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  • MEU NOME NO CRACUDOA CENA ABERTA DE CONSUMO DE DROGAS DA RUA FLVIA FARNESE, NA MAR, RIO DE JANEIRO

    REDES DA MAR E CESeC

    BOLETIM SEGURANA E CIDADANIA MARO 2016

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  • Eu me chamo Reginaldo Gomes de Arruda, sou um usurio de crack e quero ser chamado pelo nome, no de cracudo. [ morador da cena de consumo da flvia farnese ]1

    1. O ttulo deste artigo se inspira na fala de Reginaldo e na matria Prazer, meu nome Reginaldo, no cracudo, de Rosilene Miliotti, publicada no jornal Mar de Notcias em 29/09/2015, vencedora em segundo lugar do Prmio Gilberto Velho de Mdia e Drogas de 2015 (disponvel em http://redesdamare.org.br/blog/noticias/prazer-meu-nome-e-reginaldo-nao-cracudo/. ltimo acesso: 15/12/2015). Afora Reginaldo, que optou por identificar-se, todos os nomes de moradores da cena citados neste trabalho so fictcios.

    http://redesdamare.org.br/blog/noticias/prazer-meu-nome-e-reginaldo-nao-cracudohttp://redesdamare.org.br/blog/noticias/prazer-meu-nome-e-reginaldo-nao-cracudo

  • RESUMO

    Em 2015 a Redes da Mar desenvolveu um processo de aproximao cena aberta de consumo de drogas da rua Flvia Farnese, na Mar, atpica no Rio de Janeiro por sua estabilidade geogrfica e demogrfica. Combinando observao participante, criao de vnculos, interveno, articulao institucional e entrevistas semiabertas com 59 dos cerca de 80 moradores da cena, buscou-se traar o perfil e identificar as demandas dos moradores, entender as dinmicas incidentes no espao que ocupam e mapear as polticas de atendimento que ali atuam. Ponto de convergncia de problemas sociais urbanos e contexto marcado por diversas violncias, discriminaes e trajetrias de marginalizao, o estudo da cracolndia revela a urgente necessidade de polticas pblicas integradas, capazes, inclusive, de ampliar as prticas de reduo de danos para alm das relacionadas diretamente ao uso de drogas. Revela tambm a importncia da mediao de uma organizao da sociedade civil integrada no territrio para articular demanda e oferta de polticas pblicas, e facilitar a formulao de estratgias sustentveis de atendimento aos usurios de drogas em situao de rua.

  • COORDENAOELIANA SOUSA SILVA (Redes da Mar)JULITA LEMGRUBER (CESeC)

    EQUIPE

    COORDENADORA DE CAMPO E PESQUISADORAMARA GABRIEL ANHORN (Redes da Mar)

    ASSISTENTE SOCIAL E PESQUISADORALIDIANE MALANQUINI (Redes da Mar)

    PESQUISADORAANA CLARA TELLES (CESeC)

    MEDIADORES COMUNITRIOSHENRIQUE GOMES (Redes da Mar)NLSON TEIXEIRA (Associao de Moradores de Parque Mar)

    PARCERIA

    NCLEO INTERDISCIPLINAR DE AES PARA A CIDADANIA (NIAC-DIUC-UFRJ)

    COORDENADORAMIRIAM KRENZINGER

    ESTAGIRIASCRISTIALANE CARVALHO DE LIMA JESSICA DUTRA

    REVISO TCNICALEONARDA MUSUMECI (IE/UFRJ e CESeC)

    APOIOOPEN SOCIETY FOUNDATIONS

    INTRODUO

    Tornou-se moeda corrente no Brasil a imagem das chamadas cracolndias como verdadeiros infernos na Terra: antros de zumbis teleguiados pela droga, violentos, imprevisveis, repug-nantes e desprovidos de qualquer capa-cidade de escolha ou discernimento. Rtulos que geram medo e descon-fiana, e fornecem o caldo de cultura ideal para estratgias conservadoras empenhadas em esconder problemas sociais ou tentar elimin-los por meio da represso. O desconhecimento sobre esses espaos e sobre seus ocupantes desempenha papel central na repro-duo dos esteretipos. Por sua vez, o preconceito, alimentado pela falta de conhecimento, torna-se parte central do problema, acrescentando j eleva-dssima vulnerabilidade social dos usu-rios de drogas em situao de rua o estigma que fecha portas, reduz alter-nativas e bloqueia horizontes. Descons-truir chaves em torno de cracudos e cracolndias , portanto, uma tarefa imprescindvel caso se queira efetiva-mente abrir caminhos para lidar com os problemas relacionados populao em situao de rua e ao uso abusivo de drogas no pas.

    A pesquisa cujos resultados se apre-sentam aqui consistiu num processo de aproximao aos moradores e fre-quentadores de uma cena de consumo de crack do municpio do Rio de Janeiro atpica por sua longevidade e estabilidade. Localizada na rua Flavia Farnese, no Parque Mar uma das 16 comunidades que formam o Com-plexo da Mar, na regio da Leopoldina, zona norte da cidade , essa cena fixou-se territorial e demograficamente desde 2013. O processo foi elaborado e conduzido pela Associao Redes

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  • de Desenvolvimento da Mar (Redes da Mar), em parceria com o Centro de Estudos de Segurana e Cidadania (CESeC), com a Associao de Mora-dores do Parque Mar e com o Ncleo Interdisciplinar de Aes para Cida-dania (NIAC/UFRJ). Combinou obser-vao participante, interveno e arti-culao institucional com o objetivo de conhecer o perfil scio-demogrfico do grupo; compreender as dinmicas relacionais e territoriais constitutivas da cena de consumo; mapear as insti-tuies e as formas de atendimento populao local; conhecer e analisar as principais demandas dos moradores, e oferecer-lhes algumas experincias que pudessem propor temporalidades e sociabilidades distintas.

    De fevereiro a julho de 2015, a equipe da pesquisa visitou regular-mente a cena de consumo da Flavia Farnese (por comodidade, referida doravante como CCFF), conversando informalmente com moradores, fre-quentadores e profissionais de ateno e cuidado a usurios de drogas em situao de rua; realizando entre-vistas; aplicando questionrios semia-bertos e observando as dinmicas locais.2 Paralelamente, desenvolve-ram-se estratgias e espaos para o estabelecimento de outras formas de interao entre a equipe e o grupo de moradores, capazes de acionar outras subjetividades e representaes para alm da identidade de cracudo: encontros fotogrficos, produo de imagens (pinhole e vdeos), sesses de cinema, rodas de capoeira e sadas para palestras e espetculos. Auxlio para inscrio em cursos oferecidos por instituies locais, rodas de con-versas com profissionais da Mar visando a debater o tema das drogas, aproximao da equipe do jornal

    comunitrio Mar de Noticias aos moradores da CCFF e facilitao do dilogo entre rgos de atendimento aos usurios foram alguns dos desdo-bramentos mais importantes da pes-quisa-interveno cujos resultados so expostos resumidamente a seguir.

    TERRITRIOS EM MOVIMENTO: A CENA DA RUA FLAVIA FARNESE E A SEGURANA PBLICA DO RIO DE JANEIRO

    Fixao e itinerncia das cenas de consumo de crack e de seus usurios no Rio de Janeiro esto diretamente rela-cionadas agenda da segurana pblica e s obras urbansticas do PAC-Favelas, assim como a arranjos especficos nos territrios onde essas cenas se estabe-lecem. Diferentemente do caso de So Paulo, em que h grande concentrao de usurios de crack na rea central da cidade, o Rio se caracteriza por uma multiplicidade de cenas abertas de consumo localizadas, na sua maioria, em reas perifricas no interior ou no entorno de favelas e ao longo de linhas frreas na zona norte da cidade. Em 2015, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social identificou 18 cenas na regio, cujas localizaes se explicam pela facilidade de acesso droga, pela negociao com grupos cri-minosos armados locais, pela invisi-bilidade dos espaos e/ou pela inter-veno menor e menos sistemtica de agentes de segurana pblica.

    A partir de 2008, porm, a imple-mentao das Unidades de Polcia Pacificadora (UPPs) em diversas favelas gerou intensa movimentao das cenas de consumo de crack pela cidade do Rio de Janeiro, uma vez que a chamada pacificao quase invaria-velmente implicou o desalojamento das

    2. Informaes mais detalhadas sobre a metodologia adotada no trabalho de campo encontram-se no relatrio completo do projeto Reflexes sobre polticas de drogas na perspectiva de uma cena de consumo na Mar : o caso da cena da Flvia Farnese. Rio de Janeiro: Redes da Mar/CESeC, novembro de 2015.

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  • cracolndias existentes no interior ou no entorno dos territrios a serem ocu-pados por UPPs. Assim ocorreu sucessi-vamente com as cenas de consumo do Pavo-Pavozinho em 2009; do Com-plexo do Alemo e de Tabajaras em 2010; da Mangueira em 2011; de Santo Amaro, Arar, Manguinhos e Jacare-zinho em 2012. Como ressaltam Frgoli Jr. e Cavalcanti,

    Trata-se de fluxos considerveis de usurios que, expulsos de regies em que se inicia o processo de pacifica-o, refazem suas rotinas e retomam os esforos territorializantes associa-dos prtica constante do uso da dro-ga em novos espaos. A prpria itine-rncia dessas territorialidades acaba por produzir naqueles que antes se encontravam nesses locais a sensao de que as cracolndias brotam rpida e espontaneamente em espaos in-tersticiais, quando o que se observa, no caso carioca, so deslocamentos de prticas, agentes, rotinas e socia-bilidades ancoradas no uso do crack, para alm das regies em que vigora a poltica de pacificao.3

    No caso da Mar, esse movimento se torna mais evidente aps a insta-lao, em outubro de 2012, das UPPs de Manguinhos e Jacarezinho, abran-gendo a rea onde na poca se situava a maior cracolndia do Rio de Janeiro. quando ocorre considervel migrao de usurios de crack dessa rea para as margens da Avenida Brasil, na vizi-nhana do Parque Unio, pertencente ao conjunto de favelas da Mar, onde se formaria a nova cena da moda a partir do final de 2012.4

    Em contraste com as cenas tpicas do Rio, a grande visibilidade desse espao de consumo, instalado numa das principais vias expressas da cidade, chamou ateno da imprensa e dos

    moradores, que passaram a clamar das autoridades solues para o pro-blema. Como sublinha Taniele Rui, a apario no espao pblico de consi-dervel nmero de indivduos que com seus corpos, movimentaes e ocu-paes inusitadas se tornam visveis para a cidade incitam produo de dis-tintos aparatos de gesto, tratamento e ateno.5 Mas a tentativa de afas-tamento da visibilidade pblica que parece constituir um dos principais m

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