asma e dpoc: vida e morte - .asma e a doença pulmonar obstrutiva crônica (dpoc), com-pr ometendo

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3 7 Bol Pneumol Sanit 2004; 12(1):

Asma e DPOC: vida e morteHisbello S Campos

ResumoA asma e a doena pulmonar obstrutiva crnica (DPOC) so doenas freqentes, que interferem no cotidiano e matam.Enquanto a primeira prevalece entre as crianas, a outra incide sobre o adulto, principalmente a partir da quinta dcada devida. O carter crnico de ambas faz com que seu manejo medicamentoso seja prolongado, iniciando-se a partir do diagns-tico e podendo durar at o fim da vida. A interatividade entre seus mecanismos etiopatognicos e o meio ambiente faz comque mudanas comportamentais incluam-se na teraputica. As duas doenas so causa importante de sofrimento humano ede prejuzos financeiros tanto para os doentes, como para seus familiares, comunidades e governos, o que as caracterizacomo srios problemas de Sade Pblica. H indcios de que, mesmo em pases desenvolvidos, haja falhas mdicas em seumanejo e no processo de esclarecimento a seus portadores acerca dos mecanismos envolvidos nos sintomas, bem como dasdiretrizes do tratamento. No Brasil, assim como na maior parte do mundo, a mortalidade por ambas vem aumentando, sendoque na DPOC o incremento mais acentuado.Palavras-chave: qualidade vida na asma e na DPOC; mortalidade por asma; mortalidade por DPOC.

SummaryAsthma and chronic obstructive pulmonary disease (COPD) arecommon conditionsassociated with high morbidity and mortality. Whileasthma is more prevalent among children, COPD is more frequent among adults, mainlyafter the fifthdecade of life. Their chronic aspect makestheir treatment sometimes lifelong.Interactions between the basic airway problems and the environment and the patients reactions to the illnessnecessitate a holistic approach to management of the condition.Bothdiseases are important causes of suffering andcostfor patients, as for theirfamilies, society and government,and therefore represent also a significant public health burden. There are indications that, even in developedcountries, there are serious mistakes in their medical management and in patient education. In Brazil, as in the major part of the world, mortalityrates from both diseases are increasing, being more acentuated in COPD.Key word: quality of life in asthma and in COPD; asthma mortality; COPD mortality.

Recebido em 08/03/2004. Aceito em 18/03/2004.Centro de Referncia Professor Hlio Fraga (CRPHF). Rio de Janeiro-RJ. E-mail: hisbello@globo.com

Artigo de RevisoAsma e DPOC

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INTRODUOAs doenas respiratrias crnicas esto entre as prin-

cipais causas de doena e de morte em todo o mundo.1 Aasma e a doena pulmonar obstrutiva crnica (DPOC), com-prometendo a vida de elevada proporo da populao,causando sofrimento e altos custos financeiros e sociais,representam dois srios problemas de Sade Pblica na maiorparte do mundo.

Apesar de haver recursos para o controle adequadoda asma, a prtica mostra que essa doena ainda impelimitaes ao cotidiano do doente. Ela interfere no lazer,no trabalho, motiva atendimentos repetidos em Pronto-So-corros e em ambulatrios; provoca hospitalizaes e podematar. A DPOC, por sua vez, causa de desnimo entreparcela significativa dos profissionais de sade. Doenacontra a qual pouco de efetivo pode ser oferecido, temcomo nico obstculo a sua preveno. A DPOC umadas principais causas de morbidade crnica e de mortalida-de no mundo2 (quarta causa de morte)3 e essa situao ten-de a piorar. a nica, dentre as principais doenas do mun-do, que vem crescendo em prevalncia e em mortalidade.O impacto econmico do binmio asma DPOC sobre oindivduo, sobre sua famlia e sobre a sociedade enorme evem aumentando em relao direta com o envelhecimentoda populao. Ao custo financeiro vinculado ao diagnsti-co, ao tratamento e aos cuidados de seguimento dos porta-dores dessas doenas, somam-se as perdas decorrentes dainvalidez, da falta aula e ao trabalho, da mortalidade pre-matura e do pagamento de benefcios. Tanto a asma comoa DPOC motivam inmeras atividades cientficas e elabo-rao de propostas diagnsticas e teraputicas consensuaisque deveriam permitir seu controle. Entretanto, essas aesno parecem estar alterando o impacto que essas doenascausam sobre seus portadores e familiares.

Estudos recentes demonstram vrios problemas as-sociados ao manejo da asma e da DPOC: a) o descompassoentre as expectativas dos doentes e as aes mdicas reali-zadas; b) o manejo inadequado promovido pelos profissi-onais de sade; c) o impacto da doena no cotidiano enos oramentos pessoais, institucionais e governamen-tais.4 Indubitavelmente, ambas acometem parcela signi-ficativa da populao; representam um fardo na vida deseus portadores e/ou de seus familiares; acompanham eprejudicam o cotidiano; comprometem a qualidade de vidae so causas importantes de morte. Nesse artigo, esses as-pectos so comentados.

O PANORAMA E AS PERSPECTIVAS FUTURASAs perspectivas de sade sero melhores no sculo

XXI; nesse novo milnio, a populao mundial ser maissaudvel. Apesar dessa viso otimista contemplar o reco-nhecimento de algumas duras realidades, os avanos semprecedentes obtidos no sculo XX representam as funda-es para um progresso importante no futuro prximo. Asestimativas da Organizao Mundial da Sade5 so de que,em 2025, a expectativa de vida atinja 73 anos e que as taxasde fertilidade caiam. Com isso, a populao mundial enve-lhecer e o grupo etrio de maiores que 65 anos passar arepresentar 10% da populao, em contraste com os 6,6%atuais. Motivos de preocupao ainda existem, j que, ape-sar do aumento global da expectativa de vida, dois quintosdas mortes anuais dos ltimos anos do milnio passado po-dem ser consideradas prematuras (20 milhes de pessoasmorriam por ano antes dos 50 anos de idade, quando aexpectativa de vida era de 68 anos. Destas, 10 milhes eramcrianas com menos de 5 anos e 7,4 milhes adultos jo-vens, com idade entre 20 e 49 anos). Atualmente, mais de15 milhes de adultos (20-64 anos) morrem por ano, sendoa maior parte dessas mortes prevenveis. Como exemplo,585.000 mulheres jovens morrem de complicaes doparto/puerprio; 2 a 3 milhes morrem de tuberculose,apesar de existirem recursos/estratgias para curar to-dos os doentes; 1,8 milho morreu de aids em 1997. Orisco de cncer continuar crescendo nos prximos anosnos pases em desenvolvimento e talvez diminua nospases industrializados. O nmero de mortes por cncerdo pulmo e coloretal aumentar, devido, principalmente,ao fumo e a erros dietticos.

O aumento da expectativa de vida das ltimas dca-das, junto com mudanas no estilo de vida, paradoxalmen-te favoreceram as doenas no-infecciosas, especialmenteas circulatrias, as neoplasias e algumas formas de doenamental. Doena coronariana e acidentes vasculares so res-ponsveis por 12 milhes de mortes por ano; o cncer mata6 milhes e a DPOC, 3 milhes. Essas e outras doenasno-infecciosas atualmente causam 40% de todas as mor-tes em pases em desenvolvimento, nos quais afetam pro-poro maior de jovens do que nos pases industrializados.Em 1990, a DPOC ocupava o 12o lugar no ranking dascausas de anos de incapacitao ajustados pela idade(disability-adjusted life years - DALYs).I Estima-se que, em2020, esteja ocupando o 5o lugar entre as DALYs e o ter-ceiro como causa de morte.

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I - DALY a soma dos anos de vida perdidos por morte prematura ou por incapacitao. Essa medida representa o impacto de uma doena na sociedade.

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A opinio pblica vem sendo gradativamente maisbem informada sobre os principais problemas de sade nasltimas dcadas. Conjuntamente, organizaes mdicas eno-mdicas vm combinando esforos para desenvolverestratgias de preveno e/ou tratamento precoce de do-enas que, freqentemente, so incapacitantes ou mesmofatais. O medo que circunda situaes como ataque carda-co ou acidente vascular cerebral tem modificado o com-portamento da populao geral. A reduo que vem sendoobservada na morbidade prematura e na mortalidade des-ses dois agravos pode ser atribuda conscientizao dopblico e dos mdicos acerca do risco que a hipertensoarterial subtratada e os nveis elevados do colesterol repre-sentam para doenas cardiovasculares invalidantes e letais.Grande parte das pessoas comenta sobre seus nveistensionais arteriais e sobre seus valores de colesterol; reco-nhecem a importncia da preveno do sedentarismo; sa-bem dos malefcios do fumo e do excesso de lcool. Roti-neiramente, durante uma consulta mdica, a presso arteri-al medida. De tempos em tempos, os nveis de gordurano sangue so medidos; em parte das vezes, a pedido doprprio cliente. Entretanto, esse tipo de atitude no vemsendo observada na DPOC. O aconselhamento antitabgicono parte obrigatria da consulta mdica; a espirometria subempregada. Pode ser que a falta de sintomas duranteos anos iniciais da doena, nos quais h perda progressiva einexorvel da funo respiratria, seja responsvel por essaalienao. Enquanto todos os consultrios, clnicas e atmesmo farmcias dispem de um esfingnomanmetro, ouso de medidas espiromtricas simples muito limitado.Est demonstrado que a identificao de anormalidadesleves mas clinicamente significantes no fluxo areo de indi-vduos jovens e de meia-idade possvel pela espirometria.Essa alterao eleva o risco de morte por cncer de pul-mo (CP), por doena coronariana (DC) e por acidentevascular cerebral (AVC). A preveno e o manejo da DPOC,bem como dessas outras condies mrbidas comeam pelapreveno do fumo, j que a queda excessiva do VEF1 podeser virtualmente revertida ao se parar de fumar. Ao mesmotempo, tal atitude pode reduzir o risco de DC e de AVCdentro do primeiro ano de abstinncia do tabaco. poss-vel identificar os indivduos que tero DPOC. So aqueles20% aproximadamente dos fumantes que apresentam que-da rpida da funo pulmonar ao longo do tempo. Elespodem ser identificados em estgios iniciais da doena atra-vs de uma espirometria simples, an

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