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Boletim Orcamento Socioambiental 24

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  • Este boletim o primeiro de uma srie especial de doisnmeros focados na Amaznia brasileira. O objetivoprincipal dele informar e propor questes que possamcontribuir para aprofundar a reexo e principalmente a aopoltica dos movimentos sociais, destinada a promoo dos direitossociais e ambientais nessa regio.

    Nele so apresentadas as mais importantes referncias da atualabordagem metodolgica do Instituto de Estudos Socioeconmicos(INESC), que integra trs temas caros ao trabalho desenvolvido peloInstituto ao longo dos ltimos trinta anos: direitos, meio ambientee oramento pblico.

    A base da abordagem proposta o mtodo de anlise dooramento luz dos Direitos Humanos construda pelo INESC em2009 a qual denominamos metodologia Oramento e Direitos eque vem orientando o nosso trabalho com oramento pblico.

    Com este e o prximo boletim pretendemos contribuir parauma maior compreenso e capacidade de inuncia social naspolticas pblicas em curso na regio, na direo de torn-las maiscoerentes com o desao de melhorar as condies de vida dapopulao amaznica.

    Esperamos, por m, que esses dois boletins estimulem o dilogocom organizaes e movimentos sociais comprometidos com adefesa de direitos sociais e ambientais na Amaznia ecom a construo e fortalecimento de parcerias.

    Boa Leitura!

    24 Publicao do Instituto de Estudos Socioeconmicos - INESCEDIO

    E D I T O R I A L

    ORAMENTO & POLTICA AMBIENTAL

    Ano X - Fevereiro de 2011

    Inesc.final 31/01_Layout 1 01/02/11 19:58 Page 1

  • Alm de ser o primeiro ano do governo da presidente Dilma Rousseff, 2011 se -r importante para elaborao e aprovao de um novo plano plurianual, umnovo PPA, o PPA 2012-2015. Em sendo um ano de denio de prioridades e metas para os prximos quatro

    anos, para o governo federal e estadual, 2011 ser muito especial s pessoas e comu-nidades que vivem na Amaznia.

    Ao mesmo tempo em que a Amaznia tida como uma das regies do planeta maisricas em recursos naturais, onde dispe de reservas de recursos naturais estratgicosem vrias reas (orestal, biodiversidade, mineral, gua, hidroeletricidade etc.), es-timativas recentes indicam estar l um dos piores indicativos sociais do pas: cercade 9,5 milhes de pessoas viveriam abaixo da linha da pobreza e 5,5 milhes comno mais de que dois reais de renda por dia.

    Diante disso, no faltam pessoas no governo, em-presrios, banqueiros, instituies internacionais e or-ganizaes da sociedade civil promotoras da boago vernana, que argumentam que o melhor caminhopara transformar esta situao incrementar a produ-tividade e a competitividade da regio para melhor in-seri-l nos mercados globalizados. Na receita esto ofortalecimento da economia orestal, a instalao deuma logstica e infraestrutura mais adequada regio,a explorao sustentvel dos recursos minerais e oincremento da industrializao baseado no potencialhidroeltrico da regio.

    Na realidade, esse pacote de solues no novo. Retrospectivamente, vira-e-mexe a regio e os amaznidas so chamados a "contribuir" com o crescimentoeconmico e o desenvolvimento nacional. Geralmente realizado de forma compulsriae sem o direito de consulta prvia, livre e informada. Esse pacote tem gerado umadistribuio de benefcios de signicncia desigual, seja internamente na regio, ouentre as demais regies do pas, especialmente com a regio sul-sudeste. A isso sejunta os benefcios que so extrados da regio e so acumulados e desfrutados emoutros pases e mercados, frequentemente no hemisfrio norte.

    O ano de 2011, portanto, ser muito especial. Ano de disputas e de convergnciasem relao ao quanto, ao como e ao destino (para quem, no que e onde) do gastopblico realizado pela Unio e os estados. Ano de pensar e agir de forma organizadaem favor de um modelo alternativo de desenvolvimento na regio, o que passa peladenio das prioridades e metas do PPA 2012-2015.

    *Ricardo Verdum, 51, doutorem antropologia pela

    Universidade de Braslia (UnB) assessor poltico do Institutode Estudos Socioeconmicos(INESC). verdum@inesc.org.br

    ESTIMATIVAS RECENTES COMPROVAMUM DOS PIORES INDICATIVOS SOCIAIS DO

    PAS: CERCA DE 9,5 MILHES DEPESSOAS VIVERIAM ABAIXO DA LINHA

    DA POBREZA E 5,5 MILHES COM NO MAIS DO QUE DOIS REAIS DE RENDA

    POR DIA NA REGIO.

    2 - Fevereiro de 2011ORAMENTO &

    POLTICA AMBIENTAL

    ( Ricardo Verdum* )

    Inesc.final 31/01_Layout 1 01/02/11 19:58 Page 2

  • NOVOS APORTES

    Em 2009-2010 o INESC deu corpo a dois instrumentos complementares de acom-panhamento e anlise dos uxos nanceiros aportados na Amaznia brasileira, sejameles do oramento pblico ou por intermdio de outros agentes e mecanismos pbli-cos, privado e misto.

    Um desses instrumentos o Observatrio dos Financiamentos e Investimentos daAmaznia. Uma iniciativa desencadeada pelo Instituto ainda no segundo semestre de2009, que em 2010 tomou corpo com a realizao de estudos iniciais sobre algunsagentes nanceiros especcos (fundos de penso e bancos privados) e os investimen-tos na regio; e a denio de uma pgina especca para o Observatrio na internet,dentro da pgina geral da instituio.

    O outro instrumento a incorporao da dimenso ambiental na nova abordagemmetodolgica do INESC no trato do oramento pblico. Desenvolvida em 2009, essaabordagem se baseia na noo de Direitos, na promoo e proteo de direitos, e intitulada Oramento e Direitos.

    A opo do INESC por focar o trabalho de avaliao do oramento pblico luzdos direitos humanos na Amaznia decorre da deciso de territorializar a anlise dapoltica oramentria governamental. Tambm est ligada a uma maior preocupaodo INESC com o presente e o futuro da regio e a populao que vive l.

    A Amaznia alvo de disputas envolvendo inmeros atores e redes sociais inte -ressadas nas terras e nos recursos naturais l disponveis. O que tem provocado trans-formaes cada vez mais aceleradas nos modos de vida e nas condies ambientaisdessa regio. Mais de 14% da rea de cobertura orestal da Amaznia brasileira de-sapareceu nas ltimas dcadas, para dar lugar a reas de pastagem e monocultivosagrcolas ou ser inundada em decorrncia do represamento de rios e igaraps.

    Apesar da queda dos ndices de desmatamento na Amaznia a partir de 2007, difcil avaliar a sustentabilidade desta tendncia. Essa dvida decorre dos efeitos po-tenciais que poder ter o conjunto de obras de infraestrutura previstas no Programade Acelerao do Crescimento (PAC) para a regio. Componente nacional da de-nominada Iniciativa de Integrao da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA),que hoje passa por revises e transformaes polticas, jurdicas e institucionais paraser incorporada como a dimenso hardware da Unio de Naes Sul-Americanas(UNASUL).

    H expectativa de que, por exemplo, o corredor que segue at a Guiana Francesaestimule o turismo e a produo de gros no Amap. J a ponte em Assis Brasil (AC),associada com as melhorias a serem realizadas nas rodovias BR-364 e BR-370, pos-sibilitaro maior acesso rodovirio do centro-sul ao extremo oeste do Pas, at a regiolitornea peruana, alcanando e dando maior acesso regies nacionais mais remotase isoladas dos centros econmicos mais dinmicos.

    Tambm parece prximo o licenciamento ambiental das obras de recuperaoda BR-319 (Manaus-Porto Velho), que cortar a rea mais preservada de oresta daregio. A rodovia integra o Macrozoneamento Ecolgico-Econmico da AmazniaLegal (Macrozee), cujo decreto foi assinado pelo ex- presidente Luiz Incio Lula da

    Silva em 02/12/2010 .

    Alm disso, as decises tomadas em relao ao Cdigo Florestal, em debate noCongresso Nacional brasileiro, e as alteraes em cursos nas legislaes ambientaisestaduais, numa clara ttica do setor do agronegcio de comer pelas beiradas, de -vero inuir decisivamente na dinmica de ocupao territorial e nas condies so-ciais e ambientais da regio.

    l3

    Informaes ociais do PAC esto

    disponveis no sitehttp://www.brasil.gov.br/pac

    Criado em Quito, 10 deagosto de 2009, e com

    estatuto aprovado em 18 dejunho de 2010, o Conselho

    Sul-Americano deInfraestrutura e Planejamento(COSIPLAN) da UNASUL tementre suas atribuies ser um

    espao de promoo deentendimentos polticos e

    estratgicos entre os pasespara a construo de redes

    integradas de infraestrutura,transportes e

    telecomunicaes. Maisinformaes sobre a IIRSA verna internet www.iirsa.org.br

    Decreto N. 7.378, de01/12/2010, publicado no

    Dirio Ocial da Unio no dia02/12/2010, Seo 1. Mais

    detalhes no site:www.mma.gov.br/sitio/index.php?ido=conteudo.monta&id

    Estrutura=28

    Fevereiro de 2011 - 3

    Inesc.final 31/01_Layout 1 01/02/11 19:58 Page 3

  • Mas para colocar em prtica o Observatrio e a metodologia Oramento e Direitos,s far sentido ao INESC se ambos os instrumentos estiverem ancorados em legiti -midade e fora poltica na regio. O INESC no pretende realizar isso sozinho, masem parceria com os movimentos e organizaes sociais, socioambientalistas e dejustia ambiental na Amaznia. Ao INESC a, que reside de fato a capacidade dequalicar as anlises e o potencial de inuir no rumo das polticas.

    Estabelecer essa interlocuo importante para formular e aplicar os indicadoresqualicados, que permitem analisar desde os sujeitos de direito a dotao oramen-tria e a aplicao dela, os impactos gerados, a efetivao progressiva de direitos, eetc. Esse procedimento imprescindvel ao objetivo de formulao de um oramentoalternativo ao estabelecido desde os grupos atualmente hegemnicos no aparelhoEstatal e as prioridades deles.

    ORAMENTO PBLICO E DIREITOS

    Em linhas gerais, o enfoque baseado em Direitos implica em mudar a lgica doprocesso de elaborao de polticas pblicas. O ponto de partida do desenho deixade ser a existncia de pessoas e comunidades com necessidades ou que devem serassistidas, para a condio de titulares ou sujeitos de direitos aos quais garantidopoder jurd