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  • ~ 3 ~

    Por que voar?

    No romance Memorial do convento, de Jos Saramago, h uma bela passagemna qual o padre Bartolomeu Loureno de Gusmo (16851724) afirma que

    [] na Holanda soube o que o ter, no aquilo que geralmente se julga e ensina,e no se pode alcanar pelas artes da alquimia, para ir busc-lo l onde ele est, nocu, teramos ns de voar e ainda no voamos, mas o ter, deem agora muita atenoao que vou dizer-lhes, antes de subir aos ares para ser o onde as estrelas se suspendeme o ar que Deus respira, vive dentro dos homens e das mulheres.1

    Enquanto nessa obra o autor, com maestria, transpe o mito do sonho de li-berdade inerente aos humanos, para a histria real de seu pas, contribuindo paraperpetuar esse sonho, nesse trecho especfico h uma referncia potica moti-vao de voar, aludindo relao entre Deus e o homem. Trata-se de atingir oter inatingvel pela alquimia, como se somente o voo e a consequente proximi-dade com o cu, a morada de Deus, nos permitisse conhecer aquilo que j vive

    Bartolomeu de Gusmo:Razes de um esprito inovador

    incompreendidoFrancisco Caruso

    CBPF / Universidade do Estado do Rio de Janeiro

    HCTE / Universidade Federal do Rio de Janeiro

    Adlio Jorge MarquesProeper / Universidade do Estado do Rio de Janeiro

    ew

    AutorObra

    tcnica, dimenses, anoacervo

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    dentro de ns. Portanto, voar metfora da liberdade de sonhar entendidocomo essencial ao conhecimento de ns mesmos e, como disse Paulo Freire, impossvel existir sem sonhos.2

    Em outras partes desse livro, identificam-se semelhanas entre o padreBartolomeu e Ddalo. Conta a mitologia grega que Ddalo inventou e construiudois pares de asas com penas e cera, para que ele e seu filho pudessem fugir dailha de Creta. caro, seu filho, ignora a recomendao de no se aproximar doSol, sob pena de ter suas asas derretidas, e acaba sofrendo uma queda mortal. OSol o astro luz por excelncia e, ao longo da histria da humanidade, tem-serecorrido com frequncia luz, e ao prprio Sol, para representar o divino,como entre os povos semitas, os egpcios, os iranianos e tambm na platnica as-sociao do Sol com a ideia de Bem.3 Pode-se considerar o fato de que mesmona Antiguidade havia a percepo de que a luz era algo sutil e imaterial que sepropagava no ter csmico, perto dos astros (e assim pensaram os fsicos at oincio do sculo XX), transmitindo a ideia de liberdade entre o cu e a terra, nosdois sentidos. No Medioevo, por exemplo, a luz dos neoplatnicos desce do altoe se difunde criativamente nas coisas, enquanto a claritas de So Toms deAquino sobe a partir do baixo.4 No por acaso, muitos religiosos dedicaram-seao estudo da ptica.

    Assim, desde a idealizao da Torre de Babel, o homem no tem medido es-foros para chegar aos cus como forma de alcanar Deus. Ainda no plano dasideias, deve-se destacar a enorme contribuio de So Francisco de Assis(11821226) ao apontar uma nova forma de se chegar at Ele.

    preciso lembrar que o pano de fundo cultural da Idade Mdia crist do-minado por um estado mental religioso. O Livro ou a Bblia, nesse perodo, o smbolo por excelncia da relao entre homem e Deus na Weltanschauungcrist. S aos poucos, a partir de So Francisco, que vo ser apontados dois li-vros capazes de levar a Deus: A Sagrada Escritura e o Livro da Natureza, expres-so consagrada por Dante Alighieri (12651321) e Galileu Galilei (15641642).Essa nova via est predestinada a dar impulso arte e cincia. De fato, SoFrancisco lana um olhar diferente sobre a Natureza, buscando, na simplicida-de e na harmonia das coisas, a beleza suprema da obra divina. Como afirmaWalter Nigg,

    Francisco enxergou a realidade verdadeira da criao, que ns s conseguimoscaptar por meio de comparaes. Sentimos em todas as suas palavras a imagem viva

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    um dos primeiros naturalistas e antropologistas das Amricas; Francesco MariaGrimaldi (16181663), que estudou o fenmeno de difrao da luz; RogerJoseph Boscovich (17111787), estudioso do atomismo; e, mais recentemente,Pierre Teilhard de Chardin (18811955), famoso geopaleontlogo.

    Deve-se ainda destacar nesta introduo uma tendncia inovao, que temincio com a descoberta do Novo Mundo e perdura ainda poca deBartolomeu. O impacto da descoberta e conquista das Amricas sobre os euro-peus, luz da interao com novas terras e novos povos, levou reviso das vi-ses tradicionais de geografia, histria e natureza humana, por exemplo, comodescreve J. Elliot.7 Em particular, a questo da liberdade tambm ser revista. Asdoutrinas filosficas acerca da relao entre liberdade e necessidade, tal qualaparecem no Renascimento, so discutidas em profundidade por ErnestCassirer.8 Ele destaca uma nova dinmica do pensamento, segundo a qual a filo-sofia busca formas de conciliao entre a confiana medieval em Deus e a con-fiana do homem do Renascimento em si mesmo.9

    Por outro lado, a redescoberta de um manuscrito em 1417 do De RerumNatura (Da natureza das coisas), de Titus Lucrecius Carus, conhecido porLucrcio, foi valorizada por parte dos humanistas, e fez com que esse poema fos-se muito lido no sculo XVI. A defesa em favor da verdade cientfica, que seapreende desse texto, foi motivo de inspirao para vrios criadores do NovoMundo, dentre os quais o pensador italiano Giordano Bruno (15481600). Umadiscusso mais detalhada desses pontos fugiria ao escopo deste ensaio e, portan-to, destacam-se apenas algumas obras inovadoras como o De linfinito universo emondi, escrita pelo nolano em 1584, e dois outros trabalhos seminais que contma palavra nova: os Discorsi e dimostrazioni matematiche intorno a due nuovescienze attenenti alla meccanica e i movimenti locali, de Galileu (1638) e, deGiambatista Vico (16681744), A cincia nova, publicada pela primeira vez em1725, e que foi o pice de seu propsito, acalentado por mais de 30 anos, de pro-mover o estudo das coisas humanas esfera cientfica. Mais do que o estabeleci-mento de uma nova cincia, a obra de Vico foi o marco de fundao do projetode constituio do estatuto epistemolgico das cincias sociais. O projeto deVico conciliou as duas grandes correntes da filosofia do sculo XVII, o racio-nalismo e o empirismo, encontrando uma harmonia entre a prtica e o pensa-mento, harmonia esta muito associada mentalidade portuguesa do perodo dasGrandes Navegaes e na prpria manuteno do pas, durante e aps a UnioIbrica.

    de Deus nas coisas. O comportamento de Francisco diante das criaturas mudas era umverdadeiro retorno ao paraso.5

    Esse legado frutifica, e passa a ser frequente encontrar franciscanos que sededicaram a estudos cientficos. Pode-se citar, a ttulo de exemplo, Roger Bacon(12141294) que, por volta de 1240, ingressou para a Ordem Franciscana, naqual, sob influncia de Roberto Grossatesta (11681253), se dedicou a estudosnos quais introduziu a observao da Natureza e a experimentao como funda-mentos do conhecimento natural. Na verdade, ele foi alm de seu tutor, afir-mando que o mtodo cientfico depende de observao, da experimentao, daelaborao de hipteses e da necessidade de verificao independente. Tambmo nominalismo de William de Ockham (12801349), de razes franciscanas, ten-de a considerar apenas a causa efficiens de Aristteles como a nica necessriapara explicar o Mundo, e no se pode negar que isso ser, mais tarde, importan-te para o desenvolvimento das tcnicas e o fulcro da mecnica desenvolvida pelogrande Isaac Newton (16431727).

    No que se refere a essa compreenso embrionria de um novo mtodo cien-tfico, ela que, em ltima anlise, ir libertar de vez a cincia, e em particular aastronomia, de todo um conjunto de atitudes cerceadoras, impostas pela repre-sentao artstica sistemtica do cu dourado, caracterstica do medievo. Assim,h autores que consideram Nicolau Coprnico (14731543), que era um religio-so, um divisor de guas. Alexander Koyr (18921964), importante historiadorda Cincia, por exemplo, afirma que

    O ano de 1543, ano da publicao do De Revolutionibus Orbium Coelestium e oda morte do autor, Nicolau Coprnico, marca uma data importante na histria dopensamento humano. Estamos tentados a considerar essa data como significando ofim da Idade Mdia e o comeo dos tempos modernos, porque, mais que a conquistade Constantinopla pelos turcos ou a descoberta da Amrica por Cristvo Colombo,ela simboliza o fim de um mundo e o comeo de outro.6

    Portanto, no h motivos para se estranhar que muitos cientistas pertences-sem a ordens religiosas ou fossem padres seculares e, mesmo assim, buscassemler o Livro da Natureza. Isso particularmente verdade tambm para os jesu-tas, que tiveram forte influncia na formao acadmica de BartolomeuLoureno. De fato, podem ser citados outros como: Jos de Acosta (15391600),

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    tfora do universo-espetculo, onde o espectador tinha no deleite da observaosua maior caracterstica, como nas composies barrocas: o universo em acor-des, ainda de ressonncia pitagrica, e que exaltava a glria da natureza atra-vs da aliana dos vrios smbolos, gerando a harmonia do Cosmos;

    - a terceira, a j mencionada concepo mecnica de mundo, sintetizada nametfora do universo-mquina ou universo-relgio, que alicera o nasci-mento do um pensamento cientfico moderno. A noo de ordem e a razo tor-nam-se suporte para o entendimento da natureza.

    A rigor, o prprio termo natureza, que tanto fascnio sempre despertou nohomem, encerra certa complexidade, no havendo dele uma definio clara.12

    Na Encyclopdie, marco das Luzes na Frana e no mundo, encontra-se uma va-riedade de significados. Concepes como: sistema do Mundo, mquina doUniverso, ou conjunto de todas as coisas criadas ou no cria