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AUTO DOS NOVENTA E NOVE POR CENTO

Onde se v como a universidade capricha no subdesenvolvimento.

Antnio Carlos Fontoura

Armando Costa

Carlos Estvam Martins

Cecil Thir

Marco Aurlio Garcia

Oduvaldo Vianna Filho

PERSONAGENS

ndio 1

ndio 2

ndio 3

ndio 4

Caminha

Cabral

Padre

Portugus

Negros

Napoleo

D. Joo

Professor

Aluno

Homem

Mulher

Deodoro

Bedel

Velhinho

Operrio

Estudante

Alunos

Velho 1

Velho 2

Velho 3

Velho 4

Vozes

Coro

Sem a colaborao da Universidade, esta pea jamais poderia ser escrita.

VOZ -

Tudo era silncio na imensa terra verde e imensa, debruada no cu a convidar os homens humanidade. Terra verde a prometer futuro. Tudo era silncio.

Verdade que os rios cascalhavam um murmrio eterno, os passarinhos pipilavam faceiros, as rvores gemiam sua imobilidade no ouvido dos ventos. Mas gua cascalhando, passarinho pipilando e rvore gemendo no quebram silncio en prlogo de pea umbuda de doce e nacional lirismo.

Portanto, tudo era silncio.

gua. Ah! Enxurradas de gua despotismos de gua, imprios de gua a prometer um povo limpo, cheiroso e macio. Naquela poca havia gua. incontestvel. Inmeros documentos provam a existncia de gua no Brasil. Imenso Brasil, gordo Brasil, sumarento Brasil a jurar um brasileiro salomnico, cristalino, carregado de abraos e sorrisos e calma e paixo e verdade. Um povo a semear verdade e riso.

Mas... eis que... Eis que... Oh! Eis que ento... oh!... ento, c chegaram os portugueses. E ento... Ento comeou o pega-pra-capar. Comeou a nossa histria do salve-se quem puder. Comeou a Histria do Brasil, que j foi histria de todo o mundo, de tudo quanto pas grande, de tudo quanto baronete, condessa, peralvilho, mandrio que se espalham pelos sculos.

Histria que j foi de todos, de todos, menos do Brasil. Brasil seco, mirrado, de costela de fora, de pires na mo.

Do outro Brasil s ficou o silncio. rvore secou. Passarinho, a Casa da Banha vende e diz que frango. gua, Lacerda escondeu. Fartura. Verdura. Fartura e Verdura voaram. Vamos comear da poca em que tudo era verde...

(Entram dois ndios em cena)

(Entra com caa) ndio eu deu boa caada. ndio eu no deu boa caada. ndio eu dividir com ndio voc. Meio a meio. Boa! Boa! (Dividem a caa. Mostra uma fruta.) ndio eu achou fruta. ndio eu no achou fruta. Rachar! Rachar! (Entram mais ndios. Dividem potes, cachimbos, comida) Pacap, pacap.Se tem muito papap

Passa p c, passa p c.

Divide pap,

Divide comida,

Vida encomprida.

Tem papap?

Passa p c, passa p c.

(Entram os portugueses. Cabral assopra a vela que Caminha segura. Um padre. Os ndios recuam em crculos. Olham tudo.)

Cabral, tenho reparado, faz dois meses a caravela no avana mais. No tenho deixado de perceber isso, Caminha. Mas, por muito que me ponha a matutar, no atino com a causa. (Cheira) C entre ns, h dois meses que no me vem s narinas aquele agradvel odor de maresia. Sabes, escriba, c entre ns, s vezes chego a desconfiar que j estamos em cima d`alguma terrinha. (Entrega a vela ao padre.) Vou ver isso. Aguente a mo um instante, reverendssimo. (D alguns passos. Olha.) Pois, pois, mestre Cabral, no que estamos mesmo emc ima do Brasil? Pois, pois. Se c estamos, ouso dizer que porque c chegamos. Se assim , ora bolas, est descoberto o Brasil!(Danam o vira e cantam.)

OS DOIS - Ai que rico - descobrimos o Brasil.

Ai que rico - uma terra d`alm-mar.

Ai que rico - dia 21 de abril.

Ai que rico - uma terrinha pra explorar.

CORO - (Dois ndios) Foi seu Cabral,

Foi seu Cabral,

No dia 21 de abril,

Dois meses depois do Carnaval,

Comeando a explorao nacional.

CAMINHA - (Escrevendo, andando pelo palco) Fremosa terra a nova terra, El-Rei. Muita coisa nos h de render, posto que terra em que se plantando tudo d e os nativos levam os cornos mais trouxas que meus olhos j tiveram oportunidade de ver. El-Rei, acredite: mole! mole, El-Rei! Como vo as hemorridas, Alteza? Quero-lhe bem, queira-me bem. Se essa caravela no se desviar outra vez, a estaremos para as bacanais setembrianas. Guardai-nos cortess, Alteza! Caprichai, El-Rei, que levamos novo alento s vossas burras. Um abrao e um queijo. (A Cabral) Vamos vida, Cabral. (Saem. O padre se ajoelha para rezar.)NDIO 1 - (Aponta a flecha.) ndio eu vai dar flechada no Coisa Preta.

NDIO 2 - Coisa Preta garantir pap pra trs luas.

PADRE - Abaxare flecham que apuntam ad me. Mi venito cumo amigorum do peitum. Abaxare flecham! Abaxare flecham!

NDIO 1 - Coisa Preta fala!

NDIO 2 - Taca flecha nele!

PADRE - Venito cumo amigorum. Maneiraibus! Maneiraibus!

CORO - Ch, ch, Coisa Preta. Ch, ch! (Os ndios recuam. O padre sorrindo. O ndio d um berro e cai no cho. Silncio.)

VOZES - ndio vai morrer! ndio est morre no morre. Foi Tup! Tup est Zangado com Coisa Preta. Tup castigou ndio porque ndio viu Coisa Preta. Vai morrer!

CORO - ndio melhor caador,

ndio melhor caador,

Tem dor,

Tem dor,

ndio vai morrer!

Vai diminuir o que comer.

PADRE - (Avana entre os ndios.) Com licenorum. Com licenorum. (Ajoelha-se ao lado do ndio que estrebucha. Os ndios choram. O padre tira um espinho do p do ndio) Essere somentem um espinhorum que entrou no pesorum delem. Est curadorum da silva. (O ndio pe-se de p. Os ndios riem. Batem palmas. Aos poucos ajoelham-se na direo do padre.)

CORO - (Ao padre) Tup! Tu s Tup! Tu s meu. Geraldina! Tup! Tup! Tup! (O padre sorri agradecido. O padre tira colares coloridos do bolso. Os ndios, quando avistam os colares, pulam de satisfao. Estendem a mo para o padre) Bugiganga. Bugiganga. Bugigangorum. Ih!, que legal, meu! Que legal! Bonito s pampas! Bugiganga!

(Canta)

Bugigangorum, bugigangorum.

ndio quer bigiganga.

Mesmo que continue de tanga.

Parece que ser essa histria do Brasil:

Cheio de bugiganga,

Sempre te tanga.

Cheio de bugiganga,

Sempre te tanga.

Me d! Me d! Me d!

PADRE - Trabalharem, trabalharem enton. Trabalharem em coisa dignificante de homini e enton ganharibus bigigangorum. Non essere mais selvagem, com vergonhorum de forae. Non mais brigare, andare de barrigorum no cho atrs de bichorum. Trabalhorum garantido. Trabalhorum civilizato. Estarem vendum aquelas arvreas? Essere pau-brasil, pau-brasil d dinheiro as pamporum. Cortar arvreas! Cortar arvreas! (Vai tirando as flechas dos ndios e jogando no cho. D colar em troca. Os ndios fazem mmica. Em vez de cortar rvores eles empurram a rvore. O padre ri muito) Ah, ah, ah! Muito gozadorum. Non empurre arvraes. Essere mais mole cortar arvraes. (D um machadinho pra cada um. Tira tudo de dentro de um bolso enorme).

NDIOS - Legal! Legal! (Trabalham, desordenados, segurando mal a machadinha, mas trabalham.)

PADRE - (Canta)

Glria a Deo,

Glria a Deo

Novas ovelhorum

Para vostro rebanhorum. (O padre se dirige ao ndio que trabalha mais certo) Tu trabalhou maisorum que os outros. Ganharibus mais colares. (D mais colares para ele)

NDIOS - Eu quero! Eu queria! Ei, seu proco! Ei!

PADRE - Ganharibus mais s se trabalharibus mais.

NDIOS - Quem est trabalhando ndio. Todo ndio. Precisa pagar ndio. Um pagamento s.

PADRE - Non senhoribus. Essa essere onda de comunistorum. Mi paga para quem trabalhorum maisorum. Cada um por si et Deo por todos...

(Os ndios voltam a trabalhar)

NDIO 2 - Isso de cortar rvore encheu ndio eu.

NDIO 3 - Vamos caar de novo.

NDIO 4 - Coisa Preta diz que feio caar bicho. Ficar com a vergonha de fora. Coisa Preta no cura p de quem anda com flecha. Coisa Preta no d colar para quem anda com flecha. Coisa Preta diz que ndio nunca vai passar fome no inverno.

NDIO - O jeito continuar cortando rvore. (Trabalham outra vez. Entra um portugus com um saco de farinha e uma colher de pau.)

PORTUGUS - (Ao padre, que ficou no canto da cena) Sou dom Fulano de Tal da Silva e silva e tome Silva e Silva. El-Rei, Dom Manuel, o Exploradoroso, houve por bem ceder-me estas terras. Sou o donatrio!

PADRE - Benvenutorum, Excelncia. Pode botar pra jambrar, Excelncia. Os ndios esto domesticados. Largaram a flecha. So todos fs da Rdio Nacional... (Os ndios esto esfaltados. Param de trabalhar. Fazem fila para receber)

PORTUGUS - (Ao primeiro) Dois troncos: uma colher de farinha. (Ao outro) Quatro troncos: duas colheres de farinha.

NDIO 1 - Oito troncos.

PORTUGUS - Muito bem! Muito bem! Quatro colheres de farinha.

NDIO 1 - (Pega o que ganhou) Rachar. Rachar. Rachar. (Os outros ndios pegam)

CORO - Pacap, pacap.

Tem muito pacap?

Divide o pap.

Divide o pap.

(Voltam a trabalhar)

PORTUGUS - (Marca ritmo) Um-dois, um-dois, um-dois...

PADRE - (Reza mais rpido) Glria a Deo. Glria a Deo.

(Novamente a fila se forma.)

PORTUGUS - Dois troncos. Meia colher de farinha.

NDIO 2 - Uma colher! Uma colher!

PORTUGUS - Meia colher. O preo do transporte aumentou. (Ao outro) Quatro troncos: uma colher de farinha.

NDIO 1 - Oito troncos.

PORTUGUS - Duas colheres de farinha.

NDIO 1 - Que duas? Quatro!

PORTUGUS - Duas e olhe l.

NDIOS - Rachar. Rachar.

NDIO 1 - ndio eu no rachar! No chegar nem pra ndio eu. No rachar!

NDIOS - Rachar! Rachar!

NDIO 1 - Rachar uma banana! Como disse Sagrada Coisa Preta. (Aponta o padre) Cada um por si e Deus s na arquibancada.