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1Bicudo do Algodoeiro: Identificao, Biologia, Amostragem e Tticas de Controle

ISSN 0100-6460

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Campina Grande, PBMaio, 2005

Autores

Bicudo do Algodoeiro: Identificao, Biologia,Amostragem e Tticas de Controle

Cristina Schetino BastosDSc. Eng Agr da Embrapa Algodo,Rua Osvaldo Cruz, 1143, Centenrio,

Campina Grande, PB, 58107-720,e-mail: cristina@cnpa.embrapa.br

Monica Josene B. PereiraDSc. Eng Agr Universidade do

Estado de Mato Grosso(UNEMAT),Tangar da Serra, MT

e-mail: monica@insecta.ufv.br

Evaldo Kazushi TakizawaEng Agr Consultoria Agronmica

Ceres, Primavera do Leste, MT,e-mail: e.takizawa@terra.com.br

Guilherme OhlEng Agr Consultoria Agronmica

Ceres, Primavera do Leste, MTe-mail: guiohl@uol.com.br,

Valmir Rodrigues de AquinoEng Agr Consultoria Agronmica

Ceres, Primavera do Leste, MTe-mail: v.aquino@terra.com.br

At a safra 2001/2002 oBrasil era considerado ostimo produtor dealgodo, algo quecorrespondia a cerca de3,68% da produomundial de algodo. Aprodutividade brasileiraentretanto, apresenta-seprxima quelasalcanadas pelosprincipais pases

produtores situando-se em torno de 1.045 Kg de algodo em pluma/ha.O Mato Grosso considerado o principal Estado produtor do pas etambm o que alcana as maiores produtividades (AMPA, 2004;CONAB, 2004).

Um dos fatores que limitam a expanso do algodoeiro no pas, so asperdas advindas do ataque de pragas. O algodoeiro uma culturaaltamente atacada, por uma ampla variedade de insetos-praga queocasionam perdas produo, alm de gerarem gastos adicionais paraseu controle. Dentre as pragas que infestam a cultura, existem aquelasdenominadas pragas indiretas (que atacam outras partes da planta queno aquela que ser comercializada) e as pragas diretas (que atacamdiretamente a estrutura que ser comercializada o fruto). Dependendoda severidade do ataque destas pragas diretas, perdas considerveis produo podem ser verificadas.

Uma das pragas diretas que possui um grande potencial causador deinjria cultura o bicudo do algodoeiro, Anthonomus grandis Boh.(Coleoptera: Curculionidae). Em regies altamente infestadas por estapraga e onde o controle adequado no realizado, o inseto podeinviabilizar o cultivo do algodoeiro a longo prazo.

A ocorrncia do bicudo do algodoeiro no Estado do Mato Grosso, naseveridade com que vem sendo constatada, relativamente recente.Segundo dados do INDEA, na safra 2001/2002 a distribuio do insetono Estado seguia o padro descrito na Figura 1, onde a poro laranja domapa corresponde a rea infestada [municpios de Alto Araguaia, AltoGaras, Barra do Garas, Cceres, Campo Novo do Parecis (FazendaSanta Isabel), Campo Verde, Cocalinho (parte infestada), Curvelndia,Dom Aquino, Guiratinga, Jaciara, Juscimeira, Mirassol DOeste, NovaXavantina, Pedra Preta, Pontes e Lacerda, Porto Esperedio, PortoEstrela, Poxoro, Primavera do Leste, Ribeirozinho, Rondonpolis,Santo Antnio do Leste, Tangar da Serra (parte infestada), Torixoro,

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2 Bicudo do Algodoeiro: Identificao, Biologia, Amostragem e Tticas de Controle

Vila Bela da Santssima Trindade], a parte amarela de proteo e a rea verde aquela em processo decaracterizao como livre do bicudo. Atualmente,com a disperso do inseto no estado a rea laranjapode ser ampliada, contribuindo para o agravamentodo problema. Outro fato que pode estar piorando asituao em relao ao ataque da praga, a falta deaes de parte da cadeia produtiva que vemsubestimando o potencial causador de injria doinseto, algo que muitas vezes anula ou limita asaes tomadas pela outra parcela do sistemaprodutivo. Apesar da existncia de uma legislaoespecfica (Anexo I), que regulamenta as aes aserem tomadas pelos produtores de algodo a fim deevitar o estabelecimento e disperso da praga naregio, boa parte dessas aes no so adotadas, ouquando implementadas, so realizadas tardiamente,quando seus efeitos sobre a praga j no so osmesmos caso as aes fossem tomadas no prazoprevisto.

Analisando-se o comportamento da praga em outrasregies de ocorrncia dentro ou fora do pas,compreende-se a magnitude do problema queestamos prestes a enfrentar. Sendo assim, esse momento de tcnicos repensarem suas aes eatuarem conscientizando os integrantes do sistemaprodutivo, para que a sustentabilidade da cultura noEstado no seja ameaada.

Portanto o objetivo deste documento fornecerinformaes bsicas sobre a identificao do bicudodo algodoeiro, aspectos de sua biologia, sistema de

amostragem e tticas de controle, visando subsidiaras aes de convvio com a praga.

2. Histrico de ocorrncia da praga nosEUA

Historicamente, existem registros de um tipo debicudo que atacava algodo antes de 1890. Umespcime adulto foi encontrado em algodo,Gossypium hirsutum L., em um fragmento de maoriunda de Oaxaca, Mxico, em escavaes datadasde 900 D.C. No existem registros do potencialcausador de injria do bicudo na literatura antes demeados de 1800. O bicudo do algodoeiro foi descritopor C. H. Boheman em 1843 como Anthonomusgrandis a partir de um adulto coletado entre 1831 e1835 e denominado Veracruz, sem hospedeiroregistrado.

J em 1893, agricultores do Sul do Texas relatarama existncia de uma nova praga do algodoeiro, epediram assistncia ao Departamento de Agriculturados Estados Unidos (USDA). O USDA enviou umentomologista para examinar as reas infestadas daregio e reas adjacentes, no Mxico. Os relatriosresultantes deste exame inicial enfatizavam que apraga em questo era o bicudo do algodoeiro, ealertavam para os riscos decorrentes da ampladisperso da praga pelas as reas de cultivo doalgodoeiro localizadas no Sul daquele pas.

O bicudo do algodoeiro j vinha ocasionando danosconsiderveis ao algodoeiro em algumas partes dolower rio grande valley, na poca em que foidetectado em 1892. Investigaes preliminaresdescreviam a rea infestada, histria de vida ehbitos do inseto, e sugeriam recomendaes paraseu controle que incluam a destruio de soqueirasao fim do cultivo (visando reduzir a populaomigrante), e a necessidade de se estabeleceremzonas sem o cultivo de algodo em torno da reainfestada, visando prevenir a expanso geogrficaadicional da praga. A medida que o bicudo doalgodoeiro se dispersou pelos algodoais dos EstadosUnidos, outras alternativas que permitissem oconvvio com a praga foram recomendadas. O USDAsugeria a destruio antecipada de soqueirasdurante o outono a fim de privar o inseto desuprimento alimentar e de stios de oviposio;foram desenvolvidos equipamentos para coleta deadultos; alguns agricultores buscaram alternativaspara tentar destruir a praga utilizando cinzas,calcrio, caldas como London purple, Paris green,alm de iscas contendo melao mais uma substnciatxica. Vrias comunidades do Texas promoveramcatao manual de bicudos, chegando a pagar-se 10a 50 centavos de dlar/100 bicudos capturados.

Fig. 1. reas de ocorrncia do bicudo do algodoeiro(Anthonomus grandis, Boh., Coleoptera: Curculionidae)no Estado do Mato Grosso.Fonte: Indea (2004)

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3Bicudo do Algodoeiro: Identificao, Biologia, Amostragem e Tticas de Controle

Muitos entomologistas acreditavam que o bicudo doalgodoeiro, eventualmente, alcanaria o norte dosEstados Unidos. Em 1903, foi implementado umplano visando estabelecer uma rea sem o cultivo dealgodo em torno do oeste da Louisiana. Nestapoca, 32% da regio do cotton belt dos EstadosUnidos j se encontrava infestada pela praga e obicudo do algodoeiro havia se tornado a principalpraga do algodo naquele pas. Em 1903, foramestabelecidos programas demonstrativosdirecionados aos agricultores visando fomentar aadoo de controle efetivo contra o bicudo doalgodoeiro, sendo que estes programaspossibilitaram, mais tarde, a gerao dos sistemasdesenvolvidos pelo Servio Cooperativo de Extenso,os quais so utilizados at hoje.

Em 1906, a disperso do bicudo do algodoeiroultrapassou o limite oeste do estado do Mississipi.Alguns entomologistas acreditavam que o RioMississipi representava uma barreira natural disperso do bicudo, porm em 1907 umentomologista do USDA descobriu que o bicudohavia suplantado esta barreira em vrios pontos. Em1922, foram encontradas populaes de bicudo emreas de produo de algodo localizadas no Nortedos Estados Unidos (como por exemplo no estado daVirginia).

Alguns autores relataram que aps 1894, o bicudodo algodoeiro aumentava sua faixa de ocorrncia emtorno de 40 a 160 milhas/ano, apesar de em muitoscasos, as condies predominantes de invernoocasionarem uma grande reduo na densidadepopulacional da praga. Em 1922, 87% da regio docotton belt, que contribua com 96% do total defibra produzida naquele local, estava infestada peloinseto.

A disperso do bicudo pelo Sul dos Estados Unidosocasionou uma desvalorizao das terras localizadasna regio. Muitas reas com tradio de cultivo, noconseguiram mais alcanar produtividadesemelhante quela obtida, antes da ocorrncia doinseto. Aps a disperso do bicudo para o Sul dosEstados Unidos, onde se concentravam reas dealtas produtividades, alguns centros de produodesapareceram, enquanto outros foram substitudospor novas reas. A medida que o inseto migrava emdireo ao Atlntico, os estados que se localizavama Leste da infestao se beneficiavam da reduzidaproduo de algodo nos estados do Centro-Sul. Aspores semi-ridas do Texas e de Oklahoma setornaram as maiores produtoras de algodo nestapoca, j que nestas reas o bicudo era menosdestrutivo, alm da cultura demandar menor

comprometimento de tempo e recursos para seucultivo. Aps a infestao generalizada das lavourasalgodoeiras localizadas no Sul dos Estados Unidos,muitas mudanas no sistema produtivo da culturaocorreram. Enquanto no Oeste do pas a presena desolos frteis e menores danos ocasionados pelobicudo em decorrncia do clima mais seco favoreciao cultivo, as menores temp