BENTO SOUZA BORGES - ? juventude e geraes, em estudos da rea da Administrao e em alguns

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLNDIA FACULDADE DE EDUCAO BENTO SOUZA BORGES JUVENTUDE, TRABALHO E EDUCAO SUPERIOR: a Gerao Y em anlise UBERLNDIA - MG 2014BENTO SOUZA BORGES JUVENTUDE, TRABALHO E EDUCAO SUPERIOR: a Gerao Y em anlise Tese apresentada ao Programa de Ps-Graduao em Educao da Universidade Federal de Uberlndia, como requisito parcial para obteno do ttulo de Doutor em Educao. Orientador: Prof. Dr. Robson Luiz de Frana UBERLNDIA - MG 2013BENTO SOUZA BORGES JUVENTUDE, TRABALHO E EDUCAO SUPERIOR: a Gerao Y em anlise Tese apresentada ao Programa de Ps-Graduao em Educao da Universidade Federal de Uberlndia como requisito parcial para obteno do ttulo de Doutor em Educao. Uberlndia, 14 de janeiro de 2014. Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP) Sistema de Bibliotecas da UFU, MG, Brasil. B732j 2014 Borges, Bento Souza, 1968- Juventude, trabalho e educao superior: a gerao y em anlise / Bento Souza Borges. -- 2014. 190p. : il. Orientador: Robson Luiz de Frana. Tese (doutorado) Universidade Federal de Uberlndia, Programa de Ps-Graduao em Educao. Inclui bibliografia. 1. Educao - Teses. 2. Ensino superior - Teses. 3. Docentes - Identidades e saberes Teses. I. Frana, Robson Luiz de. II. Universidade Federal de Uberlndia. Programa de Ps-Graduao em Educao. III. Ttulo. CDU: 37 AGRADECIMENTOS Obrigado Lenizia, minha esposa; luz que d fora e guia; Robson Luiz de Frana, pela orientao sempre segura, pelo apoio, pela fora e, acima de tudo, pela compreenso de minhas limitaes; Victor, Gabriel e Nicole, estrelinhas que do sentido minha existncia; Me e pai, que, mesmo no compreendendo bem pra que isso, sempre torceram, rezaram e fizeram muito por mim; Amigos do CESEC Zenith Campos, pelo apoio e pela compreenso, especialmente a Marlia, companheira de longas datas; Equipe da Secretaria Municipal de Educao, que me ajudou a segurar as pontas. Aos colegas de trabalho da FUCAMP, especialmente ao Professor MSc. Hber, Prof. Dr Tnia e Prof. Dr. Gustavo; Ao professor e amigo Edson Cunha; A todos os meus amigos que me desejaram e desejam sucesso nesta empreitada. RESUMO Borges, Bento Souza. Frana, Robson Luiz de; Juventude, trabalho e Educao Superior: a Gerao Y em anlise. Uberlndia, 2013. 200 p. Tese de Doutorado Programa de Ps-Graduao em Educao. Universidade Federal de Uberlndia. Hoje, no Brasil, cada vez mais comum o ingresso de jovens, cada vez mais novos, no Ensino Superior. Esses jovens trazem consigo uma srie de caractersticas bastante peculiares, que as geraes anteriores no possuam, causadas, em parte, pela Revoluo tecnolgica ocorrida a partir da dcada de 1970. Eles se desenvolveram em uma poca de grandes avanos tecnolgicos e de prosperidade econmica. Essa gerao, denominada Gerao Y, convive diariamente com pessoas de outras geraes no mercado de trabalho e na escola que, maioria das vezes, no tiveram ou no tm a mesma intimidade tecnolgica e no desenvolveram os mesmos hbitos dela. So jovens que cresceram vivendo em ao, estimulados por atividades, fazendo tarefas mltiplas. Os estudos que abordam temas relacionados questo geracional e, especificamente, sobre a Gerao Y, ainda apresentam algumas controvrsias como, por exemplo, o ano de nascimento para alguns, a partir de 1977; para outros, a partir de 1985 at seu comportamento uns descrevem-nos como bem comportados, trabalhadores em equipe e moralistas e outros, como egocntricos, superficiais e rebeldes. Alguns autores tratam esses jovens de nativos digitais e as pessoas de outras geraes anteriores de migrantes digitais. Diante de tantas mudanas no perfil desses jovens, natural que o ambiente escolar passe por modificaes para se adequar a essa nova era, a esse novo aluno e novo trabalhador. Considerando que esses jovens so, ao mesmo tempo, frutos desse tempo tecnolgico e agentes ativos desse processo de mudana, entendemos que tanto o ambiente escolar quanto o trabalho desenvolvido pelo professor est passando por transformaes profundas para atender a um pblico com caractersticas to distintas. Assim sendo, este texto tem como objetivo ampliar o debate sobre a Gerao Y e analisar as influncias da Revoluo Tecnolgica ocorrida a partir dos anos 1970 para esses jovens nas relaes de trabalho e, sobretudo, no ambiente escolar e no trabalho docente. Para isso, buscou-se embasamento em algumas teorias do trabalho, em estudos sobre juventude e geraes, em estudos da rea da Administrao e em alguns tericos da rea da Educao Superior, sempre considerando aspectos filosficos, sociolgicos e didticos para a anlise dessa gerao. Por meio de uma pesquisa bibliogrfica, o que percebemos que as mudanas ocorridas no mundo em funo da evoluo tecnolgica e da globalizao influenciaram em muito as caractersticas, os ideais e o comportamento dos jovens e isso se reflete diretamente na escola. O professor precisa conhecer como essa nova gerao pensa e age e, depois, buscar novas prticas de ensino que estejam em consonncia com esse pblico. O que no podemos deixar de entender que as mudanas trazidas pela chegada da Gerao Y no so passageiras. medida que mais e mais jovens chegam idade escolar e, posteriormente, ao mercado de trabalho e assumem cargos de liderana, as escolas e empresas precisaro adaptar-se a essa gerao vibrante, conectada e inquieta. Palavras-chave: Geraes. Gerao Y. Educao. Trabalho docente. ABSTRACT Borges, Bento Souza. Frana, Robson Luiz de. Juventude, trabalho e Educao Superior: a Gerao Y em anlise. Uberlndia, 2013. 200 p. Tese de doutorado Programa de Ps-Graduao em Educao. Universidade Federal de Uberlndia. Nowadays, it is increasingly common the inflow of youngsters of a very low age into college education in Brazil. These young people bring with them a number of very peculiar characteristics which previous generations did not have, caused in part by the technological revolution starting in the 1970s. They grew up at a time of great technological advancement and economic prosperity. This new Generation, known as Generation Y, leads an everyday life with people from other generations in the workplace and at school. Most of the time, the previous generations did not have or still do not have the same technological intimacy and did not develop the same habits of Generation Y, that grew up among hectic action, being stimulated by various activities and performing multiple tasks. The studies which approach issues related to generational matter and specifically Generation Y does have some controversies such as the starting point, for some, since 1977, for others since 1985. As to Generation Y behavior, some describe them as well-behaved, team workers and ethicists and others as self-centered, superficial and rebels. Some authors refer to these youngsters as digital natives, and to people of other previous generations as digital migrants. With so many changes in the profile of these young people, it is natural that the school environment has to undergo some modifications to adapt to this new era: new student and new worker. Considering that these young people are at the same time fruit of this technological time and active agents of this process of change, we understand that both the school environment and the work carried out by the teacher is undergoing profound transformations to meet the needs of a new public with such distinctive features. Thus, this paper aims to broaden the debate about Generation Y and assess the influences of the Technological Revolution occurred on these young people in labor relations, and especially in the school environment and on the teaching work. To achieve that, we sought some grounding in theories of work and in studies on youth and generations and management, and some theorists in the area of college education, always taking into account the philosophical, sociological and educational aspects to analyze this Generation. Through a bibliographic research, we realized that changes in the world regarding technological developments and globalization have influenced much the character, ideals and behavior of the young people and this is directly reflected in school. The teacher needs to know how this new Generation thinks and acts, and then seek new teaching practices that are consistent with this audience. What we cannot fail to understand is that the changes brought about by the arrival of Generation Y are not passing. As more and more young people come to school age and later to the labor market and assume leadership positions, the schools and enterprises need to adapt themselves to this vibrantly connected and restless Generation. Key-words: Generations. Generation Y. Education. Teaching work. LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 Representao visual: coletivismo x individualismo................................. 81 GRFICO 1 Atividades de lazer desenvolvidas online nas ltimas 24 horas nos Estados Unidos. ..................................................................................... 98 LISTA DE QUADROS E TABELAS QUADRO 1 Cinco revolues tecnolgicas sucessivas ............................................ 30 TABELA 1 Resultados de busca no Google sobre Gerao Y .................................. 69 TABELA 2 Relao das classificaes de geraes ................................................. 83 QUADRO 2 Gerao Y Infncia e adolescncia .................................................... 96 QUADRO 3 Trabalhos sobre Gerao Y no Brasil .................................................. 106 QUADRO 4 Caractersticas e desafios do Sculo XXI ............................................ 114 LISTA DE ABREVIATURAS E DE SIGLAS CTS Cincia, Tecnologia e Sociedade) DORT Doenas Osteomusculares Relacionadas ao Trabalho EAD Ensino a distncia ENADE Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes GTA Grand Theft Auto IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica INEP Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Ansio Teixeira LDB Lei de Diretrizes e Bases da Educao Nacional OCDE Organizao para a Cooperao e Desenvolvimento Econmico OIT Organizao Internacional do Trabalho PNAD Pesquisa Nacional por Amostra de Domiclios QI quociente de inteligncia SEE Secretaria de Estado de Educao SUMRIO 1. INTRODUO ............................................................................................. 12 1.1 Consideraes iniciais .................................................................................... 12 1.2 Relevncia do estudo ...................................................................................... 15 1.3 Problematizao ............................................................................................. 18 1.4 Objetivos ......................................................................................................... 23 1.4.1 Objetivo geral ......................................................................................... 23 1.4.2 Objetivos especficos ............................................................................. 23 1.5 Metodologia ..................................................................................................... 24 1.6 O texto............................................................................................................. 25 CAPTULO II IMPACTOS SOCIAIS, POLTICOS E ECONMICOS PROVOCADOS PELA REVOLUO TECNOLGICA A PARTIR DE 1970 .......... 27 2.1 Redefinio do conceito de trabalho a partir do avano da tecnologia ........... 33 2.2 Novas formas de explorao da mo de obra na era da tecnologia ............... 38 2.3 Consideraes para o futuro do trabalho no sculo XXI ................................. 41 2.4 A influncia da Gerao Y no conceito de trabalho e no processo ensino-aprendizagem ............................................................................................... 53 CAPTULO III TEORIA DOS HABITUS: A SOCIALIZAO E INDIVIDUALIZAO DOS SUJEITOS NO MUNDO DO TRABALHO A PARTIR DA REVOLUO TECNOLGICA ............................................................ 57 3.1 Consideraes sobre a teoria do habitus de Pierre Bourdieu ......................... 57 3.2 O trabalho docente a partir das novas formas de socializao e individualizao dos sujeitos ........................................................................ 62 CAPTULO IV NOVOS TEMPOS, NOVAS GERAES E MUITOS DESAFIOS .... 68 4.1 Gerao e Gerao Y: desafios de conceituao ........................................... 69 4.1.1 Gerao ................................................................................................. 70 4.1.1.1 Karl Mannheim: conceito sociolgico de gerao ........................... 73 4.1.1.2 Strauss e Howe e sua Teoria das Geraes .................................. 76 4.2 Individualismo e coletivismo na caracterizao da Gerao Y ........................ 78 4.3 As geraes anteriores Y ............................................................................. 82 4.3.1 Gerao belle poque/ tradicionalistas .................................................. 84 4.3.2 Baby Boomers ....................................................................................... 85 4.3.3 Gerao X .............................................................................................. 88 4.4 Gerao Y: delimitaes ................................................................................. 89 4.5 Gerao Y ....................................................................................................... 91 4.5.1 Gerao Y: do nascimento escola ...................................................... 95 4.5.2 Gerao Y e Tecnologia ........................................................................ 97 4.5.3 Gerao Y no trabalho ........................................................................... 99 4.6 Geraes brasileiras ..................................................................................... 103 4.7 A literatura sobre Gerao Y no Brasil .......................................................... 106 CAPTULO V A GERAO Y NO ENSINO SUPERIOR: DESAFIOS PARA AS ESCOLAS E PARA OS PROFESSORES .............................................................. 109 5.1 Educao para novas geraes .................................................................... 112 5.2 O desafio da profissionalizao dos jovens .................................................. 117 5.3 Novas geraes, novos padres e novos desafios de aprendizagem /ensinagem em sala de aula ....................................................................... 121 4.3. Alunos digitais versus migrantes digitais no ambiente escolar ..................... 127 5.4 O professor para alunos da Gerao Y ......................................................... 131 CONSIDERAES FINAIS .................................................................................... 136 REFERNCIAS ....................................................................................................... 141 1. INTRODUO 1.1 Consideraes iniciais A Educao Superior no Brasil, assim como no resto do mundo, tem-se tornado uma realidade para um nmero cada vez maior de alunos, principalmente nas ltimas dcadas. Segundo o Censo da Educao Superior divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Ansio Teixeira (INEP) em 2008, 1.936.078 novos alunos ingressaram no Ensino Superior, 8,5% a mais em relao a 2007. No total, o nmero de matrculas em 2008 foi 10,6% maior em relao a 2007, com um total de 5.808.017 alunos matriculados em cursos de Graduao presencial e a distncia. Segundo estudos da Hoper Educacional (2011), os fatores que mais contriburam para a expanso do setor universitrio foram a flexibilizao das regras para a abertura de cursos e instituies, ocorrida no Governo Fernando Henrique Cardoso, a regularizao da lei que permitiu a existncia de instituies de Ensino Superior constitudas de empresas com finalidades lucrativas, a existncia de enorme demanda reprimida entre os anos de 1996 e 2002, a universalizao do Ensino Fundamental, com o consequente crescimento do Ensino Mdio e retorno aos estudos de boa parte das pessoas oriundas da populao economicamente ativa, que j haviam concludo o Ensino Mdio h cinco anos ou mais. Nesse contexto, o acesso dos jovens com faixa etria cada vez menor ao Ensino Superior tende a aumentar, j que as propostas governamentais de democratizao do Ensino Mdio j acontecem h algum tempo. De fato, os dados mostram que na faixa etria de quinze a dezessete anos (na qual, teoricamente, os jovens deveriam estar cursando o Ensino Mdio) a cobertura escolar tem aumentado: segundo o MEC/INEP, 50,9% dos adolescentes nessa faixa etria estavam no Ensino Mdio em 2009. Esses nmeros demonstram um avano j que, em 1999, apenas 32,7% desses jovens estavam matriculados. Dessa forma, a reduo da faixa etria dos ingressantes no Ensino Superior j uma realidade em muitas instituies. Esses alunos, cada vez mais jovens, trazem consigo algumas caractersticas sociais e comportamentais bastante 13 peculiares. Segundo Oliveira, Piccinini e Bitencourt (2011), esses jovens tm um perfil homogneo. So contemporneos da revoluo digital e especialistas em lidar com tecnologia. Usam mdias sociais com facilidade, sabem trabalhar em rede e esto sempre conectados. Alm disso, preocupam-se com o mercado de trabalho altamente competitivo e buscam intensamente a formao superior e o ingresso na carreira pblica como passaporte para a estabilidade profissional. So altamente tecnolgicos, tm uma relao com a comunicao diferente das geraes anteriores. So pessoas que conseguem ver televiso, trabalhar e conversar utilizando um computador enquanto ouvem msica. Esses jovens, em sua grande maioria nascidos na dcada de 1990, na Sociologia so conhecidos como Gerao Y, tambm conhecida como Milleniun ou NET (Tapscot, 1998). Para fins de direcionamento da pesquisa, aqui trataremos como Gerao Y. A proposta deste estudo teve incio com um projeto de pesquisa apresentado no processo seletivo do Programa de Ps-Graduao em Educao da Universidade Federal de Uberlndia na linha de pesquisa Trabalho, Sociedade e Educao, no ano de 2011. O ttulo do projeto era: O novo perfil do aluno dos cursos superiores e suas influncias na prtica docente. O objetivo principal enunciado no referido projeto era o de analisar a mudana do perfil do aluno universitrio e as mudanas experimentadas pelo trabalho docente em sala de aula em funo das caractersticas desse novo pblico. Para isso, esta investigao buscaria traar o perfil do aluno ingressante na universidade hoje, especificamente o da chamada Gerao Y, analisando o que sabem os professores a respeito desses alunos com quem lidam e em que aspectos as especificidades deles tm influenciado a prtica docente em sala de aula. Alm disso, era inteno apontar direes para que o docente pudesse desenvolver um trabalho que atendesse s caractersticas desses discentes e s instituies para que, em conjunto, atendessem aos critrios de avaliao dos cursos superiores propostos pelos rgos governamentais responsveis por esse nvel de ensino. O universo da pesquisa seriam alunos dos cursos de licenciatura de uma faculdade em Monte Carmelo. No entanto, essa primeira proposta de investigao tomou alguns novos direcionamentos, a partir da participao em algumas disciplinas do Programa de Ps Graduao da Universidade Federal de Uberlndia, da leitura e aprofundamento em alguns autores, bem como dos dilogos com o orientador (Prof. Dr. Robson 14 Frana). Tudo isto serviu como base para o redirecionamento do ncleo central da pesquisa e da reflexo inicialmente apresentada. O ponto inicial para esse redirecionamento foi o fato de que os alunos dos cursos de licenciatura com os quais pretendamos coletar dados para a realizao da presente pesquisa apresentam um perfil diferente, a comear pelo motivo da escolha da profisso, passando pela valorizao e status conferido profissionalmente e chegando s condies de trabalho. Gatti et al. (2009), em pesquisa para a Fundao Vitor Civita, afirmam que a docncia at aparece no rol da escolha profissional em um primeiro momento. Segundo esse estudo, 32% dos estudantes entrevistados cogitaram ser professores em algum momento da deciso. Mas, afastados por fatores como a baixa remunerao (citado nas respostas por 40% dos que consideraram a carreira), a desvalorizao social da profisso e o desinteresse e o desrespeito dos alunos (ambos mencionados por 17%), priorizaram outras graduaes. O resultado que, enquanto Medicina e Engenharia lideram as listas de cursos mais procurados, os relativos Educao aparecem bem abaixo. Gatti (2009) comentando essa pesquisa, afirma que esses dados evidenciam que a profisso tende a ser procurada por jovens da rede pblica de ensino, que, em geral, pertencem a nichos sociais menos favorecidos. De fato, entre os entrevistados que optaram pela docncia, 87% so da escola pblica. E a maioria (77%), mulheres. Esse perfil bastante semelhante ao dos atuais estudantes de Pedagogia. De acordo com o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) de Pedagogia, 80% dos alunos cursaram o Ensino Mdio em escola pblica e 92% so mulheres. Alm disso, metade vem de famlias cujos pais tm, no mximo, a quarta srie, 75% trabalham durante a faculdade e 45% declararam conhecimento praticamente nulo de Ingls. Louzano (2011) ainda apresenta um dado mais preocupante. Segundo a autora, 30% dos futuros professores so recrutados entre os alunos com piores notas no Ensino Mdio. Dessa forma, conclumos que, nos cursos de licenciatura seria mais difcil perceber as especificidades prprias do aluno da Gerao Y, j que, por suas caractersticas, so alunos que no se encaixam no perfil apresentado por Gatti (2010) e por Louzano (2011) e, assim, descartamos a possibilidade de coletar dados juntos a esses alunos. natural que o trabalho docente no seja a primeira opo 15 do aluno da Gerao Y e que ele no se sinta atrado pela carreira. Segundo descrio da literatura que trata sobre o tema (HOWE; STRAUSS,2000; OLIVEIRA, 2010; VALENTE, 2011) esse aluno tem, entre outras caractersticas, autoestima bastante elevada, no se sujeitam a tarefas subalternas em incio de carreira e lutam por salrios ambiciosos desde cedo. Sendo assim, sabedores de que seus anseios profissionais no sero facilmente satisfeitos na carreira docente, optam por outras funes mais adequadas ao seu perfil. Dessa forma, novas hipteses comearam a se delinear com maior nitidez e, sob esse novo olhar, comeamos a perceber que o reflexo das caractersticas da Gerao Y no seria percebido na sua totalidade nos cursos de licenciatura. As leituras realizadas apontavam constantes transformaes em vrios setores da sociedade advindas da mudana do perfil do jovem e do mercado de trabalho, aliado ao da Educao, um desses setores, afetado principalmente pelo avano das novas tecnologias e por um pblico jovem - Gerao Y, que nasceu e cresceu em contato com essa parafernlia tecnolgica e tem ditado novas formas de organizao do trabalho, nas relaes sociais e nas formas de comunicao e nas formas de se ensinar. 1.2 Relevncia do estudo O interesse pelo tema surgiu em casa. Convivendo com dois adolescentes em casa, um de dezoito e outro de dezenove anos, possvel perceber algumas caractersticas bastante peculiares desses jovens. Trancados em seus quartos, com um fone de ouvido conectado a um dispositivo eletrnico reprodutor de msica, falando ao celular, com vrios links (ligao entre documentos na internet, ou seja no maior conglomerado de redes de comunicaes em escala mundial, ou ainda, vrios computadores e dispositivos conectados a uma rede mundial) abertos em seu microcomputador, jogando com vrias pessoas em torno do mundo, muitas vezes com a televiso ligada e falando com vrios amigos virtuais, esses filhos tm-nos forado a uma srie de mudanas no tratamento e convvio familiar. Na escola no diferente. Convivendo com vrios desses jovens na escola pode-se constatar, ainda empiricamente, uma postura bastante peculiar e frequentemente distante daquela 16 sonhada pelos docentes. Em sala de aula, onde no possvel fazer muita coisa, acham absurdo no poder ouvir mp3, ou usar o celular durante uma aula. perceptvel o quanto esses alunos valorizam o nvel de atualizao das informaes e, assim, utilizar vdeos em sala de aula, por exemplo, como recurso de apoio pedaggico j no o bastante; preciso que esteja claro que as informaes presentes no vdeo so as mais recentes. Esses jovens sabem um pouco de muita coisa e essa falta de aprofundamento um fator dificultador do trabalho docente. Odeiam quando lhes pedida a leitura de um texto jornalstico impresso, por exemplo; esses alunos pedem retornos constantes e querem resultados imediatos. Caso achem que no esto evoluindo em determinado contedo ou assunto, logo desanimam e so restritivos aos temas que no lhes agradam; no fazem cerimnia alguma para emitir julgamentos de seus professores. So individualistas, mas no necessariamente egostas. Costumam ser empticos, pois esto habituados vida em comunidade ainda que seja a virtual. Entender essas caractersticas do comportamento dos alunos em sala de aula um desafio para as instituies e tambm para os professores. Esse comportamento tambm se reflete no ambiente familiar e no mercado de trabalho no qual, ao ingressarem, mostram-se profissionais diferentes daqueles de outras geraes e isso tem forado as empresas a mudarem suas prticas. Definitivamente, esse no um tema novo, no entanto, difere de outras grandes mudanas ocorridas no passado, visto que, ao final da primeira dcada do terceiro milnio, a atual gerao de adolescentes carrega caractersticas bastante diferenciadas e peculiares de uma gerao imersa, desde o nascimento, em uma avanada expanso tecnolgica cujos efeitos so amplos e imprevisveis e, por isso mesmo, abre-se a um campo frtil para pesquisas e anlises sob as mais variadas nuances. A vivncia dessa mudana em sala de aula o ponto-chave que justifica a opo por direcionar a tica desta pesquisa para esse novo aluno e as transformaes que ele tem imposto aos professores na atividade docente. Nesse contexto, preciso reconhecer a urgncia em discutir esses novos aspectos da Educao Superior e, especificamente, seja considerado esse novo perfil de aluno para a tomada de decises, formulao de polticas educacionais para o Ensino Superior e, principalmente, para direcionar o trabalho dos docentes, j que, segundo Pastore (1977, p. 26), esse o mais precioso recurso de uma instituio de Ensino Superior. No h como continuar pensando uma universidade 17 para uma minoria idealizada, enquanto, nas salas de aula, a maioria absoluta composta de alunos com caractersticas comportamentais e necessidades de atendimento bastante especficas. H que buscar potencialidades nessa nova demanda, para que ela possa ser devidamente estimulada e atendida. Pimenta (2008) afirma que, muitas vezes, as caractersticas reais dos alunos do Ensino Superior no so objeto de preocupao do professor que, ao entrar na sala de aula, j os identifica como futuros profissionais da rea ou espera que eles tenham um comportamento compatvel com as lembranas que o docente guarda de si, de quando era um jovem universitrio, ou de seu grupo daquele perodo. Assim, normalmente, tem-se do docente uma expectativa muito elevada em relao ao desempenho de seus alunos e por isso que, no raramente, se decepciona. Considerando os aspectos at aqui abordados, pode-se concluir que o professor universitrio, hoje, atuar em um sistema bastante complexo de Ensino Superior, envolvendo diferentes instituies, tipos de cursos e uma clientela com caractersticas bastante peculiares. Dessa forma, ele precisa estar preparado para trabalhar com o novo perfil de alunos que chegam ao Ensino Superior, sem se esquecer do perfil do aluno que sair dali e entender como pensa esse grupo de fundamental importncia para quem presta servios a esse pblico, principalmente no caso do Ensino Superior ao qual esto chegando agora. Assim, necessrio que esse professor conhea essa realidade, saiba entend-la e analis-la, ou seja, torna-se necessrio que o professor desenvolva estratgias que permitam a reflexo sobre sua prtica docente e o contexto mais amplo no qual ela se acha inserida. Alm das transformaes impostas por esses jovens no ambiente escolar, h que se destacarem as transformaes nos processos produtivos, o trabalho flexibilizado, declnio dos modos de produo taylorista-fordista1 e sua substituio ou mescla com toyotismo2, entre outras. 1 Taylorismo e fordismo: nomes dados s formas de organizao da produo industrial que revolucionaram o trabalho fabril durante o sculo XX. Esses dois sistemas visavam maximizao da produo e do lucro. Referncia Frederick Winslow Taylor (1856 1915) e Henry Ford (1863-1947). (GIDDENS, 2004) 2 Toyotismo: modo de organizao da produo capitalista originrio do Japo. O toyotismo foi criado na fbrica da Toyota no Japo (dando origem ao nome) aps a Segunda Guerra Mundial, elaborado pelo japons Taiichi Ohno e que foi caracterizado como filosofia orgnica da produo industrial (modelo japons), adquirindo uma projeo global (GIDDENS, 2004). http://pt.wikipedia.org/wiki/Jap%C3%A3ohttp://pt.wikipedia.org/wiki/Toyotahttp://pt.wikipedia.org/wiki/Segunda_Guerra_Mundialhttp://pt.wikipedia.org/wiki/Segunda_Guerra_Mundialhttp://pt.wikipedia.org/wiki/Taiichi_Ohno18 Essas modificaes alcanaram no somente a esfera material e objetiva, mas tambm a subjetiva, afetando a forma de ser dos trabalhadores (ANTUNES, 2000). Dessa forma, estabelece-se uma relao de mo dupla em que os jovens foram mudanas no mundo do trabalho a partir de suas caractersticas e, ao mesmo tempo, so forados a mudanas advindas das transformaes pelas quais o trabalho passa. A partir da, alm de autores que tratam especificamente do tema geraes e de autores que tratam da rotina docente e da formao do professor, passaram a fazer parte deste estudo textos e autores que tratam questes relacionadas ao mercado de trabalho, para, em sequncia, situar a Gerao Y nesse contexto. Para isso buscamos fundamentos tericos em autores que fundamentam a compreenso das determinaes sociais passadas e presentes da ordem social capitalista. Tambm debruamo-nos sobre a obra de alguns tericos contemporneos da Educao, que buscaram inspirao nas obras de Marx, como Gaudncio Frigotto e Ricardo Antunes (2002), por exemplo. 1.3 Problematizao Em que aspectos o jovem integrante da Gerao Y tem alterado o mercado de trabalho e, especificamente o trabalho do professor no Ensino Superior? Essa a indagao principal a que essa pesquisa busca responder. A partir da leitura de vrios autores ligados Sociologia, Filosofia, Formao de Professores, ao Capitalismo e s Questes Geracionais, algumas outras questes comearam a tomar corpo e ampliaram o foco desta pesquisa como: Qual a percepo dos jovens da Gerao Y sobre trabalho e em que aspectos essa percepo difere das de outras geraes como as dos jovens Baby Boomers, X e Z? Como os jovens da Gerao Y relacionam sua formao acadmica com o mercado de trabalho? Que caractersticas os jovens da Gerao Y possuem e como eles se percebem no mercado de trabalho? O que muda no trabalho docente em funo desses novos alunos que esto chegando Universidade? Diante de todas essas questes, o tema da pesquisa foi direcionado e passou a integrar trs eixos de anlise sendo a juventude/Gerao Y, o trabalho e a Educao/trabalho docente. 19 Cabe esclarecer que h uma srie de concepes sobre a formao da adolescncia e juventude, umas mais cronolgicas/biolgicas, outras mais sociais. Segundo Raitz (2003), h uma diversidade bibliogrfica produzida por diversas reas do conhecimento, sobre a temtica da juventude, principalmente desde a dcada de 1990 do sculo passado. Ainda segundo a autora, apesar da multiplicidade de olhares para o tema, ainda existem muitos conhecimentos a serem apreendidos, tendo em vista a impreciso dos conceitos de adolescncia e de juventude, quando singularizados. Assim sendo, nesse estudo, buscaremos considerar que o jovem no algo por natureza (AGUIAR; BOCK; OZELLA, 2007, p. 168) e, sim, fruto de uma construo humana, assumindo diferentes caractersticas de acordo com o contexto social. Urresti (2000) considera que as juventudes no so susceptveis de comparao, pois viveram em pocas histricas diferentes, tm definidos seus conflitos e vivncia social de maneira tambm diferente. No entanto, como objetivo desta pesquisa, mais que comparar geraes, buscamos entre outras coisas, comparar a sociedade atual e, especialmente a escola, na qual convivem diferentes geraes e de que forma essas diferenas ditam as mudanas. Algumas pesquisas, como as de Souza (2006), Carmo (2001) e Costa (2007), que discutem temas relacionados aos jovens e buscam apresentar o conceito dessa categoria social e isso nem sempre fcil, como observa Frigotto (2004, p. 180), que, ao tratar de questes relativas juventude, trabalho e Educao, afirma que Essa complexidade e essa controvrsia tem incio com a dificuldade de se ter um conceito unvoco de juventude, por razes tanto histricas quanto sociais e culturais. Assim sendo, natural que as pesquisas sobre esse tema recebam influncias contextuais, considerando o momento histrico em que se vive. Os jovens precisam ser considerados como sujeitos histricos sociais e, consequentemente, as anlises e as produes sobre essa temtica no podem manter-se estticas, precisam acompanhar essas transformaes. Sobre isso Sposito (1997, p. 37), fazendo referncia juventude, afirma que a prpria definio da categoria [...] encerra um problema sociolgico, passvel de investigao, na medida em que os critrios que a constituem como sujeitos so 20 histricos e culturais. Assim, para cada juventude, haver um olhar diferente e consequentemente teorias diferentes. Diante dessa diversidade de olhares para o mesmo objeto, consideraremos nesse texto, aos nos referirmos ao jovem da Gerao Y, a corrente geracional citada na obra Culturas Juvenis (PAIS, 1993). Essa corrente, segundo o autor, tem uma longa tradio na Sociologia da juventude e considera esse grupo como indivduos pertencentes a uma dada fase de vida, que marca a sada da infncia at o ingresso da vida adulta, prevalecendo o reconhecimento da sua especificidade a partir da busca dos aspectos mais uniformes e homogneos que a caracterizam. Consideraremos tambm a viso adotada por Carrano (2000, p. 12), quando afirma que o mais adequado compreender a juventude como uma complexidade varivel [...] a partir da prpria realidade dos jovens que se distinguem por seus modos de existir em determinados tempos e espaos sociais. Compem agregados sociais com caractersticas continuamente flutuantes. Assim, consideramos o jovem no apenas como um elemento da diversidade, mas que contm unidade e diversidade, j que os jovens vivem realidades sociais bastante diversas e constroem identidades tambm individuais e coletivas distintas. nesse vis, com esse olhar para o jovem, que se pauta o presente estudo. Para tratar do conceito de trabalho, importante tratar tambm do processo de escolhas profissionais. Elas compem nossa subjetividade, nosso mundo interno a partir de nossa interao com o mundo externo. Pensando a subjetividade como um processo contnuo e dinmico, essa concepo nos distancia da crena de que o indivduo aquilo para o qual nasceu, para o qual tem vocao e nos leva a desacreditar que nascemos como uma tbula rasa conforme anunciava o filsofo John Locke. Assim sendo, deparamo-nos com o fato de que, nos ltimos anos, temos presenciado mudanas fsicas e organizacionais nos diferentes espaos, ao lado de transformaes na estrutura do emprego. Lobato (2003) afirma Talvez o fenmeno mais marcante que se observa em relao a essas transformaes no mercado de trabalho se refira desestruturao das profisses, enquanto espaos ocupacionais bem delimitados, com firme definio de campo de atuao e de procedimentos prticos (LOBATO, 2003, p. 49). 21 No entanto, segundo Harvey (1996), essas mudanas no atingiram igualmente todos os indivduos, setores, regies. At mesmo em um nico espao de trabalho possvel encontrar um tipo de organizao taylorista-fordista convivendo ao lado de novas tecnologias e de formas organizacionais. Procurando evidenciar a percepo que a Gerao Y tem de trabalho e, especificamente de trabalho docente e procurando conhecer os impactos desses alunos na Educao, esse estudo estendeu seu olhar para jovens entre 18 e 25 anos matriculados no Ensino Superior. A escolha pelos jovens encontra significado nas palavras de Peralva (1997) quando afirma que Enquanto o adulto vive sob o impacto de um modelo de sociedade que se decompe, jovem ainda vive em um mundo radicalmente novo, cujas categorias de inteligibilidade ele ajuda a construir. Interrogar essas categorias permite no somente uma melhor compreenso do universo de referncias de um grupo etrio particular, como tambm da nova sociedade transformada pela mutao (PERALVA, 1997, p. 23). Sendo assim, este estudo tem o jovem como sujeito produtor de mudanas na sociedade e, ao mesmo tempo, fruto dessas mudanas, entre as quais o conceito e a percepo sobre o trabalho e o trabalho docente. Nesse contexto, no h como tratar de juventude e trabalho sem discutir aspectos relacionados Educao dos jovens. Dessa forma, esta investigao trata tambm do impacto que essa gerao tem causado na Educao, especificamente no que se refere prtica docente, j que, conforme dados do censo escolar, o nmero de ingressantes tem aumentado e cada vez mais esses ingressantes entram mais jovens para a universidade. Esses jovens, cada vez mais novos, trazem especificidades comuns ao grupo, que influenciam diretamente a relao professor/aluno em sala de aula, o que, de certa forma, fora o docente a rever sua prtica diria. Sobre a postura do professor, Masetto (1992) afirma: Nosso comportamento tradicional de especialistas em um assunto, comunicando nossos conhecimentos a um grupo de alunos, se no ignorantes, pelo menos considerados totalmente desprovidos de conhecimento na rea, exige profunda reviso. As pesquisas mostraram que uma postura educacional alm de uma postura meramente informativa fundamental para se alterar o status quo de nossas salas de aula (MASETTO, 1992, p. 97). Com esse novo aluno, necessrio que a escola redimensione o papel dos professores e, consequentemente, toda a estrutura de sua formao. Zabalza (2004) 22 chama os novos procedimentos docentes de coreografias. O autor usa o termo e explica que esses procedimentos no dizem respeito apenas aplicao de renovadas metodologias, estratgias diferenciadas, contedos, tomados, cada um isoladamente: tudo isso e muitos outros movimentos, executados em sintonia, tal qual uma dana, exigindo dos professores capacidade tcnica, observao do outro, relacionamento e outras habilidades. Segundo o autor, a capacidade profissional docente implica competncias docentes, em formao contnua, sobretudo, em profissionalizao docente. Dessa forma, segundo o autor, o professor tem que ser um profissional diferenciado. O autor incisivo ao afirmar que, para esse profissional, no basta apenas gostar de pessoas. Sendo assim, imprescindvel para a instituio e para os docentes identificar quem so os alunos com quem se lida diariamente, quem so esses sujeitos que participam do projeto da instituio. A esse respeito, Pimenta e Anastasiou (2008) afirmam: Se se tem como proposta um processo de ensinagem, tomar o aluno como sujeito desse processo fundamental para que construa como sujeito. Para isso, h que elaborar, analisar, tambm com os alunos, instrumentos que permitam caracterizar o grupo em termos de origem geogrfica e social, experincias anteriores de escolarizao, faixa etria, turno diurno ou noturno, trabalhador ou estudante, insero profissional, significado dessa na vida presente e futura, tempo livre; descobrir e analisar os motivos que os levaram ao curso, expectativas quanto a ele e disciplina, a forma pela qual operacionalizam suas prprias aprendizagens (hbitos de estudo), o nvel de conhecimento que possuem, habilidades que dominam e outros dados que sejam importantes para a compreenso da pessoa de cada aluno e das caractersticas dessa gerao universitria com quem se partilha a sala de aula (PIMENTA; ANASTASIOU, 2008, pp. 232, 233). As autoras ainda apontam que questes amplamente discutidas em corredores universitrios, salas de professores, conselhos de classe como desinteresse de alunos, falta de comprometimento, passividade, individualismo e outros so comportamentos e aes inseridas em um contexto social. Sua lgica dominante que muitas vezes adotada pelas prprias instituies e as estrutura a de considerar o aluno como cliente, que ali est pagando por um produto, sendo a funo do professor tornar esse produto atraente, em uma situao em que o importante o certificado e no, necessariamente, a qualidade das aprendizagens. 23 A partir da apresentao do tema, problema e dos objetivos anteriormente justificados, partimos para a definio dos procedimentos metodolgicos que do suporte para a pesquisa e para a construo da tese, tendo sempre em mente que o conhecimento cientfico sempre uma busca de articulao entre uma teoria e a realidade emprica; o mtodo o fio condutor para se formular a articulao. O mtodo tem, pois, uma funo fundamental: alm do seu papel instrumental, a prpria alma do contedo, o prprio caminho do pensamento (HABERMAS, 1987). 1.4 Objetivos 1.4.1 Objetivo geral Esta investigao tem como objetivo ampliar o debate sobre a Gerao Y considerando o universo do trabalho e o educacional. 1.4.2 Objetivos especficos Especificamente, objetivamos discutir a redefinio do conceito de trabalho, buscando conhecer as nuances que a explorao da mo de obra pelo capital assumiu nesse novo conceito, a partir do avano da tecnologia proporcionado pela Revoluo Tecnolgica a partir da dcada de 1970, bem como seus impactos nas esferas social, poltica e econmica. Considerando que o processo de construo dos indivduos mediado pela coexistncia de distintas instncias produtoras de valores culturais e identitrias e tomando a famlia, a escola e a mdia no mundo contemporneo como instncias principais que se relacionam na formao e na construo da identidade da Gerao Y, objetivamos a discusso da teoria do habitus presente nos estudos de Pierre Bordieu e Norbert Elias, com vistas a entender a socializao e a individualizao dos sujeitos pertencentes Gerao Y no mundo do trabalho a partir da revoluo tecnolgica. 24 Por fim, pretendemos caracterizar a Gerao Y e sua percepo dos conceitos do trabalho docente e, a partir da, fazemos uma anlise do impacto da formao da Gerao Y no mundo acadmico, listando se e em que aspectos a prtica profissional docente tem sido afetada em funo das especificidades dos jovens alunos dessa gerao. 1.5 Metodologia No percurso de levantamento de material bibliogrfico, encontramos poucas publicaes relevantes envolvendo Gerao Y e Educao. S depois da entrada dessa gerao no mercado de trabalho que as publicaes sobre o tema comearam a se intensificar, surgindo novos debates em vrias reas. Na academia, esse tema j discutido h algum tempo fora do Brasil. possvel encontrar uma srie de publicaes, de diversas origens, em peridicos acadmicos internacionais. No Brasil, todas as pesquisas comearam a ganhar espao muito recentemente. A maior parte das publicaes est na rea de Recursos Humanos, nos cursos de Administrao de Empresas. Sobre os impactos dos alunos dessa gerao no universo escolar e no trabalho docente, temos pouqussimas investigaes e nenhuma diretamente relacionada rea educacional. Assim sendo, esta pesquisa ganha contornos de pesquisa exploratria, j que o objetivo desse tipo de pesquisa familiarizar-se com um assunto ainda pouco conhecido, pouco explorado (GIL, 2008). A abordagem desta pesquisa de natureza qualitativa. Atualmente, pesquisas dessa natureza ocupam um lugar distinto entre as vrias possibilidades de se estudarem os fenmenos que envolvem os seres humanos e suas intricadas relaes sociais, estabelecidas em diversos ambientes (GODOY, 1995). Segundo Bogdan (apud GODOY, 1995) a pesquisa qualitativa tem como caractersticas principais: (a) tem o ambiente natural como fonte direta dos dados e o pesquisador como instrumento-chave; (b) descritiva; (c) os pesquisadores preocupam-se com o processo e no somente com os resultados e com os produtos; (d) existe tendncia dos pesquisadores de utilizar dados indutivamente e o significado a preocupao essencial do pesquisador. 25 Como procedimento para a coleta de dados, fez-se uso da pesquisa bibliogrfica, que consistiu na seleo da literatura de interesse, na discusso do pensamento encontrado a respeito do tema como fundamentao terica. Para isso, buscamos textos de fontes variadas abordando questes relacionadas aos temas juventude/Gerao Y, trabalho e Educao/trabalho docente. Segundo Marconi e Lakatos (1992), a pesquisa bibliogrfica o levantamento de toda a bibliografia j publicada, em forma de livros, revistas, publicaes avulsas e imprensa escrita. A sua finalidade fazer com que o pesquisador entre em contato direto com todo o material escrito sobre um determinado assunto. Inicialmente, fez-se uma pesquisa por abrangncia, tendo como ponto de partida algumas palavras-chave ligadas ao tema. Foram executadas diversas buscas, procurando por artigos, publicaes em revistas, internet, livros que continham essas palavras e foi feita uma anlise detalhada do contedo desse material. Em seguida, depois de uma busca em profundidade, foram selecionados os textos mais relevantes para a pesquisa. Apesar de no encontrarmos publicaes relevantes no Brasil que envolvam a temtica Gerao Y x Educao, possvel perceber que o tema Gerao Y figura entre as principais preocupaes da atualidade no Brasil e no mundo no ambiente profissional. Se considerarmos tambm a chegada da Gerao Z3 s escolas possvel afirmar que temos um campo muito frtil para pesquisas nessa rea. 1.6 O texto Considerando essa breve contextualizao, o texto foi estruturado em cinco captulos, mais as consideraes finais. O segundo captulo caracteriza e discute a Revoluo Tecnolgica ocorrida aps a dcada de 1970 bem como seus impactos nos aspectos sociais, polticos, e profissionais. Esse captulo tambm discute a redefinio do conceito de trabalho a partir da evoluo da tecnologia e a explorao da mo de obra pelo capital nesse contexto. 3 Segundo Santos Neto e Franco (2010, p.14) a Gerao Z composta por indivduos que nasceram a partir de 1993 e que esto, portanto, na faixa de 0 a 17 anos. Os indivduos a ela pertencentes, mais do que a Gerao Y, so aqueles do mundo virtual: internet, videogames, redes sociais, etc. 26 J o terceiro captulo tem como referncia a teoria do Habitus na obra de Pierre Bordieau e Norbert Elias e, de maneira sinttica busca discutir algumas de suas principais propriedades tericas, como a socializao e individualizao dos sujeitos no mundo do trabalho a partir da revoluo tecnolgica apresentada no captulo anterior. O quarto apresenta, por meio da abordagem histrica, o conceito de gerao e de juventude e as mudanas pelas quais esses dois conceitos tm passado ao longo da histria da humanidade e, mais especificamente, apresentamos o perfil profissional e preparao para o mercado de trabalho da Gerao Y. Tambm nesse captulo caracterizamos essa gerao por meio da anlise do contexto de sua formao social e terica, considerando as mudanas provocadas por esses jovens nos ambientes educacional e profissional, bem como os reflexos da tecnologia no seu comportamento. Ainda nesse captulo analisamos o impacto da formao da Gerao Y no mundo acadmico. Para isso fizemos uma contextualizao do Ensino Superior hoje no Brasil, do papel do professor e as mudanas pelas quais o trabalho docente tem passado, impelidos pelas caractersticas especficas desses jovens. Finalmente, o quinto captulo discute as mudanas que os alunos da Gerao Y esto trazendo/impondo para as escolas, para as salas de aula e, sobretudo, para o trabalho docente. Para isso, partimos da caracterizao desses jovens, tidos por alguns autores como nativos digitais, e da caracterizao dos docentes, migrantes digitais. Tambm tratamos da formao do professor e dos desafios que os aguardam no exerccio da docncia e da convivncia com a Gerao Y. Nas consideraes finais, conclumos o estudo, retomando nossos objetivos iniciais considerando os dados de campo, o entendimento dos autores e com base em nossas impresses pessoais. Cabe salientar que, assim como juventude, trabalho e Educao esto em constante transformao, as reflexes aqui apresentadas nos so teis para entender a realidade que se delineia atualmente e que novas investigaes sempre sero requeridas nesse campo de estudo. CAPTULO II IMPACTOS SOCIAIS, POLTICOS E ECONMICOS PROVOCADOS PELA REVOLUO TECNOLGICA A PARTIR DE 1970 O primeiro pressuposto de toda histria humana , naturalmente, a existncia de indivduos humanos vivos. O primeiro ato histrico destes indivduos, pelo qual se distinguem dos animais, no o fato de pensar, mas o de produzir seus meios de vida. (MARX, 1986, p. 22) Este captulo tem como objetivo apresentar as transformaes na sociedade, na poltica e na economia em funo da revoluo tecnolgica a partir da dcada de 1970 e, para isso, tem como ponto de partida a mudana pelas quais o conceito de trabalho tem passado ao longo da Histria. Segundo Castells (2002, p. 91) Esse sistema tecnolgico, em que estamos totalmente imersos na aurora do sculo XXI, surgiu nos anos 1970. Tendo como premissa o fato de que toda ao humana uma ao social e, portanto, histrica, as reflexes sobre o conceito de trabalho aqui apresentadas tm como intuito situar os jovens da Gerao Y nesse contexto. A fase compreendida entre os 16 e 24 anos de uma pessoa das mais crticas, uma vez que nela que, geralmente, tende a ocorrer a concluso da formao escolar e o ingresso na vida profissional. Assim, os sucessos escolares e ocupacionais nessa faixa etria tm importncia destacada e se refletem e/ou determinam o restante da vida do trabalhador. No h como no tratar dos conceitos de trabalho em uma investigao que tem por objeto de pesquisa o jovem da Gerao Y. No h transio que no implique um ponto de partida, um processo e um ponto de chegada. Todo amanh se cria em um ontem, atravs do hoje. De modo que o nosso futuro baseia-se no passado e se corporifica no presente. Temos de saber o que fomos e o que somos, para saber o que seremos (FREIRE, 2008, p. 33). H que considerar, tambm, que o trabalho, ao longo da Histria da humanidade, constitui um aspecto que se confunde com a prpria vida, j que por meio do trabalho que o homem busca satisfazer suas necessidades de 28 sobrevivncia, ou seja, o homem interage com a natureza, com o intuito de buscar recursos que assegurem sua existncia. Sobre isso Marx (1986) afirma: Antes de tudo, o trabalho um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano com sua prpria ao impulsiona, regula e controla seu intercmbio material com a natureza. Defronta-se com a natureza como uma de suas foras. Pe em movimento as foras naturais de seu corpo, braos e pernas, cabeas e mos, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma til vida humana (MARX, 1986, p. 297). Esse processo executado pelo homem buscando seu prprio sustento tambm executado pelos animais, no entanto os dois so processos distintos, uma vez que o homem, ainda que o desempenhe de forma instintiva, a fim de satisfazer suas necessidades, modifica tanto a natureza quanto a si mesmo, passando a desenvolver capacidades de adaptao ao meio. Marx e Engels (2012) evidenciam que o primeiro pressuposto de toda a Histria humana a existncia dos seres humanos vivos, o que exige a produo dos meios de existncia, por isso, os homens comearam a se distinguir dos animais, sobretudo por serem capazes de produzir sua prpria vida material. justamente essa capacidade de transformar o meio e a si mesmo que o distingue dos demais animais. Sobre a diferena das aes humanas com as aes dos animais Marx escreve: Uma aranha executa operaes semelhantes s do tecelo, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colmeia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha que ele figura na mente sua construo antes de transform-lo em realidade. No fim do processo do trabalho aparece um resultado que j existia antes idealmente na imaginao do trabalhador. Ele no transforma apenas o material sobre o qual opera; ele imprime ao material o projeto que tinha conscientemente em mira (MARX, 1987, p. 212). Segundo Engels (1976) O animal apenas utiliza a natureza, nela produzindo modificaes somente por sua presena; o homem a submete, pondo-a a servio de seus fins determinados, imprimindo-lhes novas modificaes que julga necessrias, isto , domina a Natureza. E essa a diferena essencial e decisiva entre o homem e os demais animais; e por outro lado, o trabalho que determina essa diferena (ENGELS, 1976, p. 223). 29 Isso ocorre porque as aes animais so movidas pelo instinto, ao passo que o homem, por ser racional, devido sua capacidade teleolgica, capaz de idealizar o resultado de sua ao, antes mesmo de execut-la, por isso, para Braverman (1980), o trabalho humano consciente, proposital e orientado pela inteligncia. Marx (1987) ainda afirma que, no trabalho humano, h uma relao de troca mtua, dialtica, entre homem e a natureza. Quando o homem altera a natureza, tambm altera a si mesmo; quanto trabalha, ele interfere na natureza, deixando nela suas marcas. Nesse processo recproco, a natureza interfere no homem, imprimindo marcas em sua conscincia. Ocorre, ento, uma mediao entre homem e natureza. O trabalho seria positivo, parte da condio humana. Sendo o trabalho parte da condio humana, conclumos que uma atividade essencialmente social. Aquele que trabalha busca sua insero no espao social, afirmando-se como um indivduo entre muitos. Cruz (2001, p. 02) afirma que o significado social do trabalho est associado s atividades realizadas por indivduos e produzidas pela sociedade qual eles pertencem. Sendo assim, a importncia que se tem atribudo ao trabalho est diretamente relacionada poca histrica em que se vive. O trabalho como atribuio somente s classes inferiores ou aos animais da sociedade antiga totalmente diferente da viso capitalista do trabalho que temos hoje. A Histria da humanidade nos leva a perceber as transformaes relacionadas s questes do trabalho, da ocupao e do emprego que ocorreram ao longo do perodo de civilizao. As transformaes pelas quais certos grupos de seres humanos passaram como, por exemplo, da condio de caadores e pescadores de agricultores, do nomadismo ao sedentarismo, buscando sua sobrevivncia, so marcos na Histria da humanidade e que influenciaram diretamente o entendimento do trabalho, alm das mudanas climticas e ecolgicas. Nesse sentido, Frigotto (2010) afirma que o homem cria e recria sua prpria existncia, mediante a ao consciente do trabalho, que possibilita a produo de todas as dimenses da vida, ou seja, ele no se reduz atividade laborativa ou emprego. Tomando como base esse homem, que cria e recria sua prpria existncia, normal que o mundo, ao longo da Histria da humanidade, tenha passado por significativas transformaes na base econmica e em sua estrutura social. O Quadro 1 pode dar uma viso melhor de como isso aconteceu. 30 QUADRO 1 Cinco revolues tecnolgicas sucessivas REVOLUO TECNOL- GICA NOME POPULAR DA POCA PAS-N- CLEO (Difuso) INOVAES INICIADORAS DA REVOLUO (Big-bang) INFRAESTRUTURAS NOVAS OU REDEFINIDAS Primeira (1771) Revoluo Industrial Inglaterra Abertura da fbrica de algodo de Arkwight em Cromford Canais e vias fluviais; energia Hidrulica Segunda (1829) Era do vapor e das ferrovias Inglaterra (Europa) e EUA Prova do motor a vapor Rocket para a ferrovia Liverpool-Manchester Ferrovias; telgrafo; grandes portos, grandes depsitos e grandes barcos de navegao mundial; gs urbano Terceira (1875) Era do ao,da eletricidade e da engenharia pesada EUA e Alemanha, ultrapassando Inglaterra Inaugurao da fbrica de ao Bessemer de Carnegie, na Pensilvnia Navegao mundial em velozes barcos de ao (uso do Canal de Suez); redes transnacionais de ferrovias (uso do ao barato); grandes pontes e tneis; telefone; redes eltricas (para iluminao e uso industrial) Quarta (1908) Era do petrleo, do automvel e da produo em massa EUA e Alemanha (Europa) Sada do primeiro modelo-T da planta de Ford em Detroit, Michigan Autopistas, portos e aeroportos; redes de oleodutos; eletricidade de plena cobertura (inclusive domstica); telecomunicao analgica mundial Quinta (1971) Era da informtica e das telecomunicaes EUA (Europa e sia) Anncio do microprocessador Intel, em Santa Clara, Califrnia Comunicao digital mundial (cabos de fibra tica, rdio e satlite); Internet e outros servios eletrnicos; redes eltricas de fontes mltiplas e uso flexvel; transporte fsico de alta velocidade. FONTE DOS DADOS BRUTOS: PEREZ, C. Revoluciones tecnolgicas y capital financiero: la dinmica de las grandes burbujas financieras y las pocas de bonanza. Mxico: Siglo XXI, 2004. p. 35-39.(CITADO por AREND, 2012). 31 Segundo Crawford, (1994, p. 36), Na primeira grande etapa do desenvolvimento econmico, os homens passaram de uma economia tribal de caa e coleta para uma economia agrcola, ou seja, nessa fase, a agricultura utilizava a mo de obra escrava, sem salrio, com regime de trabalho forado. CRAWFORD (1994, p. 19), afirma, ainda, que esse tipo de economia tambm conhecida como pr-industrial, extrativista, uma vez que utiliza todos os recursos disponveis no ambiente natural, cujas principais atividades desenvolvidas so: lavoura, extrao de minrios, pesca e silvicultura. Nesse modelo de economia, as pessoas almejam ser proprietrias de terras. Por outro lado, dando prosseguimento s transformaes econmicas, na segunda metade do sculo XVIII, surge a revoluo industrial, com origem na Inglaterra. As antigas oficinas artesanais, que produziam grande parte das mercadorias consumidas na Europa, controladas por um arteso que dominava todo processo de produo, foram sendo substitudas, com a chegada de novas tecnologias e novas mquinas, que deram lugar s fbricas, nas quais todas as modernas mquinas tornaram-se propriedade de um capitalista. Com isso, verifica-se que a produo fabril concorrendo com a artesanal levou-a runa e os antigos artesos a ficarem expostos a condies precrias de trabalho, longas jornadas e baixa remunerao. Nessa linha, O capital fsico e mo de obra no especializada so os principais recursos de uma sociedade industrial (CRAWFORD, 1994, p. 20). E por isso, podemos dizer que a organizao econmica e social voltada principalmente para a propriedade do capital financeiro e fsico, em que o maior desejo das pessoas a aquisio de uma usina de ao ou de uma fbrica de automveis. J a terceira etapa da Histria econmica e social est voltada para a informao e o conhecimento, inicialmente nos Estados Unidos, mas logo comeou a ser difundida nos demais pases industrializados e desenvolvidos do mundo. A economia do conhecimento diverge muito de suas antecessoras em relao aos servios prestados, que se tornaram cada vez mais significativos na cadeia global das organizaes, sendo considerados como a forma dominante de emprego nesta sociedade. uma economia de processamento de informaes no qual computadores e telecomunicaes so os elementos fundamentais e 32 estratgicos, pois produzem e difundem os principais recursos de informao e conhecimento. Pesquisa cientfica e Educao so a base da gerao de riqueza. A organizao econmica e social centrada na posse de informao, do conhecimento e na utilizao do capital humano, que significa pessoas estudadas e especializadas (CRAWFORD, 1994, p. 20). Antigamente, para que o ser humano desempenhasse de forma adequada as suas funes, era necessrio ter principalmente fora fsica e resistncia e, dessa forma, os trabalhadores eram vistos pelas organizaes como recursos produtivos. Contudo, o trabalho humano est migrando da utilizao dos braos para a utilizao da mente (CAMPOS, 1995, p. 51). Essa pode ser considerada uma evoluo na viso do trabalho humano nas sociedades corporativas, que passam a tratar os trabalhadores como ativos das empresas, ou seja, como patrimnio dessas entidades, um recurso a ser trabalhado e no apenas mo de obra utilizada na produo de bens de consumo e de servios. O capital humano de uma empresa o conjunto de conhecimento de seus colaboradores, aliado capacidade de realizar trabalhos teis com diferentes graus de complexidade e de especializao. Nessa cadeia de ideias e constante transformao das relaes de trabalho, esse capital humano passa a ser visto cada vez mais como um parceiro nas atividades das empresas, fornecendo conhecimentos e habilidades na tomada de decises para atingir os objetivos globais das organizaes. Esse conceito mais amplo da definio de capital humano remete ideia do funcionrio como um investidor na empresa, um colaborador no cumprimento dos objetivos das organizaes, em outras palavras, como um scio que investe com o seu conhecimento e inteligncia nas atividades de produo e gerenciamento na busca do crescimento da empresa, almejando tambm o seu crescimento individual tanto intelectual, quanto financeiro. Pode ser notado que, pelo menos em nvel de discurso ideolgico, na sociedade atual o capital humano de suma importncia para as organizaes, que funcionam por meio das pessoas que delas fazem parte. De acordo com Dutra (2002, p. 23), as organizaes e as pessoas devem trabalhar lado a lado, buscando desenvolver um processo ininterrupto de troca de competncias e informaes. A organizao transfere seu patrimnio de conhecimentos para as pessoas, enriquecendo-as e preparando-as para enfrentar novas situaes profissionais e pessoais, quer na organizao, quer fora 33 dela. As pessoas, ao desenvolverem sua capacidade individual, transferem para a organizao seu aprendizado, capacitando a organizao para enfrentar novos desafios (DUTRA, 2002, p. 23). Esse tipo de relacionamento, em que existe um compartilhamento de informaes entre organizaes e pessoas, considerado benfico para ambas as partes, uma vez que colabora com o desenvolvimento intelectual dos indivduos e com o crescimento organizacional. Essa observao feita por Dutra (2002, p. 23) pode ser considerada como um complemento para as ideias de Chiavenato (2008), que estabelecia uma relao de mtua dependncia entre organizaes e pessoas, cujos benefcios so recprocos, ou seja, uma relao de duradoura simbiose entre pessoas e organizaes. Conforme apresentado nas pginas seguintes, esse discurso demaggico utilizado em grande escala pela maioria, seno todas, das empresas no mundo todo, principalmente no ocidente, onde predomina o capitalismo em sua forma selvagem e, ironicamente, autodestrutiva tambm. 2.1 Redefinio do conceito de trabalho a partir do avano da tecnologia O mundo constantemente sofre transformaes em sua base econmica e social; cada etapa tem um papel expressivo na evoluo da Histria. E diante desse fato, importante desenvolver uma anlise das principais caractersticas que envolvem os perodos histricos que apresentaram distintas relaes de trabalho afetando principalmente os indivduos que compem a mo de obra: sociedades primitiva, escravocrata, feudal e industrial. De acordo com Oliveira (1987, p. 5) trabalho a atividade desenvolvida pelo homem sob determinadas formas, para produzir a riqueza. O homem encontra no trabalho uma forma de satisfazer suas necessidades e de preencher as aspiraes relacionadas vida material. E isso se tornou o foco principal da sobrevivncia humana. medida que alcana determinado propsito, a busca pelas necessidades ampliada a outros homens, criando-se, assim, as relaes sociais que estabelecem a condio histrica do trabalho. Escravismo, feudalismo e capitalismo so formas sociais em que se tecem as relaes que dominam o processo de trabalho, a forma concreta do processo histrico, sob determinadas condies, que 34 cria essas relaes fundamentais. O processo histrico compreendido, portanto, pela forma como os homens produzem os meios materiais, a riqueza (OLIVEIRA, 1987, p. 6). Verifica-se que, no decorrer da Histria, surgiram diferentes maneiras de execuo de trabalho, influenciadas constantemente pelas tendncias econmicas, sociais e polticas. Outra questo que apresenta relevncia na definio da Histria do trabalho a distino entre progresso econmico e progresso social; inicialmente, tem-se a ideia de que quanto maior o progresso econmico, mais desenvolvido ser o progresso social. No entanto, o progresso social tem sua origem nas lutas de classes dos operrios, que ocorreram ao longo do processo histrico, devidas presena da incompatibilidade de interesses existente entre as classes dominantes e os seus subordinados. De acordo com Chiavenato (2008), no decorrer da Histria da humanidade, sucedem-se os desdobramentos da atividade laboral do ser humano. A evoluo histrica mostra que, no decorrer dos anos, o trabalho tem sido desempenhado sob diversas formas e aspectos, em que se define quem trabalha para quem, quem o chefe e quem so os subordinados. Contudo, foi por meio da Revoluo Industrial que a palavra trabalho atingiu a sua verdadeira identidade, em um perodo marcado por grandes transformaes, que exerceu forte influncia sobre as organizaes e o seu respectivo comportamento. Isso pode ser constatado pela anlise das trs Eras Organizacionais, que ocorreram ao longo do sculo XX: a era industrial clssica, a era industrial neoclssica e a era da informao (CHIAVENATO, 2008). A Era da industrializao clssica ocorreu logo aps a Revoluo Industrial, estendendo-se at por volta de 1950. A caracterstica marcante dessa Era foi o aparecimento das mquinas e a posterior industrializao dos pases desenvolvidos. Verifica-se que, durante esse perodo, o importante era a especializao da mo de obra. Os trabalhadores eram vistos como recursos de produo, apresentando-se ao lado das mquinas e dos demais recursos da empresa. O homem era considerado como sendo um apndice da mquina. Da a necessidade de maior padronizao na medida do possvel. (CHIAVENATO, 2008). A Era da industrializao neoclssica inicia-se por volta de 1950 estendendo-se at 1990. uma fase marcada por grandes mudanas, que comearam a ocorrer 35 de forma rpida e avanada. As empresas comearam a visualizar as pessoas como recursos vivos, dotados de inteligncia e de capacidade, deixando de lado a concepo do trabalhador como uma simples pea inerte dentro do espao produtivo. Alm disso, a tecnologia passou a exercer grande influncia no comportamento das organizaes e tambm das pessoas e, com isso, as mudanas continuaram a acontecer de forma cada vez mais rpida e inconstante. A Era da informao teve incio na dcada de 1990 e perdura at a atualidade. uma fase em que as mudanas ocorrem em um ritmo desenfreado e contnuo, desencadeando grandes transformaes na vida humana. Essa sociedade, baseada em conhecimento, teve sua origem nos Estados Unidos, e logo se espalhou pelos demais pases desenvolvidos do mundo, como Canad, Europa Ocidental e Japo. Essa a chamada era ps-industrial, em que o trabalho que exige fora fsica executado pelas mquinas e o que necessita da mente, pelos homens. Por isso, cabem s pessoas as tarefas consideradas fundamentais: ter criatividade, apresentando ideias inovadoras e amplas dentro do espao organizacional. A tecnologia da informao, integrando a televiso, o telefone e o computador, trouxe desdobramentos imprescindveis e transformou o mundo em uma verdadeira aldeia global (CHIAVENATO, 2008). As informaes so transmitidas para todo o mundo em milsimos de segundos, e com isso, o diferencial passa a ser a capacidade para transformar as informaes e empreg-las de forma adequada no universo organizacional. A sociedade ps-industrial resultado de um conjunto de transformaes advindas da indstria, com o aumento da expectativa de vida da populao, investimentos em tecnologia, propagao e valorizao dos nveis de escolaridade. Durante a Revoluo Industrial, as mquinas substituram a fora fsica. Na economia do conhecimento, as mquinas complementam a capacidade mental do ser humano. (CRAWFORD, 1994, p. 36). A evoluo da economia mundial acompanhada pelo trabalho, que muda de um setor para outro, bem como as categorias de servios que aparecem e se desenvolvem. Em nossa sociedade do conhecimento, o aumento da taxa de produtividade causa outras mudanas tambm. Por definio, o aperfeioamento em produtividade libera trabalhadores para 36 mudarem de emprego. Um corolrio dessa regra que quanto mais rpido a taxa de produtividade aumenta e a economia cresce, mais rpida a taxa de mudana (CRAWFORD, 1994, p. 24). O aperfeioamento do processo produtivo em determinado setor resulta na exigncia de um menor nmero de pessoas para trabalhar em tal setor, como o caso da agricultura, por exemplo. Depois da inveno de mquinas que facilitam a execuo das atividades no campo, a quantidade de trabalhadores rurais sofreu forte declnio, e com isso, a tendncia que esses trabalhadores procurem outros tipos de atividades, o que ocasionar maior concentrao de trabalhadores em outro setor econmico, que esteja em expanso, at que ele fique saturado. A manufatura pesada, principalmente nos setores de borracha e txtil, est sendo substituda por manufaturas de tecnologia avanada, em indstrias de informtica, telecomunicaes, aeroespaciais, e tambm pelos servios que exigem maior conhecimento, como comunicaes, processamento de dados, entre outros. O conhecimento passa a ser visto como a matria-prima essencial para as organizaes, uma vez que responsvel direto pela criao de vantagem competitiva, principalmente para as empresas que utilizam grande volume de informaes. E os seres humanos, dotados de inteligncia e habilidades, so os nicos capazes de utilizar as informaes de forma coerente, para a execuo de um determinado trabalho. Crawford (1994 p. 21) afirma que A informao torna-se intil sem o conhecimento do ser humano para aplic-la produtivamente. A partir do avano da tecnologia, o conceito de trabalho sofreu algumas redefinies. Esse conceito sempre foi motivo de questionamento terico entre vrios autores e em qualquer idioma considerado. Na Lngua Portuguesa, vrias so as definies ou significados, indo desde a realizao de uma obra, ou um esforo rotineiro e repetitivo, produo de uma obra, at discusses e deliberaes de uma assembleia. Albornoz (1994) apresenta que os deveres de casa de um aluno, o processo de nascimento de uma criana, os servios de uma repartio burocrtica, tendem sempre para um fim ou esforo. Segundo Albornoz (1994, p. 25), o trabalho hoje um esforo planejado e coletivo, no contexto do mundo industrial, na era da automao. Hoje, tarefas repetitivas so realizadas por robs e por mquinas e no mais por seres humanos que agora so capazes de usar seu conhecimento e criatividade para produzir outras coisas que no demandam esforo fsico e, sim, mental. 37 Nessa perspectiva, o trabalho pode ainda vir a ser algo que ele ainda no , mesmo que ainda possa ser considerada uma utopia. Ou seja, Numa sociedade feliz, sem classes, o objetivo supremo no ser mais o rendimento, o desempenho, mas a criao. O trabalho no ser mais uma carga que o homem suporta apesar dele mesmo porque sem ele no se sabe do que viveria. (...) De modo que o trabalho poder tornar-se enfim, uma atividade com sentido. (ALBORNOZ, 1994, p. 98). Percebe-se, nessa colocao, que, infelizmente, ainda hoje a maioria das funes considerada sem sentido por quem as executa, uma vez que, com raras excees, o trabalhador no consegue produzir por completo e inteiramente algo na empresa em que ele trabalha e isso lhe tira o sentimento da criao, j que ele no participa do processo at a apresentao do produto final. Como exemplo, podemos citar a indstria automobilstica. A maioria dos colaboradores no participa do processo de criao/produo do incio ao fim. Quando se fala em trabalho, fala-se tambm em processo e em transformaes. De acordo com Campos (2007), A relao de trabalho, tendo por base uma reflexo de fundamentao marxista, uma relao do ser com o mundo. A atividade de trabalho visa no s sobrevivncia, criao de bens necessrios existncia humana ou ao desenvolvimento da sociedade. Por ser essencialmente humano, o trabalho visa tambm construo subjetiva do sujeito. O trabalho traz impresso um projeto, uma lei determinante do seu modo de operar e uma vontade. Pode-se dizer, ento, que o homem extrai de seu trabalho, alm do produto, sua maneira de ser e de se posicionar diante dos outros, da sociedade e do mundo do trabalho, ou seja, extrai a sua prpria subjetividade (CAMPOS, 2007, p. 3). Esse autor argumenta, ento, que trabalhar uma ao direcionada, uma atividade adequada a um fim. Sendo assim, trata-se de uma caracterstica exclusivamente humana. Ao discutir a gesto do trabalho, do homem e da vida a partir do pensamento de Michel Foucault, Batista e Guimares (2009, p. 126) argumentam que Se considerarmos que os fatores dinmicos das mudanas sociais devem ser buscados na ampliao das foras produtivas e nas relaes que os homens so compelidos a constituir entre si, a fim de atender as suas necessidades materiais; em nome de uma melhor organizao dessas foras foram desenvolvidas uma srie de tcnicas com o pretenso intuito de que fosse aumentada a produtividade, o que de fato se verificou. Contudo, se essa 38 aproximao em torno do trabalho poderia conter o germe para o desenvolvimento do homem, no sentido do aprimoramento de sua sociabilidade, uma vez que o pe em contato com os outros indivduos, mais do que com a natureza, na sociedade burguesa manifesta-se a oposio entre a personalidade individual e o trabalho coletivizado. Forma de atuao essa das foras produtivas imposta como condio de vida pelas relaes das quais faz parte o indivduo, inserido em uma multido de trabalhadores devidamente organizada e controlada (BATISTA; GUIMARES, 2009, p. 126). Com relao a essa discusso, os mesmos autores esclarecem que De acordo com Michel Foucault, essa forma de manifestao das relaes de poder, sobre a vida, foi empregada a partir do sculo XVII em torno de dois eixos. Um deles, baseado no corpo como mquina, ocupou-se do seu adestramento, do acrescentamento de suas capacidades, da exao de suas foras; o que, paralelamente, proporcionou o crescimento de sua utilidade, inserindo o corpo em um conjunto de regras, de normas, entrelaadas em uma concatenao lgica, ou pelo menos verossmil, formando com isso um todo (estratgias globais, tticas locais e corpo) supostamente coeso, aparentemente harmnico. O segundo eixo centrou-se no corpo enquanto espcie, no corpo atravessado pela mecnica do ser vivo, como base de processos biolgicos tais como a reproduo, os nascimentos e mortalidades (BATISTA; GUIMARES, 2009, p. 129). Batista e Guimares (2009) concluem que apenas por meio do discurso verdadeiro possvel atribuir valores, julgar, reprovar, o que influencia de forma patente o modo como se vive. Uma dessas verdades produzidas por esse tipo de saber est expressa na relao que as coletividades estabelecem com o trabalho. Independente da necessidade material dos indivduos, o trabalho, muitas vezes, posto como uma necessidade em si, como fonte de dignificao, discurso esse que contribui para que as populaes se tornem mais suscetveis ao controle. 2.2 Novas formas de explorao da mo de obra na era da tecnologia Com o advento da tecnologia (robotizao, mecanizao, automao etc.), a mo de obra passou tambm por profundas transformaes. Muitas funes e cargos deixaram de existir e, em contrapartida, novas funes apareceram com novas exigncias de seus ocupantes. No entanto, a explorao da mo de obra continua a mesma, s mudando de roupagem. 39 Os escravos no mundo do trabalho moderno recebem nomes sugestivos, tais como: capital intelectual, colaboradores, talentos humanos, parceiros, talentos intelectuais etc. De acordo com Marx (1980), o operrio (o trabalhador, de uma forma geral, em qualquer situao, que nada mais do que fora de trabalho), ir empregar todo seu tempo disponvel a servio da reproduo ampliada do capital, no dispondo de qualquer tempo para Educao, para o desenvolvimento intelectual, para preencher funes sociais, para o convvio social, para o livre exerccio das foras fsicas e espirituais, desvirtuando-se assim, de aspectos relacionados sua qualidade de vida. Novas tecnologias aparecem e novos requisitos na fora de trabalho so necessrios. Druck (2001) discute a respeito da qualificao, da empregabilidade e da competncia, estabelecendo nexos entre esses trs atributos. Muito do que se discute mito e argumenta que h outra realidade por traz do discurso ideolgico, em que algumas afirmaes sobre a superioridade do trabalhador mais escolarizado so questionadas. Com base nisso, Druck (2001) evidencia que [...] na literatura marxista da Sociologia do Trabalho, o debate toma outro caminho medida que a noo de qualificao e desqualificao est vinculada concepo de alienao do trabalho. Assim, a diviso social do trabalho sustentada na separao entre o trabalho manual e o trabalho intelectual - como elemento fundamental do processo de trabalho capitalista, desde a cooperao, a manufatura e a grande indstria - desenvolve-se de forma a subordinar o trabalho ao capital e, para garantir o processo de extrao da mais valia, indispensvel o controle, a gerncia, a disciplina, a hierarquia e a expropriao do saber do operrio para transform-lo em monoplio de capitalista. No entanto, esse processo de controle no se realiza sem lutas e contradies, em que as relaes de foras entre operrios e capitalistas podem alterar o grau de subordinao e de desqualificao ou qualificao dos trabalhadores (DRUCK, 2001, p.12). Novas formas de explorao do trabalho aparecem com novas roupagens e ideologias subjacentes. Em nome da modernizao tecnolgica e organizacional, em nome das exigncias do mercado e da competitividade, em nome da globalizao, a classe dominante desenvolve uma poltica com relao ao trabalho e ao emprego, que marcada pela perversidade e por uma relao de foras desfavorvel aos trabalhadores e a suas organizaes, que, fragilizados pelo desemprego, pela 40 informalidade e pela precarizao, no conseguem romper com esse quadro (DRUCK, 2001). Acontece que, na prtica, o que se tem outra coisa. Druck (2001) aponta que a empregabilidade no passa de um rtulo para tentar unir adaptabilidade, flexibilidade e criatividade. A empregabilidade foi um termo recentemente criado, com o intuito de enquadrar o trabalhador moderno s necessidades do empregador de mo de obra qualificada e barata. Exige-se do candidato a uma vaga que ele j esteja completamente qualificado para poder concorrer a uma vaga no mercado de trabalho. O pior que, com isso, transferiu-se a responsabilidade dessa qualificao para o prprio trabalhador, ou seja, se ele no se emprega porque no estudou, no se qualificou, no investiu em si mesmo. Como consequncia, o Estado e o sistema capitalista ficam isentos da responsabilidade e do custo de formar adequadamente o indivduo para assumir um posto de trabalho. Isso, no final das contas, no passa de uma perversidade explcita, pois, para garantir as condies de competitividade, o trabalhador necessita de abrir mo de uma srie de coisas, tais como famlia, amigos, convvio social, tudo isso com o objetivo de priorizar os objetivos da empresa, vestir a camisa da empresa (DRUCK, 2001). No Brasil, observa-se, nesse incio de sculo, uma epidemia de qualificao que parece substituir, aos poucos, a epidemia da qualidade total da dcada de 1990. O debate acerca da necessidade de qualificar a fora de trabalho em nosso Pas tomou conta de todos os setores da sociedade. A qualificao tem sido colocada como a grande soluo para os problemas de desemprego e de subemprego no Brasil. Segundo Pochmann (2001), o mito da qualificao e da empregabilidade encontrou na concepo de competncia um sentido mais perverso ainda, pois se trata agora de responsabilizar os indivduos que trabalham por desenvolver aptides e habilidades requeridas pelas mudanas tecnolgicas e organizacionais que criam novas situaes de trabalho, a fim de garantir produtividade e competitividade s empresas. A nova roupagem da escravido defendida por meio da ideologia do comprometimento organizacional, da iniciativa e da completa motivao, que so exigidas pelos empregadores como atributos natos de seus colaboradores ou candidatos a uma vaga de emprego. E, com isso, mais uma vez, quem sempre sai 41 perdendo o trabalhador que, alm de gastar muito tempo em sua formao profissional, no encontra trabalho e se frustra, porque a ideologia dominante a de que ele incompetente. S que a realidade a falta de vagas para todas as pessoas que se profissionalizam e tm uma alta empregabilidade. As transformaes econmicas e polticas pelas quais o mundo passa, bem como a crescente utilizao da informtica e tecnologias associadas, tm alterado profundamente as relaes produtivas e sociais. O volume de informaes produzido em decorrncia das novas tecnologias constantemente superado, colocando novos parmetros para a formao do cidado. Vivemos na chamada sociedade do conhecimento (DOWBOR, 2001 apud ZIDAN 2011). De acordo com Zidan (2011), o desenvolvimento cientfico-tecnolgico exige uma aprendizagem constante por parte de todas as pessoas, que precisam estar preparadas para aprender ao longo da vida, podendo intervir em um novo cenrio em constante evoluo e adaptar-se a ele. Isso traz como consequncia uma necessidade de autonomia, de criatividade e de autocrtica na obteno e na seleo de informaes, assim como nos processos de aprendizagem. Por meio da manipulao no linear de informaes, do uso de redes de comunicao e dos recursos de multimdia, o emprego da tecnologia de informao e comunicao promove, alm da aquisio do conhecimento, o desenvolvimento de diferentes modos de representao e compreenso do pensamento. Ao mesmo tempo em que possibilitam representar e testar ideias, os computadores introduzem diferentes formas de atuao e interao entre as pessoas (ZIDAN 2011, p. 100). A modalidade de ensino a distncia (EAD), de forma especial, pode beneficiar-se das Novas Tecnologias da Informao e Comunicao, que oferecem diversos tipos de recursos e ferramentas que favorecem e auxiliam a criao de um ambiente de aprendizagem. Podem dar suporte ao trabalho pedaggico desenvolvido, mesmo com todas as dificuldades, crticas e controvrsias inerentes a essa nova modalidade de qualificao. 2.3 Consideraes para o futuro do trabalho no sculo XXI 42 O mundo do trabalho no mais o mesmo, a partir das profundas transformaes ocorridas no final do sculo passado, principalmente com o avano da tecnologia em todos os segmentos. A maior parte das atividades profissionais que hoje so exercidas, segundo Oliveira (2008), no existia h 250 anos. Essa transformao das profisses pde ser sentida com maior intensidade nos ltimos 50 anos e a extino de algumas e o surgimento de outras esto diretamente relacionadas com o desenvolvimento tecnolgico experimentado nesse perodo. Segundo Pereira (2007, p. 1) a tecnologia, por meio da informatizao, robtica e automao tem a propriedade de criar e extinguir profisses. Estabilidade e solidez, nesse novo contexto, so conceitos que no se atrelam mais vida profissional. Em virtude de tantas e to significativas mudanas, a expresso seguir carreira perde seu sentido. Para Fromm (1977), essas mudanas no mercado de trabalho afetam no apenas questes sociais e polticas trabalhistas, mas tambm a prpria identidade do trabalhador, que tem seu valor mensurado pelo que capaz de produzir. Tratando dos dilemas do trabalho do limiar do sculo XXI, Antunes (2013) coloca que Em plena ecloso da mais recente crise financeira, estamos constatando a corroso do trabalho contratado, a eroso do emprego regulamentado, que foi dominante no sculo 20 e que est sendo substitudo pelas diversas formas alternativas de trabalho e subtrabalho, de que so exemplo o empreendedorismo, o trabalho voluntrio, o cooperativismo, modalidades que frequentemente substituem o trabalho formal, gerando novos e velhos mecanismos de intensificao e mesmo autoexplorao do trabalho (ANTUNES, 2013, p. 1). Nesse sentido, para Sennett (2005), a crise pela qual o trabalho passa difere das anteriores. A supresso de postos de trabalho, a criao de outros, bem como o surgimento de novas atividades profissionais fazem com que o mercado de trabalho exija trabalhadores qualificados e polivalentes, capazes de atuar ativamente no mundo do trabalho e determinar novas possibilidades de vida. Assim, tem-se a reduo da qualidade de vida para manuteno da prpria existncia profissional. 43 Dupas (1999), analisando os impactos das tecnologias na organizao do trabalho, coloca que a articulao de fordismo, consumo de massa e keynisianismo4, vista como uma correlao de foras entre as vrias categorias sociais, possibilitou algumas conquistas histricas classe operria no perodo Ps-Guerra. Ferrer (1998) afirma que o modelo de acumulao capitalista desse perodo, com base na organizao taylorista do trabalho, demandava mo de obra intensiva que, adicionada a uma intensa mobilizao e organizao dos trabalhadores, permitia condies muito favorveis para as negociaes para os sindicatos. Como consequncia dessas novas estruturas de acumulao expandidas multinacionalmente Dupas (1999) coloca que Ocorreu um crescimento macio do poder social do operariado, em especial o europeu. Isso ficou claramente evidenciado no final dos anos 1960 e comeo dos 1970 por uma onda de mobilizao social que atingiu quase todos os pases, quando as bases para a atual lgica global comearam a se assentar. A industrializao da periferia acarretou tenses e contradies a partir do aumento do poder social e de barganha dos trabalhadores. A sua capacidade de mobilizao estendeu-se aos pases em desenvolvimento. O fortalecimento da capacidade de negociao como classe comeou a ter efeitos que transcenderam as fronteiras nacionais. A transferncia dos processos produtivos para os pases perifricos de fato no reduziu o poder social dos trabalhadores dos pases centrais, somente ampliou o seu eixo (DUPAS, 1999, p. 2). No entanto, a partir dos anos 1970, com a incorporao macia das tecnologias aos processos produtivos, o que se deu foi uma mudana de base na correlao de foras entre as classes sociais. Dupas (1999) afirma que no incio da dcada de 1980, o conflito entre capital e trabalho passou a apresentar uma nova situao estrutural, da qual destaca trs fatores determinantes: - A emergncia de um novo padro de acumulao pelo uso de capital intensivo em substituio ao trabalho intensivo. Quando o modelo de acumulao se baseava no uso de mo de obra intensiva, 4 A escola de pensamento econmico keynesiana tem suas origens no livro escrito por John Mainard Keynes chamado "Teoria Geral do Emprego, Juros e Moeda". Rapidamente, muitos economistas aderiram a essa escola, o que foi chamado de revoluo keynesiana. A escola keynesiana se fundamenta no princpio de que o ciclo econmico no autorregulador como pensavam os neoclssicos, uma vez que determinado pelo "esprito animal" dos empresrios. por esse motivo, e pela ineficincia do sistema capitalista em empregar todos que querem trabalhar que Keynes defende a interveno do Estado na Economia. 44 a situao era mais favorvel aos trabalhadores: os empresrios precisavam do trabalho de grandes massas de trabalhadores/consumidores. Agora, os sindicatos perdem sua fora central e o desemprego estrutural passa a funcionar como disciplinador nato da fora de trabalho. Dessa forma com a marcha da automao e, posteriormente, da fragmentao , o poder de barganha dos assalariados passou a sofrer grande eroso. - A flexibilidade conseguida pelo atual modelo racionaliza o uso do capital, colocando-o em que as melhores condies do mercado apontam. cada vez menor a simetria entre a flexibilidade das condies de produo e as exigncias de sobrevivncia dos trabalhadores. Pode-se produzir mais ou menos, aqui ou ali, pois a programao da produo por meio da informtica e a transmisso de dados em tempo real o permitem. Mas o trabalhador vive a instabilidade de poder estar ora dentro, ora fora do mercado de trabalho. - A rearticulao das empresas levou a uma inadequao das estruturas trabalhistas e forou uma tentativa mal-sucedida de rearticulao dos sindicatos. As novas limitaes so imensas, a comear pela coexistncia em uma mesma fbrica de trabalhadores da empresa central e das terceirizadas, frequentemente com salrios e condies de trabalho diferentes, quebrando por exemplo a isonomia de sua situao de classe do perodo anterior. Na prtica, as empresas tm tido condies de se reordenar com maior flexibilidade e rapidez diante das exigncias dos novos padres de acumulao. As complexas questes geradas pela globalizao foraram a tentativa de reorganizao do trabalhador coletivo. (DUPAS, 1999, p. 3) J prevendo tudo isso, Santos (1993) afirma que, no final do sculo XX, o mundo do trabalho sofreria um forte abalo em seu modelo de produo. a instaurao da nova ordem mundial em que a tecnologia, a comunicao instantnea, o encurtamento de distncias e conexo com todo o mundo tomaram uma dimenso nunca antes imaginada. Para o autor, o fenmeno da globalizao, ou seja, o conjunto de transformaes de ordem econmica, poltica e social, tecnolgica, cultural, religiosa e educativa que ocorre no mundo que provocou o grande impacto nos setores industrializados. Como consequncia da globalizao, Pereira (2007) coloca que [...] grandes reas do planeta passaram a ser alvo de empresas multinacionais que transferiram seus parques industriais para reas distantes de suas sedes. A globalizao materializou a circulao mundial de capitais e mercadorias. Rapidamente os mercados integraram-se. Esse processo foi facilitado pela evoluo das tecnologias da informao, computadores, microeletrnica e telecomunicaes. Essa integrao trouxe consequncias mundiais de ordem poltica, social e econmica (PEREIRA, 2007, p.9) 45 Reforando isso, Santos (2003) aponta dois exemplos, sendo o primeiro o caso da transferncia de inmeras indstrias da Alemanha Ocidental para a Alemanha Oriental, onde os terrenos eram mais baratos e a mo de obra qualificada, porm com um salrio trs vezes menor do que aqueles pagos na Alemanha Ocidental. J o segundo exemplo o da Amrica Latina, onde grandes empresas instalaram modernos parques industriais. Ali, alm de pagarem salrios menores aos funcionrios, recebiam uma srie de benefcios e incentivos fiscais, como a iseno de impostos e a doao de terrenos. Com o uso de modernos equipamentos com tecnologia de ponta, o que se v, hoje, o aumento da produtividade e a diminuio dos postos de trabalho. Cada vez se produz mais mesmo com a diminuio do nmero de trabalhadores. Dessa forma, se o nmero de postos de trabalho tem diminudo substancialmente e muitas profisses tm desaparecido, natural que muitos fiquem desempregados. Alguns conseguem recolocar-se no mercado de trabalho, outros se tornam profissionais autnomos como motoboys, taxistas, sacoleiros5 e outros. Muitos acabam no mercado informal do trabalho. Isso faz parte da flexibilizao das relaes do mercado de trabalho. Para Ferreira (2007, p. 2) o mercado de trabalho do novo milnio apresenta como caracterstica a tendncia da reduo do emprego formal. Para Sennett (2005), essa flexibilizao do capital muda o sentido e o significado do trabalho e exige que os trabalhadores estejam abertos e aptos a mudanas rpidas e bruscas em curso prazo. Nesse sentido, Veloso e Trevisan (2005) apud Ferreira (2007) afirmam que Flexibilidade a capacidade com as novas situaes e presses do trabalho, visualizando e aceitando mudanas orientadas para a evoluo e o desenvolvimento da empresa, administrando conflitos e promovendo esforos, com a obteno de resultados satisfatrios (VELOSO; TREVISAN, 2005 apud FERREIRA, 2007, p. 2). Assim, o trabalho, que antes era para a vida toda e tinha o objetivo de servir famlia, passou a ser flexvel. Ferreira (2007, p. 3) afirma que Os atores envolvidos no mundo do trabalho j no se enquadram apenas nas relaes entre patro e empregado. Difunde-se a ideia de que os trabalhadores precisam ser competitivos, produtivos, 5 Sacoleiro a definio popular dos vendedores autnomos, So caracterizados pelo fato de transportarem suas mercadorias em sacolas, para mostra-las ao pblico e vende-las. 46 modernos, multidisciplinares, poliglotas, empreendedores e conhecedores de informtica. As propostas de trabalho no se resumem ao trabalho de carteira assinada at por que est cada dia mais difcil encontrar emprego fixo. Antes se estendem por meio das cooperativas, empregos flexveis que se compem de atividades por conta prpria e os bicos ou trabalhos informais (FERREIRA, 2007, p. 3). Sobre a flexibilizao das relaes de trabalho, Souza (2001), com muita propriedade, ressalta que As mutaes tecnolgicas e os problemas de competitividade, nos marcos da globalizao, foram alguns dos argumentos esgrimidos para justificar a necessidade de flexibilizao das relaes trabalhistas no Pas. Essa flexibilizao seria o remdio para o desemprego. Assim, lanaram-se as cartadas neoliberais por toda parte: desindexao salarial, remunerao varivel (PLR), recuo da fiscalizao pblica, denncia da Conveno 158 da OIT, restries atuao sindical no setor pblico, limitaes ao perodo de vigncia de acordos coletivos, criao das cooperativas profissionais, contrato coletivo de safra, contrato por prazo determinado, jornada em tempo parcial, compensao das horas extras, suspenso provisria da demisso etc. etc. (SOUZA, 2001, p.31) Souza, 2001, falando sobre a flexibilidade das relaes de trabalho no Brasil, chama a ateno para a gesto individualizada do trabalho, apresentada por muitos como a descoberta da roda, e diz claramente: A precarizao do trabalho tem implicado uma espcie de terno s velhas formas de mais valia absoluta. Com as cooperativas, o trabalho domstico, o salrio por quantidade de peas produzidas, a sobrecarga de tarefas, cria-se enfim, uma situao em que se liquida com a fixao de jornada de trabalho e intensifica-se enormemente trabalho. A polivalncia tem sido um acrscimo de novas tarefas para o trabalhador, o que implica forte acelerao do seu ritmo de trabalho. A segmentao do mercado de trabalho reforada com medidas como a instituio do contrato de trabalho por prazo determinado, com trabalhadores sem direitos trabalhistas, o que ocorre com a mo de obra mobilizada pelas cooperativas profissionais (SOUZA, 2001, 31). As profundas mudanas no mundo do trabalho, a implementao de novas tecnologias, a terceirizao, o trabalho informal, tm levado a sociedade a um debate, na qual, de um lado, esto os defensores de que essas translaes e suas consequncias como desemprego, precarizao das condies de trabalho, so inevitveis; e, do outro, aqueles que entendem que a evoluo da cincia no pressupe o sofrimento dos trabalhadores, muito pelo contrrio, deve significar mais tempo para lazer; melhores condies de trabalho, e avano social. H, ainda, 47 aqueles que entendem o trabalho como uma categoria secundria, sem importncia, e outros, como a continuidade de uma categoria central de grande importncia para o desenvolvimento. Antunes (2001) coloca com preciso as metamorfoses do mundo do trabalho, apontando como alternativa o socialismo. O autor apresenta algumas das principais mudanas que tm ocorrido no mundo do trabalho, como consequncias das profundas mudanas que o capitalismo sofre em escala mundial, tanto na sua estrutura produtiva quanto no universo de seus iderios, seus valores etc., apresentando um desenho dessas principais mutaes no interior da classe trabalhadora. De acordo com Antunes (2001), a classe trabalhadora tornou-se mais qualificada em vrios setores, em que houve uma relativa intelectualizao do trabalho, mas precarizou-se e desqualificou-se em vrios ramos. Criou-se, de um lado, em escala minoritria, o trabalhador polivalente e multifuncional da era da informtica, capaz de operar com mquinas com controle numrico e de exercitar com mais intensidade sua dimenso intelectual. E, de outro lado, uma enorme massa de trabalhadores precarizados, sem qualificao, que hoje experimentam as formas de emprego temporrio, parcial ou simplesmente o desemprego estrutural. Nessa mesma linha de argumentao e crticas, Pochmann (2001) debate as razes da grave crise de emprego no Brasil. De acordo com esse autor, A crise do emprego no Brasil grave e complexa, podendo ser encontradas diversas causas explicativas. Sobre isso, inclusive, no h grandes consensos entre especialistas, pois possvel encontrar na literatura especializada distintos diagnsticos acerca da situao do desemprego. Independe da constatao acerca de mltiplas razes sobre o desemprego no Brasil, faz-se necessrio, procurar hierarquizar entre o conjunto de causas, aquelas sobre as quais uma ao corretiva seria capaz de reverter o grosso do desemprego. Dessa forma, interessa tratar aqui fundamentalmente das razes estruturais do desemprego, como a persistncia de baixas taxas de expanso da economia brasileira nas duas ltimas dcadas e a conduo do novo modelo econmico, desde 1990. Somente esses dois pontos explicam, na maior parte, a atual crise do emprego no pas (POCHMANN, 2001, p.15) Essa mais uma consequncia do avano da tecnologia: a existncia de um desemprego em grande escala em todos os setores e, como j discutido acima, a culpa da falta de competncia dos trabalhadores. 48 Antunes (2013) coloca alguns exemplos de trabalho e de trabalhadores que vivem no limite da degradao. O autor cita uma srie de casos expressivos dessa situao, como o trabalho escravo no campo nos agronegcios do acar, no etanol do ex-Presidente Lula, em que os trabalhadores cortam mais de dez toneladas de cana por dia (ANTUNES, 2013, p. 2). Em So Paulo, o autor cita o exemplo dos bolivianos, subempregados nas empresas de confeco, com jornadas que atingem at dezessete horas dirias. Cita tambm o caso dos trabalhadores do Japo, que migram para as cidades e dormem em cpsulas de vidro do tamanho de um caixo, o que o autor chama de operrios encapsulados. O autor retoma os dizeres de um cartaz empunhado por trabalhadores britnicos em greve no incio de 2009 Empreguem primeiro os trabalhadores britnicos para tratar do paradoxo globalizao x trabalho imigrante. Em tempo de globalizao, quando os capitais transnacionais podem fruir e viajar livremente, o trabalho imigrante encontra-se cada vez mais cerceado e tolhido. Talvez pudssemos dizer que, enquanto os capitais transnacionais so livres em seus voos e saques, os trabalhadores imigrantes devem se manter cativos (ANTUNES, 2013, p. 3) Alm de todos os problemas j enumerados pelas transformaes no mundo do trabalho, vrias outras implicaes merecem ser destacadas e estudadas. As desigualdades e seus reflexos no trabalho, meio ambiente e sade so abordados por Rigotto (2001) que comenta [...] a globalizao e a reestruturao produtiva so macrofenmenos complexos e multifacetrios que representam a mais recente configurao do capitalismo, convertendo o sistema mundial em espao de acumulao. Associados ao neoliberalismo, tm sido conduzidos pelas foras hegemnicas a nvel internacional (sic.), implicando em profundas repercusses sobre a vida social. Se compreendemos que a sade no "cai do cu", que ela desenhada a partir do contexto econmico, social, poltico, cultural e subjetivo em que cada sujeito ou grupo social se depara com facilidades e limites para construir um modo de vida de maior ou menor qualidade, podemos estimar a profundidade dos impactos desses processos sobre o mundo do trabalho, a sade e o ambiente (RIGOTTO, 2001,p.113). Ainda relacionando as vrias transformaes no mundo do trabalho, Valadares (2001) fala da evoluo das Novas tecnologias e da sade do trabalhador fazendo referncia s doenas do novo milnio. De acordo com esse autor, De acordo com VALADARES (2001) 49 Discutir as perspectivas para a sade do trabalhador nos alvores de um novo milnio implica em avaliar, ainda que de forma sucinta, o processo de crise da sociedade capitalista e as tentativas de sada por meio da chamada globalizao com as transformaes introduzidas por novas tecnologias e suas repercusses principais nas linhas gerais do desenvolvimento do capitalismo, e, em particular, como esse processo tem ocorrido na organizao do trabalho, bem como o atual panorama das doenas profissionais e das relacionadas ao trabalho. A intensificao do processo de modernizao tecnolgica, conhecido como revoluo tcnico-cientfica, baseado na microeletrnica, na informtica, na biotecnologia e associado intimamente a mudanas na organizao do trabalho e nas suas formas de gesto, tem como objetivo bsico aumentar a produtividade e o lucro buscando sadas para a crise estrutural pela qual o capitalismo est passando. Simultaneamente ocorre um processo acelerado de mudanas no mundo do trabalho com perda de direitos historicamente conquistados, reduo de salrio, degradao das condies de trabalho e de seu ambiente, diminuio do nmero de trabalhadores empregados, uma populao mais idosa disputando seu espao no mercado de trabalho. Vive-se um tempo de perplexidade, de busca de uma sada para a prpria existncia do ser humano no planeta terra; discute-se a possibilidade de chegarmos a um perodo de barbrie (VALADARES, 2001, p.125). Tem-se, com isso, o surgimento de inmeras doenas relacionadas ao trabalho, tais como: DORT (doenas osteomusculares relacionadas ao trabalho), depresso em massa, estresse ocupacional, entre outras. Em um mundo em constantes e profundas mudanas, o setor bancrio foi um dos primeiros a sofrer com os avanos tecnolgicos e a reestruturao produtiva provocadas pela automao bancria. Filgueiras (2001) aborda a reestruturao produtiva e o emprego bancrio argumentando que Desde a segunda metade dos anos 1980, com o incio da implementao de diversos planos de estabilizao - em especial, o "Cruzado", o "Collor" e o "Real"-, o setor financeiro no Brasil vem passando por um processo de "reestruturao produtiva" que, alm de aprofundar o grau de automao j existente na produo de seus servios, tem introduzido novos mtodos e novas prticas de organizao e gesto do trabalho (FILGUEIRAS, 2001). Na verdade, o que acontece o retrocesso. Da mesma forma que algum, ao errar o caminho, volta ao ponto inicial, para acertar o rumo, o retorno a formas pr-capitalistas de produo mostrado como o mximo do desenvolvimento, o pice da justia social, quando isso no verdade. A falncia do modo de produo hegemnico, para a sobrevivncia dos interesses por ele engendrado, por meio de tcnicas de publicidade, propalada como a vitria completa do modo de produo decadente. Assim, o que hoje 50 apresentado como uma grande novidade no passa de uma velharia histrica. No fundo, sobra uma prtica nefasta aos trabalhadores, representando um aumento da pauperizao das camadas populares. No exerccio do magistrio no diferente. Murta (2002), apresentando resultados de investigaes e anlises de projetos de formao continuada, tratando da situao dos professores no desempenho de suas funes fala do mal estar docente e coloca que Quando encontram uma oportunidade, e sentem que podem confiar na pessoa que os escuta, eles falam de si. Costumam dizer, de sada, que so felizes com a escolha de ser professor. Misturam suas histrias pessoais com acontecimentos da vida profissional, histrias de seus filhos com as de seus alunos. Aos poucos, no raro, choram, contam de suas raivas, decepes e ressentimentos. Revelam uma outra face da sua vida de professores: falam em angstia, escurido, doena, dor. Descrevem o magistrio como um lugar de sofrimento (MURTA, 2002, p.1) grifos da autora). A anlise desse mal-estar docente tambm feita por Esteve (1999, p. 97). Segundo o autor essa expresso definida como: "um conceito da literatura pedaggica que pretende resumir o conjunto de reaes dos professores como grupo profissional desajustado devido mudana social". Esse autor prossegue afirmando que A expresso mal-estar docente (malaise enseignant, teacher burnout) emprega-se para descrever os efeitos permanentes, de carter negativo que afetam a personalidade do professor como resultado das condies psicolgicas e sociais em que exerce a docncia, devido mudana social acelerada (ESTEVE, 1999, p. 98). Para Esteve, esse mal-estar est articulado ao intenso processo de mudanas sociais que tm ocorrido em todo o mundo nos ltimos anos e s dificuldades da escola em caminhar pari passu a esse processo. Os professores so parte de um quadro de profundas mudanas sociais, situao que corresponde a mudanas no menos profundas na Educao e no desempenho exigido da profisso docente. Em reportagem veiculada em setembro de 2013 no jornal O Tempo, Cmara (2013) faz uma anlise da situao docente em Minas Gerais. Segundo a reportagem, esse mal-estar docente tem provocado uma fuga de professores da profisso, principalmente na rede pblica. De acordo com a jornalista, ao todo, foram 51 1.306 exoneraes no ano de 2013, sendo 1.283 a pedido do trabalhador e 23 por deciso do Governo, isso em um universo de 105.297 educadores concursados. A cada dia, cinco professores concursados pedem demisso, em mdia, das escolas estaduais de Minas Gerais. De janeiro a agosto deste ano, 1.283 educadores desistiram de seguir carreira na rede, mesmo com a estabilidade garantida no servio pblico. O nmero j supera as exoneraes de 2012, quando foram 1.238, segundo dados da Secretaria de Estado de Educao (SEE) (CMARA, 2013, p. 1) Ainda segundo a reportagem, entre as causas do abandono esto o salrio baixo, a falta de plano de carreira, as ms condies de trabalho e o desrespeito dos alunos. Outra discusso que merece ser evidenciada tambm a insero da mulher no mercado de trabalho. Nessa perspectiva, Castro (2001) fala da feminilizao da cartilha em cenrio neoliberal. De acordo com ele, Assim lidamos com as condies de vida das mulheres, o combate a discriminaes e violncias, a identificao de processos culturais e polticos que nas relaes sociais entre os sexos, no pblico e no privado; e, principalmente, como o transitar entre tais espaos, engendra diferenas. Ressalta-se como as divises sexuais de trabalho, o poder e as formas de vivenciar (ou no) o prazer, marcam especificidades no ser mulher, discriminaes e desvantagens sociais, o que de fato exige olhares diferenciados, polticas e programas ativos, para dinamizao do mercado de trabalho e, nesse, contemplar grupos mais vulnerveis, como as mulheres, os negros, os jovens e os mais velhos, assim como polticas compensatrias, voltadas para o lidar com o desemprego e a flexibilizao e precarizao no mercado (CASTRO, 2001,p.147) Infelizmente, na prtica efetiva, o que temos uma subvalorizao do trabalho feminino, um excesso de cobrana para as mulheres com relao aos homens e a eterna diferena salarial entre mulheres (salrio menor) e homens (salrio maior) na execuo das mesmas tarefas. No magistrio, ambiente ainda dominado pelo pblico feminino, essa situao se manifesta com outras nuances. Diniz (1998), analisando o sofrimento de mulheres-professoras das sries iniciais do Ensino Fundamental, refere-se a um insuportvel vivido por elas na Educao. A autora estudou a subjetividade da mulher nessa profisso, partindo das reclamaes de professoras, queixas que revelam sua vivncia de um profundo mal-estar. 52 Ainda segundo a autora, no seu ambiente de trabalho, elas se queixam de uma srie de situaes: das condies de trabalho, dos alunos, do salrio, dos projetos do Governo e outros mais. Mas nos consultrios, para os mdicos que lhes concedem licenas para tratamento de sade, as queixas e sintomas apresentados mais frequentemente so outros: "[...] diarreia, presso alta, vmito, dores na nuca, na cabea, na coluna, nas costas, dormncia nas mos, irritabilidade, choro fcil, depresso, ansiedade, insnia" (DINIZ, 1998, p. 203). As professoras queixam-se de que sofrem e adoecem. Quando adoecem, afastam-se da sala de aula e, s vezes, definitivamente, da escola. Diniz investigou o adoecimento mental de professoras em desvio de funo6. Em sua pesquisa, ela procurou, nos laudos que concederam licena mdica s professoras, as explicaes clnicas que justificaram seu afastamento de sala de aula: os transtornos mentais aparecem como o segundo motivo mais frequente para a concesso de licenas mdicas. Por ltimo, e no menos importante, est a situao do jovem e das crianas no trabalho. Em publicao na Revista Cult7, Antunes (2013,) expe que [...] poucos jovens conseguem emprego nas carreiras que escolheram. Quanto tm qualificao, perambulam de emprego a outro at chegar se conseguirem ao que pretendiam inicialmente. Quando lhes falta o capital cultural, a a empreitada mais difcil. Para conseguir emprego, so obrigados a realizar trabalhos voluntrios. Ou o que ainda mais frequente: a exploso do trabalho do estagirio, que se converte em um trabalho efetivo com sub-remunerao (ANTUNES, 2013, p. 3). Antunes aborda a dicotomia apresentada pela ordem societal dominante que, por um lado, dificulta o acesso dos jovens em idade de trabalhar e, por outro, inclui crianas no mercado de trabalho nos pases capitalistas avanados. Pouco importa que o trabalho hoje seja suprfluo e que centenas de milhes de assalariados em idade de trabalho se encontrem em 6 Desvio de funo: quando o professor ou outro servidor, por orientao mdica, deixa de desenvolver as funes de seu cargo e passa a desenvolver outro tipo de funo. No caso do professor quando ele se afasta da sala de aula para desenvolver outras atividades. 7 A Revista Cult uma publicao brasileira de circulao nacional. Voltada abordagem de temas ligados s artes literatura, filosofia e cincias humanas, criada em 1997. Seu contedo produzido por jornalistas e acadmicos. Atravs do Espao Revista Cult, promove palestras, cursos, seminrios e oficinas. Sediada em So Paulo, publicada pela Editora Bregantini. 53 desemprego estrutural. Os capitais globais frequentemente recorrem ao corpo produtivo das crianas, que deveriam estar exercitando seu corpo brincante (ANTUNES, 2013, p. 3). Ainda segundo o autor, esse quadro se amplia quando se trata do trabalho na produo de sisal, no ramo txtil e de confeces, calados, cana de acar, carvoarias, pedreiras, olarias, emprego domstico etc. 2.4 A influncia da Gerao Y no conceito de trabalho e no processo ensino-aprendizagem A relao que se estabelece entre trabalho e juventude essencial para que possamos compreender relaes do presente e tambm para que possamos prever e compreender futuras transformaes pelas quais a sociedade h de passar. Galland (2007, apud OLIVEIRA; PICCININI; BITENCOURT, 2011, p. 2) afirma que a insero do jovem no mundo do trabalho um dos marcos de passagem para a vida adulta. O autor ainda explica que, nos pases ocidentais, o ingresso desse jovem no mercado de trabalho adiado, em funo do tempo de estudo; j nos pases perifricos, isso s ocorre nas famlias com maior poder aquisitivo; para os jovens mais pobres, isso se d muito cedo, ou ainda ingressam nas fileiras do desemprego. Desse contexto dois discursos so construdos e apresentam como consequncia a despadronizao do curso de vida e a fragmentao das trajetrias biogrficas (DIB; CASTRO, 2010) e outro, mais frequentemente utilizado por autores da rea de Administrao (VELOSO; DUTRA, 2008; VASCONCELOS, 2010; POUGET, 2010), mostrando o surgimento de uma nova gerao, com comportamento diferente, que demanda uma mudana nas formas de gesto. No h como negar que as mudanas trazidas pelas novas tecnologias e as novas relaes de trabalho hoje se refletem no ciclo de vida dos indivduos, seja em jovens, adultos ou idosos. Essas mudanas tm sido objeto de discusso na literatura da administrao. Aqui pensamos nas mudanas e influncias que essa nova gerao tem levado escola e em que extenso isso se tem refletido no trabalho do professor do Ensino Superior. Fazendo uma abordagem crtico-reflexiva do contexto cientfico e tecnolgico, Pinheiro, Silveira e Bazzo (2010) apontam o surgimento do movimento CTS (cincia, 54 tecnologia e sociedade) como uma mudana na forma de se pensar e de se lidar com as transformaes que ocorrem, trazendo, inclusive, algumas implicaes para o contexto educacional. De acordo com os autores, o movimento CTS surgiu por volta de 1970 e trouxe como um de seus lemas a necessidade do cidado de conhecer os direitos e obrigaes de cada um, de pensar por si prprio e ter uma viso crtica da sociedade em que vive, especialmente a disposio de transformar a realidade para melhor. Apesar de esse movimento no ter sua origem no contexto educacional, as reflexes nessa rea tm aumentado significativamente, por entender que a escola um espao propcio para que as mudanas comecem a acontecer (PINHEIRO, SILVEIRA E BAZZO, 2010, p. 3) Cincia, Tecnologia e Sociedade (CTS) corresponde ao estudo das inter-relaes existentes entre a cincia, a tecnologia e a sociedade, constituindo um campo de trabalho que se volta tanto para a investigao acadmica como para as polticas pblicas. Baseia-se em novas correntes de investigao em Filosofia e em Sociologia da cincia, podendo aparecer como forma de reivindicao da populao para participao mais democrtica nas decises que envolvem o contexto cientfico-tecnolgico ao qual pertence. E, para isso, o enfoque CTS busca entender os aspectos sociais do desenvolvimento tecnocientfico, tanto com relao aos benefcios que esse desenvolvimento possa trazer, como tambm no que respeita s consequncias sociais e ambientais que poder causar (PINHEIRO; SILVEIRA; BAZZO, 2010, p. 3). De acordo com Garcia et al. (1996, apud PINHEIRO; SILVEIRA; BAZZO 2010, p. 5), podemos identificar trs perodos importantes que caracterizaram a relao entre cincia, tecnologia e sociedade. Um primeiro perodo se caracterizou pelo otimismo frente aos grandes feitos apresentados pela cincia e pela tecnologia em um perodo Ps-Guerra. O segundo foi caracterizado pelo estado de alerta, diante dos acontecimentos tidos entre os anos de 1950 e 1960, quando comeam a aparecer os desastres oriundos da tecnologia fora de controle (o primeiro acidente nuclear grave; revoltas contra guerra do Vietn). O terceiro perodo marcado pelo despertar da sociedade contra a autonomia cientfico-tecnolgica, que se iniciou por volta de 1969 e se estende at os dias atuais, como uma reao aos problemas que a cincia e a tecnologia tm trazido para a sociedade. 55 Com o enfoque CTS, o trabalho em sala de aula passa a ter outra conotao. A pedagogia no mais um dos instrumentos de controle do professor sobre o aluno. Professores e alunos passam a descobrir, a pesquisar juntos para a construo e/ou produo do conhecimento cientfico, que deixa de ser considerado como algo sagrado e inviolvel, ao contrrio, est sujeito a crticas e a reformulaes, como mostra a prpria Histria de sua produo. Dessa forma, aluno e professor reconstroem a estrutura do conhecimento. Em nvel de prtica pedaggica, isso significa romper com a concepo tradicional que predomina na escola e promover uma nova forma de entender a produo do saber. desmitificar o esprito da neutralidade da cincia e da tecnologia e encarar a responsabilidade poltica das mesmas. Isso supera a mera repetio do ensino das leis que regem o fenmeno e possibilita refletir sobre o uso poltico e social que se faz desse saber. Os alunos recebem subsdios para questionar, para desenvolver a imaginao e a fantasia, abandonando o estado de subservincia diante do professor e do conhecimento apresentado em sala de aula (PINHEIRO; SILVEIRA; BAZZO, 2010, p. 14) Dessa forma, concluem Pinheiro, Silveira e Bazzo (2010), a importncia de se discutir com os alunos os avanos da cincia e da tecnologia, suas causas, consequncias, interesses econmicos e polticos, de forma contextualizada, reside no fato de que devemos conceber a cincia como fruto da criao humana. Por isso, ela est intimamente ligada evoluo do ser humano, desenvolvendo-se permeada pela ao reflexiva de quem sofre/age as diversas crises inerentes a esse processo de desenvolvimento. Os debates a respeito da cincia, tecnologia e sociedade trazem profundas alteraes no modo de se pensar a formao dos professores tanto frente a novas tecnologias quanto com relao nova gerao de alunos que ora se apresenta, especificamente a que fruto de discusso no presente trabalho: Gerao Y. Muito do que se discute com relao formao docente direcionada para os ensinos Fundamental e Mdio. E onde fica a formao do professor para o Ensino Superior, principalmente quando estamos diante de inmeras e profundas transformaes no mundo do trabalho e, somando-se a isso, o ingresso de alunos cada vez mais jovens no Ensino Superior? A esse respeito, Pachane e Pereira (2004, p. 7) esclarecem que Hoje, necessrio ao professor saber lidar com uma diversidade cultural que antes no existia no Ensino Superior, decorrente do ingresso de um pblico cada vez mais heterogneo. Um pblico que pode, por um lado, no estar to bem preparado, tanto emocional quanto intelectualmente, para o ingresso no Ensino Superior; um pblico talvez mais jovem, mais imaturo, e, por vezes, pouco 56 motivado e comprometido com sua aprendizagem, tendo em vista que o Ensino Superior hoje no mais garantia de um emprego estvel no futuro, mas um pblico que pode, por outro lado, ser muito mais exigente quanto qualidade do curso oferecido, tendo em vista especialmente o alto grau de competitividade do mercado de trabalho (PACHANE; PEREIRA,2004, p. 7). As mudanas ocorrem no apenas internamente ao Ensino Superior, mas existe todo um conjunto de mudanas sociais, econmicas, polticas. No mundo contemporneo, muitas coisas devem ser repensadas. A formao para o magistrio superior no poderia ficar para trs. De acordo com Pachane e Pereira (2004, p. 8), as mudanas relacionadas, em especial, ao avano cientfico-tecnolgico, a alteraes na organizao do trabalho (processo produtivo), sociedade de informao, aos processos de globalizao da economia e a alteraes na relao dos sujeitos com o conhecimento vo provocar mudanas nos vrios aspectos do Ensino Superior. Em sua argumentao sobre o futuro do pensamento na era da informtica e as novas tecnologias da inteligncia, Lvy (2004) argumenta que Novas maneiras de pensar e de conviver esto sendo elaboradas no mundo das telecomunicaes e da informtica. As relaes entre os homens, o trabalho, a prpria inteligncia dependem, na verdade, da metamorfose incessante de dispositivos informacionais de todos os tipos. Escrita, leitura, viso, audio, criao, aprendizagem so capturados por uma informtica cada vez mais avanada. No se pode mais conceber a pesquisa cientfica sem uma aparelhagem complexa que redistribui as antigas divises entre experincia e teoria. Emerge, nesse final do sculo XX, um conhecimento por simulao que os epistemologistas ainda no inventaram. (LVY, 2004, p. 7) Percebe-se que os desafios so muitos e que lidar com o pblico da Gerao Y ir demandar novas posturas e formaes por parte dos professores. CAPTULO III TEORIA DOS HABITUS: A SOCIALIZAO E INDIVIDUALIZAO DOS SUJEITOS NO MUNDO DO TRABALHO A PARTIR DA REVOLUO TECNOLGICA A socializao e a individualizao dos sujeitos no mundo do trabalho sofreram algumas modificaes a partir da revoluo tecnolgica com implicaes tambm para o trabalho docente. O conceito de habitus tornou-se conhecido na pesquisa sobre Educao por meio dos estudos de Pierre Bourdieu, que desenvolveu esse conceito a partir da necessidade se estabelecer as relaes de afinidade entre o comportamento das pessoas e os condicionadores sociais. De acordo com PETERS (2010), [...] o habitus atua como um prisma capaz de refratar seletivamente as informaes impostas por novas experincias, as quais, em geral, s so, assim, capazes de modific-lo dentro dos limites permitidos pelo seu poder de seleo, o que permite qualific-lo como durvel, apesar de mutvel. A relativa inrcia infusa no sistema de disposies de um dado indivduo tende a lev-lo a escolher e frequentar contextos experienciais relativamente constantes (lugares, eventos, bens de consumo, prticas, companhias) e capazes de reforar suas preferncias e crenas, evitando concomitantemente a exposio a circunstncias e informaes tendentes a desafiar ou questionar criticamente a informao acumulada no seu habitus (PETERS, 2010, p. 21). Com isso, percebe-se que, no processo de socializao, as pessoas tendem sempre a reconhecer e buscar outras com histria, personalidade, preferncias, predisposies, motivaes semelhantes em um processo de apreciao mtua. 3.1 Consideraes sobre a teoria do habitus de Pierre Bourdieu O habitus um instrumento de autorreflexo que auxilia na busca de melhor compreenso de uma realidade, de determinado contexto, estimula reflexes sobre os modos pelos quais os sujeitos elaboram seus esquemas de conhecimento e 58 possibilita os agentes a elaborarem suas noes de pensamento das sociedades em constante transformao. Setton (2002) parte da hiptese de que [...] o processo de socializao das formaes modernas pode ser considerado um espao plural de mltiplas relaes sociais. Pode ser considerado um campo estruturado pelas relaes dinmicas entre instituies e agentes sociais distintamente posicionados em funo de sua visibilidade e recursos disponveis (SETTON, 2002, p. 60). A partir da, esse autor salienta que [...] pensar as relaes entre a famlia, a escola e a mdia com base no conceito de configurao analisar essas instituies sociais segundo uma relao dinmica criada pelo conjunto de seus integrantes, recursos e trajetrias particulares. Nesse sentido, caberia perguntar: como e por que essa nova configurao cultural entre as instncias de socializao do mundo contemporneo seria responsvel pela construo de um novo agente social? Considero que uma resposta possvel a essa questo pode ser oferecida com base na interpretao da teoria do habitus de Pierre Bourdieu luz da concepo institucional de modernidade de Anthony Giddens (SETTON, 2002, p. 61). Bourdieu (1983, p. 65) conceitua habitus como sendo [...] um sistema de disposies durveis e transponveis que, integrando todas as experincias passadas, funciona a cada momento como uma matriz de percepes, de apreciaes e de aes e torna possvel a realizao de tarefas infinitamente diferenciadas, graas s transferncias analgicas de esquemas (BOURDIEU, 1983, p. 65). As caractersticas da Gerao Y ficam evidenciadas de acordo com a teoria do habitus de Bourdieu quando ele aponta o seguinte: As experincias se integram na unidade de uma biografia sistemtica que se organiza a partir da situao originria de classe, experimentada em um tipo determinado de estrutura familiar. Desde que a Histria do indivduo nunca mais do que uma certa especificao da Histria coletiva de seu grupo ou de sua classe, podemos ver nos sistemas de disposies individuais variantes estruturais do habitus de grupo ou de classe [...]. O estilo pessoal, isso , essa marca particular que carregam todos os produtos de um mesmo habitus, prticas ou obras, no seno um desvio, ele prprio regulado e s vezes mesmo codificado, em relao ao estilo prprio a uma poca ou a uma classe. (BOURDIEU, 1983, p. 80-81). Tendo como base tal colocao, Setton (2002) evidencia que 59 O avano tecnolgico, os sistemas peritos, o rdio, a TV, os computadores so novos mediadores dessa ordem social. Em uma situao de modernidade, uma quantidade cada vez maior de pessoas vive em circunstncias nas quais instituies desencaixadas, ligando prticas locais a relaes sociais globalizadas, organizam os aspectos principais da vida cotidiana (SETTON, 2002, p. 67). Nessa perspectiva, O conhecimento, a competncia, a autoridade das referncias familiares e escolares esto sempre sujeitos a revises. Nesse sentido, a reestruturao institucional que os agentes socializadores tradicionais esto sofrendo impe uma instabilidade e insegurana em relao s condutas, respostas e representaes em relao queles conceitos. Poderamos afirmar que os jovens estariam igualmente sujeitos s experincias de uma socializao tradicional e formal? Ou estariam aos poucos realizando uma experincia moderna de socializao? (SETTON, 2002, p. 68) Setton (2002, p. 68) considera, ento, que, na falta de um eixo estruturador nico (famlia, escola e/ou cultura de massa) e pela circularidade das referncias, o indivduo contemporneo estaria mantendo novas relaes com o mundo exterior. O autor conclui, ento, que Assim, possvel identificar a tendncia de forjar um outro habitus, possvel pensar na construo de um novo agente social portador de um habitus alinhado s presses modernas. No caso especfico dos indivduos da atualidade, grande parte deles precocemente socializados pela mdia, a realidade da cultura de massa parece ser inexorvel. Pulverizando e tornando visvel uma srie de experincias biogrficas, modelos identitrios distintos dos apreendidos nos contextos locais da famlia e da escola, a mdia opera como agente socializador descontextualizado (SETTON, 2002, p. 69). Tal discusso tambm sugere uma proximidade com o que se chama de conformidade social; esse conceito est relacionado com o de norma. A conformidade ao grupo conformidade s normas do grupo e no aos membros do grupo, individualmente. As normas so, assim, materializadas em leis e regras de conduta, responsveis pela uniformidade do comportamento social. Elas visam a regulamentar a interao. As normas atenuam o conflito, fornecendo consenso e acordo sobre a forma de viver aceitvel em sociedade. Essa a perspectiva consensual da vida social. Mas, se adotarmos uma perspectiva dos conflitos presentes em qualquer interao social, o que permeia a vida em sociedade so as normas, as responsveis ltimas pelos atritos entre os vrios grupos sociais. A 60 norma descreve e avalia o comportamento tpico do membro tpico de um determinado grupo ou categoria social. E tambm prescreve, porque constrange o comportamento, ditando como um membro de um dado grupo se deve comportar em uma dada situao (HOGG; ABRAMS, 1988 apud CAMEIRA, 1997). Para complementar a discusso e alinhando-se teoria do habitus, temos em Goffmam (1975) que a sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas e o total de atributos considerados como comuns e naturais para os membros de cada uma dessas categorias. Os ambientes sociais estabelecem as categorias de pessoas que tm probabilidade de serem neles encontradas. As rotinas de relao social em ambientes estabelecidos nos permitem um relacionamento com outras pessoas previstas sem ateno ou reflexo particular. Ento, quando um estranho nos apresentado, os primeiros aspectos nos permitem prever a sua categoria e os seus atributos, a sua identidade social para usar um termo melhor do que status social, j que nele se incluem atributos como honestidade, da mesma forma que atributos estruturais, como ocupao. (GOFFMAM 1975, p. 5). Ainda de acordo com Goffmam (1975), em todos os exemplos de estigma, [...] encontram-se as mesmas caractersticas sociolgicas: um indivduo que poderia ter sido facilmente recebido na relao social quotidiana possui um trao que pode-se impor a ateno e afastar aqueles que ele encontra, destruindo a possibilidade de ateno para outros atributos seus. Ele possui um estigma, uma caracterstica diferente da que havamos previsto. Ns e os que no se afastam negativamente das expectativas particulares em questo sero por mim chamados de normais. As atitudes que ns, normais, temos com uma pessoa com um estigma, e os atos que empreendemos em relao a ela so bem conhecidos medida que so as respostas que a ao social benevolente tenta suavizar e melhorar. Por definio, claro, acreditamos que algum com um estigma no seja completamente humano. Com base nisso, fazemos vrios tipos de discriminaes, por meio das quais efetivamente, e muitas vezes sem pensar, reduzimos suas chances de vida: Construmos uma teoria do estigma; uma ideologia para explicar a sua inferioridade e dar conta do perigo que ela representa, racionalizando algumas vezes uma animosidade baseada em outras diferenas, tais como as de classe social (GOFFMAN, 1975, p. 7 e 8) H uma ideia popular de que, embora contatos impessoais entre estranhos estejam particularmente sujeitos a respostas estereotpicas, medida que as pessoas se relacionam mais intimamente, essa aproximao categrica cede, pouco 61 a pouco, simpatia, compreenso e avaliao realstica de qualidades pessoais. (GOFFMAM, 1975, p. 46). Argumentando sobre a diferena entre a identidade social e a identidade pessoal, Goffmam (1975, p. 91) ressalta que ambos os tipos de identidade podem ser mais bem compreendidos, se considerados em conjunto e contrastados com o que Erikson (1976) e outros chamaram de identidade do eu ou identidade experimentada, ou seja, o sentido subjetivo de sua prpria situao e sua prpria continuidade e carter que um indivduo vem a obter como resultado de suas vrias experincias sociais. Embora essas filosofias de vida propostas, essas receitas de ser, sejam apresentadas como resultantes do ponto de vista pessoal do indivduo estigmatizado, a anlise mostra que algo mais as informa. Esse algo mais so os grupos, no sentido amplo de pessoas situadas em uma posio semelhante, e isso a nica coisa que se pode esperar, j que o que um indivduo , ou poderia ser, deriva do lugar que ocupam os seus iguais na estrutura social (GOFFMAM, 1975, p. 96). Comeando com a noo muito geral de um grupo de indivduos que compartilham alguns valores e aderem a um conjunto de normas sociais referentes conduta e a atributos pessoais, pode-se chamar destoante a qualquer membro individual que no adere s normas, e denominar desvio a sua peculiaridade. Ainda de acordo com Goffmam (1975, p. 119), Em vrios grupos e comunidades muito unidos, h exemplos de um membro que se desvia, quer em atos, quer em atributos que possui, ou em ambos e, em consequncia, passa a desempenhar um papel especial, tornando-se um smbolo do grupo e algum que desempenha certas funes cmicas, ao mesmo tempo em que lhe negado o respeito que merecem outros membros maduros. Caracteristicamente, esse indivduo deixa de praticar o jogo da distncia social, aproximando-se dos demais e permitindo que eles se aproximem dele. Ele frequentemente o centro da ateno que rene os outros em um crculo participante sua volta, mesmo que isso o despoje do status de ser um participante. Ele serve como mascote para o grupo embora sendo, em alguns aspectos, qualificado como um membro normal. O idiota da aldeia, o bbado da cidade pequena e o palhao do peloto so exemplos tradicionais desse ponto; o gordo fraternal outro. 62 3.2 O trabalho docente a partir das novas formas de socializao e individualizao dos sujeitos Em um mundo constantemente em mutao com profundas transformaes nas telecomunicaes e na informtica, evidente que maneiras de pensar e de conviver tero que ser atualizadas e elaboradas. Nesse sentido, LVY (2004) chama a ateno para o fato de que Na era do planeta unificado, dos conflitos mundializados, do tempo acelerado, da informao desdobrada, das mdias triunfantes e da tecnocincia multiforme e onipresente, quem no sente que possvel repensar os objetivos e os meios da ao poltica? (LECY, 2004, p. 195) J no seria hora de repensar a atuao do professor em sala de aula, tendo em vista essas mudanas tecnolgicas e pelo fato de estar lidando com uma gerao diferente daquela na qual cresceu, viveu e aprendeu a ser professor? Levando-se em considerao a concepo de habitus, na sua prtica pedaggica, o professor partir do princpio que em uma turma heterognea, algumas com alunos muito adolescentes ainda, so vrias as disposies a serem trabalhadas. Algumas disposies permitiro o bom desempenho do aluno e outras precisaro ser construdas para que o seu trabalho tenha xito. A Educao, assim como qualquer outro segmento, precisa ser repensada, transformada, atualizada, tendo em vista as implicaes sociais, econmicas e polticas nas quais ela se insere e que pelas rpidas e constantes mudanas, tambm tem que se adaptar. GENTILLI (2005) j aponta que [...] a ruptura da promessa da escola como entidade integradora comeou a se desencadear de forma definida nos anos de 1980, justamente em um contexto de revalorizao do papel econmico de Educao, da proliferao de discursos que comearam a enfatizar a importncia produtiva dos conhecimentos (inclusive a configurao de uma verdadeira Sociedade do Conhecimento na Terceira revoluo Industrial) e de uma crescente nfase oficial nos aportes supostamente fundamentais que as instituies escolares deviam realizar para a competitividade das economias na era da globalizao (GENTILLI, 2005, p. 49). Xavier (1997, 292) tambm concorda com a ideia de que A cada dia que passa, a Educao se depara com mais e mais problemas internos aos sistemas educativos e externos que, direta 63 ou indiretamente, repercutem no desempenho de suas funes. As reflexes sobre Educao, hoje, exigem, necessariamente, horizonte largo (do local ao mundial), consideraes sobre as relaes entre ela e o seu contexto e uma melhor compreenso do homem e de suas necessidades nessa nova realidade. Nesse sentido, no se pode ignorar a fome e a desnutrio, as doenas por razes diversas, o desemprego, a corrupo, a descrena e a baixa renda, a qualidade da formao dos educadores e demais profissionais da Educao, suas condies de vida e de trabalho, as deficincias estruturais e de gerenciamento dos sistemas educativos (XAVIER, 1997, 292). Com relao s novas formas de pensar o processo ensino-aprendizagem, surge uma indagao de como ser o trabalho do professor dentro dessa sociedade do conhecimento e da informao. Nesse sentido, Hargreaves (2004) argumenta que a sociedade do conhecimento muito importante para se aprimorar os vrios aspectos da vida e que nesse mundo de mudanas e transformaes que os professores de hoje trabalham. Esse autor afirma que Os professores devem preparar seus jovens para ter as melhores chances de sucesso na economia do conhecimento. (...) nossa prosperidade futura depende de nossa inventividade, nossa capacidade de aproveitar e desenvolver nossa inteligncia coletiva para os atributos centrais da economia do conhecimento (HARGREAVES,2004, p. 214). O referido autor aponta que os professores no devem somente aplicar as tcnicas de aprendizagem, mais sim melhor-las e aperfeio-las e tece crticas padronizao educacional ao constatar que [...] a reforma educacional padronizada tornou quase impossvel para muitos professores lecionar para a sociedade do conhecimento ou para alm dela, como parte de uma misso social mais ampla. (...) As escolas profissionalizantes e as escolas desfavorecidas em centros urbanos compreendem rapidamente que seus alunos no tm chance de passar nos exames padronizados que lhes so estabelecidos, ou de se formar com base neles. A padronizao insensvel se torna irrelevante e at mesmo ofensiva a eles. Em um mundo do trabalho em rpida mudana, a Educao profissionalizante est se tornando o continente perdido da adolescncia (HARGREAVES, 2004, p. 214). Sobre as tecnologias do conhecimento, Dowbor (2001) pondera que o papel da escola deve ser menos tradicional e ser mais organizada e estimuladora. Ainda argumenta que 64 [...] o Ensino Superior deveria ser profundamente revisto, medida que poderia buscar maior impacto de mobilizao das transformaes, ultrapassando hoje o seu papel to estreito de formao de elites corporativas. (...) Que o conjunto de adultos profissionais do pas possam passar a ver na Educao Superior um espao permanente de atualizao (DOWBOR, 2001, p. 46). A respeito dos impactos das novas tecnologias na dimenso humana da informao, Takase (2007) pondera que a informao ou deveria ser um direito de todos os seres humanos. Argumenta ainda que O acesso e o uso das informaes permitem ao cidado exercer sua cidadania de forma plena, e assim melhorar sua autoestima, crescer profissionalmente, ajudar no desenvolvimento da comunidade em que vivem, aprimorar seu relacionamento familiar, aumentar seu crculo de amizades, entre outros aspectos da vida humana. A dimenso humana da informao est ligada a todos esses aspectos da vida de uma pessoa que podem ser melhoradas com a utilizao das informaes, e as novas tecnologias de informao e comunicao tm papel fundamental em facilitar esse acesso (TAKASE, 2007, p. 30). Com relao s implicaes das inovaes tecnolgicas no trabalho docente, Campos (2007, p. 7) chama a ateno para o fato de no se compreender tal fato sem antes efetuar um resgate histrico de fatos individuais e sociais que ocorrem nas relaes entre sujeito e uso das inovaes tecnolgicas no contexto do mundo do trabalho acadmico. Politicamente falando, esse processo de transformao provocado por novas tecnologias, faz o Brasil seguir a influncia americana e manter certa frente comparando-se com os demais pases da Amrica Latina. Campos (2007) considera ainda que [...] a inovao tecnolgica, mais especificamente o acesso rede mundial por meio da internet e suas possibilidades de interao virtual, no apenas agente de mudanas na rea do ensino e da pesquisa, mas seu domnio exigncia para melhor adequao das prticas docentes. Isso evoca olhares crticos sobre a realidade, visto que provoca alteraes nos hbitos e padres de consumo, globalizao de referncias culturais, maiores desigualdades sociais e, tambm, reorganizao no processo subjetivo de cada docente (CAMPOS, 2007, p. 9). Mais frente, esse mesmo autor deixa claro que [...] h que se pensar criticamente sobre as formas de apropriao das inovaes tecnolgicas que, se no trazem consequncias diretas sobre a subjetividade do professor, provocam alteraes na 65 organizao dos tempos e espaos, nas relaes do trabalho docente e nos papis associados mediao tecnolgica. Dessa forma, implicam a subjetividade de professores(as) da Educao Superior a ponto de modificar a organizao institucional, a prtica docente, a relao professor-aluno e as relaes e papis institucionais (CAMPOS, 2007, p. 14). Em PIELLE et al. (1996), temos que, infelizmente, s existem alguns indcios de que as prioridades das metas educacionais esto mudando, porque ainda h muitas outras questes sociais bem mais amplas nesse processo. O autor ainda comenta vrias outras tendncias educacionais possveis presentes apenas nos trabalhos a respeito da Educao. Entre tais tendncias, podem ser citadas: 1 crescente parcela da populao envolvida na Educao e crescente parcela da renda nacional destinada Educao. 2 novo papel consciente a ser desempenhado pela Educao na consecuo das metas sociais e no abrandamento dos problemas sociais percebidos. 3 maior envolvimento da Educao em outras instituies sociais e maior relacionamento funcional com elas. 4 extenso da durao do perodo educacional. 5 extenso da Educao indstria, comunidade e ao lar. 6 substituio simultnea do arranjo sequencial da Educao e do trabalho medida que nos encaminhamos para a sociedade do aprendizado. 7 crescente abandono dos mtodos tradicionais de instruo. 8 o abrandamento da competio mediante programas individualizados. 9 uma parcela crescente dos custos do ensino ser obtida e distribuda em bases nacionais. 10 extenso do poder e do controle a novos grupos. 11 crescente desaparecimento da distino entre Educao vocacional e Educao acadmica. 12 maior diferenciao dos papis tendentes a facilitar o aprendizado. 13 movimento no sentido de criar uma atmosfera de aprendizagem partilhada, de atitudes no autoritrias, de respeito mtuo entre professor e aluno e de desprofissionalizao (PIELLE et al.., 1996, p. 83). Assim, a impresso que se tem que tudo se encaminha para uma soluo correta e adequada para todos os problemas educacionais em mbito de Brasil. Mas a realidade que as previses no so muito agradveis. E, na prtica efetiva, muito do discurso demaggico dos polticos e de muitos educadores ainda se configura como uma utopia e bem distante daquilo que se poderia considerar como aceitvel ou adequado. Para finalizar, seria interessante que, nos dizeres de Xavier (1997, p. 301) Na dinmica das sociedades modernas, no importa mais o espao de Educao nem a faixa etria. Aflora cada vez mais a compreenso de Educao como um processo que ocorre ao longo da vida e sucumbe a concepo de um tempo de Educao escolar, 66 na infncia e juventude; um tempo de trabalho, de preferncia em uma nica atividade profissional e um tempo de aposentadoria ou de inatividade espera da morte (XAVIER, 1997, p. 301). Quando isso acontecer em mbito nacional? O conceito de Educao continuada ou de Educao para toda vida deveria ser a nova filosofia quando se trata de Educao, ultrapassando, com isso, uma viso bastante ultrapassada tanto em termos conceituais, quanto em termos de polticas pblicas. Alguns passos iniciais j foram dados. De acordo com o boletim SENAC (1995), os desafios da nova organizao do trabalho fazem da formao educacional uma proposta de Educao que d uma nova dimenso qualidade da Formao Profissional, medida que se apresenta como alternativa de desenvolvimento das competncias bsicas hoje requeridas do trabalhador. Isso implica, necessariamente, a reviso da prtica pedaggica institucional, o que significa superar a influncia da pedagogia tecnicista, tendncia que, por mais de uma dcada, marcou o sistema nacional de Educao especialmente nos aspectos relativos organizao do trabalho escolar, elaborao do material didtico e orientao dada aos cursos de formao de professores (SENAC, 1995). Essa concepo pedaggica, alinhada ao pensamento liberal, parte de anlises parciais da realidade social e, em consequncia, transpe para o campo da Educao a responsabilidade pela soluo dos problemas de ordem estrutural da sociedade. Por desconsiderar as mltiplas determinaes (sociais, econmicas, polticas e culturais) do fenmeno educativo, concebe a Educao como uma prtica autnoma e a escola como a instituio capaz de superar a desigualdade social e promover a construo de uma sociedade harmoniosa (SENAC, 1995). Ressalte-se que, no escopo dessa pedagogia, a improdutividade do sistema e a incompetncia dos indivduos so consideradas causas exclusivas da desigualdade social. Essa premissa leva suposio de que a escola pode se constituir em instrumento de eliminao dessas causas, uma vez que, pela transmisso eficiente de informaes objetivas, precisas e rpidas, consiga preparar indivduos com o nvel de competncia exigido pelo sistema. (SENAC, 1995, p. 8). A concepo crtica da Educao tem seus desdobramentos no mbito da compreenso da relao educao-trabalho. Ao contrrio do enfoque economicista, h, nessa abordagem, a percepo clara de que a Educao no fator 67 determinante do desenvolvimento, embora constitua uma prtica capaz de mediar transformaes na esfera das relaes socioeconmicas. A ideia de que uma formao slida e abrangente provoca alterao qualitativa na compreenso da prtica social e cria maiores possibilidades de interveno na realidade leva concluso de que a Educao, mesmo determinada por fatores de ordem da economia, pode contribuir para a modificao das relaes que permeiam o mundo do trabalho (SENAC, 1995). CAPTULO IV NOVOS TEMPOS, NOVAS GERAES E MUITOS DESAFIOS Este captulo tem como objetivo discutir os conceitos de gerao e de juventude e as mudanas pelas quais esses conceitos tm passado ao longo da Histria da humanidade. Para isso, buscamos apoio em alguns precursores no assunto, como Howe e Strauss, Karl Mannhein, Lombardia, Twenge e outros que embasam a maior parte dos estudos sobre a temtica gerao. Alm desses autores, buscamos tambm fazer um levantamento da literatura brasileira sobre o tema. A maioria desses estudos fruto de pesquisas de institutos e estudos geracionais direcionados para a rea de marketing em forma de artigos, dissertaes e teses acadmicas. Busca-se, neste captulo, apresentar algumas abordagens dos estudos geracionais, especificamente a Teoria das Geraes de Howe e Strauss, j que esse um estudo bastante recente em que os autores fazem um detalhamento das geraes do continente americano ao longo de dois sculos. Um dos parmetros utilizados para classificar cada gerao foi o cenrio vivido em cada poca. Para completar a anlise, os autores buscaram representar as geraes com personalidades masculinas e femininas que marcaram a poca, e finalizam a abordagem com o arqutipo resultante do comportamento de cada uma das geraes. Tambm apresentada a discusso sociolgica de gerao de Karl Mannhein, no intuito de e caracterizar, por meio de diferentes estudos, as diferentes geraes para, a partir da, trazer tona um maior detalhamento da Gerao Y, objeto de estudo deste trabalho. A teoria de Karl Mannhein , na viso de Domingues (2002, p. 69), a mais completa tentativa de explicao do tema e, por isso, tem sido muitas vezes citada por se tratar de um clssico. Nesta discusso, um tpico aborda a questo da individualizao do ser, j que essa a caracterstica mais marcante e a que mais aparece na definio e caracterizao da Gerao Y. 69 4.1 Gerao e Gerao Y: desafios de conceituao Tem havido, nos ltimos anos, um aumento significativo no nmero de estudos que abordam o tema gerao. Grande parte desses estudos tem como critrio para a caracterizao de uma gerao o perodo em que ela viveu, ou seja, o que a define o conjunto de vivncias comuns, vises de mundo etc. que seriam compartilhadas pelos indivduos que viveram em um mesmo perodo histrico. (LOMBARDIA et al. 2008). Especificamente, quando o tema Gerao Y, no ambiente no acadmico, possvel encontrar um aumento significativo no nmero de buscas. Essa popularidade pode ser percebida por meio de uma rpida busca pelo termo, em Portugus ou em Ingls, nos principais portais de grandes redes de comunicao brasileiras e nos principais sites de busca do mundo, conforme Tabela 1: TABELA 1 Resultados de busca no Google sobre Gerao Y Anos Resultados no Brasil Resultados em Portugus Resultados na web (generation Y) 2000 13 700 14 200 33 500 1002 19 400 20 500 26 000 2004 12 700 11 500 41 000 2006 29 300 32 900 110 000 2008 102 000 160 000 541 000 2001 539 000 506 000 1 580 000 2011 (27 de junho) 463 000 647 000 3 000 000 Fonte: Rgnier (2013) Isso acontece tambm no ambiente acadmico. Com a entrada dessa gerao no mercado de trabalho, as publicaes sobre o tema comeam a se intensificar, abrindo um novo debate a respeito principalmente das relaes de trabalho. Mesmo que em quantidade no muito grande, publicaes de diversas origens aparecem com certa frequncia em peridicos internacionais. No Brasil, o tema comeou a ganhar espao muito recentemente, sendo encontradas algumas publicaes sobre o assunto, das quais, a maioria relacionada rea de Administrao de Empresas. Cabe-nos reforar aqui a ideia de que no legtimo caracterizar uma pessoa somente pelo fato de ela pertencer a essa ou quela gerao. O grupo geracional a que um indivduo pertence apenas mais uma das muitas variveis que se precisa 70 considerar na sua caracterizao, ao lado do gnero, da idade, do nvel de escolaridade, da classe social, condio socioeconmica. Sabendo disso, diversos autores, da Economia Psicologia, passando pelo marketing e pela Sociologia, tm encontrado diferenas sistemticas entre grupos de pessoas com base em fatores geracionais como, por exemplo, Strauss e Howe, 1991; Reeves, 2008; Tapscott, 1998; Twenge, 2006. Valente (2011), buscando caracterizar a Gerao Y, levanta alguns problemas que dificultam essa caracterizao. Segundo a autora, um desses problemas est relacionado definio do que gerao. Buscando esclarecer alguns pontos referentes ao tema, tratamos de apresentar alguns conceitos mais utilizados na literatura, que se situam na perspectiva dessa investigao, referentes ao que se apresenta como gerao e, especificamente, como Gerao Y. 4.1.1 Gerao Jeffries e Hunte (2007), ao tratarem do conceito de gerao, dizem que representam um grupo de pessoas nascidas em determinado perodo e que [...] podem compartilhar experincias comuns no processo histrico e social, e em um estgio similar de sua vida, predispem-se para uma modalidade comum de pensamento e experincia, e a um modo comum de comportamento. As geraes compartilham vnculos e experincias histricas formando um estado coletivo de geraes e de experincias com a capacidade de reagir e/ou de dar respostas de forma semelhante (JEFFRIES; HUNTE, 2007 apud BATISTA, 2010, p. 23). J Rogler (2002) apresenta como conceito popular de geraes o grupo de pessoas que tm, aproximadamente, a mesma idade. Outros autores, como Gronbach (2008) e Lancaster e Stillman (2002), consideram que cada gerao corresponde a um perodo pr-determinado de vinte a vinte e poucos anos, que o tempo mdio desde o nascimento at a poca reprodutiva. J para Meredith, Schewe e Karlovich (2002), o que define uma gerao so os eventos histricos e, assim, a durao de cada gerao deixa de ser fixa. Strauss e Howe (1991) concordam com o estabelecimento da mdia de vinte anos para cada gerao, mas acrescentam a necessidade de um evento ou acontecimento que permita essa caracterizao. Esses autores afirmam a existncia 71 de um ciclo geracional, que passaria por um processo de renovao a cada 22 anos. Esses ciclos foram denominados de perodos ou eras. As crianas nascidas durante um perodo especfico compartilham experincias histrico-culturais similares e isso faz com que essas crianas adquiram semelhanas entre si, que as diferenciam das crianas de outras geraes. Segundo os autores, h quatro ciclos geracionais que se repetem em sequncia ao longo do tempo e, em funo desses ciclos, os comportamentos e os traos das futuras geraes podero ser previstos. Forquim (2003) destaca trs compreenses do termo gerao. Em primeiro lugar, o autor afirma que gerao pode ser compreendida no sentido de genealogia, destacando as relaes de filiao (primeira gerao, segunda gerao...) J em segundo lugar, o termo gerao remete ideia de idade de vida, da as expresses jovem gerao ou gerao dos adultos. Por fim, a terceira compreenso de gerao refere-se ao seu sentido scio-histrico, utilizado, geralmente, para demarcar uma determinada gerao histrica, como a gerao de 1968, a gerao das Diretas J. O autor ainda destaca que o conceito de gerao na viso histrica e sociolgica refere-se a um conjunto de pessoas que nasceram mais ou menos na mesma poca e que viveram experincias histricas parecidas ou que possuem semelhanas culturais. Nesse sentido o autor considera Uma aproximao desse emprego da palavra gerao com o uso que fazem os demgrafos do termo de corte (equivalente, no Brasil, `a palavra turma), o qual designa um conjunto de indivduos nascidos no mesmo ano (ou, por extenso, caracterizados por um mesmo evento por exemplo, o ano de incio do curso secundrio ou da obteno de um diploma ocorrido no mesmo momento e podendo servir de ponto de partida em um estudo comparativo de tipo longitudinal) (FORQUIM, 2003, p. 3) O autor ainda coloca que, conceitualmente, gerao no diz respeito a apenas pessoas da mesma idade e/ou que tenham nascido na mesma poca, mas que foram influenciadas, modeladas pelos acontecimentos dessa poca seja de carter poltico, educativo, cultural. Gerao diz respeito a pessoas que se desenvolveram e receberam um conjunto de conhecimentos semelhantes, ou seja, vo perpetuando valores em comum que podem ser denominados de sentimento de gerao ou conscincia de gerao. (FORQUIM, 2003, p. 4) Esse mesmo autor refora a dificuldade colocada por Valente (2011), no sentido de se definir e/ou caracterizar uma gerao quando afirma que, na sociedade ps-industrial, as transformaes pelas quais o indivduo passa no 72 decorrer de sua vida tm assumido uma tendncia inesperada e geral. A tecnologia, as transformaes econmicas sbitas e o acesso a todos os tipos de informao tm afetado diretamente a relao entre as geraes, j que os modelos de comportamento das geraes anteriores deixam de ser modelos para geraes mais novas, que se mostram muito mais bem informadas, mais competentes e muito mais adaptadas realidade do que as geraes anteriores. No passado, sempre havia adultos que sabiam muito mais coisas do que qualquer criana, pelo fato de terem crescido no interior de um sistema cultural. Hoje no existe mais nenhum. No s porque os pais deixaram de ser guias, mas tambm porque no existem mais guias, por mais que se procure por eles no seu prprio pas ou no exterior. Nenhum adulto de hoje sabe do nosso mundo o que dele sabem as crianas nascidas no decorrer dos ltimos vinte anos (FORQUIM, 2003, p. 8) O autor chama esse contexto de era pr-figurativa da cultura. Essa era se caracteriza pelo fato de que todos os indivduos se parecem com imigrantes totalmente estranhos a essa nova terra que eles abordam. Uma terra em que as antigas ferramentas, os antigos pensamentos se tornaram obsoletos e em que muito melhor ser um jovem sem bagagem do que um adulto atravancado pela memria de um mundo irremediavelmente perdido (FORQUIM, 2003, p. 4) Nesse novo cenrio, a ocorrncia de conflitos entre geraes quase inevitvel, j que a convivncia com indivduos pertencentes a uma gerao diferente da nossa uma realidade. Sobre isso Oliveira (2010) afirma que O momento atual oportuno para reflexes sobre as geraes, pois estamos vivendo uma circunstncia singular em nossa Histria. a primeira vez que cinco geraes diferentes de pessoas convivem mutuamente, em nmeros significativos, de forma consciente, interferindo e transformando a realidade (OLIVEIRA, 2010, p. 40). Zemke (2008) afirma que os ambientes organizacionais esto repletos de vozes, de vises e de estilos de aprendizagem conflitantes, das foras de trabalho mais variadas que o mundo industrializado j conheceu. 73 4.1.1.1 Karl Mannheim: conceito sociolgico de gerao Tomikazi (2010) afirma que o sculo XIX traz em seu bojo alguns dos primeiros estudos sobre geraes, quase todos com uma abordagem historiogrfica, relacionando o conceito de gerao aos movimentos histricos, com nfase nas transformaes sociais. Entre esses estudos, destaca-se o de Karl Mannheim Das Problem der Generationen de 1928, que apresenta uma das principais contribuies para a compreenso do conceito de geraes. Mannheim defendia que o fenmeno geracional deveria ser concebido como um tipo particular de situao social, e, portanto, somente a abordagem sociolgica poderia dar conta de interpreta-lo em sua complexidade. Para delimitar quais so os fatores estruturais do fenmeno geracional, o autor prope, em seu texto, uma experincia mental, um exerccio de imaginao que partiria da seguinte indagao: como seria a vida social se uma gerao vivesse eternamente e jamais fosse substituda por outra? (TOMIKAZI, 2010, p. 330) (grifos do autor) Ainda segundo o autor, Mannheim considerava que experincias mentais como essa podem ser teis para isolar os fatores mais importantes dos fenmenos sociais j que as cincias sociais no podem lanar mo da experimentao. Respondendo ao questionamento posto, Mannheim apud Tomikazi (2010, p. 331) afirma que [...] somente se esses homens utpicos dispusessem de uma conscincia utpica, se eles vivessem tudo que pode ser vivido, se eles pudessem saber tudo que pode ser conhecido e se eles dispusessem da flexibilidade necessria a um eterno recomeo, que a ausncia de sucesso de geraes seria, em parte, compensada (MANNHEIM apud TOMIKAZI,2010, p. 331)). Assim, conclumos que, para o autor, quase impossvel que essa sociedade imaginria tenha possibilidade de inovao. Para o autor a sucesso geracional um problema que atinge todas as sociedades, j que diferentes geraes precisam conviver juntas, cada uma com um grupo de atores com caractersticas prprias. So diferentes grupos juntos que tm que conviver com o aparecimento e com o desaparecimento de novos agentes culturais. Assim, o processo histrico vivenciado apenas parcialmente em cada grupo geracional, que faz sua interpretao desse processo a partir das experincias que traz consigo. H necessidade de que as geraes anteriores transmitam bens culturais que foram acumulados e haver uma sucesso permanente de geraes, 74 fazendo-se assim, uma sucesso de elementos que devem ser considerados quando se pretende fazer um estudo geracional (MANNHEIM, 1990). Mannheim (1990) considera que, para compreender as mudanas sociais, as formas de pensar e de agir de uma poca, essencial que se tenha a Gerao como dimenso analtica. As geraes podem tanto formar produtos, formas de pensar como tambm podem ser produtos de uma mudana gestada pela gerao anterior. Nessa anlise, o que determina uma gerao no se relaciona com tempo cronolgico ou a data de nascimento. Segundo o autor, no h um padro temporal para a formao de uma gerao. O tempo somente uma demarcao potencial. O que aproxima os jovens de uma mesma gerao, de uma mesma faixa etria, so os eventos histricos. Assim, esses eventos histricos funcionam como marcadores, formando-se a ideia do antes e do depois dele na vida social. Isso porque um mesmo evento interpretado por pessoas de diferentes faixas etrias de forma diferente, em funo dos diferentes momentos de socializao que esses grupos vivenciam. Grandes ou pequenos, lentos ou rpidos, naturais ou artificiais, econmicos, polticos ou culturais; qualquer que seja a natureza de um evento histrico, ele muda a realidade e o modo de vida anterior e as experincias acumuladas tornam-se sem sentido. Tomikazi (2010), comentando as palavras de Mannheim, afirma que Os indivduos, para pertencerem a uma gerao, devem ter em comum uma mesma situao scio-histrica ou uma mesma condio de existncia que norteie e delimite (evidentemente, de forma desigual) suas possibilidades de acesso aos bens materiais e simblicos disponveis nas sociedades. A transmisso dos contedos sociais sempre orientada de acordo com os grupos sociais aos quais os indivduos esto ligados, mesmo nos casos em que os mesmos contedos so oferecidos ou esto acessveis a todos os membros da sociedade (TOMIKAZI, 2010, p. 333) Dessa forma, percebe-se que, na viso de Mannheim, para fazer parte de uma gerao, necessrio pertencer a um grupo especfico, e isso no s aderir aos valores que lhes so prprios, mas tambm ter a capacidade de perceber o mundo e de se entender no mundo com os instrumentos e as nuances prprias a esse grupo. Segundo Tomikazi (2010), os estudos de Mannheim diferem dos estudos de outros autores em dois pontos fundamentais: primeiramente, porque sua posio contrria a perodos regulares para o estabelecimento do coortes geracionais e, 75 segundo, porque leva em conta o movimento de sucesso das geraes, que estaria ligado mudana social, ou seja, a dinmica social se acelera com a ao de criao e transformao dos impulsos de geraes. Attias-Donfut (1988, 2000 apud TOMIKAZI, 2010) critica a ideia atribuda a Mannheim, segundo a qual eventos fundadores confeririam singularidade s geraes. Segundo a autora, relacionar uma gerao a um evento ou a um momento histrico especfico pode fix-la a um s perodo de sua formao e essa cristalizao levaria, consequentemente, ao ocultamento das influncias histricas ulteriores e das marcas impressas sobre essa gerao ao longo da totalidade do seu percurso. A autora ainda considera que, mesmo em perodos sem grandes transformaes sociais, econmicas ou polticas de grande vulto, assistimos constantemente formao de novas geraes. Os acontecimentos, nessa perspectiva, sobretudo aqueles que tm importncia maior, afetariam todos os membros de uma sociedade: eles seriam, por definio, multigeracionais e a profundidade da marca que eles poderiam deixar tem relao com o nvel de exposio de uns e de outros, segundo sua idade e situao de classe, mas tambm segundo sua situao de ator, testemunha ou vtima.(TOMIKAZI, 2010. p. 337) Assim sendo, podemos tomar as mudanas sociais como determinantes da formao de conjuntos geracionais que, de fato, podem ser tomados como tal pela novidade que apresentam em relao s geraes anteriores. A definio sociolgica de gerao proposta por Mannhein(1928, 1990) aponta que somente as transformaes sociais so capazes de apresentar desafios suficientemente significativos a ponto de provocarem o surgimento de novos comportamentos e atitudes nos grupos sociais. Para esse autor, novas geraes trazem uma nova abordagem sobre o mundo, o que significa novas atitudes na apropriao, transformao e desenvolvimento do que existe. 76 4.1.1.2 Strauss e Howe e sua Teoria das Geraes Strauss e Howe (1991) desenvolveram a Teoria das Geraes a partir de uma pesquisa na qual analisaram as geraes desde o ano de 1584 at as geraes futuras, no ano de 2069. Segundo essa teoria, historicamente embasada, a sucesso de geraes se d de forma cclica. Inicia-se com a proteo dos pais, que anseiam por ver seus filhos compensados das falhas que eles os pais identificam em sua infncia. Desejam dar gerao seguinte o que eles no tiveram. Consequentemente, a gerao seguinte se torna superprotetora com suas crianas e, por conseguinte, a prxima gerao assume a postura de diminuir esse estmulo. Strauss e Howe (1991) apontam que as geraes so frutos da existncia ou no da interao parental, assim como dos principais movimentos sociais que ocorrem durante o perodo em que viveu uma gerao. Os autores deixam claro que a Histria no se d de forma linear, mas deixam claro que a existncia de um ciclo natural quando se podem perceber padres regulares no curso de diferentes sociedades, quando repetem uma vez a cada quatro geraes. Ainda de acordo com os autores, o conceito de sculo utilizado para representar o tempo de quatro geraes j que cada uma tem durao aproximada de 22 anos. A teoria das geraes proposta pelos autores apresenta uma caracterstica para cada uma das quatro geraes sendo idealistas, reativos, cvicos e adaptativos e essas diferentes geraes tm em comum o fato de atravessarem quatro etapas ao longo de sua existncia: a infncia, a idade adulta, a meia idade e a idosa. Assim sendo, quando a gerao idosa abandona a vida pblica, logo substituda por uma gerao de crianas com caractersticas semelhantes. A esse respeito, Batista (2010, p. 24) afirma que D - se a denominao de giro, turning em ingls, ao alinhamento decorrente dos tipos de geraes. A mudana est atrelada ao exerccio das atividades desenvolvidas por uma gerao que exerce forte influencia sobre o desenvolvimento do processo histrico e nas interaes sociais que so estabelecidas no cotidiano social. possvel identificar que a gerao mais velha exerce no processo de mudana e/ou de giro um controle sobre os eventos do processo histrico e o resultado das interaes sociais diferentemente da gerao mais nova e/ou caula (BATISTA,2010, p. 24). 77 Para Strauss e Howe (1991), o primeiro desse giro recebe a denominao de alto. No giro alto uma determinada gerao utiliza-se da fora bruta para implantar projetos de abrangncia nacional. Aqui a sociedade apresenta organizao, mas um perodo de autoritarismo, e de enfrentamento a tudo que se ope ao projeto que se deseja implantar. J o segundo, de acordo com os autores, denominado giro de despertar. aqui que se apresentam os idealistas, em sua maioria, jovens que esto entrando para a vida adulta e que no concordam com o estado atual da sociedade e, a partir da, tecem crticas ao conjunto social no qual esto inseridos. Tem-se, com esses jovens, o estabelecimento de relaes de protesto e de confronto com o que se est estabelecido socialmente. comum a participao desses grupos em greves, paralisaes ou outros eventos semelhantes. As discusses polmicas, muitas vezes abafadas pelas geraes anteriores, so novamente retomadas e passam a fazer parte das reivindicaes. Um esprito mais criativo tende a se manifestar por meio das artes. Desvendar a denominao do terceiro grupo. Aps o despertar do segundo giro, h um amadurecimento dos indivduos que os leva a se dedicarem a atividades com objetivos pessoais. a gerao cvica que procura adaptar-se s interaes sociais com regras cada vez mais claras e um conjunto mais complexo de regras e leis. Esse processo nem sempre acontece de maneira tranquila e muitos valores, aes, atitudes e heris pblicos podem ganhar fora. Finalmente, segundo Strauss e Howe (1991), o quarto giro denominado de crise. Aqui h um conjunto de esforos, no sentido de se solucionar determinadas crises que podem colocar a ordem social em risco. Busca-se reescrever ou apresentar novos modelos de contrato social s prximas geraes. Nesse momento, comum as geraes mais idosas e idealistas buscarem aspiraes e solues no tempo de sua juventude, como soluo para os problemas sociais, o que confronta com a gerao reativa que v nas lideranas de meia idade o modelo para os mais jovens. Assim, h constantemente uma necessidade social de se observar a tomada de decises frente aos grandes desafios postos pelo contexto e de se tolerar mais os erros cometidos ao longo do processo. Analisando a sociedade americana, os autores afirmam que os Estados Unidos passaram pelo primeiro giro (alto) entre 1945/1963. O despertar foi entre 1963 e 1984. O terceiro giro a partir de 1984 e, atualmente, cogita-se a ocorrncia 78 do quarto giro, ou seja, a crise. Ao longo da Histria americana, os autores citam a Guerra da Independncia, a Guerra Civil, a Grande Depresso e a Segunda Guerra Mundial como exemplos. Batista (2010), fazendo uma anlise da teoria das geraes de Strass e Howe afirma que possvel identificar que a denominada gerao idealista e/ou os Baby Boomers esto prestes a ingressar nos ltimos anos de controle da vida poltica e pblica. Acrescenta-se que a gerao adaptativa e/ou "silenciosa" est comeando a desaparecer do campo de influncia poltica e pblica. A denominada "Gerao X" a partir de sua vida adulta, j no conseguem enfrentar as demandas de crise. Entretanto, observa-se um crescimento da gerao de jovens e/ou a denominada Gerao Y ansiosa em colocar em prtica projetos que so apresentados como necessrios sociedade (BATISTA, 2010, p. 26). Analisando o quarto giro apresentado na Teoria das Geraes, complementa que Muitas anlises identificam que os recentes distrbios financeiros podem ser interpretados como um pressgio de uma crise clssica de giro, pois muito dos acordos estabelecidos no passado so abandonados pela necessidade de uma veloz e decisiva ao pblica como, por exemplo, o apoio das instituies financeiras. Um outro exemplo atual foi a necessidade de mudana e esperana manifestado por um novo esprito cvico expressado na campanha presidencial de Obama, atual presidente dos Estados Unidos. Durante o processo, a sociedade norte americana acreditou na possibilidade de sair de um governo dividido para a instalao de um novo regime com caractersticas de partido nico, que algo caracterstico do quarto giro (BATISTA, 2010, p. 26). 4.2 Individualismo e coletivismo na caracterizao da Gerao Y Um dos rtulos que a Gerao Y tem recebido, entre tantos outros, o de individualista. Horas gastas na internet, em jogos de estratgia, fazendas virtuais e 79 todos os tipos de chats8, diminuram de fato o tempo de convivncia familiar dos jovens. O fato de viverem em uma bolha virtual j tem gerado, inclusive, especulaes de que essa gerao no entende mais as expresses corporais ou o contato visual. Nesse caso, o individualismo coloca-se contra o coletivismo. Mas, recentemente, alguns eventos tm mostrado o contrrio, provaram que o jovem quer e busca aes coletivas, desde que encontre um sentido para faz-las. Ele pode no comparecer ou reclamar de ir a uma reunio para discutir os problemas da escola, reclamar de ter que participar de um evento empresarial ou no se mostrar disposto a comparecer festa de aniversrio da tia, mas no se espante se ele aceitar convites para interagir com pessoas de todos os lugares do mundo, de diferentes nacionalidades e culturas, seja em um evento de tecnologia, ou em uma festa em que cada um dana ao som de seu prprio i-Pod. Tratando da caracterizao da Gerao Y Valente (2011, p. 24) afirma que As caractersticas pessoais comuns levantadas na literatura, tais como autoconfiana, foco no sucesso pessoal, independncia, imediatismo, autenticidade ou relaes numerosas conduzem para um ponto em comum: elas tendem a caracterizar comportamentos que valorizam a igualdade (liberdade de escolha, tolerncia diversidade), bem como o foco nas conquistas pessoais (autoconfiana, impacincia, consumismo). Na verdade essas caractersticas representam algumas das bases das culturas individualistas, em que a independncia prevalece sobre o pertencimento a grupos especficos e as pessoas, em princpio indistintas, tm seu valor associado s suas conquistas pessoais (VALENTE, 2011, p. 24). Segundo esse autor, a origem do conceito de individualismo atribuda por alguns autores Grcia Antiga. A autora cita ainda outros autores Ver Han e Shavit, 1994 que relacionam o conceito Revoluo Francesa e Gerlfand, Triandis e Chan (1996) que afirmam que filsofos polticos dos sculos XVIII e XIX foram os primeiros a expressar ideias do individualismo, do coletivismo e do autoritarismo. Para esses filsofos, individualismo quase sinnimo de liberalismo, incluindo mxima liberdade ao indivduo. 8 Um chat, que em portugus significa conversao, ou bate-papo (termo usado no Brasil) um neologismo para designar aplicaes de conversao em tempo real. 80 J para Damasceno (2013, p. 1), o individualismo um conceito que exprime a afirmao do indivduo ante a sociedade e o Estado. A tnica do individualismo funda-se na liberdade, na propriedade privada e na limitao de poder. Dumont (1985) coloca ao lado do conceito de um indivduo que constitui o valor supremo caracterizando o individualismo teremos o indivduo que se encontra na sociedade como um todo, caracterizando o holismo. Para Hayek (1977, p. 15) O Individualismo tem hoje m-fama, associado a egosmo ou egotismo. Mas o individualismo do qual falamos em oposio a socialismo e a todas as outras formas de coletivismo no possui nenhuma conexo necessria com aquelas acepes. [...] Mas as caractersticas essenciais do individualismo [...] so o respeito pelo homem individual na sua qualidade de homem, isso , a aceitao de seus gostos e opinies como sendo supremos dentro de sua esfera [...]. (HAYEK, 1977, p. 15). Triandis (2001) afirma que o individualismo pode ser definido da seguinte forma: Em sociedades individualistas, as pessoas so autnomas e independentes dos seus grupos de referncia; do prioridade para seus objetivos pessoais em relao aos objetivos do grupo, comportam-se essencialmente com base em seus propsitos em detrimento das normas do grupo e a teoria da troca prev adequadamente seu comportamento social (TRIANDIS, 2001 apud VALENTE, 2011, p. 25). A autora esclarece que, segundo Triandis (2001), o que define a diferena primordial entre o individualismo e o coletivismo, sua contraparte, a (in)dependncia em relao ao grupo de referncia. Segundo a Valente (2011, p. 26), uma boa representao visual dessa diferena entre individualismo e coletivismo dada na Figura 1, que mostra o indivduo, no coletivismo, como parte inseparvel do grupo, enquanto, no individualismo, ele existe como uma clula independente e as relaes com os grupos com os quais ele interage mantida a distncia. 81 FIGURA 1 Representao visual: coletivismo x individualismo Fonte: Valente (2011, p. 25) Como pode ser observado, no coletivismo, a unidade bsica de sobrevivncia est em um ou em vrios grupos, enquanto no individualismo o que impera o si mesmo. No coletivismo, esse si mesmo definido em termos do pertencimento ao grupo como parte inseparvel. Assim como nas sociedades liberais, o individualismo tem por princpio a liberdade, a independncia, a competitividade, a autoconfiana. No individualismo, as pessoas preocupam-se com o seu bem-estar e, para conseguir isso, desenvolvem uma identidade independente, priorizam o interesse prprio, independentemente das demandas sociais. O indivduo quer ser nico, valoriza o xito, definindo-se com base em caractersticas e conquistas pessoais. Sobre isso, Valente (2011) considera que Em geral, no individualismo, as pessoas pertencem a diversos grupos e mantm uma distncia emocional desses. Em ltima instncia, sua obrigao com a sociedade como um todo, no com grupos especficos. O mais importante a ser destacado nessa questo que, no individualismo, no h, necessariamente, uma necessidade de isolamento do indivduo. O que muda a forma de relacionamento. A partir do momento em que a pessoa tem acesso a diversos grupos, ela permite maiores possibilidades de escolha e, portanto, menor dependncia de cada grupo especfico (VALENTE, 2011, p. 100). De acordo com Vieira (2003, p. 8), para se estudar a relao entre o indivduo e a sociedade, devemos considerar, antes de tudo, o tipo de configurao ou de 82 representao social que regula as sociedades. Essas estruturas sociais so responsveis diretas pela compreenso que o indivduo tem de si e do mundo e que, por sua vez, tambm so reguladas pela relao espao temporal que estabelece com seu contexto. Morris et al. (1994), analisando os aspectos desfavorveis do individualismo, afirmam que uma pessoa individualista passa por cima de outra, a fim de conseguir seu objetivo; tende a ter menor lealdade; acredita que conflitos interpessoais devem ser estimulados e possui um estresse pessoal considervel. Em virtude disso, pode-se afirmar que, para entendermos o termo individualismo no contexto em que se insere a Gerao Y, precisamos entender as estruturas sociais em que os indivduos dessa gerao se encontram, assim como entender a interao deles com o meio. A esse respeito Vieira (2013) afirma Uma pessoa no nasce com as caractersticas tpicas do individualismo, ou qualquer outra que seja externa ao seu desenvolvimento biolgico, mas adquire determinados hbitos na relao que estabelece com as ideias e prticas que se encontram disseminados na cultura em que vive 9VIEIRA, 2013, p. 8). Assim, possvel considerar que a Gerao Y carrega traos de individualismo, e a explicao para essa caracterstica, segundo Oliveira (2012, p. 1) As pessoas nascidas na dcada de 1980, que constituem a chamada Gerao Y, vivenciaram duas realidades que tero consequncias em suas vidas futuras: o aumento da expectativa de vida e a individualizao. Esses jovens beneficiaram-se do conforto que seus pais no desfrutaram (quarto individual, brinquedos caros, televiso prpria, internet, celular, escola) e passaram a adiar as consequncias do processo de vida, ingressando no mercado de trabalho, na maioria dos casos, depois de conclurem o curso universitrio (OLIVEIRA, 2012, P. 1). 4.3 As geraes anteriores Y Um ponto comum no estudo das geraes a ideia de que cada gerao est sujeita a eventos especficos e nicos que moldaro sua personalidade para sempre. Valente (2011) apresenta uma tabela com a classificao das geraes bem como o perodo de nascimento na viso de alguns autores: 83 TABELA 2 Relao das classificaes de geraes AUTORES GERAO NASCIMENTO Howe e Strauss GIS Silents (Gerao Silenciosa) Boomers (Trabalhadores Tradicionais) Millennials (Pessoas que viveram na virada do milnio) 1901-1924 1925-1942 1961-1981 1982-2010 Meredith, Schewe e Karlovich Depression Cohort (Coorte - Grande Depresso) World War II Cohort (Coorte - Segunda Guerra) Post War Cohort (Coorte - Ps-Guerra) Leading-edge Baby Boomer cohort (Coorte primeiras crianas do perodo Ps-Guerra otimistas) Trailing-edge Baby Boomer cohort (Coorte crianas nascidas em um perodo de recesso, gerao perdida) Generation X (Gerao X) N Generation cohort (Coorte - Nova Gerao) 1912-1921 1922-1927 1928-1945 1946-1954 1955-1965 1966-1976 1977- Lancaster e Stillman Tradicionalistas Boomers (Trabalhadores Tradicionais) Xers (integrantes da Gerao X) Millenials (nascidos na virada do milnio) 1900-1945 1946-1964 1965-1984 1981-1999 Gronbach GIS (Grande Gerao) Silents (Gerao Silenciosa) Boomers (Trabalhadores Tradicionais) Xers (integrantes da Gerao X) Generation Y (Gerao Y) 1905-1924 1925-1944 1945-1964 1965-1984 1985-2010 Pew Research Institute Greatest Generation ( A maior Gerao) Silent Generation (Gerao Silenciosa) Baby Boomer (Filhos dos Trabalhadores Tradicionais, nascidos no perodo Ps-Guerra) Generation X (Gerao X) Millennials (Nascidos na virada do milnio) 1900-1928 1928-1945 1946-1964 1965-1980 1980-1991 Fonte: Valente (2011, p. 52) Cabe Gerao Y, segundo Oliveira (2010, p. 46) modificar profundamente os paradigmas e premissas estabelecidos. Dessa forma, no h como considerar essa gerao isoladamente, fora do contexto na qual se insere. Concordando com Zenke (2008) quanto multiplicidade de geraes convivendo juntas, h que considerar as caractersticas que formaram as geraes anteriores e que interferem diretamente no funcionamento da sociedade e que, apesar das especificidades da Gerao Y, ainda carrega resqucios das anteriores. Considerando a diversidade de denominaes das geraes presentes na literatura, adotaremos aqui a diviso apresentada por Oliveira (2010). O autor acompanha a diviso apresentada por Lancaster e Sttilman (2002) 84 Tradicionalistas, Boomers, Xers e Millenials, mas com diferentes denominaes - Belle poque9, Baby Boomers, Gerao X e Gerao Y. 4.3.1 Gerao belle poque/ tradicionalistas Segundo Oliveira (2010), as pessoas nascidas entre 1920 e 1940 fazem parte dessa gerao; j para Lancaster e Sttilman (2002) so as pessoas nascidas entre 1900 e 1940. As crianas nessa gerao, tambm conhecida como gerao tradicional, segundo Oliveira (2010) cresceram vendo o mundo mergulhado em uma grande depresso econmica, com famlias imigrando em busca de trabalho ou fugindo da intolerncia poltica provocada pela Guerra Mundial. Valente (2011) afirma que as pessoas dessa gerao so os participantes da Segunda Guerra e que a crise, vivida em perodo to marcante, f-las desenvolver um senso de valor distinto de outras geraes, tanto em termos financeiros quanto em valores morais. As dificuldades vividas no perodo provocaram nessa gerao uma preocupao excessiva com segurana financeira e a levaram valorizao da segurana no trabalho. Meredith, Schewe e Karlovich (2002) apud Valente(2011) descreveram os calores dessa gerao, sendo: - Praticidade: todo mundo precisa de um senso de propsito; - Guardar para um dia chuvoso: seja conservador no que diz respeito a dinheiro; - Economia e segurana: a segurana deve ser garantida; - Amigos e familiares: conectividade social vital; - A boa vida: conforto e comodidade so bons luxos, no requisitos para viver. Oliveira (2010) caracteriza os jovens dessa gerao como dotados de compaixo e de solidariedade, consequncia das guerras, das catstrofes, das 9 Segundo Ortiz (1991) Belle poque uma expresso francesa que significa bela poca. Foi um perodo de cultura cosmopolita na Histria da Europa que comeou no fim do sculo XIX (1871) e durou at a ecloso da Primeira Guerra Mundial, em 1914. 85 crises, das destruies e das perdas na guerra ou na imigrao em busca de trabalho. Seu objetivo primeiro era a reconstruo da estrutura social e econmica e isso os fez mais diligentes no trabalho. Ainda segundo o autor, os conceitos de fidelidade ao trabalho e fidelidade matrimonial fundiram-se e tornaram-se dogmas sociais, nos quais a dissoluo do relacionamento no era considerada em nenhuma hiptese. Tanto o casamento quanto o emprego passaram a ser at que a morte os separasse. Valente (2011) caracterizou essa gerao como Uma gerao que valoriza o trabalho bem feito com um fim, que considera o trabalho em equipe, j que se sentem unidos pela experincia da Guerra, bem como a camaradagem o respeito pela autoridade e, principalmente, a lealdade. So vistos como uma gerao honrada de heris cvicos, que construiu instituies poderosas e duradouras, infraestrutura e dominou a poltica e a economia at idades avanadas (VALENTE, 2011, p. 54). Howe e Strauss (2000) afirmam que essa gerao, como pais, queriam que seus filhos (Boomers) desenvolvessem independncia, criatividade e, se necessrio, coragem para desafiar a autoridade radical. 4.3.2 Baby Boomers Para Oliveira (2010), a Gerao Baby Boomers10 refere-se s pessoas nascidas entre 1945 e 1960, em um perodo marcado pela euforia mundial diante de um cenrio bastante positivo no Ps-Guerra, resultando em um grande nmero de nascimentos de crianas Baby boom evento que batizou essa gerao. Segundo o autor, essa gerao acabou no ano de 1964, com o surgimento da plula anticoncepcional, depois de 80 milhes de nascimentos, aproximadamente. Para Santos et al. (2011), os nascidos nessa gerao so pessoas motivadas, otimistas e workaholics [pessoas viciadas em trabalho]. Nasceram no perodo de crescimento econmico, no final e aps a Segunda Guerra Mundial, por isso idealizavam atuar na reconstruo de um novo mundo Ps-Guerra. 10 Baby Boom uma definio genrica para crianas nascidas durante uma exploso populacional - Baby Boom em ingls, ou, em uma traduo livre, Exploso de Bebs 86 Durante sua trajetria, essa gerao, foi educada para competir, trazida com muita disciplina, ordem e respeito pelos outros, qualidades essas que no foram consideradas ou apreciadas nos anos subsequentes. Valente (2011) analisa que Os Boomers so a gerao que participou da Guerra do Vietnam, que viu o assassinato do Presidente Kennedy e de Martin Luther King, que viu o homem pisar pela primeira vez na Lua e que acompanhou o escndalo de Watergate. So uma gerao que se dedicou luta por causas, buscou justia social, procurou a conscincia, autorrealizao csmica, paz interior. Acima de tudo, a gerao que questionou a autoridade e o status quo. Em outras palavras, os Boomers vieram para mudar. Tudo o que fazem tem que ser diferente.[...] Eles lutaram contra o sistema, aprendendo a desafiar a autoridade e a no seguir as regras que foram impostas por outros. Dessa forma, conseguiram grandes mudanas sociais por meio dos movimentos de direito civil, luta das mulheres por igualdade e protestos antiguerra. Antes de mais nada, uma gerao, em sua maioria, de idealistas (VALENTE, 2011, p. 58). A gerao Baby Boomers aprendeu muito cedo a respeitar os valores familiares e a disciplina nos estudos e no trabalho. Nenhum jovem, segundo Oliveira (2010, p. 50) jamais deveria contestar a qualquer autoridade estabelecida. Contestar significava, sempre, receber duras punies dos pais ou dos chefes. Diante da rigidez da disciplina que recebiam, a tendncia natural rebeldia aparecia na msica, momento que surge o Rock and Roll e grandes nomes da msica, como Elvis Presley, Bob Dylan, Beatles e Rolling Stones (OLIVEIRA, 2009). Para Santos et al. (2011) surgiram, nesse contexto, dois perfis dos jovens: o disciplinado e o rebelde. Os disciplinados aceitavam as condies impostas pelos pais e exerciam um comportamento um tanto quanto correto, ingressavam na vida adulta com maior rapidez e buscavam a estabilidade na empresa e a constituio de famlia. Quanto aos jovens rebeldes, na sua maioria, eram filhos de pais ricos e militares e buscavam transgredir todas as regras da sociedade, usando cabelos compridos, fazendo sexo antes do casamento, fumando e usando roupas coladas ao corpo. Alm disso, seguiam as influncias de personagens do cinema, lutavam ativamente pela liberdade poltica e exigiam mudanas nesse cenrio. Tambm foram lderes de movimentos feministas, homossexuais, civis. Participaram de movimentos estudantis e do movimento Yuppie (Young Urban Professional Jovem Profissional Urbano). No Brasil, a luta foi direcionada ativamente contra a ditadura militar. (Santos et al., 2011, p. 3). 87 Oliveira (2010) coloca que os jovens dessa gerao foram mais susceptveis s influncias do cinema e da msica e tinham no personagem James Dean o principal representante dos novos tempos que estavam chegando, conhecidos por Anos Rebeldes, quando o principal apelo social foi No confie em ningum com mais de 30 anos11. Para Lancaster e Stillman (2002), apud Valente (2011, p. 59) os Boomers caracterizam-se por serem otimistas e competitivos, com a televiso correspondendo sua maior marca. Profissionalmente, essa gerao foi educada em um ambiente corporativo em que liderana e controle eram sinnimos. Demonstravam lealdade, focalizando sempre os resultados e mantendo um alinhamento e um compromisso com a misso da empresa que trabalhavam, valorizando o status e a ascenso profissional. De acordo com Kanaame (1999), aplicavam as habilidades e competncias escolares em carreiras que oportunizavam posies elevadas ou mesmo garantias e/ou segurana para o futuro. A questo da empregabilidade representava uma afirmao de identidade, porm, a qualidade de vida no era muito preservada, uma vez que a ansiedade gerada pela necessidade de construir um mundo diferente intensificava o trabalho, j que esse era entendido como o ponto mais importante para o momento histrico. Essa gerao, segundo Valente (2011), pretende tirar o mximo do tempo de carreira que lhe resta. Valorizam detalhes como a senioridade, a vaga mais bem localizada, o melhor escritrio buscando mostrar para si e para os outros o quanto esto bem. Ainda segundo a autora, essa gerao acolheu a questo do repdio ao preconceito e no deixar que ele volte, abrindo espao para a tolerncia que vigora junto s geraes posteriores. Aos olhos das geraes atuais, os Boomers so pessoas tidas como rigorosas e hipcritas (HOWE; STRAUSS, 2000) j que, no passado voltaram-se para as drogas, buscando originalidade e hoje voltam-se novamente para as drogas para suprimir os impulsos de seus filhos e manter seus comportamentos padronizados. Valente (2011) cita Gronbach (2008) afirmando que os Boomers no tm muita integridade, o que reflete na taxa de 50% de casamentos fracassados. 11 Referncia a uma cano de Marcos Valle, muito em voga na dcada de 1970, uma poca em que a juventude, insatisfeita com as propostas oferecidas pela sociedade de ento, utilizava as msicas para protestar. 88 4.3.3 Gerao X A essa gerao, segundo Oliveira (2010), pertencem as pessoas nascidas entre os anos de 1960 e 1980. Ainda segundo o autor, a denominao X faz referncia ao lder poltico Malcom X, assassinado em 1965. Para Valente (2011) as pessoas dessa gerao eram difceis de ser definidas e, assim, tornaram-se conhecidas como a Gerao X, em que X significou genrico, sem sentido, diferente da maioria. As pessoas pertencentes a essa gerao, nascidas na dcada de 1960, final da dcada de 1970 e incio da dcada de 1980, no possuem uma reputao muito favorvel. Segundo Howe e Strauss (2000), essa a gerao com as pessoas mais egostas, mais profanas, mais fragmentadas quanto aos objetivos em sociedade, com pouca cautela quando se trata de sexo e de drogas, politicamente apticas, mais violentas e socialmente decadentes. Cticos j que no tiveram muitos heris. Essa a definio de Lancaster e Stillman (2002) para os integrantes dessa gerao, que assistiu s maiores instituies serem questionadas, ao crescimento das taxas de divrcio e de violncia, ao incio da AIDS, o consumo de crack e de cocana, aos molestadores de crianas e aos motoristas alcoolizados. Tudo isso, segundo os autores, fez com que essa gerao se preocupasse mais com o presente do que com o futuro. Alm disso, Oliveira (2010) coloca a TV como um marco na vida dessa gerao O surgimento da TV afetou de forma significativa, mesmo que involuntariamente, os relacionamentos familiares, pois o aparelho se tornou um auxiliar na Educao dos filhos. Foi na Gerao X que as crianas identificaram um centro de interesse diferente de brinquedos e passatempos usados e oferecidos por seus pais (OLIVEIRA, 2010, p. 53). O autor ainda coloca que as correes com palmadas e chineladas foram substitudas pelo controle do acesso aos programas preferidos e que deixar de assistir ao desenho favorito era o castigo. A Gerao X j encontra um cenrio com grandes mudanas na famlia, com pai e me trabalhando, intensos sentimentos de culpa das mulheres pela ausncia do lar, gerando dificuldades de colocar limites e estruturar a disciplina; no Brasil, a 89 ditadura e a represso liberdade de expresso acentuaram ainda mais o horror s posturas autoritrias; no ambiente de trabalho, essa gerao encontrou a tendncia ao downsizing (achatamento, em portugus) corporativo, instabilidade no emprego. A percepo de que adultos leais empresa perderam seus postos, estimulou a tendncia de dar continuidade ao aprendizado e a desenvolver habilidades que melhorem a empregabilidade, j que no se pode mais esperar estabilidade e permanncia (SANTOS et al. 2011) Para Oliveira (2010), como consequncia de todo esse contexto, os jovens da Gerao X desenvolveram uma atitude mais egocntrica e ctica, buscando no universo de fantasia apresentado pela TV, em seriados, em desenhos animados e em novelas, as famlias com problemas semelhantes, mas com final feliz. Por outro lado, para Valente (2011), No parece que essa gerao seja caracterizada apenas por demritos. Junto maior tolerncia social e tnica, tambm compartilham maior conscincia ambiental. Depositam tambm muito valor s amizades, uma vez que, frequentemente, os amigos so os nicos com quem podem contar, j que muitas vezes moram longe dos pais e, como atrasaram mais ainda os casamentos e os filhos, demoraram a constituir famlia (VALENTE, 2011, p. 82). Ainda segundo a autora, foi tambm a gerao que viu e fez a exploso tecnolgica e vivem muito mais prximos da tecnologia e da informtica do que as geraes anteriores. Eles fazem compras pela internet, so grandes usurios de carto de crdito. Conquistaram, tambm, em comparao s geraes anteriores, maior nvel educacional. 4.4 Gerao Y: delimitaes Valente (2011) coloca alguns problemas para caracterizao da Gerao Y. Segundo a autora, um dos pontos mais controversos diz respeito ao perodo de nascimento das pessoas dessa gerao, o que varia de autor para autor, podendo variar de 1970 a 1999. Dessa forma, h variao no que diz respeito idade que o pblico de interesse tinha quando as pesquisas foram conduzidas e isso pode gerar divergncias entre os resultados dos diferentes estudos. A autora cita, por exemplo, a obra de Gronbach (2008), na qual foi analisado o perfil de quem ainda nem havia 90 nascido, e a obra de Lancaster e Stillman (2002), que discorrem sobre as atitudes, principalmente em relao ao comportamento profissional, de pessoas entre 3 e 21 anos, embora boa parte do seu universo ainda estivesse cursando o Ensino Fundamental. Outro ponto problemtico para a caracterizao da Gerao Y, segundo Valente (2011), a questo do efeito idade influenciando os resultados. Segundo a autora algumas caractersticas atribudas Gerao Y so caractersticas da adolescncia ou ps-adolescncia de maneira geral. Alm disso, h o efeito perodo. De acordo com a autora, determinadas caractersticas que so prprias da fase de vida ou que so comuns a todas as geraes que compartilham o mesmo momento histrico correm o risco de se confundir, gerando concluses que, muitas vezes, podem tornar-se incoerentes. Exemplo disso considerar exclusividade da Gerao Y a dependncia das tecnologias. Para algumas pessoas, indiferentemente da gerao a que pertena, fazer uso intenso dos recursos tecnolgicos disponveis hoje uma questo de necessidade. Por fim, Valente (2011) cita a questo da localizao como fator dificultador para a caracterizao da Gerao Y. Segundo a autora, as pesquisas publicadas no Brasil apresentam basicamente dois tipos de resultados O primeiro so pesquisas conduzidas por institutos ou organizaes interessados em conhecer o perfil dessa gerao (Dossi MTV, 2008 e 2010; Bridge Research, 2012, Binder/FC+M, 2009). Em geral, essas pesquisas consistem em questionrios que avaliam comportamentos e posturas e que so distribudos entre centenas ou milhares de pessoas definidas como representativas dessa gerao. Alguns consideram a faixa etria de 12 a 30 anos; outros ainda, de 16 a 18 anos (VALENTE, 20011, colocar a pgina). O segundo tipo de resultado so pesquisas acadmicas que partem da classificao norte-americana e avaliam o comportamento do grupo de pessoas de faixa etria correspondente no Brasil em relao, na sua maioria, postura profissional (VELOSO, DUTRA E NAKATA, 2008; PORTES, 2009), ao uso de tecnologia (KRUGER; CRUZ, 2007; FERREIRA, 2010) ou influncia da internet na Educao (SILVA, 2009; SIMES; GOUVEIA, 2009). Nessa perspectiva, Oliveira et al. (2011, p. 3) consideram que as caractersticas comuns s diferentes geraes influenciam o modo de ser e de viver das pessoas nas sociedades e esse conjunto de comportamento e valores que 91 diferencia uma gerao de outra. Um dos desafios da sociedade permanentemente compreender e incorporar as novas geraes e a todas as mudanas trazidas por elas. Ainda segundo os autores O conceito de Gerao Y tem sido incorporado aos estudos nacionais tal como se apresente nos estudos internacionais, sem que se faa uma contextualizao dos quais seriam as caractersticas e os marcos histricos que contriburam para a formao do pensamento desse grupo geracional no Brasil (OLIVEIRA et al., 2010, p. 3). Assim sendo, buscaremos apoio nos resultados apresentados tanto por institutos ou organizaes e tambm nas pesquisas acadmicas publicadas com o intuito de estabelecer caracterizao para a Gerao Y. Para isso, o prximo tpico apresenta o perfil das geraes anteriores Gerao Y bem como alguns aspectos que nos ajudam a caracteriz-las. 4.5 Gerao Y Apesar de ser um tema relativamente novo no universo acadmico h uma produo considervel de pesquisas e textos publicados sobre a Gerao Y. Segundo Valente (2011, p. 17), alm dessa denominao, comum encontrarmos outras que, apesar de diferentes, referem-se ao mesmo grupo de pessoas - Gerao Y, Gerao digital, Gerao Internet, Millennials, Gerao N ou Net, Gerao Me ou ainda Gerao Digital por causa da invaso da Internet. Nesse estudo optamos pela denominao Gerao Y. Segundo Barreto et al. (2010), [...] atualmente a discusso sobre a Gerao Y tem crescido nas diferentes mdias, com destaque para as redes sociais. A gesto dessa nova gerao tem sido considerada um dos grandes desafios para a gesto de recursos humanos nos prximos anos e comea a aparecer nas discusses acadmicas (BARRETO et al., 2010, apud OLIVEIRA, PICCININI; BITENCOURT, 2011, p. 3). Oliveira, Piccinini e Bitencourt (2011) ainda afirmam que o conceito de Gerao Y tem sido incorporado aos estudos nacionais tal como se apresenta nos 92 estudos internacionais, sem que se faa uma contextualizao de quais seriam as caractersticas e os marcos histricos que contriburam para a formao do pensamento desse grupo geracional no Brasil. De acordo com Oliveira (2010), a denominao Gerao Y se deve a um fato curioso. Segundo o autor, quando a antiga Unio Sovitica ainda era uma potncia e influenciava fortemente os pases de regime comunista, chegava a definir a primeira letra dos nomes que deveriam ser dados aos bebs nascidos em determinados perodos. Entre as dcadas de 1980 e 1990, a letra principal era a Y, da o nome de batismo: Gerao Y. Para Kullock (2012), a Gerao Y um conceito da Sociologia que se refere aos nascidos aps 1980 e para Cara (2008), o termo apareceu pela primeira vez no peridico Advertising Age12, agosto de 1993, tambm intitulada EchoBoomers que seriam os filhos da gerao Baby Boomer. Loyola (2009) destaca que a definio mais clara do comportamento dos adolescentes ou jovens no veio por meio da Educao ou da Sociologia. Segundo o autor, os especialistas em marketing e recursos humanos que comearam a buscar respostas, depois dos anos 2000, para compreender melhor esses jovens. Valente (2011) afirma que as descries dos integrantes da Gerao Y podem parecer confusas ou at mesmo conflitantes. Para exemplificar sua afirmao, a autora apresenta a descrio de Howe e Strauss (2000) que tratam os jovens dessa gerao como convencionais, obedientes s regras, confiantes na instituio e com foco no sucesso pessoal e profissional. Em outra perspectiva, a mesma autora cita Twenge (2006), que descreve esses jovens como menos convencionais, menos obedientes, questionadoras de autoridades como professores, por exemplo, desconfiadas do mundo e das pessoas e enfrentadoras de alguma dificuldade quando o assunto escolha profissional. A autora apresenta ainda a uma srie de adjetivos que Schooley (2005) utiliza para caracterizar esses jovens: criativos, organizados, independentes, impacientes, cticos, arrogantes em suas relaes com os outros. Apesar de algumas divergncias como essas encontradas na literatura, diversos autores so unnimes em apontar pontos comuns na caracterizao dos jovens da Gerao Y. 12 Advertising Age uma revista americana que divulga notcias, anlises e dados sobre marketing e propaganda. 93 Um das caractersticas comuns apontadas pela literatura que a Gerao Y diretamente influenciada pela internet e pelos avanos tecnolgicos. A tecnologia parece ser o aspecto determinante na vida desses jovens, o que pode ser observado em diversos autores (TWENGE, 2006; GRONBACH, 2008; PEREIRA, ALMEIDA; LAUX, 2006; LANCASTER; STILLMAN, 2002). Esses autores so unnimes em apontar a forma pela qual os jovens da Gerao Y utilizam os diversos meios tecnolgicos e isso o grande diferencial dessa gerao em relao s demais. A familiaridade com que lidam com os recursos tecnolgicos, o nmero de horas dedicadas s redes sociais, o nmero de vdeos assistidos de todo o mundo so aspectos determinantes para a caracterizao dessa gerao. Tapscott (1998) apud (Valente, 2011, p. 23) afirma que essa a primeira vez na Histria em que os filhos tm domnio maior que dos pais a respeito de uma ferramenta fundamental para a vida em sociedade. Sobre isso, Valente (2011) afirma que o manuseio dessas tecnologias e o uso dos recursos tecnolgicos da forma pela qual os jovens da gerao usam no so indcios suficientes para caracterizar um evento histrico, como uma guerra, uma crise ou uma mudana radial de comportamento. [...] a internet no se constitui um evento histrico porque no faz parte exclusivamente da experincia vivida durante um momento especfico. Ela pode, hoje, diferenciar a Gerao Y das geraes anteriores, mas far parte da vida da sociedade em geral a partir de agora e, provavelmente, deixar de ser uma referncia ou um diferencial que no o assunto for as geraes posteriores Gerao Y. Isso ocorre porque ela representa uma mudana que ser perene e, como tal, far parte da vida de todas as geraes a partir de sua introduo, da mesma forma que o rdio, o automvel ou a televiso. Essas novas tecnologias podem significar, no mximo, um meio para averiguao de valores mais profundos de cada gerao em funo da sua funcionalidade, j que podem ser usadas, no s para diferentes fins, como de maneiras distintas. (Valente, 2011, p. 23) Para Oliveira (2010), os jovens da Gerao Y so estimulados pela mdia, tornam-se refns da sociedade de consumo e estabelecem padres mais elevados para seus prprios sonhos. Segundo o autor, sonhar adquire uma conexo com metas e objetivos de vida, levando os jovens a tomar decises muitas vezes incompreensveis, simplesmente porque buscam realizar seus sonhos. Ainda segundo Oliveira (2010), os integrantes da Gerao Y assistiram a muita televiso, jogaram muito videogame, o que ajudou a determinar o 94 comportamento desses jovens, ensinando-os a superar desafios, buscar resultados em troca de recompensas ajudando-os a ser mais interativos e gostarem de competir. Os jogadores passam por uma fase constante de jogos e, quando se perde algo ou o jogo, por exemplo, s desligar e comear novamente. Assim, para esses jovens, onde existem erros, existem ento formas de se superar o erro. No difcil para eles perder tudo o que tm e comear do zero novamente. Alm da facilidade que as pessoas pertencentes Gerao Y tm com todos esses recursos disponveis na atualidade, h algumas caractersticas direcionadas a essas pessoas que so recorrentes na literatura tais como: a busca pelo sucesso pessoal e financeiro, a independncia, a tolerncia diversidade e a preocupao com questes ambientais. Sato (2008) considera a Gerao Y a mais confusa de todas, quando o assunto hierarquia ou quanto forma de tratamento a superiores e gestores, consequncia do tratamento e das poucas cobranas de tiveram de seus pais. Para Oliveira (2010), essa resistncia da Gerao Y se formaliza no termo no, o ato de negar, questionar toda e qualquer ordem no fundada em uma justificativa aceitvel. So motivados pela novidade, pelo incerto. O superior, para esses jovens, tal qual nos desafios de videogames, um obstculo que precisa ser ultrapassado. Oliveira (2010) considera que o poder sugerido na Gerao Y a informao, no entanto, considera tambm que qualquer pessoa, hoje, pode ter acesso a qualquer tipo de informao. Sendo assim, o que passa a diferenciar essa gerao das demais so as infinitas redes de relacionamentos criadas por meio da rede mundial de computadores - a internet - dos telefones e das redes de contato networking - no decorrer de suas longas horas de conexo. Os jovens dessa gerao, segundo Lipkin e Perrymore(2010), esto, hoje, ingressando no mercado de trabalho e nas instituies de Ensino Superior, portanto, trazem uma bagagem diferente das geraes anteriores. Sendo assim, a anlise da repercusso e as transformaes que a Educao, especificamente o professor em sala de aula e o mercado de trabalho, tm passado em funo das especificidades que esses jovens apresentam sero abordados nos prximos itens. 95 4.5.1 Gerao Y: do nascimento escola Os indivduos pertencentes Gerao Y tiveram um tratamento diferenciado dos integrantes das demais geraes j em sua infncia. A maioria dos autores que tratam do tema concorda que o excesso de cuidado e o protecionismo exagerado fizeram parte da infncia dessas pessoas, s no fica muito claro por que isso acontecia. Alguns autores - Valente (2011), Howe e Strauss (2000) tm essa gerao como a maior, mais saudvel e mais bem cuidada na Histria. Para eles, h websites, programao de TV, de rdio especfica. tambm, historicamente, a gerao mais educada. So crianas desejadas pelos pais, dignas de muito amor, muito sacrifcio e cuidados especiais. Meredith, Schewe e Karllovich (2002) apud Valente (2011) destacam a preocupao dos pais e da sociedade com segurana, refletida nas minivans, nos capacetes e nas cadeirinhas apropriadas para veculos, o que os tornou preocupados com a prpria segurana. H uma peculiaridade com relao aos pais dos jovens pertencentes a essa gerao: o divrcio. Segundo dados do Pew Research Institute (2010) somente seis entre dez indivduos nascidos entre 1980 e 1991 foram criados pelos dois pais. Isso, para Howe e Strauss, percebido pelas crianas de forma diferente em comparao s mais velhas. Mesmo distantes, essas crianas sabem que os pais gostariam de estar perto. Muitos pais optam por trabalhar menos para poder estar com os filhos, muitos avs oferecem ajuda, as creches e escolas esto mais organizadas e os pais sentem grande presso para no desapontar os filhos, o que gera crianas mais supervisionadas, que passam mais tempo com os pais e fazem mais programas em famlia. Essa viso contestada por outros autores como Meredith, Schewe e Karlovich (2002). Eles consideram maior ausncia de superviso dos pais e isso causa do aumento da violncia, agravada pela perda de contato com a comunidade, pela glorificao da violncia na mdia, ou por outros fatores sociais. H, ainda, a viso de que altas taxas de divrcio e mais de um casamento levam os adultos a se sentirem culpados pela situao e tendem a presentear seus filhos, no intuito de suprir suas perdas. Gronbach (2008) apud Valente (2011) considera isso uma desvantagem da Gerao Y, j que, quando adultos, tero de enfrentar uma alta taxa de desemprego e uma competio acirrada no momento em que entrarem para o mercado de trabalho e, nesse momento, no h como proteg-96 los ou presente-los. Para Twenge (2006), esse excesso de zelo e de preocupao pode levar essas crianas a se acharem melhores que todas as outras pessoas e acharem que merecem ser tratadas de forma diferente. A melhor casa ou o melhor quarto, a melhor roupa, o melhor carro tem que ser deles, simplesmente porque foram criados como especiais. A autora ainda coloca como consequncia disso o fato de que esse excesso de cuidado est em desacordo com a realidade do mundo e que isso pode trazer um sentimento de ansiedade, estresse, depresso para esses jovens. Isso tambm os leva tendncia de no admitir culpas ou responsabilidades. Sempre procuram algum para culpar por seus problemas. Outro fator de presso sobre esses jovens, segundo Howe e Strauss (2000) a necessidade de escolarizao desde muito cedo colocada pelos pais. Valente (2011) coloca que Os pais querem que a escola molde as crianas intelectual e moralmente, como uma f espiritual. So estudantes e indivduos mais evoludos em matemtica e cincias que em leitura e escrita e, por isso, podem desenvolver uma inclinao racional para a conquista de seus objetivos (VALENTE, 2011, p. 67), Quanto ao comportamento em sala de aula, tambm h algumas teorias divergentes. Enquanto Howe e Strauss (2000) defendem que algumas atitudes toleradas pelas escolas com as outras geraes como ameaas, belisces, dirios, beijos so severamente punidos entre as crianas da Gerao Y. Por outro lado, Twenge (2006) afirma que os alunos hoje so extremamente questionadores e se colocam em nvel de igualdade com os professores e, segundo a autora, esse sentimento pode causar mal-estar e desrespeito em sala de aula. Valente (2011) apresenta um resumo das caractersticas envolvendo o contexto em que os jovens da Gerao Y esto imersos bem como as consequncias dessas caractersticas (Quadro 2) QUADRO 2 Gerao Y Infncia e adolescncia Principais caractersticas Consequncia Aumento das taxas de divrcio Aumento do ndice de pais solteiros Preocupao com a segurana Presenteados em excesso Participao nas decises familiares Preocupao com autoestima Arranjos familiares diversos Excepcionalmente cuidados e protegidos Materialismo Despreparo para o futuro. 97 Fonte: (Valente, 2011, p. 69) 4.5.2 Gerao Y e Tecnologia Em toda a literatura consultada para a elaborao deste texto no houve um autor que no citasse a familiaridade dos jovens pertencentes Gerao Y com a tecnologia e a informtica. Dados do Pew Research (2010) mostram que 24% dos jovens hoje sentem-se diferentes daqueles das geraes anteriores por causa do uso intenso de tecnologia. De acordo com a pesquisa, essa a primeira gerao da Histria constantemente conectada. Consideram um telefone celular, um I-pod, I-phone, um microcomputador como parte integrante de seu corpo. A internet, para esses jovens, utilizada para todas as finalidades: pesquisa, lazer, fazer amigos, assistir filmes, ouvir msicas, comprar, para relacionamentos. A internet est muito mais para a Gerao Y do que a televiso para a Gerao X. Sobre isso Howe e Strauss mostram em suas pesquisas que 28% das pessoas nessa faixa etria afirmaram viver sem televiso, enquanto 23% viveriam sem computador. Todos esses equipamentos tecnolgicos passaram a ser bens de primeira necessidade para essa gerao. Se antes um cigarro ou outra droga era o passaporte para a enturmao, hoje, segundo Howe e Strauss, a posse e uso desses equipamentos se tornou o crach para pertencer ao grupo. [...] eles tm I-pods, laptops, aparelhos de DVD e telefones celulares. Mandam mensagens de textos, de voz e falam em seus celulares com avidez. Assistem DVDs e ouvem msicas baixadas. Veem pouca televiso e o tempo que passam em frente a comerciais de TV est caindo significativamente. No ouvem rdio nem leem jornais. Sua fonte de informao a internet (GRONBACH, 2008, p. 186) Com relao ao uso da internet, dados do Pew Research Center (2010) apontaram que a Gerao Y brasileira passa uma mdia de 31 horas por semana conectada. Com relao conexo, o acesso feito em casa por 74% das classes A, B e C. J as lan houses aparecem como principal local de acesso internet para 3% dos jovens das classes D e E. O Facebook j a rede social mais utilizada pelos jovens adultos (79%) e lidera em todas as regies, sexos e faixas etrias. Na classe A, o Twitter tambm se destaca, sendo utilizado por 76% dos jovens com mais alto poder aquisitivo. A 98 internet tambm a fonte de informao mais utilizada por esse pblico, 53% dos entrevistados afirmaram que se informam por meio de blogs e de sites de notcias. Na escola, em casa, no trabalho, na rua, nos restaurantes ou em qualquer lugar possvel perceber esses jovens em contato quase ininterrupto uns com os outros. Segundo Howe e Strauss (2000) entre os integrantes da Gerao Y, trs quartos j criaram um perfil em um site de relacionamento e um em cada cinco j postou um vdeo de si mesmo online. Nesse espao quase totalmente virtual, o que se percebe so as mudanas nos relacionamentos. Os contatos so, em sua maioria, a distncia e muito mais impessoais. Twenge (2006) considera que essa impessoalidade acarreta entre eles uma sensao de angstia e de solido. O acesso livre a essas tecnologias leva os jovens da Gerao Y a mudar completamente o estilo de vida se comparados s geraes anteriores (COUTINHO, 2005). O autor considera que as condies sociais e os recursos tecnolgicos fazem com que eles reduzam o seu contato direto com outras pessoas, desenvolvendo a cultura do quarto. Essa preferncia pelo isolamento refora a caracterstica de individualistas apresentadas anteriormente neste texto. Como se no bastassem as formas de relacionamento, a internet tem mudado tambm as formas de diverso desses jovens. Televiso, livros, jornais, revistas, passeios e outras formas de se passar o tempo h algum tempo esto entrando em desuso na era da tecnologia. O Grfico 1 mostra essa mudana em relao s outras geraes. GRFICO 1 Atividades de lazer desenvolvidas online nas ltimas 24 horas nos Estados Unidos. 99 Adaptado do Pew Research Institute (2010) Quanto ao tempo em frente televiso, o quadro no muda muito. Segundo dados do Pew Research Institute (2010) os integrantes da Gerao Y ficam pouco mais da metade do tempo que aqueles de outras geraes ficavam. H ainda outras caractersticas da Gerao Y que so significativamente diferentes das demais. A leitura de jornais impressos quase no existe e, quando o assunto uso do celular, para todos os fins possveis, essa gerao campe. Essa familiaridade desses jovens com a tecnologia tem mudado tambm o funcionamento das empresas. Coimbra e Schikman (2001) apontam para os impactos da introduo da tecnologia nas organizaes e para a facilidade que os jovens tm em lidar com ela. Segundo as autoras a Procter Gamble desenvolveu um programa de coaching (treinamento) reverso, no qual os profissionais mais jovens apoiavam os mais velhos em questes relacionadas tecnologia. O desenvolvimento da tecnologia computacional, principalmente a expanso na internet dos sites de relacionamento, dos jogos virtuais parece ser o grande marco definidor das experincias dos integrantes da Gerao Y e isso se tem refletido profundamente no ambiente profissional desses jovens. 4.5.3 Gerao Y no trabalho Os jovens da Gerao Y esto hoje entrando no mercado de trabalho e j do mostras da influncia direta ou indireta que exercero nos destinos da sociedade. No trabalho, entre suas caractersticas mais marcantes, est o fato de serem multitarefas, ou seja, conseguem fazer vrias coisas ao mesmo tempo, a busca pelo reconhecimento no trabalho e a necessidade de constantemente estarem recebendo feedbacks (retornos) para tudo o que fazem. Alm disso, buscam estabelecer relaes de informalidade com o trabalho, em que a valorizao da liberdade foi substituda por flexibilidade e convenincia, bem como tm adotado comportamentos de individualidade, estimulada pelas facilidades da tecnologia; e ampliao dos relacionamentos, facilitada pela tecnologia (OLIVEIRA, 2010). Santana e Gazola (2010) acrescentam que a Gerao Y tambm apresenta como caracterstica um perfil inovador com tendncias a mudanas e adaptaes comportamentais e de liderana baseada em confiana e resultados. Demonstram a 100 necessidade de dominar seu prprio estilo de vida, gostam de independncia e so aliados da tecnologia. De acordo com Oliveira (2010), a Gerao Y tem por desejos a vontade de inovar, de pertencer, de ter significado, de conciliar o trabalho com uma boa qualidade de vida, o desejo de poder ter um trabalho que faa sentido, um ambiente que seja alegre, em que haja respeito, afeto e um senso de importncia e de pertencimento. Uma pesquisa realizada pela Boo-box, empresa brasileira de tecnologia de publicidade e mdias sociais, e Hello Research, uma agncia de pesquisa de mercado, teve como objetivo traar o perfil da Gerao Y. O estudo foi realizado para comparar os conceitos normalmente atribudos Gerao Y com o verdadeiro padro comportamental dos jovens. Diferente de muitas pesquisas, essa foi realizada por meio da metodologia On-Target Hello Research, ou seja, exclusivamente pela internet e teve participao nacional. Segundo essa pesquisa, a maioria dos entrevistados trabalha (58%) e valoriza mais a realizao proporcionada pelo trabalho (23%) do que a remunerao (19%). Twenge (2006) afirma que esses jovens Costumam adiar sua entrada no mercado de trabalho, j que consideram que a fase entre os 20 e 30 anos no como um perodo de decises, mas de experimentaes: experimentam lugares, pessoas e trabalhos. Dessa forma, postergam sua carreira profissional at o comeo dos 30, o que faz tambm com que morem com os pais at mais tarde, casando-se e tendo filhos quanto esto mais velhos do que faziam as geraes anteriores (TWENGE, 2006 apud VALENTE, 2011, p. 69). Os dados coletados pela Boo-box e Hello Research confirmam esses dados. O estudo mostrou que a maioria dos jovens de at 25 anos so solteiros (87%): na faixa de 25 a 30 anos, o percentual de casados passa de 13% para 32%. Mais da metade dos entrevistados ainda mora com os pais (67%), nmero que ainda mais expressivo na classe A, em que 84% dos entrevistados ainda vivem com a famlia, contra 47% na classe D. A mesma pesquisa afirma que apenas um em cada seis entrevistados, em sua pesquisa junto a jovens de 18 e 29 anos, diz estar ganhando o suficiente para viver confortavelmente. Alm disso, 39% dos entrevistados dizem receber ajuda dos pais ou de parentes. Diante disso, ainda segundo a mesma pesquisa, como consequncia dessa situao, est o fato de que quase metade dos entrevistados 101 escolheu as opes historicamente mais estveis (grandes empresas, governo, Educao e foras armadas) quando interrogados sobre que tipo de trabalho oferece maiores oportunidades para atingirem suas metas. Essa busca por segurana no trabalho deve-se, segundo Twenge (2006), maior competio escolar, presso para escolha da profisso correta, aumento do custo de vida (casa, Educao, sade) e dificuldade para comprar uma casa ou conseguir um emprego. Segundo a autora, h uma presso sobre os jovens muito maior do que algum tempo atrs. Se o indivduo no conseguir uma casa boa, um carro novo, roupas de griffe, bom emprego, famlia equilibrada, ser belo, inteligente e assim por diante pode-se sentir um fracassado. Mesmo com toda essa presso, segundo Batista (2010), Em algumas organizaes, a Gerao Y j se encontra exercendo alguns cargos estratgicos. Geralmente, a Gerao Y composta por jovens que apresentam uma vontade de aprender e no se adaptam a situaes de hierarquias, mas tendem a valorizar os trabalhos em grupos. Mostram-se individualistas quando o assunto alcanar os seus objetivos e, principalmente, tem pressa em ascender e consolidar-se profissionalmente. Sua criatividade e rapidez de raciocnio provocam admirao por parte das geraes mais velhas, mas sua impacincia e infidelidade geram situaes de conflito no mundo corporativo (BATISTA, 2010, p. 40). Ainda segundo o autor, a Gerao Y, por ser um grupo sujeito mudana, aquela que no se prende empresa em que est atuando profissionalmente, pois quando esse grupo no recebe respostas s suas necessidades de ascenso imaginada, busca outros ambientes de trabalho, o que ajuda a provocar um aumento no grau de rotatividade nas empresas. Quanto s expectativas profissionais, os jovens dessa gerao veem o trabalho de forma diferente da que viam as geraes anteriores. Schooley (2005) compartilha essa ideia, ao afirmar que esses jovens frustram-se com facilidade e mudam de emprego em busca de maior satisfao. J Twenge (2006) afirma que esses jovens procuram um trabalho que tenha um sentido maior, acreditam que um trabalho que no seja recompensador e no os faa orgulhosos no vale a pena. A autora ainda vai alm, ao afirmar que esses jovens seguem sonhos impossveis e buscam, principalmente, fama. Segundo Schooley (2005) eles do importncia diverso e, quando trabalham, querem que esse seja motivador, desafiador, tenha um bom salrio e flexibilidade. 102 Quanto s formas de trabalho, Valente (2011) coloca que h um consenso entre diversos autores (HOWE; STRAUSS,2000; LANCASTER; STILLMAN, 2002, SCHOOLEY,2005) de que os jovens da Gerao Y tm bastante habilidade para trabalhar em equipe. Outro consenso entre os autores que no pode ser deixado de lado so as consequncias do convvio com a informtica na sua vida profissional. Segundo a autora, em termos de habilidades, a familiaridade com a informtica dotou esses jovens de algumas caractersticas, como a multifuncionalidade, a interatividade e o hbito de receber respostas instantneas. Por outro lado, Twenge (2006) no apresenta uma viso to otimista, ao afirmar que esses jovens esto prestes a se decepcionar com o mundo, quando descobrirem que suas vidas sero bem mais difceis do que a que seus pais tiveram. Enquanto veem no cinema e na TV e ouvem de seus pais que todos os seus sonhos so possveis, sua viso da realidade torna-se exageradamente otimista. Quando ingressam no mercado de trabalho, esperam ocupar posies de influncia nas empresas, esperam que suas contribuies sejam essenciais para o sucesso da empresa, esperam promoo rpida, esperam feedback (retorno) construtivo. Tudo isso porque foram criados como seres especiais e dignos de um futuro exclusivo. Twenge (2006) ainda coloca que toda essa crena de superioridade desses jovens, quando frustrada, gera o que ela denomina de external locus of control13. Esses jovens atribuem como fatores que levam ao sucesso mais as causas externas do que a si mesmos. A autora cita como exemplos desse comportamento a impresso de que casamento e carreira dependem de sorte, assim como a mentalidade de vtima, refletida nas aes contra empresas e nas acusaes de pais e alunos a professores como culpados de seu fracasso. 13 Lcus de Controle mede a crena dos indivduos sobre o controle que tm sobre seus destinos, e afetado pela autoconfiana, persuaso e iniciativa poltica dos indivduos. Foi formulado por Julian B. Rotter em 1966 em seu artigo "Psychological Monographs". 103 4.6 Geraes brasileiras As geraes brasileiras foram classificadas, com base na teoria de coortes14, por Motta, Rossi e Schewe (2002) e, logo depois, por Rossi (2003). Com base nessa classificao, o que se percebe que as geraes brasileiras tm algumas diferenas e algumas semelhanas com as geraes americanas apresentadas por Howe e Strauss (2000) e Twenge (2006). Para Valente Isso esperado, uma vez que a srie de movimentos comuns a todo o planeta, principalmente ao mundo ocidental, faz com que as pessoas que dividem o mesmo momento tenham experincias semelhantes. No entanto a ocorrncia de eventos localizados tambm se faz claramente no Brasil. Alm disso, caractersticas, crenas e posturas especficas regionais podem mudar a percepo de acontecimentos mundiais (VALENTE, 2011, p. 85) Motta, Rossi e Schewe (2002) apresentam as geraes brasileiras marcadas por coortes bastante distintas. A primeira delas a Era Vargas (perodo entre 1930 e 1945). O nome uma homenagem ao lder poltico que governou o Pas com mos de ferro. As pessoas dessa coorte desenvolveram um sentimento nacionalista muito forte e a ideia de que o Estado era a soluo para todos os problemas nacionais. Tudo isso fruto da propaganda insistente e tendenciosa de promoo e exaltao do Presidente e dos valores nacionais. Para Valente (2011, p. 85), as pessoas pertencentes a esse coorte so conservadoras, religiosas, simples e caseiras. J a segunda coorte o Ps-Guerra, perodo compreendido entre 1946 e 1954. As instituies mais valorizadas nesse perodo foram o casamento, a igreja e a famlia, em virtude da forte onda de moralismo que tomou conta do pas. A tradio moral e religiosa proibia veementemente o divrcio e o jogo, por exemplo. O retorno ao liberalismo, o desejo crescente pelo consumo de bens, projetos culturais e materiais da modernizao e da importao de produtos ocultam o sentimento de nacionalismo entre os segmentos privilegiados da populao. Pouco a pouco, a necessidade de "ter" superou o sentimento de "ser". Trs valores e atitudes passam a descrever as pessoas desse grupo hoje: bondade, hospitalidade e sentimentalismo. (MOTTA; SCHEWE; ROSSI, 2000, p. 8) 14 SCHEWE E NOBLE (2000, p. 130) afirmam que coortes so grupos de indivduos que nasceram no mesmo perodo de tempo e que tm experincias similares em suas vidas em relao a eventos externos. Esses eventos compartilhados que definem as coortes ocorrem no final da adolescncia e incio da vida adulta, e so denominados momentos crticos. 104 A crena de que o Brasil era o pas do futuro deu origem terceira coorte: Otimismo. Um clima de euforia tomou conta dos brasileiros entre os anos de 1955 a 1967 e, nesse clima a esperana da liberdade poltica, maiores salrios e rpida industrializao. Juscelino Kubitschek, o ento Presidente da Repblica, aproveitou-se desse sentimento para propor nao a necessidade de sacrificar-se e assim, essa coorte teve como caractersticas principais o otimismo, a averso desordem e a aceitao passiva de sacrifcio em prol da nao. A quarta coorte compreende o perodo entre 1968 e 1979, Anos de Ferro. Esse foi um perodo de transio para o Pas. O governo militar implantado por meio do Golpe, com apoio do povo, tinha como misso devolver a ordem e a segurana econmica. A esperana era de que tudo se ajeitasse em pouco tempo, que fosse excluda a possibilidade do comunismo e que se exterminasse a corrupo. No entanto, por meio da imposio violenta, de um regime de terror, de perseguio e de delao, do fim da liberdade de expresso, o Pas foi-se fechando, rompendo com a harmonia dos relacionamentos interpessoais. O que os militares cometeram foi um crime lesa-ptria. Alegam que se tratava de uma guerra civil, um lado querendo impor o comunismo e o outro defendendo a ordem democrtica. Essa alegao no se sustenta. O comunismo nunca representou entre ns uma ameaa real. Na histeria do tempo da guerra-fria, todos os que queriam reformas na perspectiva dos historicamente condenados e ofendidos as grandes maiorias operrias e camponesas eram logo acusados de comunistas e de marxistas, mesmo que fossem bispos como o insuspeito Dom Helder Cmara. Contra eles no cabia apenas a vigilncia, mas para muitos a perseguio, a priso, o interrogatrio aviltante, o pau-de-arara feroz, os afogamentos desesperadores. Os alegados "suicdios camuflavam apenas o puro e simples assassinato. Em nome do combate ao perigo comunista, assumiu-se a prtica comunista-estalinista da brutalizao dos detidos. Em alguns casos se incorporou o mtodo nazista de incinerar cadveres, como admitiu o ex-agente do Dops de So Paulo, Cludio Guerra. (BOFF, 2013, p. 1) Apesar do clima tenso, economicamente, o Pas progredia, havia muita oferta de empregos e muitos brasileiros estavam enriquecendo. Esse foi um perodo de grande urbanizao, com aumento de exportaes e importaes e tambm de expanso do sistema educacional. A prxima coorte a chamada Dcada Perdida, perodo entre 1980 a 1991. Foi a dcada da redemocratizao do Pas, de anistia e de luta pela cidadania. Muitos movimentos pela abertura poltica comeavam a ganhar corpo apesar do 105 Regime Militar. O crescimento econmico experimentado nos anos anteriores mostrava seu preo: ndices extremos de inflao. Valente (2011, p. 86) analisando a coorte Dcada Perdida apresentada por Motta, Schewe, Rossi (2000) afirma: Foi uma fase rica tanto em ideias econmicas quanto em fracassos tambm. A cada plano, uma esperana; pouco depois, a frustrao. Esse perodo trouxe a abertura poltica, mas a frustrao surgiu tambm no campo poltico. A leva de manifestantes que inundou as ruas do Rio de Janeiro em 1984, em prol do movimento das Diretas-J e depositando confiana no papel dos polticos, sentiu-se trada com o contnuo surgimento na imprensa de casos de corrupo no Congresso. A descrena na classe poltica foi crescendo no Pas (VALENTE, 2011, p. 86). A juventude j no era mais to contestadora e, em face de tanto pessimismo, aumentou o ndice de consumo de drogas, aumentou a violncia causada por traficantes e aumentou tambm o medo de sair s ruas e a sensao de desamparo da populao o que a levou a procurar ajuda, ou uma sada nas seitas religiosas e nas ondas de esoterismo e autoajuda. Foi tambm nesse perodo que ocorreu o aumento nos casos de AIDS e, com isso, a expanso das discusses sobre sexo e a preocupao com a sade. A prxima coorte, formada por pessoas nascidas aps 1992, ainda no est totalmente definida, mas j possvel elencar algumas caractersticas bem marcantes como a pouca relevncia dada ao status quo e o desejo por punio a todo tipo de corrupo no governo. Exemplo disso foi o movimento dos caras-pintadas, que culminou com o impeachment do Presidente Fernando Collor de Melo e, mais recentemente, as passeatas e os movimentos cobrando reduo de tarifas pblicas, renncia de algumas figuras polticas etc. Essas aes so uma tentativa de recuperao dos valores ticos e morais. claro que, no caso das passeatas, da forma como acontecem, isso no fica bem explcito. O lema dessa coorte cada um por si. Temos hoje uma situao econmica estvel, mas, apesar disso, em funo do fenmeno da flexibilizao do trabalho, o emprego formal tem diminudo, j no h empregos totalmente estveis e, na tentativa de combater as altas taxas de desemprego, encargos sociais, benefcios trabalhistas, surge a onda da terceirizao e das privatizaes. Sobre os jovens desse perodo, Valente (2011, p. 88) afirma que A juventude demonstra um total desinteresse pela poltica. No h a preocupao ideolgica de participar do processo eleitoral, mas sim 106 uma fuga da responsabilidade pelos destinos da nao. E h uma descrena no poder da autoridade policial. Essa juventude caracterizada nas grandes cidades como a gerao shopping center, que tem medo do que no seguro, que se sente atrada pela vida virtual e que comea a ser chamada de gerao digital (VALENTE, 2011, p. 88). Um evento fundamental relacionado aos jovens desse perodo foi a popularizao da internet, que trouxe mudanas significativas das pessoas jovens e mesmo daquelas de outras geraes. De acordo com a Fundao Getlio Vargas, em 2001, 12,46% da populao brasileira dispunha de acessos em seus lares a computadores, enquanto apenas 8,31% tinham acesso internet. Em 2003, eram 60.000 domiclios com computadores e acesso internet. Hoje, esses nmeros so outros: De acordo com dados da PNAD 2012 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domiclios), pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica), em novembro de 2013, 358.000 domiclios tm computador com acesso internet no estado. Em 2009, eram 190.000. 4.7 A literatura sobre Gerao Y no Brasil A maioria dos estudos sobre a Gerao Y no Brasil est contida em trabalhos acadmicos e em pesquisas por institutos. As classificaes norte-americanas servem de embasamento para os trabalhos brasileiros. Valente (2011, p. 90) coloca que as avaliaes do comportamento da Gerao Y costumam seguir a linha de Tapscott (1999), que define essa gerao em funo do fato de terem nascido em meio aos avanos tecnolgicos, em especial internet. Em funo disso, o autor denomina essa gerao de Gerao Digital. As reas de interesse apontadas no meio acadmico, na maioria das vezes, esto voltadas para a avaliao de aspectos profissionais, comportamento nas empresas e expectativas em relao a trabalho e a carreira; como esses jovens se relacionam com a internet/tecnologia, comportamento deles como consumidores. Pode-se notar que os temas esto mais relacionados rea de marketing na Administrao. Valente (2011) apresenta uma relao de alguns trabalhos conduzidos no Brasil, organizados por rea de interesse: QUADRO 3 Trabalhos sobre Gerao Y no Brasil 107 rea de interesse Autores Temas desenvolvidos Aspectos profissionais Veloso, Dutra e Nakata (2008) Percepo de carreiras inteligentes para cada gerao; Portes (2009) Avalia o estilo de liderana da Gerao Y. Coimbra (2001) Comparao entre profissionais 20 e 24 anos com os demais. Vasconcelos et al. (2009) Prioridades consideradas pela Gerao Y capixaba. Santos (2012) A Gerao Y nas organizaes complexas: um estudo exploratrio sobre a gesto dos jovens nas empresas. Peter (2013) Comportamento dos trabalhadores da Gerao Y Relao com a Internet/tecnologia Kruger e Cruz (2007) Gerao Y e o jogo The Sims Ilha e Cruz (2006) Gerao Y e o jogo Sim City 4 Ferreira (2010) Gerao Y e o uso da Internet Barcelos (2010) Uso de mdias eletrnicas por pessoas entre 13 e 17 anos. Spizzirri (2008) O universo virtual na vida dos adolescentes, do hedonismo, das relaes familiares e sociais. Fernandes (2006) Uso de celulares por adolescentes. Educao sob a influncia da internet Simes e Gouveia (2009) Gerao net e a influncia da WEB 2.0 no Ensino Superior. Silva (2009) Mudanas influenciadas pelo uso da internet na sociabilizao dos alunos na viso dos professores. Outros estudos Pereira, Almeida e Laux (2006) Imagem da marca Coca-Cola junto s Geraes X e Y. Lemos (2009) Avaliao das publicaes da mdia brasileira a respeito da Gerao Y. Motta, Rossi e Valente (2009) Experincias negativas relacionadas a essa nova gerao. Fonte: Dados apresentados por Valente (2011), adaptados pelo autor. Assim, considerando essa gerao como portadora das caractersticas acima apresentadas, o prximo captulo destina-se a apresentar a relao dessa gerao com a Educao Superior: como a relao desses jovens com a escola, com os professores, de que forma esses professores veem esses alunos e em que aspectos a rotina escolar precisa ser alterada para atender a alunos com um perfil to 108 especfico e novo para a maioria dos professores e dos profissionais ligados Educao. CAPTULO V A GERAO Y NO ENSINO SUPERIOR: DESAFIOS PARA AS ESCOLAS E PARA OS PROFESSORES "[..] Hoy en da, en ninguna parte del mundo hay ancianos que sepan lo que los nios ya saben; no importa cun remotas y sencillas sean las sociedades en las que vivan estos nios. En el pasado siempre haba ancianos que saban ms que cualquier nio en razn de su experiencia de maduracin en el seno de un sistema cultural. Hoy en da no los hay. No se trata slo de que los padres ya no sean guas, sino de que ya no existen guas, los busquemos en nuestro propio pas o en el extranjero. No hay ancianos que sepan lo que saben las personas criadas en los ltimos veinte aos sobre el mundo en el que nacieron..." (MEAD,1970, p. 77-78) A Revoluo Tecnolgica ocorrida aps a dcada de 1970 alterou profundamente a forma pela qual vivemos, trabalhamos, aprendemos e nos atualizamos em vrios aspectos. A humanidade nunca teve acesso a um volume to grande de informaes, nas diversas reas do conhecimento como tem agora. Essas informaes esto disponveis em todos os lugares e a qualquer hora e cabe a ns buscar novas formas de localizar e utilizar tudo isso. Depois de passarmos por um perodo de extremo desenvolvimento cientfico e tecnolgico a que os tericos chamam de modernidade, estamos vivendo agora o que o Socilogo Laymert Garcia dos Santos (2003) chama de ps-modernidade Tudo se passa ento como se estivssemos vivendo um perodo de ondas de revolucionarizao que, emergindo de dentro do capitalismo, lhe do um novo alento e vo lhe abrindo novas perspectivas: a Revoluo Eletrnica, seguida pela Revoluo das Comunicaes, seguida pela Revoluo dos Novos Materiais e pela Revoluo Biotecnolgica. O impacto crescente que essa evoluo econmica e tecnocientfica exerce sobre as sociedades e os efeitos colaterais que ela suscita em todas as reas comeam a ser sentidos e percebidos, mas ainda estamos longe de poder analisa-los e avali-los (SANTOS, 2003, p. 232). Analisando a evoluo humana Assmann (1998) coloca que A transio desde organizaes sociais relativamente pequenas a sociedades amplas e complexas aconteceu em menos de trs sculos. Em menos de um sculo inverteu-se completamente a proporo entre o rural e o urbano como nicho vital da espcie humana (desde o incio do sculo XX, o rural passou de mais de 80% amenos de 20%, e em alguns pases a menos de 10%; o urbano, de 110 menos de 20% a acima de 80%). E agora, em poucas dcadas mergulhamos na sociedade da informao (SI). E ela veio para ficar e intensificar-se. Ela no espera por ningum (ASSMANN, 1998, p. 17). Esse contexto faz com que Santos (2007, p. 19) afirme que j estamos em um tempo ps-humano, no qual a revoluo natural do homem acabou. O que vivemos agora a revoluo artificial do homem, que deriva do impacto das tecnologias da informao sobre a natureza humana. O que se pode ter certeza que necessitamos repensar a compreenso que temos de ns mesmos e o ideal que temos de mundo e de sociedade para nos construirmos. certo tambm que esse problema est relacionado com a Educao, a Educao escolar, com os docentes e as geraes (anteriores, atuais e futuras) que se encontraro no processo educativo e participam da criao do mundo no presente e participaro no futuro. Na opinio de Leadbeater (2000), temos que deixar de olhar para a Educao como um ritual de passagem que envolve a aquisio de conhecimentos e qualificaes suficientes para entrar na vida adulta. Para o autor, a Educao no deve ser vista apenas como um conjunto de conhecimentos, mas como oportunidade para desenvolver capacidades bsicas de compreenso e uso da informao escrita contida em vrios materiais impressos e das noes matemticas, bem como da capacidade de agir com responsabilidade com os outros, tomar iniciativa e trabalhar de forma criativa e colaborativa. Alm dos aspectos ligados Educao, outro ponto dentro dessa discusso esclarecer que, para os integrantes da Gerao Y, ao pensar em mercado de trabalho, no existe mais o meu ou o seu pas. O que temos hoje, com a quantidade e a velocidade das informaes, uma verdadeira aldeia global com competidores de todos os cantos do mundo. Isso complica ainda mais os processos de seleo e a competio por uma vaga de emprego. Os profissionais mais bem preparados, independentemente da cidade, do estado ou do pas de origem, certamente ocuparo os melhores postos de trabalho. Dessa forma, imprescindvel que esses alunos das novas geraes entendam que da qualidade da sua formao no Ensino Superior que depende sua insero no mercado de trabalho, preciso que entendam que a sua formao no Ensino Superior exigir bem mais que o exigido das geraes anteriores. 111 Nesse contexto, vale mencionar que vrias instituies de Ensino Superior espalhadas pelo mundo como Harvard, Stanford, Universidade do Leste de Londres, Universidade do Sul da Califrnia e Universidade Estadual de Ohio j possuem escritrios em outros pases, inclusive no Brasil, em busca de curriculum vitae de candidatos. No entanto, somente aqueles verdadeiramente criativos, inovadores, dispostos e com capacidade para enfrentar uma grande concorrncia tero condies de conseguir uma vaga. Nessa mesma linha, o programa Cincia Sem Fronteiras, realizado conjuntamente pelo Ministrio da Educao e o da Cincia e Tecnologia, de extrema pertinncia para os nativos de Y. As metas do programa so ambiciosas, prevendo a concesso, at 2014, de 100.000 bolsas de estudos nas melhores universidades internacionais. A ideia promover, de maneira rpida, o desenvolvimento e estimular os processos de inovao por meio da mobilidade internacional. Os nativos de Y certamente tm a uma grande oportunidade de se integrar aldeia global que est nascendo. Assim, este captulo trata da influncia que os alunos da Gerao Y exercem nas salas de aula, sobretudo no trabalho docente. Para isso, partimos da caracterizao desses jovens, tidos por alguns autores como nativos digitais, e da caracterizao dos docentes, migrantes digitais. Tambm tratamos da formao do professor e dos desafios que os aguardam no exerccio da docncia e da convivncia com a Gerao Y. Como so alunos que esto hoje com idade entre 20 e 25 anos, todas as nossas consideraes tm como referncia a sala de aula do Ensino Superior, ambiente hoje dominado, em grande parte, por alunos da Gerao Y. No podemos desprezar o fato de que os profissionais do ensino que atuam nas salas de aula de Educao Infantil, do Ensino Fundamental e do Ensino Mdio tambm j sentem as transformaes em sua rotina em funo das caractersticas dos alunos mais jovens e j percebem necessidades de mudana. Esse pode ser outro vis para futuras pesquisas, j que novas geraes e novas caractersticas de alunos so constantes. 112 5.1 Educao para novas geraes O desenvolvimento tecnolgico ocorrido aps a dcada de 1970 e, consequentemente, a evoluo das tecnologias da informao tem impactado significativamente as transformaes culturais da atualidade. A rapidez na transmisso de informaes e a superao das limitaes espaciais levam alterao de conceitos bsicos de tempo e espao, e a noo de realidade comea a ser repensada diante da possibilidade da realidade virtual. Como consequncia disso, a viso de Educao tambm passou por transformaes. Segundo Malacridas e Barros (2011, p. 512) No esquema Fordista, a Educao era vista como instrumento de mobilidade social em que a escolarizao de alguns deixaria livres cargos menos qualificados a outros. No esquema ps-fordista quem no se qualifica, alm das dificuldades de conseguir emprego ainda pode ser excludo do qual j est, sendo relegado a cargos inferiores, ou perder o emprego. Desse modo, h uma constante necessidade de formao continuada, mais pela necessidade de no ficar para traz, do que pelo interesse em se qualificar para o trabalho, o que torna esse mercado de trabalho mais competitivo que antes (MALACRIDAS; BARROS, 2011, p. 512). Como a escola produto do processo de modernizao, natural que esteja submetida s tenses e aos desafios que se mostram em funo das transformaes pelas quais a sociedade vem passando. Sobre isso, Tedesco (1995) declara: Crise e Educao so dois termos que tm estado associados em frequncia to grande, e durante perodos to longos, que se justifica o ceticismo com que muitos protagonistas do processo pedaggico reagem diante tanto dos reiterados projetos de reforma com que se tenta mudar a situao, quanto das anlises crticas, por mais brilhantes e agudas que sejam. O sistema educacional tem sido, desse ponto de vista, uma das reas das polticas pblicas mais recorrente e sistematicamente reformadas. Os resultados, no entanto, tm sido escassos e provocado, paradoxalmente, o aumento da rigidez e o imobilismo das instituies educacionais (TEDESCO, 1995, p. 15). No entanto, o autor coloca tambm que a crise da Educao hoje no se mostra somente pela insatisfao no cumprimento de demandas relativamente estabelecidas, mas como uma expresso particular da crise do conjunto das instncias da estrutura social: desde o mercado de trabalho e o sistema 113 administrativo at o sistema poltico, a famlia e o sistema de valores e crenas. (TEDESCO, 1995, p. 15) Tratando dos desafios e das sadas educativas na entrada do sculo, Flecha e Tartajada (2000) colocam que a sociedade industrial postulava a ideia do capital humano e dotava escola o papel de educar nos valores hegemnicos e transmitir conhecimentos e que, na atualidade esse papel foi transformado, o que faz com que o equilbrio do sistema escolar passe a correr perigo. Os autores citam alguns argumentos que sustentam essa crise. O primeiro deles o de que a escola no forma para o trabalho e sobre isso afirmam que Existe um forte discurso social que considera que os objetivos da escola fracassaram, j que ela no forma para o acesso ao mercado de trabalho. Esse discurso em parte falacioso, pois tanto quantitativa como qualitativamente est demonstrado que a posse de ttulos e estudos so chaves para algum no ser excludo do mercado de trabalho. Por outro lado, a escola, prospectivamente, no pode prever quais sero as ocupaes que as pessoas realizaro, uma vez que continuamente esto sendo geradas novas profisses, alm de j no termos uma nica ocupao ao longo de nossa vida profissional (FLECHA; TARTAJADA, 2000, p. 28). J o segundo diz respeito ao fracasso e ao abandono escolares. Os autores colocam que os ndices de fracasso e de abandono escolar tm aumentado muito nos ltimos anos e sempre se culpou o prprio aluno, as famlias, as polticas, o sistema etc. Atualmente, busca-se analisar que papel tais processos desempenham na escola e em que contribuem para o fracasso (FLECHA; TARTAJADA, 2000, p. 28) e, por fim, os autores colocam como base da crise escolar atual o fracasso das formas educativas. Para a superao dessa crise, os autores buscam as palavras de Paulo Freire e sugerem passar da cultura da queixa para a cultura da transformao (FLECHA; TARTAJADA, 2000, p. 28). Defendem, ainda, a participao de autores e autoras na elaborao de propostas educativas, buscando aquelas que obtiveram xito em outros lugares. H ainda uma crtica dos autores participao na elaborao de propostas de quem no est preparado para tal. Infelizmente, bastante habitual em Educao que imponham suas propostas quem nem sequer conhece as prticas educativas que esto obtendo melhores resultados em nvel internacional e tampouco dominam os desenvolvimentos das cincias sociais das ltimas dcadas (FLECHA; TARTAJADA, 2000, p. 28) 114 Sobre as caractersticas e os desafios para o sculo XXI, Rocha (2007) faz um apanhado a partir de alguns tericos apresenta o seguinte quadro: QUADRO 4 Caractersticas e desafios do Sculo XXI CARACTERSTICAS DO SCULO XXI DESAFIOS DO SCULO XXI Aumento da expectativa e na qualidade de vida das pessoas; Crescimento acelerado dos meios de comunicao distncia; Crescimento acentuado dos conhecimentos Sociedade do conhecimento; Aumento das interdependncias entre os pases; Tecnologia e inovao; Globalizao; Sociedade organizada em redes; Mudanas velozes e imprevisveis; Automao; Desenvolvimento do setor tercirio; Modificao das estruturas hierrquicas das empresas (mais curtas e descentralizadas); Mo de obra autoprogramvel; Demanda por profissionais polivalentes; Famlia entendida como rede de relaes e no como instituio; Desigualdade social; Multiplicao dos conflitos regionais, locais, interticos e internacionais; imediatismo. Desenvolver a tolerncia para a construo de uma cultura de paz; Reconhecer as novas formas de aprendizado; Valorizao dos trabalhos em equipe, que tm como base os princpios solidrios e o respeito s diferenas; Integrar a famlia e a comunidade escola, unindo foras em torno de objetivos comuns; Oportunizar no interior das escolas, acesso a variedade de materiais e recursos educativos (computador, internet, biblioteca, TV, mapas, museus, espao para esportes e lazer, entre outros; Proporcionar leitura crtica da realidade; Encorajar aes transformadoras na luta por uma sociedade mais justa e libertria para todos; Contribuir com o fomento da capacidade criativa na resoluo de problemas; Articular a razo s questes ticas; Contribuir para a formao do cidado consciente da sua realidade e sujeito de sua Histria; O processo educativo deve acontecer na diversidade e no para a diversidade; Articular a vida escolar realidade da vida prtica, estabelecendo um estreito vnculo entre o sujeito social e o sujeito do conhecimento; Adaptar se s mudanas provocadas pela tecnologia;. Flexibilizar saberes; Exercer a criatividade; Inovar; Construir e desconstruir conhecimentos; Adquirir competncias comunicacionais; Engajar se na consolidao de um desenvolvimento sustentvel; Aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a ser e aprender a conviver (Delors et al..); Desenvolver as competncias hoje requeridas dos trabalhadores: esprito crtico, responsabilidade, autonomia, capacidade de resolver problemas, capacidade de se comunicar e trabalhar em equipe com criatividade; Formao continuada e permanente; Reduo das assimetrias sociais; Respeito pelos espaos pblicos. Fonte: Rocha (2007, p. 43) 115 claro que o quadro 4 trouxe algumas das principais caractersticas e alguns desafios que se apresentam claramente neste incio de sculo. Muitos certamente ainda aparecero e outros deixaro de existir. Se relacionarmos os desafios listados no Quadro 4 com a funo da escola, o que se percebe que ela, a escola, depositria de uma expectativa muito grande e, dessa forma, ainda tida como um importante mecanismo de transformao social. Assim, essencial a articulao entre a escola e a comunidade buscando atingir objetivos comuns. Sobre a funo da escola do futuro, Rocha (2007, p. 44) coloca que Tambm necessrio considerar que, ao se falar em Educao ao longo da vida e por toda a vida, a escola do futuro precisa estar orientada para atender a todos os indivduos, independentemente da faixa etria e dos muros que a exprimem. As demandas contemporneas requerem que a escola seja capaz de ultrapassar seu espao e se fazer presente em muitos lugares (como nas empresas, por exemplo), bem como de variadas formas, atendendo a diversidade do pblico que a cerca (ROCHA, 2007, p. 44). Sobre as mudanas e desafios para o sculo XXI, Tedesco (2006) afirma que h uma mudana significativa na estrutura das famlias, como a diminuio da taxa de natalidade, a mudana dos tipos de unio e mudanas tambm na forma pela qual so transmitidos os valores, j que os pais no querem mais assumir o papel de transmissores de uma determinada viso de mundo, preferindo ser orientadores para dar aos filhos a possibilidade de construrem sua prpria concepo sobre o mundo. Alm da mudana no papel das famlias, segundo Gomes (2001), os meios de comunicao de massa preenchem cada vez mais o tempo das crianas e dos adolescentes, o que gera um dficit de socializao e, consequentemente, uma crise de valores e uma falta de coeso social. Assim sendo, a escola atual e das prximas dcadas se preocupada com a formao integral de seus alunos, no pode ater-se simplesmente transmisso de contedos j que esses, com a evoluo tecnolgica e as novas descobertas cientficas, tendem a ficar obsoletos muito mais rapidamente do que acontecia h alguns anos. Nesses termos, primordial que as instituies de ensino assumam como parte de sua responsabilidade a formao de valores, o desenvolvimento da capacidade de analisar criticamente e intervir na realidade, alm das capacidades colocadas por Delors (1998) como aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a ser e a conviver com os outros. 116 Outro desafio que se mostra presente como enfrentar as desigualdades sociais. No caso da Educao, preciso garantir uma Educao escolar de qualidade para todos, tendo como premissa o respeito s diferenas pessoais, econmicas, fsicas, tnicas, culturais etc. Para Gomes (2001, p. 94) imprescindvel dar nfase Educao Bsica e a currculos de qualidade que respeitem a diversidade, especialmente dos educandos menos favorecidos socialmente. Tratando das perspectivas educacionais para o sculo XXI, Gomes (2001) aborda a multiplicao dos conflitos regionais, locais, intertnicos e internacionais. Nesse contexto, a escola pode contribuir valiosamente se comprometendo com a formao de indivduos mais tolerantes, respeitadores das diferenas e que se possa chamar de humanizao. Tedesco (2006, p. 40-41), compreendendo que o sentimento de solidariedade associa-se ao sentimento de pertena, coloca que o desafio educativo implica desenvolver a capacidade de construir uma identidade complexa, uma identidade que contenha a pertena em mltiplos mbitos: local, nacional e internacional, poltico, religioso, artstico, econmico, familiar etc. Dessa forma, ao percebermos o mundo como parte de sua morada e, ao respeitarmos a singularidade e a pluralidade de cada indivduo, estaremos construindo as bases de uma nova cultura que, certamente, tornar a vida humana mais fcil. Nessa linha Sacristan (2000) apresenta algumas caractersticas essenciais do que pode e deve ser o programa geral para a Educao de hoje e de amanh. Essas quatro caractersticas passam pela poltica educativa, pela organizao das instituies e pelas prticas pedaggicas. Da a primeira sugesto do autor a leitura e a escrita como construtoras do sujeito e reconstrutoras da cultura. A linguagem e a Educao so inseparveis. A escolaridade tem que se rechear, antes de mais nada, com fala e escuta, com leitura e escrita. Cultivar essas duas ltimas habilidades funo essencial da Educao moderna, pois so instrumentos para penetrar na cultura e ser penetrados por ela, como via de acesso ao passado codificado e ao presente que no consegue ver nossa experincia direta. Tambm so os instrumentos para abstrair, penetrando nos traos no evidentes de experincia e de todo nosso tempo. (SACRISTAN, 2000, p. 46) Alm da linguagem, o autor defende tambm que a Educao precisa do acervo cultural acumulado. Segundo ele, s se pode pensar a partir do que foi pensado por outros. S temos o que outros conquistaram, valorizaes do que foi 117 feito, mais os desejos de continuar de uma determinada maneira o processo de seguir conquistando e a Educao alimenta-se disso e no pode ser de outra maneira. (SACRISTAN, 2000, p. 46). A Educao para o prximo sculo deve situar-nos no presente e diante do que nos rodeia. Essa a terceira caracterstica que, para Sacristan (2000, p. 50) Proporcionar as chaves para a compreenso do presente, do imediato que nos atinge e que mergulha suas razes no passado mais ou menos prximo e em mbitos hoje distanciados do mundo circundante ser tambm misso da Educao. O esprito da modernidade no poderia ficar margem do mundo que deseja conhecer e transformar (SACRISTAN, 2000, p. 50). O autor cita ainda que a Educao deve possibilitar emendar o recebido e enriquec-lo, j que nada definitivo e absoluto. A racionalidade no se funda no princpio da subjetividade, no eu, mas no dilogo, no ns, pois intersubjetiva e, nas palavras de Habermas, dialgica (SACRISTAN, 2000, p. 51). Essas quatro caractersticas essenciais da Educao moderna formam, segundo o autor, os nutrientes de um ncleo forte de socializao do ser humano, da personalidade formada (SACRISTAN, 2000, p. 52) 5.2 O desafio da profissionalizao dos jovens Um ponto extremamente relevante desta discusso a relao entre a escola a profissionalizao dos jovens, j que na escola, principalmente no Ensino Superior, que a maior parte dos jovens deposita a expectativa de se prepararem profissionalmente, o que garantir a eles uma vaga, ou pelo menos o deixar mais bem qualificados, para o mercado de trabalho. No entanto, a realidade que se mostra no muito animadora. Cerca de 73,4 milhes de jovens entre 15 e 24 anos esto desempregados no mundo, diz estudo divulgado, em 2013, pela Organizao Internacional do Trabalho (OIT). O nmero representa 12,6% da populao dessa faixa etria. De acordo com o estudo, o desemprego entre jovens aumenta a cada ano. O nmero para 2013 3,5 milhes maior em relao a 2007 (quando 11,7% dos jovens estavam desempregados) e est perto dos nveis alcanados no pior momento da crise econmica, em 2009. No Brasil, Os jovens tm trs vezes mais riscos de ficarem desempregados no Pas do que um adulto, conforme estudo da 118 Organizao para a Cooperao e Desenvolvimento Econmico (OCDE). Esse estudo destaca que, em 2012, um quarto das pessoas com idade para trabalhar no Brasil tinha entre 15 e 24 anos. Entre os desempregados, 46% eram jovens. Esses dados apontam para vrios fatores, entre eles o sentimento de marginalizao social sofrido pelos jovens que, comumente, concebem o trabalho como ferramenta imprescindvel para o exerccio da cidadania (ESTEVES, 2005) Considerando os estudos de Caliman (2008), pode-se afirmar que, quanto mais marginalizado um indivduo em suas necessidades fundamentais, maior o risco de se tornar um transgressor das regras sociais estabelecidas, j que o comportamento fruto, entre outros fatores, da frustrao pessoal diante da desigualdade vivenciada por meio da estratificao social e econmica presentes na sociedade. Cresce assim a probabilidade de que o adolescente atingido pela insatisfao crnica das prprias necessidades possa desenvolver determinados dficits na evoluo de sua personalidade ou assumir, conscientemente ou no, culturas redutivas a alguns valores ou pseudovalores ou, ainda, aceitar passivamente a prpria condio de marginalidade (CALIMAN, 2008 p. 30). Para Abramovay e Castro (2004, p. 83), o significado do trabalho para os jovens parece resumir-se em assegurar meios de sobrevivncia e de satisfao de necessidades e desejos: no percebido como fonte de satisfao em si mesmo, como atividade construtiva e de realizao pessoal. Essa afirmao motivo de preocupao, uma vez que o potencial econmico e financeiro do trabalho sobrepe-se ao desejo ou ao sentimento de realizao pessoal. Apesar de haver muitas crticas escola como uma espcie de terra prometida, sempre igual no horizonte, que recua medida que nos aproximamos dela (Bourdieu, 1997, p. 483), ainda h um sentimento de essencialidade da escola para o sucesso profissional. De acordo com pesquisa realizada por Abramovay e Castro (2003), 17% dos alunos do Ensino Mdio que haviam abandonado a escola retomaram os estudos, por considerarem que o diploma escolar muito importante para ingresso no mercado de trabalho. Nessa mesma linha, segundo dados do Instituto Cidadania (2004), 76% dos jovens consideram a escola muito importante para seu futuro profissional. Assim, apesar de uma srie de crticas instituio escolar, visvel a concepo de escola como um requisito valioso para o ser humano. 119 A prpria Lei de Diretrizes e Bases da Educao Nacional (LDB) 9394/96 considera que a Educao escolar dever vincular-se ao mundo do trabalho e prtica social. Assim as escolas passam a assumir uma posio de responsvel pela formao acadmica, pela formao crtica, pela base moral e psicolgica de seus alunos, alm da preparao para que os jovens ingressem no mercado de trabalho. A passagem de uma sociedade industrial para uma sociedade tecnolgica trouxe significativas mudanas na organizao do trabalho e do emprego, destacando-se a automao, o desenvolvimento do setor tercirio e a modificao das estruturas hierrquicas das empresas, por exemplo. Essas mudanas trouxeram consigo a necessidade de renovao das competncias requeridas dos trabalhadores. Entre essas novas competncias Pair (2005, p. 177) destaca o esprito crtico e a responsabilidade em todos os nveis, autonomia no espao e no tempo, passagem do concreto ao abstrato, e vice-versa, raciocnio, capacidade de se comunicar e trabalhar em equipe e criatividade. Assim sendo, a escola precisa estar consciente de seu compromisso em proporcionar a todos uma base suficiente, a partir da qual cada um possa adquirir as competncias individuais e especializadas de que necessita. A escola do sculo XXI Precisa dar conta da complexa tarefa de colocar em prtica seus discursos de uma formao integral, que atente a todos os indivduos nas vrias esferas sociais que necessita, estando permeada por princpios ticos e tcnicos. ticos pelos valores imprescindveis formao cidad e a consolidao de um mundo melhor. Tcnicos pela necessidade de instrumentalizar os indivduos para que respondam s novas demandas e manuseiem competentemente os novos aparatos tecnolgicos, enfatizando o saber fazer, diretamente relacionado ao mundo do trabalho (ROCHA, 2007, p. 57). Se considerarmos o grau elevadssimo de competitividade, a necessidade de profissionais crticos, flexveis e em constante formao, chegamos concluso de que a capacidade de adaptao aos novos paradigmas e o enfrentamento aos desafios postos nesse incio de sculo so questes de sobrevivncia. s Instituies educativas cabe a tarefa de formar profissionais para um mercado mutante e de caractersticas imprevisveis como o fato de que no Brasil, segundo Werthein, (1999, p. 13) muitas empresas esto substituindo os funcionrios menos qualificados por outros de qualificao superior, mantendo o mesmo salrio. Outro fato interessante, citado por Ponchmann (2001, p. 223) a regresso geracional que se tem percebido nos ltimos anos em que, na maioria das vezes, os jovens no 120 conseguem obter condies de vida e trabalho superiores s de seus pais, mesmo possuindo nveis de escolaridade e formao superiores, o que gera um sentimento de frustrao e fracasso nos jovens. H, segundo Castells (2002), no atual sistema de produo, a redefinio da mo de obra de acordo com o nvel de Educao dos trabalhadores. Nessa redefinio, h a mo de obra genrica da qual fazem parte aqueles trabalhadores especialistas e, em funo disso, tornam-se obsoletos rapidamente j que so especialistas em uma s funo, que realizam atividades pr-definidas. H tambm a mo de obra autoprogramvel (CASTELS, 2002) da qual fazem parte os trabalhadores com acesso constante a fontes de informao e de aprendizagem e, por isso, tm maior capacidade para redefinir suas especialidades em funo das tarefas que esto executando. Essa capacidade representa um diferencial para esses trabalhadores, o que lhes d um pouco mais de segurana j que no podem ser substitudos to rapidamente. Comentando essas funes da escola, Rocha (1997, p. 52) coloca que possvel destacar, mais uma vez, o papel da escola, tendo em vista que a Educao voltada apenas para a transmisso de contedos contribui somente para a formao de um exrcito de mo de obra genrica, completamente despreparada para as demandas do mundo de hoje, em que os conhecimentos tornam-se obsoletos rapidamente. Logo, a capacidade de aprender continuamente e permanentemente torna-se um fator indispensvel para a formao de mo de obra autoprogramvel, que se adapta facilmente s mudanas e que, por isso, torna-se imprescindvel no mercado atual (ROCHA, 1997, p. 52). Para Tedesco (2006) o conhecimento pode produzir tanto fenmenos de maior igualdade social, quanto de maior desigualdade em virtude das novas formas de organizao do trabalho, que requerem cada vez mais especializao de seus trabalhadores, ou seja, a mo de obra autoprogramvel que tero maior segurana no emprego, deixando a maioria em condies de precariedade e de excluso. Nessa linha de pensamento, Tedesco (2006) considera que existe maior igualdade entre aqueles que esto includos, j que as relaes mais cooperativas esto gradativamente substituindo as relaes de autoridade. J para os excludos, resta a situao de serem cada vez mais excludos, pois ficam margem dos processos produtivos e sequer tm como se organizar para lutar pelos seus direitos, 121 tendo em vista que a relao de explorao est sendo substituda pela excluso, gerando sentimentos de solido e marginalidade (ROCHA, 1997, p. 55). Seria ingenuidade pensar que a Educao escolar, sozinha, seja a responsvel por todas as mudanas requeridas, mas inegvel a sua importncia nesse processo. Ao interferir na formao do sujeito que atua e atuar no mundo, est tambm interferindo nos caminhos e, consequentemente, nos resultados futuros. 5.3 Novas geraes, novos padres e novos desafios de aprendizagem /ensinagem em sala de aula A Gerao Y, bem como a Gerao Z, esto sofrendo uma ruptura brusca nas formas de percepo do mundo. Essa afirmao baseia-se em percepes empricas, reunidas nos anos trabalhados como professor do Ensino Mdio e em contato direto com jovens que acabaram de sair do Ensino Mdio, ingressantes dos cursos universitrios. Tambm resultado de uma srie de leituras sobre o avano tecnolgico e suas consequncias para alunos e professores. Para a Gerao Y, a construo da personalidade, a formao de valores e o acesso informao tem-se dado por meios bem diferentes daqueles tradicionais como famlia, igreja, escola e televiso. Hoje, a percepo dos jovens muito mais imagtica e mediada por tecnologias diversas. O simples ato, por exemplo, de se ler um livro, com comeo, meio e fim, sem os elementos visuais, sem permitir a interao e a participao do leitor torna-se algo obsoleto para os jovens. Muitos jovens que chegam faculdade no se sentem desconfortveis em dizer que nunca leram um livro. Em muitos casos esses jovens, apesar de trazerem uma carga enorme de informaes, de serem extremamente inteligentes, capazes de criar coisas fabulosas a partir de uma msica, de um desenho, comum terem dificuldade de se expressar na modalidade escrita da linguagem. Na conjuntura atual, solicitar a um aluno da Gerao Y no Ensino Superior, que fale sobre a independncia do Brasil j no mais representa um desafio em uma disciplina de Histria, por exemplo. Na verdade, para esse aluno, essa tarefa seria fcil demais, j que tenderia, pela lei do menor esforo, simplesmente a copiar aquilo que ele de imediato localizasse na Internet usando o seu i-Pad, o seu celular ou o 122 seu notebook sem nem ao menos ler e questionar o que fora escrito. Uma forma interessante, compatvel com os recursos hoje disponveis, seria, por exemplo, pedir ao aluno que comparasse os processos de independncia ocorridos na Amrica do Sul, ressaltando as similaridades, diferenas e consequncias na atual conjuntura nacional. Esse raciocnio se aplica igualmente a todas as reas de conhecimento. Sobre esses jovens Santos Neto e Franco (2010) afirmam: Esses jovens so tambm vtimas de seu tempo, pois vivem o momento da ruptura, visto que aqueles que so seus professores ainda esto presos a paradigmas no que se refere aos processos de ensinar e aprender. Muitos desses professores esto acomodados a velhos modelos e resistentes a uma compreenso mais ampla das formas de leitura e apreenso do mundo pelas novas geraes. Esse um problema complexo para esses jovens, pois seu mundo entra em choque com o de seus pais e educadores: o choque de formas diferentes de apreenso/percepo e, consequentemente, tambm de construo do conhecimento (SANTOS NETO; FRANCO (2010, p. 15). A televiso foi uma das principais fontes de influncia que a Gerao Baby Boomer teve e, posteriormente, da Gerao X quanto ao seu processo educacional e sua percepo de mundo. Os alunos passaram a ser mais visuais e a linearidade de pensamento comeou a ser quebrada com o surgimento do controle remoto: ele permite ir, voltar, divagar tal como nossa mente que pensa por saltos e conexes. Apesar dessa evoluo tecnolgica que foi a televiso, essa gerao ainda conseguiu manter-se atrelada s formas tradicionais de Educao formal. Depois da televiso, a internet consolidou essa ruptura com o pensamento e a aprendizagem linear. Nessa discusso Santos Neto e Franco (2010, p. 15) consideram que As crianas e jovens (Y e Z) navegam na rede livremente, seduzidas por sua estrutura, que uma metfora de nosso pensamento fluido e no-linear. Por isso to doloroso para muitos jovens, hoje, a leitura de um livro. Ela limitada, engessada, no faz hiperlinks diretos. Por exemplo, imaginemos um jovem que est lendo o captulo de um livro no qual em um pargrafo l sobre o suicdio de baleias. O jovem quer saber mais sobre o tema, mas o livro no lhe d a possibilidade do link direto. A internet sim. Em menos de um minuto, ele saber muito sobre o tema, como poder ver as imagens e ouvir os sons de muitos casos desses suicdios em um site como o Youtube, e da poder dar novos saltos. E, note-se, muitas vezes no retornando ao assunto/tema inicial de sua pesquisa/navegao (SANTOS NETO; FRANCO, 2010, p. 15). 123 Alm disso, ainda h outros problemas para que as escolas e os professores atendam s expectativas desses alunos. Um deles a quantidade e a velocidade da evoluo dos processos tecnolgicos e, com isso, a dificuldade em selecionar aquela informao que mais til e significativa. Esse caldo cultural escorre por todos os lados, diariamente, impondo s mentes em formao o problema grave de selecionar, saber separar o joio do trigo, no sentir-se perdido dentro dessa teia infinita de informaes, e transforma-las em conhecimento pertinente para a formao de seu carter e identidade (SANTOS NETO; FRANCO, 2010, p. 16) H ainda a questo da enxurrada de opes de entretenimentos vazios que se espalham por todas as mdias. So jogos de videogames, programas de televiso, postagens na Internet, atividades nos celulares que so desprovidas de qualquer sentido e utilidade para os jovens. Servem somente para passar o tempo, como o exemplo dos jogos de videogame; a repetio at a exausto para se alcanar um objetivo. Os alunos da Gerao Y cresceram cercados de diferentes tecnologias digitais que continuam a moldar o modo como vivem, pensam, aprendem e interagem. A maior parte das atividades dirias desses jovens est relacionada com algum tipo de tecnologia e com a participao em redes sociais. Pedro (2006) afirma que a popularidade das mensagens instantneas, das redes sociais e outras ferramentas da Web 2.015, como os blogs (dirios de rede) ou as Wikis (tipo especfico de uma coleo de documentos em hipertexto), deve-se a mudanas na forma como essa gerao pode aprender, comunicar e divertir-se. Embora haja diferentes perfis tecnolgicos entre pases, entre regies de um mesmo pas e at entre estados e cidades, pode-se afirmar que, de forma geral, a tecnologia tem mudado as atitudes, os estilos e os padres de aprendizagem dos jovens. Algumas caractersticas dessa Gerao so colocadas por vrios autores (PRENSKY, 2001; STRAUSS E HOWE, 1991; REEVES, 2008; TAPSCOTT, 1998; TWENGE, 2006) e, entre elas as mais significativas so: - Uso da tecnologia: Essa gerao sente-se confortvel usando tecnologia. Isso se deve ao fato dela ter nascido nesse ambiente. No entanto, Oblinger e 15 Web 2.0 a mudana para uma internet como plataforma, e um entendimento das regras para obter sucesso nesta nova plataforma. 124 Oblinger (2005) chamam a ateno para o fato de que, embora essa gerao sinta tanta facilidade em manusear artefatos tecnolgicos sem um manual de instrues, sua compreenso e sua valorizao da tecnologia so superficiais e, por isso, o professor to importante para esses jovens. - Multitarefa: Os jovens dessa gerao so capazes de realizar vrias tarefas ao mesmo tempo. Eles veem TV, jogam, fazem os trabalhos escolares, conversam em ambientes virtuais e ouvem msica ao mesmo tempo. Para alguns autores, como Pedro (2006), Dede (2005), preciso considerar que a multitarefa na sala de aula pode levar distrao e que isso pode resultar em menor desempenho dos alunos. - Individualizao e personalizao: As novas tecnologias hoje disponveis em todos os lugares permitem o acesso informao qualquer hora e a qualquer hora e os jovens tem o controle desse acesso. Prensky (2005) considera que preciso que o ambiente de sala de aula capitalize o controle dos jovens sobre os temas de seu interesse e as capacidades e competncias individuais dos alunos, caminhando no sentido da instruo personalizada, adaptando-se s formas de aprender de cada aluno. - Hiperconectados: Oblinger e Oblinger (2005) consideram que os alunos da Gerao Y gostam de estar sempre disponveis, sempre conectados. Em funo disso, Tapscott (2008) diz que os jovens ao se conectarem internet deixam de ser os passivos espectadores em frente televiso, como foi a Gerao X, e isso tende a transformar seus crebros. - Imediatismo: O imediatismo uma caracterstica dos jovens em virtude da exposio a diferentes meios de comunicao e velocidade da transmisso de informaes. Esse ritmo acelerado pode resultar em desateno em sala quando a aula est lenta, no desafiante para o aluno ou quando deixa de ser interativa. - Mltiplos tipos de mdia: Os alunos esto de tal forma acostumados aos mais variados tipos de ferramentas (computadores, mp3, I-pod, I-phone, aparelhos celulares etc.) que uma aula sem esses instrumentos no faz sentido para eles. - Gostam de aprender fazendo juntos: Os jovens preferem aprender fazendo a algum lhes dizendo o que fazer. Assim, gostam de trabalhar em grupos, esto sempre abertos diversidade e, muitas vezes, seus pares tm mais credibilidade do que seu professor (OBLINGER; OBLINGER, 2005). 125 necessrio conhecer e compreender esses jovens para que se possam criar condies propcias aprendizagem e desenvolvimento dos alunos. Moura (2010) afirma que Ningum duvida que essa gerao de alunos diferente das anteriores, por estarem constantemente conectados internet e com o seu telemvel. Apesar de muita gente pensar que so individualistas, descuidados, que a escola no lhes interessa, a realidade diferente. Os mdia e as empresas sabem disso e esto a mudar a sua metodologia de aproximao, para os manter interessados, no entanto, a escola continua a fazer quase o mesmo que h dcadas antes quando se instituiu a escolarizao formal (MOURA, 2010, p. 141). Nesse contexto, fundamental que a aula, o professor e, de forma geral, a escola sejam repensados para que suas funes no se tornem obsoletas. Santos Neto e Franco (2010) faz uma anlise da influncia da internet nos relacionamentos dos jovens. Os autores colocam que o fato de o jovem participar de comunidades na internet tem seu lado positivo, quando isso proporciona o relacionamento com pessoas que tm os mesmos gostos em qualquer lugar do mundo. No entanto, segundo os autores, o lado negativo disso que se corre o risco de julgar outros seres humanos somente pelo conhecimento superficial e pela afinidade que os une e Analisar o outro apenas por um aspecto que nos une coisificar o outro. Eleger uma faceta como o todo (MOURA, 2010, p. 16). A consequncia disso que Muitos jovens dessas novas geraes tratam as relaes humanas como aquelas que tm com os objetos de consumo: se a relao no me satisfaz de uma maneira, em um dos aspectos, deve ser descartada. Ao longo do tempo, isso pode acelerar os processos de intolerncia e, no limite, de agressividade e excluso. (SANTOS NETO; FRANCO, 2010, p. 16) Sobre isso, Levi (2001) considera que essas mudanas na percepo do mundo, baseadas na hipertextualidade, esto reestruturando o crebro. A memria deixar de desempenhar algumas de suas funes e a possibilidade de uma conscincia planetria emergente parece verossmil. No entanto, para Santos Neto e Franco (2010, p. 17) Essa mudana de percepo no significa uma mudana na formao do carter; no significa que teremos uma humanidade melhor, mais solidria, mais doce. Tudo depender de como os jovens resolvero essa grande questo: deixar o carter ser 126 assassinado pela diverso vazia, ou buscar nessa estrutura rizomtica, maravilhosa, os caminhos para uma verdadeira revoluo interior que favorea autoconhecimento, generosidade, solidariedade e cuidado com a Gaia e seus viventes (SANTOS NETO; FRANCO, 2010, p. 17). As transformaes de que tratam os autores so complexas e passam pelo individual e pelo coletivo. A escola e os educadores podem e devem ajudar as crianas e jovens na construo desse movimento, como afirma Boff (1994, p. 74) Precisamos sim de revolues para realizarmos transformaes necessrias. Mas os caminhos para essas transformaes so hoje diferentes. No bastam as transformaes estruturais; precisamos transformar tambm as subjetividades, pessoais e coletivas. Acreditamos nas revolues moleculares. Como as molculas, a menor poro de matria viva, garantem a sua vida pela relao e articulao com outras molculas e com o meio ambiente, de forma semelhante, as revolues devem comear nos grupos e nas comunidades interessadas em transformaes. Nos grupos transformam-se as pessoas, suas prticas e suas relaes com a sociedade circundante. A partir da podemos comear a mudar os espaos mais amplos da sociedade (BOFF, 1994, p. 74). Assim, os novos processos educativos no podem deixar de considerar as mudanas pelas quais a sociedade e, sobretudo os jovens passam e, a partir da, poder detectar qualidades e lacunas que precisam ser supridas para que a escola possa cumprir seu papel de instituio responsvel pela Educao formal. Outro ponto desta discusso esclarecer aos nativos de Y que, ao pensar em mercado de trabalho, no existe mais o meu ou o seu pas. Existe uma verdadeira aldeia global com competidores de todos os cantos do mundo. Esse processo torna o xito em uma seleo ainda mais difcil. Os melhores profissionais, independentemente de nacionalidade, certamente ocuparo os melhores postos de trabalho. Os nativos de Y precisam entender que a sua formao no Ensino Superior exigir bem mais que aquela exigida das geraes anteriores. No entanto, esse cenrio no pode ser temido, deve ser percebido como uma motivao para maior comprometimento e dedicao. 127 4.3. Alunos digitais versus migrantes digitais no ambiente escolar Um dos primeiros autores a investigar o comportamento da Gerao Y foi Tapscott (2008). Nesse estudo, o autor considera que essa gerao vai acabar por impor sua cultura sociedade. A investigao do autor iniciou-se em 1996 e, em 2008, resultou no livro Grown up digital: how the net generation is changing your world, no qual o autor tenta quebrar os esteretipos negativos ligados a essa gerao. Prensky (2001), por sua vez, introduz os conceitos de nativos digitais e de imigrantes digitais. Segundo o autor, os nativos digitais so aqueles jovens que convivem e interagem com a tecnologia desde o nascimento e so fluentes na linguagem digital dos computadores, dos jogos de vdeo e da internet. J os migrantes digitais so aqueles que falam a linguagem digital, mas com sotaque e mostram dificuldade em compreender e expressar-se digitalmente. Esse autor mostra, em sua obra, certo estranhamento ao fato de que, nos debates sobre o declnio da Educao nos Estados Unidos, no citada a causa principal que, em sua viso, a mudana radical do pblico que frequenta os sistemas de ensino: nossos alunos tem mudado radicalmente. Nossos sistemas de ensino no foram concebidos para ensinar os alunos de hoje (PRENSKY, 2001, p. 1). Ainda segundo o autor, o grande problema so as diferenas existentes entre aquilo que os nativos digitais necessitam e as decises educativas tomadas, quase sempre, pelos imigrantes digitais. Nossos instrutores, Imigrantes Digitais, que falam uma linguagem ultrapassada (o da era pr-digital) esto lutando para ensinar uma populao que fala na inteiramente nova lngua (PRENSKY, 2001, p. 2). Nessa mesma linha de pensamento, Moura (2010, p. 73) afirma que Na sociedade da informao e do conhecimento a fronteira digital que separa os nativos dos imigrantes. Actualmente, as polticas educativas so programadas e geridas por imigrantes digitais para nativos digitais (MOURA, 2010, p. 73). Segundo a mesma autora, essa situao algo de inquietaes para vrios autores (KUKULSKA-HULME TRAXLER 2005; PRENSKY, 2001; WAYCOTT, 2004), medida que o futuro da Educao est a ser pensado e regulado por imigrantes digitais, com todas as consequncias que daqui advm. Para Prensky (2001), existe na escola uma defasagem entre os aprendentes (nativos digitais) e os educadores (imigrantes digitais). Para o autor, a escola no 128 aproveita bem as competncias desenvolvidas pelos alunos porque muitos professores no conseguem entender que os seus alunos conseguem aprender vendo televiso, acessando internet, ouvindo msica ou coisa assim. Isso se d porque os professores no conseguem fazer isso e, assim, no compreendem que os alunos possam. Esses alunos, com essas caractersticas, tornam cada vez mais difcil o processo de ensino e de aprendizagem se as metodologias tradicionais continuarem a vigorar nas escolas. No h como regredir. Segundo Prensky (2001), o crebro dos nativos digitais est diferente. O neurocientista e psiquiatra da Universidade da Califrnia, Gary Small concorda com isso. Segundo o pesquisador, usar a internet ativa mais o crebro do que ler um livro. Para entender que influncia a pesquisa na Web tem no crebro, realizou um estudo com indivduos que costumam pesquisar na Internet e outros que no tm esse hbito. Verificou-se que quando se pesquisa na Web, o crebro mostra mais atividade no crebro, cerca do dobro, do que quando se l um livro16. Piscitelli (2009) comunga com o pensamento de Prensky. Em seu livro Nativos Digitales. Dieta cognitiva, inteligncia colectiva y arquiteturas de la participacin17 ele chama a ateno para uma situao paradoxal: os professores so preponderantemente imigrantes digitais, mas precisam ensinar a uma populao que fala uma linguagem totalmente diferente, incompreensvel para eles. O resultado dessa situao a rejeio por parte dos alunos em querer participar das aulas. Contudo, essa viso tem sido contestada por outros autores. De acordo com Kuklinski (2010) todo o paradoxo de que h uma nova gerao de alunos com habilidades sofisticadas para as quais os professores no esto preparados necessita de suporte terico profundo e investigao emprica. O autor apresenta uma srie de argumentos, sustentados por estudos realizados, que negam essa contradio. Kuklinski afirma que o ecossistema digital foi criado pelas geraes precedentes, Gerao X e Baby Boomers. Essa ideia reforada por Gladwell (2008) quando afirma que a internet e a maioria dos referentes da indstria tecnolgica pertencem s geraes anteriores e no Gerao Y. Analisando a teoria de Kuklinski (2010), Moura (2010) afirma que 16 cf. http://veja.abril.com.br/120809/internet-transforma-cerebro-p-96.shtml 17 Nativos Digitais: Dieta cognitiva, inteligncia coletiva e arquiteturas da participao. http://veja.abril.com.br/120809/internet-transforma-cerebro-p-96.shtml129 Kuklinsky no est convencido da influncia digital das geraes mais jovens. Para esse autor, os nativos digitais utilizam de forma limitada as plataformas colaborativas, desperdiando grande parte do seu potencial, carecem de curiosidade pela autoformao, sofrem de disperso, tm falta de compromisso com os estudos e escassa tica do esforo. Carecem de leitura crtica dos recursos pesquisados na Web, sendo difcil para eles encontrar textos significativos para executar uma tarefa especfica... segundo Kuklinsky errado atribuir toda a responsabilidade da mudana pedaggica aos professores, como assinala Prensky (2001) (MOURA, 2010, p. 75). Nessa linha de pensamento, o que se percebe que os professores devem buscar um refinamento de sua prtica quanto ao uso das tecnologias, incorporando-as s suas aulas, mas, tambm, os alunos devem assumir a sua parte de responsabilidade na sua formao. Para Moura (2010, p. 75) Essa responsabilidade vai para alm de um comportamento passivo, de sentar-se na sala, apenas a ouvir o professor, tomar notas e realizar provas de avaliao. necessrio uma coevoluo participativa e emergente entre todos os atores educativos. errado pensar que se vai encontrar nas tecnologias de informao e comunicao as solues para a complexidade que envolve o processo educativo (MOURA, 2010, p. 75). Estudos realizados por Bennett et al. (2008) tambm questionam a ideia de uma gerao diferente e duvida que haja necessidade de mudanas profundas no ambiente escolar para beneficiar esses jovens. Para esses autores, o discurso sobre os nativos digitais alunos e os migrantes digitais professores tem sido repetidamente reproduzido, contudo no h nenhuma evidncia emprica que o sustente. Os autores acreditam que as mudanas so partes de um processo, mas no exigem nenhuma revoluo ou reconfigurao profunda da Educao formal. Apesar de os jovens estarem completamente integrados s prticas digitais no seu dia a dia, no h evidncia alguma de uma ciso com as metodologias educativas clssicas. A Gerao Y , provavelmente, a mais alfabetizada da Histria e, por ter crescido em um ambiente naturalmente tecnolgico, possui certas capacidades que a colocam em uma posio privilegiada na sociedade do conhecimento. No entanto, para Kuklinski (2010), isso no significa que ela seja a mais bem preparada da Histria, nem tampouco faz de seus membros os melhores e mais eficientes alunos. A disperso cognitiva e a falta de capacidade para se ligar com conhecimentos complexos, como a cincia, parecem afetar sua produtividade. Para Moura (2010), 130 preciso ver a questo dos dois lados. Mas o que parece acontecer que muitos estudantes no chegam escola to familiarizados com o software ou aplicaes como se esperava. H alguns indivduos sempre curiosos em saber como funciona o software, querendo explorar as suas diferentes possibilidades e so esses que se tornaro mais proficientes na sua utilizao... Porm, a maioria dos indivduos utiliza as funes bsicas do que lhes dado a conhecer, no indo muito alm disso (MOURA, 2010, p. 76). Sobre as diferenas entre o imigrante digital e os nativos digitais, Moura (2010, p. 76) afirma que O que se verifica, tambm, que o imigrante digital prefere continuar a experimentar os programas que conhece e explorar amplamente as suas potencialidades, enquanto que o nativo digital parece estar mais disposto a experimentar o que novo e desconhecido. Isso talvez no seja devido a um conhecimento inato do funcionamento interno do software, mas porque esto acostumados a ver e a querer experimentar coisas novas que saem regularmente... De uma forma geral, ser sempre uma minoria a estar disposta a assumir risco e inovar (MOURA, 2010, p. 76). Em artigo publicado em um jornal australiano, em 2009, The natives arent quite so restless18, Scanlon apresenta tambm uma viso crtica existncia dos chamados nativos digitais e s mudanas que esses jovens acarretam ao ensino nas universidades. Esse autor considera que os nativos digitais sejam a exceo e no a regra. Para ele, a maioria dos jovens est familiarizada com o e-mail e com telefones celulares, mas afirma que, entre seus alunos na universidade, muitos ainda precisam aprender como pesquisar adequadamente no Google e preferem perguntar ao professor as respostas a procurar no site de busca. O autor considera que muitos dos alunos que teoricamente so nativos digitais enfrentam as mesmas frustraes que os mais velhos. Ainda analisando a obra de Marc Prensky, Moura (2010) afirma que A controvrsia volta do conceito nativos digitais, fez Prensky (2009) desvalorizar a sua inveno terminolgica (nativos versus imigrantes) em relao aos tempos actuais e passar a falar em sabedoria digital (digital wisdom), definindo-a como um conceito de dupla entrada, capaz de aludir s capacidades cognitivas dos indivduos para utilizar as tecnologias, bem como prudncia e pertinncia do seu uso. Essa nova verso terica afirma que essa sabedoria no se encerra em um tempo preciso, ela evolui constantemente (MOURA, 2010, p. 77). 18 Os nativos no so to inquietos. Disponvel em . 131 5.4 O professor para alunos da Gerao Y inegvel a existncia de um conflito ou de, no mnimo, discrepncias entre a maior parte das escolas e os alunos que a ela esto chegando. Isso j perceptvel no Ensino Fundamental e no Mdio. No Ensino Superior tambm isso se tem tornado uma realidade, j que os alunos da Gerao Y, hoje, so maioria nos cursos superiores. Desse contexto surgem duas situaes bastante distintas: comum, nos corredores escolares, nas salas de professores e nas reunies pedaggicas, ouvirmos alegaes de que os alunos no gostam de ler, so desinteressados, preferem gastar horas e horas em frente a um computador, celular, I-phone ou outros aparelhos tecnolgicos em games, ou em bate-papos, que leem pouco e possuem dificuldade para trabalhar em grupo. De outro lado, os alunos definem a escola como um lugar chato, desinteressante e ultrapassado, totalmente descontextualizado e entediante. Ao que parece, os alunos no so aqueles sonhados pela escola/professores, nem a escola/professores so aqueles sonhados pelos alunos. Sobre as caractersticas dos alunos que chegam escola e a relao com seus professores, Martins e Giraffa (2013, p. 3632) afirmam que O ambiente escolar recebe a cada ano alunos que se movimentam naturalmente pelo ciberespao19, viajam virtualmente por lugares imaginrios, conhecem relquias da cultura mundial, interagem com pares de mesmo interesse, navegam nos espaos experimentando novos limites, sensaes, produzem e consomem conhecimento de uma maneira totalmente diversa da tradicional. Essa revoluo nas formas de buscar informaes, conhecimento e comunicao diferem da forma de trabalhar e interagir da maioria dos seus professores. Os docentes, na sua grande maioria, ainda fazem uso preferencial (ou quase exclusivo) das tecnologias associadas aos meios tradicionais e baseiam sua pesquisa e produo no papel. Quando trocam experincias com seus pares, buscam aqueles que esto prximos geograficamente (MARTINS; GIRAFFA, 2013, p. 3632). Nesse sentido, Chamarelli (2011) analisa que Ao se desenvolverem com a tecnologia os nativos desenvolveram um novo mtodo de aprendizado. Durante todo o decorrer do dia eles so surpreendidos com um novo desafio tecnolgico, eles aprendem interagindo com a informao, tendo acesso a uma ampla fonte de 19 Termo utilizado por Lvy (1999) que indica os meios materiais de comunicao digital, mas, sobretudo o universo de informaes e interaes humanas. Essas ltimas alimentam e navegam por esse espao. 132 informao a qual esto o tempo todo conectados, esto acostumados a receber informaes mais rapidamente do que um professor em sala de aula capaz de transmitir (CHAMARELLI, 2011, p. 28). Para alguns, todo esse universo tecnolgico em que os alunos hoje esto mergulhados, prejudica e estraga os jovens. De acordo com uma pesquisa publicada no New York Times, as crianas tendem a realizar uma mdia de sete tarefas, tais como enviar mensagens de texto ou verificar o e-mail, enquanto assistem a televiso. Esse nmero significativamente menor para os idosos. Enquanto isso, ajuda a ensinar aos adolescentes como fazer vrias tarefas ao mesmo tempo, os pesquisadores esto preocupados que isso possa limitar a capacidade deles de se concentrar, posteriormente afetando seu desempenho na escola. No entanto, Johnson (2012), em seu surpreendente livro Tudo o que ruim bom para voc faz uma retrospectiva dos testes de QI (quociente de inteligncia) ao longo de alguns anos. O que se pode notar que as mdias nos testes tm aumentado nos ltimos anos. O autor faz uma anlise com a infncia de 40 anos atrs e com a infncia atual e o resultado aponta que a criana de hoje menos passiva do que uma criana naquela poca. A ideia bsica do livro de Johnson de que todo esse estilo de vida das crianas e dos jovens ligados a videogames, a internet, a seriados e shows de TV est se tornando cada vez mais complexo e isso exige maior concentrao e inteligncia deles e, por isso, os pais e crticos culturais em geral no devem se desesperar porque os jovens passam boa parte de seu tempo livre, por exemplo, jogando Grand Theft Auto (GTA srie de jogos de computador e videogame) ou utilizando algum dispositivo tecnolgico. Assim, necessrio pensar nesse novo aluno e considerar seu perfil para se pensar a escola que no pode ignorar o desenvolvimento e as transformaes que se tornam cada vez mais presentes. Para acompanhar todas essas mudanas, Tapscott (2010, p. 156) afirma que A capacidade de aprender novas coisas mais importante do que nunca em um mundo no qual voc precisa processar novas informaes em grande velocidade. Os estudantes precisam ser capazes de pensar de forma criativa, crtica e colaborativa para dominar os aspectos bsicos e se destacar em leitura, matemtica e cincias para ter competncia de leitura e para reagir s oportunidades e desafios com rapidez, agilidade e inovao. Os estudantes precisam expandir sua base de conhecimento para alm das portas de sua comunidade de quiserem se tornar cidados globais responsveis e cooperativos em uma economia mundial cada 133 vez mais complexa (TAPSCOTT, 2010, p. 156). Para que o professor possa ter sucesso em sua funo, ele tambm ter que estar imerso nesse universo de mudanas e isso dever iniciar j em sua formao. Para Arago (2008, p. 47) Formar profissionais em uma sociedade sem fronteiras, assolada pela competitividade e pelo individualismo, requer o conhecimento de valores que contribuam para prticas de ensino integradoras, emancipatrias e inclusivas, formando pessoas com vises abertas e rigorosamente crticas (ARAGO, 2008, p. 47). A afirmao acima aplicvel a qualquer profissional e, quando se fala em professores, ela se torna mais expressiva ainda, j que a Educao exige profissionais capacitados, suficientemente preparados para os desafios futuros. O professor, mais do que nunca, ser testado no que se refere a saber conviver com as rpidas e constantes mudanas que ocorrem em um mundo que, at ontem, era pequena aldeia, para hoje, se tornar uma aldeia global. Para isso, ele ter que estar comprometido com a atualizao constante e estar disposto a considerar essas transformaes. Santos Neto e Franco (2010) indicam alguns aspectos importantes nos processos de formao dos professores que desejam se preparar para a tarefa de educar as novas geraes, seja na formao inicial ou continuada. Entre esses aspectos, esto aqueles do ponto de vista da racionalidade, da autoformao, das novas linguagens e dos projetos pedaggicos e do trabalho coletivo. Os autores afirmam que do ponto de vista da racionalidade necessrios que [...] os professores estudem as novas geraes, suas caractersticas, possibilidades e limites e tambm os processos de mudana paradigmtica e as rupturas desse tempo, bem como e as rupturas desse tempo, bem como se empenhem em construir novas snteses em suas prticas educativas (SANTOS NETO; FRANCO, 2010, p. 13). Essas snteses devem favorecer a construo de novos caminhos para as prticas escolares, visto que esto sempre se renovando. Quanto autoformao, os autores esclarecem que preciso que os professores procurem se autoconhecer para que, por meio disso, possam fazer um resgate crtico de sua prpria trajetria formativa. Reconhecer, desconstruir e reconstruir criativamente o prprio caminho profissional, de acordo com as 134 necessidades de cada momento histrico, algo fundamental para o trabalho docente (SANTOS NETO; FRANCO, 2010, p. 13) Ser necessrio, tambm, do ponto de vista das novas linguagens, que o docente desenvolva, alm do conhecimento especfico de sua matria, tambm a capacidade de lidar com diferentes linguagens. [...] se faz fundamental o domnio, ainda que focado em certos aspectos da tecnologia dos computadores para redao, pesquisa e criao de textos e materiais didticos, assim como para o dilogo e a interao com as novas geraes (SANTOS NETO; FRANCO 2010, p. 13). Nesse contexto, no podemos deixar de lado a linguagem artstica, que deve ser uma preocupao constante dos profissionais da Educao deste tempo. Segundo os autores, os professores pertencentes gerao Baby Boomer e Gerao X devero perder o seu medo com os processos computacionais, pois aproximando-os dos processos artsticos, podero ajuda-los a criar n narrativas de nosso tempo. Por fim, Santos Neto e Franco (2013, p. 13) colocam que, do ponto de vista dos projetos pedaggicos e do trabalho coletivo, embora sejam abordados desde muito tempo, so saberes que ainda precisam ser mais bem elaborados pelos professores. Para os autores, A escola cada vez mais realidade coletiva, e se os professores no aprenderem a lidar com as dificuldades do trabalho coletivo, superando-as em direo a realizao de um projeto que expresse a construo, de fato, coletiva do trabalho escolar, ento muitas sero as dificuldades que se colocaro no cotidiano da escola. No mais possvel a construo do trabalho escolar a partir da ao isolada e individualista dos professores (SANTOS NETO; FRANCO 2013, p. 13) Fica evidente que, cada vez mais, o nosso tempo est tomado por mudanas constantes e velozes e isso traz desafios para os professores que so provocados a repensar continuamente sua prtica, j que novas competncias sero cada vez mais exigidas dos docentes. Diante da velocidade das mudanas, que quase sufocante, preciso que o professor descubra como lidar com o acmulo de conhecimento e de informaes. O professor do futuro tem incorporada toda a produo intelectual dos sculos passados e seu desafio se formar e transformar sua prtica constantemente, 135 levando em conta as produes culturais e histricas atuais. preciso debater qual o papel do professor na relao de ensino com os novos alunos que chegam universidade e, para isso, faz-se necessrio estender e inventar a prtica educativa, compreendendo o cruzamento e a aproximao de trs aspectos: tempo, espao e velocidade. O sculo XXI traz consigo questes que demandam novas atitudes por parte dos profissionais do ensino e pelos outros setores da sociedade, como, por exemplo, o poder pblico na elaborao de polticas direcionadas Educao dos jovens. Os professores devem, sim, preocupar-se em ser plurais, em dialogar com o novo, estar abertos s novidades tecnolgicas e novas linguagens, mas sem perder as suas razes, seus valores, sua vivncia. CONSIDERAES FINAIS O objetivo desta investigao foi o de conhecer o universo da Gerao Y e, dessa forma, ampliar o debate sobre o tema e analisar as influncias dos jovens dessa gerao nas relaes de trabalho e, sobretudo, no trabalho docente. De maneira mais especfica, buscamos discutir a redefinio do conceito de trabalho e analisar as novas nuances que ele tem assumido com o avano da tecnologia, proporcionado pela Revoluo Tecnolgica a partir da dcada de 1970, bem como os impactos dessa Revoluo nas esferas social, poltica e econmica. Com vistas a entender a socializao e individualizao dos sujeitos pertencentes Gerao Y no mundo do trabalho, a partir da revoluo tecnolgica e tendo como premissa que o processo de construo dos indivduos mediado pela coexistncia de distintas instncias produtoras de valores culturais e identitrias, apresentamos a teoria do habitus presente nos estudos de Pierre Bordieu e de Norbert Elias. A Teoria do Habitus nos ajudou no entendimento da socializao e individualizao dos sujeitos pertencentes Gerao Y no mundo do trabalho e no ambiente escolar, tomando a famlia, a escola e a mdia como instncias principais que se relacionam na formao e na construo da identidade dos jovens dessa Gerao. A bibliografia consultada nos permitiu caracterizar a Gerao Y e, a partir da, possibilitou uma anlise do impacto que os jovens dessa Gerao esto provocando em vrias instncias da sociedade, sobretudo no mundo acadmico, listando em que aspectos a prtica profissional docente tem sido afetada em funo das especificidades desses alunos e em que aspectos as escolas e os professores devero adaptar-se para o atendimento a esse pblico. O mercado de trabalho, ao longo da Histria e em diferentes pocas, foi marcado pela insero de jovens trabalhadores. Nos dias atuais, estamos testemunhando a entrada de jovens com algumas caractersticas bastante diferentes das anteriores: os da Gerao Y. O ingresso dessa gerao no mundo do trabalho tem despertado a curiosidade e o interesse de estudiosos do comportamento humano, especialmente quanto aos impactos por ela produzidos na dinmica das organizaes. 137 A presena desses jovens no mercado de trabalho vai ao encontro de alguns atributos essenciais ao mundo moderno, pois agrega velocidade, agilidade, multiplicidade de informaes, mudana e inovao. No que as empresas devero reinventar-se para atender s caractersticas desses jovens e, sim, que elas adaptem e modernizem seus processos para se adequarem ao mundo atual e, consequentemente, gerao que a elas est chegando. O mundo mudou, as relaes humanas mudaram, acreditamos que algumas mudanas so inevitveis, simplesmente porque so a sequncia dessas transformaes. A Gerao Y tem feito com que se reescrevam as polticas de recursos humanos e normas organizacionais, adotando uma postura mais flexvel para a utilizao de recursos tecnolgicos, horrios mais flexveis, lideranas inspiradoras e a criao de ambientes desafiadores, em que os funcionrios possam cada vez mais participar de projetos em diversas reas da empresa. Por outro lado, os jovens tambm precisam entender a necessidade de complementaridade dos papis atuais exercidos pelas diferentes geraes para, no futuro, lidarem melhor com as diferenas entre eles e as novas geraes de seu tempo. Paralelamente ao mercado de trabalho, a Gerao Y trouxe para o Ensino Superior uma mistura de comportamentos, atitudes e expectativas que, por um lado cria oportunidades e, por outro, desafios para esse nvel de ensino. As oportunidades surgem a partir da familiaridade dos alunos com a tecnologia, estilo multitarefa, otimismo, orientao da equipe e maior capacidade da diversidade. Do outro lado, os desafios incluem a superficialidade de seus hbitos de leitura e visualizao de TV, uma relativa falta de habilidades de pensamento crtico, opinies ingnuas sobre propriedade intelectual e a autenticidade das informaes encontradas na Internet, bem como altas expectativas confrontando com baixos nveis de satisfao. Esses alunos possuem uma caracterstica bastante marcante: a familiaridade com as tecnologias. Esses fatores representam um desafio para os lderes de Ensino Superior, professores e funcionrios j que quase todos eles pertencem a geraes anteriores: compreender e conviver com o aluno da Gerao Y e, a partir dessa compreenso fornecer os ambientes de aprendizagem, servios e instalaes necessrias para ajudar esses alunos a alcanar o seu potencial. 138 Muitas instituies demonstram intenso interesse nas necessidades acadmicas, sociais e pessoais de seus alunos. So inmeros dados coletados dos alunos, no sentido de se trabalhar com a realidade deles. No entanto, as transformaes e as diferenas geracionais nem sempre so utilizadas buscando-se compreender o comportamento dos alunos, atitudes e expectativas e, com isso, as mudanas e as adaptaes dentro da academia continuam em um ritmo lento e deliberado. Adaptar processos e servios institucionais s necessidades de uma gerao especfica de estudantes como a Gerao Y exige planejamento prvio e ao e isso demanda tempo. As instituies correm o risco de no conseguirem essa adaptao, j que o planejamento e a deliberao podem exceder o tempo de durao dos cursos em que j esto matriculados. Lderes institucionais precisam encontrar maneiras de pensar sobre geraes na concepo de campus e as iniciativas individuais dos alunos, bem como para discernir as tendncias que iro permitir o planejamento dirigido para o futuro. Curiosamente, em toda a bibliografia consultada, o que se percebe que os alunos atribuem caractersticas aos bons professores que parecem ser universalmente consideradas e no diretamente relacionadas aos aspectos tecnolgicos, como acreditvamos no incio desta investigao. Embora o comportamento dos alunos, as atitudes e as expectativas sejam tpicos de sua gerao, o que constitui um bom ensino para eles o mesmo considerado pelas demais geraes. O professor que facilita o aprendizado do aluno, que comunica ideias e informaes de forma eficaz, que demonstra interesse na aprendizagem dos alunos, que se organiza, que demonstra respeito aos alunos e que avalia o progresso do aluno de forma justa ainda visto como um bom profissional. As habilidades tecnolgicas um instrumento poderoso no dia a dia do professor, mas no representa o essencial para o seu sucesso. Isso no quer dizer que o professor no precisa mudar. O que se pde perceber que as transformaes que se apresentam na sociedade atual marcam novo compasso s relaes e, por consequncia, impem novos ritmos para as relaes pedaggicas. Os jovens que hoje chegam s universidades trazem consigo expectativas, dificuldades e possibilidades s quais o professor ainda tem que se adaptar para trabalhar integralmente, justamente porque so desafiados a ensinar e aprender em um paradigma diferente do anterior, no qual foram formados e suas certezas foram construdas. 139 Cabe, dessa forma, universidade, na figura dos legisladores, e aos dirigentes promoverem a gesto dessas dificuldades e possibilidades, aproveitando-as como oportunidade de reviso e de transformao. Aos professores, cabe a tarefa de analisar a realidade para, a partir dela, planejarem e redirecionarem, se necessrio, sua formao e, com a experincia que j possuem, adaptar a prtica pedaggica para que o atendimento aos alunos da Gerao Y possa se dar de modo satisfatrio para docentes e discentes. Esses jovens, normalmente, esto matriculados em cursos que representam o cone das inovaes, das tecnologias e do desenvolvimento social e, assim, necessrio que todos estejam envolvidos na busca de melhorias no seu processo de formao, de modo a contribuir mais intensivamente para a formao de profissionais mais aptos a intervir no desenvolvimento industrial, tecnolgico, econmico e social. Mais do que entender os acadmicos que chegam universidade, necessrio trabalhar em parceria com eles, desenvolver suas competncias por meio de estratgias inovadoras e aulas mais dinmicas. So vrias as pesquisas em que fica claro o valor que os estudantes depositam no seu processo de formao, na nfase que do aos vnculos estabelecidos entre docente e discente e, por fim, da importncia que tem o respeito aos diferentes estilos de aprendizagem e a necessidade de se desenvolver nos alunos a importncia do aprender a aprender. No podemos deixar de considerar que todas as caractersticas apresentadas por esses alunos como a impacincia, o imediatismo, o desinteresse por algumas questes esto mediados por elementos que os pressionam nessa direo e que os deixam frente a frente com dilemas que precisam ser enfrentados. Assim, o grande desafio dos docentes est em colocar esses jovens no movimento de participar mais, de intervir, de viver intensamente todas as habilidades inerentes aos seus contemporneos, viver intensamente a experincia universitria, para que eles possam instrumentalizar-se para a vida em sociedade, convivendo em conjunto com outras geraes, aprendendo e ensinando. Cabe a ns, professores e pesquisadores da docncia, buscar meios de articular as expectativas deles com aquilo que fazemos em sala de aula. Parece at um chavo, mas aulas diversificadas, currculos e mtodos de ensino pensados considerando a realidade em que esses jovens esto inseridos, trocas interdisciplinares so ainda aspectos que precisam ser repensados para o trabalho com esses jovens. 140 Os dados apresentados nesta pesquisa permitem identificar caractersticas importantes de uma gerao, que necessitam ser repensadas, trabalhadas e desdobradas para direcionar a tomada de deciso e se promover as mudanas necessrias, dividindo esforos e conjugando competncias. Percebemos que conhecer nossos alunos nos d muito mais opes para envolv-los no processo de aprendizagem. Ao longo da Histria da Educao e tambm das geraes, as instituies tm buscado adaptar protocolos de ensino para se ajustarem s preferncias e caractersticas dos alunos para a aquisio de conhecimento, para melhorar a aprendizagem, para facilitar a maturao e, com isso, conseguir o sucesso dos discentes. A audcia com que a Gerao Y chegou ao ambiente universitrio tem acelerado a nossa necessidade de compreender as suas caractersticas de aprendizagem. Buscamos a compreenso dessa gerao para entender o processo evolutivo e as mudanas na sociedade, no entanto Vivemos em tempos confusos, como muitas vezes o caso em perodos de transio entre diferentes formas de sociedade. Isso acontece porque as categorias intelectuais que usamos para compreender o que acontece nossa volta foram cunhadas em circunstncias diferentes e dificilmente podem dar conta do que novo referindo-se ao passado (CASTELLS, 2002, p. 1) Assim, todas as propostas aqui apresentadas de adaptao Gerao Y certamente no sero adequadas para a prxima, o que demandar, com outro vis, novas pesquisas sobre o tema. REFERNCIAS ABRAMO, Helena W.; BRANCO P. P. M. (org.) (2005) Retratos da juventudebrasileira: anlises de uma pesquisa nacional. So Paulo: Fundao PerseuAbramo. Acesso em: 10 fev. 2011. 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