as vertentes teÓricas da produtividade*

Download AS VERTENTES TEÓRICAS DA PRODUTIVIDADE*

Post on 09-Jan-2017

218 views

Category:

Documents

2 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • 67Paulo Gonzaga M. de Carvalho As vertentes tericas da produtividade

    67

    AS VERTENTES TERICASDA PRODUTIVIDADE*

    Paulo Gonzaga Mibielli de CarvalhoIBGEENCE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica

    Av. Repblica do Chile, 500, 4 andar, Centro, CEP 20031-170, Rio de Janeiro, RJ, Brasile-mail: paulomibielli@ibge.gov.br

    RESUMO Este texto procura fazer um balano crtico das diferentes vertentes teri-cas que se detiveram sobre o estudo da produtividade: o mainstream neoclssico(produtividade total dos fatores), os evolucionistas, eficincia-X, as teorias geren-ciais e comportamentais, teorias neomarxistas, organizao industrial, leis de Kal-dor-Verdoorn e crescimento endgeno. Conclui-se que existe uma lacuna terica,pois o mainstream claramente insatisfatrio e, ao mesmo tempo, no existe umaalternativa consistente no campo heterodoxo, embora as teorias evolucionistas se-jam promissoras.

    Palavras-chave: produtividade; competitividade, indstria

    THEORETICAL STRANDS OF PRODUCTIVITY

    ABSTRACT This paper makes a critical analysis of different theories of produc-tivity: the neoclassical mainstream (total factor productivity), the evolutionarytheory, X-efficiency, the management and behavioral theories, neomarxist theories;industrial organization, Kaldor-Verdoorn laws, endogenous growth. The conclu-sion is that there is a problem in the theory because the mainstream is clearly unsat-isfactory and there is no consistent alternative in the heterodoxy although the evo-lutionary theories are promising.

    Key words: productivity, competitiveness, industry

    * Este artigo um resumo de dois captulos de minha tese de doutorado As causas do aumentoda produtividade da indstria brasileira nos anos 90 defendida em maro de 2000 no Institutode Economia da UFRJ. Parte da pesquisa e redao da tese foi realizada na Inglaterra, no Instituteof Development Studies (IDS), onde estive com uma bolsa sanduche da Capes. Agradeo as cr-ticas e sugestes dos membros de minha banca de doutorado e dos dois referees annimos.

  • 68 R. Econ. contemp., Rio de Janeiro, 5(2): 67-92, jul./dez. 2001

    INTRODUO

    Este texto procura fazer um balano crtico das diferentes vertentes tericas

    que se detiveram sobre o estudo da produtividade:1 o mainstream neoclssi-

    co (produtividade total dos fatores), as de carter mais microeconmico

    (evolucionistas, eficincia-X, teorias gerenciais e comportamentais da em-

    presa, organizao industrial) e as macroeconmicas (neomarxistas, Kal-

    dor-Verdoorn, crescimento endgeno).2

    1. A PRODUTIVIDADE TOTAL DOS FATORES (PTF)

    A PTF constitui o referencial terico do mainstream para estudos de produ-

    tividade e crescimento. Uma reviso da literatura terica sobre produtivida-

    de tem necessariamente que dar bastante destaque PTF. importante ana-

    lis-la, pois de acordo com o mainstream a PTF claramente superior

    produtividade do trabalho, que a medida de produtividade usada.

    Nada mais oportuno, portanto, do que falar sobre seu polmico surgi-

    mento (Abramovitz), sua ascenso ao mainstream (Denison, Kendrick e

    principalmente Solow) e as crticas que tem recebido (escola de Cambridge).

    Deixam-se aqui de lado alguns autores, selecionando-se apenas aqueles que

    deram maior contribuio terica ou emprica. No se d muita nfase a

    Jorgenson e Griliches autores que ressaltam questes relacionadas s for-

    mas de mensurao do fator capital, sobre o qual h muita precariedade de

    estatsticas no Brasil.3 Tambm se apresentam aqui na introduo ao tra-

    balho de Solow as diferentes frmulas de produtividade (parcial e total).

    1.1 O incmodo resduo e o surgimento da PTF

    A PTF teve vrios precursores4 mas, segundo Bonelli (1976),5 o primeiro

    trabalho de peso foi o de Abramovitz (1971, publicado originalmente em

    1956). Este considerado um clssico e com toda a razo, na medida

    em que uma das questes que o texto coloca, a importncia do resduo, est

    presente at hoje.

    Abramovitz procura explicar o crescimento do Produto Nacional Lqui-

    do per capita dos Estados Unidos no perodo 1870-1946. Com tal objetivo,

    divide o ndice dessa varivel por uma mdia aritmtica ponderada de dois

    indicadores de insumos per capita: homens-hora e capital. A ponderao

  • 69Paulo Gonzaga M. de Carvalho As vertentes tericas da produtividade

    utilizada foi a participao desses fatores no produto. Essa frmula de cl-

    culo traz implcita uma funo de produo e tem por finalidade desagregar

    o incremento do produto em termos das contribuies dos fatores produti-

    vos e do resduo. Vale registrar que, nesse texto, h algumas ressalvas qua-

    lidade das estimativas de capital, um tema que ser recorrente na literatura

    sobre PTF. O artigo conclui que apenas uma parcela muito pequena do au-

    mento do produto (10%) explicada pelo maior consumo individual de

    insumos.6 Conseqentemente, a produtividade do conjunto dos fatores

    estimada como resduo a principal responsvel (90%) pelo incremento

    da produo. O autor ficou surpreso com os resultados. Isso claramente

    expresso no trecho abaixo:

    Esse resultado surpreendente na importncia assimtrica que parece atri-

    buir ao aumento da produtividade e deve, em certo sentido, sugerir cautela, se

    no for desencorajador, aos estudiosos do crescimento econmico. Dado quepouco sabemos acerca das causas do aumento da produtividade, a importn-

    cia indicada desse elemento pode ser considerada como sendo uma espcie demedida da nossa ignorncia sobre as causas do crescimento econmico nos

    Estados Unidos e uma espcie de indicao acerca de onde devemos concen-

    trar nossa ateno. (Abramovitz, 1971, p. 328, apud Bonelli, 1976, p. 9)

    Portanto, a produtividade que mais tarde seria chamada de total dos

    fatores uma varivel-chave. Ela , no entanto, estimada como resduo e

    muito pouco se sabe sobre seus determinantes. Nossa ignorncia a seu res-

    peito muito grande tanto no lado emprico quanto no analtico. O im-

    pacto desta descoberta no mainstream foi grande. Segundo Jorgenson,

    a descoberta do resduo foi um grande choque para as hipteses e conven-

    es da cincia econmica, to ou mais importante que a chamada revolu-

    o keynesiana. Para E. A. G. Robinson, seria inaceitvel que a teoria do

    crescimento dependesse de um amorfo fator residual para o qual no h

    explicao.7 A chamada contabilidade do crescimento vai enfrentar essa

    questo pelo lado emprico, procurando reduzir a magnitude do resduo.

    Denison, o principal expoente dessa corrente, vai trabalhar com o que cha-

    mou de fontes de crescimento do produto. Nessa metodologia, o cresci-

    mento da produo nacional dividido em duas partes: incremento do

    consumo dos fatores produtivos e aumento da produo por unidade de in-

    sumo. Essas duas parcelas so desagregadas segundo a contribuio das v-

  • 70 R. Econ. contemp., Rio de Janeiro, 5(2): 67-92, jul./dez. 2001

    rias fontes de crescimento. A parcela no explicada (resduo) chamada de

    avano do conhecimento e fatores no especificados, e alocada na produ-

    o por unidade de produto. O maior detalhamento inevitavelmente acar-

    reta a diminuio do resduo final. Trabalhando com o crescimento-renda

    nacional, suas primeiras estimativas do resduo, chamado de avano do

    conhecimento e fontes de crescimento no classificadas, respondiam por

    20% do incremento da produo (Denison, 1971, publicado originalmente

    em 1962) para o perodo 1929-1957. Em suas estimativas posteriores para

    1929-1969 (Denison, 1974), essa participao varia entre 19,7% (1929-

    1941) a 35% (1953-1964). Portanto o resduo diminuiu, mas ainda tem

    uma magnitude significativa e crescente de 1929 a 1964.

    Mas, o que desejvel: ter um resduo grande ou pequeno? Depende de

    como interpret-lo. Do ponto de vista emprico, ter um resduo elevado

    uma forte indicao de que o clculo no foi bem-feito seja porque va-

    riveis foram omitidas, seja porque foram includas mas no corretamente

    estimadas. No limite, seria uma indicao de que o modelo terico inade-

    quado. No entanto, se o resduo for interpretado como a produtividade to-

    tal dos fatores seja como progresso tcnico (Solow), seja como avano do

    conhecimento (Denison) , saudvel para uma economia ter um resduo

    elevado ou crescente. Nesse caso, a pressuposio a de que a teoria e sua

    mensurao esto corretas, embora possam ser feitas, aqui e ali, algumas

    ressalvas sobre a qualidade das estatsticas. Esse ltimo ponto de vista foi o

    dominante ou seja: representa o mainstream. Em outras palavras, trans-

    formou-se o problema (ou defeito) do incmodo resduo numa virtude.

    Por esse motivo, a queda da PTF na segunda metade dos anos 60 no gerou

    uma sensao de alvio, e sim um intenso debate sobre a perda de dinamis-

    mo das economias dos pases centrais. Mas, como muito bem colocaram

    Jorgenson e Griliches, simplesmente rotular (a PTF) de progresso tcnico

    ou avano do conhecimento no responde questo de como explicar o

    crescimento do produto (Jorgenson e Griliches, 1970, p. 421).

    Alm de Denison, os principais expoentes da contabilidade do cresci-

    mento so Kendrick, Jorgenson e Griliches. interessante analisar a contri-

    buio desses autores, pois a metodologia que empregam um pouco dife-

    rente da de Denison, e isso se reflete sobretudo na magnitude do resduo

    estimado.

  • 71Paulo Gonzaga M. de Carvalho As vertentes tericas da produtividade

    A diferena entre esses pesquisadores est principalmente na forma co-

    mo incorporam, em suas estimativas, as novas fontes