assistencia social e populacao em situacao de rua

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  • ASSISTNCIA SOCIAL E POPULAO EM SITUAO DE RUA

    Mariglei dos Santos Argiles 1 Vini Rabassa da Silva 2

    RESUMO Este artigo versa sobre o fenmeno social da populao adulta em situao de rua, que se apresenta como uma das expresses dramticas da questo social no mundo contemporneo, e a Poltica da Assistncia Social no Brasil. Para isto, iniciamos com uma rpida viso da poltica da assistncia social, no Brasil, destacando o Sistema nico de Assistncia Social. A seguir, enfocamos a Poltica Nacional de Incluso Populao em Situao de Rua, com um breve relato de sua trajetria e apresentamos uma reflexo, destacando a necessidade da intersetorialidade com outras polticas pblicas para a sua efetivao. Palavras-chaves: Poltica de Assistncia Social, Populao de Rua e SUAS.

    ABSTRACT This study is based on a reflection on Social Assistance Policy in Brazil, after the advent of the Constitution of 1988 and the complex phenomenon of the Population in a Street Situation, which is a dramatic social manifestation. In this essay, we begin with a quick look at social assistance policy in Brazil, highlighting the Single Healthcare System. We then focus on the National Inclusion for the Population in a Street Situation policy, with a brief look at its trajectory, and we present a reflection that emphasizes the need for intersectorality with other public policies for it to be effective. Keywords: social assistance policy, Population in a Street Situation; SUAS

    1 Especialista. Universidade Catlica de Pelotas. mari_argiles@hotmail.com

    2 Doutor. Universidade Catlica de Pelotas. mps@phoenix.ucpel.tche.br

  • 1. INTRODUO

    Em meio a uma sociedade marcada pela desigualdade social e supervalorizao do capital em detrimento do respeito aos direitos inalienveis do ser humano a Populao em Situao de Rua pode ser considerada como uma das mais dramticas manifestaes da questo social3. Alm de sua situao de extrema vulnerabilidade social ela tem sido alvo de atos de violncia que expressam a barbrie que est presente na sociedade brasileira nos dias atuais. A populao assiste nos telejornais notcias de violncia gratuita ou premeditada contra os habitantes incomodativos do espao coletivo, nos moldes do caso do ndio Gaudino, que se tornou internacionalmente conhecido, e ainda mais impactou quando os agressores, ao tentarem justificar o crime, declararam que pensaram ser um morador de rua, um indigente. Assim, aqueles jovens de classe mdia, repletos de contedo do senso comum, inspirados pela naturalizao da violncia contra esse pblico, deixam claro que, no fariam contra um ndio, mas no havia porque no fazer contra um indigente. Em outubro de 2010 a Secretaria de Direitos Humanos da Presidncia da Repblica cobrou respostas rpidas para as mortes de 22 moradores de Rua no Estado do Alagoas. Os crimes foram cometidos no perodo de janeiro deste ano at a primeira quinzena de outubro. Segundo a Ordem dos Advogados do Brasil, em Alagoas, oito vtimas foram mortas a tiros, sete delas foram apedrejadas, uma queimada e seis sofreram espancamento. Estes so os casos que se tornaram conhecidos entre tantos outros ocultos da grande mdia e que pode evidenciar a urgncia de uma poltica pblica capaz de enfrentar a complexa realidade das pessoas em situao de rua.

    A incurso na Poltica de Assistncia, considerando a Constituio Federal de 1988 como marco referencial, permite contextualizar, brevemente, a proposta para o enfrentamento desta problemtica dentro do universo das polticas sociais, suas dificuldades, e a exigncia de uma ao embasada na intersetorialidade das polticas pblicas.

    A realidade da populao em situao de rua pe em evidncia o carter destrutivo do sistema capitalista que cria esta situao de extrema pobreza e ao mesmo tempo provoca no s atos de crueldade, citados anteriormente, como indignao, medo e temor em outros setores sociais, que se sentem ameaados diante da ocupao de um espao pblico por pessoas que no gozam do direito de um espao privado de moradia. Por isto, entendemos que estamos diante de um fenmeno social

    3 A questo social entendida segundo Iamamoto como o conjunto das expresses das desigualdades da sociedade capitalista

    madura, que tem uma raiz comum: a produo social cada vez mais coletiva, o trabalho torna-se mais amplamente social, enquanto a apropriao dos seus frutos mantm-se privada, monopolizada por uma parte da sociedade (Iamamoto, 1999, p. 27).

  • que denuncia de forma inconteste as desigualdades sociais4 resultantes das relaes sociais capitalistas, que se desenvolvem a partir da relao capital versus trabalho, a qual revela a contradio do modelo econmico, que produz riqueza e extrema pobreza com a mesma intensidade. Como produto deste sistema a populao de rua se encontra alijada da vida produtiva, marcada por trajetrias conturbadas, por problemas familiares, pelo preconceito, pela violncia que muitas vezes os conduz rua e depois continua se perpetuando em seu cotidiano, e pela falta de acesso s condies mnimas necessrias para sua sobrevivncia. Nesta anlise partimos do pressuposto que a existncia de segmentos crescentes que se encontram privados do direito propriedade da terra e do acesso ao trabalho, compe uma dimenso estrutural do estgio atual do capitalismo. No se trata, portanto, de um fenmeno conjuntural ou especfico de alguns contextos espaciais; mas, sim, do efeito da histrica desigualdade capitalista.

    Portanto, morar na rua conseqncia visvel do agravamento da questo social, ou seja, da diviso da sociedade em classes e apropriao desigual da riqueza socialmente produzida. Como analisa Iamamotto:

    A evoluo da questo social apresenta duas faces indissociveis: uma, configurada pela situao objetiva da classe trabalhadora, dada historicamente, face s mudanas no modo de produzir e de apropriar o trabalho excedente como frente capacidade de organizao e luta dos trabalhadores na defesa de seus interesses de classes (...); outra expressa pelas diferentes maneiras de interpret-la, e agir sobre ela, propostas pelas diversas fraes dominantes, apoiados no e pelo poder do Estado (Iamamotto, 1982:79)

    A questo social manifesta, atravs de suas mltiplas expresses, esse contexto de empobrecimento, resultante de uma profunda concentrao de riqueza, que ocasiona um processo de negao dos direitos sociais arduamente conquistados na medida em que prospera a defesa de um Estado Mnimo, que minimalisa as necessidades bsicas, sociais, de proteo. Estudos sobre as polticas sociais, particularmente na periferia capitalista (Behring e Boschetti, 2006; Sposati, 1988; Vieira, 1983 e 2004;) corroboram a concepo de que elas so estruturalmente condicionadas pelas caractersticas polticas e econmicas do Estado.

    Neste contexto, as contradies imanentes s polticas sociais no capitalismo assumem contornos mais ntidos quando se referem assistncia social, visto que esta se caracteriza pela tenso

    4 Em relatrio da ONU (Pnud), divulgado em julho/2010, aponta o Brasil como o terceiro pior ndice de desigualdade no

    mundo. Quanto distncia entre pobres e ricos, nosso pas empata com o Equador e s fica atrs de Bolvia, Haiti, Madagscar, Camares, Tailndia e frica do Sul.

  • permanente entre responder s demandas mais agudas decorrentes da questo social, considerando-as um direito social, e reconhecer a sua insuficincia em relao eficcia da resposta. E, ao atender as carncias das camadas empobrecidas, acaba contribuindo para a reproduo do prprio modelo capitalista que cria essa pobreza, estruturado na apropriao privada da riqueza socialmente produzida.

    As diretrizes e os princpios estabelecidos pela LOAS, j surgem na contramo da conjuntura dos anos 1990, onde se observou a adoo das medidas neoliberais que ditavam ao Estado a reduo dos gastos nas reas sociais. Conforme apontava Raichelis (1998), tal situao demonstrava um dos grandes desafios para a poltica de assistncia social: estruturar-se como poltica e consolidar-se como pblica.

    Este reconhecimento do carter contraditrio e complexo do processo de afirmao de direitos sociais e de polticas pblicas que os concretizem, essencial para situar o exerccio dialtico que constitui a efetivao de sistemas de proteo social de carter pblico universalizante, especialmente num contexto de globalizao neoliberal.

    Com estas consideraes, o presente trabalho se constitui como um esforo inicial de anlise da proposta da poltica de assistncia para a populao de rua entendendo-a como necessria, mas insuficiente para de forma isolada responder a uma das expresses advindas da desigualdade social existente na sociedade brasileira. Para isto, iniciamos com uma rpida viso da poltica da assistncia social, no Brasil, destacando o Sistema nico de Assistncia Social. A seguir, enfocamos a poltica Nacional de Incluso Populao em Situao de Rua, com um breve relato de sua trajetria e apresentamos uma reflexo, destacando a necessidade da intersetorialidade com outras polticas pblicas para a sua efetivao.

    1. ASSISTNCIA SOCIAL NO BRASIL PS CONSTITUIO FEDERAL DE 1988

    Com a Constituio Federal de 1988, tem incio o processo de construo de uma nova matriz para a Assistncia Social brasileira. Includa no mbito da Seguridade Social e regulamentada pela LOAS em dezembro de 1993, como poltica social pblica, a assistncia social inicia seu trnsito para um campo novo: o campo dos direitos, da universalizao dos acessos e da responsabilidade estatal. Assim, a Constituio de 1988 demarca um importante momento da nossa sociedade quando esta se organizou para reverter um quadro de centralizao burocrtica que ritmou a longa histria poltica, financeira e institucional brasileira, que favoreceu a corrupo, uso privado dos recursos pblicos, criao de relaes de dependncia e subordinao mediante aes paliativas pontuais; polticas injustas e concentrao de renda. Nela esto representados os princpios formais que garant