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  • 2Julho /Dezembro 2008

    Domingo eu vou ao Maracan. O famoso verso de Neguinho da Beija-Flor ecoa nas arqui-bancadas do Maior do Mundo pelo menos uma vez por sema-na. Adotada pelas quatro maio-res torcidas do Rio Flamengo, Vasco, Botafogo e Fluminense a msica revela o grau de intimi-dade entre o torcedor e o estdio de futebol. No entanto, enquan-

    to milhares de pessoas buscam entretenimento, um batalho de profissionais se mobiliza para levar todas as informaes do es-petculo ao pblico. Para os pro-fissionais do rdio esportivo do Rio de Janeiro, domingo dia de muito trabalho. Uma rdua, po-rm, gratificante tarefa.

    No futebol, 22 jogadores fazem o espetculo dentro de campo.

    Em uma jornada esportiva pelo rdio, mais de 30 profissionais levam a emoo das quatro li-nhas sua latinha. No campo da informao, batem bola trs motoristas, um narrador, um co-mentarista, cinco reprteres, seis tcnicos-operadores, alm de ou-tros profissionais diretamente en-volvidos, que no medem esforos para que, por meios das ondas do

    Leonardo Monteiro e MarceLo Brzzi

    Atletas do microfone

    Os bastidores de uma transmisso esportiva radiofnica

    O locutor Jos Carlos Arajo se prepara para mais uma transmisso no Maracan.

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  • Bastidores3

    rdio, os ouvintes possam enxer-gar com os ouvidos uma partida de futebol. No toa que cerca de 300 mil pessoas no Grande Rio ficam sintonizadas nas emissoras de rdio durante um jogo. a unio de duas paixes: o futebol e o rdio, destaca Luiz Penido, narrador da Super Rdio Tupi.

    Aproximadamente dois quil-metros de cabo, duas linhas tele-fnicas uma analgica e outra digital cerca de 15 microfones, fones, telefones e equalizadores so carregados em mais de cin-co malas para levar qualidade aos apaixonados pelo esporte. A transmisso de uma partida pelos locutores brasileiros singular. Jogando com o imaginrio do fa-ntico torcedor, o locutor cria um lance mais bonito do que a rea-lidade. uma descrio sempre emocionante e rica em detalhes. Ao ligar o radinho para ouvir um simples jogo, o ouvinte se depara com um verdadeiro show de in-formaes e efeitos.

    A escalao dos atletasAs escalas de trabalho para

    um jogo de domingo so defi-nidas na segunda-feira anterior partida. Em uma reunio de pauta, narradores, comenta-ristas, reprteres e tcnicos so devidamente posicionados para atuar. E, com cerca de quatro ho-ras de antecedncia, muito antes dos primeiros torcedores pisarem no estdio, as primeiras equipes tcnicas de emissoras de rdio j comeam a montar as aparelha-gens para a irradiao. preci-so muita concentrao e pacin-cia para colocar tudo no ar. s vezes, dependemos de recursos tcnicos terceirizados, como a liberao de uma linha pela Oi. Mas, tambm, tenho de confes-sar que ficou muito mais fcil do que h uns 10 anos atrs. Hoje, todos os reprteres no estdio

    usam microfones sem fio, conta Silvio Vieira, tcnico de opera-es externas do Sistema Globo de Rdio, com experincia em cinco Copas do Mundo.

    Enquanto isso, os dois clubes que sero adversrios no dia so acompanhados por reprte-res, chamados de setoristas. So praticamente integrantes da co-misso tcnica de cada equipe, j que ficam lado a lado com os jogadores, e com a notcia at o apito inicial.

    Abrem-se os microfones e co-mea o espetculo

    Com muita criatividade e ca-pacidade descritiva, os narra-dores tentam facilitar a visua-lizao mental do cenrio em que o confronto realizado. No momento mais importante do jogo, uma exploso de alegria. impossvel falar de um gol nar-

    rado atravs do rdio sem fazer uma viagem no tempo. Torcedor fantico do Flamengo, o com-positor e narrador Ary Barroso protagonizou momentos inusi-tados. Como no havia cabines de transmisso nos estdios na dcada de 1930 hoje o Mara-can tem mais de 50 espaos para emissoras de rdio e televi-so trabalharem os profissio-nais do rdio ficavam no meio da arquibancada. Diante do barulho da torcida, Ary Barroso desenvolveu uma tcnica para chamar a ateno do ouvinte no momento do gol: o sopro de uma gaita era sinnimo de mu-dana no placar da partida.

    A imparcialidade jornalstica no era o forte de Ary Barroso. O narrador torcia abertamente para o Flamengo, seu clube do corao. E, quando o time rubro-negro to-mava um gol, ele soltava: No

    O operador Mrio Aguiar, no estdio, comunica-se com os tcnicos no estdio

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  • 4Julho /Dezembro 2008

    quero nem ver. Eu no acredito que isso aconteceu. No entanto, os tempos mudaram. As trans-misses radiofnicas do sculo XXI prezam pela neutralidade. O esforo grande, mas o profissio-nalismo vem acima de tudo. Sou tricolor de corao. Quando tenho que narrar um gol contra o Flumi-nense, a concentrao total, pois

    no posso agir como torcedor. Fico ligado em tudo: na comemorao dos jogadores, na torcida, na equa-lizao do som, confessa Jos Car-los Arajo, o Garotinho, atacante, quer dizer, narrador titular da R-dio Globo h mais de 10 anos.

    O avano tecnolgico tambm contribui para atrair mais ouvin-tes. A interatividade, por exem-

    plo, chegou ao rdio. Telefones, e-mails e comentrios em blogs enriquecem e aproximam os apai-xonados caixinha de som. Com a facilidade de acesso s informa-es, a transmisso fica muito mais rica. Ao meu lado, em cada jogo, monitoro com um laptop as demais partidas, estatsticas, alm de interagir com o ouvinte, lendo recados, dando bronca em joga-dores, elogiando anlises. Isso sem contar no prprio torcedor do estdio, que ouvido por um re-prter que fica girando pelas tor-cidas, afirma Garotinho.

    Enquanto a bola rola no est-dio, uma outra equipe de feras d continuidade ao trabalho feito por l. Um jornalista, chamado de rdio-escuta, fica conectado internet, ouvindo outras rdios e apurando outros resultados de partidas que acontecem no pas e no mundo. H tambm um pro-dutor, que faz a comunicao en-tre a equipe da cabine e a equipe de estdio. Este profissional fun-ciona como um coordenador de entradas de matrias, reprteres, alm do fator mais interessante para as emissoras os patroci-

    Em 1992, enquanto a bola rolava no estdio de Moa Bonita, em Bangu, no Rio de Janeiro, um fato inusitado mar-cou para sempre a vida do narrador es-portivo Jos Carlos Arajo, o Garotinho. Pelos microfones da Rdio Globo, Flamen-go e Amrica faziam uma partida emocio-nante, vlida pelo Campeonato Carioca, at que um acesso de soluo pegou Garotinho de surpre-sa. Fiquei muito tempo me virando para tentar acabar com o soluo e no conseguia, lembra o narrador. A situao foi to constrangedora que a narrao teve que ser interrompida. Para evitar um silncio na transmis-so, o comentarista Washington Rodrigues, o Apolinho, permaneceu fazendo anlises sobre o primeiro tempo do jogo. Aps alguns instantes, um mdico ligou para o celular de Apolinho com a receita para acabar com o

    drama de seu parceiro. Garotinho teria que chupar uma pedra de gelo para que o problema fosse resolvido. Com muito esforo, um segurana do estdio

    levou para a cabine de rdio uma pedra de gelo que, para aflio de Garotinho,

    estava suja. No final das contas... Curei o meu soluo em um minuto e voltei a transmitir.

    Foi o maior sufoco que eu passei. O locutor esporti-vo segue regras bem rgidas para uma boa transmisso. Segundo Garotinho, o nico instrumento de trabalho de um narrador a voz, tendo obrigao de preserv-la. Num dia de transmisso, alimentos gordurosos e pesa-dos no fazem parte do cardpio do profissional. Eu como muita fruta e tomo muito suco, sem gelo. Alm claro de no fumar e no gritar, revela o segredo para manter um padro na voz.

    Pisando na bola

    Estdio da Rdio Globo AM, do Rio. Aqui so colocados vinhetas e efeitos sonoros pelo operador

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  • Bastidores5

    Tecnologia contraNem sempre uma equipe to grande e tantos equipamen-tos so utilizados para uma transmisso esportiva. Des-de a implantao do sistema pay-per-view das redes de TV a cabo, no qual muitos jogos so transmitidos, algumas r-dios preferem enganar seu ou-vinte, fazendo uma narrao pela TV. O modelo, chamado de Off-Tube para os estudiosos e Gelado para os profissionais da rea, vem tirando um pouco da emoo do veculo. No se sabe se por economia ou comodidade, no entanto, muitas falhas e furos acontecem durante essa opo. Um simples replay na tv j provocou um gol narrado no rdio que no existiu.

    nadores. A sonorizao com vi-nhetas, efeitos e outros artifcios so disparados por um operador de estdio e do mais um toque de show transmisso. Fran-cisco de Assis, conhecido como Chiquinho, opera as transmis-ses da Rdio Globo h mais de 20 anos. Tem de ter perspiccia e sutileza para no fazer circo. Cada vinhetinha e efeito tm de ser colocados nos momentos cer-tos, analisa o operador.

    Fim de papo no Maraca Quando o juiz d o apito final,

    os reprteres de campo, chama-dos de ponta, correm para pegar os primeiros depoimentos dos jo-gadores. Em seguida, a grande atrao da transmisso radiofni-ca a entrevista coletiva nos ves-tirios. So feitas inmeras per-guntas, e colhidos qualquer tipo de depoimentos para alimentar a programao da emissora at o dia seguinte. Este momento cru-cial para as emissoras de rdio, pois, geralmente, os torcedores

    que estavam no estdio ligam o rdio do carro para ouvir as infor-maes em primeira mo. Com a disparada na audincia, todo cui-dado pouco para evitar erros.

    Depois disso, ainda se gasta mais duas horas no ar para os comentrios e anlises ps-jogo. Encerrada a jornada a vez dos reprteres aprontarem dezenas de boletins e matrias para se-rem irradiados na programao da emissora. Essas entradas so gravadas no local da partida e so utilizadas na madrugada do dia seguinte, uma vez que as segundas-feiras costumam ser de folga para grande parte desses atletas. E, muito depois de as l