Aspectos “logísticos” da Guerra do Paraguai – 1864-1870 ... batista vas, 12-08-07.pdf · A Guerra…

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<p>1 </p> <p>Aspectos logsticos da Guerra do Paraguai 1864-1870: algumas consideraes </p> <p>BRAZ BATISTA VAS1</p> <p>O Brasil do segundo reinado teve uma histria recheada de atividades militares </p> <p>de grande ou pequena expresso. Vrios episdios contriburam tanto para a formao </p> <p>do Brasil enquanto nao como para o aprimoramento de instituies que figuram no </p> <p>mais das vezes como pilastras bsicas do Estado-nao. Desde a Regncia o Brasil </p> <p>vinha experimentando uma vida bastante agitada, agitaes estas que quase sempre </p> <p>envolvia intervenes militares a fim de se apaziguar nimos ou refrear </p> <p>descontentamentos. A economia na segunda metade do sculo XIX tambm sofria das </p> <p>pernas, apresentando aqui e acol seus altos e baixos. </p> <p> nesse contexto, de uma vida poltico social bastante agitada, que devido a </p> <p>vrios fatores e diversas conjunes de interesses, tanto nacionais como internacionais, </p> <p>que a vida militar brasileira comea a ficar cada vez mais expressiva, </p> <p>internacionalmente. A partir de 1850, as foras militares brasileiras, passam a sofrer </p> <p>uma srie de modificaes visando o seu aprimoramento material, institucional e </p> <p>humano. Tomando especificamente o Exrcito brasileiro como objeto de anlise, </p> <p>verificar-se- o desenvolvimento dessa instituio, suas variaes, incurses, </p> <p>assimilaes e permanncias, durante o episdio que ficou conhecido na historiografia </p> <p>brasileira como Guerra do Paraguai. Trata-se de um rico episdio das atuaes militares </p> <p>brasileiras em fins do sculo XIX. </p> <p>O conflito com o Paraguai se configurou num importante repositrio da histria </p> <p>militar brasileira por se tratar justamente do nico grande conflito internacional a mexer </p> <p>no somente com o Brasil mais tambm com outros trs pases da Amrica do Sul, a </p> <p>saber, Argentina, Paraguai e Uruguai. O drama do conflito com o Paraguai, portanto, </p> <p>provm de uma complicada trama poltico-econmica que assolava a regio do Rio da </p> <p>Prata, com questes relativas a aspectos econmico-comerciais, questes de fronteiras e </p> <p>uma delicada relao diplomtica entre os envolvidos. </p> <p>Por ser um conflito sem precedentes na Amrica do Sul, a Guerra contra o </p> <p>Paraguai se alardeou por estas paragens como um dos primeiros exemplos das guerras </p> <p>modernas, guerra esta com o princpio da guerra total. A Amrica do Sul passou a </p> <p> 1 Doutorando do Programa de Ps-Graduao em Histria da Unesp Campus de Franca; Professor Assistente do Curso de Histria da UFT Universidade Federal do Tocantins. </p> <p>2 </p> <p>conhecer a enorme diversidade e o potencial destrutivo da artilharia, a ineficincia da </p> <p>cavalaria em uma guerra de posies, a extrema importncia de um corpo de </p> <p>engenheiros, mdicos e um esboo do mais tarde veio a se configurar como servio de </p> <p>intendncia, vital a manuteno dos esforos de guerra. </p> <p>O pensamento e as reflexes sobre a guerra deram um enorme salto qualitativo </p> <p>ao longo do sculo XIX devido principalmente s novidades tecnolgicas. O Brasil, </p> <p>mesmo estando na periferia dos avanos tecnolgicos do perodo, mesmo amargando </p> <p>um sintomtico estado de deteriorao de sua frgil instituio militar de linha, se </p> <p>beneficiou amplamente desse processo, sempre de maneira atrasada, mas com o devido </p> <p>proveito para o seu lento desenvolvimento. </p> <p>As distncias e as dificuldades de comunicao, em especial no que diz respeito </p> <p> logstica militar, s comearam a ser resolvidas a partir do final do sculo XIX. Com a </p> <p>influncia de fatores como a dinmica poltico-econmica que vigorava com ares </p> <p>liberais, frente s necessidades do capitalismo industrial europeu, o esforo, qualquer </p> <p>esforo modernizador de pases, especificamente os da Amrica do Sul, recm sados </p> <p>dos embaraos coloniais, eram imensamente mais difceis e complicados de serem </p> <p>postos em prtica. </p> <p>A Guerra do Paraguai afetou profundamente as finanas do Imprio e diante do </p> <p>despreparo e da necessidade de financiar um Exrcito em luta, alguns ministrios </p> <p>passaram a ter um percentual muito maior do oramento nacional. Inicialmente </p> <p>acreditava-se numa guerra curta e sem muito dispndio, entretanto, do incio das </p> <p>hostilidades, com a invaso paraguaia nas provncias de Mato Grosso e Rio Grande do </p> <p>Sul, as foras aliadas (Brasil, Argentina e Uruguai) s conseguiram entrar em territrio </p> <p>paraguaio quase dois anos depois de iniciados os combates e somente entre 1868 e 1869 </p> <p>que a capital Paraguai foi tomada pelas foras da Trplice Aliana. </p> <p>A fora militar terrestre do Imprio brasileiro apresentava profundas oscilaes </p> <p>quanto ao profissionalismo de seus corpos. O Imprio, em razo da guerra, procurou </p> <p>buscar a maior quantidade possvel de informaes sobre a organizao e </p> <p>funcionamento de outras foras militares estrangeiras, o que contribuiu para sistematizar </p> <p>os estudos sobre os exrcitos e a guerra, assim como a assimilao de novas idias </p> <p>junto a uma parte da oficialidade. A oficialidade do Exrcito brasileiro se mostrava </p> <p>bastante heterognea quanto s ideologias polticas e a forma de pensar a estrutura do </p> <p>aparato militar, herdada dos idos coloniais. Uma parte se apegava ao tradicionalismo da </p> <p>3 </p> <p>organizao militar e outra absorvia a lgica da eficincia, resultante da equao </p> <p>modernizao igual profissionalizao. </p> <p>O Estado Imperial brasileiro, no muito diferente do Brasil colonial, diante dos </p> <p>avanos globais se preocupava em importar sempre os melhores modelos, </p> <p>principalmente os europeus, no que tange renovao de suas instituies. A Europa </p> <p>era o grande mercado das novas idias, onde as naes perifricas podiam e deveriam </p> <p>buscar inspirao para continuar a fazer parte do clube dos Estados ditos civilizados. </p> <p>Com a instituio militar brasileira no foi diferente, a inspirao vinha lentamente dos </p> <p>palcos europeus. O Estado imperial tratou de no deixar que essa prtica sofresse algum </p> <p>abalo. Os modelos continuaram a ser importados, s vezes, sem a necessria adequao </p> <p>ao contexto nacional, fazendo-se grosseiras adaptaes para viabilizar a resoluo de </p> <p>questes tcnicas. Outro fator interessante quanto s influncias diz respeito aos efeitos </p> <p>da Guerra de Secesso nos Estados Unidos, de 1861 a 1865, que, com seus progressos </p> <p>tecnolgicos credenciou este pas a exportao de artefatos blicos. Este novo panorama </p> <p>pode ser verificado mais ao final da Guerra do Paraguai, quando armamentos </p> <p>comprados dos norte-americanos chegaram ao fronte sul-americano. </p> <p>Trata-se de um perodo no qual, mesmo com a sucessiva introduo de </p> <p>mudanas na estrutura militar ao longo do Imprio, visando a profissionalizao da </p> <p>carreira atravs da escolarizao tcnica e cientfica dos oficiais, no se pode falar de </p> <p>estrutura militar com autonomia interna em relao ao Estado, sua ideologia e </p> <p>autonomia dependiam das flutuaes polticas do Estado. </p> <p>Logo, ao contrrio do que se via em instituies militares europias, </p> <p>relativamente independente de interferncias polticas no seu interior, responsveis </p> <p>pelas decises internas2, aqui se constata uma situao de intensas trocas entre as foras </p> <p>militares e o mbito poltico. Era, inclusive, freqente a eleio ou indicao de </p> <p>militares para cargos executivos e parlamentares, assim como o conferimento de ttulos </p> <p>de nobreza aos mais ilustres membros da instituio3. Ou seja: </p> <p>O que se tem no uma instituio militar tal qual a desenvolvida na Europa, com suas caractersticas e regras prprias de funcionamento, </p> <p> 2 KEEGAN, J. Uma histria da guerra. So Paulo: Cia da Letras; Biblioteca do Exrcito, 1995. p. 323. 3 SEIDL, E. A espada como vocao: padres de recrutamento e de seleo das elites do Exrcito no Rio Grande do Sul (18501930). Porto Alegre, 1999. Dissertao de Mestrado Universidade Federal do Rio Grande do Sul. p. 15. </p> <p>4 </p> <p>mas sim uma outra instituio, original, que apesar de apresentar muitas semelhanas com a europia, no lhe equivalente4. </p> <p>A instituio militar brasileira ainda sofria de uma forte inadequao estrutural </p> <p>para com aqueles que somariam o grosso de seu pessoal. A oficialidade havia cavado </p> <p>um fosso considervel, em termos sociais, que a distanciava de sua tropa. Os </p> <p>ensinamentos do perodo napolenico pouco acrescentaram cultura militar brasileira. </p> <p>Da grande inovao do soldado-cidado, o Imprio brasileiro no tinha praticamente </p> <p>nenhum exemplo, pois, mal tinha soldados bem preparados, e cidados menos ainda. </p> <p>As reorganizaes e pequenas adequaes so as mais expressivas indicaes </p> <p>dos esforos profissionalizantes levados a cabo de forma parcelada, com o mximo de </p> <p>suspeitas aos olhos polticos do Estado e minimamente interessante aos olhos do </p> <p>restante da sociedade. </p> <p>O Estado brasileiro enfrentava uma situao paradoxal, criada pela sua prpria </p> <p>dinmica poltica e s custas das ingerncias nas instituies militares. O paradoxo era </p> <p>ditado pela dinmica poltico-social de ento, qual seja, optar entre a centralizao </p> <p>militar, com um conseqente enfraquecimento poltico do estado no controle do aparato </p> <p>repressivo-militar regional, ou, investir apenas na descentralizao militar objetivo </p> <p>bsico da criao da Guarda Nacional a fim de garantir o controle poltico, </p> <p>maximizando o potencial de abrangncia do aparato estatal policial-repressivo com </p> <p>roupagem militar. </p> <p>O Imprio, ante as dificuldades, permaneceu com instituies politicamente </p> <p>distintas para compor a fora militar terrestre: o Exrcito e a Guarda Nacional. Elas </p> <p>passaram a disputar cada uma a seu modo, espao poltico e social. Todavia, investir </p> <p>num Exrcito nacionalmente forte, no combinava com a organizao poltico-social </p> <p>imperial, extremamente elitizada. Isto poderia abalar a distribuio de poder ao nvel </p> <p>regional. </p> <p>As disparidades entre essas duas instituies se tornaram mais gritantes </p> <p>medida que o Imprio, seguindo os ditames da poltica que convinha s elites, investiu </p> <p>mais e melhor, ainda que com deficincias visivelmente grandes como, por exemplo, </p> <p>o recrutamento, a formao, o treinamento-, numa estrutura que enfatizava o aspecto </p> <p>repressivo-policial, extremamente descentralizado, sob o controle e convenincias civis, </p> <p>a fim de manter o status quo poltico-social vigente. 4 Id., p. 16. </p> <p>5 </p> <p>A aquisio de novos armamentos, a perspectiva de utilizao de novas </p> <p>tecnologias (bales de observao, telgrafo) e a utilizao de novos elementos </p> <p>tcnicos, como um corpo de engenharia e um corpo mdico devidamente organizados, </p> <p>representou uma discreta modernizao na estrutura do Exrcito. Esta ter reflexos </p> <p>futuros na questo da profissionalizao militar e como um importante componente da </p> <p>mesma. </p> <p>Os novos canhes raiados, com impressionante poder de fogo, fizeram parte do </p> <p>cotidiano de muitos soldados brasileiros que ao longo de sua vida pouco mais fizeram </p> <p>que cuidar de seu prprio roado. Soldado este que, ao retornar ao Brasil trouxe muito </p> <p>mais que alguns nomes, por vezes algo distante, de heris de guerra, trouxe algo muito </p> <p>mais importante, principalmente para o exrcito: a imagem de uma fora militar </p> <p>terrestre um pouco mais digna e respeitvel. No aspecto prtico, uma experincia e </p> <p>treinamento no manuseio de artilharia pesada que dificilmente fosse possvel nos </p> <p>treinamentos comuns no Exrcito brasileiro. </p> <p>No s os canhes impressionaram. Fortalezas to imponentes e robustas como </p> <p>a de Humait, barraram por um longo perodo uma enorme massa de combatentes </p> <p>aliados, sendo conquistada, relativamente num curto espao de tempo, somente pela </p> <p>retirada de seus defensores, exauridos dos meios bsicos de subsistncia. </p> <p>Em relao aos armamentos, as necessidades da guerra fizeram com que vrios </p> <p>tipos de armas, novas e antigas, fossem utilizadas. A maior parte dos armamentos que o </p> <p>Exrcito possua j estava tecnologicamente ultrapassada para o perodo. Os avanos </p> <p>conseguidos ao longo da guerra civil nos Estados Unidos foram pouco aproveitados </p> <p>pelo Imprio brasileiro. </p> <p>Quando o conflito comeou a mostrar-se mais difcil e problemtico do que </p> <p>inicialmente se poderia prever, o governo imperial tratou de buscar novas informaes </p> <p>sobre os procedimentos da guerra moderna. Um exemplo disso est na troca de </p> <p>correspondncias entre o Ministrio da Repartio dos Negcios da Guerra e a Legao </p> <p>Brasileira nos Estados Unidos. A pedido do Conde dEu foi solicitado, atravs de ofcio </p> <p>encaminhado a Joaquim Maria Nascentes de Azambuja, representante da Legao </p> <p>Brasileira nos Estados Unidos, a aquisio de qualquer obra ou publicao a respeito </p> <p>dos servios internos dos corpos do Exrcito, Arsenais, depsitos e campos de </p> <p>instruo. No dia 12 de maio de 1866, a Legao Brasileira nos Estados Unidos enviou </p> <p>treze volumes de publicaes norte-americanas sobre diversos temas como tticas de </p> <p>6 </p> <p>infantaria e cavalaria, preparao de oficiais para artilharia, manual de combate pessoal </p> <p>e exerccios com utilizao de baioneta, sistemas de instruo para utilizao de armas </p> <p>leves (mosquete, rifle, rifle-mosquete e carabina) patrulhamento de tropas em campanha </p> <p>dentre outras publicaes. </p> <p>Nestes ofcios, aparece tambm a necessidade, por parte do Imprio, de se </p> <p>informar, atravs de suas legaes diplomticas no exterior, sobre legislao e </p> <p>burocracias concernentes a penses e compensaes por perdas ou danos causados pela </p> <p>guerra. A preocupao quanto s repercusses da guerra no exterior vista em alguns </p> <p>ofcios. Num ofcio destinado aos Estados Unidos, datado de 25 de junho de 18665, o </p> <p>Ministrio da Guerra encarrega a representao brasileira em Nova York, de fazer </p> <p>circular notcia sobre a guerra na imprensa dos Estados Unidos, notcias estas favorveis </p> <p>ao Brasil, j que os norte-americanos se mostravam favorveis ao Paraguai. </p> <p>Outro ponto interessante diz respeito aos vrios oferecimentos, recebidos pelo </p> <p>Imprio brasileiro, de militares de outros pases, principalmente oficiais de diversas </p> <p>patentes, em grande parte mexicanos, se oferecendo voluntariamente para tomar parte </p> <p>na guerra, defendendo a bandeira brasileira. O Ministrio da Repartio dos Negcios </p> <p>da Guerra teve que encaminhar muitas negativas a esses militares estrangeiros que se </p> <p>voluntariavam ao Brasil. </p> <p>As armas leves utilizadas pelas foras brasileiras compreendiam desde as armas </p> <p>de pederneira s armas de percusso. Uma grande parte das armas de pederneira j </p> <p>utilizadas at pouco depois de 1850, tambm foram usadas na guerra contra o Paraguai. </p> <p>Eram, em sua maioria, de fabricao inglesa, da casa armeira TOWER e BROWN. </p> <p>A substituio das armas de pederneira foi gradual. As suas substitutas foram as </p> <p>armas de percusso, uma evoluo da pederneira, chamadas armas fulminantes, devido </p> <p>a utilizao de fulminato de mercrio para inflamao da carga. Uma outra inovao foi </p> <p> utilizao do fuzil de agulha tipo DREYSE, alemo, reminiscnc...</p>

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