BICUDO, M. a. v.; KLÜBER, T. E. 2013_ a Questão de Pesquisa Sob a Perspectiva Da Atitude Fenomenológica de Investigação

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questes de pesquisa

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<ul><li><p>24 Conjectura: Filos. Educ., Caxias do Sul, v. 18, n. 3, p. 24-40, set./dez. 2013</p><p>A questo de pesquisa sob a perspectiva da atitude fenomenolgica de investigao</p><p>* Doutora em Educao. Professora do Programa de Ps-Graduao em Educao Matemticada Unesp, campus de Rio Claro, SP. Pesquisadora do CNPq. E-mail: mariabicudo@gmail.com</p><p>** Doutor em Educao Cientfica e Tecnolgica. Professor no Programa de Ps-Graduaoem Educao, Uioeste da campus Cascavel, PR, no Programa de Ps-Graduao em Ensino,PPGEn, da Unioeste, campus Foz do Iguau, PR. E-mail: tiagokluber@gmail.com</p><p>Resumo: No mbito da pesquisa em educao aparecem e convivem diversasabordagens de pesquisa que orientam as investigaes. Dentre elas h a pesquisaqualitativa segundo uma abordagem fenomenolgica. Essa afirmao podeser estendida pesquisa em Educao Matemtica. Assim, no intuito decontribuir para a reflexo sobre pesquisa nesses mbitos, buscamos, com estetexto, explicitar uma compreenso sobre o modo de se constituir a questo depesquisa em uma atitude de investigao fenomenolgica, contextualizada naregio de inqurito da Educao Matemtica. O processo exposto esclarece omovimento articulador que exige rigor e clareza por parte do pesquisador.Enfim, deixamos, com este texto, pistas do movimento que o pesquisadorefetua ao buscar esclarecer a pergunta/questo estabelecida, tornando-a maisclara e lanando luzes sobre a investigao em sua totalidade. Expe, ainda,uma compreenso dos aspectos epistemolgicos e ontolgicos acerca desseassunto.Palavras-chave: Pesquisa. Educao. Educao Matemtica. Fenomenologia.Conscincia.</p><p>Abstract: In the context of research in education appear and coexist variousresearch approaches that guide the investigations. Among them there is aqualitative research according to a phenomenological approach. This assertioncan be extended to research in mathematics education. Thus, with the aimof contributing to the discussion about research in these areas, we seek, withthis text, clarify an understanding on how to constitute the matter ofresearch in an attitude of phenomenological research, contextualized in thearea of inquiry in mathematics education. The exposed process clarifies the</p><p>Maria Aparecida Viggiani Bicudo*</p><p>Tiago Emanuel Klber**</p><p>2A questo de pesquisasob a perspectiva da atitudefenomenolgica de investigao</p><p>The research issue according to the perspective ofphenomenological investigation attitude </p></li><li><p>Conjectura: Filos. Educ., Caxias do Sul, v. 18, n. 3, p. 24-40, set./dez. 2013 25</p><p>Maria Aparecida Viggiani Bicudo Tiago Emanuel Klber</p><p>articulator movement that demands rigor and clarity by the researcher. Stillwe indicate with this text, clues that the movement makes the researcher seekto clarify the question/issue established, making it clearer and throwing lighton the investigation in its whole. Shows, also, an understanding of theontological and epistemological aspects, concerning to this topic. Keywords: Research. Education. Mathematics Education. Phenomenology. Consciousness. </p><p>PrembuloNeste artigo expomos nossa compreenso a respeito do modo pelo</p><p>qual constitumos a interrogao de uma investigao que, no caso dapesquisa tomada como exemplo para explicitao, foi efetuada na rea daEducao Matemtica. Tal compreenso se desenvolveu no prprio processode investigao do trabalho apresentado como tese de doutorado,denominado Uma metacompreenso da modelagem matemtica na EducaoMatemtica. (KLBER, 2012). Nessa investigao, o foco de luz incidiusobre o fenmeno: modelagem matemtica na Educao Matemtica, e ainterrogao que conduziu o movimento de investigao foi assimformulada: o que isto, a modelagem matemtica na Educao Matemtica?1</p><p>Tal interrogao, em geral denominada pergunta/questo, se ancorouem um desacerto, em uma posio desajeitada entre o compreendido sobre oque mais ou menos aceito como dado em modelagem matemtica naEducao Matemtica e o movimento interrogante que realizamos comopesquisadores. Demoramo-nos na prpria pergunta a fim de esclarecer oque ela dizia; em outras palavras, em busca de clareza a respeito do modopelo qual se constri o conhecimento do interrogado. Ao mesmo tempoque esse processo foi sendo efetuado, ele se mostrou importante por apontaro que est sendo investigado para clarear os caminhos mais condizentes apercorrer para investigar o indagado.</p><p>Diante do exposto, o texto que apresentamos discute, a partir de ummergulho intencional no processo de investigao, a inquietao queconcerne ao estabelecimento da prpria pergunta. Visando a explicitar essemovimento, retomamos o caminho da investigao efetuada e, de modo</p><p>1 O nosso intuito neste artigo no aprofundar aspectos referentes modelagem matemticana Educao Matemtica. As menes a ela se daro em funo de situar o leitor, sem,contudo, adentrar nas interpretaes oriundas do processo investigativo. Esta investigaofoi parcialmente financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientfico eTecnolgico (CNPq), por meio de bolsa sanduche no Pas.</p></li><li><p>26 Conjectura: Filos. Educ., Caxias do Sul, v. 18, n. 3, p. 24-40, set./dez. 2013</p><p>A questo de pesquisa sob a perspectiva da atitude fenomenolgica de investigao</p><p>reflexivo e atento, ns o expomos com vistas a deixar pistas de como se deuo processo filosfico que permitiu clarear a prpria questo.</p><p>Um mergulho nos atos da conscincia: da explicitao do prprioquestionamento</p><p>De acordo com Kluth (2005, p. 40), quando o sujeito se deparadesacertado, porque percebe, diante de si, a presena de algo que noquer integrar-se nas opinies preestabelecidas, e no se sente confortvelem permanecer se segurando s opinies alheias postas.</p><p>Nesse mesmo sentido, Piccino et al., esclarecem que</p><p>quando ocorre um desacerto reflexivo, a necessidade deexplicitao est instalada. Perguntar torna-se imperioso eestabelecemos uma questo. Tendendo para o perguntar que fazaparecer o que se mostra o fenmeno , constitumo-nos comoum perguntador que se movimenta no mbito do verdadeiroperguntar. Este busca a estrutura do buscado e segue sua direoprvia. O perguntado oferece o sentido ao perguntador que secoloca na situao de acolh-lo. (2006, p. 5).</p><p>O ato de buscar pela estrutura do buscado um modo de consider-lo,em parte, desconhecido, mas j presente, ou seja, j h uma pr-compreensodaquilo que o pesquisador pretende compreender. E isso abre possibilidadespara que o processo de produo do conhecimento se instaure. uma possibilidadeque rompe tanto com o dogmatismo, pois se afasta do tido como certo,quanto com o ceticismo, pois sai da zona de dvida que pode se impor, aqual no permite avanar em direo crtica. A postura do pesquisador,ao mesmo tempo, no segue a dogmtica, nem se deixa sucumbir na dvida.Instaura-se um dilogo crtico entre ambas as posies. Abre possibilidadespara uma busca abrangente e aponta para aspectos genticos da constituiodo conhecimento. Afasta-nos da compreenso vaga e mediana que imperaquando estamos no espao mundano, sendo com todos e como todos que,nas palavras de Heidegger (2002, p. 31), a compreenso do ser vaga emediana um fato.</p><p>Ao vivenciarmos esse processo de busca de esclarecimento, deparamo-nos com a fora da interrogao que aponta para o o que isto? Quandodigo isto, no me limito a perceber mas, fundado na percepo se constrio ato do visar-isto, um ato novo que por ela se rege e que dela dependequanto sua diferena. Nesse e s nesse visar indicativo que reside a</p></li><li><p>Conjectura: Filos. Educ., Caxias do Sul, v. 18, n. 3, p. 24-40, set./dez. 2013 27</p><p>Maria Aparecida Viggiani Bicudo Tiago Emanuel Klber</p><p>significao. (HUSSERL, 1996, p. 39, grifos do autor). No caso daconstituio dessa pergunta que seria completada com a modelagemmatemtica, tomando a forma O que isto: a modelagem matemtica naEducao Matemtica? Essa indagao o que isto? solicita que se olhepara a modelagem matemtica em educao, atentos ao que aponta.</p><p>De maneira atenta, ao efetuarmos o dilogo mencionado, nosso olharincidiu sobre o fenmeno e, ao buscar compreend-lo, em suas manifestaes,despidos de conceitos prvios, ele foi se mostrando em perspectivas, mediantemodos de ele se dar na Educao Matemtica. Abriu-se uma regio entrepesquisador e objeto de pesquisa investigado, em que, de modo imediato,o fenmeno se faz presente ao investigador no ato de percepo. importante j explicitar que a percepo entendida, no mbito dafenomenologia, como presena, ou melhor, como verdade que se d empresena, no agora, e que, ao ser lanado no movimento da conscincia, opercebido j se torna obscuro, solicitando por atos cognitivos e de expressesque o articulem em um pensar claro e expresse essa articulao por meio dalinguagem.</p><p>Merleau-Ponty, ao falar da percepo, argumenta que</p><p>o que nos dado um caminho, uma experincia que esclarece asi prpria, que se retifica e prossegue o dilogo consigo mesma ecom o outro. Portanto, o que nos arranca da disperso dos instantesno uma razo acabada, como se disse sempre uma luznatural, nossa abertura a alguma coisa. (1990, p. 56).</p><p>Assim, ao percebermos o fenmeno2 em seu campo de manifestao,nosso olhar, que um ver compreensivo, j traz consigo a historicidade denossas vivncias e o solo cultural e histrico em que o fenmeno sepresentifica.</p><p>O caminho da questo para aquele que pergunta faz parte da suaexperincia vivida, e esse caminho precisa ser visualizado para que o indagantese d conta do solo histrico e cultural em que est se movendo. A experinciavivida constitui-se de atos realizados. Os atos indicam aes que efetuamos,aes que vivenciamos. Deles falamos como experincias vividas. Notemosa expresso em termos de reflexividade, indicando um ato do qual nosdamos conta. (BICUDO, 2010, p. 30). Assim, dando-nos conta de atos deconscincia, foi possvel caminhar em direo explicitao da pergunta</p><p>2 Fenmeno significa o que se mostra.</p></li><li><p>28 Conjectura: Filos. Educ., Caxias do Sul, v. 18, n. 3, p. 24-40, set./dez. 2013</p><p>A questo de pesquisa sob a perspectiva da atitude fenomenolgica de investigao</p><p>que se punha no campo de nossas experincias prvias com modelagemmatemtica e com Educao Matemtica.</p><p>Heidegger (2002), ao discutir brevemente os aspectos pertencentes aoquestionamento, diz que este uma procura, a qual retira a direo prviado procurado. Enquanto questionamento acerca de, possui um questionadoe um interrogado que so distintos. No questionado reside, pois, operguntado, enquanto o que propriamente se intenciona, aquilo em que oquestionamento alcana a sua meta. (p. 30). Esses termos so significativose exigem clarificao para um melhor entendimento da fora que exercemem uma investigao fenomenolgica.</p><p>Retomando:1. o procurado aquilo que no totalmente desconhecido noquestionamento, mas que, de incio, inapreensvel;</p><p>2. o questionado o ser da questo a ser elaborada, o que determina oente como ente, como o ente j compreendido, em qualquer discussoque seja (p. 32);</p><p>3. o perguntado o sentido do ser com significado conceitual daquelesque permitem a determinao do ente.3 Na medida em que o serconstitui o questionado e ser diz sempre ser de um ente, o que resultacomo interrogado na questo do ser o prprio ente, este como queinterrogado em seu ser. (p. 32). Esse esclarecimento indica que, emtoda pergunta/questo, busca-se, transitivamente, o fenmeno que enlaado na percepo, como um procurado.</p><p>Sob esse entendimento, obtivemos a direo de nossa investigao,pois ela fez emergir um fio condutor que deveria conduzi-la.</p><p>Para exemplificar essa diferenciao conceitual no tocante ao fenmenomodelagem matemtica na Educao Matemtica, entendemos que a direoprvia da procura veio desse procurado na prpria pergunta que era recorrenteem nossa vida acadmica e profissional, uma vez que sempre se mostravamediante conceitos e prticas determinadas, ou seja, esse procurado era, atcerto ponto, conhecido na literatura disponvel e prticas efetuadas nocotidiano da Educao Matemtica. Porm, conhecido em uma</p><p>3 O ente aquilo com que temos contato, de modo dado em sua presena imediata. A nossafala, as falas, os comportamentos e ns mesmos.</p></li><li><p>Conjectura: Filos. Educ., Caxias do Sul, v. 18, n. 3, p. 24-40, set./dez. 2013 29</p><p>Maria Aparecida Viggiani Bicudo Tiago Emanuel Klber</p><p>imediaticidade emprica que expunha seu ente, oculta seu ser, entendidocomo o seu modo de ser, sendo em movimento o seu acontecer. Ou seja,no revelava o que da modelagem matemtica na Educao Matemtica.</p><p>Estando claro para ns o que estava oculto, a interrogao incidiusobre o modo de ser do ente modelagem matemtica na EducaoMatemtica, em seu sendo mediante diferentes manifestaes. Esseprocedimento se mostrou autntico, para ns, na medida em que brotou,cresceu e se manteve no ncleo das questes que para ns estavam,inicialmente, obscuras, no tendo vindo de leituras de textos que falam eteorizam sobre modelagem matemtica na Educao Matemtica.</p><p>Compreendidos tais significados, demo-nos conta de que haveria umnvel de compreenso a ser superado pelo movimento do perguntar autntico,pois o prprio ser do interrogado tende a se mostrar, conduzindo o quedeve ser perseguido. Heidegger (2002, p. 44), ao se referir anlise do ser-a, Dasein, traduzido como presena,4 afirma que nessa investigao nemse deve impor presena categorias delineadas por aquela idia (uma ideiaqualquer de ser). Ao contrrio, as modalidades de acesso e interpretaodevem ser escolhidas de modo que esse ente possa mostrar-se em si mesmoe por si mesmo. Essa citao reafirma um dos princpios da fenomenologia,ou seja, que na investigao no se parta de categorias ou referenciaispreestabelecidos.5 Est consonante, o afirmado acima, com a atitude que deveser assumida na investigao de todo fenmeno, ou seja, a de buscar o modomais apropriado, deixando que a coisa-mesma se revele desde si mesma. Husserl(1989, p. 55), ao se referir dvida de referenciais e conhecimentos fixadospreviamente, explicita que nessa destituio, fica alguma coisa, que tida comoevidncia imediata, isto : Toda a vivncia intelectiva e toda a vivncia emgeral, ao ser levada a cabo, pode fazer-se objeto de um puro ver e captar e, nestever, um dado absoluto. Est dada como um ente, como um isto-aqui (Dies-da) de cuja existncia no tem sentido algum duvidar. (1989, p. 55).</p><p>4 Presena no sinnimo nem de homem, nem de ser humano, nem de humanidade, emboraconserve uma relao estrutural. Evoca o processo de constituio ontolgica de homem,ser humano e humanidade. na presena que o homem constri o seu modo de ser, a suaexistncia, a sua histria, etc. (cf. entrevista de Heidegger ao Der Spiegel, Rev. TempoBrasileiro, n. 50, jul./set. 1977). (HEIDEGGER, 2002, p. 309).</p><p>5 A seguinte anedota esclarece o sentido de no partir de um referencial preestabelecido: Osenhor que sai s 11 horas da noite para passear com seu cachorro na praa e perde aschaves. S h um poste de luz e ele comea a procurar as chaves ali, nas luzes. Passa outrosolitrio da noite e pergunta: O que o senhor est procurando? Estou procurando as chaves.O senhor sabe que as perdeu aqui? No, no sei se as perdi aqui, mas aqui tem luz, respondeo senhor. A investigao se fazia sempre assim. (STEIN, 2004, p. 43).</p></li><li><p>30 Conjectura: Filos. Educ., Caxias do Sul, v. 18, n. 3, p. 24-40, set./dez. 2013</p><p>A questo de pesquisa sob...</p></li></ul>