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Boletim Orcamento 4

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  • Publicao do Instituto de Estudos Socioeconmicos - Inesc Ano III n 4 junho de 2004

    ma leitura atenta do Projeto de Lei de DiretrizesOramentrias PLDO para 2005, em tramitaono Congresso Nacional, demonstra descompassoentre inteno poltica e comprometimentooramentrio. As prioridades traadas pelo prprioGoverno no Plano Plurianual 2004/2007 aindasem aprovao do Parlamento no encontram econa proposta do PLDO/2005.Eleito sob a gide da transparncia, e sob o signoda mudana, o governo Lula, apesar de algunsavanos pontuais e que merecem reconhecimento,tem demonstrado falta de empenho naimplementao de polticas pblicas essenciaispara reduo da excluso e promoo dodesenvolvimento econmico e social.Nesta edio, o Inesc chama a ateno para o fatode o formato do desenho das polticas sociaisespecificadas no Anexo de Metas e Prioridades doPLDO/2005 deixarem muito a desejar. Em muitoscasos, trazem concepes assistencialistas emdetrimento da universalizao das polticas pblicas.As organizaes da sociedade civil tm enfrentadodificuldades na obteno de dados atualizados daexecuo do Oramento da Unio. A abertura doSistema Integrado de Administrao Financeira SIAFI antiga reivindicao da sociedade civil,cujo atendimento vem sendo sistematicamenteadiado um passo fundamental nademocratizao do poder e ampliao dos espaosde igualdade, to necessrios ao aprofundamentoda democracia brasileira. Enquanto atransparncia dos gastos pblicos permanece umafalcia, continuamos pressionando pela aberturade canais de participao de forma a viabilizar ocontrole social de polticas pblicas.As tabelas oramentrias que embasaram asanlises deste boletim esto disponibilizadas nosite do Inesc: www.inesc.org.br.

    U

    E D I T O R I A L

    4

    PLDO/2005:um ensaio sobre aesperana e o medo

    Queria entender do medo e da coragem, da g queempurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo aosuceder. 1

    Se o Projeto de Lei n. 3 de 2004, que tem a fun-o de apresentar ao Congresso Nacional e Socie-dade Brasileira as diretrizes que devero nortear a ela-borao da lei oramentria do exerccio de 2005,fosse um ensaio literrio, poderamos atribu-lo umttulo mais indicativo do seu contedo como, porexemplo: Um ensaio sobre a esperana e o medo.Pelo menos este ttulo traduziria de forma mais clarao sentimento que temos ao analis-lo, tal a perple-xidade que nos furta a esperana e nos restitui o medoem relao aos rumos das polticas pblicas nacio-nais e, que, parece no ter fim ao se analisar o Projetode Lei de Diretrizes Oramentrias para o exercciode 2005 PLDO/2005.

    1 Este trecho constitui parte da obra Grande Serto: Veredas, cuja autoria deJoo Guimares Rosa.

    O Controle Social

    Apoio:

  • 2 junho de 2004

    Oramento uma publicao do INESC - Instituto de Estudos Socioeconmicos com a parceria de Fundao Avina. Tiragem: 1.500

    exemplares - End: SCS - Qd, 08, Bl B-50 - Salas 431/441 Ed. Venncio 2000 - CEP. 70.333-970 - Braslia/DF - Brasil - Fone: (61)

    212 0200 - Fax: (61) 212 0216 - E-mail: protocoloinesc@inesc.org.br - Site: www.inesc.org.br - Conselho Diretor: Eva Faleiros,

    Gisela Santos de Alencar, Iliana Alves Canoff, Juraci de Souza, Mariza Veloso M. Santos, Nathalie Beghin, Neide Castanha, Paulo du

    Pim Calmon, Pe. Virglio Leite Uchoa, - Colegiado de gesto: Jos Antnio Moroni, Iara Pietricovsky - Assessoria Tcnica: Denise

    Rocha, Edlcio Vigna, Jair Barbosa Jnior, Jussara de Gois, Luciana Costa, Mrcio Pontual, Ricardo Verdum, Selene Nunes -

    Jornalista responsvel: Jair Barbosa Jnior- Projeto grfico: DataCerta Comunicao

    Esta publicao utiliza papel reciclado

    Como se no bastasse o estado da arte em quese encontra o Plano Plurianual de Investimentos(PPA-2004/2007), que at a primeira semana dejunho ainda no havia sido votado no CongressoNacional e, portanto, ainda prescindia da aprova-o do Legislativo e da sano do Presidente daRepblica para comear a valer de fato e de direi-to, o PLDO/2005, alm de no alterar de formasubstantiva o PLDO/2004, leva-nos a ter maisdvidas do que certezas em relao ao exercciode 2005, que ser o penltimo ano do mandatodo atual presidente.

    Em 2005, restar ao Presidente Lula, apenasdois anos para concluir seu mandato, o que signi-fica que estamos no meio do caminho e, que, por-tanto, ainda h esperanas de se mudar a direoe os sentidos das polticas pblicas vigentes at omomento. Contudo, se o Congresso Nacional nopropuser alteraes significativas nas metas e pri-oridades elencadas no PLDO/2005, pouco pode-r ser feito mais adiante e, neste caso, nos restar omedo de continuarmos a conviver com as desigual-dades que assolam a populao brasileira que temsexo, cor, raa e endereo de acordo com as esta-tsticas publicadas pelo IBGE2.

    Como cabe LDO garantir as metas e priori-dades da administrao pblica estabelecidas noPPA e demarcar as regras e compromissos3 quedevero orientar a elaborao da proposta ora-mentria do exerccio subseqente, este quadropoder ser ainda mais desalentador se conside-

    rarmos a realizao de eleies municipais no se-gundo semestre deste ano, o que, em geral,desmobiliza grande parte dos Deputados e Sena-dores eleitos para nos representar nas causas na-cionais. Pois, ainda que estes no lancem candi-daturas prprias4, podero ser mobilizados a pres-tar apoio as suas bases eleitorais, o que podercomprometer a votao dos inmeros Projetos deLei que atualmente tramitam no Congresso e osque ainda sero apresentados a esta casa, como,por exemplo, o Projeto de Lei Oramentria parao exerccio de 2005, que ser encaminhado emagosto deste ano.

    Neste sentido, este Boletim tem o objetivo dedestacar alguns dos diversos parmetros discrimi-nados no PLDO/2005, que devero orientar a ela-borao do oramento federal do prximo ano, eque preocupam a Sociedade Civil, seja pelos as-pectos apontados anteriormente ou por aquelesque sero detalhados adiante. Vale lembrar, que oprazo para que estas mudanas sejam feitas ex-guo, pois o limite dado pela Constituio para seconcluir a votao do PLDO 30 de junho.

    O cenrio macroeconmico discriminado noPLDO/2005 no aponta alteraes significativasnos parmetros estabelecidos para o exerccio de2004 e, tampouco, no modelo econmico, poismantm os instrumentos vigentes na poltica eco-nmica, isto : cmbio flutuante, juros altos e ele-vado supervit primrio, conforme pode ser ob-servado na Tabela 1.

    2 Encontram-se disponveis no site do INESC, alguns dados selecionados das ltimas publicaes do IBGE acerca dos Indicadores Sociais, as quais abrangem osexerccios de 2001e 2002.

    3 O detalhamento destes aspectos legais podem ser observados no art.165, 2, da Constituio de 1988; na seo II do captulo II da Lei Complementar N.101, de 4 de maio de 2000; e no art.1 do PL N. 3 de 2004.

    4 De acordo com a matria intitulada Debandada com hora marcada, veiculada no Jornal O Correio Braziliense em 23 de maio de 2004: dos 513 deputados,109 j haviam avisado que iriam disputar o cargo de prefeito em suas cidades; e dos 81 senadores, 4 pretendiam disputar as eleies municipais.

  • junho de 2004 3

    Oramento

    No que diz respeito ao cmbio, no h proposta,pois os parmetros apontam apenas uma projeode sua evoluo que, na realidade, determinadapelo mercado. Com isto, o governo abdica mais umavez da possibilidade de estabelecer regras para a es-tadia do capital internacional no Pas e comprome-te com isto o crescimento da economia. Pois, a di-minuio estimada da taxa de juros no to signi-ficativa, a ponto de atrair, por si s, os capitais inter-nacional e nacional para a esfera da produo.

    No seria mais eficaz reduzir as taxas de juros epromover uma desvalorizao do cmbio, o quereduziria as importaes e de quebra aumentariaas exportaes, o que poderia gerar um aumentoda produo, do emprego e da renda?

    O argumento usado at o momento sobre a taxa dejuros cuja reduo ocorre lentamente e, volta e meiapra um pouquinho , de que este instrumento depoltica monetria tem sido usado para conter as pres-ses inflacionrias e atrair os investimentos externos. Con-tudo, deve-se indagar ao Governo de onde vem estapresso inflacionria, se o Pas teve crescimento negati-vo no exerccio de 2003, o que conseqentemente serefletiu no aumento da taxa mdia de desocupao e nareduo da renda mdia dos brasileiros em termos re-ais, isto , descontando-se a inflao. Alm disso, con-forme ressaltado anteriormente, sem controle entradae sada de capitais, a taxa de juros s atrai o capitalespeculativo, deixando de lado o capital produtivo, quepoderia contribuir para alavancar o crescimento eco-nmico e a gerao de emprego e renda.

    Alm disso, como uma parcela significativa dos t-tulos pblicos so atreladas ao dlar, a manutenodos juros altos faz com que a dvida pblica, que soma da dvida interna com a externa, mantenha umatrajetria de crescimento.

    Na tentativa de estabilizar a relao dvida/PIB, que o governo prope a manuteno de um supervitprimrio5 elevado, cuja funo seria a de sinalizar aosdetentores de ttulos da dvida pblica, de que o Esta-do brasileiro honrar seus compromissos, ainda quepara isto, seja necessrio impor sacrifcios populao.

    Diante deste quadro, pergunta-se: a realizao deum supervit primrio de 4,25% do PIB suficientepara manter estvel a relao dvida/PIB, se continu-armos com juros to elevados e com crescimento pfioda economia? De que forma os cortes realizados nooramento para efetivar a poltica de gerao de supe-rvit primrio ampliam o grau de desigualdade exis-tente na populao brasileira?

    Como se no bastasse a defesa desta poltica econ-mica restritiva, as metas e o formato do desenho daspolticas sociais especificadas no Anexo de Metas e Pri-oridades do PLDO/2005 deixam muito a desejar, poisapresentam, em muitos casos, concepesassistencialistas em detrimento da universalizao daspolticas pblicas, conforme ser detalhado adiante.

    Acreditamos que as questes levantadas neste Bole-tim podero ser utilizadas por nossos repres