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Boletim Orcamento Socioambiental 17

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  • Ano V n 17 setembro de 2006Publicao do Instituto de Estudos Socioeconmicos - Inesc

    17

    IIRSA:os riscos da integrao

    Na Amrica Latina, a denominada Iniciativa paraIntegrao da Infra-Estrutura Regional Sul-Ameri-cana (IIRSA) parece ser uma clara manifestao danova ofensiva de setores desenvolvimentistas, que, aolongo dos anos 1990, incorporaram sua retrica asbandeiras da sustentabilidade ambiental e da inclu-so. H, na IIRSA, uma confluncia de pensamentose interesses articulando setores que, historicamente, sejapela direita, seja pela esquerda, associaram a idiade desenvolvimento s idias de transformaes soci-ais, polticas e tecnolgicas em direo a uma economia

    Perdas e danos

    riada em agosto de 2000, a Iniciativa para

    Integrao da Infra-Estrutura Regional Sul-

    Americana (IIRSA) completa seis anos em

    plena fase de implementao e assusta pelos

    riscos que pode representar para a Amrica

    do Sul, especialmente nos aspectos cultural e

    socioambiental.

    A maior ameaa reside no fato de que a

    integrao proposta pela IIRSA, e tambm

    pelos Eixos Nacionais de Integrao e Desen-

    volvimento (Enid), tem como objetivo prin-

    cipal a convergncia comercial e econmica.

    Ou seja, prioriza a integrao de mercados

    para tornar a regio mais competitiva do

    ponto de vista da lgica da globalizao capi-

    talista, uma lgica que perpetua desigualda-

    des e promove excluses.

    Esta publicao pretende alertar para os

    perigos que pairam sobre a regio. No Bra-

    sil, uma das preocupaes com a Amaz-

    nia, territrio cobiado pela estratgia

    IIRSA. Estudo feito pelo Instituto de Estu-

    dos Socioeconmicos (Inesc), apresentado

    nesta edio, indica as obras planejadas pela

    IIRSA que tm destinao de verbas na Lei

    Oramentria Anual (LOA) de 2006.

    Certamente, fundamental o engajamento

    das organizaes da sociedade civil, no senti-

    do de exercer o controle social sobre a iniciati-

    va que est em curso. Esse um passo impor-

    tante para evitar que a IIRSA se transforme

    num processo irreversvel de perdas e danos.

    E D I T O R I A L

    C

    www.inesc.org.br

  • 2 setembro de 2006

    A IIRSA, na verdade, um espao de

    inmeras disputas econtrovrsias que

    muito pouco tem aver com os supostos

    benefcios aospobres

    industrial e modernizada; de crescimento econ-mico; e de integrao de territrios, recursos na-turais e populaes no sistema produtor de mer-cadorias. Acena-se, complementarmente, comuma melhora na qualidade de vida das popula-es, particularmente da parcela identificadacomo a mais pobre.

    A IIRSA, na verdade, um espao de inme-ras disputas e controvrsias que muito pouco tema ver com os supostos be-nefcios aos pobres, o queno nenhuma novidadeconsiderando os interes-ses polticos e econmicosenvolvidos e o montantede recursos financeiroscirculantes. No interiorda Comunidade Sul-Americana de Naes(Casa), que integra os governos dos 12 pases queparticipam da IIRSA, h diferentes projetos dehegemonia poltica e ideolgica em disputa, comoentre os governos brasileiro e venezuelano, en-trelaados com interesses empresariais, comrebatimento nas prioridades e no controle da es-tratgia de integrao das infra-estruturas. Quemdecide o qu e como? Qual projeto deve serpriorizado? Quem financia o qu? Que empresaou consrcio fica com qual pedao da carteira deprojetos? Qual obra deve receber financiamentopblico? Que benefcios o setor privado vai ob-ter com determinada obra e aps a sua conclu-so? Quem assume as mitigaes e compensaesdos impactos socioambientais? Esses so, entre ou-tros, assuntos rotineiros nesse meio.

    A Rodovia Cuiab-Santarm parece ser umexemplo desse estado de disputas. Na pgina ele-trnica do Ministrio do Planejamento (MPO),a Rodovia Cuiab-Santarm, localizada no EixoAmazonas, aparece como um dos chamados pro-jetos-ncora da IIRSA, classificao que conflitacom a lista da pgina oficial da IIRSA (atualiza-da em junho/2006), na qual esse projeto no temo mesmo status.

    A histria da articulao inter-governamentalpr-IIRSA teve incio oficial em agosto de 2000,em Braslia, com a primeira reunio dos 12 pre-sidentes dos Estados nacionais da regio. A se-gunda reunio ocorreu em julho de 2002, emGuayaquil (Equador), onde o tema tratado foiexclusivamente infra-estrutura, isto , aintegrao fsica das infra-estruturas da Amri-ca do Sul. Na terceira reunio, realizada em de-zembro de 2004, em Cuzco (Peru), os presiden-tes aprovaram os 31 projetos de grande escalaconsiderados estratgicos (os projetos-ncora)para o perodo 2006-2010, com um valor inicialestimado de 6,4 bilhes de dlares americanos.Num esforo de formalizao, pode-se dizer quea histria da IIRSA est dividida em trs momen-tos: o de fundao (2000-2002); o de planeja-mento (2003-2004); e o de implementao(2005-2010).

    Alm dos governos dos 12 pases sul-america-nos, integrados na chamada Comunidade Sul-Americana de Naes (Casa), esto envolvidos di-retamente na IIRSA velhos e novos conhecidosdo setor financeiro, como o BancoInteramericano de Desenvolvimento (BID), aCorporao Andina de Fomento (CAF), o Fun-

    Oramento & Poltica Socioambiental: uma publicao do INESC Instituto de Estudos Socioeconmicos, em parceria com a FundaoHeinrich Boll. Tiragem: 1,5 mil exemplares. INESC - End: SCS Qd, 08, bl B-50 - sala 435 - Ed. Venncio 2000 CEP 70.333-970 Braslia/DF Brasil Tel: (61) 3212 0200 Fax: (61) 3212 0216 E-mail: protocoloinesc@inesc.org.br Site: www.inesc.org.br. ConselhoDiretor: Armando Raggio, Caetano Arajo, Eva Faleiros, Guacira Cesar, Iliana Canoff, Jean Pierre, Jurema Werneck, Padre Virglio Uchoa,Pastor Ervino Schmidt. Colegiado de Gesto: Atila Roque, Iara Pietricovsky, Jos Antnio Moroni. Assessores/as: Alessandra Cardoso,Caio Varela, Edlcio Vigna, Eliana Graa, Francisco Sadeck, Jair Barbosa Jnior, Luciana Costa, Mrcio Pontual, Ricardo Verdum.Assistentes: lvaro Gerin, Ana Paula Felipe, Lucdio Bicalho. Instituies que apiam o Inesc: Action Aid, CCFD, Christian Aid, EED,Embaixada do Canad - Fundo Canad , Fastenopfer, Fundao Avina, Fundao Ford, Fundao Heinrich Boll, KNH, NorwegianChurch Aid, Novib, Oxfam, Save the Children Fund e Wemos Fundation. Jornalista responsvel: Luciana Costa (DRT 258/82)

  • 3setembro de 2006

    O Ministrio dosTransportes o nico

    cujas obras naAmaznia brasileiraincludas na CarteiraIIRSA tm recursos

    previstos na LeiOramentria Anual

    (LOA) 2006

    do Financeiro para o Desenvolvimento da Baciado Rio da Prata (Fonplata), o Banco Nacional deDesenvolvimento Econmico e Social (BNDES)e grandes empresas do porte da Odebrecht,Petrobrs, Andrade Gutirrez e Queiroz Galvo,entre outras, para citar as mais conhecidas. 1

    Um ator financeiro que at ento vinha se man-tendo meio parte no processo, o Banco Mundial(Bird), foi acionado formalmente pelo governo bra-sileiro. Segundo o minis-tro do Planejamento, Pau-lo Bernardo, por ocasioda 1 Rodada de Consul-tas para a construo dachamada Viso Estratgi-ca Sul-Americana (Vesa),realizada em Foz doIguau (PR), em dezem-bro de 2005, o presiden-te Lula teria conversadocom o presidente do Bird, Paul Wolfowitz, sobre os31 projetos prioritrios da IIRSA e a importncia deo Banco ajudar no seu financiamento.

    motivo de preocupao a exposio feitapelo coordenador nacional da IIRSA no Brasil,Ariel Ceclio Garces Pares, durante a 1 Roda-da de Consultas para a Construo da Viso Es-tratgica Sul-Americana (Vesa) no Brasil(Manaus, junho de 2006). Segundo Ariel Pa-res, a IIRSA no simplesmente uma listagemde obras. Antes, um conjunto de obras base-ado num planejamento cuja sua ambio... umprojeto de desenvolvimento. Qual seria esseprojeto de desenvolvimento algo que no ficaclaro. Em alguns momentos da sua fala, ilustra-da com grficos, tabelas e mapas, pareciamemergir imagens que espelhavam vises dos anos1970, quando se argumentava que havia naAmaznia um enorme vazio de ocupao hu-mana e que era necessrio integrar para noentregar. Agora, se fala na rarefeita estruturaurbana dessa regio, em vazios a serem

    urbanizados e conectados aos bens de servi-os necessrios melhoria da qualidade de vidae a uma rede de cidades mnimas que d capa-cidade e acesso seja a escolas, a universidades, aemprego e a renda de valor mais elevado.

    O impacto da IIRSA no oramento pblico fe-deral brasileiro visvel no chamado setor infra-es-trutura. O estudo apresentado a seguir buscamapear, na Lei Oramentria Anual (LOA) de2006, o lugar ocupado pelos projetos IIRSA pre-vistos na Amaznia brasileira.

    O oramento da infra-estruturaNo oramento federal, fazem parte do setor

    infra-estrutura os Ministrios de Minas e Ener-gia, dos Transportes, e das Comunicaes, comum oramento autorizado pelo Congresso Naci-onal, em 2006, de R$ 17,79 bilhes, sendo R$8,29 bilhes para atividades-fim. Do total de R$17,79 bilhes, 52,14% esto nas mos do Mi-nistrio dos Transportes, cabendo ao Departa-mento Nacional de Infra-estrutura de Transpor-tes (DNIT) 38,05% do valor total destinado aosetor infra-estrutura. O Ministrio dos Transpor-tes o nico cujas obras na Amaznia brasileiraincludas na Carteira IIRSA tm recursos previs-tos na LOA 2006. Os projetos com recursos au-torizados so os seguintes: Adequao da Rodovia BR-156 (Trecho

    Oiapoque-Macap); Ponte binacional sobre o Rio Oiapoque (AP); Ponte sobre o Rio Itacutu, na fronteira Bra-sil-Guyana (RR); Rodovia Bonfim-Normandia (RR); Rodovia Cuiab-Santarm (MT e PA)

    Para a execuo dessas cinco obras, o Congres-so Nacional autorizou, na LOA 2006, um ora-mento total de R$ 108,55 milhes, conforme severifica na tabela 1. At 8 de agosto, estavam em-penhados R$ 16,55 milhes e nem um centavotinha sido liquidado.

    1 Desde 2001, o Instituto para la Integracin de Amrica Latina y el Caribe (Intal), ligado ao Departamento de Integracin y Programas Regionales do BID,localizado em Buenos