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DOCUMENTO DE TRABALHO

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Atores e estratgias institucionais a profisso acadmica no Brasil Parte II Ensino e Extenso

Elizabeth Balbachevsky Pesquisadora Colaboradora do NUPES

NUPES Ncleo de Pesquisas sobre Ensino Superior Universidade de So Paulo

Atores e estratgias institucionais a

profisso acadmica.

Elizabeth Balbachevsky

PARTE II:

PESQUISA, VALORES E ORIENTAES

Ncleo de Pesquisas sobre Ensino Superior da

Universidade de So Paulo

Captulo I

Introduo: Profissional e Contextos Institucionais no Ensino Superior Brasileiro*

Iniciamos a primeira parte deste trabalho com uma tipologia das organizaes de

ensino superior brasileira. Para construir esta tipologia utilizamos duas dimenses que,

combinadas, fornecem um poderoso indicador da autonomia da profisso acadmica no

mbito das instituies de ensino superior: a estrutura de titulao e a carreira do profissional

dentro da instituio.

A primeira dimenso, a titulao, capta a qualificao que produzida e controlada

pela corporao profissional. Com isso queremos dizer que a titulao uma medida bastante

fidedigna do status do profissional na corporao acadmica.

Comeando pela graduao, passando pelo mestrado e depois pelo doutorado, a

pirmide de titulao em nosso pas tem como caracterstica bsica o fato de organizar-se em

funo do princpio de seqncia, proposto por Thomas F. Green1. Ela espelha, de forma

razoavelmente segura, graus diferentes de domnio da disciplina, do mais rudimentar ao mais

completo.

A estrutura de ps-graduao que se desenvolveu no Brasil, desde os anos sessenta,

consolidou uma hierarquia de ttulos associados a diferentes graus de exigncias e

dificuldades: do graduado, supe-se ter completado com sucesso as disciplinas que integram o

currculo do seu curso de origem. Do mestre, pede-se primordialmente a aprovao em um

conjunto de cursos, que abordam sua disciplina de forma mais sistemtica e avanada, e a

elaborao de uma dissertao que coloque sob o escrutnio da corporao sua capacidade de

levar a efeito um projeto de estudos ou pesquisa. Finalmente, o ttulo de Doutor certifica a

maturidade acadmica do profissional e obtido mediante a concluso de novos cursos e,

principalmente, a apresentao de uma tese que deve, supostamente, comprovar o domnio da

disciplina tanto do ponto de vista terico como metodolgico.

Independentemente do otimismo dessa descrio das etapas de titulao, dois fatos

corroboram nossa hiptese de que essa estrutura, est, grosso modo, submetida aos ditames da

academia, enquanto profisso. Em primeiro lugar, no Brasil, a estrutura curricular dos

programas de ps-graduao, diferentemente da graduao, definida inteiramente dentro da

corporao profissional, sem a interveno reguladora de nenhuma instncia externa2. Cada

programa tem liberdade para definir suas exigncias, tanto no que se refere ao processo de

seleo, currculo, atividades que sero cumpridos pelo aluno durante sua passagem pelo

programa, quanto s bases do relacionamento que se estabelecer entre o graduando e seu

orientador. * Este captulo um resumo do Captulo II da primeira parte deste trabalho (Balbachevsky, 1996). Os leitores

que tiveram a oportunidade de ler aquele captulo podem ignorar este e iniciar a leitura desta parte do trabalho

pelo Captulo II. 1 Thomas F. Green aponta um princpio geral de seqncia, que orienta a organizao do trabalho no sistema de

ensino e que ordena os seus diferentes nveis segundo uma escala crescente de dificuldade. Ver Green (1980),

citado por Clark (1983). 2 Ao contrrio da graduao, cuja estrutura curricular mnima definida pelo Ministrio da Educao e do

Desporto.

2

A autonomia dos programas, no entanto, limitada fortemente pela corporao

acadmica. O sistema de avaliao por pares organizado pela principal agncia de fomento do

ensino de ps-graduao, a Fundao Coordenao de Aperfeioamento de Pessoal de Nvel

Superior (CAPES)3, criou um poderoso mecanismo interno de controle da comunidade de

especialistas sobre esses programas.

Todavia, o controle da corporao profissional sobre a hierarquia de titulao termina

no doutorado. Os ttulos de Livre-Docncia e de professor titular no esto homogeneamente

submetidos s orientaes oriundas dessa instncia. Por isso mesmo nem sempre so uma

medida fidedigna do status do professor na comunidade profissional e cientfica.

A instituio da Livre-Docncia no Brasil corresponde a uma adaptao do antigo

ttulo germnico da Privaatdozent, e corresponde a uma posio imediatamente abaixo

daquela ocupada pelo professor titular. No perodo anterior reforma de 1968, essa posio

criava um espao para acomodao de talentos e interesses na disputa pela ctedra. A

condio de Livre-Docente distinguia o professor nas suas pretenses ctedra e o colocava

em uma condio de autonomia em relao autoridade do catedrtico.

Atualmente, a Livre-Docncia somente representa um passo alm do doutorado nas

instituies que restringem o acesso a esse ttulo aos profissionais com doutorado completo.

Na maior parte das instituies pblicas e privadas do pas, o concurso de Livre-Docncia

permanece desvinculado das exigncia de titulao e, no implicando uma subordinao

sequer formal a um orientador, terminou por representar um caminho alternativo, sob controle

da instituio, para a admisso e promoo na carreira, que dispensa a obteno do

doutorado4.

Da mesma forma, o ttulo de professor titular limitado a professores com doutorado

apenas em algumas instituies. Nas demais, o acesso a essa posio faz-se mediante

concurso cujas regras so controladas pela instituio, sem referncia direta comunidade

profissional, e que podem valorizar diferentes aspectos da carreira do docente, inclusive o

tempo de servio dedicado instituio.

Em resumo, portanto, a estrutura de titulao no Brasil constitui duas hierarquias. A

primeira delas organiza-se parcialmente revelia das instituies e encontra-se, ao contrrio,

submetida ao controle da comunidade profissional. A maior ou menor dificuldade de avanar

nos degraus dessa hierarquia depende, em grande medida, da coeso das comunidades

acadmicas articuladas em torno de diferentes disciplinas e no depende da instituio onde o

profissional trabalha. A outra hierarquia, que compreende os ttulos de Livre-Docente e

Titular, encontra-se submetida ao controle da corporao profissional apenas em algumas

instituies. Em outras, ela est subordinada diretamente ao jogo de poder intra-institucional e

no mantm, necessariamente, relao com os ttulos da hierarquia profissional.

3 Sobre o sistema de avaliao da CAPES, ver Moura Castro e Soares (1986). Sobre a importncia da ps-

graduao para a profissionalizao da pesquisa no Brasil, ver Schwartzman, S. (1991). 4 Sobre o papel da Livre-Docncia na estrutura da carreira nas universidades brasileiras, ver Schwartzman, S.

1992.

3

A outra dimenso que consideramos para construir a tipologia das instituies de

ensino superior no Brasil a estrutura da carreira5 institucional. Ainda que essa estrutura

apresente algumas variaes, podemos identificar trs grandes patamares presentes em quase

todas as instituies. So os cargos de professor assistente, professor adjunto e professor

titular. No setor privado encontramos ainda, com freqncia, a figura do professor-horista6,

que representa uma condio marginal carreira propriamente dita. Essa estrutura aparece,

com variantes, em todas as instituies.

O que muda de instituio para instituio a relao que a carreira institucional

mantm com a titulao profissional que descrevemos acima.

Para os efeitos prticos, a relao entre titulao e carreira no Brasil nunca foi

biunvoca. verdade que a legislao da reforma de 1968 estipulava a necessidade de se

estabelecer um padro nico de relao entre titulao e carreira. Entretanto, o estatuto da

Livre-Docncia, cujas regras, como vimos, dependem apenas da instituio, forneceu uma rota

alternativa para a ascenso do professor na carreira, dispensando-o de submeter-se ao crivo do

doutorado. Ademais, desde 1980 o Decreto 86.487/80 desvinculou a progresso na carreira

nas instituies federais da obteno de ttulos acadmicos7.

Como veremos a seguir, podemos distinguir as instituies de ensino superior

brasileiras de acordo com o maior ou menor obstculo que a falta de titulao (especialmente

o doutorado) cria para a ascenso do docente na carreira institucional. H contextos em que

esse obstculo quase absoluto. Em outros, ele pode ser contornado mediante a manipulao

de outros recursos. Em outros ainda, essa questo simplesmente no se coloca. o que

podemos depreender da Tabela 1.

5 Jacques Schwartzman chama a ateno para a relao entre titulao e carreira institucional, apontando

inclusive a proporo professor doutor/titulares+adjuntos como um bom indicador da maior ou menor frouxido

dos critrios de promoo na carreira em uma instituio (ver Schwartzman, J., 1994, p.20). 6 O uso de p