As Virtudes do Homem Bom - ? i i i i i i i i As Virtudes do Homem Bom Um paralelismo entre Plato

Download As Virtudes do Homem Bom - ? i i i i i i i i As Virtudes do Homem Bom Um paralelismo entre Plato

Post on 29-Jul-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

TRANSCRIPT

  • ii

    ii

    ii

    ii

    www.lusosofia.net

    As Virtudes do Homem BomUm paralelismo entre Plato e Aristteles

    Hugo Lopes

    2014

  • ii

    ii

    ii

    ii

  • ii

    ii

    ii

    ii

    Covilh, 2014

    FICHA TCNICA

    Ttulo: As Virtudes do Homem BomUm paralelismo entre Plato e AristtelesAutor: Hugo LopesColeco: Artigos LUSOSOFIADesign da Capa: Antnio Rodrigues TomComposio & Paginao: Filomena S. MatosUniversidade da Beira InteriorCovilh, 2014

  • ii

    ii

    ii

    ii

  • ii

    ii

    ii

    ii

    As Virtudes do Homem BomUm paralelismo entre Plato e Aristteles

    Hugo Lopes

    ndice

    1. Introduo 42. Plato 52.1. Grgias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52.2. A Repblica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9

    3. Aristteles 163.1. tica a Nicmaco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 163.2 Poltica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22

    4. Consideraes crticas 285. Referncias Bibliogrficas 325.1. Bibliografia Primria . . . . . . . . . . . . . . . . . 325.2. Bibliografia Secundria . . . . . . . . . . . . . . . 33

    3

  • ii

    ii

    ii

    ii

    4 Hugo Lopes

    1. Introduo

    O presente texto encontra como tema central o debate em torno dohomem bom platnico e aristotlico. O primordial objectivo sertratar o conceito de virtude e excelncia em Plato e Aristteles, deforma a encontrar o ideal tico e poltico que constitui a aco dopolitikon zoon, dando enfse a alguma bibliografia secundria parasustentar a nossa interpretao, o comentrio expositivo e a anlisecrtica.

    Este ensaio est organizado em trs partes distintas, das quaisas duas primeiras se dividem em dois subcaptulos. Inicialmente,ser desenvolvida a tese de virtude platnica em Grgias e naRepblica. Apesar de existir um leque mais abrangente de livrossobre o autor que tratam o tema em questo, optei por me restringira estes dois dilogos, por forma a assegurar uma maior coernciaintelectual e rigidez organizativa. O autor apresenta alguma incon-sistncia e dicotomia, na medida em que d um enfase a diferentesvirtudes em cada dilogo, como ser desenvolvido adiante. Noentanto, existem pontos fulcrais e consistentes. Para Plato edu-car formar um homem virtuoso, pela sabedoria a filosofia con-duz felicidade e virtude, permitindo uma aco justa e corajosacom moderao. Posteriormente, sero abordadas as obras tica aNicmaco e Poltica, de Aristteles. Este, por sua vez, apresentauma maior coerncia terica e distingue dois tipos de virtudes ouexcelncias: ticas e tericas. O homem, para ser bom ter quedispor de determinadas condies inatas, que se desenvolvem aolongo do tempo pela experincia, mas tambm ter que desenvolveruma natureza diferente como resultado da aprendizagem e hbitosque, uma vez consolidados, passam a fazer parte da aco humana.Para o autor a virtude um meio-termo entre excesso e defeito.

    Quanto a metodologia de trabalho, o mtodo utilizado, alm dapesquisa na bibliografia primria (referida anteriormente), passapelo uso de uma srie de obras referenciadas. Estas permitiram

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    As Virtudes do Homem Bom 5

    um enquadramento terico e uma melhor compreenso dos tex-tos, bem como a sua anlise crtica. Sero abordadas apenas astemticas consideradas relevantes para este trabalho e no um re-sumo integral dos pensadores, e privilegiarei tambm o enquadra-mento das temticas nos livros. Desta forma, ao longo do textofarei referncia localizao dos conceitos na obra original, bemcomo comentrios construtivos e expositivos, de forma a explicaras definies.

    Alm desta exposio terica, na concluso crtica ser adi-cionado ao que foi j desenvolvido e comentado ao longo do texto,um paralelismo entre os dois autores. Procurarei focar as princi-pais semelhanas e diferenas entre os pensadores, e comprovar seAristteles poder ser considerado um platnico ou no, e se sim,em que sentido, j que nunca o poderia ser de uma forma absoluta.

    2. Plato

    2.1. Grgias

    Este dilogo tem como tema central a retrica1 e o seu fundamentocomo arte e instrumento poltico, uma avaliao dos que exercemesta actividade e a sua tica2 na actividade poltica. No obstante,num autor to importante e complexo como Plato esto sempre

    1Conjunto de regras relativas eloquncia com o objectivo de tornar o dis-curso convincente. a arte de persuadir pelo discurso. Serve-se, sobretudo, dosprincpios provveis admitidos por todos e, principalmente, do entimema comoopinio; utilizada a induo no sentido lato, que procede por exemplos, e re-gula o emprego dos lugares dialcticos tendo em conta as condies prprias dodiscurso. (Lobo, 1991: 142).

    2Domnio da filosofia que se dedica ao estudo dos valores referentes con-duta humana. (Lobo, 1991: 63).

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    6 Hugo Lopes

    presentes perguntas como o que a virtude, a justia, o bem ouo belo. no seguimento destas questes que apresentada umatese, segundo a qual os homens desconhecem a verdadeira naturezado bem e da virtude (aret)3. Nenhum verdadeiro bem, poder oujustia est ao alcance de quem no tem conhecimento filosfico,na medida em que a filosofia a cincia do que permanece ver-dadeiro, o caminho para uma vida boa e virtuosa. Constata-se,assim, a necessidade de ensinar a virtude, orientar no caminho dafilosofia para que o bom orador seja aquele que pratica aces jus-tas, ao contrrio dos defensores da retrica. Embora quem praticaa retrica aparente ser sbio e justo, isso no se verifica na pr-tica. Por conseguinte, e posto que a retrica no uma coisa bela(Plato, 2004: 463a4), ela no ser, certamente, uma virtude.

    Os homens procuram a felicidade, no entanto, como condioda prpria felicidade, estes no podem cometer injustias: o ho-mem e a mulher so felizes quando so bons e virtuosos, infelizesquando so injustos e maus (470e). A felicidade reside numaaco de acordo com a sabedoria e a justia. A injustia, almde no trazer felicidade ao homem, o maior dos males: na suaaco, o homem bom deve visar o conceito de justia (dikaiosyne).A sabedoria, por seu termo, tem um carcter importante para opensador porquanto o homem bom ser o mais inteligente: ums homem sbio tem mais poderes do que milhares de homens queno o so, a ele que cabe comandar e aos outros obedecer (490a).No entanto aqueles que podem ser chamados os mais poderosos emelhores so inteligentes, mas tambm corajosos (491c), logo, ohomem bom dever ser sbio e corajoso. Noutras palavras, a co-ragem (andreia) e a sabedoria (sophia) revelam-se como duas vir-tudes constitutivas do homem virtuoso.

    3Capacidade ou excelncia, seja qual for a coisa ou o ser a que pertena.Os seus significados especficos podem ser a capacidade ou potncia em geral,a capacidade ou potncia prpria do ser humano ou a capacidade de naturezamoral, prpria do Homem (Lobo, 1991: 159).

    4Doravante, todas as referncias a esta obra iro enunciar apenas a quota.

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    As Virtudes do Homem Bom 7

    O prazer e o bem tm naturezas diferentes. Prazer algo deimediato, que deriva de uma sensao, enquanto o bem algoeterno. A virtude reside numa vida moderada e sem excesso, pro-curando o bem em vez do prazer. Sendo a filosofia sinnimo desabedoria, o bem em si mesmo, ser ela o fim ltimo da acohumana, aquilo a que o homem aspira para se tornar virtuoso. Afilosofia coloca-se ento no plano inteligvel, e no no sensvel.

    A virtude deriva da ordem, do castigo, da harmonia e da pro-poro. O homem bom aquele que pratica o bem, o nico capazde ser feliz. O objectivo do indivduo deve ser alcanar a justiae a temperana como condio para a felicidade. Um homem es-cravo das suas paixes no pode ser amado. Se merecer um cas-tigo, deve aceit-lo, porquanto este tem um valor educativo: a vir-tude pode e deve ser ensinada. mais feio cometer uma injustiado que sofr-la (489a), mas ser justo implica sabedoria e conhec-imento do bem. Como apenas o mais sbio (filsofo) tem esseconhecimento, dever ser ele a governar, de modo a tornar a polise os cidados melhores, educando-os e ensinando a virtude. Oscidados devem esforar-se para serem bons, mas se praticarem omal devem ser castigados como um pagamento pela aco, j queo bem, a seguir ao de ser justo, consiste em tornar-se justo, pa-gando a sua falta com a punio (527b). O homem injusto nopode ser feliz enquanto no expiar a sua culpa, enquanto a almano se libertar dos males (477b).

    Neste ponto encontra-se a Paideia platnica, uma noo deeducao e cultura sobre o homem como ser individual, social epoltico: a instruo no como uma mera transmisso de tcnica,mas como formao global e universalizante do ser humano. Apaidia est assente na filosofia como prpria condio da edu-cao, a nica via que pode conduzir o homem ao bem e justia,pois sendo a virtude una e podendo ser ensinada, fruto da sabedo-ria e fonte de felicidade. A verdadeira educao ento aquelaque orienta o indivduo no caminho da filosofia, para o bem uno e

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    8 Hugo Lopes

    imutvel, para a virtude. E o educador, por conseguinte, dever seraquele que possui o conhecimento da justia. Esta importncia daeducao em Plato deriva do facto de ela ser fruto de um conheci-mento racional, que faz com que o autor combata a ignorncia, demodo a levar os homens a procurar o prazer em vez do bem.

    O autor predispe aqui que a virtude de cada coisa consistenuma ordem e numa feliz disposio resultante da ordem (506d).Esta ordem destaca-se como um conceito que se tornar primor-dial neste dilogo: a temperana (sophrosyne); conceito referidoanteriormente, mas que merece uma explicao mais aprofundada.Aquele que possuir temperana, que seja sophron, ou seja, mode-rado e com autocontrolo, ser necessariamente um homem virtu-oso, j que uma alma temperante e sbia boa (507a). Portanto,o homem bom sbio, mas tambm justo, corajoso e piedoso, faztudo de bem e de belo, alcanando desta forma o sucesso e a feli-cidade (507c). De notar que Plato coloca tambm a temperanacomo condio da felicidade, ou seja, o procedimento da aco hu-mana de forma a no ter necessidade de castigo, mas se por acasoo merecer, deve aceit-lo. Em sntese, Plato defende a aquisioda justia e da temperana como condio da felicidade (507e),a virtude s se obtm atravs do autodomnio das paixes e pelaprocura do Bem, j que a felicidade est dependente de uma vidamoderada.

    Posto isto, possvel interpretar estes dois conceitos como vir-tudes (a juntar coragem e sabedoria). Desta forma, concluo quej em Grgias o pensador evidencia aquelas que sero as virtudesda Repblica: sabedoria, coragem, temperana e justia. Contudo,difere ao colocar a sophrosyne como virtude primordial do homembom, algo que no acontece na Repblica, como de seguida serabordado.

    Para Plato, apenas aqueles que agem segundo a verdadeira na-tureza da virtude podem ser justos. Eles atingem o conhecimentoda essncia da virtude pela aprendizagem. A aco politicamente

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    As Virtudes do Homem Bom 9

    justa exige que a razo (logos) oriente a inteno e finalidade doHomem. O virtuoso deve por de parte tudo o que pertence ao sen-svel e, guiado pelo logos, dirigir-se para o inteligvel, onde se en-contra o verdadeiro conceito de bem, sabedoria e felicidade. Ohomem bom aquele que pelo logos e pela sophia consegue atin-gir a essncia da virtude, agindo racionalmente e, por isso, comjustia. o nico capaz de governar a cidade, o filosofo-rei, o sertico e poltico por excelncia, o verdadeiro educador. A justifi-cao para o filosofo-rei passa pela necessidade de os princpiosracionais que regem a conduta humana serem os mesmos das leisque governam a cidade.

    Em suma, se pela via do logos a filosofia conduz verdade, pelocaminho da aco a filosofia deve transformar o homem, torn-lonum homem virtuoso. precisamente isto que leva Aristteles aafirmar que para Plato, era a razo quem tornava o homem vir-tuoso (Aristteles, 2006: 1144b1-35). Este homem racionalmentebom, por sua vez, no papel de governante, quem ir transformara cidade, uma vez que as medidas que tornam a cidade melhor soas que tornam os indivduos melhores, e as virtudes presentes nosindivduos vo determinar se a cidade virtuosa ou no, sendo porisso que as pessoas devem ser virtuosas. Todavia, no possvelensinar algum a ser virtuoso se quem ensina no o for, ou seja, necessrio que o educador se parea com o modelo que trans-mite (513b). este o argumento usado pelo autor para legitimaro poder poltico, o caracter educativo e a superioridade em virtudeque predispe o filosofo-rei.

    2.2. A Repblica

    Esta a obra mais importante de Plato no que concerne ao dom-nio da poltica. Trata-se de um extenso imaginrio intelectual mar-cado por uma preocupao fundamental inicial: descobrir o con-

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    10 Hugo Lopes

    ceito de Justia. A Repblica, nascida da preocupao com ajustia, foi-se deslocando para o problema de encontrar uma cidadejusta, apresentando um modelo de cidade ideal alicerada no Es-tado como forma de resolver a questo inicial. Podemos assimidentificar Plato como pensador integrante de um primeiro grupode autores, politlogos, para os quais o fenmeno central da Cin-cia Poltica o Estado. No entanto, e segundo Adelino Maltez(1996: 60-72). no se pode incluir o pensador naquilo que hojeconsensualizmos como Politologia.

    No Livro I a virtude designada como a qualidade que faz algodesempenhar bem a sua funo, consiste em garantir a harmoniados elementos que a compem: cada coisa, cada instituio, temuma virtude prpria. A funo do homem viver e a sua virtude ,no plano da alma, a Justia (Plato, 2001: 350b-d5). Sem virtudeuma coisa no desempenha bem uma funo, logo, o homem semjustia no poder viver bem, ficando isento de felicidade.

    crucial desde j fazer um marco que a partir destas linhasser fundamentado. Ao passo que no Grgias a temperana eravista como a virtude primordial do Homem Bom, desde o incioda Repblica que a justia apresentada (explicitamente) como acondio virtuosa para o Homem desempenhar a sua funo basi-lar. Surgem ento trs propostas de definio de justia: a) restituiro que se tirou (331b-c); b) o interesse do mais forte, aquilo quemais convm aos poderes constitudos (338c e 339a); e, c) o meio-termo entre o maior bem e o maior mal (358a e 359b). No obs-tante a igualdade dos termos, importante sublinhar que o meio-termo aqui enunciado distinto do meio-termo aristotlico, namedida em que, como veremos, Plato no no refere os extremoscomo vcios.

    A procura pela concepo de justia s cessar no Livro IV.Esta no encarada como um valor situado no plano das relaes

    5Da mesma forma que no Grgias, para esta obra, daqui em diante, enuncia-remos apenas a quota.

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    As Virtudes do Homem Bom 11

    individuais, mas no plano colectivo: a Justia deixa de ser umavirtude individual para ser um atributo do Estado Ideal, a sociedadejusta (Amaral, 1999: 91). Desta forma, Plato recorre a um par-alelismo entre o homem e o suposto Estado ideal para descrever oque a justia e no que esta consiste, comparando-os: o homemjusto, no que respeita noo de justia, nada deferir da cidadejusta, mas ser semelhante a ela (435b). Isto significa nada maisque, quando a cidade boa o homem ser igualmente bom e ver-dadeiro. Tudo quanto for alheio a este ideal ser mau e errado,tanto para a cidade como para o indivduo (449a). Noutras pala-vras, este procedimento da descoberta da cidade ideal e do HomemBom corresponde a uma demanda da essncia dos mesmos (Cunha,2010: 42).

    A cidade fundada imaginariamente parece ser um estado ideale perfeito. E se perfeito possui ento quatro virtudes, a saber:sabedoria, coragem, temperana e justia (427e); semelhantes aoque comummente entendemos pelas Quatro Virtudes Cardiais, oque reflecte a influncia platnica no Cristianismo. O pensadorprocurar definir as trs primeiras para que, por excluso de partes,seja encontrada a ltima, a justia (428a). A sabedoria encontra-se nos chefes da cidade, classificados como guardies perfeitos(428d), a classe superior que tm a funo deliberativa, a arte degovernar que dominada por poucos (Wolff, 2011: 103). S osgovernantes podem ser chamados de sbios porque apenas elesesto aptos para designar o que justo e injusto, o que bom oumau para a comunidade. Poltica e educao, cidade e paideiaunem-se no pensamento platnico de forma admirvel. Tudo co-mea na educao6, pois sem ela jamais poder haver cidade ideal(Cunha, 2010: 52). A coragem encontra-se no sector que luta e

    6Sustentada pelo Livro VII da Repblica, onde trata o Mito da Caverna, amais clebre das alegorias de Plato. Na qual ele exprime a sua Teoria dasIdeias, sublinhando que no mundo sensvel que nos rodeia apenas encontramoscpias das ideias ou arqutipos existentes no mundo inteligvel, bem como asrelaes que elas tm entre si e, em particular, com o Bem.

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    12 Hugo Lopes

    combate pela cidade, que garante a defesa e a segurana, ou seja,na classe intermdia dos guardies auxiliares (429b e 430a).

    Quanto s duas ltimas virtudes que compem o Homem Bomna Repblica, a sua explicao no to taxativa. Embora autorescomo Adelino Maltez associem a temperana classe inferior,dos artesos (Maltez, 2009: 39), esta no pode ser encontradaem nenhuma classe especfica. A temperana uma espcie deordenao, quando a razo preside sobre certos prazeres e de-sejos, onde o homem demonstra ser senhor de si (sinonmia doautodomnio em Grgias; quando a parte melhor da alma dominaa pior). Uma cidade temperante aquela que senhora dos seusprazeres e desejos. uma virtude que no reside em um grupo es-pecfico de cidados: nem nos governantes, nem nos governados.A temperana assemelha-se a uma certa actividade que se estendepor todos os cidados: a concrdia, harmonia, entre os natural-mente piores e os naturalmente melhores, sobre a questo de saberquem deve comandar, quer na cidade quer num indivduo7 (429ea 432a). Por conseguinte, Estado temperado aquele onde a partemais sbia (governantes) controla os demais, e estes, por sua vez,conferem-lhe legitimidade e consentem a sua aco. Ser um Es-tado virtuoso porquanto as classes inferiores esto dispostas a sergovernadas pela classe superior, tendo conscincia de que o Estadono pode ser moderado se existirem lutas constantes. nisto queconsiste a harmonia natural (432a).

    Estando explicitas as trs virtudes, falta apenas a virtude maisimportante deste dilogo, que est na base de todas as outras epermite a sua existncia, a saber, a justia. Esta apresenta-se comocondio da virtude para o homem executar a sua funo, dando soutras virtudes fora para se constiturem e preservarem. Ningumpode ser sbio, temperado ou corajoso sem ter o conceito de justia(433c). O Estado, por sua vez, no pode ser virtuoso sem que tenha

    7Novamente presente a analogia entre Estado e Homem (neste caso, com aalma humana).

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    As Virtudes do Homem Bom 13

    sido fundado com a sua gide no princpio de cada homem executarapenas uma tarefa: aquela para a qual mais apto. E, se a justia aestrutura que sustenta as outras virtudes, ento a justia pode muitobem ser esse princpio: desempenhar cada um a sua tarefa (433b).A confuso e mudana de pessoas de umas classes para outras seriafonte de discrdia, ou seja, a injustia (434c). Em outras palavras, oque torna um Estado justo o facto de cada cidado desempenharum papel, aquele para o qual est naturalmente mais habilitado.Em termos platnicos, a cidade justa quando existiam dentrodela trs espcies de naturezas [classes], que executavam cada umaa tarefa que lhe era prpria e, por sua vez, temperante, corajosa esbia (435b). Se for bem fundada e detentora de virtude, a polis totalmente boa: sbia, corajosa, temperada e justa (427d-e)

    Plato pensava o Estado como uma estrutura semelhante a umorganismo. Se as partes no funcionassem correctamente, toda aorganizao iria sucumbir. Para ele o Estado era semelhante aoser humano (435b), no podia possuir virtudes ou vcios. Masna comunidade, ao possuir as virtudes, no significa necessaria-mente que os cidados as possuam como um todo: um homem no justo por executar a sua tarefa na sociedade, mas sim o Estado.No entanto, a sua prpria felicidade decorre da felicidade possvelde atingir no exerccio da funo para proveito geral, e no poregosmo (Cunha, 2010: 41). Plato recorre resoluo do conflitoda alma8 para explicar o conceito de homem justo. Segundo este,a alma humana est dividida em trs partes, a saber: (1) a parteracional, respeitante ao logos; (2) a parte emotiva ou irascvel, quediz respeito aos sentimentos; e, (3) a parte concupiscente, que en-globa desejos de cariz fisiolgico (435c-437d). Quando h um con-flito na alma, a parte irascvel toma partido da razo e, num homem

    8O Homem um ser complexo formado de um elemento material sensvel ecorruptvel, o corpo, e de um elemento externo que, por sua vez, se desdobra empartes distintas, a alma. Para Plato a alma uma substncia espiritual completano somente imortal mas eterna, e unida acidentalmente ao corpo (Lobo, 1991:83 e 11).

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    14 Hugo Lopes

    bom convenientemente educado, a razo preside s outras partes daalma (440e e 441e).

    O autor faz uma analogia, comparando as partes da alma hu-mana com as partes da cidade (435e), a razo corresponde aos go-vernantes, a parte irascvel aos auxiliares e o desejo aos artesos.O homem justo -o da mesma forma que a cidade justa (441d) e,sendo assim, torna-se imperativo encontrar no homem as virtudesdo Estado. Um homem corajoso em ateno parte irascvel,preservando as informaes fornecidas pela razo. O indivduoser sbio quando tem ateno ao logos, que governa o seu inte-rior e fornecer instrues: a razo que possui a cincia do queconvm alma como um todo. Da mesma forma que o Estado temperado, o Homem -o se possuir autodomnio, ou seja, quandoa razo (governante) governa mediante consentimento dos gover-nados (sentimentos e desejos) (442c-d). Finalmente, quanto aohomem justo, este em nada difere da cidade justa, sim seme-lhante a ela (435b). A justia existe na alma humana da mesmaforma que o Estado justo quando cada uma das trs classes de-sempenha a sua tarefa sem interferir nas outras: quando o homem dotado de autodomnio e a sua actividade interna se encontra emperfeita unidade9, temperante e harmoniosa, liderada pela sabedo-ria (443d-e).

    Em oposio, tudo o que for injusto, intemperado, cobarde e ig-norante tornar a alma m (609c-d). Embora ela seja imperecvel,ou seja, imortal e eterna (610a-d), o grande combate do homembom (e da prpria poltica) consiste em nos tornarmos bons oumaus (608a): a virtude no tem senhor, cada um a ter em maiorou menor grau, conforme a honrar ou desonrar. A responsabilidade de quem escolhe (618a).

    Em suma, justia em Plato no um conceito fechado. Tem

    9Aristteles disse que Plato defendia a unicidade das virtudes (Aristteles,2006: 1144b1-35). Apesar de visvel nestes termos, esta unicidade no defen-dida explicitamente no Grgias (Marchi, 2009: 10).

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    As Virtudes do Homem Bom 15

    um carcter antropolgico que analisa o comportamento do homemjusto e injusto para descrever as suas virtudes e a tipologia da alma,de forma a determinar uma postura tica que leve o homem para afelicidade, construindo um Estado Ideal, onde o justo mais felizque o injusto. Ser virtuoso significa ter uma alma bem governada,uma certa harmonia interior. Para conseguir a felicidade, gover-nado pelo logos, o homem deve renunciar aos prazeres mundanose dedicar-se prtica da virtude, na medida em que felicidade evirtude andam sempre juntas, da mesma forma que h uma sforma de virtude e infinitas de vcio (445c). Ao contrrio do Gr-gias, onde a virtude primordial a temperana, na Repblica, estde forma explcita demonstrado o papel da justia. A proposta dePlato um esforo filosfico, esttico e poltico (Maltez, 2009:45).

    O homem bom no mais que o governante, o filsofo-rei.Aquele que garante o melhor governo (Amaral, 1999: 89), dotadode memria e de facilidade de aprender, de superioridade e ama-bilidade, amigo e aderente da verdade, da justia, da coragem e datemperana (487a). Alicerada na educao dos governantes para afilosofia10, Plato enuncia um plano completo e rgido de vida parao virtuoso de forma a este no ser corrompvel e, a garantir o triunfoda sofiocracia. Esta estaria baseada numa classe de homens justose virtuosos, com almas de ouro, possudos pela razo e pela ver-dade, isentos de egosmo, por isso imunes s sedues da riqueza eda famlia11: enquanto no forem, ou os filsofos reis nas cidades,ou os que agora se chamam reis e soberanos filsofos genunos ecapazes (. . . ) no haver trguas dos males para as cidades, nemsequer, para o gnero humano. (473c-d; enfse nosso).

    10A filosofia aparece como condio da felicidade em ambos dilogos.11Sobre as qualidades do Homem Bom: 487a, 519b-d, 521b, 535a e segs.

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    16 Hugo Lopes

    3. Aristteles

    3.1. tica a Nicmaco

    Esta uma obra sobre tica humana, ou seja, tem por base umantropomorfismo fortemente descritivo das virtudes constitutivasdo homem bom. Desta forma, necessrio, no por interesse maspor necessidade, evitar um resumo integral do livro, referindo ape-nas os pontos fulcrais e relevantes para o desenvolvimento desteensaio.

    Desde o seu incio que se trata de um livro complexo e ma-ravilhoso. Comea com uma considerao de fim (Hardie, 1999:122) ao afirmar que todas as aces tm como objectivo final oBem e, que este bem o bem supremo, o fim ltimo da acohumana, aquilo que h de mais belo e prximo do que divino(Aristteles, 2006: 1094a1-1094b1012). Esse bem que se compede muitos indivduos, com um carcter profundamente teleolgicoe metafsico o bem supremo, nada mais seno a felicidade (eu-daimonia13) (1094b10 e 1095a20).

    necessrio tomar em considerao que Aristteles um en-ciclopdico, uma mente poderosa mas, acima de tudo, um realista(Cunha, 2010: 57). Para ele o ideal a atingir no seria a cidadejusta, mas o bom cidado, virtuoso e justo, orientado para a felici-dade (Amaral, 1999: 112). Esta uma condio para aprender osprincpios ticos e polticos constituintes do Homem Bom, aqueleque seria auto-suficiente e agiria segundo a virtude, em oposioao desvirtuado: O mais excelente de todos aquele que tudo en-tende; nobre, por sua vez, aquele que obedece ao que fala correc-

    12As referencias aristotlicas, tanto na tica como na Poltica, incidiram tam-bm apenas nas quotas.

    13Definio importante neste texto porque a excelncia, ou, pelo menos,uma certa excelncia (Aristteles, 2006: 1098a1-30).

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    As Virtudes do Homem Bom 17

    tamente. Aquele, contudo, que nem entende nem derrama sobre oseu corao o sentido do que escuta de outrem, no tem prstimo(1095b10; enfse nosso).

    A felicidade e o bem derivam do tipo de vida que o indivduoleva. Enquanto a maioria pensa que a felicidade o prazer e outrosse dedicam poltica, identificando a felicidade com a aquisio dehonra, a verdadeira funo do Homem Bom a vida contemplativa,dedicada contemplao pura (1095b4-31). Sendo assim, a pecu-liaridade do ser humano reside em agir de acordo com a virtude,tornar-se excelente (1098b15 e 1106b1-26). S quem age correc-tamente durante a vida alcana coisas boas e belas, s esse ser ohomem bom. A felicidade ento um postulado da excelncia (quenesta traduo se configura como sinnimo de virtude) e da apren-dizagem, o resultado de uma vida virtuosa, a melhor das coisas,divina e abenoada, adquirida pelo esforo (1099a1-7 e 1099b15-23). Todavia, para se ser feliz necessrio uma excelncia e umavida completa, pelo que se nota a interdependncia recproca entreambos os conceitos.

    O homem bom recto e irrepreensvel (1100a1-18), e a virtude algo no do corpo, mas da alma (Hardie, 1999: 68). A felici-dade ento, por conseguinte, uma actividade da alma de acordocom uma excelncia completa (1102a5). Para descrever as virtudesAristteles recorre a uma analogia, o homem um animal com-posto (sunthetos) por corpo e alma, que se divide em duas partes,uma racional e outra irracional (1102a29). Da mesma forma e,visto que a virtude no corprea, analogamente s partes da alma:umas excelncias so tericas14 e, outras so ticas15.

    A excelncia tica requer experincia e tempo, sendo produtoda aprendizagem, concepo prxima da paideia platnica: o re-sultado do hbito. O homem no nasce naturalmente moral ouimoral, mas pode desenvolver essas capacidades atravs do hbito,

    14Ou dianoticas. Estas so: sabedoria, entendimento e sensatez.15Ou morais. Estas so: generosidade, temperana e autodomnio.

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    18 Hugo Lopes

    toda a forma de comportamento adquirido pela aprendizagem (Lo-bo, 1991: 80), porque as excelncias adquirem-se ao serem exer-cidas, pela prtica o homem torna-se bom ou mau. Os mesmosfactores que produzem a excelncia podem ter o efeito oposto, asvirtudes podem ser destrudas por excesso ou defeito. No entanto,uma aco intermdia conserva-as (1103a1 e ss.): o uso do justomeio.

    O homem bom aquele que faz bom uso do prazer e sofri-mento (1104b12). Exemplificando: para um determinado acto servirtuoso, o autor tem que ter conscincia da sua aco, escolhe-ladeliberadamente e ter as excelncias como fundamento (1105a30e ss.). A virtude s produzida depois de contnuos actos virtu-osos. Esta no afeco nem capacidade, mas sim uma disposiodo carcter que influncia ou afecta o seu usurio de duas for-mas: pode desenvolver plenamente o seu potencial ou restituir-lhea funo especfica, a de se tornar virtuoso em si prprio (1105b29-1106a24), determinando se homem ser bom ou mau.

    Toda a actividade contnua divisvel em partes: uma maior,outra menor, e, uma igual (1106a26-30). Sendo que o mais e omenos so modos errados, a parte igual (e acertada) o meio entreos extremos de excesso e defeito, o justo meio. Este meio no relativo nem igual para todos, tem que estar de acordo a cadaindivduo e ser escolhido pelo mesmo: todo aquele que percebede alguma coisa evita tanto o excesso como o defeito, mas procurasaber onde est o meio para poder escolher. O meio procuradono um meio absoluto da coisa em si, mas o meio da coisa rela-tivamente a cada um (1106b5-9; enfse nosso). O sujeito queprocura o justo meio o homem bom, aquele que tem a aret e omais excelente de todos.

    Posto isto, a excelncia tica visa a mdia relativa ao senti-mento em aco, determinada por um princpio racional: ser exce-lente ser rigoroso, sempre hbil a atingir o meio (1106b13-20).Contrariamente a Plato, o homem bom aristotlico no precisa de

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    As Virtudes do Homem Bom 19

    englobar todas as virtudes (ticas, porque no caso das tericas asituao distinta): basta-lhe que seja humilde, o homem do justomeio, j que ningum consegue ser infinitamente feliz. A marca daexcelncia consiste, em suma, em experimentar afeces na alturadevida, pela razo certa e da maneira correcta, em conformidadecom o justo meio, porque ao passo que h varias formas de errar,s h uma de acertar (1106a35).

    No obstante, apesar de ser um termo mdio, a excelncia estde acordo com o Bem, que uma posio extrema (1104a5-10).Ento, relativamente aos padres gerais do que certo, a virtude um extremo (como, por exemplo, a temperana e a coragem, quepor si s j so extremos) (1107a27). Para alcanar a virtude preciso escolher o mal menor, precavermo-nos contra os erros maisnaturais do homem, porque alcanar o justo meio alcanar todaa excelncia tica (1109a33 e 1109b25-29; enfse nosso).

    Sintetizando, as excelncias so: posies intermdias e dis-posies do carcter que realizam aces do mesmo gnero queas criaram, esto ao alcance de cada um; e, aces voluntrias talcomo o sentido orientador que as prescreve. Aristteles enumeraduas virtudes ticas primordiais: coragem (1115a7) e temperana(1117b25), ao passo que no livro IV distingue um nmero de ex-celncias menos significativas16. Porm, com a justia (1129a3)que Aristteles termina a sua jornada pelas virtudes ticas (Hardie,1999: 116-118). Esta concentra em si toda a excelncia17 e , naverdade, o uso da excelncia completa (1129b30). Sendo a mais

    16A generosidade (1119b21-35), a magnificncia (1122a18), a magnani-midade (1123a34), a honra (1125b1), a gentileza (1125b26), a amabilidade(1126b22), a sinceridade (1127a25), a espirituosidade (1128b7) e, a vergonha epudor (1128b10-20).

    17Ao descrever cada virtude separadamente, no se deve subentender que ohomem bom pode possuir uma virtude nica. Pelo contrrio, o pensador olhavapara as virtudes de forma unitria (Hardie, 1999: 117), aproximando-se assim dePlato, como por exemplo: se algum tiver como nica excelncia a sensatez,logo ter presente nele todas as restantes (1145a1).

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    20 Hugo Lopes

    perfeita das virtudes, a justia um meio, mas no da mesma formaque os outros meios (1133b32-3). O pensador, ao distinguir justiauniversal de justia particular, examina em detalhe as variantes dejustia particular, o justo meio entre receber de mais ou receberde menos (Cunha, 2010: 60-61). O conceito de justia aristotlicarevela-se diferente de Plato, j que apresentada de uma formamais sistemtica, mais preocupada com os casos particulares e, in-teiramente despida do encanto e do estilo literrio de Plato.

    No livro VI Aristteles descrimina as excelncias tericas ouintelectuais. Estas so igualmente importantes na medida em queo homem bom actua em conformidade com a razo e, s alcana arazo por via intelectual (Hardie, 1999: 212). A parte racional daalma humana divide-se em faculdades cientficas e possibilidadesde deliberar e calcular, ao passo que os elementos controladores daaco e a descoberta da verdade so: a percepo, o poder de com-preenso e a inteno. (1139a15-19). Dado que a inteno motivaa aco e a razo determina a aco virtuosa, a escolha do homembom deve basear-se numa combinao de razo e inteno, porqueaco boa no existe sem o pensamento terico nem disposiotica, as duas virtudes (1139a35).

    A excelncia terica pode manifestar-se de cinco formas: per-cia18, conhecimento cientfico19, sensatez20, sabedoria21 e, o poderda compreenso [intuitiva] (1139b16). Todas estas disposies sonaturais ao Homem Bom, pois quando algum tem a capacidadede discernimento acerca daquelas coisas que dizem respeito ao sen-sato, mostra ter entendimento e ser bastante compreensvel ou ter

    18 uma certa disposio produtora conformada por um princpio verdadeiro(1139a21-22).

    19A unio da intuio e da cincia. eterno, por vez, uma disposio comcapacidade demonstrativa (1139b20-35).

    20Uma disposio prtica de acordo com o sentido orientador e verdadeiro(1140a5). Permite ao homem ver o que benfico.

    21Permite captar as ltimas premissas, a capacidade de apreender os princ-pios fundamentais da cincia pura (1140b31 e ss.)

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    As Virtudes do Homem Bom 21

    capacidade de perdoar, porque todas as aces equitativas so co-muns a todos os homens de bem nas suas relaes com outrem(1143a25-33).

    necessrio compreender que a sensatez e a sabedoria corres-pondem a partes diferentes da alma humana. O carcter humanotem duas formas: por um lado, a excelncia natural, por outro, aexcelncia em sentido autntico (Hardie, 1999: 236). O Homempode iniciar a sua vida com uma virtude natural, mas se isso no foracompanhado do conhecimento dos efeitos que diversos tipos deaco so susceptveis de ter, a sua disposio tica poder nuncase tornar uma excelncia genuna e completa (Hardie, 1999: 236).So as excelncias que se adquirem pela experincia, pelo hbito,que definem se um homem ser bom ou no e, quem tiver comonica excelncia a sensatez, ter presente nele todas as restantes(1145a1). de notar o simbolismo de reservar um nico livro (VI)para as excelncias tericas, mas tambm a falta de elucidaona explicao das diferenas entre ambas as excelncias (Hardie,1999: 239).

    Em suma, a sensatez a excelncia da alma que permite a es-colha certa, alcanar os fins apropriados em vista da virtude. Asensatez torna possvel a excelncia (Hardie, 1999: 237) e, sendoa finalidade do homem bom alcanada atravs do justo meio, a ex-celncia tica pode ser definida como obedincia a esta regra. Afelicidade, por sua vez, est de acordo com a mais poderosa dasexcelncias, a melhor parte do homem bom, s assim est com-pleta, ou seja, a vida do que actua de acordo com a excelncia seruma vida feliz (1171a12-18 e 1179a8-10).

    No captulo IX do livro X, Aristteles conclui todo o desen-volvimento anterior. Para o Homem bom ser virtuoso no bastaconhecer o bem e a conduta tica, preciso possuir esse bem eprocurar ser bom. Assim, em jeito de sntese, h uma disposionatural, decorrente das virtudes intelectuais, para a excelncia da-queles que receberam essa predisposio de Deus: uma disposio

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    22 Hugo Lopes

    do carcter com afinidade intrnseca para a excelncia (1179b30).Mas, alm desta disposio inata para se ser virtuoso, necessriaa educao baseada em bons hbitos, decorrentes das virtudes mo-rais e criados pelas leis estatais que garantem a permanncia davirtude e o alcance da felicidade (1179b35 e 1180a1-5), porquenenhuma excelncia na lgica capaz de substituir a experin-cia e a prudncia nas coisas humanas (Cunha, 2010: 59; enfsenosso).

    3.2 Poltica

    A filosofia prtica um desdobramento natural da tica e da polti-ca. Enquanto a primeira trata a felicidade individual do homem,a poltica preocupa-se com a felicidade colectiva da polis. A suatarefa investigar e descobrir quais as formas de governo e insti-tuies capazes de assegurar a eudaimonia.

    Toda a cidade uma certa forma de comunidade, e toda a co-munidade poltica (koinonia) estabelecida em vista a algum bem(agathou) (1252a1-5 e 1260b27). A cidade visa o maior dos bensporque auto-suficiente e engloba as outras comunidades menores, o primeiro objecto a que se props a natureza (Cunha, 2010:63). Como resultado da associao de vrias aldeias (kome), quepor sua vez, surgem do aglomerado de lares ou famlias (oikos), acidade (polis) uma comunidade superior que constitui o fim pornatureza (physis telos estin). a coisa completa e realizada, umprocesso biolgico da liberdade humana, criada inicialmente paraa preservao vital e subsistindo para assegurar a vida boa (eu zen)e a auto-suficincia (autharkeia) (1252b25-35 e 1253a1).

    Se a cidade uma criao da natureza, e, a natureza humanas se realiza em comunidade, ento o homem , por natureza,um ser vivo poltico (anthropos physei politikon zoon). No um animal gregrio (agelaion zoon) mas sim poltico, porque a

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    As Virtudes do Homem Bom 23

    comunidade assenta no discernimento do bem e do mal. Aqueleque no necessita de conviver em sociedade ser um ser decadoou sobre-humano (1253a2-3; enfses nossos). Em concordnciacom a tica o homem ser ento, um ser peculiar, nico pelo logose poltico pela palavra, j que o discurso que permite o discerni-mento de justia (1253a5-35).

    O homem s existe em cidade. Esta por natureza anterior famlia e a cada um de ns (1253a17). Sem polis no h serhumano, seja ele bom ou mau, s nela se realiza e separado dadela existe apenas por homonmia (1253a21), no conseguindo serauto-suficiente. Tal indivduo, que no viva em cidade e desprovidode virtude, ser um bicho ou um deus, a criatura mais mpia eselvagem (1253a29-35).

    Aristteles analisa as componentes da polis segundo as relaesfamiliares, restringindo-se ligao senhor-escravo. Separa o es-cravo das condies humanas (1256a1) e distingue-o do homembom e responsvel (spoudaios). Quem escravo por natureza (phy-sei doulos) deve submeter-se ao senhor (despotes), j que ambostm interesse e lucro com essa associao tese profundamenteplatnica, incluindo a prpria justificao, onde a primeira formade governo se encontra no ser humano e onde a alma governa ocorpo ao mesmo tempo que a razo preside alma (1254a10-15e 1254b1-12). O escravo, a mulher e os filhos encontram-se numpatamar inferior em relao ao homem virtuoso, o mais forte enico capaz de governar. O pensador pretendeu conciliar a escra-vatura com uma natureza humana universal, um antropomorfismolevado ao extremo, bastante visvel quando afirmou que a naturezacriou todos os seres em funo do homem (1256b21).

    Contrariamente ao seu predecessor, Aristteles achava impos-svel que os cidados no partilhem nada, uma vez que partilhampelo menos o territrio, e releva-se um defensor da pluralidade, poroposio ao que autores como Popper proclamaram, dizendo: aigualdade na reciprocidade a salvaguarda das cidades (1260b35

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    24 Hugo Lopes

    e 1251a30). Posto isto, o homem bom foi postulado como autr-quico (auto-suficiente), mas dentro da pluralidade, recusando a uni-formizao pela Teoria da Amizade e afirmando que cada homem um centro de relaes diversificadas que preenchem a cidade eque existem duas coisas que o fazem sentir solicitude e amizade: apropriedade e a afeio (1262b20-25).

    Quanto Teoria da Cidadania, centro de gravidade da Polti-ca, Aristteles investigou a aco educativa do legislador paraexaminar os regimes polticos e desmistificar o que era uma cidade.Desta forma, introduziu a polis como um composto diversificadodo qual cada cidado (polites) uma parte (1275a1), contraria-mente a Plato, que olhava para a polis de forma unitria. Cidado aquele capaz de exercer a cidadania e participar na vida poltica,atravs de funes deliberativas ou judiciais, e cujo pai e me soambos cidados (1275b1). A cidadania todo o exerccio da ma-gistratura, englobando inclusive os que adquiriram o estatuto injus-tamente (1276a1). A cidade, por sua vez, o conjunto de cidadossuficiente para viver em autarquia. Mantm a sua identidade en-quanto habituada pela mesma raa e ocupar o mesmo territrio,embora o critrio para determina a sua identidade seja o regime,porque ele que organiza os cidados (1276a35-b1).

    Aristteles compara a comunidade de cidados (koinomia poli-ton) com uma comunidade de marinheiros, para saber em que con-sistem as virtudes do homem bom (spoudaios) e do bom cidado.Em ambas existe uma diviso funcional que garante a segurana(asphaleia), porm, como existem diferentes regimes no h umavirtude nica do bom cidado, ao passo que o spoudaios tem umaexcelncia nica e perfeita (1276b26-35). A virtude do cidado cumprir a funo que lhe compete (1276b35-40), uma excelnciasemelhante justia platnica, e que a todos pertence. O mesmono acontece com o homem bom, porque, como a polis com-posta de elementos distintos no pode haver uma virtude comum ao

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    As Virtudes do Homem Bom 25

    homem bom e ao bom cidado, apesar de haver excepes (1277a1-20).

    O homem bom e prudente o governante responsvel. A suavirtude saber mandar, e quem manda no precisa de saber fazer,apenas de saber utilizar o escravo, caso contrario no haveria des-potes e doulos (1277a15-b5). No obstante, a virtude do bomcidado tanto saber mandar como saber obedecer (Cunha, 2010:63), j que partilha do conhecimento do governante e do gover-nado. E sendo a autoridade da polis a poltica, o soberano deveaprender a ser governado, na medida em que no pode mandarquem nunca obedeceu (1277b8-15), enquanto o cidado deve re-conhecer e legitimar a sua autoridade, j que a sua virtude subme-ter-se a ele. S as excelncias do spoudaios adquirem forma es-pecfica e plena, e diferentes formas consoante diferentes homens,uma condio que no assiste ao cidado comum. Estas formascompletas so a temperana e a justia. A opinio verdadeira uma excelncia exclusiva dos governados, da mesma forma que aprudncia o , para o governante (1277b25). O homem bom tem oseu paralelo na cidade responsvel (spoudaios polis) e, quanto questo de saber se a virtude do homem bom e a do bom cidadoso idnticas ou diferentes, em algumas cidades existe coincidn-cia, noutras no (1278a1-5).

    O fim da arte poltica (politique teckne) o bem-estar, ou seja,viver bem, encontrar a felicidade (1278b20-25). Os regimes rectosprocuram o bem comum na perspectiva da justia absoluta, sendoque o justo o interesse de todos e o contrrio o despotismo. Averdadeira polis preocupa-se com a virtude (1280b6) mas, apenasos spoudaoi se podem tornar perfeitos: por natureza, o escravo, amulher e as crianas afastam-se das excelncias tericas. O melhorregime aquele em que o grupo de governantes exibe as exceln-cias humanas e procura tornar os homens virtuosos, subordinandoa poltica tica. Se surgisse um homem ou um grupo superiorem virtude seria como um deus entre os homens (1284a3-11).

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    26 Hugo Lopes

    No entanto, o poder supremo como mais excelente dos bens teriacomo consequncia a perca da virtude inicial, pelo recurso vio-lncia e conquista do poder (1325a34 e ss.). Na cidade melhor, asvirtudes entre homem e cidado so idnticas, porque a educaoe os hbitos que tornam um homem virtuoso sero os mesmos quefazem o poltico ou o rei (1288a28-b1).

    Para encetar uma investigao adequada do melhor regime, opensador determina primeiramente o modo de vida prefervel(Cunha, 2010: 62). Aquele que exerce a magistratura deve ter umatotal afeio pelo regime, ser competente e, ter uma conduta vir-tuosa com sentido de justia. Por conseguinte, ser bom aqueleque possuir coragem, temperana, justia e prudncia (1309a1 e1323a25-30), mas, somente pela justia que o homem no setorna no pior dos animais (Maltez, 2009: 43). Um homem quese destaque pelo carcter e pela inteligncia pode ser feliz, mesmoque tenha poucos bens exteriores, porque as disposies da almaso mais valiosas e, o sensato ser aquele que prefere os bens daalma, que participa da felicidade e age em conformidade com avirtude e o discernimento.

    Os homens bons visam a vida poltica e a vida filosfica, aforma pela qual o melhor regime possibilita a realizao das me-lhores aces e a felicidade (1324a23-32). O legislador quem de-termina a forma pela qual uma comunidade participa na vida boa ena felicidade, deve marcar o espirito do povo que educa, porque aeducao superior s leis (paideia teleion ton nomon) (Cunha,2010: 64). A felicidade implica aco, e s agindo justamente eprudentemente se consumam actos nobres, porm, no podem sernobres aqueles cuja conduta no se distingue dos seus semelhantes.Posto isto, se existisse um homem acima dos outros, superior emvirtude e realizador das melhores aces, todos lhe deveriam obe-decer (1325a30-b10).

    Aristteles no deixa de discutir as vantagens e desvantagensda vida activa e vida contemplativa. Considera a vida prtica como

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    As Virtudes do Homem Bom 27

    a melhor, contudo, o homem bom deve agir em sentido pleno eorientar as suas actividades, ainda que exteriores, pela intelign-cia (1325b23). Como sistemata que , segue o raciocnio da ticae desenvolve o carcter natural (ou seja, as excelncias tericas)dos cidados tendo por base pressupostos metafsicos. Estes com-pem a comunidade, procuram actos virtuosos para atingir a felici-dade e, uma vez que felicidade e virtude esto unidas, no se podeconsiderar feliz uma polis que no olha pelos cidados (1328a35 e1329a22).

    O bem implica duas condies: visar o fim das aces e encon-trar os procedimentos que conduzem a esse fim (1331b26). J queuns conseguem atingir o fim, enquanto outros naturalmente so in-capazes, possvel discernir que a felicidade consiste no exerccioe uso perfeito da virtude. A cidadania tem de ser virtude e s elalevar felicidade (Cunha, 2010: 65). Feliz aquele que se dedicar contemplao filosfica, mas sem desprezar a vida activa (Ama-ral, 1999: 115), que transforma a tenso em harmonia, fazendocom que cada parte da excelncia esteja de acordo com as outras(Maltez, 2009: 41), ou seja, o homem bom aquele para quem,devido virtude, os bens so para si em absoluto, sendo evidenteque o uso que faz desses bens em si ser, necessariamente, bome nobre. Por isso se pensa que os bens exteriores so causa dafelicidade, como se a prtica virtuosa da ctara dependesse maisdo instrumento do que do talento do artista (1332b22-26; enfsenosso).

    impossvel que todos os cidados sejam bons colectivamentesem que cada um seja bom por si prprio, e, para que seja bonsem si mesmos existem trs factores: a natureza, o hbito e a razo(note-se que na tica o pensador refere apenas os dois primeiros).Portanto, necessrio nascer como homem, com uma qualidadede corpo e alma, e ser guiado pela razo para o caminho melhor(1331a35-43 e 1332b2-7). O spoudaios aquele que possui as ex-celncias de ambas as partes da alma e presta particular importn-

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    28 Hugo Lopes

    cia razo, mas esta, por sua vez, tambm est dividida, em planoprtico e teortico. Por isso, quando o homem no for capaz deatingir todas as actividades da alma, dever preferir a mais ele-vada, atendendo s coisas mais excelentes e aos fins (1333a15e ss.), fazendo da poltica a arte de conciliar contrrios (Maltez,2009: 41).

    Em suma, ao desenvolver as virtudes activas e contemplativas,e os cuidados com a alma e o corpo, Aristteles descortina a ex-istncia de excelncias baseadas no repouso22 (vida contemplativa)e excelncias assentes nas prticas (vida activa). A cidade que seprope alcanar a felicidade deve integrar como virtudes a filosofia,a temperana e a justia, sendo o virtuoso, portanto, aquele quecuida do desejo em vista da razo, tal como do corpo em vista daalma (1333b27). A Poltica de Aristteles resume os preceitos fi-nalista e eudemonista da sua tica: todos aspiram a viver bem e felicidade (1331b39) e, toda a aco humana est orientada parao bem e para a felicidade, dirigindo a alma para a virtude perfeita(1102a5). Portanto, resta-me sublinhar que o autor no estabeleceuum limite mximo para as virtudes constitutivas do homem bom,ao contrrio de Plato.

    4. Consideraes crticas

    O homem bom platnico no mais do que aquele que leva umavida virtuosa, baseada na filosofia como caminho para a felicidade. justo, corajoso, sbio e temperado. O melhor dos homens, porsua vez, o verdadeiro educador, excelente e virtuoso: o filosofo-

    22 por isto que na tica o autor afirma que a felicidade parece ainda aconte-cer quando h tempo livre (1177b5) e, na Poltica, que no deve haver descansopara os escravos (1334a21).

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    As Virtudes do Homem Bom 29

    rei. Deve ser ele a governar e a educar os restantes cidados, jque a paideia platnica est alicerada no exemplo do educadorcomo motivao para a aco. Noutras palavras, aquele que ensinadeve possuir as qualidades que pretende transmitir. Plato rejeitaa retrica e apoia o carcter educativo do castigo como uma pu-rificao para a alma. Enuncia as quatro virtudes cardiais, que soprova da sua grande influncia no Cristianismo.

    No entanto, apresenta algumas dicotomias. No Grgias, ape-sar de referir as quatro virtudes cardiais e desenvolver a sua im-portncia mediante a paideia e uma aco justa e corajosa, o autorrefere a temperana e d-lhe enfase como virtude primordial. Avida virtuosa est assente numa prtica moderada e prudente, noautodomnio humano. Contrariamente, na Repblica, define ex-plicitamente que a justia a mais importante das qualidades hu-manas, a base e a condio da existncia das outras virtudes, sema qual nenhuma delas pode existir. Esta , a meu ver, a maiorbrecha na teoria das virtudes platnicas caso se desejasse olharpara os dois dilogos como partes de um todo unificado. Por con-seguinte, Plato demonstra alguma falta de coerncia e organizaosistemtica dos temas, alis, o prprio, e ao contrrio do que nos dogmaticamente apresentado no quotidiano, nem deve de forma al-guma ter procurado construir uma teoria unificada e sistematizada.

    Esta situao pode ser vista de trs formas distintas. Em pri-meiro lugar, possvel analisar esta dicotomia como uma evoluointelectual do pensamento platnico ao longo da sua vida. No en-tanto, e pessoalmente, aps mais de dois milnios no possvelapurar de forma precisa e cronolgica a ordem em que as obrasforam escritas e inclusive o prprio contedo pode ter sido alte-rado. razovel ento admitir que Plato escrevia obras no paradoutrinar, mas para entreter a elite intelectual do seu tempo. Porm,se tal fosse o caso, no haveria necessidade de defender a abolioda famlia e da propriedade, nem de considerar as mulheres comoseres capazes de alcanar a virtude, visto que foram ideais revolu-

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    30 Hugo Lopes

    cionrios na poca em questo: inclusive o prprio Aristteles con-sidera a mulher um ser no-humano, equiparando-a ao escravo e scrianas. Por fim, seria tambm compreensvel olhar para a colec-tnea de textos platnicos como partes de um todo diversificado epouco coeso, onde cada obra representa uma s teoria, individuale que ganha sentido por si s, desprovida de qualquer ligao comas outras e, portanto, susceptvel de ser analisada parcialmente eno em conjunto. Ento, no se devem fazer generalizaes comoPlato defendia X, mas sim no livro X Plato acreditava em Y.Esta ltima possibilidade, apesar de demonstrar uma maior con-sistncia e fundamento, remete para algo que, mais uma vez, pes-soalmente, no me parece concebvel e exequvel: uma exposioargumentativa pura e isenta de anlise pessoal algo impossvel a prova disso est em teorias semelhantes e sem incongruncias,como o caso da imortalidade da alma.

    No sendo necessrio, portanto, alargar mais este tema, segui-mos para o seu discpulo. Aristteles tem uma natureza diferentedo seu mestre: um realista completamente desprovido da belezadiscursiva platnica. Analisa as questes de um ponto de vistamais emprico e menos idealista, de uma perspectiva sempre rela-tiva, sendo por isso considerado como o primeiro politlogo. Nodemonstra a falta de coerncia entre obras que foi analisada emPlato. Alis, na Poltica refere e sustenta teses apresentadas an-teriormente na tica, como, por exemplo, a importncia da acocontemplativa para alcanar a virtude, tal como a justia consubs-tanciada como um justo meio entre excesso e defeito. Este pen-sador no defende a existncia de uma elite iluminada e dotada decaractersticas inatas s quais todos os outros esto desprovidos,nem to-pouco refere um nmero limitado de virtudes e aces ca-ractersticas do homem bom. Fornece apenas um caminho a seguire alguns pontos essenciais que devem ser tido em conta para umaaco nobre e virtuosa que conduz felicidade.

    Enquanto o seu mestre considerava toda a virtude como uma

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    As Virtudes do Homem Bom 31

    caracterstica inata ao homem, Aristteles distingue excelnciasticas e tericas. Concorda com Plato na medida em que o Ho-mem bom deve nascer com uma caracterstica natural virtuosa, masdiscorda na medida em que considera que o indivduo tem queprocurar ser bom. Isto significa que a predisposio divina einata que o homem bom recebe naturalmente no suficiente paraalcanar a excelncia completa, necessrio tambm uma edu-cao baseada nos hbitos, criados pelas leis da cidade e fundadosna experincia e aprendizagem. Estes vo tornar as virtudes queo homem pratica sucessivamente intrnsecas sua personalidade.Desta forma, e dotado de razo (na Poltica Aristteles aproxima-se de Plato, ao recorrer necessidade de prevalncia do logos naalma) o homem pode ser nobre, justo, moderado e bom. Enquantopara Aristteles a escolha est ligada virtude, Plato acreditavaque o homem no podia escolher no que se iria tornar, o seu des-tino j estava predeterminado e podia apenas tentar melhorar a suacondio, dentro dos limites da natureza.

    De notar que Aristteles no faz referncia ao filosofo-rei, nem necessidade de sabedoria como condio da felicidade ou instau-rao de uma sofiocracia. Ele no teve uma proposta de cidadeideal como o seu predecessor, o que demonstra que era mais hu-milde e moderado: o verdadeiro homem do justo meio. No entanto,reala a importncia de o sbio ser capaz de criar uma situaocontemplativa por si s, e a vida contemplativa uma condioda felicidade. Portanto, apesar de no fazer uma ligao direta,aproxima-se de Plato, o que tambm passvel de ser verificadona teoria das excelncias tericas, pois a sabedoria uma das cincoformas pelas quais se manifesta a virtude intelectual. Em 1177a27,na tica a Nicmaco, entra em concordncia com o seu mestre aoreferir as quatro virtudes cardiais defendidas por Plato: justia,temperana, coragem e sabedoria. Essas quatro virtudes necessi-tam de um acrscimo para uma maior exequibilidade: a filosofia.

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    32 Hugo Lopes

    Com esta referncia marca-se um elo que liga os dois pensadoresde uma forma rgida.

    Em suma, os dois autores diferem nas teorias explicadas an-teriormente, mas no de forma formal e total. A ligao entre asteorias visvel, no sendo de alguma forma possvel de refutao.Assim sendo, e respondendo questo que enunciei no incio destainvestigao: possvel considerar Aristteles como um platnico,ou pelo menos em certa medida. Talvez pela influncia do seu an-tecessor, ou por no desejar uma ruptura integral, as semelhanasso evidentes, inclusive de forma mais sistemtica e rgida que asdiferenas. O caracter profundamente tico e antropolgico ligaos dois pensadores de forma inigualvel, o que os leva a referir afilosofia, as virtudes, a educao, as leis, e at o homem bom, deforma bastante semelhante.

    Assim, realizados todos os objectivos deste projecto, e combase nos captulos anteriores, esto explicitas as virtudes consti-tutivas que fazem o melhor dos homens: o ideal tico e polticoque guia a aco do homem bom.

    5. Referncias Bibliogrficas

    5.1. Bibliografia Primria

    ARISTTELES. (2006). tica a Nicmaco. 2a Edio. Lisboa:Quetzal Editores.

    ARISTTELES. (1998). Poltica. Lisboa: Vega.

    PLATO. (2001). A Repblica. 9a Edio. Porto: FundaoCalouste Gulbenkian.

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    As Virtudes do Homem Bom 33

    PLATO. (2004). Grgias. Introduo e Anlise de MarcelloFernandes e Nazar Barros. Lisboa: Lisboa Editora.

    5.2. Bibliografia Secundria

    AMARAL, Diogo Freitas do. (1999). Histria das Ideias Polti-cas. Volume I. Coimbra: Almedina.

    CUNHA, Paulo Ferreira da. (2010). Filosofia Poltica: da an-tiguidade ao sculo XXI. Lisboa: Imprensa Nacional-Casada Moeda.

    HARDIE, W. F. R. (1999). Aristotles Ethical Theory. Oxford:Clarendon Press.

    LOBO, Antnio (1991). Dicionrio de Filosofia. Pltano Editora.

    LASCH, Rudinei; SANTOS, Marcos Andr dos; SOMAVILLA,Luciano. (s/d). A importncia da educao na formao doindividuo em Plato. Paulino Soares de Sousa: UniversidadeFederal de Juiz de Fora.

    MALTEZ, Jos Adelino. (2009). Biografia do Pensamento Polti-co I. Lisboa: Instituto Superior de Cincias Sociais e Polti-cas.

    MALTEZ, Jos Adelino. (1996). Princpios de Cincia Poltica.Introduo Teoria Poltica. Lisboa: Instituto Superior deCincias Sociais e Polticas.

    MANO, Claudio. (s/d). tica, Virtudes e Ordem Social: deAristteles ao mundo atual. Centro de Pesquisas Estrat-gicas.

    www.lusosofia.net

  • ii

    ii

    ii

    ii

    34 Hugo Lopes

    MARCHI, Alessandra Daniela. (2009). A Virtude e o Justo noGrgias de Plato. Dissertao de Mestrado: Departamentode Filosofia da Universidade de So Paulo.

    SILVA, Claudio Henrique da. (1998). Virtudes e Vcios em Arist-teles e Toms de Aquino: Oposio e Prudncia. Boletim doCPA, Campinas: 129-140.

    WOLFF, Jonathan. (2011). Introduo Filosofia Poltica. Lis-boa: Gradiva produes.

    www.lusosofia.net

    1. Introduo2. Plato2.1. Grgias2.2. A Repblica

    3. Aristteles3.1. tica a Nicmaco3.2 Poltica

    4. Consideraes crticas5. Referncias Bibliogrficas5.1. Bibliografia Primria5.2. Bibliografia Secundria

Recommended

View more >