz Diana, sempre me perguntam para contar minha vida, minha historia familiar, me do comida e remdio. Ningum me pergunta o que eu quero para o futuro. Os atendi-mentos de sade e assistncia social so sem dvida imprescindveis, mas a lgica que informa sua prestao termina por reforar os fatores que dificultam a esses usurios reconhecer-se como sujeitos de direitos, capazes de reinventar-se e desenhar novas trajetrias.

    CRACUDO: IDENTIDADE E ESTIGMA

    Tal como o termo nigga (nigger), que pode ser usado jocosamente entre os negros norteamericanos, mas ofensivo quando um branco se dirige a um negro, por evocar uma longa histria de preconceito e violncia racial, o epteto cracudo comumente empregado como autoidentificao ou no tratamento entre os usurios da cena, mas rejeitado quando quem o profere no usa a droga, nem pertence ao espao definido pelo seu consumo. Durante uma exibio do Cinema no Beco, por exemplo, um mototaxista que trabalhava nas redon-dezas disse hoje tem cinema dos cra-cudos e foi prontamente repreendido por uma moradora da CCFF, que escla-receu: somos cracudos l dentro [da cena], aqui ns somos usurios.

    A reduo da pessoa a um estere-tipo em particular o de cracudo constitui forte obstculo ao desen-volvimento psquico e social de sujeitos j marcados por trajetrias de abuso, abandono e violncia. como se a nica forma de lidar com o problema do consumo abusivo de drogas fosse con-gelar os usurios nessa posio, isol-los e demoniz-los. S que o estigma, alm de causar grande sofrimento aos que o carregam, torna-se, ele mesmo, parte fundamental do problema, ao fechar portas e barrar caminhos que poderiam levar superao da dependncia. Vale atentar, a esse propsito, para algumas falas colhidas na pesquisa:

    Eu me chamo Reginaldo Gomes de Arruda, sou um usurio de crack e quero ser chamado pelo nome, no de cracudo [...] As pessoas aqui at receberam a gente bem, mas eles no esquecem que a gente cracudo. Eles olham para a gente com nojo! [...]

    SEMPRE ME PERGUNTAM PARA CONTAR MINHA VIDA, MINHA HISTORIA FAMILIAR, ME DO COMIDA E REMDIO. NINGUM ME PERGUNTA O QUE EU QUERO PARA O FUTURO

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22

    Maro 2016 22

  • O cracudo o resto do homem, cra-cudo a vergonha da comunidade, a vergonha do mundo, ele tem a fama de cracudo mas ele taxado de men-digo, como ladro. Ele taxado como uma pessoa fora do mundo, fora da comunidade, ele taxado como uma pessoa que ningum quer, ningum quer conviver, ningum aceita. (Reginaldo)

    Queria dizer para a populao: ns no somos bichos, no somos animal. Ns somos seres humanos tambm igual a eles. Infelizmente ns estamos nessa, usando nosso crack. Tem uns moradores daqui (da Mar), que v a gente passando na direo deles, eles trocam at de caminho, pensando que a gente vai roubar ele, nem todo mun-do aqui vagabundo. (Klayton).

    Decorre da a demanda crucial por respeito: reconhecimento das pessoas por trs dos usurios de drogas e com-preenso do que significa efetivamente uma cracolndia:

    Peo que nos olhem de outra forma, com respeito. As pessoas aqui tm famlia e bom que saibam que em tudo que lugar existe o viciado, seja no Brasil ou no Japo. E por existir viciado em tudo que mundo, a cra-colndia algo normal porque um lugar onde permitido o uso da dro-ga. Voc quer usar a droga sem inco-modar a famlia ou os vizinhos? s ir na cracolndia. [...] A cracolndia deveria ser citada no jornal no como um lugar de droga, mas uma opo onde os usurios podem usar a droga sem ser incomodados e sem prejudi-car ningum. Se voc no usar a dro-ga na cracolndia voc vai usar onde? Em casa, na rua, na porta dos outros? Dentro de casa o pior lugar pra usar, imagina seus filhos vendo voc se dro-gar? Eu no quero que meu filho faa o que eu fao. Por isso que sa de casa.

    Qualquer atividade que vise ao atendimento, ao cuidado e melhor a insero social desses usurios precisa, assim, levar em conta o problema e as consequncias do estigma. Alm do tra-balho voltado diretamente aos mora-dores de cracolndias, necessrio tambm atuar sobre as percepes e ati-tudes dos que com eles convivem no caso especfico, a populao da Mar. Nesse sentido, paralelamente s inter-venes na CCFF, o projeto cujos resul-tados expomos aqui iniciou um pro-cesso de Dilogos sobre drogas junto a moradores e pessoas que atuam em instituies da Mar, organizando trs encontros de formao para apresentar o projeto e debater temas relacionados a usurios e polticas de drogas. Num desses encontros foram apresentados o livro Nas tramas do crack, da pesqui-sadora Taniele Rui, e a campanha Da proibio nasce o trfico, conduzida pelo CESeC. Da resultou, entre outras coisas, a adeso espontnea de alguns integrantes da rede que vieram agre-gar-se s iniciativas do projeto de apro-ximao CCFF.

    DROGA: CONTROLE E TRATAMENTO

    Poucas necessidades, demandas e desejos expressos pelos moradores da CCFF referem-se diretamente ao uso abusivo de drogas. pergunta deseja fazer um tratamento para parar, diminuir ou controlar o uso de drogas?, 29 responderam que sim e 30, que no. Isso no significa, entretanto, que a maioria no tenha vontade de parar, diminuir ou controlar o consumo. Sig-nifica, sobretudo, que predomina uma viso centrada na responsabilizao individual e na referncia religiosa: a melhor maneira de suspender ou

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22Maro 2016 23

  • diminuir o uso de crack, segundo vrios entrevistados, seria sozinho, por conta prpria, com fora de vontade, eu mesmo, coragem individual, quando eu quiser, ou com a ajuda de Deus ou Jesus.

    Dos 27 moradores que disseram j ter feito algum tipo de tratamento, 13 declararam ter passado por comuni-dades teraputicas com filiao reli-giosa. A observao mostrou que, alm desses 13, outras pessoas da cena j haviam experimentado esse tipo de tratamento, ao que tudo indica, sem sucesso. De fato, a avaliao dos usu-rios no era muito positiva: alguns identificaram no isolamento e na rigidez das normas impostas por insti-tuies religiosas o maior obstculo eficcia das terapias por elas oferecidas. Um entrevistado perguntou: como vou parar de consumir e me reinserir na sociedade se tenho que parar de trabalhar para ficar l? Ficando l no poderia fazer meus bicos, e preciso dos meus bicos para viver. Outro exclamou: eu queria parar de usar drogas, no parar de transar!.

    Por outro lado, observou-se tambm uma falta de clareza sobre as alter-nativas de tratamento existentes, em especial as que no preconizam absti-nncia e sim reduo de danos. Mesmo a proposta teraputica do CAPSad, equipamento localizado nas proximi-dades da CCFF, era pouco conhecida entre os usurios da cena. A moradora Darly, que estava em acompanha-mento teraputico no CAPSad, mostra-va-se admirada com o servio: [pela] primeira vez na minha vida [...] me falaram que eu podia me tratar sem parar de usar drogas. Para outros, no entanto, essa ideia parecia um contras-senso: como posso parar de usar drogas se posso consumir...?. Ademais, pela

    sua vinculao com o setor de sade mental, o CAPSad era identificado por alguns como lugar para loucos, no para dependentes qumicos.

    Conclui-se, assim, pela importncia de esclarecer aos usurios quais as pro-postas e alternativas de tratamento dis-ponveis, para alm dos preconceitos e das disputas teraputicas que existem nesse campo, de modo a possibilitar a adequao da oferta de servios e a construo de trajetrias teraputicas ajustveis s demandas individuais.

    DOCUMENTAO E PENDNCIAS JUDICIAIS

    A pesquisa no pretendeu levantar o histrico criminal dos entrevistados, nem estabelecer relaes entre esse histrico e o uso de drogas ou a falta de documentao. Mas, na medida em que so fatores que impactam as pers-pectivas de futuro, buscou-se obter algumas informaes sobre a situao jurdica e a documentao dos mora-dores da cena. No foi uma tarefa fcil, pois, sobretudo nas primeiras entre-vistas, quando a relao de confiana ainda no se consolidara, houve resis-tncias, reticncias e contradies nas respostas relativas ao assunto. De 44 que se dispuseram a responder per-gunta sobre trajetria penal, sete afir-maram ter passado por instituies socioeducativas e 21, pelo sistema peni-tencirio. Indagados sobre sua situao atual, s 28 responderam pergunta e, destes, apenas trs admitiram ter pendncias judiciais. Com relao aos documentos, 33 dos 59 entrevistados disseram estar com toda a documen-tao em dia no momento da entrevista. Em alguns casos, possvel afirmar que as trajetrias so caracterizadas por uma sucesso de curtos perodos

    OBSERVOU-SE TAMBM UMA FALTA DE CLAREZA SOBRE AS ALTERNATIVAS DETRATAMENTO EXISTENTES, EM ESPECIAL AS QUE NO PRECONIZAM ABSTINNCIA E SIM REDUO DE DANOS

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22

    Maro 2016 24

  • intercalados entre priso e situao de rua que, para alm dos efeitos psicol-gicos, dificultam as possibilidades de insero social e reinsero ps-priso.

    Contudo, por meio da observao, de conversas informais e dos incen-tivos participao em atividades fora da cena, identificaram-se outros casos em que problemas com a Justia e/ou a falta de documentos constituam um obstculo ao alcance de alguma aspi-rao. Foi o caso de Laura, uma das pri-meiras pessoas entrevistadas na CCFF, que inicialmente declarou no ter nenhuma pendncia judicial e possuir todos os documentos, mas quando a equipe estimulou-a a inscrever-se num curso de formao em gastronomia, terminou admitindo que sua documen-tao estava em posse da famlia, com quem no tinha contato havia muito tempo, e que, em funo de problemas com a Justia, dificilmente conseguiria a segunda via.

    Mesmo direitos bsicos, como acesso a servios de emergncia e aten-dimento nas clinicas da famlia podem ser bloqueados pela falta de docu-mentos, sem falar nas oportunidades de formao e de emprego. Para os que tm pendncias judiciais, h ainda o temor de ser presos ao solicitar documentos ou qualquer outro servio pblico. Rodrigo, por exemplo, recusou-se a entrar numa ambulncia do SAMU, mesmo tendo sido esfaqueado por tra-ficantes, com medo de ser identificado e preso. Preferiu procurar a famlia, que o conduziu a uma clnica particular. At onde foi possvel verificar na pesquisa de campo, muitas dessas pendncias so relativas a delitos de baixa gravidade e poderiam ser solucionadas com assis-tncia jurdica apropriada.

    POLTICAS DE ATENDIMENTO E CUIDADO

    No Rio de Janeiro, em 2011 e 2012, predominou a estratgia de internao compulsria de usurios de drogas il-citas em situao de rua, sobretudo crianas e adolescentes, executada pela ento Secretaria Municipal de Desen-volvimento Social (SMDS). A partir de 2013, entretanto, h uma inflexo nas polticas municipais, com o gradual esvaziamento da estratgia prioritria de internao compulsria em favor de iniciativas, como o projeto Proximidade, que visam a encurtar a distncia entre os servios da Assistncia e os usu-rios em situao de rua. Ao mesmo tempo, ganham protagonismo servios de sade pblica como os Centros de Ateno Psicossocial, o Consultrio na Rua e os programas de reduo de danos, que se afastam da lgica manicomial e baseiam-se no respeito autonomia e garantia de direitos dos usurios.

    No estava entre os objetivos do projeto avaliar os servios ou os profis-sionais atuantes na cena de consumo da Flvia Farnese. A inteno era mapear instituies, atores e aes voltados ao atendimento aos usurios de drogas, conhecer os servios prestados, saber como eles se articulavam na assis-tncia populao da cena e captar per-cepes dos usurios sobre esses ser-vios. Em suma, observar como a oferta e a demanda de atendimento se entre-cruzavam nesse territrio especfico.

    Embora os pesquisadores tivessem de incio a expectativa de encontrar diariamente na cena vrias instituies tanto pblicas como privadas expec-tativa criada por entrevistas prvias na Associao de Moradores do Parque

    A PARTIR DE 2013, GANHAM PROTAGONISMO SERVIOS DE SADE PBLICA QUE SE AFASTAM DA LGICA MANICOMIAL E BASEIAM-SE NO RESPEITO AUTONOMIA E GARANTIA DE DIREITOS DOS USURIOS

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22

    Maro 2016 25

  • Mar , notaram na prtica que essa frequncia era bastante varivel, quando no inexistente, conforme o tipo de instituio. Delimitou-se ento o campo de observao aos atores res-ponsveis pela execuo das polticas pblicas de atendimento e cuidado a pessoas com uso problemtico de drogas e em situao de rua, o que fez com que o mapeamento se restringisse essencialmente a agentes de trs rgos governamentais: o Consultrio na Rua, o CAPSad e o projeto Proximidade/ SMDS.

    Criado em janeiro de 2014, numa parceria entre a SMDS e a ONG Viva Rio para atender especificamente aos moradores e frequentadores de cenas de consumo de drogas do Rio de Janeiro, o projeto Proximidade tem equipes de assistentes, educadores e psiclogos que visitam semanalmente as cenas de crack objetivando criar vnculos com os usurios e identificar suas principais demandas.14 Na poca da pesquisa, esse projeto contava com trs equipes Jaca-rezinho/Manguinhos, Parque Unio e Centro para atender s 18 cenas de consumo mapeadas na Zona Norte e s da regio central da cidade. Os prin-cipais servios oferecidos so obteno de documentos e encaminhamento ao Consultrio na Rua e ao CAPSad, mas as equipes tambm atuam, ainda que em menor grau, no fortalecimento dos vnculos familiares e comunitrios, na valorizao da autoestima e no enca-minhamento dos usurios a centrais de acolhimento, Centros de Referncia Especializados para Populao em Situao de Rua (Centros POP),15 e ao Ncleo de Defesa dos Diretos Humanos da Defensoria Pblica estadual.16

    O Consultrio na Rua (CnR) um programa do Ministrio da Sade ins-titudo em 2011 pela Poltica Nacional de Ateno Bsica com o objetivo

    de ampliar o acesso da populao de rua aos servios de sade, ofertando de maneira mais oportuna, ateno integral sade para esse grupo popu-lacional, o qual se encontra em con-dies de vulnerabilidade e com os vnculos familiares interrompidos ou fragilizados.17 A unidade que atende CCFF localiza-se na favela de Man-guinhos, a cerca de cinco quilmetros de distncia, e responsvel por mais de vinte bairros da zona norte da cidade. Suas atividades mais impor-tantes so consultas mdicas, encami-nhamento para exames de mdia e alta complexidade, solicitaes de inter-nao, realizao de curativos, distri-buio de medicamentos e visita aos espaos onde se encontra a populao de rua. Vale ressaltar que oito uni-dades do Programa de Sade da Famlia operam nas 16 favelas do Complexo da Mar, mas a pesquisa no observou nenhum atendimento dessas unidades aos usurios da CCFF, o que pode ser explicado em parte pelo forte vnculo dos moradores com a equipe do Con-sultrio na Rua, e em parte pelo fato de a cena de consumo situar-se na divisa dos territrios cobertos por trs das oito unidades de sade do Complexo, no havendo uma unidade de referncia responsvel pelo atendimento popu-lao da cena.

    Os Centros de Ateno Psicossocial para lcool e outras Drogas (CAPSad) so rgos do sistema municipal de sade que atendem a pessoas em uso preju-dicial de substncias lcitas ou ilcitas18 numa perspectiva de reduo de danos, sem exigir abstinncia para participao no tratamento. Por meio de atividades individuais e coletivas, buscam cons-truir com os usurios projetos terapu-ticos singulares que promovam a auto-nomia, o fortalecimento de vnculos e a

    14. MINAYO, Maria Cecilia; Deslandes, Suely Ferreira. A complexidade das relaes entre drogas, lcool e violncia. Cadernos de Sade Pblica. Rio de Janeiro, v. 14, n. 1, jan-mar, 1998, p. 38 (disponvel em http://www.scielosp.org/pdf/csp/v14n1/0123.pdf. ltimo acesso: 20/11/2015).

    15. Ver definio oficial em http://www.brasil.gov.br/observatoriocrack/cuidado/centro-pop.html.

    16. Ver http://www.portal-dpge.rj.gov.br/impres-sos/20090810_150918_ folder_nudedh.pdf.

    17. Ver http://dab.saude.gov.br/portaldab/ape_consulto-rio_rua.php.

    18. Ver http://www.rio.rj.gov.br/web/sms/caps.

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22Maro 2016 26

    http://www.scielosp.org/pdf/csp/v14n1/0123.pdfhttp://www.scielosp.org/pdf/csp/v14n1/0123.pdfhttp://www.brasil.gov.br/observatoriocrack/cuidado/centro-pop.htmlhttp://www.brasil.gov.br/observatoriocrack/cuidado/centro-pop.htmlhttp://www.brasil.gov.br/observatoriocrack/cuidado/centro-pop.htmlhttp://www.portaldpge.rj.gov.br/impressos/20090810_150918_folder_nudedh.pdfhttp://www.portaldpge.rj.gov.br/impressos/20090810_150918_folder_nudedh.pdfhttp://www.portaldpge.rj.gov.br/impressos/20090810_150918_folder_nudedh.pdfhttp://www.portaldpge.rj.gov.br/impressos/20090810_150918_folder_nudedh.pdfhttp://dab.saude.gov.br/portaldab/ape_consultorio_rua.phphttp://dab.saude.gov.br/portaldab/ape_consultorio_rua.phphttp://dab.saude.gov.br/portaldab/ape_consultorio_rua.phphttp://www.rio.rj.gov.br/web/sms/capshttp://www.rio.rj.gov.br/web/sms/caps

  • reinsero social no territrio. O CAPSad Miriam Makeba, que atende regio administrativa CAP 3.1, abrangendo Bonsucesso, Ramos e Mar, funciona diariamente, 24 horas por dia. O fato de no exigir abstinncia ao contrrio da maioria das clnicas e comunidades tera-puticas, religiosas ou no, para depen-dentes qumicos facilita a adeso dos usurios ao tratamento, segundo a per-cepo dos profissionais. Mas o grande volume de demandas, o amplo terri-trio abrangido e a restrio de pessoal limitam bastante o alcance do trabalho, dificultando, por exemplo, a realizao de oficinas e atendimentos diretamente nas cenas de consumo de drogas como a CCFF e at a assistncia constante pre-vista nas diretrizes do programa:

    Quando a gente abriu tinha uma demanda reprimida muito grande. Nunca teve um CAPSad por aqui [...], assim que abrimos atendamos 100-120 pessoas por dia. A equipe es-tava esgotada, cansada. Tivemos que pensar como qualificar esse atendi-mento [...]. Mantnhamos as portas abertas, optamos por fechar as por-tas para garantir um atendimento de qualidade. (profissional do CAPSad Miriam Makeba)

    A queixa sobre excesso de demanda e pouca capacidade de assistncia fre-quente tambm nas outras entidades que a pesquisa acompanhou:

    Ns atendemos toda a AP 3.1 (Bonsu-cesso, Ramos e Mar), temos quase duas mil pessoas cadastradas. Como garantir o acompanhamento do servi-o com nove profissionais? (profissio-nal do Consultrio na Rua)

    Tem dia que muita correria! Voc tem ir de uma cena para outra [...] as vezes voc v que precisa conversar mais com aquela pessoa, mas pode perder a hora de chegar no Detran [rgo que fornece documentos de identidade]. Quando voc volta tar-de, as vezes a pessoa j no t mais...

    (profissional do Proximidade)

    Parece haver bom dilogo entre as trs entidades observadas, talvez faci-litado pelo fato de os dois projetos municipais Proximidade e CAPSad Miriam Makeba estarem sob cogesto da organizao Viva Rio, e de o Consul-trio na Rua, sob cogesto da FIOTEC, tambm manter relaes com a coorde-nao da rea de drogas dessa organi-zao. Mas, alm disso, parecem pesar favoravelmente certas convergncias na filosofia de trabalho das trs insti-tuies, que operam com equipes mul-tidisciplinares, no condicionam o atendimento abstinncia nem inter-nao, adotam a perspectiva da reduo de danos e valorizam o acolhimento, a criao de vnculos e a escuta quali-ficada. Na prtica, contudo, no existe um espao regular de interlocuo e de troca reunies, encontros, estudos de caso, frum etc. capaz de potencia-lizar a eficcia do atendimento, o que geralmente justificado pelo excesso de trabalho cotidiano e pelas dificuldades decorrentes de estruturas e rotinas institucionais.

    Ainda mais problemtica a interlo-cuo com outras instituies pblicas particularmente relevantes para a assis-tncia integral a usurios de drogas em situao de rua, como os rgos do sistema de segurana e justia (polcias,

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22Maro 2016 27

  • promotoria, defensoria, varas de famlia etc.), as centrais de recepo e abrigo, as unidades de sade da famlia e o con-selho tutelar todos caracterizados como de difcil acesso e dilogo, excessivamente burocrticos e dis-tantes da realidade da populao atendida pelas trs instituies.

    Em especial, as polticas de segu-rana pblica so alvo unnime de cr-ticas por parte dos profissionais entre-vistados, por no dialogarem com a perspectiva de trabalho que eles pro-curam desenvolver. Tanto as operaes para implantao de UPPs quanto as do Choque de Ordem da Secretaria Municipal de Ordem Pblica dificultam a continuidade do atendimento aos usu-rios e a consolidao dos vnculos. No s por fomentarem a itinerncia como pelo modo de interveno, frequente-mente violento com cassetetes, spray de pimenta e destruio de barracos , que ocasiona perda de documentos de identificao e cartelas de sade, gerando retrabalho e descrdito para as instituies que assistem esses usurios.

    Assim, se a criao de servios espe-cializados no atendimento populao de rua usuria de drogas representa um grande avano em relao s estratgias centradas unicamente na represso, na internao e na abstinncia, e um notvel progresso na garantia de direitos dessa parcela da populao, dois pro-blemas restringem muito o alcance dessas iniciativas: primeiro, o baixo nmero de profissionais para fazer face demanda existente; segundo, as dificul-dades de articulao entre as instituies e, mais ainda, delas com outros rgos pblicos cruciais, particularmente os do sistema de segurana e justia.

    Na tentativa de colaborar para a abertura de um espao de dilogo per-manente em torno do atendimento

    CCFF, a Redes da Mar iniciou um pro-cesso de articulao intersetorial por meio de encontros mensais entre as instituies envolvidas, sobretudo da rea de sade. Alm de profissionais do Consultrio na Rua, do Proximidade e do CAPSad, funcionrios das unidades de sade da Mar, do Ncleo de Apoio Sade da Famlia e do Viva Rio par-ticiparam desses encontros mensais entre maio e agosto de 2015. Isso per-mitiu identificar alguns problemas no perceptveis diretamente na pesquisa dentro da cena. Entre eles, a frequncia no atendimento segundo o critrio de tratar-se ou no da cena da moda.19 Como j dito, as cenas de consumo da Mar haviam sido da moda, mas no perodo final da pesquisa era a da Ban-deira 2, prxima da favela do Jacare-zinho, que mais atraa preocupaes e servios. Paradoxalmente, a relativa estabilidade alcanada pela cena de consumo da Flvia Farnese, que poderia fornecer a base para um atendimento mais sistemtico, articulado e eficaz, acaba pesando contra os seus mora-dores, que perdem parte da ateno do poder pblico.

    Por outro lado, ficou clara nos encontros a necessidade de integrar os servios e programas especificamente voltados para a CCFF estrutura do sistema de sade que atende aos demais moradores da Mar para garantir a pro-ximidade e continuidade do atendi-mento. De acordo com um profissional do Consultrio na Rua, seria funda-mental que a Clinica da Famlia pas-sasse a ser encarada como espao de atendimento, tambm, de pessoas em situao de rua, para evitar que a rua permanecesse como nico lugar e a nica referncia de cuidado para essa populao. Com esse intuito, iniciou-se em julho de 2015, um processo de 19. Ver nota 4, acima.

    FICOU CLARA NOS ENCONTROS A NECESSIDADE DE INTEGRAR OS SERVIOS E PROGRAMAS ESPECIFICA-MENTE VOLTADOS PARA A CCFF ESTRUTURA DO SISTEMA DE SADE QUE ATENDE AOS DEMAIS MORADORES DA MAR

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22

    Maro 2016 28

  • matriciamento, por meio de um labo-ratrio de articulao entre as trs uni-dades de sade da famlia da Mar e o Consultrio na Rua, para aproximao das primeiras aos moradores da CCFF. A proposta era de os profissionais per-correrem a cena de consumo em dupla (um de unidades de sade da Mar e um do Consultrio na Rua), fazendo contato com moradores e frequenta-dores, identificando suas principais demandas de sade e convidando-os a comparecer s unidades de sade da famlia. O segundo laboratrio contou tambm com a participao do CAPSad Miriam Makeba e, no final da pesquisa de campo, teve incio um pro-cesso de formao em reduo de danos para agentes comunitrios de sade que trabalhariam junto a usurios abusivos de drogas em situao de rua, incluindo o territrio da Mar.

    Algumas barreiras aproximao dos profissionais de sade da famlia aos usurios da cena ficaram, porm, evidentes. Em particular a falta de capacitao para abordar os moradores da CCFF e a burocracia envolvida nas formas de acesso ao servio. Tambm no final do projeto, o Centro Municipal de Sade Samora Machel foi designado como unidade local que se responsabili-zaria pelo atendimento CCFF, descon-siderando-se uma srie de dificuldades de acesso para os moradores da cena, entre as quais a perspectiva de incorpo-rao dessa unidade a outra localizada no territrio de um grupo criminoso rival e a maior resistncia dos seus ges-tores a trabalhar com esse tipo de popu-lao. O processo de matriciamento e referenciamento iniciou-se lentamente, mas, ainda assim, o saldo da iniciativa de articulao liderada pela Redes da Mar parece ter sido positivo, espe-cialmente se se considera que algumas

    instituies nunca haviam dialogado, embora atuassem h bastante tempo no mesmo local. A abertura de um espao mais permanente de interlocuo, pelo menos entre os prestadores de servio da rea de sade e assistncia social, e a facilitao dos encaminhamentos de alguns casos da CCFF podem ser con-siderados importantes resultados do projeto aqui exposto, embora fosse per-ceptvel a diminuio dos encontros com o trmino desse projeto.

    PERCEPES DOS USURIOS SOBRE OS SERVIOS OFERTADOS

    O acesso sade relativamente bem avaliado pelos moradores da CCFF: 34 dos 59 entrevistados o consideram bom, 15 acham-no razovel e apenas cinco o classificam como ruim. Das pessoas ouvidas, 35 haviam recebido alguma assis-tncia mdica nos ltimos doze meses; para 12, isso acontecera mais de um ano antes e outras 12 no lembravam quando isso havia ocorrido. Na maior parte dos casos, o ltimo atendimento fora rea-lizado pela equipe do Consultrio na Rua, seja na prpria cena ou na Clinica da Famlia de Manguinhos. Apenas dois entrevistados haviam sido atendidos pela ltima vez numa das unidades de sade da Mar prximas da cena de uso. Evi-dencia-se, assim, a importncia do Con-sultrio na Rua para o acesso sade dos moradores da cena, bem como a falta de cobertura das unidades locais para esse tipo de pblico. Apenas 12 pessoas dis-seram no conhecer o CnR e, dos 47 que o conheciam, 42 avaliaram-no como bom e cinco como razovel. Ningum classi-ficou o atendimento como ruim.

    J no que se refere s outras ins-tituies, os ndices de identificao foram inferiores, devendo-se levar em conta, porm, que tanto o CAPSad

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22Maro 2016 29

  • quanto o projeto Proximidade s muito recentemente haviam passado a atender aos moradores da CCFF (desde janeiro e abril de 2014, respectivamente), ao passo que o CnR tinha contato com essa populao desde 2011. Dos 59 usurios ouvidos, 38 no conheciam ou no dife-renciavam os servios do Centro de Referncia Especializado de Assistncia Social (Creas) local; 24 no tinham conhecimento da oferta de servios do CAPSad e 22 no reconheciam o projeto Proximidade. Entre os que conheciam os servios do CAPSad, predominaram avaliaes positivas: 29 em 35 classi-ficaram-no como bom; cinco, como razovel e um como ruim. No caso do Proximidade, 33 em 37 consideraram o servio bom; dois, razovel e dois, ruim.

    De modo geral, parece haver maior clareza, para os usurios, sobre o tipo de servio prestados pelo Consultrio na Rua e melhor apreciao do vnculo criado por esse servio. J o CAPSad, alm de menos conhecido, visto com res-salvas por moradores da CCFF: como j se comentou mais acima, alguns o con-sideram um espao para loucos, no para dependentes qumicos, e outros duvidam da eficcia de um tratamento que no exige abstinncia. Soma-se a isso o fato de o CAPSad realizar poucas aes no local da cena e concentrar-se no atendimento dentro do espao ins-titucional. Os profissionais do Proxi-midade, por sua vez, so percebidos sobretudo como aqueles que auxiliam na obteno de documentos e no encami-nhamento a servios de sade. Grande parte dos moradores que obtiveram segunda via de documentos durante o perodo da pesquisa o fez por inter-mdio do Proximidade. A maior queixa em relao a esse servio era o fato de as equipes irem CCFF sempre na

    parte da manh, quando boa parcela dos moradores ainda estava dormindo ou recm-acordada. Profissionais expli-caram que a preferncia pela manh devia-se a razes logsticas e aos horrios de atendimento de outros servios cru-ciais, como o Detran, mas para os usu-rios da cena isso aparecia como uma espcie de descaso: a gente est dor-mindo, eles passam voando, perguntam se precisamos tirar documento ou ir para o mdico e vo embora (entrevista com Norbert). Tambm foi possvel per-ceber certa confuso entre Proximidade e Consultrio na Rua, talvez porque uma das principais atividades do projeto seja encaminhar os usurios ao CnR.

    A qualidade do atendimento e do vnculo parecem pesar bastante na melhor avaliao desta ltima insti-tuio. Perguntado sobre por que pre-feria ser atendido pelos profissionais do Consultrio na Rua, um morador respondeu: L diferente, n? Voc chega l e sempre atendido, sempre te do ateno. Aliada ao longo tempo de prestao do servio e forma de acolhimento, a baixa rotatividade dos funcionrios ajuda, ademais, a conso-lidar referncias e vnculos. Isso mostra tambm que, quando se oferecem con-dies adequadas, os usurios de drogas em situao de rua criam laos e identi-ficaes muito longe da viso estereo-tipada do cracudo ou do zumbi capaz apenas de se relacionar com a droga.

    A prpria equipe da pesquisa foi-se se constituindo numa referncia impor-tante para os moradores da cena, que passaram a dirigir-lhe pedidos de inter-mediao e demandas no endereadas s instituies de atendimento. A assis-tente social que integrava a equipe acompanhou diversas vezes moradores que buscavam servios de sade nas uni-dades da Mar ou em outras da regio

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22Maro 2016 30

  • e pde verificar como eram tratados os usurios da cena nesses espaos. Num dos casos, a moradora sentiu-se tratada com grosseria pela profissional que a atendeu e contrastou esse tratamento ao dispensado pelo Consultrio na Rua:

    ... voc viu o jeito que eles tratam a gen-te, parece que tm nojo. O pessoal da Doutora Valeska [mdica do CnR] abra-a ns, beija [...] teve uma vez que o Jos tava com o p todo necrosado, a Douto-ra Valeska entrou no barraco, colocou o p dele em cima da perna dela e tratou com maior amor, voc via que no tinha nojo! (entrevista com Ldia).

    Patrcia, outra moradora, internada numa maternidade prxima para dar luz, queixou-se de no ter sido sequer avisada de que a filha nascera morta, nem informada da causa. Uma enfermeira do hospital tentou justificar a atitude:

    ... recebemos, cada vez mais mulheres com este perfil, grvidas usurias de crack, sem famlia, a maioria das vezes [...] sozinhas. No sabemos como lidar com estas situaes. No recebemos nenhuma orientao, nenhuma capa-citao. Cada um faz como pode [...]. Mas difcil, no sabemos como vo reagir, muitas vezes so violentas, nem sempre sabemos como encaminhar.

    Nesse caso especfico, o membro da equipe de pesquisa que acompanhava Patrcia mobilizou o Consultrio na Rua e o projeto Proximidade, que acio-naram suas equipes para apoiar o hos-pital no atendimento paciente. Mas, na maioria das situaes em que neces-sitam de acesso a servios de sade, os usurios no dispem dessa proteo e no recebem atendimento minima-mente adequado. A fala da enfermeira e o desfecho do caso de Patrcia indicam, alm disso, que os profissionais que

    oferecem servios especficos a usurios de drogas em situao de rua deveriam ter papel fundamental na capacitao do pessoal no especializado das uni-dades de sade e de outras instituies de atendimento; indicam ainda a neces-sidade de polticas pblicas integradas de assistncia e cuidado.

    CONSIDERAES FINAIS E RECOMENDAES

    Das atividades de pesquisa, inter-veno e articulao institucional desen-volvidas ao longo do projeto, resultam algumas consideraes importantes para subsidiar polticas pblicas e aes da sociedade civil que visem ao atendimento de usurios de drogas em situao de rua, particularmente de integrantes das cenas coletivas conhecidas como cracolndias. Tais consideraes giram em torno da necessidade de levar em conta as carac-tersticas e demandas dos moradores, as especificidades dos territrios nos quais se fixam, e de promover sua insero em espaos e tempos alternativos, para que a rua e a droga deixem de ser as principais referncias e os principais meios de socia-lizao dessas pessoas.

    TRAJETRIAS COLETIVAS E EXTREMA VULNERABILIDADE SOCIAL: DESENHAR POLTICAS PBLICAS INTEGRADAS E ARTICULAR A REDE DE ATENDIMENTO E CUIDADO

    Os moradores da cena de uso de drogas da Flvia Farnese, como a maior parte dos indivduos que se encontram em situao semelhante, so na maioria jovens adultos, negros, de baixa escola-ridade, sem vinculao com o mercado formal de trabalho, oriundos de espaos populares, com longa trajetria de

    OSPROFISSIONAIS QUE OFERECEM SERVIOSESPECFICOS A USURIOS DE DROGAS EM SITUAO DE RUA DEVERIAM TER PAPEL FUNDAMENTAL NA CAPACITAO DO PESSOAL NO ESPECIALIZADO DAS UNIDADES DE SADE E DE OUTRAS INSTITUIES DE ATENDIMENTO

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22

    Maro 2016 31

  • situao de rua e passagens anteriores por outras cenas de consumo de drogas. Nesse contexto de extrema vulnerabi-lidade social, o uso abusivo de crack apenas um dos elementos de marginali-zao, podendo-se considerar a cena de consumo como ponto de convergncia de uma srie de problemas sociais urbanos, que demandam abordagens complexas e polticas sociais integradas e sustentveis, ao invs de vises e aes simplistas focadas unicamente na dependncia qumica.

    Ainda que fragilizados, os vn-culos familiares so fundamentais para grande parte dos moradores da Flvia Farnese, seja no presente, como apoio ao cuidado de si, sade e ao controle do consumo de drogas, seja como refe-rncia para perspectivas futuras. O fato de tais relaes serem marcadas por muitas dificuldades e numerosos con-flitos sublinham a relevncia de aes e polticas voltadas ao atendimento con-junto de usurios e de suas famlias.

    Com relao s polticas existentes, identificou-se, em primeiro lugar, a necessidade de uma melhor articu-lao dos rgos pblicos que assistem diretamente os usurios e as unidades de sade do territrio da Mar. A res-ponsabilizao, formao e capacitao das equipes dessas unidades parece ser crucial para melhorar a ateno bsica populao em foco e garantir a conti-nuidade do atendimento no territrio; nesse sentido, o Consultrio na Rua, prin-cipal referncia para os moradores da cena, deveria desempenhar papel des-tacado no matriciamento da oferta de servios bsicos de sade na Mar e no seu entorno. Em segundo lugar, detec-tou-se uma falta significativa de infor-maes e definies claras, para os usu-rios, sobre o mbito e as propostas de trabalho de cada rgo ou projeto que

    presta servios na rea. A consolidao de um frum intersetorial para a regio parece ser um caminho importante para fomentar a articulao, a cooperao e a reflexo conjunta, assim como a melhor divulgao do trabalho oferecido e a integrao de novos parceiros rede de assistncia e cuidado aos moradores da CCFF. A definio de uma instituio--lder, com disponibilidade e capacidade para conduzir o processo, fundamental para que ele possa se efetivar.

    No existem, na cidade do Rio de Janeiro, programas integrados como as experincias do De Braos Abertos em So Paulo ou do Programa Atitude no Recife. imperativo o desenho de polticas inspiradas nessas e em outras iniciativas do gnero, contemplando o contexto especfico do Rio de Janeiro, que possam integrar e articular as dife-rentes secretarias, incluindo as respon-sveis pela segurana pblica.

    VIOLNCIA E VIOLAES DE DIREITOS: REPENSAR AS POLTICAS DE DROGAS, O ACESSO JUSTIA E O DIREITO SEGURANA

    Coincidindo com um perodo parti-cularmente tenso e povoado de incer-tezas, a pesquisa na CCFF permitiu perceber o quanto a agenda e atuao da segurana pblica afetam objetiva e subjetivamente a vida dos que fre-quentam cenas abertas de consumo de drogas. Estabilidade ou itinerncia, esperanas ou temores, relativa segu-rana ou insegurana total, maior ou menor exposio violncia da polcia, maior ou menor ingerncia de grupos criminosos armados so todos fatores em boa parte definidos pelas aes, estratgias e polticas da rea de segu-rana pblica, incluindo a os rgos e aes de mbito municipal.

    NESSE CONTEXTO DE EXTREMA VULNERABI-LIDADE SOCIAL, O USO ABUSIVO DE CRACK APENAS UM DOS ELEMENTOS DE MARGINALI-ZAO, PODENDO-SE CONSIDERAR A CENA DE CONSUMO COMO PONTO DE CONVERGNCIA DE UMA SRIE DE PROBLEMAS SOCIAIS URBANOS

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22

    Maro 2016 32

  • Por um lado, enormes dificuldades se interpem a um dilogo sistemtico com esses atores em torno de abor-dagens mais complexas, adequadas e efi-cazes para lidar com as cracolndias, o que traz consequncias danosas no s para os usurios instabilidade, des-truio de vnculos, perda de docu-mentos, descontinuidade do atendi-mento mdico e reforo do estigma, entre outras mas para o prprio tra-balho dos rgos de sade, de assistncia e at mesmo de segurana, uma vez que a ttica de represso/expulso no faz mais do intensificar o processo de des-territorializao e reterritorializao das cenas de consumo de drogas na cidade. A negociao com o Exrcito durante a ocupao militar da Mar, que possi-bilitou, em parte, a fixao da cena de consumo no Parque Mar, mostra, por outro lado, que o dilogo com os agentes da segurana pblica no impossvel e que deve continuar sendo tentado e ampliado, pois dele depende em larga medida a possibilidade de aproximao, ateno e cuidado a populaes como a da Flvia Farnese, caracterizadas por muitos e diversos fatores de vulnerabi-lidade e marginalizao.

    Das 59 pessoas entrevistadas, 42 dis-seram ter sofrido um ou mais tipos de vio-lncia durante o perodo da pesquisa: vio-lncia sexual, conjugal, policial e/ou de grupos criminosos armados. Na grande maioria dos casos, as agresses foram silenciadas, ou seja, no se recorreu nem a instncias formais, nem justia local para buscar alguma espcie de reparao. Se a populao residente em espaos regu-lados por grupos criminosos armados, como o caso da Mar, est exposta a in-meras violaes de direitos e violncias, a situao se exacerba para coletividades como a da CCFF, que conjugam situao de rua, uso abusivo de drogas e residncia

    em rea sob domnio daqueles grupos. Uma vez que tal domnio assenta forte-mente no carter ilcito de certas subs-tncias, parece fundamental aprofundar a reflexo sobre a poltica de drogas em vigor no Brasil e sobre os efeitos deletrios da chamada guerra s drogas no s para os usurios em situao de rua como para a grande maioria da populao do pas.

    Alm da violncia de grupos crimi-nosos armados e da violncia policial, diversos tipos de conflitos e agresses permeiam as relaes interpessoais dos moradores da cena violncia sexual e conjugal, brigas entre vizinhos, dis-putas pelos barracos etc. A cena da Flvia Farnese configura-se, assim, num espao de alta exposio vio-lncia. Ora vtimas, ora autores, seus habitantes necessitariam experimentar outras situaes de convvio, no cen-tradas no consumo da droga e abertas a mecanismos de resoluo de con-flitos distintos do uso ou da ameaa de uso da violncia. Tambm seria funda-mental incorporar uma perspectiva de gnero na abordagem desse problema: com representao quase paritria de mulheres, caracterstica incomum em cenas de uso aberto de drogas, o espao focalizado registra alta presena da pros-tituio como meio de vida, de violncia conjugal e de violncia sexual dirigida quase exclusivamente s mulheres.

    AMPLIAR O CONCEITO E AS PRTICAS DE REDUO DE DANOS EM CONTEXTO DE VIOLNCIA

    Como se procurou mostrar neste trabalho, os riscos e danos a que esto sujeitos moradores e frequentadores de cenas abertas de consumo vo muito alm dos causados pelo uso de subs-tncias licitas ou ilcitas e englobam danos decorrentes de aes policiais, do

    NA GRANDE MAIORIA DOS CASOS, AS AGRESSES FORAM SILENCIADAS, OU SEJA, NO SE RECORREU NEM A INSTNCIAS FORMAIS, NEM JUSTIA LOCAL PARA BUSCAR ALGUMA ESPCIE DE REPARAO

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22

    Maro 2016 33

  • quadro legal da poltica de drogas, das leis impostas por grupos criminosos armados e dos estigmas associados ao uso das substncias. Tal perspectiva indica ser determinante o desenvol-vimento de aes complementares capazes de mitigar riscos e danos sem relao direta com o uso de drogas, que envolvam, por exemplo, capacitao e dilogo com os agentes de segurana pblica, pactuao de regras de convi-vncia com membros dos grupos crimi-nosos armados, dilogo e aes peda-ggicas com as instituies e atores locais, fortalecimento da formulao de demandas e desejos, e assim por diante.

    No se pretende com isso mini-mizar a importncia do tratamento para o uso abusivo de substncias lcitas e ilcitas. As aes na rea de sade so fundamentais em si mesmas na medida em que a dependncia qumica agrava as trajetrias de marginalizao e constituem muitas vezes a porta de entrada para o acesso a outros direitos e servios. Mas imprescindvel que se ofeream aos usurios informaes e alternativas teraputicas, permitindo a construo de estratgias de trata-mento sob medida e ajustveis, em lugar de uma linha de trabalho nica, imposta e uniforme. Viu-se que metade dos entrevistados na CCFF sente neces-sidade de auxlio teraputico, mas muitos avaliam negativamente experi-ncias baseadas na internao e no iso-lamento. Viu-se, por outro lado, que h pouca clareza sobre as opes exis-tentes e pouco conhecimento ou enten-dimento das terapias centradas na reduo de danos. A ampliao desse conhecimento e o esforo de prestar assistncia adequada s diferentes demandas dos usurios, para alm dos preconceitos e das disputas que existem nesse campo, so condies

    estruturantes de uma abordagem capaz de efetivamente reduzir os efeitos danosos do uso abusivo de drogas.

    SUBJETIVIDADES E PERSPECTIVAS: FORMULAO DE DEMANDAS E CRIAO DE ESPAOS ALTERNATIVOS DE SOCIALIZAO

    No caso especfico da cena de consumo da rua Flvia Farnese, a fixao espacial materializou-se na construo de 16 barracos desmon-tveis mas estruturados, que funcionam ao mesmo tempo como moradia e como fonte de renda. Dado o acesso a esse privilgio por uma parte apenas dos moradores e dados os fortes conflitos em torno do direito de alcan-lo, tor-nam-se necessrios programas capazes de prover formas alternativas e susten-tveis de moradia e gerao de renda para os habitantes da cena. A oferta de trabalho pode, ademais, reduzir o recurso dos usurios a atividades ilcitas e das mulheres prostituio, sendo mencionada por diversos entrevistados como condio determinante das suas chances de reestruturar-se, mudar de vida e sair da cracolndia. Ao lado das demandas relacionadas a moradia, emprego, capacitao e gerao de renda, aparece a de alternativas de lazer e atividades capazes de ocupar a mente e o tempo para alm do uso da droga. No h oferta para atender nem s primeiras, nem ltima dessas demandas, segundo a percepo dos moradores da CCFF, restringindo-se a proviso institucional de servios sobretudo rea de sade.

    O trabalho ressaltou ainda uma grande dificuldade dos usurios de enunciar demandas e desejos, em funo do acmulo de vulnerabilidades, estigmas e rejeies comprometedor

    METADE DOS ENTREVISTADOS NA CCFF SENTE NECESSIDADE DE AUXLIO TERAPUTICO, MAS MUITOS AVALIAM NEGATIVAMENTE EXPERINCIAS BASEADAS NA INTERNAO E NO ISOLAMENTO

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22

    Maro 2016 34

  • da possibilidade de enxergar-se como sujeitos de direitos, pensar alterna-tivas e projetar-se no futuro. Isso no impede que expressem algumas demandas comuns maioria da popu-lao brasileira, como moradia, capa-citao, trabalho, renda e lazer. As iniciativas artsticas e culturais desen-volvidas pelo projeto mostraram a importncia de se ofertar a grupos em situao semelhante da Flvia Farnese outros espaos de socializao e interao no centrados no uso da droga. Atividades que permitam cogitar novos horizontes, que estimulem habi-lidades criativas, que promovam a coo-perao no lugar da violncia e que contribuam para o reconhecimento de direitos devem ter grande peso se se quer efetivamente abrir perspectivas e vencer a tendncia predominante de congelamento e autocongelamento desses sujeitos no papel de cracudos. Tambm fundamental um trabalho junto populao que convive mais de perto com as cenas de uso de crack e das instituies que atuam no seu entorno, de modo a reduzir o estigma, a repulsa e a rejeio, geradores no s de violncia como de encolhimento ou fechamento das chances de insero social dos usurios fora do ambiente delimitado pelo uso da droga.

    REDES DA MAR: MEDIAO DE UMA ORGANIZAO DA SOCIEDADE CIVIL E REPLICAO DE EXPERINCIAS POSITIVAS

    Espera-se que o trabalho de pro-duo de conhecimento, interveno e articulao realizados pelo projeto aqui descrito contribua para conso-lidar e ampliar o debate em torno de estratgias sustentveis de atuao do

    poder pblico e da sociedade civil no atendimento aos usurios de drogas em situao de rua e na reduo dos danos decorrentes dessa circunstncia pessoal e social. Espera-se tambm que possam ser replicadas na mesma cena e em outras as iniciativas bem sucedidas de aproximao CCFF por meio da pes-quisa-interveno e dos esforos rea-lizados pela Redes da Mar no sentido de articular territorialmente polticas, instituies e servios direcionados populao da cena.

    Essa primeira experincia, embora incipiente, demonstra as potenciali-dades do papel de uma organizao como a Redes da Mar no processo de aproximao e criao de vnculos, e de articulao territorial e institucional. Por exemplo, os esforos que a insti-tuio realizou durante o projeto mos-traram ser oportuna a atuao de uma entidade de referncia, com enraiza-mento local, na estruturao de um frum intersetorial. Ademais, no caso especfico da Mar, onde h vrias ini-ciativas consolidadas da sociedade civil e cerca de trs mil empreendimentos eco-nmicos, essa mediao pode viabilizar formas diversas de insero da popu-lao da Flvia Farnese na economia e no tecido social das comunidades.

    Acredita-se, enfim, que uma atuao integrada como a que se experimentou no projeto aqui exposto pode ser um caminho interessante para refletir sobre possveis mediaes entre a formulao de demandas individuais e coletivas dessa populao e a oferta de polticas pblicas ainda pouco integradas e arti-culadas, assim como para pensar pr-ticas ampliadas de reduo de danos em contextos de violncia e enriquecer o debate sobre reforma das polticas de drogas hoje em vigor no pas.

    AS INICIATIVAS ARTSTICAS E CULTURAIS DESENVOLVIDAS PELO PROJETO MOSTRARAM A IMPORTNCIA DE SE OFERTAR OUTROS ESPAOS DE SOCIALIZAO E INTERAO NO CENTRADOS NO USO DA DROGA

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA 22

    Maro 2016 35

  • CENTRO DE ESTUDOS DE SEGURANA E CIDADANIA (CESEC) PR-REITORIA DE PS-GRADUAO E PESQUISAUNIVERSIDADE CANDIDO MENDES

    RUA DA ASSEMBLEIA, 10, SALA 810CENTRO RIO DE JANEIRO RJBRASIL 20011-901

    (55) (21) 2531-2033(55) (21) 2232-0007

    www.ucamcesec.com.br cesec@candidomendes.edu.br

    ISSN 1807-528 2

    apoiadores:

Recommended

View more >