aspectos auditivos da gagueira

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  • 1. V ERBA VOLANT Volume 4 Nmero 1 janeiro-junho 2013 ISSN 2178-4736 http://letras.ufpel.edu.br/verbavolant 92 | P g i n a ASPECTOS AUDITIVOS DA GAGUEIRA Ana Carla Leite Romero1 Cristiane Moo Canhetti de Oliveira2 Ana Cludia Vieira Cardoso3 Ana Claudia Figueiredo Frizzo4 1. Introduo Gagueira uma condio crnica caracterizada principalmente pelas interrupes involuntrias na fala fluente (TRAN, BLUMGART & CRAIG, 2011), descritas como o fator central do distrbio (YARUSS, 2010). Vrios aspectos esto envolvidos na origem e manifestao da gagueira, por isso considerada multimensional e complexa. Uma falha na coordenao harmnica e temporal de processos neurais, musculares, auditivos, respiratrios e articulatrios durante o processamento da fala pode explicar a ocorrncias das rupturas. Informaes relevantes sobre os aspectos auditivos em pessoas com gagueira tm sido demonstradas na literatura (HALL & JERGER, 1978; MAIORINO, 1993; KALINOWSKI, ARMSON, ROLANDMIESZKOWSKI, 1 Fonoaudiloga. Mestranda do Programa de Ps-Graduao em Fonoaudiologia da Faculdade de Filosofia e Cincias da Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho FFC/UNESP-Marlia SP. anacarla_lr123@hotmail.com 2 Fonoaudiloga. Professor Assistente Doutor do Departamento de Fonoaudiologia e Programa de Ps-Graduao em Fonoaudiologia da Faculdade de Filosofia e Cincias da Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho FFC UNESP Marilia. cmcoliveira@marilia.unesp.br 3 Fonoaudiloga. Professor Assistente Doutor do Departamento de Fonoaudiologia e Professora colaboradora do Programa de Ps-Graduao em Fonoaudiologia da Faculdade de Filosofia e Cincias da Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho FFC UNESP Marilia. anac@marilia.unesp.br 4 Fonoaudiloga. Professor Assistente Doutor do Departamento de Fonoaudiologia e Programa de Ps-Graduao em Fonoaudiologia da Faculdade de Filosofia e Cincias da Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho FFC UNESP Marilia. anafrizzo@marilia.unesp.br

2. V ERBA VOLANT Volume 4 Nmero 1 janeiro-junho 2013 ISSN 2178-4736 http://letras.ufpel.edu.br/verbavolant 93 | P g i n a STUART & GRACCO, 1993; KALINOWSKI & STUART, 1996; BLOOD, 1996; SCHIEFER, 1999; SCHIEFER, BARBOSA & PEREIRA, 1999; ANDRADE, GIL, SCHIEFER & PEREIRA, 2008; SILVA, OLIVEIRA & CARDOSO, 2011; ARCURI, 2012; UNGER, GLUCK & CHOLEWA, 2012), despertando cada vez mais o interesse nesta interface, gagueira e audio, entre os pesquisadores. A comunicao envolve a fala e a audio, processos estes que acontecem concomitantemente (ELIADES & WANG, 2008). O sistema auditivo deve monitorar simultaneamente e continuamente os sons externos do ambiente acstico durante a fala, alm da retroalimentao de sua prpria voz. Portanto, a percepo e a produo da fala so eventos relacionados, no qual a apreciao da frequncia, intensidade e durao dos sons servem como base construtora da audio e da linguagem (PEREIRA, NAVAS & SANTOS, 2002). A gagueira um distrbio da fluncia da fala, que se deve a comprometimentos de mltiplos sistemas neurais, fazendo com que o desenvolvimento auditivo siga modelos diferentes para indivduo gagos e fluentes (NICOLOSI, HARRYMAN & KRESHECK, 1996; FOX et al., 1996; HOWEL & WILLIAMS, 2004). Uma das justificativas da presena de disfluncias, segundo Meyers, Hughes & Schoeny (1989) a impreciso temporal na percepo da fala, j que a fala fluente ocorre a partir da interao dos aspectos acsticos, e a diminuio das habilidades de processamento pode estar relacionada incapacidade de manuteno da fala fluente. Uma vez que o processamento neurofisiolgico da fluncia da fala depende da estabilidade da coordenao temporal entre a execuo das habilidades motoras e o desempenho do processamento cognitivo (ANDRADE, CERVANE & SASSI, 2003), alguns autores acreditam que ao investigar o processamento neurolgico de pessoas com alterao de fluncia, ser possvel encontrar alteraes nos aspectos temporais auditivos, lingusticos e 3. V ERBA VOLANT Volume 4 Nmero 1 janeiro-junho 2013 ISSN 2178-4736 http://letras.ufpel.edu.br/verbavolant 94 | P g i n a motores (BOSSHARDT, BALLMER & DE NIL, 2002; ANDRADE, 2004; BIERMANN-RUBEN, SALMELIN & SCHNITZLER, 2005) Portanto, devido aos achados cientficos relevantes, o presente trabalho tem como objetivo, discutir a interface gagueira e audio, a fim de contribuir para a melhor compreenso da avaliao dos aspectos auditivos bem como refletir sobre suas implicaes teraputicas. 2. Avaliao Comportamental do sistema auditivo de pessoas gagas O modo como os falantes processam as informaes auditivas relacionadas percepo da fala, tornam-se fundamentais para compreender possveis dificuldades apresentadas na gagueira. Schiefer, Barbosa & Pereira (1999) referem que os processos neuroaudiolgicos envolvidos no processamento da fluncia podem ser investigados por meio da avaliao do processamento auditivo, que est relacionado a uma srie de processos que envolvem predominantemente as estruturas do sistema nervoso central (vias auditivas e crtex), e sua avaliao permite o diagnstico do processo gnsico auditivo do indivduo e realizada por meio da aplicao de testes que mostram o desempenho do indivduo frente soluo de uma tarefa difcil. Vrios autores acreditam que existe uma correlao entre o processamento das informaes auditivas e a dificuldade de linguagem expressiva que pode manifestar-se como gagueira (SCHIEFER, BARBOSA & PEREIRA, 1999; SILVA, OLIVEIRA & CARDOSO, 2011). A impreciso temporal na percepo de fala pode levar a momentos de disfluncia e a diminuio das habilidades de processamento pode estar relacionada incapacidade de manuteno da fala fluente (KRAMER, GREEN & GUITAR, 1987; MEYERS, HUGHES & SCHOENY, 1989; ANDRADE et al., 2008). Alteraes no processamento auditivo podem contribuir para a produo do discurso disfluente no nvel da produo da slaba. A relao entre a fluncia verbal e a alterao do processamento auditivo no um fenmeno 4. V ERBA VOLANT Volume 4 Nmero 1 janeiro-junho 2013 ISSN 2178-4736 http://letras.ufpel.edu.br/verbavolant 95 | P g i n a relacionado somente gagueira ou no gagueira, mas tambm um fenmeno normal de fluncia e no fluncia (WYNNE & BOEHMLER, 1982). Diversos estudos tm investigado o processamento auditivo central em pessoas gagas utilizando testes auditivos comportamentais, porm no h consenso quanto aos achados. Em vrios estudos foi observado desempenho inferior para as pessoas gagas quando comparados aos no gagos (HALL & JERGER, 1978; MAIORINO, 1993; BLOOD, 1996; SCHIEFER, 1999; SCHIEFER, BARBOSA & PEREIRA, 1999; 2004; ANDRADE et al, 2008; SILVA, OLIVEIRA & CARDOSO, 2011; ARCURI, 2012). Toscher & Rupp (1978) aplicaram o teste SSI, em tarefas ipsi e contralaterais em pessoas gagas e no gagas e os resultados mostraram que os pessoas com gagueira apresentaram desempenho inferior nas tarefas ipsilaterais, Em 1993, Maiorino utilizou o teste de escuta dictica consoante vogal para avaliar um grupo de pessoas gagas e um grupo controle, composto por indivduos destros. Os resultados foram comparados e o autor verificou diferena estatisticamente significante entre os grupos. O desempenho de 30 crianas com e sem gagueira, com idade entre 9 e 12 anos nos testes de processamento auditivo temporal, padro de frequncia e durao, foi avaliado por Silva, Oliveira & Cardoso (2011). Os autores verificaram que as crianas com diagnstico de gagueira apresentaram desempenho significativamente menor em ambos os testes quando comparadas as crianas sem gagueira, esse resultado indica que existe uma relao entre a gagueira e o transtorno do processamento auditivo. Beinisis (2012) compararam o desempenho de pessoas gagas e no gagos em testes de processamento auditivo temporal e de escuta dictica, e verificaram que as pessoas com gagueira tinham um desempenho pior. Dentre as pesquisas que no encontraram diferenas estatisticamente significantes entre os achados do processamento auditivo de gagos e no gagos possvel destacar alguns estudos. Quinn (1972) e Slorach & Noehr 5. V ERBA VOLANT Volume 4 Nmero 1 janeiro-junho 2013 ISSN 2178-4736 http://letras.ufpel.edu.br/verbavolant 96 | P g i n a (1973) compararam o teste de escuta dictica de palavras em pessoas gagas e no gagas e no verificaram diferenas estatisticamente significantes entre os grupos. Wynne & Boehmler (1982) estudaram o processamento auditivo por meio do teste SSI, em tarefas ipsi e contralaterais em pessoas gagas e no gagas, e no encontraram diferenas estatisticamente significantes entre os grupos. Os resultados da aplicao dos testes SSW e dictico de dgitos em pessoas gagas e no gagas mostraram diferenas, porm essas diferenas no foram estatisticamente significantes (BLOOD, BLOOD & NEWTON, 1986) Outro designer metodolgico nas investigaes do processamento auditivo na gagueira, diz respeito possvel relao entre a severidade da gagueira e os resultados da avaliao do processamento auditivo. Nesta linha de raciocnio, o estudo de Andrade & Schochat (1999) mostraram que a severidade da gagueira est diretamente relacionada com o desempenho nos testes de processamento auditivo no verbal, como o teste de padro de frequncia. Schiefer, Barbosa & Pereira (1999) tambm correlacionaram os testes de processamento auditivo comportamental com o grau de severidade gagueira e no observaram nenhum tipo de correlao, porm sugerem que h sim uma relao entre as alteraes de processamento auditivo e as manifestaes da gagueira. Alguns estudos analisaram o processamento auditivo de pessoas gagas sem usar o grupo controle. A correlao dos achados da avaliao do processamento auditivo com os da avaliao de linguagem em pessoas com queixa de alterao da fluncia da fala foi realizada por Andrade et al. (2005) e verificaram que a alterao de grau moderado foi a mais prevalente seguida de grau leve e sem alterao de grau. Andrade et al., (2008) realizaram o teste de pr