Avaliação Assistida de Habilidades Cognitivas em Crianças ?· assistida e de competências cognitivas…

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<p>Psicologia: Reflexo e Crtica</p> <p>ISSN: 0102-7972</p> <p>prcrev@ufrgs.br</p> <p>Universidade Federal do Rio Grande do Sul</p> <p>Brasil</p> <p>Batista Guarnieri, Cecilia; Nunes da Silveira, Sylvia; Horino, Letcia Enya</p> <p>Avaliao Assistida de Habilidades Cognitivas em Crianas com Deficincia Visual e com</p> <p>Dificuldades de Aprendizagem</p> <p>Psicologia: Reflexo e Crtica, vol. 17, nm. 3, 2004, pp. 381-393</p> <p>Universidade Federal do Rio Grande do Sul</p> <p>Porto Alegre, Brasil</p> <p>Disponvel em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=18817311</p> <p> Como citar este artigo</p> <p> Nmero completo</p> <p> Mais artigos</p> <p> Home da revista no Redalyc</p> <p>Sistema de Informao Cientfica</p> <p>Rede de Revistas Cientficas da Amrica Latina, Caribe , Espanha e Portugal</p> <p>Projeto acadmico sem fins lucrativos desenvolvido no mbito da iniciativa Acesso Aberto</p> <p>http://www.redalyc.org/revista.oa?id=188http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=18817311http://www.redalyc.org/comocitar.oa?id=18817311http://www.redalyc.org/fasciculo.oa?id=188&amp;numero=1537http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=18817311http://www.redalyc.org/revista.oa?id=188http://www.redalyc.org</p> <p>381</p> <p>Avaliao Assistida de Habilidades Cognitivas em Crianascom Deficincia Visual e com Dificuldades de Aprendizagem</p> <p>Cecilia Guarnieri Batista 1</p> <p>Sylvia da Silveira Nunes 2</p> <p>Universidade Estadual de Campinas</p> <p>Letcia Enya HorinoPontifcia Universidade Catlica de Campinas</p> <p>ResumoO presente estudo visa a discutir uma proposta de avaliao do nvel de desenvolvimento potencial, conforme a concepo de Vygotsky, emcrianas com deficincia visual (baixa viso ou cegueira) e dificuldades de aprendizagem. So relatados 2 estudos, em que a avaliao constou deaplicao do teste WISC verbal, avaliao do desempenho escolar em grupo e avaliao assistida individual, sendo selecionadas para anlise ascrianas com baixos valores de QI. No segundo estudo, o procedimento foi acrescido da observao de espertezas, ou seja, de atuaes queindicam capacidades cognitivas, fora da situao formal de avaliao. Os resultados indicaram evidncias de aquisies na situao de avaliaoassistida e de competncias cognitivas variadas na anlise das espertezas. A discusso sobre modalidades de avaliao indicou possveis fontesde dificuldade na obteno de resultados indicadores do correto nvel de desenvolvimento potencial em crianas com dificuldades deaprendizagem.Palavras-chave: Avaliao assistida; crianas com dificuldades de aprendizagem; desenvolvimento e deficincia visual; desenvolvimento e dificuldadesde aprendizagem.</p> <p>Assisted Assessment of Cognitive Abilities in Children with Visual Impairment and Learning Difficulties</p> <p>AbstractThis investigation aims at discussing a procedure of assessment of the potential developmental level, according to the Vygostkys conception,in children with visual impairment (low vision or blindness) and with learning difficulties. In the 2 studies that are reported, the assessmentprocedure consisted of Verbal WISC administration, group assessment of school abilities and individual assisted assessment. The analysis wasfocused on the children with the lower IQ values. In the second study, the procedure also comprised the search for episodes of smartness,indicating cognitive abilities, out of the formal assessment procedure. The discussion about modalities of assessment indicated possible sourcesof difficulty for the search of a reliable potential developmental level in children with learning difficulties.Keywords: Assisted assessment; children with learning difficulties; child development and visual impairment; child development and learningdifficulties.</p> <p>O presente trabalho fruto de uma preocupao com aavaliao das crianas participantes de um projeto integradode pesquisa e interveno, destinado a crianas comdiagnstico de deficincia visual, que vem sendo desenvolvidopela primeira autora desde 1995, em um servio universitriopara ateno a pessoas com deficincia.</p> <p>Deficincia visual entendida, no presente trabalho, comoincluindo cegueira e baixa viso. De acordo com Colenbrander(1999), consideram-se como baixa viso os casos em que a acuidadevisual varia de 0,25 a 0,02 e/ou em que o campo visual inferiora 30. (Na mesma classificao, a acuidade normal varia de 0,8 a1,6 e o campo visual normal assume valores em torno de 60.)</p> <p>Outras alteraes visuais incluem problemas de sensibilidadeao contraste, adaptao luz/escuro (ofuscamento), viso de corese binocularidade. So considerados como quase-cegueira oscasos de acuidade e campo inferiores aos citados, reservando-se o termo cegueira total para ausncia de percepo de luze/ou de campo visual.</p> <p>Uma definio mais voltada para a viso funcional apresentada por Veitzman (2000), que apresenta o conceitoelaborado em 1992 em Bangkok, a saber:</p> <p>O portador de baixa viso aquele que possui umcomprometimento do seu funcionamento visual mesmo apstratamento ou correo de erros refracionais comuns e apresentauma acuidade visual inferior a 6/18 at percepo luminosa eum campo visual inferior a 10 graus do seu ponto de fixao,mas que utiliza ou potencialmente capaz de utilizar a viso para oplanejamento ou a execuo de uma tarefa. (Veitzman, 2000, p. 3)</p> <p>No caso do presente estudo, as crianas com baixa visotinham acuidade inferior a 0,3 (ou 6/18). Eram consideradas</p> <p>1 Endereo para correspondncia: Cepre- FCM- UNICAMP. Rua Tesslia V. Camargo,126 CP 6111, Baro Geraldo, 13084 971, Campinas, SP. Fone/ Fax: (19) 37888814.2 Agradecimentos ao Cepre-FCM-Unicamp, pelas facilidades para realizao do presenteestudo; ao FAEP-Unicamp, pela bolsa para a segunda autora e pelos equipamentos devdeo e computao; Fundap, pela bolsa de aprimoramento para a terceira autora; saprimorandas Adriana H. Arajo e Cssia C. D. C. Botecchia, pela colaborao na coleta dedados do segundo estudo.</p> <p>Psicologia: Reflexo e Crtica, 2004, 17(3), pp.381-393</p> <p>382</p> <p>cegas as crianas que, mesmo tendo alguma percepo de luz,utilizavam-se de recursos tteis para reconhecimento de objetose de representaes bidimensionais (desenhos, letras e nmeros).</p> <p>Uma das possibilidades de avaliao do desenvolvimentodessas crianas seria a aplicao de testes padronizados deinteligncia. Entretanto, esses testes vm sendo criticados porvrios autores pela tendenciosidade que apresentam, na medidaem que aspectos valorizados em sua construo trazem ovis de grupos social e culturalmente dominantes (Bock,Furtado &amp; Teixeira, 2001). Por outra tica, so criticados,tambm, por no permitirem uma anlise dos elementossob avaliao. Nesse sentido, Coll e Onrubia (1996) apontamcomo problema do enfoque psicomtrico sua incapacidadepara analisar em que consistem realmente as aptides medidaspelos testes e a explicao de suas conexes com aaprendizagem e o rendimento escolar. Os autores preconizama perspectiva do processamento humano da informao,propondo a anlise dos correlatos, contedos e componentescognitivos das aptides. Trata-se de uma abordagem maisanaltica que a psicomtrica, embora com pouca ateno aosaspectos scio-culturais da constituio dessas aptides.</p> <p>Um outro foco para a questo trazido por Vygotsky(1989), a partir da distino entre desenvolvimento real edesenvolvimento potencial, com a noo de zona dedesenvolvimento proximal. Esta definida como:</p> <p>a distncia entre o nvel de desenvolvimento real, que secostuma determinar atravs da soluo independente deproblemas, e o nvel de desenvolvimento potencial,determinado atravs da soluo de problemas sob aorientao de um adulto ou em colaborao comcompanheiros mais capazes. (p. 97)</p> <p>Nessa perspectiva, os testes padronizados teriam comoobjetivo avaliar o nvel de desenvolvimento real, o que poderiaser til para certos fins, como, por exemplo, a seleo dos maisaptos para determinada tarefa. Para fins educacionais, entretanto,faz muito mais sentido a avaliao do nvel de desenvolvimentopotencial, centrando-se em tarefas e habilidades que o indivduoj realiza com ajuda ou apoio, em situaes favorveis, e no emrealizaes independentes, presentes mesmo em situaesadversas (como o caso, por exemplo, de um exame de seleo).Alm disso, com essa abordagem, o fenmeno enfocado demodo mais abrangente do que o possibilitado pela anlise decomponentes cognitivos, pois o que se estuda so as interaesconstitutivas das habilidades observadas.</p> <p>Essa a idia da avaliao assistida, conforme descrita nareviso de Linhares (1995), autora pioneira na adoo dessamodalidade de avaliao no Brasil. Em seus trabalhos(Linhares, 1998; Santa Maria &amp; Linhares, 1999), a autora vemadotando o mtodo estruturado de avaliao, com</p> <p>intervenes de ajuda sistematizadas, incluindo fases sem ecom assistncia, ao invs de um mtodo clnico, em que asintervenes de ajuda por parte do examinador sooferecidas livremente (Linhares, 1995). Um exemplo otrabalho de Santa Maria e Linhares (1999), em que foramavaliadas crianas com queixa de dificuldade de aprendizagemescolar e classificadas como deficiente mental leve. Aavaliao assistida foi realizada por meio de duas tarefas: 1)perguntas de busca de informao com excluso dealternativas e 2) raciocnio analgico, com um delineamentocom as seguintes fases: preliminar, inicial sem ajuda,assistncia, manuteno e transferncia. Os resultadospermitiram a identificao de variaes entre as crianas, oque no foi propiciado pela aplicao do teste psicomtrico,no qual as crianas apresentaram resultados relativamentehomogneos.</p> <p>O procedimento de avaliao assistida foi utilizado paraa avaliao do desenvolvimento cognitivo de crianas comdiagnstico de cegueira ou baixa viso por Enumo e Batista(2000). A exigncia de materiais facilmente reconhecveispor crianas cegas ou com baixa viso exigiu a adaptao oucriao de provas e a preparao das mesmas com materialespecfico. Todas as provas foram aplicadas de acordo como mtodo estruturado de avaliao, segundo a distino deLinhares (1995) entre mtodo estruturado e mtodo clnico.Os resultados indicaram, de modo geral, melhora nodesempenho das crianas ao longo das provas assistidas.Mostraram que as diferenas em nvel de habilidade notinham relao com o tipo de deficincia visual, estandomais relacionadas presena de problemas orgnicosadicionais, tais como a presena de sndromes e de alteraesneurolgicas. Confirmaram-se, assim, as postulaes sobreas possibilidades de pleno desenvolvimento cognitivo doindivduo cego (Batista &amp; Enumo, 2000). Entretanto, quandoa anlise foi centrada nas crianas que apresentaram asmaiores alteraes no desenvolvimento, alguns problemasforam detectados. Vrias dessas crianas no mantinham aateno pelo perodo necessrio para aplicao de cada prova,com suas etapas de avaliao inicial (sem ajuda), ensino (comapresentao de vrios tipos de ajuda) e avaliao final (semajuda). Mostravam sinais crescentes de impacincia e de noenvolvimento nas tarefas propostas. Dessa forma, seudesempenho no era bom, e parecia no refletir todas assuas possibilidades de aprendizagem. Considerou-se que umdos problemas era o fato de que, quanto mais padronizadasas tarefas, maior a dificuldade de envolvimento dessascrianas.</p> <p>O objetivo do presente estudo apresentar e discutir umaproposta de avaliao centrada na obteno de indcios deaprendizagem e desenvolvimento em crianas com baixodesempenho em procedimentos de avaliao sistemtica e</p> <p>Psicologia: Reflexo e Crtica, 2004, 17(3), pp.381-393</p> <p>Cecilia Guarnieri Batista, Sylvia da Silveira Nunes &amp; Letcia Enya Horino</p> <p>383</p> <p>padronizada. Para tanto, sero descritas as propostas de avaliaoadotadas nos 2 ltimos anos com populao semelhante acimadescrita (Estudo 1: 2001, Estudo 2: 2002). Nos dois estudos, aavaliao constou de aplicao de teste (WISC verbal), de algumasprovas grupais de avaliao do desempenho escolar e de avaliaoassistida individual (de acordo com o mtodo clnico segundodistino de Linhares, 1995). No Estudo 2, foi acrescentada,tambm, a observao incidental de ocorrncia de espertezas,ou seja, exemplos de situaes em que a criana demonstravacapacidades cognitivas, fora da situao mais formalizada deavaliao.</p> <p>Mtodo</p> <p>Estudo 1 (avaliao de 2001)Participantes</p> <p>Foram submetidas avaliao todas as crianas participantesdos grupos do referido projeto em 2001. Sero apresentadas ascrianas que freqentaram a maior parte das sesses dos grupos,e que participaram do processo completo de avaliao. As crianassero identificadas por nomes fictcios. A idade das crianascorresponde ao ms de agosto de 2001, quando se iniciaram asavaliaes. Para caracterizao da situao econmica das famlias,foram consideradas as seguintes faixas de renda familiar: 1- at 2salrios mnimos (SM); 2- de 3 a 10 SM; 3- acima de 10 SM.</p> <p>As crianas do grupo Pr (faixa etria de 4 a 7 anos) eram asseguintes:</p> <p> Beatriz, com 4 anos e 11 meses, cega (retinoblastomacom 5 meses em um olho e com 3 anos no outro). Moravacom a me e com avs maternos, tinha ingressado em pr-escola particular naquele ano, famlia com renda familiar nafaixa 3. Edith, com 6 anos e 9 meses, baixa viso profunda,problemas na crnea (ausncia do reflexo de piscar), namusculatura oromastigatria (sndrome de Riley Day) e atrasono desenvolvimento neuropsicomotor. Morava com os paise irmos mais velhos, tinha ingressado em pr-escola pblicano segundo semestre, renda familiar na faixa 2. Gilberto, com 4 anos e 4 meses, cegueira congnita,prematuridade (nasceu com 840 g), episdios repetidos depneumonia e infeco urinria no primeiro ano de vida.Morava com a me, tios e avs maternos; no estava naescola, renda familiar na faixa 2. Talita, com 6 anos e 1 ms, cegueira congnita. Moravacom a me, irm e atual companheiro da me, cursava pr-escola pblica h vrios anos, renda familiar na faixa 2. Incio, com 4 anos e 11 meses, baixa viso (moderadapara perto, profunda para longe), corioretinite portoxoplasmose, prematuridade (1500g). Morava com a me</p> <p>viva, irm adolescente e sobrinho, estava na pr-escolapblica, tinha comeado a freqentar o grupo em outubrode 2001, renda familiar na faixa 2.As crianas do grupo Alfa I (matriculadas nas sries</p> <p>iniciais do ensino fundamental) eram as seguintes: Eduardo, com 7 anos e 4 meses, cegueira congnita,sndrome de Saethre-Chotzen (craniotomia aos 6 meses,microbraquicefalia). Morava com os pais e irmos, cursavaa 1 srie em escola pblica, renda familiar na faixa 2. Karina, com 11 anos e 3 meses, baixa viso severa,microcefalia, epilepsia, m-formao do SNC. Moravacom os pais, cursava a 3 srie em uma escola particularcom proposta inclusiva, renda familiar na faixa 3. Osvaldo, com 9 anos e 11 meses, baixa visomoderada. Morava com os pais e irmos, cursava a 2srie em escola pblica, renda familiar na faixa 1.Do grupo Alfa II, apenas uma criana participou do</p> <p>processo de avaliao completo: Lcio, com 8 anos e 4 meses, baixa viso moderada,prematuridade (1750 g), episdios de convulso sobcontrole. Morava com os pais, cursava 2 srie em escolaparticular, renda familiar na faixa 3.</p> <p>Procedimento de AvaliaoO procedimento de avaliao constou de um conjunto</p> <p>de provas padronizadas e assistidas. Iniciou-se em agosto,com as tarefas de desempenho escolar em grupo e aplicaodo WISC.</p> <p>1- Avaliao psicomtrica: foi escolhido...</p>