Boletim Salesiano n.º 545

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Edio n. 545 de julho/agosto de 2014 da Revista da Famlia Salesiana.

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  • Pastoral Juvenil prope vero cheio de atividades

    JULHO/ AGOSTO 2014

    545

    A REVISTA DA FAMLIA SALESIANA

  • 38 A FECHAR Que faria Dom Bosco hoje?Maria Gentil Pontes Vaz

    38 FUTUROS Viver com demasiada informao Tiago Bettencourt

    O Boletim Salesiano

    foi fundado por Dom Bosco a 6 de fevereiro

    de 1877. Hoje so

    publicadas em todo o mundo 51 edies em

    diversas lnguas, com tiragem anual

    estimada em mais de 8,5

    milhes de exemplares no

    total.

    Acordo Ortogrfico:

    Os artigos publicados

    respeitam o novo Acordo

    Ortogrfico

    Propriedade e edio:Provncia Portuguesa da SociedadeSalesiana, Corporao Missionria Direo e Administrao:Rua Saraiva de Carvalho, 275, 1399-020 LisboaTel.: 21 090 06 00, Fax: 21 396 64 72boletim.salesiano@salesianos.ptwww.salesianos.pt Distribuio gratuitaContribuio mnima anual de benfeitor: 10 euros NIB: 0035 0201 0002 6364 4314 3 IBAN: PT50+NIB, Swift Code CGDIPTPL Membro da Associao de Imprensa de Inspirao Crist

    20 OPINIO O valor da verdade Antnio Bago Flix

    O novo Reitor-Mor dos Salesianos visitou Portugal para participar na Pere-grinao da Famlia Salesiana a Ftima e no Dia do Movimento Juvenil Sale-siano. Em Portugal nos mesmos dias esteve tambm a Superiora das Filhas de Maria Auxiliadora, Madre Yvonne Reungoat.

    8 REPORTAGEM

    Pe. ngel Fernndez Artime em Portugal

    Colaboradores: Ana Carvalho, ngel Fernndez Artime, Antnio Bago Flix, Artur Pereira, Baslio Gonalves, Bruno Ferrero, Claudine Pinheiro, Egdio Deiana, Jernimo Rocha Monteiro, Joo Ramalho, Joaquim Antunes, Jos Anbal Mendona, Jos Antnio San Martn, Jos Armando Gomes, Juan Freitas, Luciano Miguel, Maria Fernanda Afonso, Maria Gentil Pontes Vaz, Maria Jos Barroso, Michael Fernandes, Miguel Mendes, Nuno Quaresma, Orlando Camacho, Tiago Bettencourt, Vanessa SantosCapa: Acampamento Nacional MJS/2012Execuo grfica: Invulgar GraphicTiragem: 10.500 exemplares

    FICHA TCNICA

    n. 545 - julho/agosto 2014

    Revista da Famlia Salesiana

    Publicao Bimestral

    Registo na DGCS n. 100311

    Depsito Legal 810/94

    Empresa Editorial n. 202574

    Diretor: Joaquim Antunes

    Conselho de Redao: Ana Carvalho, Baslio Gon-

    alves, Joo de Brito Carvalho, Joaquim Antunes,

    Pedrosa Ferreira, Raquel Fragata, Simo Cruz

    Administrador: Orlando Camacho

    3 EDITORIAL4 REITOR-MOR/OLHARES6 IGREJA/DESCORTINAR14 EM FOCO18 ATUALIDADE22 ECONOMIA24 COMO DOM BOSCO26 DA VIDA DE D. BOSCO 28 MISSES29 FMA30 PASTORAL JUVENIL32 FAMLIA SALESIANA34 MUNDO SALESIANO39 VOCACIONAL

    O Boletim Salesiano de Espanha en-trevistou a Me do Reitor-Mor, em Luanco, terra costeira nas Astrias de onde natural a famlia.

    36 ENTREVISTA ISABEL ARTIMEA Congregao Salesiana um barco que precisa de bom leme no mar

    JULHO/ AGOSTO 2014

    545

  • Grande a poesia, a bondade e as danas... / Mas o melhor do mundo so as crianas (Fernando Pessoa, Liberdade, em Cancioneiro). Apesar de as crianas serem o melhor do mundo, h hotis e similares que as rejeitam, mesmo quando acompanhadas pela famlia. S os adultos so bem-vindos. H tempos pasme-se! um cliente, no se apercebendo da restrio, fez a reserva num hotel do Algarve e, j na receo com a famlia, no conseguiu o check-in.

    Este novo conceito, dizem os defensores da ideia, est associado ao sol, ao mar e ao silncio. As pessoas vm para repousar e no querem estar sujeitas s correrias, s birras, aos gritos, s traquinices e s brincadeiras das crianas.

    O antigo presidente da Associao Portuguesa das Famlias Numerosas, em entrevista a um jornal dirio da capital, afirmou: pior que os hotis a poltica anti-famlia praticada pelo Governo e outras instituies afins que cria uma cultura nesse sentido.

    A cultura do nosso tempo, marcada pelo egocentrismo, mostra sinais de degradao preocupante ao promover o bem-estar e o prazer a todo o custo, a ponto de desunir pais e filhos em ocasies to importantes e saudveis como passar frias juntos.

    Num tempo de crise de civilizao, a famlia continua a ser a realidade base do equilbrio da sociedade e o principal foco da estabilidade e da esperana. E disto no se pode abdicar.

    Vm a as frias grandes, como se dizia. Que a sua grandeza sirva para estreitar relaes familiares, harmonizar vontades e, sobretudo, criar laos duradoiros entre pais e filhos.

    O melhor do mundo so as crianas

    Editorial

    JOAQUIM ANTUNES DIRETOR

    3

  • Uma saudao cordial e afetuosa. Escrevo estas linhas na preparao imediata da festa de Maria Auxilia-dora e peo Me de Jesus que ob-tenha a bno de Deus sobre todos vs, com os meus melhores votos para as vossas famlias, para as pes-soas e as situaes que precisam de mais luz.

    Nestes primeiros meses, come-cei a visita a algumas Provncias e

    Seguir Jesus percorrer o caminho da pobreza e da

    proximidade com os ltimos.

    Fiis s intenes de Dom Bosco

    Com poucos pes e poucos peixes

    REITOR-MOR

    NGEL FERNNDEZ REITOR-MOR DOS SALESIANOS DE DOM BOSCO

    continuo a conhecer cada vez mais a realidade concreta da Congrega-o e de toda a Famlia Salesiana. Dou graas a Deus pelo bem que, em nome de Dom Bosco, se reali-za no mundo inteiro em favor dos jovens, dos mais pobres e da gente simples. Sou testemunha dos in-meros projetos apaixonantes em que, continuamente, com poucos pes e poucos peixes, Deus multi-

    plica a nossa ao e torna exube-rantes as pobres obras das nossas mos.

    Sinto-me muito feliz por partilhar convosco esperanas e anseios. Estou disposio de todos para continuar a dar entusiasmo e apoio com a minha presena, o meu hu-milde servio e a minha orao quilo que o Esprito vai suscitando nas nossas Provncias.

    4

    BOLETIM SALESIANOjul/ago 2014

  • Justamente nestes dias, chegam notcias terrveis de perseguies dos cristos em muitas partes do mundo, de violao dos direitos humanos em regies crticas do planeta, de maus tratos e seques-tros de menores pela sua condio de mulher ou pelo seu credo. Nada de mais distante do plano de Deus! A presena do Senhor Ressuscita-do luz que ilumina as trevas e paz que dissipa o medo. A mensagem de Cristo Salvador de harmonia, numa criao nova, libertada do mal e da escurido. Infelizmente, o pecado agarra-nos e a ciznia sufo-ca o bom trigo. Por isso, ns cristos, com os homens e as mulheres de boa vontade, precisamos de conti-nuar a empenhar-nos, em nome de Deus e dos nossos irmos mais vul-nerveis, para fazer com que surja uma nova realidade mais prxima do projeto de Deus, com maiores oportunidades para todos, a fim de que, embora no j mas ainda no, ressoe com mais fora a plenitude da nova criao que ainda geme nas dores do parto.

    Precisamos de levantar a nos-sa voz e de unir-nos na denncia proftica que o Santo Padre lanou nestes dias, pedindo aos podero-sos que no fiquem indiferentes e unam esforos para pr fim barb-rie e injustia.

    Entretanto, no se trata apenas de uma questo de poltica dos Es-tados ou de estratgias das Naes Unidas. Na nossa famlia salesiana, marcada por uma espiritualidade profundamente pascal, continua-remos a trabalhar com todas as nossas foras para que, no nome de Jesus, haja sempre mais vida, para os mais pequenos e para os ltimos. Com o corao do Bom Pastor, que toma sobre si o cuidado dos mais fracos, continuaremos a fazer op-es vlidas pelos jovens mais des-favorecidos e em situao de risco, como Dom Bosco nos ensinou e quis.

    O apelo do Papa Francisco para dar impulso a uma Igreja que

    A presena do Reitor-Mor dos Salesianos e da Madre Geral das Filhas de Maria Auxiliadora entre ns, no passado ms de maio, fez-nos voltar s origens do Carisma e da obra Salesiana. A evangelizao e a educao dos jovens mais pobres, das classes populares, dos ltimos, foram repetidamente lembradas. Trata-se, portanto, de recordar a evangelizao como prioridade, a educao integral como campo de trabalho e o zelo apostlico como resposta genuna misso confiada famlia salesiana, qual missionria dos jovens.

    Voltemos histria de Dom Bosco. No sonho dos nove anos, Maria disse a Joozinho Bosco: Eis onde deves trabalhar, eis o campo que deves lavrar. Joo era um campons, percebia de campo. O semeador, o ceifeiro e o lavrador tm horizontes bem diferentes. Joo Bosco sabia que o lavrador trabalha com grande esperana, com a certeza do futuro que j antev florido e com frutos abundantes, mesmo se o tempo em que vive preenchido de suor, esforo e grande sacrifcio.

    As virtudes de quem quer ser evangelizador e educador dos jovens so as virtudes do lavrador: no perde tempo, no se fixa no passado, no se desvia das tarefas que tem de fazer e no tempo oportuno mas sabe que no pode ver logo os frutos. necessrio apostar, esperar com toda a confiana, alimentar no prprio corao a certeza de que os frutos a seu tempo surgiro. E, como Dom Bosco, colaborar na formao de honestos cidados e bons cristos.

    Como Dom Bosco, Pai e mestre da juventude, olhamos para os jovens como o lavrador contempla a terra que lavra, trabalhando para que os projetos evangelizadores e educativos correspondam ao projeto de Deus.

    Ainda a esperana

    Olhares

    ARTUR PEREIRA

    PROVINCIAL

    sai para as periferias e os bairros pobres nos quais o sofrimento e o desconforto so maiores, um estmulo para a nossa proposta educativo-evangelizadora. Somos chamados a um novo modo de fazer pastoral: a revoluo da ternura, do curvar-se diante dos mais feridos, do acolhimento dos que andam mais afastados, da pro-posta de ir ao encontro dos ltimos, de caminhar ao lado daqueles que a realidade social marginaliza e abandona.

    Meus caros amigos e amigas, esta tambm a nossa proposta.

    Como parcela da Igreja, continua-remos nestes anos a trabalhar para tornar mais credvel o nosso modo de viver e mais audacioso o nosso anncio. Isto dar-se- na medida em que as nossas opes forem mais prximas das necessidades dos jo-vens mais pobres. O nosso ltimo Captulo Geral pediu aos Salesianos para intensificarem o testemunho da nossa radicalidade evanglica. O convite pode ser estendido a toda a Famlia Salesiana. Seguir Jesus percorrer o caminho da pobreza e da proximidade com os ltimos. Como o Mestre, queremos passar no meio aos homens curando e li-bertando. Aqueles que carregam as chagas de Cristo impressas na car-ne das suas existncias martiriza-das so os primeiros destinatrios do anncio do Ressuscitado: A paz esteja convosco!.

    Ao aproximar-nos do Bicenten-rio do Nascimento de Dom Bosco, a melhor maneira de festejar o nosso Pai a fidelidade s suas grandes intuies. No duvido mi-nimamente de que uma delas, que tambm vital para ns hoje, a opo preferencial pelos jovens abandonados e em perigo.

    A mensagem do Senhor Ressusci-tado para retornar Galileia retor-nar s nossas razes, retornar aos jovens pobres. Estou certo de que l O encontraremos.

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  • IGREJA

    Canonizaes Dois novos santos

    No dia 27 de abril, o Papa Francis-co, na Praa de So Pedro, no Vatica-no, proclamou santos os papas Joo XXIII e Joo Paulo II.

    Estiverem presentes 19 chefes de Estado, 24 primeiros-ministros e 23 ministros, assim como alguns reis, um elevado nmero de Cardeais, Bispos, Presbteros e Diconos. De-zenas de comitivas oficiais e uma imensa multido de fiis na Praa de So Pedro e nas ruas e avenidas adjacentes onde foram instalados 16 ecrs gigantes.

    J. ANTUNES FOTOGRAFIAS: ROMAN WALCZAK

    O Papa Francisco presidiu, no Domingo da Divina

    Misericrdia, canonizao dos Papas Joo XXIII e Joo

    Paulo II. Participou na cerimnia, para alegria de todos, o

    Papa emrito, Bento XVI.

    ngelo Amato dirige pedido ao Santo Padre

    O cardeal ngelo Amato, SDB, dirigiu-se ao Santo Padre pedindo se dignasse incluir estes filhos elei-tos no catlogo dos santos, ao que o Papa Francisco respondeu em latim, lendo uma frmula longa e concluindo com as seguintes pala-vras: Declaramos e determinamos santos os abenoados Joo XXIII e Joo Paulo II, e inscrevemo-los no catlogo dos santos e estabelece-

    mos que em toda a Igreja eles sejam devotamente honrados entre os santos.

    Elogio dos novos santos pelo Papa Francisco

    Ao apresentar as suas vidas, o Papa Francisco na homilia, disse: Padres, bispos, papas do sculo XX, eles conheceram a tragdia, mas no vacilaram. Neles, Deus foi mais forte; mais forte era a f em Jesus Cristo, Redentor do homem e Se-

    Relquias dos novos santos:

    um pedao de pele removido

    do corpo de Joo XXIII, o bom papa,

    exumado em 2001 para a

    beatificao; e uma ampola

    com o sangue do papa polaco

    6

    BOLETIM SALESIANOjul/ago 2014

  • nhor da histria. Neles, a misericr-dia de Deus era maior, assim como a proximidade materna de Maria. E acrescentou: Eram dois homens contemplativos das chagas de Cris-to e testemunhas da sua misericr-dia, mantendo viva a esperana com uma alegria indescritvel e gloriosa.

    A Joo XXIII o Papa Francisco chamou pastor e guia. No es-queamos, que so os santos que fazem crescer a Igreja. Na convo-cao do Conclio, Joo XXIII de-monstrou uma delicada docilidade ao Esprito Santo e foi para a Igreja um pastor, um guia-guiado.

    De Joo Paulo II, Francisco lem-brou que queria ser recordado como o Papa da famlia. Apraz-me sublinh-lo, sublinhou o Papa, no momento em que estamos a viver um caminho sinodal sobre a famlia que ele seguramente acompanha e sustenta no Cu.

    Ambos, disse o Papa Francisco, restauraram e atualizaram a Igreja segundo a sua fisionomia original.

    Os milagres dos dois Papas canonizados

    A irm Caterina Capitani teve du-rante mais de vinte anos abcessos que lhe tinham progressivamente atingido o corpo todo. Intervenes cirrgicas tinham sido catorze. Em fim de vida, depois de ter recebido o sacramento da Santa Uno, foi--lhe colocada uma relquia do Papa Joo XXIII sobre uma das feridas e ela acordou curada.

    Prodigiosa foi tambm a cura de Floribeth Mora Diaz, natural da Cos-ta Rica. Me de quatro filhos, foi-lhe diagnosticado um aneurisma ce-rebral. Deram-lhe um ms de vida. Depois de ter visto a beatificao de Joo Paulo II, numa transmis-so, pediu-lhe que a curasse. Tinha

    Prefiro a misericrdia ao sacrifcio

    Descortinar

    LUCIANO MIGUEL HISTORIADOR

    A um mundo dilacerado pela violncia, a intolerncia e uma crise que, cada vez mais, mina a relao entre as pessoas, a Igreja, atravs dos seus representantes mximos, apresenta uma proposta de esperana: a medicina da misericrdia! Alguns, ao ouvir isto, talvez reajam com ironia, como os filsofos gregos quando Paulo lhes anuncia no Arepago um Jesus, como o Deus que ressuscitou. evidente que a proposta apenas ser aceite por quem tem F. Ao longo de todo o Antigo e Novo Testamento a misericrdia o atributo principal de Deus. ela que faz Israel levantar-se das suas crises, pois est intimamente ligada justia, santidade e fidelidade de Deus. Jesus, ao anunciar a sua Boa Nova, apresenta-nos sempre um Deus misericordioso. Na misericrdia est contida a Regra de Ouro 1 que todas as Religies defendem. Este remdio da misericrdia para os novos tempos foi anunciado por Joo XXIII no Discurso de abertura do Conclio Vaticano II. Antes, at nos estudos teolgicos, a misericrdia quase no tinha lugar. Mas desde ento tornou-se a referncia fundamental na vida crist e na sua relao com o mundo. A prpria Liturgia a apresenta como o maior atributo de Deus ao afirmar: Senhor, que dais a maior prova do vosso poder quando perdoais e vos compadeceis (XXVI DTC). Joo Paulo II, que...