Avaliação da qualidade de sedimentos do Porto de Santos: Determinação da toxicidade crônica e aguda

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Maranho, L.A.; Davanso, M.B.; Abessa, D.M.S. 2006

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  • AVALIAO DA QUALIDADE DE SEDIMENTOS DO PORTO DE SANTOS: DETERMINAO DA TOXICIDADE CRNICA E AGUDA.

    Maranho1, L.A.; Davanso1,2, M.B.; Abessa1,2, D.M.S. 1 - Ncleo de Estudos em Poluio e Ecotoxicologia Aqutica, UNESP So Vicente/SP

    2 - Laboratrio de Ecotoxicologia Marinha, LABOMAR - U F C Fortaleza/CE. lu.maranho@uol.com.br

    Palavras-chave: ecotoxicologia, dragagem, gua intersticial, elutriato, sedimento integral.

    Introduo O Porto de Santos est inserido no Sistema Estuarino de Santos, uma regio que apresenta

    intensa influncia antrpica resultante das atividades porturias, do Plo Industrial de Cubato e da urbanizao. Os mltiplos usos da regio resultaram na introduo de diversos contaminantes no ambiente , que, uma vez no sistema aqutico, tendem a permanecer um curto perodo na coluna dgua, precipitando e se acumulando no sedimento. Alm disso, o processo de assoreamento no esturio intenso, levando necessidade de contnuas dragagens no canal de navegao do porto. De acordo com a Resoluo CONAMA 344/2004 (BRASIL, 2004), necessrio caracterizar os sedimentos das reas dragadas, visando estimar possveis impactos ambientais quando da execuo dessas atividades. No presente estudo, avaliou-se a qualidade dos sedimentos de quatro pontos do canal estuarino de Santos atravs de testes de toxicidade aguda e crnica, de forma a fornecer informaes sobre riscos e impactos das atividades relacionadas s dragagens.

    Materiais e mtodos A coleta das amostras no canal do porto foi realizada em agosto de 2006 (tabela 1). O

    sedimento controle foi coletado na Praia do Engenho Dgua (Ilhabela-SP). As amostras foram coletadas com o auxlio do pegador de fundo tipo van Veen. Em seguida foram acondicionadas em sacos plsticos e depositadas em caixas de isopor com gelo e levadas ao laboratrio, onde foram armazenadas sob a temperatura de 4 C at o seu uso.

    Tabela 1. Coordenadas geogrficas dos pontos de coleta e do ponto controle. Ilha Barnab 235430 S - 4620'20,5 W Via Frrea 2354'58,7" S - 4618'5,2" W

    Mangue da Dow Qumica 235922,1 S - 4617'22,8 W Praia Sta. Cruz dos Navegantes 2359'37" S - 4618'34,7" W Praia Engenho dgua Ilhabela 2348 S - 4522 W

    Para o teste de toxicidade aguda de sedimento integral, utilizou-se o anfpodo escavador Tiburonella viscana. O mtodo utilizado foi adaptado por MELO & ABESSA (2002), que consiste na exposio dos anfpodos ao sedimento, por 10 dias, sendo avaliada a sobrevivncia dos animais expostos a cada amostra em comparao com o controle. J para os testes de toxicidade crnica de gua intersticial e de elutriatos, utilizou-se o ourio-do-mar Lytechinus variegatus, aplicando-se os protocolos de WINGER & LASIER (1991) e USEPA (1991) para a extrao das fases lquidas, e da ABNT (2006) para o teste, onde embries de ourio so expostos

  • as fases lquidas da amostra durante 24 horas, sendo depois verificado o desenvolvimento larval dos 100 primeiros organismos em cada rplica. As variveis fsico-qumicas mensuradas foram oxignio dissolvido, pH e salinidade para os trs testes, sendo que foi quantificada a amnia no ionizada para os testes crnicos, visto este ser um fator interferente para o desenvolvimento dos embries.

    Para a anlise dos resultados, primeiramente foram verificadas a normalidade e a homocedasticidade dos dados, pelos testes de Bartlett e do Chi-quadrado. Aps essa confirmao, aplicou-se o teste t-student para amostras independentes, comparando os dados obtidos em cada amostra e seus respectivos controles, utilizando o software Statistica 5.0 (Statsoft Inc.). Nos testes crnicos com L. variegatus foi considerada a bioequivalncia, estabelecida pela CETESB (2006) (R=0,91).

    Resultados e discusso Os dados fsico-qumicos mantiveram-se dentro do recomendvel para os testes. Os

    resultados dos testes de toxicidade aguda com sedimento integral e toxicidade crnica com gua intersticial e elutriatos so apresentados na figura 1 e tabela 2, respectivamente.

    0

    25

    50

    75

    100

    Ilha Barnab Dow Qumica Via Frrea Sta Cruz dos Navegantes

    Controle

    Sobr

    eviv

    ncia

    (%

    )

    Toxicidade aguda de amostras do Porto de Santos para T. viscana

    *

    **

    *

    Figura 1. Taxa de sobrevivncia de anfpodos referente ao teste de sedimento integral (Legenda: asterisco representa toxicidade na amostra).

  • Tabela 2. Resultados de desenvolvimento larval (teste crnico), para amostras do Porto de Santos.

    Desenvolvimento Larval (%)

    Ilha Barnab Via Frrea Dow Qumica Sta. Cruz dos Navegantes Controle Diluio

    PW

    100% 53,710,8 79,52,1 0,00,0 0

    82,46,1

    50% 66,724,4 85,35,5 12,02,6 0 25% 80,04,4 67,722,5 75,35,1 25,08,7

    ELU

    100% 58,324,9 74,010,7 82,86,1 64,04,3 50% 62,314,3 76,76,5 71,58,4 81,06,2 25% 58,39,2 70,511,4 54,514,3 79,04,8

    Legenda: PW gua intersticial; ELU elutriatos

    Aps anlise estatstica, foi observada a ocorrncia de toxicidade nos trs testes realizados para as estaes Ilha Barnab e Dow Qumica, enquanto para a estao Santa Cruz foi observada toxicidade aguda para o T. viscana e toxicidade crnica da gua intersticial para o L. variegatus, mesmo quando o efeito da amnia foi diminudo (diluies de 50% e 25%). Por fim, a estao Via Frrea apresentou toxicidade aguda para o T. viscana, no apresentando toxicidade nos ensaios conduzidos com fases lquidas.

    O padro final de toxicidade aguda e crnica observado para o canal do porto apresentado na tabela 3.

    Tabela 3. Toxicidade dos quatro pontos de coleta para os testes realizados.

    Ilha Barnab Via Frrea Dow Qumica

    Sta. Cruz dos Navegantes Toxicidade Teste

    AGUDA Integral Txico Txico Txico Txico

    CRNICA PW Txico Nt Txico Txico

    ELU Txico Nt Txico Nt

    Legenda: Integral sedimento integral; PW gua intersticial; ELU elutriatos; Nt no txico.

    Os resultados indicam correspondncia entre a toxicidade em sedimentos e a proximidade das fontes de contaminao, pois as piores condies foram observadas no sedimento da Ilha Barnab (terminal porturio e petrolfero) e Dow Qumica (rea contaminada segundo a CETESB), e a melhor condio ocorreu prximo entrada do Canal de Bertioga (Via Frrea), um local no to prximo de fontes diretas de contaminao. Isso demonstra que essas fontes ainda no foram totalmente controladas e o sedimento continua sofrendo alterao. Tais resultados confirmam a hiptese de que os sedimentos so txicos no esturio de Santos, e indicam que esse material no parece ser adequado para disposio em mar aberto, em caso de dragagens.

    Segundo a Resoluo CONAMA 344/04 (BRASIL, 2004) apenas sedimentos pouco ou no contaminados, e que no apresentem toxicidade, podem ser dispostos no mar. Porm, os sedimentos do Canal do Porto vm sendo considerados txicos e contaminados por compostos como Hg, Ni, Zn, Benzo(a)pireno, PCBs, Dibenzo(a)antraceno, em estudos recentes (ABESSA, 2002; LAMPARELLI, 2001; CESAR et al., 2006), no havendo garantias de manuteno da qualidade ambiental na rea de disposio ou em seu entorno, caso esse material seja lanado no mar.

  • Para que as melhorias sejam significativas e contnuas necessrio o monitoramento contnuo das atividades de dragagem e a aplicao efetiva da Resoluo CONAMA 344/04, alm da eliminao definitiva de fontes mltiplas de contaminao. Com a aplicao da Resoluo CONAMA 357/05 (BRASIL, 2005), que trata sobre o controle da emisso de efluentes e toxicidade, esperado que em longo prazo as fontes de contaminao sejam eliminadas, e a recuperao do esturio seja efetiva. Esse ser um importante passo para a recuperao ambiental da regio.

    Referncias

    ABESSA, D.M.S. 2002. Avaliao da qualidade de sedimentos do Sistema Estuarino de Santos. Tese de Doutorado, Universidade de So Paulo, Instituto Oceanogrfico, p. 290.

    ABNT. 2006. NBR 15350. Ecotoxicologia aqutica Toxicidade crnica de curta durao Mtodo de ensaio com ourio do mar (Echinodermata: Echinoidea).

    BRASIL. 2004. Resoluo n 344, de 25 de maro de 2004. Estabelece as diretrizes gerais e os procedimentos mnimos para a avaliao do material a ser dragado em guas jurisdicionais brasileiras, e d outras providncias. Dirio Oficial da Unio, Braslia, Edio n 87 de 07/05/2004.

    BRASIL. 2005. Resoluo CONAMA 357, de 17 de maro de 2005. Dispe sobre a classificao dos corpos dgua e diretrizes ambientais para o seu enquadramento, bem como estabelece as condies e padres de lanamento de efluentes, e d outras providncias. Dirio Oficial da Unio, Braslia, DF, 53, seo 1, 58-63.

    CETESB. 2006. Mtodos de avaliao de toxicidade de poluentes a organismos aquticos. CETESB, So Paulo, 95p.

    CESAR, A.; PEREIRA, C.D.S.; SANTOS, A.R.; ABESSA, D.M.S.; FERNNDEZ, N.; CHOUERI, R.B.; DELVALLS, T.A. 2006. Ecotoxicological assessment of sediments from the Santos and So Vicente Estuarine System Brasil. Brazilian Journal of Oceanography, v. 54, n. 1, p. 55-63.

    LAMPARELLI, M.L.; COSTA, M.P.; PRSPERI, V.A.; BEVILCQUIA, J.E.; ARAJO, R.P.A.; EYSINK, G.G.L.; POMPIA, S. 2001. Sistema Estuarino de Santos e So Vicente. Relatrio Tcnico CETESB, So Paulo, SP, 178 p.

    MELO, S.L.R. & ABESSA, D.M.S. 2002. Testes de toxicidade com sedimentos marinhos utilizando anfpodos. In: Nascimento, I.A.; Sousa, E.C.P.M. & Nipper, M.G. Mtodos em Ecotoxicologia Marinha: Aplicaes no Brasil. Artes Grficas e Indstria Ltda, So Paulo. 163-178p.

    USEPA. 1991. United States Environmental Protection Agency. Evaluation of Dredged Material Proposed for Ocean Disposal testing manual, U.S. Army Corps of Engineers, EPA 503/8-91/001, 214p.

    WINGER, P.V. & LASIER, P.J. 1991. A Vacuum-operated pore-water extractor for estuarine and fresh-water sediments. Archives of Environmental Contamination and Toxicology, v. 21, n. 2, p. 321-324.

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