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    As parbolas em Lucas

    Por

    Maria Antnia Marques

    Contos, causos e parbolas so narrativas envolventes e sempre abertas a diferentes releituras. So ensinamentos extrados da vida cotidiana. Cada pessoa, de acordo com a sua realidade, ouve a histria e a aplica para a sua vida. As histrias sempre trazem uma lio de vida. No tempo de Jesus e das comunidades crists, era muito comum o ensinamento em parbolas. Ouamos, com o corao, um antigo conto judaico:

    Uma vez um judeu rico e religioso, mas avarento, foi visitado por um rabi. O visitante, com todas as atenes, levou-o janela. Olhe l para fora, disse ele. O rico olhou para a rua. Que v?, perguntou o rabi. Vejo homens, mulheres e crianas, respondeu o rico. De novo e muito atenciosamente, o rabi levou-o at junto dum espelho. Amigo, o que v agora? Agora vejo-me a mim mesmo, respondeu o rico. Tome nota, disse o rabi, na janela h vidro e no espelho vidro h tambm, mas o vidro do espelho prateado. Uma lio se aprende: logo que o homem junta prata, ele deixa de ver os outros para s ver a si mesmo.[1]

    Uma histria judaica muito antiga, mas que pode traduzir a realidade de muitas pessoas crists, que se fecham diante das necessidades de seus semelhantes. Esse problema vem de longe; desde o sculo I, ouvimos a seguinte advertncia: Se

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    algum possui riquezas neste mundo e v o irmo passando necessidade, mas fecha o corao diante dele, como pode estar nele o amor de Deus? (1Jo 3,17). Uma camada de prata pode nos levar ao fechamento, tornando-nos individualistas, distante de Deus, das pessoas e de ns mesmos. O conto judaico antigo, mas muito atual!

    Os evangelhos sinticos Mateus, Marcos e Lucas apresentam um total de quarenta parbolas, das quais vinte e nove esto no evangelho de Lucas e dezesseis s aparecem nesse evangelho. So ensinamentos preciosos, sempre abertos a novas reflexes.

    O sentido literal da palavra parbolas lanar ao lado. uma histria que conta outra histria. As parbolas nascem da realidade cotidiana, de situaes corriqueiras, mas sempre trazem um elemento que foge dos padres normais. A mensagem indireta e tem como objetivo causar impacto e quem a ouve convidado a tomar uma posio.

    Neste artigo, apresentaremos algumas parbolas que s aparecem no evangelho de Lucas, procurando compreend-las a partir do contexto das comunidades s quais foram dirigidas. A maior parte das parbolas exclusivas desse evangelho est na parte central: na viagem de Jesus para Jerusalm (Lc 9,51-19,28). nesse caminho que Jesus ensina seus discpulos as atitudes bsicas do discipulado.

    1. Quem se tornou prximo do homem ferido? (Lc 10,25-37)

    A parbola do samaritano um ensinamento sobre o amor ao prximo. Um especialista em leis pergunta para Jesus: Quem o meu prximo? (Lc 10,29). A resposta no dada de

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    imediato, mas por meio de uma parbola que leva o ouvinte a refletir sobre o sentido do amor ao prximo, cujo caminho o da compaixo e da misericrdia.

    A histria est ambientada no caminho entre Jerusalm e Jeric, estrada perigosa e apropriada para a ao dos ladres. Nesse caminho, h um homem que foi roubado, espancado e deixado beira do caminho, semimorto. Um sacerdote e um levita passam pela mesma estrada. Eles so homens fiis Lei e prestam servio no templo. Os dois veem o homem cado, mas seguem adiante, fecham os olhos e o corao. O sacerdote e o levita no so pessoas ruins, ao contrrio, eles so piedosos e seguidores da Lei (Lv 21,1-3).

    Em seguida, passa um samaritano, ele viu o homem cado e moveu-se de compaixo (Lc 10,33). Essa histria certamente causou espanto para uma audincia judaica, pois entre judeus e samaritanos h uma rixa antiga. Quando a Samaria, capital do reino do Norte, foi invadida pelos assrios, em 722 a.C., esse Imprio deportou as elites da cidade e levou para l pessoas de cinco regies diferentes: Babilnia, Kut, Av, Hamat e Serfrvaim (2Rs 17,24).

    Com o passar do tempo, esses colonos assrios foram se unindo com os israelitas, formando um novo povo: os samaritanos. A origem mista desse grupo e suas prticas religiosas eram motivo de desprezo e hostilidade da parte dos judeus fariseus. Com a promulgao da Lei, especialmente as leis referentes pureza, houve vrios desentendimentos entre judeus e samaritanos.

    justamente um excludo que capaz de amar o prximo. Quem esse homem ferido? Seria um judeu? O homem cado est desfigurado, sem identidade. Pouco importa saber quem ele , pois a compaixo ultrapassa as barreiras tnicas, sociais, culturais e de gnero. um sentimento que no se traduz com

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    palavras, mas com gestos concretos de cuidado amoroso com a vida ameaada. Para viver a proposta crist, preciso ser sensvel aos sofrimentos das pessoas que esto beira do caminho.

    Terminada a histria, Jesus, dirigindo-se ao legista, pergunta: Qual dos trs, em tua opinio, foi o prximo do homem que caiu nas mos dos assaltantes? (10,36). A questo mudou de perspectiva: no se trata de identificar quem o prximo, mas como algum se torna prximo do outro. O legista obrigado a admitir que o prximo aquele que usou de misericrdia com o homem ferido. O samaritano, um impuro, um fora da Lei, capaz de se aproximar e de realizar a vontade de Deus. Os dois homens religiosos e apegados Lei no conseguem reconhecer qual o projeto de Deus. A resposta de Jesus denuncia o legalismo religioso, que ignora o sofrimento das pessoas cadas beira do caminho. Precisamos aprender a nos aproximar das pessoas com os olhos do corao. A comunidade crist chamada a revelar o rosto misericordioso de Deus e a sua presena nas realidades de sofrimento.

    Duas parbolas sobre a necessidade de rezar sempre e nunca desistir

    2. Pedi e vos ser dado (Lc 11,5-8).

    A do amigo importuno e a do juiz e da viva. A primeira descreve uma pessoa que incomoda o amigo no meio da noite (Lc 11,5-8). Apesar dos protestos, o amigo importunado acaba cedendo por causa da insistncia de quem pede. A mesma lio contm a parbola da viva que pede vrias vezes at conseguir que um juiz injusto lhe faa justia. Essa viva apresentada como modelo de perseverana na orao (Lc 18,1-8).

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    No Oriente, a hospitalidade um costume sagrado, assim, era impossvel pensar em algum que se recusasse a prestar um favor a um amigo, mesmo no meio da noite. um fato do cotidiano que foi adaptado para reforar a necessidade de rezar sempre. Reze de maneira confiante, pois se at mesmo um amigo atende s necessidades do outro, mesmo numa hora imprpria, muito mais o Pai do cu.

    3. Pedi e vos ser dado (Lc 18,1-8).

    Na parbola da viva, temos, de um lado, o juiz, algum que dispe de poder, e do outro, uma viva, desprovida de poder. A parbola ressalta que a viva no tem chance de conseguir o que reclama, mas por sua insistncia ela alcana seus objetivos.

    Diante do corre-corre e do ritmo acelerado que vivemos,

    acabamos nos distanciando da orao. Aos poucos, vamos perdendo nossa capacidade de fazer silncio interior. Buscamos responder aos apelos de uma sociedade pautada pela lgica da competio, do lucro e do rendimento imediato. Nesse contexto, a orao se torna dispensvel. possvel que essa fosse a realidade da comunidade lucana, por isso o autor insiste na atitude orante de Jesus, provocando as pessoas do sculo I a rezar e a viver com vigor a f crist. Um apelo atual e necessrio para os tempos de hoje, pois a orao nos aproxima da Luz e nos ajuda a nos tornar mais humanos e solidrios.

    4. Descansa, come, bebe, festeja (Lc 12,16-21)

    Precavei-vos cuidadosamente de qualquer cupidez, pois, mesmo na abundncia, a vida de um homem no assegurada por seus bens (Lc 12,15). Essa advertncia exemplificada na parbola do rico insensato. O rico s se preocupa consigo

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    mesmo: Que hei de fazer? No tenho onde guardar minha colheita; Eis o que farei: demolirei meus celeiros, construir maiores e l recolherei todo o meu trigo e os meus bens. E direi minha alma (Lc 12,17-19). Ele o centro de tudo. Ser que tem sentido uma vida totalmente voltada para si mesmo? A riqueza no garante a vida de ningum, pois a vida um dom de Deus. O rico morreu sem desfrutar de seus bens. No te felicites pelo dia de amanh, pois no sabes o que o hoje gerar (Pr 27,1; cf. Eclo 11,19).

    Em todo o Novo Testamento, a palavra insensato s aparece nesse texto (Lc 12,20). No Antigo Testamento, ela usada para designar aquele que autossuficiente e que se distancia de Deus (cf. Sl 14,1; 49,11; 92,7). Na parbola, o rico leva uma vida sem Deus, fechado em si mesmo. uma histria que faz pensar sobre o sentido da vida e a necessidade de nos abrirmos para as pessoas e, consequentemente, para Deus.

    5. A figueira estril (Lc 13,6-9)

    A parbola da figueira estril comea com o pedido do proprietrio para que ela seja cortada. O vinhateiro intervm: Senhor, deixa-a ainda este ano para que cave ao redor e coloque adubo. Depois, talvez, d frutos Caso contrrio, tu a cortars (Lc 13,8-9). A parbola uma referncia audincia judaica que no acolhe Jesus. A imagem da figueira estril aplicada s pessoas que vivem preocupadas com seu prprio bem-estar, descomprometidas e distantes do projeto de Deus. A pacincia de Deus no tem limites e ele toma a iniciativa, dispensando cuidados amorosos para que os pecadores se convertam. Deus espera sempre! A pessoa crist chamada a enraizar sua vida em Cristo e esse caminho s possvel fazer seguindo seus passos, o que significa muitas vezes ficar na contramo da sociedade.

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    6. Esforai-vos por entrar pela porta estreita (Lc 13,24-30)

    Senhor, pequeno o nmero dos que se salvam. Essa questo era debatida em vrios grupos judaicos. Para alguns, a resposta a totalidade do povo de Israel; para outros, especialmente os grupos