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Curso Online de Filosofia

36

Curso Online de Filosofia

Olavo de CarvalhoAula 66

17 de Julho de 2010

[Verso provisria]

Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.

O texto desta transcrio no foi revisto ou corrigido pelo autor.

Por favor no cite nem divulgue este material.

Boa tarde a todos! Sejam bem vindos! Para a aula de hoje ns temos um texto que a continuao daquele que usamos na aula passada, ento eu peo que descarreguem de modo que possam acompanhar a leitura. Eu vou tentar ler aqui somente os trechos que eu marquei, para evitar muita perda de tempo. Da outra vez ns lemos o texto do comeo at o fim, desta vez eu vou tentar evitar isso. No garanto que v conseguir, mas eu acho que os textos que marquei do continuidade suficiente, que vo ento das pginas 28 e 29, que ainda so da aula passada, at a pgina 45. Parece uma coisa muito longa, mas como vamos ler s os trechos marcados, acho que d para encarar.

Eu vou voltar um pouquinho no texto e ler os ltimos pargrafos que ns vimos na aula passada para dar um senso de continuidade a esta coisa. Lembrando que eu estou usando esse texto, porque ele exemplifica uma tcnica muito usada em filosofia desde o advento de Georg Friedrich Hegel, que a de tomar a evoluo histrica da filosofia como se fosse a continuidade de um pensamento, como se fosse a continuao no apenas de um debate, mas da dialtica interna de uma certa linha de pensamento, ou seja, como se houvesse um s filsofo pensando ao longo dos tempos, prosseguindo o exame dos problemas que ele colocou no comeo. Essa tcnica vivel em certas circunstncias onde esta continuidade se verifica de fato, como precisamente o caso aqui, quando o nosso autor, que o Dardo Scavino, partindo de Hegel e Kant, prossegue vendo a fenomenologia, a escola analtica, depois Heidegger, Derrida, Wittgenstein; eu acho que a existe de fato uma certa continuidade, existe uma unidade neste desenvolvimento desta linha de pensamento. Mas necessrio ver que esta unidade no histrica real porque houve outras linhas que cruzaram a e que no esto sendo levadas em conta. Na verdade, este tipo de anlise uma espcie de idealizao da histria do pensamento; no a Histria no sentido efetivo do termo, uma histria idealizada no sentido hegeliano da coisa.Eu vou retomar da pgina 28, vocs por favor se reportem ao texto da aula anterior, onde comea assim:

Inspirado por Martin Heidegger, Jacques Derrida publica em 1967 A voz e o fenmeno, no qual se prope desconstruir o conceito husserliano de presena.

Vocs se lembrem que, para Husserl, a conscincia no uma coisa; a conscincia apenas uma intencionalidade, uma referncia a alguma coisa, ento supe a presena de um objeto, pouco importando se esse objeto de natureza fsica ou ideal. Ainda que seja um objeto ideal por exemplo, se voc pensar num quadrado geomtrico: ele tem a sua forma peculiar de presena que no a forma de presena da conscincia que o pensa; quer dizer, a conscincia est presente para ns de um modo e o seu objeto est presente de outro, ento no se identificam um com o outro. Ento, a conscincia pressupe a presena do objeto.

() tal e como o colocava o prprio Husserl, para que a unidade da percepo do objeto fosse possvel, o presente deveria reter o passado e anunciar o futuro. Ou dito em outros termos: o que se apresentava devia ser ainda passado e j futuro, como se o presente fosse um n onde se enlaasse a recordao do que j vimos e a antecipao do que veremos () De modo que, conclui Derrida, O presente no coincide consigo mesmo. O que caracteriza o presente no justamente a identidade, mas a diferena: o presente difere de si. Longe de servir como fundamento para a cincia, a conscincia nos engana j que percebe uma identidade ali onde h, pelo contrrio, uma diferena. () Se a conscincia sempre a conscincia de algo, de uma coisa presente, ento a conscincia iluso. () a conscincia sobretudo falsa conscincia, e neste sentido, Marx, Nietzsche e Freud tinham razo contra Husserl e os fenomenlogos. Ao desconstruir o conceito de presena (), Derrida inicia ento a critica daquilo que se chama ontoteologia: o discurso (logos) a respeito da coisa (ontos) considerada como Deus (theos).

() Mas se a unidade do referente somente uma iluso: como poderiam substituir-se agora as proposies x o planeta Vnus, x a estrela matutina e x a estrela vespertina? Ou o que pior: aonde ia parar a necessidade de um juzo sinttico como o planeta Vnus a estrela matutina? ()

Ferdinand de Saussure, o lingista, havia definido o signo...

Aqui ns estamos prosseguindo. At onde lemos aqui ainda era o texto da aula passada. Agora vamos continuar:

() Saussure havia definido o signo lingustico como uma entidade biplana, uma entidade de dois planos, composta de um significante e um significado, isto , por um elemento que significa algo e por seu correlato, isto , aquilo que o elemento significa. Em princpio esta concepo se parece bastante com a de Frege: o significante Vnus, por exemplo, significa estrela matutina. Mas o que significa, por sua vez, estrela matutina? Deveramos buscar no dicionrio as definies do substantivo estrela e do adjetivo matutina, o que nos remeteria a outros significantes, cuja significao deveramos buscar e assim sucessivamente. O que define uma expresso, em consequncia, j no so suas condies de veracidade como no caso de Frege, mas as acepes puramente convencionais dentro de uma determinada lngua, da que, para Saussure, o referente no forme parte do signo, tal como o estuda a Lingstica. O significado no se confunde com o referente ou com o objeto designado, mas com uma definio aceita ou convencional no sistema da lngua. ()

Como sustm o antroplogo Benjamin Lee Whorf, as lnguas recortam na realidade pores diferentes que constituem em cada caso o expressvel, de maneira que os recortes mais heterogneos () j no tm muitas coisas em comum, ao ponto de que a traduo se torna muitas vezes impossvel.

Alm disso, Saussure estabelecia uma segunda diferena entre o eixo paradigmtico e o eixo sintagmtico da linguagem. O eixo paradigmtico era o das substituies: Vnus, por exemplo, pode ser substituda por estrela matutina ou estrela vespertina, sem que mude, em princpio, a significao. Mas outra coisa o eixo sintagmtico ou eixo das sucesses: se comeo a falar de Vnus e continuo dizendo ...seduziu Vulcano, j no posso substituir o significante Vnus por estrela matutina, sem mudar o sentido da frase, ()

Claro, porque agora Vnus est se referindo figura mitolgica.Ou, para retomar um exemplo caro a Ferdinand de Saussure, o significante rvore tem uma significao na lngua espanhola, mas seu sentido muda quando falamos de rvore de cerejas ou rvore genealgica. O sentido, enfim, se modifica de acordo com o sintagma ou com a sucesso discursiva. ()

Substituio e sucesso vo converter-se, no discurso de Derrida, em duas formas da diferena. () Mas sei tambm () que o signo Vnus pode ser substitudo por estrela matutina em certos casos (). No pode dizer-se ento que os demais elementos estejam de todo ausentes (), nem que este significante esteja inteiramente presente. () Uma vez mais, o elemento presente difere de si (j Saussure definia a lngua como um sistema de diferenas sem termos positivos). A identidade aparente do signo, em definitivo, uma diferena real, e uma vez mais a conscincia nos engana. () O sentido do termo Vnus muda se, ao continuar meu discurso, escrevo o substantivo planeta ou o nome prprio Vulcano. O sentido, portanto, se v sempre adiado, de tal modo que o fio discursivo pode ser cortado em algum ponto, e se o fio discursivo pode ser cortado em algum ponto, isso no significa que termine, nem sequer quando se trata do ponto final de um livro.

Isto , as palavras subseqentes vo especificando, alterando o sentido das anteriores, e no h um final natural para este processo. Quer dizer, novas palavras sempre podem ser acrescentadas, modificando ou modulando retroativamente o significado das anteriores.

De modo que os termos ulteriores podem mudar retroativamente o sentido dos anteriores. E como sempre se pode agregar mais e mais palavras, ou prolongar o discurso de maneira ilimitada, o sentido de cada termo fica sempre em suspenso.][A escrita figurativa]Podemos extrair algumas consequncias desta proposta inicial de Derrida ().

Primeira conseqncia: se o significado de um significante j no um referente (a coisa mesma), mas outro significante, ento j no se pode falar de uma preeminncia da fala sobre a escrita.

Eu no sei por que, em Portugus, se traduz o termo francs criture como escritura, o que um absurdo, porque escritura, em Portugus, quer dizer uma coisa escrita, um papel com uma coisa escrita, e no o ato de escrever. O certo seria traduzir como escrita, mas, por uma frescura, eles traduziram como escritura e continua assim. Tem um monte de livro... O prprio livro do Derrida fica: A escritura e a diferena. A escritura um negcio que voc pega quando compra uma casa, um papel que tem l uma escritura; no a escrita. Mas criture, em Francs, escrita.

Segunda consequncia: se a significao no depende do referente, se as palavras no representam o que j estava presente, ento no podemos estabelecer uma distino precisa entre o discurso unvoco da cincia e o discurso equvoco da fico. ()

Mas se a significao de uma palavra j no depende da relao com uma coisa mas com outras palavras, tambm o literal uma variante do figurado.

Ento, quer dizer, a linguagem figurada predomina sobre a linguagem literal, e no o contrrio.

() Nesse ponto Derrida reencontra Nietzsche, para quem as verdades no eram seno antigas metforas esquecidas.

Terceira consequncia: se um significante remete sempre a outro significante, e jamais a um referente, ento as coisas no esto colocadas antes do discurso, mas ao contrrio. Ou para dar