boletim orcamento socioambiental 8

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Boletim Orcamento Socioambiental 8

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  • Ano II n 8 dezembro de 2003Publicao do Instituto de Estudos Socioeconmicos - Inesc

    8

    A poltica socioambientalno governo Lula

    Nos primeiros dez meses do Governo Lula, frustaram-se aqueles que acreditaram que o Ministrio do MeioAmbiente - MMA - teria um maior protagonismo naelaborao e na implementao das polticas de desen-volvimento social e econmico no Brasil. Esta expectati-va se viu ilusoriamente alimentada quando, na defini-o da equipe de governo, a ento senadora Marina Sil-va foi alada ao cargo de ministra, trazendo consigo umtime de primeira linha para ocupar os cargos detomadores de deciso dentro do ministrio.

    Com o passar do tempo, foi se percebendo que ascoisas no seriam bem como se acreditava. Os interessesfinanceiros e as idias e concepes clssicas do modelode desenvolvimento econmico gestado em meados dosculo passado acabaram predominando significativa-mente nas decises do executivo federal. O Ministrio

    Que poltica essa?ps o primeiro ano de mandato do gover-no Lula, permanece sem resposta uma per-gunta bsica: qual o projeto de polticasocioambiental para o pas? Um dos maio-res programas da rea, o Programa Pilotopara Proteo das Florestas Tropicais PPG7, passou o ano praticamente parado, espera de definies polticas.O Ministrio do Meio Ambiente, longede ser reconhecido por sua importncia,foi desconsiderado pelas decises de go-verno, que privilegiaram os interesses fi-nanceiros e econmicos. Frustrou-se aexpectativa de que a indicao da mi-nistra Marina Silva seria um sinal denovos tempos.O embate sobre os alimentos transgnicosdemonstrou a inabilidade do governo naconduo das polticas de biosseguranae biotecnologia. Os transgnicos foramliberados sem a prvia avaliao dosimpactos ambientais, econmicos, soci-ais e sanitrios. Um risco para o pas euma vitria da multinacional Monsanto,que poder plantar e comercializar a sojatransgnica.No campo socioambiental, 2003 entrapara a histria tambm como um pero-do de baixa execuo oramentria peloMinistrio do Meio Ambiente e de ex-pectativa quanto ao futuro. No h d-vida de que os movimentos sociais e asorganizaes no-governamentais tmmuito trabalho pela frente. Entre eles,fortalecer a parceria e o entendimentocom o Ministrio do Meio Ambiente.

    A

    E D I T O R I A L

  • 2 dezembro de 2003

    O Ministrio do MeioAmbiente, como no

    perodo FHC, foiapresentado como

    um setor dominadopelas ongs

    ambientalistascontrrias aos

    interesses e projetosda articulao

    desenvolvimentistagovernamental,sendo deixado

    margem de decisesimportantes

    Oramento & Poltica Socioambiental: uma publicao trimestral do INESC Instituto de Estudos Socioeconmicos, em parceria coma Fundao Heinrich Bll. Tiragem: 3 mil exemplares. INESC - End: SCS Qd, 08, Bl B-50 - Sala 435 Ed. Venncio 2000 CEP. 70.333-970 Braslia/DF Brasil Tel: (61) 212 0200 Fax: (61) 212 0216 E-mail: inesc@inesc.org.br Site: www.inesc.org.br - ConselhoDiretor: Jackson Luiz Pires Machado, Ronaldo Coutinho Garcia, Maria Elizabeth Diniz Barros, Gisela Alencar Santos, Nathali Beghin,Gilda Cabral de Arajo, Guacira Csar de Oliveira, Pe. Jos Ernani Pinheiro, Paulo Calmon - Colegiado de Gesto: Iara Pietricovsky, JosAntnio Moroni - Assessoria: Denise Rocha, Edlcio Vigna, Jair Barbosa Jnior, Jussara de Gois, Luciana Costa, Mrcio Pontual, RicardoVerdum, Selene Nunes - Jornalista responsvel: Luciana Costa - Diagramao: Data Certa Comunicao - Impresso: Vangraf

    do Meio Ambiente, como em muitos momentos doperodo FHC, foi apresentado como um setor do-minado pelas ongs ambientalistas contrrias aos in-teresses e projetos da articulao desenvolvimentistagovernamental, sendo deixado margem de deci-ses importantes.

    Esta situao implicounum esforo a mais da mi-nistra e sua equipe, esforoeste muitas vezes inglrio, deretirar o MMA do isolamen-to a que vinha sendo subme-tido, por meio de tentativasde articulao bilateral comoutros ministrios, como odas Minas e Energia, daAgricultura, dos Transpor-tes, da Integrao Nacionale do Desenvolvimento Agr-rio, cujas aes e investimen-tos impactam diretamente omeio ambiente.

    Nem mesmo os clamores,as articulaes e performances de parlamentares,inclusive da chamada base de apoio do Governono Congresso Nacional, foram suficientes parademover o ncleo duro dos planos traados. Noltimo 4 de junho, vspera do Dia Mundial do MeioAmbiente, ao mesmo tempo em que foi lanada aFrente Parlamentar Mista para o DesenvolvimentoSustentvel e Apoio s Agendas 21 Locais, a minis-tra Marina Silva entregou ao presidente da Cma-ra, Joo Paulo Cunha (PT/SP), uma agenda posi-tiva contendo as 11 propostas legislativas conside-radas pelo setor ambiental como prioritrias parauma poltica de desenvolvimento ambientalmente

    sustentvel. O deputado Joo Paulo afirmou quelevaria as propostas reunio de lderes, esperandopara breve que se constituam as condies polti-cas para apreciao das matrias.

    O momento mais, digamos, dramtico deste es-tranho processo foi entre o final de setembro e a

    primeira quinzena de outubro, quando, em meioaos boatos de que a ministra Marina poderia aban-donar o cargo a qualquer momento, o deputadoFernando Gabeira se desliga do PT. O discursodo deputado Gabeira foi tomado por amplos se-tores do movimento socioambiental brasileirocomo representativo do estado de esprito domovimento naquele momento.

    No mbito da poltica nacional em 2003, otema central das tenses no campo socioambientalfoi, sem sombra de dvida, o dos organismos ge-neticamente modificados - OGMs outransgnicos, ao qual se vieram somar a liberaoda importao de pneus usados; a inoperncia eas dificuldades do governo em chegar a uma defi-nio das aes necessrias a curto e mdio prazospara o controle do processo de desmatamento e

    queimada das reas de floresta e cerrado; a divulga-o do pacote de obras e empreendimentos de infra-estrutura, principalmente na Amaznia e no Nor-deste; e a continuidade do projeto nuclear brasilei-ro -Angra III, entre outros.

    O que se pode perceber ao longo destes dez me-ses que dvidas e interrogaes sobre os objetivose rumos da poltica socioambiental do governo fe-deral no foram um privilgio de ongsambientalistas e socioambientalistas, e de organiza-es e movimentos de trabalhadores rurais, de agri-cultores familiares, de sem-terras, de seringueiros,de extrativistas e indgenas. Nos corredores e salas

  • dezembro de 2003 3

    Em relao aosrecursos financeiros,

    no se pode deixarde reconhecer que o

    montante investidopelo Ministrio do

    Meio Ambiente nosseus programas eaes nestes dez

    primeiros meses degesto foi

    insignificante

    de trabalho do MMA, ainda hoje persistem dvi-das sobre, por exemplo, o quanto sero aproveita-das as experincias, os aprendizados, as articulaessociais e polticas com os movimentos sociais, e ocapital humano e social a construdo e acumuladoao longo da ltima dcada.

    O Programa Piloto para Proteo das FlorestasTropicais -PPG7, um dos maiores, seno o maiorprograma na rea socioambiental, respeitado naci-onal e internacionalmente pelos benefcios polti-cos, institucionais,ambientais, econmicos esociais, em especial os seuscomponentes demons-trativos, que trabalha-ram fortemente noempoderamento das co-munidades locais naAmaznia e Mata Atln-tica, foi um exemplo dis-to. Esteve praticamenteparalisado ao longo de2003, aguardando as de-finies e os arranjos po-lticos entre o governo fe-deral, os governos estaduais e o setor privado, comvistas elaborao de uma nova poltica de desen-volvimento sustentvel para a Amaznia.

    As expectativas so de que seja apresentado algumproduto do Grupo de Trabalho Interministerial cons-titudo com a finalidade de elaborar o denominadoPrograma Amaznia Sustentvel - PAS. Os progra-mas atualmente elencados no Plano Plurianual 2004/2007 apontam para possibilidades interessantes,embora os recursos sejam escassos, o que acarretarlimitaes nos resultados esperados.

    Alm das incertezas, conflitos e tenses mais ge-rais da poltica governamental, uma srie de outrosfatores influram na micropoltica interna do MMAnestes dez meses: os compreensveis problemas namontagem das equipes de trabalho; o tempo neces-srio para conhecer e avaliar a estrutura e os recursos

    humanos disponveis; as limitaes impostas pelocontingenciamento de recursos financeiros; as resis-tncias internas naturais s mudanas; as disputas porprojetos e cargos; as dificuldades de estabelecer umdilogo amistoso com a diversidade de interesses evises da sociedade civil organizada e dos agentes demercado, que pressionam seja pela continuidade, sejapela mudana nas polticas do rgo. Alm disso,pesou significativamente no nimo de trabalho dasvelhas e novas equipes a incerteza sobre o prpriofuturo, decorrente do fim da forma de contrato derecursos humanos via agncias de cooperao in-ternacional, e a necessidade de todos assim contra-tados concorrerem num processo seletivo aberto.Com todos os riscos que isso implica.

    Em relao aos recursos financeiros, no se podedeixar de reconhecer que o montante investido peloMMA nos seus programas e aes nestes dez pri-meiros meses de gesto foi insignificante, mesmose considerarmos o que efetivamente foi disponi-bilizado ao ministrio com os contingenciamentos.Do oramento da Unio, foram investidos nos pro-gramas finalsticos pouco mais que R$ 91,74 mi-lhes, o equivalente a 6,39% do autorizado e a9,48% do efetivamente disponibilizado com oscontingenciamentos.

    Hoje, o socioambientalismo governamental vemcolocando suas fichas principalmente nos resultadosda Conferncia Nacional do Meio Ambiente -CNMA, realizada em Braslia, de 28 a 30 de no-vembro. Talvez mais no MMA do que nos movimen-tos socioambientais haja uma grande expectativa emrelao mobilizao social gerada pela ConfernciaNacional e pelas pr-conferncias estaduais e regio-nais. O que no se sabe se esta Conferncia geraras condies necessrias para se caminhar no sentidodo to