AS MÚLTIPLAS “FACES” DA NEGLIGÊNCIA NAS SITUAÇÕES - Maria Cristina... · deixava muitas vezes…

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MARIA CRISTINA DE OLIVEIRA

AS MLTIPLAS FACES DA NEGLIGNCIA NAS SITUAES DE VIOLNCIA DOMSTICA CONTRA CRIANAS E ADOLESCENTES

Programa de Estudos Ps-Graduados em Servio Social Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo

SO PAULO 2006

2

MARIA CRISTINA DE OLIVEIRA

AS MLTIPLAS FACES DA NEGLIGNCIA NAS SITUAES DE VIOLNCIA DOMSTICA CONTRA

CRIANAS E ADOLESCENTES

Dissertao apresentada Banca Examinadora da Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo, como exigncia parcial para a obteno do ttulo de MESTRE em Servio Social, sob orientao da Profa. Dra. Myrian Veras Baptista.

Programa de Estudos Ps-Graduados em Servio Social

Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo

SO PAULO 2006

3

Banca examinadora:

_______________________________________

_______________________________________

_______________________________________

PUC So Paulo

Ano 2006

4

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5

AGRADECIMENTOS

Iniciar a viagem do conhecimento no mestrado foi um processo muito especial.

Passei por cima de vrios receios e dificuldades que me impediam de ir em

frente, primeiro, pela falta de apoio financeiro, depois, pela depresso, que me

deixava muitas vezes sem vontade de buscar o verdadeiro significado de estar

na academia.

A vontade de aprender e de conhecer foi maior e consegui superar esses

obstculos e finalizar esse processo, que teve incio em 2004.

Em toda essa viagem, encontrei pessoas maravilhosas, dentre elas, ressalto a

Profa. Dra. Myrian Veras Baptista, que me aceitou como sua orientanda e me

mostrou outros caminhos para a compreenso do meu projeto. Esteve sempre

presente com ateno, carinho e muita sabedoria. Muito obrigada!

s Profas. Maria Lcia Silva Barroco e Cristina Brites, coordenadoras do Ncleo

de Estudos sobre tica e Direitos Humanos, que me abriram as portas para

essa incrvel aventura que a busca de um novo saber.

s Profas. Dras. Maria Lcia Martinelli e Eunice Teresinha Fvero, pelas

valiosas contribuies na banca de qualificao.

Aos amigos do Ncleo de Estudos sobre a Criana e o Adolescente e do

Ncleo de Estudos sobre tica e Direitos Humanos, que contriburam de forma

significativa, com carinho, apoio e reflexes.

Ao Centro Regional de Ateno aos Maus-tratos na Infncia e Juventude do

ABCD, atravs da coordenadora tcnica Lgia M. Vezzaro Caravieri, pela

possibilidade de abertura para a realizao da pesquisa que deu base a esta

dissertao.

6

s amigas e profissionais do Crami Diadema, Neide, Christianne, Valria,

Maria, Silvnia, Rosana, Karla, Ana Lcia, Carla, Patrcia, Ana Paula, Cristiane,

que foram parte integrante desta pesquisa e que, ao longo do tempo, estiveram

totalmente abertas a refletir e conhecer o novo.

s profissionais Dilma, Valquria e Eliane, da Prefeitura Municipal de Diadema,

que se mostraram receptivas para o levantamento de informaes sobre a

poltica de atendimento criana e ao adolescente do municpio.

Especialmente, aos amigos que conheci neste processo do mestrado e

passaram a fazer parte de minha vida, que me apoiaram e me deram toda

ateno nos momentos mais difceis, Eliane e Olsio.

s amigas que sempre me incentivaram e me apoiaram em vrios momentos

de minha vida, Lilia, Rosngela, Mnica e Miriam. E s mais recentes

amizades, Leonir, Raquel e todos os colegas da Sehab.

Aos meus sogros, Sra. Jurcelina e Sr. Fernando, que sempre se mostraram

disponveis para cuidar do meu filho, nos momentos em que precisava me

dedicar aos estudos. Muito obrigada!

Ao CNPQ Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico,

pela concesso da bolsa de mestrado.

Aos professores ao longo do mestrado, Jos Paulo Neto, Evaldo Amaro Vieira,

Carmen Junqueira, Maria Carmelita Yasbek, Dilsa Adedata Bonetti e Maria

Amlia F. Vitalle. Participar das aulas com essas feras do saber no tem preo!

secretria do Programa de Servio Social da PUC-SP, Ktia, que est

sempre nos auxiliando com muito carinho e dedicao. Obrigada!

7

RESUMO

Esta dissertao apresenta uma construo crtica sobre a categoria

negligncia, na perspectiva dos profissionais do atendimento do Centro

Regional de Ateno aos Maus-Tratos na Infncia do ABCD Unidade

Diadema. Tem como objetivo contribuir para novos olhares sobre esse tema. O

marco terico que norteou todo o processo de pesquisa foi a teoria social de

Marx, especificamente a categoria totalidade, o que possibilitou uma viso mais

ampla da categoria negligncia. Apropriamo-nos da anlise de contedo para

analisar as discusses desenvolvidas na pesquisa, por meio da tcnica

qualitativa do grupo focal. A tcnica possibilitou abordar o tema envolvendo no

s o cotidiano de trabalho do Crami, mas os sentimentos e a viso que cada

profissional tem sobre esse tema complexo e contraditrio. Esse fato contribuiu

de forma substantiva para a anlise. O estudo sobre a negligncia mostrou que

essa uma categoria que merece uma ateno maior no que se refere s

pesquisas e estudos cientficos. Conclumos neste estudo que, para

compreender a negligncia, devemos ter claro que existem determinantes para

que essa situao se configure como negligente e que necessrio colocarmos

na pauta de discusses, nos espaos de direito da criana e do adolescente,

uma viso ampla do significado dessa categoria.

Palavras-chave:

Criana e adolescente, famlia, negligncia, violncia domstica.

8

ABSTRACT

This text presents a critical construction on the category recklessness, in the

perspective of the professionals of the attendance of the Regional Center of

Attention to maltreatment in the Infancy of the ABCD - Diadema Unit. It has as

objective to contribute for new looks on this subject.

The theoretical landmark that guided the research process all was the social

theory of Marx, specifically, the category totality. What it made possible a ampler

vision of the category recklessness. In we appropriate them of the content

analysis, to analyze the quarrels developed in the research, through the

qualitative technique of the focal group. This technique in made possible them to

not only approach the subject involving the daily one of work of the CRAMI, but,

the feelings and vision that each professional have on this complex and

contradictory subject, this fact contributes of substantive form for the analysis.

The study on the recklessness in it showed them that this is a category that

deserves a bigger attention, in that if relates to the research and scientific

studies. We conclude in this study that stops understanding the recklessness,

we must have clearly that they exist determinative so that this situation if it

configures as negligent and that it is necessary to place in the guideline of

quarrels in the spaces of right of the child and the adolescent an ample vision of

the meaning of this category.

Words - Key:

Child and adolescent, family, recklessness, domestic violence.

9

SUMRIO

LISTA DE SIGLAS 11 INTRODUO .................................................................................................. 13 CAPTULO 1 A POLTICA DE ATENDIMENTO CRIANA E AO ADOLESCENTE NO BRASIL ............................................................................................................. 20 1.1 Um pouco da histria da luta pelos direitos da criana e do adolescente 21 1.2 Um novo olhar sobre a criana e o adolescente ................................... 26 1.3 O ECA orientando a gesto de polticas nacionais, estaduais e municipais de atendimento criana e ao adolescente ................................... 29 1.3.1 Conanda ............................................................................................... 30 1.3.2 Condeca-SP ......................................................................................... 31 1.3.3 CMDCA..................................................................................................33 1.3.4 Conselho Tutelar .................................................................................. 34 1.4 A sociedade civil na defesa dos direitos da criana e dos adolescentes ..... ........................................................................................................................... 36 1.5 A poltica de atendimento criana e ao adolescente na cidade de Diadema ...................................................................................................... 39 1.5.1 Breve histrico sobre a assistncia social voltada a criana e adolescente de Diadema .................................................................................. 42 1.5.2 Rede de Ateno a criana e ao adolescente de Diadema-RECAD .... 45 1.6 Crami-Diadema ........................................................................................ 47 CAPTULO 2 DESVENDANDO OS SIGNIFICADOS DA NEGLIGNCIA ............................. 48 2.1 A busca do processo de construo do conhecimento ........................... 49 2.1.1 Procedimentos metodolgicos .............................................................. 49 2.1.2 O universo e os sujeitos da pesquisa ................................................... 50 2.1.3 A pesquisa ............................................................................................ 52 2.1.4 O Grupo Focal ...................................................................................... 55 2.1.5 Os encontros.......................................................................................... 57

10

CAPTULO 3 AS MLTIPLAS FACES DA NEGLIGNCIA ................................................. 72 3.1 Do abandono ao significado da negligncia ............................................ 73 3.1.1 Abandono: Uma situao em atendimento ........................................... 84 3.2 As mltiplas faces da negligncia .............................................................95 3.2.1Na perspectiva dos profissionais de atendimento nas situaes de violncia domstica contra crianas e adolescentes .........................................95 3.3 Na perspectiva da Sociedade e do Estado ............................................ 101 CONSIDERAES FINAIS: ALGUNS APONTAMENTOS ............................ 110 REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS .............................................................. 113 ANEXOS ......................................................................................................... 124

11

LISTA DE SIGLAS

ACISA Associao Comercial de Santo Andr

ANCED Associao Nacional de Centros de Defesa

ABRINQ Associao Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos

CEDECA Centro de Defesa da Criana e do Adolescente

CLAVES Centro Latino Americano de estudos da Violncia e Sade

CMDCA Conselho Municipal dos Direitos da Criana e do Adolescente

CONANDA Conselho Nacional dos Direitos da Criana e do Adolescente

CONDECA-SP Conselho Estadual dos Direitos da Criana e do Adolescente

do Estado de So Paulo

CRAMI Centro Regional de Ateno aos maus-tratos na infncia do

ABCD

DASC Departamento de Ao Social e Cidadania

ECA Estatuto da Criana e do Adolescente

FAISA Fundao de Assistncia Infncia de Santo Andr

FUMCAD Fundo Municipal da Criana e do Adolescente

FUNABEM Fundao Nacional do Bem Estar do Menor

IPEA Instituto de Pesquisas Econmicas Aplicadas

LACRI Laboratrio da Criana

NCA Ncleo de estudos e Pesquisas da Criana e do Adolescente

PUC/SP Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo

PETI Programa de Erradicao do Trabalho infantil

PSC Prestao de Servio Comunidade

PT Partido dos Trabalhadores

RECAD Rede de Ateno a Criana e ao Adolescente de Diadema

SAM Servio de Amparo maternidade e a infncia

SASC Secretaria de Assistncia Social e Cidadania

SEADS Secretaria Estadual da Assistncia e Desenvolvimento Social

SIPIA Sistema de Informao para a Infncia e Adolescncia

12

SUAS Sistema nico de Assistncia Social

UFPR Universidade Federal do Paran

13

INTRODUO

A pesquisa que originou esta dissertao tem como objetivo principal

contribuir para uma reflexo crtica acerca da categoria negligncia1.

Pretendemos aprofundar a discusso sobre um dos temas mais complexos

na rea da criana e do adolescente.

O interesse em desenvolver esta pesquisa est relacionado ao trabalho por

mim desenvolvido com enfoque na questo da violncia domstica contra

crianas e adolescentes, tendo a negligncia aparecido como um dos tipos

de violncia mais freqente nos atendimentos. Nas intervenes,

sentamos enorme impotncia, pois, nesse momento, encontrvamos vrias

dificuldades para efetuar os devidos encaminhamentos, uma vez que a

conceituao que utilizvamos estava muito alm da nossa realidade.

Esse universo causava-me incmodo, assim como aos outros profissionais

do atendimento direto. Como foi expresso por Carvalho e Ziliotto, do

Instituto de Estudos Especiais da PUC/SP, no caderno Trabalhando com

famlias: Por trs de crianas abandonadas crianas de rua e na rua,

crianas agressoras e vtimas de agresso, estupro, trabalho precoce,

prostituio... - tambm se encontram famlias abandonadas. Famlias

abandonadas pela pobreza, excluso ao acesso a bens e servios e

riqueza. Famlias abandonadas pela desinformao, alienao, isolamento,

caractersticas das sociedades mega-urbanas em que vivemos (in

Symanski, 1992: 1-2).

1 Segundo Azevedo & Guerra (1989) compreende-se, por negligncia o fato de a famlia se omitir em prover as necessidades fsicas e emocionais de uma criana ou adolescente. Configura-se no comportamento dos pais ou responsveis quando falham em alimentar, vestir adequadamente seus filhos, medicar, educar e evitar acidentes. Tais falhas s podem ser consideradas abusivas quando no so devidas carncia de recursos socioeconmicos. No Dicionrio Escolar de Lngua Portuguesa, negligncia significa preguia, descuido, desleixo, incria, desidiar; negligenciar: tratar com negligncia; desatender; descurar; descuidar; desleixa; desidiar.

14

Nas discusses do Ncleo de Estudos e Pesquisa sobre a criana e o

adolescente - NCA da PUC/SP, do qual participava, ficou evidente a

preocupao com esse tema. Alguns membros participantes do ncleo, j

haviam manifestado interesse nessa categoria. Entre outros, podemos citar:

Fvero (2000: 44-5), que evidenciou, em pesquisa realizada com um grupo

de assistentes sociais da rea da Justia da Infncia e Juventude, que a

maioria dos casos de destituio do poder familiar2 deu-se em virtude da

negligncia, ou seja, 9,5% das situaes pesquisadas. A autora enfatiza que

as situaes tidas de negligncia no se relacionavam, necessariamente,

carncia socioeconmica, mas, sim as violaes dos direitos mais

elementares, nos quais se incluem os cuidados bsicos indispensveis a um

ser humano em desenvolvimento (alimentao, sade, segurana etc.)(op.

cit.: 45). Em outra pesquisa, realizada em 2004 por Rita de Cssia Silva

Oliveira em parceria com Associao dos Assistentes Sociais e Psiclogos

do Tribunal de Justia da Comarca de So Paulo, Ncleo de Estudos e

Pesquisa sobre a Criana e o Adolescente, Fundao Orsa e Secretaria de

Assistncia Social de So Paulo, com o tema: O abrigo na cidade de So

Paulo: conhecendo a realidade dos abrigos e dos abrigados, ficou

explicitado que 22,3% dos motivos para o abrigamento de crianas e/ou

adolescentes era o abandono e/ou a negligncia.

Nesse contexto complexo e contraditrio, surgiu a preocupao com o

aprofundamento da discusso sobre as mltiplas faces da negligncia, a fim

de possibilitar uma construo coletiva dos vrios significados dessa

categoria, na perspectiva dos profissionais que lidam diretamente com

crianas e adolescentes em situao de vulnerabilidade social3. Essa

2 Com o novo Cdigo Civil, entende-se por ptrio poder, o poder familiar, poderes e deveres dos pais e mes sobre os filhos. 3Para compreender o significado do conceito de vulnerabilidade social, recomendo o artigo Transferncia de

renda e questo social, de Amlia Cohn, que explica que esse conceito est intimamente associado ao de excluso social, ou seja, de uma nova excluso social. Ela ressalta o significado de excluso social, que seria entendida como um fenmeno de marginalizao de determinados segmentos sociais do processo de crescimento econmico, no geral pobres com baixa escolaridade, negros e mulheres; incluo aqui tambm crianas e adolescentes. O conceito de nova excluso social seria entendido como o processo de marginalizao social que vem atingindo os segmentos sociais at ento includos socialmente e relativamente

15

discusso ser feita, neste trabalho, tendo como apoio a legislao vigente

que trata da proteo integral infncia e juventude: a Constituio Federal

e o Estatuto da Criana e do Adolescente.

No art. 227 da Constituio Federal est expresso: dever da famlia, da

sociedade e do Estado assegurar criana e ao adolescente, com absoluta

prioridade, o direito vida, sade, alimentao, educao, ao lazer,

profissionalizao, cultura, dignidade, ao respeito, liberdade e

convivncia familiar e comunitria, alm de coloc-los a salvo de toda forma

de negligncia, discriminao, explorao, violncia, crueldade e opresso.

Em seu art. 4, o E. C. A, reafirma que: dever da famlia, da comunidade,

da sociedade em geral e do Poder Pblico assegurar, com absoluta

prioridade, a efetivao dos direitos referentes vida, sade,

alimentao, educao, ao esporte, ao lazer, profissionalizao,

cultura, dignidade, ao respeito, liberdade e convivncia familiar e

comunitria.

Pargrafo nico A garantia de prioridade compreende:

primazia de receber proteo e socorro em quaisquer circunstncias;

precedncia do atendimento nos servios pblicos ou de relevncia

pblica;

preferncia na formulao e na execuo das polticas sociais

pblicas;

destinao privilegiada de recursos pblicos nas reas relacionadas

com a proteo infncia e juventude.

protegidos de cair na situao de pobreza. A excluso social passa ento a ser entendida como um fenmeno mais abrangente, envolvendo as esferas econmica, poltica, cultural e social da rede de sociabilidade dos indivduos, e com essa ampliao remete ao conceito de vulnerabilidade social, ou de grupos socialmente vulnerveis, ou, ainda, de grupo em situao de risco.(Cohen, 2005 :228-9)

16

Fica estabelecido, nesses artigos, o compartilhamento da proteo

criana e ao adolescente, mas importante observar que os graus de

responsabilidade dos parceiros so diferentes. Quando se trata da criana e

do adolescente na singularidade4 de sua ateno, ou seja, no espao

familiar, a preocupao maior com o seu atendimento dos familiares, mas,

quando se trata da criana e do adolescente como sujeitos sociais, a

questo da responsabilidade maior nos cuidados se situa na infra-estrutura

de servios, na comunidade, na sociedade e na poltica do Estado.

A responsabilidade, na singularidade da criana e do adolescente, se

concretiza na famlia, que a instncia mais prxima, mas, para que ela

cumpra essa responsabilidade, preciso que possua condies para tanto,

e no contexto da sociedade, da comunidade e do Estado que isso

acontece.

Na prtica cotidiana, observamos que esse compartilhamento no est

ocorrendo de fato. O que se v, na maioria das vezes, so famlias

culpabilizadas pela condio em que vivem e levam seus membros a

viverem. E as responsabilidades do Estado, da comunidade, da sociedade,

onde ficam nessas situaes?

O conceito de negligncia se refere ausncia de cuidados bsicos

(alimentao, sade, moradia, educao, segurana, profissionalizao,

cultura e lazer) e de cuidados psicolgicos e sociais, que so fundamentais

para o desenvolvimento da pessoa. Na ausncia desses cuidados,

caracteriza-se uma situao de negligncia. Ser que as outras instncias

(sociedade/ instituies/comunidade/Estado) no esto negligenciando

crianas e adolescente e individualizando a situao, sempre

responsabilizando a famlia?

4 A criana e o adolescente so vistos aqui na sua individualidade.

17

As situaes que chegavam ao Centro Regional de Ateno aos Maus-tratos

Infncia do ABCD Crami eram vrias, mas a negligncia sempre aparecia

como o segundo principal motivo de violncia cometido por familiares, como

demonstrou a pesquisa, realizada pela instituio no perodo entre 1992 e

2001, na qual, de um total de 4.079 notificaes recebidas, 810 foram de

negligncia/abandono.

Os motivos eram variados, indo desde a falta de cuidados por

desconhecimento e informaes at a situao scioeconmica da famlia.

Eram poucos os casos em que observvamos a existncia de uma

intencionalidade negligente. Muitas vezes, em algumas discusses de

grupo, verificvamos que, na verdade, havia uma grande ausncia de

polticas pblicas no atendimento s famlias que negligenciavam seus

filhos por falta de condies para administrar-lhes os cuidados a que tinham

direito.

Observvamos que os responsveis, considerados negligentes, estavam

nessa condio em decorrncia de sua situao de subalternidade5. Aqueles

que atendamos, freqentemente estavam submetidos a uma situao de

subalternidade, a qual, em muitos casos, tinha como principais razes o

desemprego, a falta de condies concretas para oferecer o mnimo aos

filhos: a falta de habitao adequada, de acesso educao, alimentao.

Esses eram fatores que freqentemente apareciam como aqueles que

desencadeavam situaes tidas como de negligncia.

Diante desses questionamentos e dessas reflexes, escolhemos desenvolver

esta pesquisa junto aos profissionais de atendimento violncia domstica

contra crianas e adolescentes do Centro Regional de Maus-tratos na

5 Segundo Yasbek (1993: 18): A subalternidade faz parte do mundo dos dominados, dos submetidos explorao e excluso social, econmica e poltica. Supe, como complementar, o exerccio do domnio ou da direo atravs de relaes poltico-sociais em que predominam os interesses dos que detm o poder econmico e de deciso poltica.

18

infncia do ABCD Crami, especificamente da Unidade de Diadema.

sentamos a necessidade de um aprofundamento terico e crtico sobre a

questo, com o intuito de desenvolver uma interveno mais qualificada e

tambm ampliar o conhecimento sobre as determinaes que incidem

diretamente nas situaes de negligncia.

Para a realizao da pesquisa, optamos por utilizar a tcnica metodolgica

do grupo focal6. Os sujeitos da pesquisa foram os profissionais que atendem

diretamente as situaes de violncia domstica na entidade, ou seja,

assistentes sociais, psiclogos e estagirios, e tambm a prpria

pesquisadora e autora deste trabalho, que foi integrou a equipe no perodo

entre 1998 e 2001.

As discusses foram realizadas entre novembro de 2004 e dezembro de

2005, perfazendo um total de 10 (dez) encontros, que eram realizados s

sextas-feiras, de acordo com a disponibilidade da entidade.

Executada a pesquisa, o passo seguinte foi a produo desta dissertao,

com a conscincia de que foram realizadas algumas aproximaes sobre o

tema. Acreditamos que essa categoria merece um aprofundamento maior,

considerando que se trata de questo que preocupa cotidianamente os

profissionais que trabalham com as seqelas da violncia.

No Captulo 1, apresentamos um breve histrico sobre a construo da

poltica de atendimento criana e ao adolescente no Brasil. Como

embasamento terico, buscamos autores que retratam a histria da criana

6 Conforme ressalta Minayo: A discusso de grupo (grupos focais) uma abordagem qualitativa e tambm uma estratgia de coleta de dados. Nessa tcnica, lembra, o especfico so as opinies, relevncias e valores dos entrevistados. Difere da observao, que focaliza mais o comportamento e as relaes. Tem uma funo complementar observao participante e s entrevistas individuais (1999: 129).

19

e do adolescente: Mary Del Priore, Edson Passetti, Vicente de Paula

Faleiros, Maria Amlia de Azevedo e Viviane Guerra, alm de fazer menes

s legislaes que tratam da criana e do adolescente: o antigo Cdigo de

Menores, a Constituio Federal do Brasil e o Estatuto da Criana e do

Adolescente.

Ainda nesse captulo apresentamos um novo olhar sobre a criana e o

adolescente, por meio da mobilizao da sociedade civil e do enfoque nos

Conselhos de Direitos, no Conselho Tutelar, alm de ressaltar a formao

dos Cramis enquanto entidades de atendimento criana e ao adolescente

em situao de violncia domstica.

No Captulo 2, estaremos apresentando todo o processo de construo do co

nhecimento, a trajetria deste estudo, a teoria com a qual nos baseamos e os

procedimentos metodolgicos necessrios para o desvelamento deste

trabalho.

Ser apresentada a pesquisa realizada junto equipe de trabalho do Centro

Regional de Ateno aos Maus-tratos na Infncia do ABCD Ncleo

Diadema, enfocando o universo da pesquisa, os sujeitos entre os quais me

incluo. Os encontros e alguns relatos desses encontros.

Por fim, no Captulo 3 ser feita uma anlise do material coletado atravs das

discusses realizadas nos encontros. Nesse momento, apresentaremos os

Mltiplos olhares sobre a negligncia, com enfoque na questo da famlia, da

comunidade, da sociedade e do Estado.

20

CAPTULO 1

A POLTICA DE ATENDIMENTO CRIANA E AO ADOLESCENTE NO

BRASIL

21

1.1. Um pouco da histria da luta pelos direitos da criana e do

adolescente

Quando os indivduos sociais organizados coletivamente conseguem superar os entraves autonomia, deciso respeito das normas, s escolhas, estamos diante de situaes histricas nas quais a liberdade deixa de ser um valor e uma possibilidade para se transformar em realidade concreta. Isso ocorre somente em momentos revolucionrios; trata-se de conquistas relativas a cada momento histrico que vo dando consistncia a transformaes sociais de medidas diversas. (Barroco, 2000: 60)

A poltica de atendimento criana e ao adolescente, em nvel nacional, tem

em sua histria alguns marcos importantes, que devem ser ressaltados.

Alm desses marcos, h de se destacar os paradigmas que nortearam sua

realizao nas diferentes conjunturas.

No perodo da emergncia dessas polticas, existia uma forte determinao

de controle social e higienizao, principalmente no atendimento s

camadas mais pobres da populao.

No final do sculo XIX e incio do sculo XX, com a proclamao da

Repblica, seguiu-se um perodo de muitas mudanas na economia, na

poltica e na sociedade. Nas grandes cidades, com a abolio da

escravatura e com o ingresso de imigrantes no pas, em boa parte

constituindo mo-de-obra com vistas atender ao processo de

industrializao que se iniciava, ampliou-se o nmero de pessoas em

situao de pobreza, de crianas abandonadas pelas famlias, de

adolescentes que se tornavam delinqentes diante da falta de

oportunidades.

22

Azevedo e Guerra, ressaltam que a categoria infncia pobre a mais ampla

de todas que compem a infncia em dificuldade, foi descoberta como

problema social desde os fins do sculo XIX e incio do sculo XX, com a

abolio, proclamao da repblica e crescimento acelerado de duas

grandes cidades: Rio de Janeiro e So Paulo. (1993: 234).

A cidade de So Paulo, especificamente, experimentou um enorme salto no

seu crescimento demogrfico: de um total de 30 mil habitantes, em 1870, a

populao passou para 286 mil no ano de 1907(cf.Santos, in Del Priore,

2006: 212 ).

O processo de industrializao intensificava-se. Aumentava o nmero de

estabelecimentos fabris, em sua maioria dos setores txtil e alimentcio de

serrarias e de cermicas. As famlias que trabalhavam nesses

estabelecimentos moravam na sua grande maioria em cortios, sem

nenhum tipo de saneamento bsico ou de condies adequadas para sua

sobrevivncia. Essas famlias padeciam de todo tipo de carncia: cultural,

psquica, social, econmica.

importante ressaltar, que o progresso alcanava a rea social e

habitacional, provocando o surgimento de enorme contingente de pessoas

em situao de misria.

Dentro deste contexto de miserabilidade, famlias com grande dificuldade

financeira para cuidar dos filhos, os abandonava em instituies de

caridade, muitas delas ligadas a igreja para garantir a sua sobrevivncia:

Ainda no sculo XIX, o abandono das crianas nas rodas dos

expostos7 ou o recolhimento em instituies para meninas pobres eram 7Era um mecanismo giratrio, utilizado em pases europeus, Estados Unidos e no Brasil, para onde foi trazido pelos

portugueses. Era utilizado por famlias pobres que abandonavam seus filhos, devido sua situao de misria, mas h notcias de que era utilizado tambm por pessoas de maior poder aquisitivo

23

fatos que revelavam as dificuldades de muitas famlias para garantir a sobrevivncia de seus filhos. Viam na misericrdia crist, materializada nas santas casas, uma possibilidade de sobrevivncia e esperavam que a sorte trouxesse um futuro menos desesperador. Acreditavam nas ordens religiosas ou nas iniciativas filantrpicas de particulares como uma maneira de obter meios para contornar a situao de pobreza que intensificava-se. (Passetti, 2006: 350).

Esse contexto a um s tempo social econmico, poltico e cultural passou a

exigir um redimensionamento por parte do Estado para atender demanda.

A situao comeou a ser considerada um problema social.

J no sculo XX, a sociedade e o Estado estavam preocupados com a

ordem e o progresso do pas, o que levou governantes a desenvolver aes

para assumir suas responsabilidades com os pobres.

Diante da crueldade com que eram tratados os miserveis, ocorreram vrias

manifestaes, por conta da politizao dos trabalhadores urbanos,

incentivados pelos anarquistas. Num pas de tradio escravocrata, as

crticas situao de vida das crianas (sem escola, com trabalho no

regulamentado e regulamentos desrespeitados, habitando em condies

desumanas) abriram frentes para reivindicaes polticas de direitos e

contestaes desigualdade (Passetti, 2006: 354).

Para atender a essa demanda, foram criados, ao longo do tempo, alguns

rgos que passaram a se responsabilizar pela ordem social vigente. Tais

instituies, buscando excluir meninos e meninas da convivncia em

sociedade, colocando-os em internatos. Eram rgos que mantinham

finalidades higienistas e assistenciais.

24

Podemos destacar, entre esses rgos, os que aparecem no quadro.

rgos assistenciais

e/ou de sade)

Lei e/ou ano de criao

Inspetoria de Higiene

Infantil

(transformada em seguida

em Direito de Proteo

Maternidade e Infncia)

Lei n. 16.300, de 1923

Decreto n. 24.278, de 1934

Diviso de Amparo

Maternidade e Infncia

1937

Departamento de Amparo

Maternidade e Infncia

1940

SAM (Servio de

Assistncia aos Menores)

1941

Legio Brasileira da

Assistncia

1946

Funabem (Fundao

Nacional do Bem estar do

Menor)

1964

Fonte: Orlandi, 1995 in Faleiros, 2005: 172.

A legislao que norteava a ao desses rgos e da Poltica Nacional do

Bem-estar do Menor era o Cdigo de Menores (Decreto n. 17.343/A, de 12

de outubro de 1927), que consolidou as Leis de Assistncia e Proteo aos

Menores, ficando estabelecido o incio do domnio da ao jurdica sobre a

infncia. Esse fato contribuiu para a emergncia de uma ao jurdico-

assistencial, que buscava um controle maior sobre a infncia e a juventude.

O Cdigo de Menores foi atualizado em 1979, durante o governo militar.

Nessa nova configurao, no aconteceram muitas mudanas: a assistncia

continuou destinada aos menores pobres, com idade entre zero e 18 anos,

25

que a partir daquele momento, passaram a ser considerados em situao

irregular 8 quando houvesse a omisso da famlia, da sociedade e do Estado

na garantia de seus direitos bsicos.

Essa situao imposta s crianas e aos adolescentes, vistos sempre como

menores em situao irregular, era tida como um sistema de garantia de

segurana nacional, uma vez que prevenia o aparecimento de revoltados

contra o estado e a sociedade.

A criana e o adolescente no eram vistos como cidados, como pessoas

com direitos e acesso a servios e bens comuns, mas sim como tutelados

do Estado.

O ano de 1979, conforme deciso da Assemblia das Naes Unidas, foi

declarado o Ano Internacional da Criana. Tal fato marcou a busca por um

novo olhar sobre a criana e o adolescente, mobilizando a sociedade para

aes que exigiam a mudana do Cdigo de Menores.

8 A privao das condies de subsistncia, de sade e de instruo, por omisso dos pais ou responsveis, alm de situao de maus-tratos e castigos, de perigo moral, de falta de assistncia legal, de desvio de conduta por desadaptao familiar ou comunitria e de autoria.(Faleiros, 2005: 172).

26

1.2. Um novo olhar sobre a criana e o adolescente

No final da dcada de 70 e no decorrer dos anos 80, iniciou-se um perodo com

ares democrticos, em que eram permitidas manifestaes por parte de

movimentos em defesa dos direitos da criana e do adolescente, no sentido de

produzir mudanas no Cdigo de Menores. Dentre eles, podemos citar o

Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua9, a Pastoral do Menor, a

Comisso Nacional da Criana, que contriburam de forma significativa para o

fortalecimento de leis que protegessem a criana e o adolescente, garantindo-

lhes proteo integral.

A partir do encontro de vrios segmentos organizados para a defesa dos

direitos da criana e do adolescente, surgiu o Frum Nacional Permanente de

Entidades No-governamentais de Defesa dos Direitos da Criana e do

Adolescente (Frum DCA)10, o que possibilitou uma articulao maior entre

sociedade civil e poder pblico. Algumas campanhas de sensibilizao foram

iniciadas em nvel nacional, como Criana Constituinte, Criana-Prioridade

Nacional. Essas campanhas tinham como objetivo principal o estabelecimento

das mudanas necessrias na legislao e na sociedade como um todo no que

se refere questo da criana e do adolescente.

As discusses sobre as mudanas no Cdigo foram contempladas na Carta

Constitucional de 1988 (art. 227) que culminou na elaborao do Projeto do

Estatuto da Criana e do Adolescente.

9 importante ressaltar, nesse perodo, que os educadores que trabalhavam com meninos e meninas de rua

passaram a utilizar princpios da educao popular do educador Paulo Freire estabelecendo um novo relacionamento com as crianas e os adolescentes. O MNMMR nasce em 1985, e em 1986 realiza o I Encontro Nacional dos Meninos e Meninas de Rua, com a participao de 500 crianas e adolescentes de todo o Brasil, fato indito no mundo. Fonte: http;//www.forumdca.org.br/?q=historico 10 Fonte: www.forumdca.org.br.

27

O ECA produto de vrias manifestaes, marcadas tambm pelas mudanas

scioeconmico-culturais do pas aps a passagem de um governo ditatorial

para outro mais democrtico, com a abertura poltica.

Somente no dia 13 de julho de 1990 foi consolidada a promulgao do Estatuto,

o que veio transformar as diretrizes para o tratamento destinado s crianas e

aos adolescentes, redimensionando as possibilidades de diferenciao do

atendimento e priorizando a proteo integral.

A criana e o adolescente passaram a ser considerados sujeitos de direitos em

fase peculiar de desenvolvimento. Ficou definido pelo Estatuto que seriam

consideradas crianas as pessoas de 0 a 12 anos incompletos, e adolescentes,

aqueles com 12 anos a 18 anos. Nos casos expressos em lei,

excepcionalmente seriam considerados adolescentes pessoas com idade entre

18 e 21 anos de idade. A criana e o adolescente deixaram, portanto, de ser

considerados menores ou em situao irregular.

No art. 4. do Estatuto da Criana e do Adolescente (transcrito a seguir), ficou

estabelecido o compartilhamento das responsabilidades, o que o diferenciava

do antigo Cdigo de Menores, que enfatizava apenas a responsabilidade do

Estado, enquanto tutor legal das crianas.

dever da famlia, da comunidade, da sociedade em geral e do Poder Pblico assegurar, com absoluta prioridade, a efetivao dos direitos referentes vida, sade, alimentao, educao, ao esporte, ao lazer, profissionalizao, cultura, dignidade, ao respeito, liberdade e convivncia familiar e comunitria. (Lei 8.069 de 13 de julho de 1990)

As mudanas foram significativas. A nova lei props novos paradigmas de

ateno infncia, tendo como base preceitos da Conveno Internacional dos

Direitos da Criana, acordo negociado pelas Naes Unidas e financiado pelos

pases parceiros.

28

Diferentemente do Cdigo de Menores, que direcionava suas aes apenas

para o segmento dos abandonados (pobres) e dos infratores (delinqentes), o

ECA assumiu a defesa integral de todas as crianas e adolescentes,

independente da sua situao social, raa ou cor.

As aes assistencialistas, estigmatizadoras, preconceituosas so repudiadas

por esse estatuto, que defende a causa da criana e do adolescente.

O E.C.A. garante direitos sociais e pessoais infncia e juventude, atravs da

implementao de polticas pblicas especialmente dirigidas a estes

segmentos.

Podemos apontar como alguns dos avanos do ECA com relao ao Cdigo de

Menores:

Diferenciao no atendimento destinado a crianas e adolescentes, colocando-

os como prioridade nmero um nas aes das polticas pblicas:

Priorizao do convvio familiar.

Carter educativo.

Determinao de que as aes no devem se pautar em questes

econmicas, mas priorizar o empobrecimento como causa geral

(estrutural) e o atendimento particular, de acordo com a necessidade

de cada um.

Prev medidas scio-educativas.

D direito ampla defesa, instaurando a figura do defensor pblico

para a criana e o adolescente.

Entende que as crianas e os adolescentes so sujeitos de direitos.

29

1.3. O ECA orientando a gesto de polticas nacionais, estaduais e

municipais de atendimento criana e ao adolescente

Com a Constituio Federal e o Estatuto da Criana e do Adolescente, inicia-se

um processo de mudanas. Surgem novas perspectivas na busca da

universalizao dos direitos sociais, na ampliao do conceito de cidadania e

na participao popular nas decises das polticas sociais.

Conforme observa Souza: A participao popular que envolve a dcada de 70

significa a reao da populao aos regimes ditatoriais existentes nesse

perodo. O controle social passa a ser entendido como o combate ao Estado

feito pela sociedade. Isso percebido pela atuao dos novos movimentos

sociais, de carter estritamente poltico, que mantero vnculos tericos e

prticos com as experincias sociais no campo da participao social. (...)

Contudo, no final da dcada de 1970 e incio da dcada de1980 que essa

participao comea a ser entendida como participao nas decises e no na

execuo das aes, como fora anteriormente (2004: 175).

Para regulamentar a Constituio Federal surgiram leis orgnicas que

instituram os Conselhos de Direitos. Esses espaos garantiram outras formas

de discusso e deliberao das polticas sociais, atravs do seu carter

democrtico e participativo, entre sociedade civil e o Estado no que diz respeito

poltica social.

Conforme Martins (2004:199):Nesse processo de construo de um novo

paradigma para a rea, os conselhos constituem espaos necessrios para o

estabelecimento de novos mecanismos de ao poltica que se proponham a

assegurar os direitos fundamentais previstos no Estatuto. Tm como objetivo

implementar a poltica de ateno criana enquanto ao integrada, uma vez

que as polticas sociais destinadas a crianas e adolescentes tm a

necessidade de se articular s polticas das mais diversas reas, como sade,

30

educao, assistncia social, trabalho e garantia de direitos, para haver um

atendimento realmente efetivo para essa populao.

1.3.1. Conanda 11

O Congresso Nacional, atravs da Lei n. 8.242, de 12 de outubro de 1991, cria

o Conselho Nacional dos Direitos da Criana e do Adolescente Conanda.

Dentre outras competncias, o Conanda ficou responsvel por:

Elaborar as normas gerais da poltica nacional de atendimento dos

direitos da criana e do adolescente, fiscalizando as aes de

execuo, observadas as linhas de ao e as diretrizes estabelecidas

nos arts. 8712 e 8813 de Lei n. 8069, de 13 de julho de 1990 Estatuto

da Criana e do Adolescente.

Zelar pela aplicao da poltica nacional de atendimento dos direitos

da criana e do adolescente.

Dar apoio aos conselhos estaduais e municipais dos direitos da

criana e do adolescente, aos rgos estaduais, municipais e

entidades no-governamentais para tornar efetivos os princpios, as

diretrizes e os direitos estabelecidos na Lei n. 8069, de 13 de julho de

1990.

11 Fonte:http/www.mj.gov.br/sedh/ct/conanda_arquivos\lei8242. 12 Art. 87 do ECA So linhas de ao poltica de atendimento: I - polticas sociais bsicas; II polticas e programas de assistncia social, em carter supletivo, para aqueles que deles necessitem, III servios especiais de preveno e atendimento mdico e psicossocial s vtimas de negligncia, maus-tratos, explorao, abuso, crueldade e opresso; IV servio de identificao e localizao de pais, responsvel,crianas e adolescentes desaparecidos; V proteo jurdico-social por entidades de defesa dos direitos da criana e do adolescente. 13 Art. 88 do ECA So diretrizes da poltica de atendimento: I - municipalizao do atendimento; II - criao de conselhos municipais, estaduais e nacional dos direitos da criana e do adolescente, rgo deliberativos e controladores das aes em todos os nveis, assegurada a participao popular paritria por meio de organizaes representativas, segundo leis federal, estaduais e municipais; III - criao e manuteno de programas especficos, observada a descentralizao poltico-administrativa; IV manuteno de fundos nacional, estaduais e municipais vinculados aos respectivos conselhos de direitos da criana e do adolescente; V integrao operacional de rgos do Judicirio, Ministrio Pblico, Defensoria, Segurana Pblica e Assistncia Social, preferencialmente em um mesmo local, para efeito de agilizao do atendimento inicial a adolescente a quem se atribua autoria de ato infracional; VI - mobilizao da opinio pblica no sentido da indispensvel participao dos diversos segmentos da sociedade.

31

O Conanda integrado por representantes do Poder Executivo, assegurada a

participao dos rgos executores das polticas sociais bsicas na rea de

ao social, justia, educao, sade, economia, trabalho e previdncia social

e, em igual nmero, por representantes de entidades no-governamentais de

mbito nacional de atendimento dos direitos da criana e do adolescente,

dentre elas: Pastoral do Menor, Ordem dos Advogados do Brasil, Conselho

Federal de Servio Social, Associao Nacional dos Centros de Defesa.

Foi institudo o Fundo Nacional para a Criana e para o Adolescente, gerido

pelo Conselho, que tem a prerrogativa de definir critrios e aes prioritrias

para sua aplicao.

1.3.2. Condeca-SP 14

O Conselho Estadual dos Direitos da Criana e do Adolescente foi criado pela

Lei n. 8.074, de 21 de outubro 1992, no Estado de So Paulo, e tambm foi

criado o Fundo Estadual dos Direitos da Criana e do Adolescente que controla

as verbas oramentrias da poltica de atendimento a criana e ao adolescente.

O Condeca um rgo deliberativo e controlador das aes da poltica de

atendimento dos direitos da criana e do adolescente, composto por 20

membros, sendo 10 representantes do poder pblico e 10 representantes da

sociedade civil, e seus respectivos suplentes.

Os representantes do poder pblico so escolhidos pelo governador do Estado,

dos seguintes rgos: Secretaria da Justia e da Defesa da Cidadania,

Secretaria do Menor, Secretaria da Segurana Pblica, Secretaria da

Educao, Secretaria da Sade, Secretaria da Cultura, Secretaria da Promoo

Social, Secretaria de Esportes e Turismo, Procuradoria-Geral do Estado e

Assemblia Legislativa.

14 Fonte: www.condeca-sp.org.br

32

A misso do Condeca-SP incentivar, deliberar e controlar as aes da Poltica

de Atendimento dos Direitos da Criana e do adolescente no Estado de So

Paulo.

Controla 640 Conselhos Municipais dos Direitos da Criana e do Adolescente e

das milhares de organizaes de atendimento existentes no Estado de So

Paulo.

Algumas parcerias foram estabelecidas entre o Condeca-SP e a sociedade civil

no que se refere questo da violncia:

O Pacto So Paulo contra a Violncia, Abuso e Explorao Sexual de

Crianas e Adolescentes.

A cooperao tcnica firmada com o Centro Regional de Ateno aos

Maus-tratos da Infncia do ABCD Crami, a Viso Mundial/World

Vision para a construo de uma rede de proteo criana e ao

adolescente em todo o Estado e a capacitao dos agentes

fundamentais (mdicos, policiais, educadores, professores, etc.) para

melhor identificao e encaminhamento dos casos de maus tratos.

O Sistema de Informao para a Infncia e a Adolescncia Sipia.

A cooperao tcnica existente at 2002 para auxlio ao Ministrio da

Justia e Secretaria Estadual da Assistncia e Desenvolvimento

Social Seads na implementao do sistema informatizado de dados

sobre a infncia e a adolescncia no Estado de So Paulo junto aos

conselhos tutelares.

A Central de Informaes dos Direitos da Criana e do Adolescente.

O Apoio Associao Comunidade de Mos Dadas na manuteno e

expanso do sistema de auxlio virtual sobre questes relacionadas

aos direitos da criana e do adolescente. Esse trabalho hoje rene

33

magistrados e promotores filiados Associao Brasileira de

Magistrados e Promotores da Infncia e da Juventude em uma rede

de consultoria voluntria voltada soluo de dvidas via Internet .

1.3.3 . CMDCA

Os Conselhos de Direitos so rgos responsveis pelas polticas pblicas de

defesa de direitos e promoo do bem-estar social da criana e do adolescente,

em nvel municipal.

O artigo 88 do Estatuto da Criana e do Adolescente determina que cada

municpio crie o seu conselho, atravs de lei federal, estadual ou municipal.

O CMDCA um rgo permanente, deliberativo, controlador e paritrio. Deve

ser constitudo com a participao do poder pblico e sociedade civil

(entidades, trabalhadores e usurios), garantindo a participao popular nas

decises sobre a poltica voltada criana e ao adolescente.

De acordo com Martins (2004: 200): Como se trata de um espao criado para a

participao popular, todos os interessados devem poder expressar seu ponto

de vista em relao ao tema discutido. Essas contribuies serviro, inclusive,

para que os conselheiros possam fundamentar sua posio para o voto,

levando em considerao todos os argumentos ali apresentados.

Os Conselhos de Direitos so responsveis pela definio de atendimento dos

direitos da criana e do adolescente do municpio, pelo registro e fiscalizao

das entidades assistenciais ou organizaes no-governamentais, que lidam

diretamente com questes voltadas criana e ao adolescente, pelo processo

de escolha dos membros do Conselho Tutelar e controle do Fundo Municipal de

Defesa da Criana e do Adolescente.

34

Esses espaos contribuem de forma significativa para que as polticas pblicas

voltadas s crianas e aos adolescentes sejam garantidas e efetivadas.

1.3.4. Conselho Tutelar

Os Conselhos Tutelares so rgos institudos pelo Estatuto da Criana e do

Adolescente que garantem a participao popular.

Ele o espao legtimo da comunidade: ela prpria, atravs de seus representantes, vai atender a suas crianas, adolescentes e famlias, na defesa, orientao, encaminhamento das necessidades e demandas que apresentam. Tem funes advocatcias de defesa e garantia da ateno, de representao e encaminhamentos, junto a rede de servios sociais pblicos e privados, quando estes no cumprem o dever de desenvolvimento biopsicossocial das crianas,adolescentes e suas famlias;de escuta das necessidades e demandas da comunidade e de orientao educativa. (Ziliotto e Carvalho, 1992: V).

Os conselheiros tutelares so eleitos pela populao. Trata-se de cargos de

defesa dos direitos da criana e do adolescente. Portanto, para ser um

conselheiro ser necessrio o envolvimento e o comprometimento com a causa.

Conforme o art. 136 do ECA, so atribuies dos Conselhos Tutelares:

I atender as crianas e adolescentes nas hipteses previstas nos arts.

98 e 105, aplicando as medidas previstas no art. 101, I a VII;

II atender e aconselhar os pais ou responsvel, aplicando as medidas

previstas no art. 129, I a VII;

III promover a execuo de suas decises, podendo para tanto:

A. requisitar servios pblicos nas reas de sade, educao, servio

social, previdncia, trabalho e segurana;

B. representar perante a autoridade judiciria nos casos de

descumprimento injustificado de suas deliberaes;

35

IV encaminhar ao Ministrio Pblico notcia de fato que constitua

infrao administrativa ou penal contra os direitos das crianas e dos

adolescentes;

V encaminhar autoridade judiciria os casos de sua competncia;

VI providenciar a medida estabelecida pela autoridade judiciria, entre

as previstas no art. 101, I a VI, para o adolescente autor de ato infracional;

VII expedir notificaes;

VIII requisitar certides de nascimento e de bito de criana ou

adolescente, quando necessrio;

IX assessorar o Poder Executivo local na elaborao da proposta

oramentria para planos e programas de atendimento dos direitos da

criana e do adolescente;

X representar, em nome da pessoa e da famlia, contra a violao dos

direitos previstos no art. 220, pargrafo 39, inciso II da Constituio

Federal;

XI representar ao Ministrio Pblico, para efeito das aes de perda ou

suspenso do ptrio poder. 15

Ao determinar a instituio de Conselhos Tutelares nos municpios, o ECA

demonstrou um avano fundamental na garantia dos direitos da criana e

do adolescente.

15 Aps o novo Cdigo Civil, aprovado em 2002, passou a ser denominado poder familiar.

36

1.4. A sociedade Civil na defesa dos direitos da criana e do adolescente

Dentro desse contexto surgiram entidades da sociedade civil, que se

propuseram a atuar enquanto Centros de Defesa da Criana e do Adolescente,

atravs de aes especficas. importante acrescentar que a dcada de 80 foi

fundamental para as mudanas na rea da criana e do adolescente, atravs

da mobilizao da sociedade civil e mudanas no poder pblico.

Conforme Nicoletti (2005: 40-2) ressaltou, nesse perodo, surgiram os

Cedecas - Centros de Defesa da Criana e do Adolescente. Esses centros

faziam parte da Rede Nacional de Centros de Defesa. A proposta de atuao

era a articulao dos movimentos sociais e militantes de direitos humanos que

lutavam por uma transformao social na rea da criana e do adolescente.

Em 1992, no III Encontro dos Centros de Defesa, foi apresentada por

Wanderlino Nogueira a definio do Sistema de Garantia de Direitos, que

enfocava trs eixos de ao (promoo, controle social e

defesa/responsabilizao), desenvolvidos pelas instncias do conselhos,

promotorias, varas da infncia, defensorias, delegacias, SOS, ncleos de

assistncia e atendimento . Em 1994, a Rede Nacional dos Centros de Defesa

foi institucionalizada como Anced (Associao Nacional de Centros de Defesa),

que teve como finalidade a articulao, mobilizao e construo de diretrizes

para esses centros. O Sistema de Garantia de Direitos tornou-se a diretriz

bsica de atuao deles em nvel nacional.

Concomitante criao dos Centros de Defesa, surgiram entidades voltadas ao

atendimento de crianas e adolescentes vtimas de violncia domstica.

Conforme Mattar apontou, os Centros Regionais de Ateno aos Maus-tratos

na Infncia tiveram incio na cidade de Campinas. Em 04 de julho de1985, a

entidade foi fundada. Tratava-se de uma organizao no-governamental, sem

fins lucrativos, destinada proteo integral da criana vtima de maus-tratos,

espancamentos, estupros e outros abusos sexuais, intoxicaes e outras

37

violncias fsicas, psquicas e sociais. Foi formado por profissionais das reas

de sade, educao e servio social, que se mobilizaram devido ao alto nmero

de crianas vtimas de espancamento que chegavam aos hospitais daquela

regio, sem muitas explicaes. Visava fundamentalmente a preveno, o

registro, o tratamento e a reabilitao de casos de maus-tratos, bem como a

promoo da criana junto famlia ou sob a formao de lar temporrio, em

respeito Declarao dos Direitos da Criana.

Diante dessa iniciativa de Campinas, comearam a surgir outros grupos

sensibilizados com a causa. Em Santo Andr, no ano de 1987, um grupo de

profissionais (mdicos, assistentes sociais, psiclogos, advogados)

inconformados com situaes de maus-tratos praticados contra crianas e

adolescentes dentro do lar, envolveram-se com a causa, atravs de pesquisas

e estudos aprofundados sobre o tema, tendo o apoio da Faisa Fundao de

Assistncia Infncia de Santo Andr, contando, tambm, com a assessoria do

Crami - Campinas.

Em 12 de outubro de 1988, a entidade fundada, e somente em 1992

consegue recursos da Acisa - Associao Comercial de Santo Andr para o

aluguel de uma casa. Essa parceria garante a instalao da entidade.

Consegue da Empresa Rhodia Txtil a doao de uma linha telefnica e da

Companhia telefnica o telefone 4992-1234, de fcil memorizao, o que

contribuiu para facilitar as notificaes de maus-tratos por toda populao,

principalmente por parte das crianas e dos adolescentes.

Nesse mesmo ano, o diretor tcnico, representado pelo assistente social Davi

de Oliveira, com a proposta de realizar um trabalho mais qualificado, convidou

estagirios de servio social da Faculdade Paulista de Servio Social de So

Caetano do Sul e estagirios de psicologia da Faculdade Metodista de So

Bernardo do Campo para realizarem estgio de forma voluntria, mas sob a sua

superviso e de psiclogos formados.

38

A idia principal, ao envolver os estagirios, era elevar o nmero de pessoas

para atender a demanda, uma vez que, com o telefone instalado, as

notificaes iriam aumentar, e tambm proporcionar uma nova experincia para

os estudantes.

A equipe aumentou e, no ano de 1992, iniciou um grupo de estagirios de

servio social, do qual fiz parte, com a responsabilidade de participar de grupos

operativos para discutir a questo da violncia domstica contra crianas e

adolescentes, realizar visitas, acompanhamentos e dar encaminhamentos s

situaes que surgiam.

No ano de 1995, foi efetuado o convnio com a Prefeitura Municipal de Santo

Andr, tornando possvel a contratao de profissionais de servio social e

psicologia para ampliar o atendimento comunidade.

O Centro Regional de Ateno aos Maus-tratos na Infncia e Adolescncia do

ABCD passou a ter participao efetiva na luta contra a violncia domstica, de

forma regionalizada. Passou a divulgar os servios oferecidos para a

comunidade e buscar recursos para a ampliao do quadro de funcionrios e a

melhoria dos servios.

Ao longo do tempo, novas parcerias foram estabelecidas e em junho de 1998, a

Prefeitura Municipal de Diadema estabeleceu um convnio com a entidade,

dando origem ao primeiro ncleo fora de Santo Andr. Em fevereiro de 2000, a

Prefeitura Municipal de So Bernardo do Campo estabeleceu o convnio com a

entidade, dando origem a mais uma unidade.

39

1.5 A poltica de atendimento criana e ao adolescente na cidade

de Diadema

A cidade de Diadema faz parte da regio metropolitana de So Paulo.

emancipado em 1959. Tem rea de 30,7 km2. A populao recenseada pelo

IBGE em 2000 era de 357.064 habitantes, e a estimativa populacional do

instituto em 2005 era que a cidade passasse a contar com 389.503 habitantes.

considerada a segunda maior densidade demogrfica do pas e a primeira no

Estado de So Paulo com 11.626, 20 hab/km216.

A populao de Diadema teve um crescimento alto. A partir da dcada de 60,

sua populao era de 12.308 habitantes; em 1970, passou a 78.914 e, em

1980, para 228.660. Nesse perodo, foi considerada cidade-dormitrio, pois

abrigava migrantes de baixa renda, em sua maioria do Nordeste e de Minas

Gerais, que vinham em busca de emprego nas indstrias localizadas nos

municpios vizinhos, So Bernardo do Campo e Santo Andr.

Com o crescimento populacional, ocorreu uma grande disputa por espaos

urbanos em Diadema, marcada por ocupaes, sobretudo de reas pblicas.

Com o desenvolvimento industrial e a valorizao da terra, os antigos

moradores foram expulsos dos espaos que ocupavam e passaram a morar em

terrenos pblicos, iniciando assim o processo de favelizao no municpio. Esse

processo se agravou ao longo das dcadas de 70 e 80. Nesse perodo tambm

cresceu a organizao da populao, que passou a ser representada por meio

de movimentos populares.17

16 Fonte :http://www.nossosaopaulo.com.br/reg_13/reg13.htm 17 Fonte: www.lares.org.br/sl2 Mercado Imobilirio e poltica urbana: AEIS de Diadema Somekh, Nadia; Campos, Cndido Malta; Wilderode, Daniel Van

40

Os movimentos populares organizavam-se para garantir a moradia da grande

maioria da populao, que se encontrava em situao vulnervel devido ao

agravamento da situao econmica da cidade.

Nesse perodo, existia uma grande crise de emprego, por conta das indstrias,

que exigiam maior qualificao do operariado. Esse fato foi, muitas vezes,

determinante para que crianas e adolescentes fossem abandonados pelos

pais e passassem a freqentar as ruas da cidade.

Souza Neto18, em seu ensaio sobre a Rede de proteo e a construo da

subjetividade das crianas e dos adolescentes na cidade de Diadema, aponta

trechos de jornais da poca, em que uma lder comunitria retrata a situao

precria de crianas e adolescentes no municpio.

A lder comunitria e fundadora do Lar de Meninos So Jos19 de Diadema, D.

Lazara Silveira Pacheco, em entrevista no Dirio do Grande ABC, no ano de

1980, dizia: Os comissrios de Diadema reuniram-se em minha pobre casa e

conversaram muito tempo sobre as crianas abandonadas nas inmeras

favelas do lugar. Ns no temos nem sequer um juiz de menores prprio da

cidade. As crianas ficam nas celas dos presos (...) para no permanecerem

jogadas na rua (...), pois no h nenhum lugar para deix-las.

A cidade de Diadema, na dcada de 80, caracterizava-se pela ausncia de

polticas sociais, principalmente na rea da criana e do adolescente. Nesse

perodo, os indicadores sociais revelavam altos ndices de mortalidade infantil,

de evaso escolar, de desnutrio, falta de saneamento, de trabalho infantil,

falta de mdicos, hospitais, postos de sade, de poltica habitacional, de

acidentes domsticos (Souza Neto, 2001: 9).

18 Fonte: http://www.prattein.com.br//prattein/dados/anexo132.pdf 19 Entidade que abrigava meninas e meninos de rua da cidade de Diadema.

41

Somente nos anos posteriores que a situao comeou a assumir outra

dimenso poltica. O fato que marcou essa mudana foi o incio das

administraes municipais, ligadas ao PT20: as de 1982 (prefeito Glson

Menezes), 1986 (Jos Augusto) e 1990 (Jos de Filippi).

A participao popular, atravs de movimentos organizados, influenciou de

forma significativa a formulao dessas polticas sociais, garantindo a

municipalizao das reas da habitao, sade, educao, assistncia,

urbanizao e transportes.

Para o atendimento s crianas e aos adolescentes, a Prefeitura estabeleceu

convnios com entidades assistenciais, igrejas e associaes populares.

Nos doze anos de administrao do PT ocorreram vrias mudanas na Cidade,

permitindo a criao de Unidades Bsicas de Sade, centros comunitrios,

pronto-socorros, hospitais pblicos, escolas, centros de cultura, de esporte e

lazer, creches.

Essas conquistas foram alcanadas efetivamente com a participao popular, o

que garantia um carter democrtico s aes das polticas de direitos da

populao.

Com a mobilizao da populao e sua articulao junto ao poder pblico, os

rgos de defesa criana e dos adolescentes foram institudos no municpio,

atravs da lei municipal n.1.140, de 6 de junho de 1991: o Conselho Municipal

dos Direitos da Criana e do Adolescente, o Fumcad (Fundo Municipal da

Criana e do Adolescente) e os Conselhos Tutelares .

1.5.1. Breve histrico sobre a Assistncia Social voltada a criana e ao

adolescente de Diadema

20 Partido dos Trabalhadores.

42

Em 1995, foi institudo o Departamento de Ao Social e Cidadania (Dasc), por

meio da Lei n. 0036/95, art. 65, que tem como objetivo incentivar e dinamizar os

programas, projetos, servios e benefcios previstos na Lei Orgnica da

Assistncia Social. importante ressaltar que as aes voltadas s crianas e

adolescentes em situao de vulnerabilidade social so desenvolvidos atravs

da assistncia. O departamento, com a nova estruturao, passou a trabalhar

com quatro eixos de ao:

Enfrentamento pobreza, centrada na famlia;

Extenso dos direitos da cidadania;

Fortalecimento dos mecanismos de gesto e controle social;

Capacitao e mobilizao comunitria.

No ano de 1998, o presidente e um dos fundadores do Crami Santo Andr,

Dr. Emlio Jaldn Caldern, comeou a estabelecer maior contato com a

Prefeitura de Diadema, a fim de firmar uma parceria para a criao de uma

unidade no municpio.

Justificando a necessidade da entidade, foi feito levantamento dos

atendimentos realizados pela entidade desde o ano de 1993 at abril de 1998,

chegando a um total de 102 casos, perfazendo 408 atendimentos21.

Aps vrias reunies, em junho de 1998 foi estabelecido o convnio com a

Prefeitura, atravs do Departamento de Ao Social e Cidadania Dasc, dando

origem unidade de Diadema.

Em 2003, o departamento passou por estruturaes e foi instituda a Secretaria

de Assistncia Social e Cidadania, que passou a dinamizar as aes,

21 Relatrio Crami O que podemos oferecer ao municpio?, 1998.

43

adequando a descentralizao administrativa prevista na LOAS22. As aes da

Sasc, esto voltadas aos segmentos:

assistncia social;

criana e adolescente;

idoso;

condio feminina;

pessoa com deficincia;

populao em situao de rua;

polticas afirmativas de gnero, combate ao racismo, preconceito.

Com a mudana na Poltica Nacional de Assistncia Social (Resoluo n. 145,

de 15 de outubro de 2004), todas as aes desenvolvidas pela assistncia

passaram por reorganizaes, de acordo com as funes que

desempenhavam, com o universo de pessoas que delas necessitavam e sua

complexidade, visando a implantao do Suas Sistema nico de Assistncia

Social. Dessa forma, a assistncia social foi dividida em proteo social bsica

e proteo social especial de mdia e alta complexidade.

Bsica tem como objetivos prevenir situaes de risco por meio do

desenvolvimento de potencialidades e aquisies e o fortalecimento de vnculos

familiares e comunitrios. Destina-se populao que vive em situao de

vulnerabilidade social decorrente da pobreza, privao (ausncia de renda,

precrio ou nulo acesso ao servios pblicos, dentre outros) e, ou, fragilizao

de vnculos afetivos relacionais e de pertencimento social (discriminao

etria, tnica, de gnero ou por deficincia, dentre outras).

Especial priorizar a reestruturao dos servios de abrigamento dos

indivduos que, por uma srie de fatores, no contam mais com a proteo e o

cuidado de suas famlias, para as novas modalidades de atendimento.

22 Lei n. 8.742, de 07 de dezembro de 1993 Lei Orgnica da Assistncia Social LOAS que regulamenta os artigos 203 e 204 da Constituio federal e dispe sobre a organizao da assistncia social

44

Especial de mdia complexidade - servios que oferecem atendimento s

famlias e indivduos com seus direitos violados, mas cujos vnculos familiares e

comunitrios no foram rompidos.

Especial de alta complexidade - servios que garantem proteo integral

moradia, alimentao, higienizao e trabalho protegido para famlias e

indivduos que se encontram sem referncia e ou em situao de ameaa,

necessitando ser retirados de seu ncleo familiar e, ou comunitrio.

Atualmente, na Secretaria da Assistncia, as aes voltadas criana e ao

adolescente esto situadas na Diviso da Criana e do Adolescente. Essa

diviso em parceria com a rede conveniada, desenvolve suas aes atravs de

programas de proteo social e bsica, que tm a funo de prevenir situaes

desde proteo de risco scia, l at a proteo especial de alta complexidade,

que prioriza o atendimento a pessoas que no contam com a proteo de suas

famlias. Programas desenvolvidos:

Aes scioeducativas de jornada ampliada.

Agente jovem programa Agente Jovem de Desenvolvimento Social

e Humano.

Ao Jovem.

Peti Programa de Erradicao do Trabalho Infantil.

Crami Centro Regional de Ateno aos Maus-tratos na Infncia.

PSC Prestao de Servio Comunidade.

1.5.2. Rede de ateno criana e ao adolescente de Diadema RECAD23

A RECAD surgiu no ano de 2.002, a partir da preocupao dos profissionais do

poder pblico e das entidades no-governamentais que atuam na rea da

criana e do adolescente. Tem como objetivo garantir e ampliar os direitos e

cidadania e as prticas que buscam o desenvolvimento integral de crianas e

23 Fonte: Folder Recad Rede de Ateno Criana e Adolescente de Diadema (s/d)

45

adolescentes no municpio de Diadema.

A rede agrega organizaes governamentais e no-governamentais, conselhos

setoriais e o sistema de justia, para potencializar as aes que se multiplicam

no municpio. O nmero de entidades envolvidas ampliado permanentemente.

Hoje a rede atende cerca de vinte e duas mil crianas e adolescentes. A

expectativa continuar este processo de expanso e ter um diagnstico

sistematizado sobre a realidade das crianas e dos adolescentes do municpio.

A rede norteia a sua ao a partir de cinco eixos principais:

Rede de informaes sociais um sistema integrado de informaes

eletrnicas sobre o atendimento prestado pelas entidades;

Fortalecimento institucional capacitao e qualificao dos agentes

que atuam nas organizaes, incluindo a construo de um auditrio;

Fortalecimento dos conselhos tutelares ampliar formao dos

conselheiros e infra-estrutura para o trabalho;

Consolidao da rede de atendimento construo da sede para o

Ncleo de atendimento Integrado criana, ao adolescente e famlia;

Visibilidade e transparncia aes de comunicao que divulguem os

trabalhos realizados pela Rede.

Como o universo desta Dissertao est circunscrito nas aes do CRAMI,

relataremos suas especificidades a seguir.

46

1.6. Crami - Diadema

A entidade desenvolve suas atividades, objetivando o atendimento psicossocial

de crianas e adolescentes vtimas de violncia domstica. Entende-se por

violncia domstica todo ato ou omisso praticado por pais, parentes ou

responsveis contra crianas e/ou adolescentes que sendo capaz de causar

dano fsico, sexual e/ou psicolgico a vtima implica de um lado, numa

transgresso do poder/dever de proteo do adulto e, de outro, numa

coisificao da infncia, isto , numa negao do direito que crianas e

adolescentes tm de ser tratados como sujeitos e pessoas em condio

peculiar de desenvolvimento (Azevedo e Guerra, 1995: 36).

com base nessa definio que a equipe de profissionais desenvolve a sua

interveno. A populao atendida composta de crianas de 0 a 12 anos e

adolescentes de 13 a 18 anos, suas famlias e responsveis.

A equipe composta por assistentes sociais, psiclogos e estagirios de

servio social e psicologia. Contam com o apoio de mdicos e psiquiatras. Os

profissionais so especialistas na rea da violncia domstica contra crianas e

adolescentes, por curso realizado pelo Lacri/USP24.

A coordenao tcnica, a equipe administrativa e o apoio esto alocados na

unidade de Santo Andr.

Atualmente, o Crami no recebe notificaes via comunidade. Houve uma

reestruturao no ano de 200125, definindo o recebimento das notificaes

atravs do Conselho Tutelar ou da Vara da Infncia e Juventude. As aes

24 Laboratrio da Criana do Instituto de Psicologia da Universidade de So Paulo Coordenadoras Profa. Maria Amlia de Azevedo e Viviane de Azevedo e Guerra. 25 Essa reestruturao est baseada na delimitao do papel dos Centros de Defesa, definindo as atribuies de cada entidade no Sistema de Garantia de Direitos de Crianas e Adolescentes, que sistematiza o artigo 86 do E.C.A.. Este sistema foi apresentado por Wanderlino Nogueira, Procurador de Justia do Estado da Bahia aposentado, fundador da ANCED, ex-Secretrio Nacional da ANCED, no III Encontro Nacional da rede de Centros de Defesas em 1992 e foi aprovado em 1999. Ver mais: Mattar, 2003 e Nicoletti, 2006.

47

esto estruturadas da seguinte forma:

Atendimento oferecido populao:

a. A equipe do servio social realiza:

Visitas domiciliares; estudo social; acompanhamento e orientao familiar;

grupo e orientao a pais; encaminhamentos diversos; relatrios para Cnselhos

Tutelares, fruns e demais rgos, quando necessrio.

b. A equipe da psicologia, realiza:

Entrevista psicolgica; avaliao; encaminhamentos especializados;

psicoterapia individual; psicoterapia em grupo; musicoterapia; orientao

familiar; relatrios para conselhos, fruns e demais rgos.

Modalidades de violncia que so atendidas:

Violncia fsica.

Violncia psicolgica.

Negligncia e abandono.

Abuso ou explorao sexual.

A equipe realiza semanalmente discusses em grupo, para tratar casos em que

h maior dificuldade de interveno e tambm para promover a

interdisciplinaridade26, que uma das frentes de trabalho do Crami.

A entidade desenvolve aes preventivas que visam divulgar, sensibilizar,

capacitar e instrumentalizar a comunidade para o enfrentamento da violncia

domstica contra crianas e adolescentes. So realizados fruns, debates,

cursos de capacitao, palestras educativas envolvendo todos os atores sociais

26 Entendendo quer A interdisciplinariedade o princpio da mxima explorao das potencialidades de cada cincia, da compreenso e explorao de seus limites, mas, acima de tudo, o princpio da diversidade. (Etges,1993:79) apud Rodrigues, Maria Lcia O Servio Social e a perspectiva interdisciplinar 1998:176)

48

que lidam diretamente com a questo da criana e do adolescente.

Aes preventivas:

Projetos: Violncia: Sinal de Alerta

Paz nas escolas

Pacto So Paulo

Ao longo dos anos, o Crami vem desenvolvendo suas aes com o

compromisso e o envolvimento da equipe de profissionais que atuam

diretamente nas situaes. Recebendo o apoio de pessoas da comunidade que

sensibilizadas, lutam pela diminuio da violncia domstica contra crianas e

adolescentes.

A entidade foi reconhecida nacionalmente e inclusive recebeu prmios pelo

desempenho e trabalho desenvolvido.

Prmio Bem Eficiente 1998 e 2002.

Prmio Desempenho 1999.

Prmio criana 2000 Abrinq.

49

CAPTULO 2

DESVENDANDO OS SIGNIFICADOS DA NEGLIGNCIA

50

2.1. A busca do processo de construo do conhecimento27

Em Marx, conhecer elevar-se do abstrato ao concreto. Jos Paulo Neto

2.1.1. Procedimentos metodolgicos

Todo processo de pesquisa para construo de conhecimentos implica na

definio da fundamentao terica que ir norte-lo e, conseqentemente, na

metodologia que possibilitar o desvelamento do objeto pesquisado.

Em funo de nosso objeto as mltiplas faces da negligncia nas situaes

de violncia domstica -, optamos por uma metodologia que se realiza a partir

de aproximaes sucessivas ao objeto. Essa escolha se justifica por

considerarmos que o conhecimento resultado de aproximaes realidade,

sendo, portanto, sempre provisrio, pois a sociedade se modifica os homens

mudam. O homem incapaz de conhecer a realidade de uma s vez. Ele vai

captando sucessivamente, aproximando-se dos determinantes que definem

aquele objeto, ou seja, caminha da aparncia para a essncia.

Essa opo tambm coerente com nosso objetivo: construir criticamente o

conceito e o significado da negligncia a partir da experincia vivenciada pelos

profissionais do Crami/Diadema.

Esta pesquisa se baseou na teoria social de Marx e, portanto, no mtodo

histrico-dialtico, que nos possibilitou buscar as mediaes e as

determinaes que incidiram e construram o nosso objeto de estudo.

27 Disciplina da Profa. Dra. Dilsia Adeodato Bonetti do Curso de Servio Social da Ps-graduao da Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo

51

Conforme aponta Jos Paulo Netto (Baptista, s/d[a], p.5), baseado no

pensamento de Marx:

Quando se comea a defrontar com um objeto de estudo, medida que se vai aproximando dele pelo processo de investigao, vai-se reconstruindo o seu processo: isso que a investigao. atravs desse processo que se vai dominar o objeto: haver coisas das quais no se consegue reconstituir o processo, elas surgem como se fossem repentinas, como algo absoluto (...) A idia das mltiplas aproximaes, de um ir e vir da reflexo, das vrias viagens que se realizam a partir de um determinado fenmeno ou fato: sinal e processo, conexo entre processos, novos sinais e novos processos. No ser j desenvolvido no se tem nada de imediato, essa imediaticidade emerge na sua relao com o objeto e, por isso, precisa ser superada. Superar a imediaticidade significa encontrar as mediaes que esto contidas no processo do ser. Vai-se reconstruir o processo do ser atravs da abstrao. na descoberta dessas passagens, dessas metamorfoses, desse movimento, que se vai chegar s determinaes e, portanto, apreender o carter concreto do objeto que foi dado apenas empiricamente, imediatamente (...)

Esta investigao buscou apreender o real atravs de uma dialtica construtora

do saber. A categoria principal, com a qual trabalhamos a da totalidade. a

partir dessa categoria que a realidade se concretiza, histrica e

conjunturalmente, configurando o que Marx chamou de uma sntese das

mltiplas determinaes. Outra categoria analtica inerente a essa dialtica a

da contradio. Atravs dessa categoria se apreende que a realidade

contraditria, existe a negao e a negao da negao. Essa dialtica

construtora do saber nos mostrou os caminhos a percorrer para a investigao

sobre as mltiplas faces da negligncia, em um movimento que foi do abstrato

ao concreto.

52

2.1.2. O universo e os sujeitos da pesquisa

O universo desta pesquisa est situado na organizao no-governamental

Crami Centro regional de ateno aos maus-tratos na infncia Unidade

Diadema. A entidade tem como objetivos de ao a interveno nas situaes

de violncia domstica contra crianas e adolescentes.

Para situar o nosso universo, importante apresentar como ocorre a

interveno por parte da Entidade.

As notificaes de violncia domstica recebidas pela entidade so

encaminhadas pelo Conselho Tutelar ou pela Vara da Infncia e Juventude. A

porta de entrada dessas notificaes o servio social.

importante ressaltar que a prtica do servio social caracteriza-se pelo

significado social atribudo sua interveno pelos profissionais que a exercem,

os quais partem de sua concepo de profisso e de sua viso de mundo.

Na prtica profissional, as mediaes entre a elaborao terica, a projeo e a interveno se do de maneira complexa: tm que responder a questes muito concretas, socioeconmicas e polticas de uma sociedade extremamente diversificada, colocando-se diante de problemas muito especficos. Nesse espao, o profissional no tem apenas que analisar o que acontece, mas tem que estabelecer uma crtica, tomar uma posio e decidir por um determinado tipo de interveno.(Baptista, 1998: 115)

Os assistentes sociais do Crami so especialistas na rea da violncia

domstica contra crianas e adolescentes e os estagirios de servio social

utilizam vrias tcnicas para abordar a questo da violncia. Dentre estas,

destacam-se: o acolhimento e a escuta. O acolhimento caracteriza a forma

como os profissionais recebem o sujeito, possibilitando-lhe um espao de

53

relao em que os problemas que vivencia so tratados. A escuta ir mostrar

de fato o que ser necessrio abordar nos atendimentos que se seguirem. a

partir dessas tcnicas que o profissional conhece o sujeito que ser atendido

pela entidade e estabelece com ele uma relao.

O acolhimento uma forma de entender que, na questo da violncia, no

existe o imediatismo. A violncia mostra apenas a ponta de um iceberg, porque

so vrios seus motivos e suas determinaes. Muitas vezes, no atendimento,

alm de notarmos que as crianas e os adolescentes so as principais vtimas,

notamos ainda que o pai/me ou responsvel tambm so vtimas da excluso:

so pessoas sem informao, sem formao, sem condies objetivas de

vivenciar uma vida de qualidade, que cometem os mais variados tipos de

violncia sem muitas vezes ter conscincia da gravidade de seus atos.

A ao do Crami tem por referncia o Estatuto da Criana e do Adolescente.

Apesar de essa legislao j ter completado dezesseis anos de existncia,

notamos que ainda existe um enorme vcuo entre o conhecimento, o

reconhecimento e a efetivao dessa lei. Atravessamos o sculo XX

conquistando muitos avanos para a humanidade, mas, na rea da criana e do

adolescente, observamos que a famlia, a sociedade, as instituies e o Estado

ainda os tratam como pessoas sem direitos.

Tambm a ao do Crami tem por fundamento a histria como um processo

transformador da identidade. Devemos fazer uma leitura crtica da realidade, de

maneira consistente, colocando a contradio a servio da anlise. Devemos

ter claro que nenhuma condio humana natural. A condio humana

histrica, e preciso lidar com a conscincia das pessoas e com a histria de

cada um.

54

A partir da interveno do servio social, os sujeitos atendidos so

encaminhados ao setor de psicologia, composto por psiclogos especializados

na rea da violncia domstica contra crianas e adolescentes e estagirios de

psicologia.

O atendimento se volta para a verificao das questes que levaram a esse tipo

de situao. As aes so baseadas no atendimento individual e grupal e nos

encaminhamentos, de acordo com a necessidade de cada pessoa.

A equipe de interveno direta baseia suas aes na interdisciplinaridade,

buscando sempre ouvir os outros profissionais para chegar a uma reflexo e a

uma interveno mais qualificada.

Diante dessa peculiaridade da interveno direta em situaes de violncia

domstica, acreditamos que so de fundamental importncia os

aperfeioamentos, as leituras e as trocas de informaes constantes, para que

realmente a interveno seja substantiva.

Os sujeitos dessa pesquisa sero os profissionais do atendimento direto:

assistente sociais, psiclogos, estagirios de psicologia e estagirios de servio

social e a prpria autora deste trabalho que fez parte da equipe de trabalho da

instituio, no perodo entre 1.998 e 2001.

2.1.3. A pesquisa

Nas primeiras aproximaes ao objeto desta pesquisa, acreditvamos que para

construir criticamente o conceito e o significado de negligncia a partir da

experincia vivenciada pelos profissionais do Crami/Diadema, seria necessrio

discutir com a equipe as situaes especficas, ou melhor, precisaramos

analisar as famlias consideradas negligentes por eles. Mas, no decorrer do

processo, observamos que seria importante uma investigao mais

55

aprofundada da categoria negligncia, uma vez que os profissionais estavam

sentindo falta de informaes sobre o assunto, o que dificultava no apenas as

aes cotidianas, mas at mesmo caracterizar aqueles casos aos quais seria

atribudo esse tipo de violncia.

Esse fato nos levou a definir os caminhos a serem percorridos na continuidade

da investigao. Consideramos que um passo imprescindvel seria um

aprofundamento, por meio de pesquisa bibliogrfica sobre a categoria

negligncia, no contexto da violncia domstica contra crianas e adolescentes.

Uma fonte de informaes e reflexes sobre o tema foi o Lacri Laboratrio de

Estudos da Criana no Instituto de Psicologia da USP. Suas orientaes

proporcionaram conhecimentos sobre ampla literatura na rea, sendo possvel

constatar que uma das modalidades de violncia sobre a qual quase no

existiam trabalhos que permitissem um aprofundamento terico era a questo

da negligncia.

Em uma das apostilas do curso de especializao na rea da violncia

domstica contra crianas e adolescentes Guia prtico para compreender o

Fenmeno 1 A/B pondo os pingos nos is , que relata um estudo

aproximativo do tema violncia, realizado pela professora Viviane Guerra e pela

estudante de psicologia Betina Leme, foi possvel constatar que, mesmo em

estudos internacionais sobre a questo da violncia domstica, a negligncia

no um tema que tenha merecido muitas reflexes, embora exista um

crescimento marcante de sua incidncia nos casos relatados.

Wolock e Horowitz (1984), citados por Viviane Guerra e Betina Leme mostram

que:

Nos Estados Unidos, houve politicamente um interesse amplo no sentido de discutir mais a violncia fsica domstica do que a negligncia. Isto porque a violncia fsica era e ainda encarada por muitos como decorrentes de problemticas individuais e familiares, sendo o seu tratamento estabelecido de acordo com esta viso, no se propondo a uma anlise de seus vnculos com aspectos scio-

56

histricos-culturais. J o fenmeno da negligncia implica em que se ponha na mesa a polmica discusso acerca da distribuio de renda nas sociedades capitalistas avanadas, a distribuio de recursos na rea social, aspectos que politicamente devem ser expurgados.

Viviane Guerra e Betina Leme, nesse mesmo trabalho, ressaltaram que, alm

de a negligncia ser uma questo ligada s relaes sociais, existe o recorte de

gnero individualizando a situao dentro do espao privado, sempre no limite

familiar. Essas autoras observaram que, na questo da negligncia, a mulher

era culpabilizada, considerada a principal responsvel pela ocorrncia do fato.

Ainda nesse estudo, foi observado que, no Brasil, tambm no existem estudos

sobre o tema, o que levou as autoras a recomendarem investigaes sobre o

assunto, de forma a permitir caracterizar suas especificidades, considerando

que, por meio desses estudos, pode-se colocar a descoberto as desigualdades

sociais e as de gnero (Guerra, 1997: f) nos casos de negligncia.

Alm desses estudos ligados ao Lacri, fizemos uma pesquisa bibliogrfica, com

base em nossa participao no Ncleo da Criana e do Adolescente do

Programa de Estudos Ps-Graduados em Servio Social da PUC-SP, onde

analisamos duas das pesquisas realizadas pelo ncleo, uma sobre a

Destituio do ptrio poder e outra sobre o Universo de abrigos na cidade de

So Paulo. Analisamos tambm a pesquisa nacional sobre abrigos realizada

pelo Ipea. Em todas essas pesquisas, a negligncia aparece como razo para o

afastamento de crianas e adolescentes de suas famlias. Tambm foi

analisado e utilizado, na dinmica do grupo focal, um artigo, Aproximaes ao

conceito de negligncia; produzido no contexto do NCA pela sua coordenadora,

juntamente com outra pesquisadora do tema.

No Crami a definio de negligncia que norteia a ao profissional est

atrelada aos cuidados bsicos sade, ou seja, seria privar a criana de algo

de que ela necessita, quando isso essencial ao seu desenvolvimento sadio.

Pode significar omisso em termos de cuidados bsicos como: privao de

57

medicamentos, alimentos, ausncia de proteo contra a inclemncia do meio

(frio/calor). (Claves - Centro Latino-americano de Estudos da Violncia e

Sade)

2.1.4. O Grupo Focal

Tendo aprofundado compreenso da categoria negligncia, consideramos

que era momento de ir a campo e comear o dilogo com os profissionais do

Crami/Diadema. A tcnica escolhida para esse dilogo foi a do grupo focal.

O grupo focal uma tcnica qualitativa, no diretiva, cujo resultado visa o

controle da discusso de um grupo de pessoas. Foi inspirada em tcnicas de

entrevista no direcionada e tcnicas grupais usadas na psiquiatria. um

espao em que os sujeitos do estudo discutem vrios aspectos de um tpico

especfico. Enquanto tcnica de pesquisa qualitativa, consiste em uma

entrevista em grupo, formado por seis a quinze pessoas com caractersticas

comuns, de acordo com os objetivos do estudo. A conduo da entrevista

realizada por um moderador ou animador, que deve manter a discusso

focalizada, e um observador ou assistente orientado para captar as expresses

no verbais dos participantes e registrar informaes. A sesso deve ser

gravada e transcrita para posterior anlise.

As primeiras experincias de aplicao da tcnica de grupo focal no campo das

cincias sociais foram realizadas por Merton, Fiske e Kendal em pesquisa sobre

persuaso da propaganda durante a Segunda Guerra Mundial. Nos ltimos

trinta anos, tem sido mais freqente na psicologia social. uma tcnica de

pesquisa que utiliza as sesses grupais como um dos foros facilitadores da

expresso de caractersticas psicossociolgicas e culturais. Os dados so

obtidos a partir da discusso planejada, em que os participantes expressam

suas percepes, crenas, valores, atitudes, representaes sociais sobre uma

questo ou temtica especfica, num ambiente permissivo e acolhedor.

58

A dinmica da reunio orienta-se pela participao de todos os integrantes, de

modo livre e em clima que permita a expresso de diferentes modos de pensar

e diferentes modos de se manifestar sobre um tpico especfico.

De acordo com Minayo (1999: 129), a discusso de grupo (nos grupos focais)

uma abordagem qualitativa e tambm uma estratgia de coleta de dados.

Nessa tcnica, lembra, o especfico so as opinies, relevncias e valores dos

entrevistados. Difere da observao, que focaliza mais o comportamento e as

relaes. Tem uma funo complementar observao participante e s

entrevistas individuais.

Cada encontro do grupo focal deve ter durao mnima de uma hora e mxima

de trs horas, existindo casos em que a recomendao restringe a durao, no

mximo, uma hora e meia.

A aplicao da tcnica de grupo focal envolve alguns elementos importantes de

serem destacados: o recrutamento dos participantes; a elaborao do roteiro; a

animao do grupo; e a sntese dos resultados.

Para o recrutamento, assumimos como sujeitos da pesquisa os profissionais de

atendimento direto da instituio: assistentes sociais, estagirios de servio

social, psiclogos e estagirios de psicologia e a prpria pesquisadora e autora

deste trabalho que fez parte da equipe no perodo entre 1998 a 2001 .

Os roteiros para as discusses de cada um dos encontros do grupo focal esteve

relacionado temtica que seria discutida.

59

Para animao dos grupos, foram utilizadas vrias tcnicas, que esto descritas

em seguida.

As snteses dos resultados so apresentadas no decorrer desta dissertao.

2.1.5. Os encontros

Iniciamos a realizao dos encontros do grupo focal. Antecipadamente, foi

entregue entidade uma carta28 endereada ao diretor tcnico solicitando

autorizao para a realizao da pesquisa, o que nos foi concedido de imediato,

considerando que a entidade est aberta a estudos e pesquisas sobre os temas

ligados ao fenmeno da violncia domstica.

Fizemos, ento, contato com a unidade de Diadema para o agendamento do

primeiro encontro com a equipe. Foi definido que as reunies aconteceriam s

sextas-feiras, devido ao cronograma intenso de atividades da entidade. Foi

estabelecido tambm que todos os encontros seriam gravados com a

autorizao e a concordncia de todos os membros do grupo.

O primeiro encontro foi no ms de outubro de 2004. Nele, apresentamos o pr-

projeto da pesquisa e explicamos seus objetivos. Discutimos com os

profissionais a metodologia que seria utilizada nas reunies e acabamos

optando pela discusso atravs do grupo focal. Escolhemos tambm uma

pessoa para fazer anotaes dos pontos mais significativos dos encontros.

A equipe desconhecia a tcnica de grupo focal, mas mostrou-se receptiva s

informaes sobre ela apropriando-se do seu embasamento terico. A equipe

considerou que esse tipo de abordagem seria pertinente para as discusses e

28 Ver anexo I

60

que os encontros poderiam contribuir substantivamente para uma nova viso

sobre a negligncia.

Nesse primeiro encontro, para desenvolver as discusses, nos apoiamos na

tcnica de grupos Tempestade de Idias29, que visa a construo de novos

significados para determinado assunto atravs do jogo de palavras. Cada

participante do grupo contribuiu com palavras ou idias que se aproximavam do

tema discutido.

Relatos de cada encontro

1 encontro

Local: CRAMI Diadema

Data: 05.11.04

Horrio: Das 15h30m s 17h

Participantes: Cristina (assistente social), Valria (psicloga), Christiane

(psicloga), Karla (assistente social), Maria (estagiria de psicologia), Ana Lcia

(Psicloga), Neide(assistente social) e Rosana (estagiria de servio social).

Tema: ABANDONO

Dinmica: Tempestade de Idias

Esse primeiro encontro foi muito importante para o desenrolar das discusses.

Notamos que todos estavam apreensivos para comea-las. Inicialmente, foi

feita a apresentao. O grupo estava formado por nove pessoas, trs

psiclogas, sendo duas especialistas na rea da violncia domstica contra

crianas e adolescentes; uma estagiria de psicologia; trs assistentes sociais,

tambm, especialistas na rea da violncia domstica contra crianas e

adolescentes; uma estagiria de servio social. A faixa etria das participantes

estava concentrada entre os 23 e 44 anos.

29 Ver anexo II

61

Nesse encontro, o tema proposto para discusso foi o abandono na

abundncia, pois, antes de chegarmos questo da negligncia, entendamos

que o nosso objeto de estudo seria o abandono. Desta forma, foi proposto que

cada um falasse o que vem mente quando se fala em abandono, atravs da

dinmica Tempestade de Idias.

O grupo inicialmente falou sobre a sua trajetria profissional, as famlias que

abandonam e que so abandonadas pelo sistema capitalista. Houve momentos

em que uma das participantes relatou a sua experincia na infncia, contou ter

vindo de uma famlia com condies financeiras muito boas, mas, no entanto,

sentia-se abandonada e buscava nos brinquedos um modo de suprir essa falta.

Relatou ainda que, na vida adulta, sentiu terem ficado alguns buracos. Outra

participante contou que sente como que abandonando crianas quando as v

nos faris pedindo dinheiro, sobretudo as mais novas. Ao fazer o relato, sentiu-

se mal e acabou chorando.

A estagiria de servio social exps uma reflexo sobre Marx e o sistema

capitalista. Ela acredita que a sociedade sempre abandonada - seja o rico,

seja o pobre, todos so abandonados pelo sistema.

No final do primeiro encontro, foi solicitado que cada um dissesse uma palavra.

A maioria disse: angstia, reflexo e experincia. Naquele dia, a palavra

angstia fez-se mais presente.

2 encontro

Local: CRAMI Diadema

Data: 10.12.04

Horrio: das 14h30m s 17h

Participantes: Cristina (assistente social), Christianne (psicloga), Valria

(psicloga), Karla (assistente social), Maria (estagiria de psicologia), Ana Lcia

(psicloga), Neide (assistente social) e Rosana (estagiria de servio social).

62

Tema: ABANDONO

Dinmica: O que cada um entende sobre o abandono?

A moderadora iniciou o encontro lendo o que foi produzido em termos de idias

sobre o abandono no encontro anterior.

A Tempestade de Idias possibilitou que o grupo construsse os significados da

palavra abandono: solido, perda, falta de ateno, falta de cuidado, no estar

presente, baixa auto-estima, vazio, descaso, sofrimento, ausncia no s a

fsica, porque no Crami, se atende a falta de cuidados bsicos, a ateno, a

falta de vnculo e de importncia.

Logo em seguida, o grupo comeou a discutir sobre o significado do abandono,

mas tomando como ponto de partida as situaes atendidas pelo Crami.

Foi dito que o abandono envolve fatores externos e internos: abandono extra-

familiar e intra-familiar. Os fatores externos mobilizam os internos, e se isso

acontece porque os ltimos tm um significado. O abandono interno

diferente do externo? Esta foi uma pergunta que surgiu. O interno gera o

abandono externo. A cultura do abandono reproduzida, pois, se eu no tiver,

eu no saberei como dar. A questo do abandono afetivo e emocional

confundida com uma condio. O abandono afetivo, vinculado ao abandono

externo, acaba sendo mais fcil de tratar em instituies como o Crami do que o

abandono s interno ou afetivo. Como lidar com essas pessoas? Elas acabam

colocando fogo em gente na rua, usando drogas... Isto est crescendo entre as

famlias desestruturadas, e aqui camos em termos que no so mais usados:

O que uma famlia estruturada? Esta uma pergunta, no se tem essa

definio.

As famlias adaptadas conseguem lidar com as questes afetivas. As famlias

que atendemos aqui, que sofrem desde o nascimento precisam entender que o

63

sofrimento superado. A pobreza enlouquece, mas melhor enlouquecer do

que encarar a realidade. Essa loucura conhecida, mas existe outra loucura, a

loucura estruturada: a pessoa vive, mas mascara a loucura. Existe uma sutileza

muito grande no abandono familiar, oferecendo condies materiais para suprir

o emocional. Alguns adolescentes que cometem atrocidades sofreram a falta de

algo: de valorizao da vida. Vrios fatores enlouquecem, enlouquecem quando

o homem no tem o direito de lidar com a sua realidade e liberdade.

Neste mundo capitalista e social, as pessoas esto fechadas para o outro.

Quando as relaes se estabelecem por meio de objetos, acabam se perdendo

os valores ticos, e hoje as crianas esto se relacionando com o virtual. A

criana que no tem recurso vai para a rua e l encontra uma gama de

situaes. Existe a diferena entre a criana rica e a criana pobre, dos dois

lados, quando elas se relacionam com o virtual que afastado do ser humano.

E a criana que sai rua encontra pessoas e poder aprender violncia, e

poucas vezes encontrar pessoas que podero passar coisas boas. Com isso,

apresenta-se muito prxima a questo do abandono em nossas vidas. Ns

somos a sociedade ento o que acontece na sociedade, acontece com a gente.

O abandono ruim, no vejo lado bom no abandono. Se ele for sofrimento,

ento servir como crescimento. O abandono j comea a ser justificado com a

educao, a palavra educao. Os responsveis transmitem o abandono

vivenciado, cultural, que se naturaliza: deixam o filho sofrer para obter um

indivduo forte. As pessoas confundem o que educar para o mundo, para a

famlia e para o sustento. Esto perdidas, confusas. At que momento ns no

estamos abandonando tambm? Quando vimos as pessoas, as ideologias, a

falsa verdade, no h espao para discutir, para refletir. Ns temos que nos

responsabilizar pelo abandono, a ponto de culpar o governo. Marx diz que um

problema de estrutura. Quando o indivduo massificado, cobrado em relao

a sua individualidade, tende a no sentir. At que ponto se proteger ou

colocar limites? O indivduo se corrompe pelo sistema capitalista e individual e

no considera os outros.

64

Nesse encontro ficou muito presente a questo do compromisso, ressaltado por

todos.

O grupo, aps uma longa discusso, acabou optando por discutir, no prximo

encontro, o abandono familiar, acreditando que, para compreender a questo,

seria necessrio discutir os casos atendidos pelo Crami. A equipe de

profissionais comprometeu-se a realizar um levantamento sobre as situaes

atendidas, a serem discutidas no prximo encontro.

Desse encontro a estagiria de servio social Rosana no participou, pois havia

se desligado da instituio. Foi chamada para trabalhar na Fundao Criana

em So Bernardo do Campo. A psicloga Ana Lcia estava saindo da unidade

de Diadema para a de Santo Andr.

3 encontro

Local: CRAMI Diadema

Data: 04.02.05

Horrio: Das 14h s 14h30

Participantes: Cristina, Valria, Christiane, Karla, Maria, Neide

Relatrio

A equipe discutiu os casos que sero levados para a prxima reunio do grupo

focal. Foi definido que os profissionais do Crami iro analisar alguns casos e no

prximo encontro, dia 18.02.05, ser dada continuidade anlise. No houve

discusso, porque, a equipe estava com reunio marcada na ltima hora.

4 encontro

Local: Crami Diadema

Data: 18.02.05 10h s 11h45m

Participantes: Valria (psicloga), Karla (assistente social), Christianne

(psicloga), Maria (estagiria de psicologia), Cristina (assistente social), Neide

(assistente social)

Tema: A dimenso do abandono familiar

65

Antes do encontro do grupo, os profissionais levantaram alguns casos ligados

ao tema. Como havia sido combinado no encontro anterior, o grupo decidiu

discutir uma situao que tinha sido atendida pela entidade como de

negligncia.

O primeiro caso tem a caracterstica da negligncia. A famlia tem uma cultura

de negligncia. A genitora era passiva, tinha seis filhos e um neto. O genitor

no se importava com a famlia, e uma das filhas apresentava uma postura

parecida com a me em relao passividade. Ela engravidou, e o parceiro

no demonstrou afetividade nem interesse.

O caso chegou ao Crami atravs de denncia de abuso sexual. Depois

percebemos a gravidade da apatia da famlia. Tentamos vrios projetos, mas a

famlia no deu continuidade a eles.

O beb que a adolescente teve estava desnutrido. Quando iniciou o

atendimento, a famlia se mostrou passiva.

A me casou-se por intermdio da famlia. Veio para So Paulo porque o

marido na poca quis. No demonstrou ter opinio prpria nem identidade.

Parece uma pessoa anestesiada diante das situaes.

A apatia da famlia feminina, ou seja, uma questo de gnero. As mulheres

no se indignam com as situaes. O ex-marido da genitora tinha outra famlia,

mas s vezes mantinha relaes sexuais com ela.Quando a genitora veio para

So Paulo, tinha perto de 20 anos. Casou por imposio do pai.

Uma das crianas da famlia participou da oficina ldica e, em uma atividade,

realizou o desenho da famlia s com figuras masculinas, s os homens .

A genitora tem trs filhos homens, trs mulheres e um netinho. Ningum

estuda. A maioria deixa as coisas acontecerem. Eles lidam com a questo

instintiva com menos racionalidade e faltando informaes sobre questes

bsicas.

O servio social iniciou os atendimentos, seguido da psicologia. A genitora

mostrou-se depressiva e desmotivada.

66

O beb estava desnutrido, mas a me e a av achavam que estavam cuidando

bem dele, no percebiam a situao de seu organismo. A criana simbolizava

toda a dinmica da famlia, ou seja, a regresso, a desnutrio, a apatia. Aps

os atendimentos, percebemos uma melhora do beb, uma reao. Depois a

me demonstrou interesse em voltar a estudar. Teve algumas reaes e falou

da indignao em relao ao companheiro.

Com a realizao de alguns encaminhamentos, percebeu-se que seus

membros sentiram-se pressionados, o que ocasionou o afastamento da famlia

do atendimento, alegando que no o achavam necessrio.

Percebeu-se que a famlia no possui um olhar para as crianas, no percebe o

que cada um precisa, e essa vivncia proporciona o abandono.

A psicloga que atendeu a me observou que ela teve na sesso um olhar

infantil, como se precisasse de cuidados, como um movimento de necessidade

infantil para que algo fosse suprido.

Nos atendimentos teraputicos (quatro sesses) a que ela compareceu, no

demonstrou ser negligente. Mudou de comportamento quando foi encaminhada

ao grupo de pais (procedimento institucional).

Foi percebido, ento, que ela precisava de um espao individual para

atendimento, em que pudesse trabalhar questes primrias. Nas quatro

sesses de que a progenitora participou, foi realizada a avaliao psicolgica.

O Crami realizou vrios encaminhamentos. Foi feito trabalho em rede. A famlia

estava sendo assistida por vrios rgos do municpio.

A famlia no comparecia aos atendimentos, o que ocasionou a impossibilidade

de continuarem sendo realizados, por falta de interesse. O caso foi encerrado

do caso e foi encaminhada uma representao ao Frum. Caso o Frum

intervenha para que a famlia comparea, o atendimento ser retomado.

As pessoas da famlia mostravam-se indiferentes umas com as outras. As filhas

casavam e o resto da famlia sequer sabia onde moravam. Os profissionais

relataram que o caso foi encerrado devido a um limite institucional.

5 encontro

67

Local: CRAMI Diadema

Data: 20.05.05

Horrio: Das 10h s 11h45

Participantes: Cristina (assistente social), Christiane (psicloga), Carla

(assistente social), Maria (estagiria), Neide (assistente social), Patrcia

(estagiria de servio social) e Ftima (estagiria de servio social)

Tema: O abandono familiar

Obs.: Carla, Patrcia e Ftima entraram no ms de maro e Karla (assistente

social saiu da instituio no ms de maro)

Nesse encontro, notamos ausncia de mais uma profissional: uma das

assistentes sociais pediu para sair, pois conseguiu um emprego que ganhar

melhor. Ouviu-se um discreto comentrio de algumas pessoas do grupo: Os

profissionais abandonando o Crami. Essa questo permeou todo o encontro.

Relembramos as discusses anteriores. Ficou muito evidente a questo

estrutural, a situao socioeconmica levando a famlia a abandonar. Alis,

existe uma srie de fatores. Mas o que ressaltou foi perceber que com relao

maioria das famlias que chega ao Crami, em grande parte dos casos,

prevalece como justificativa a situao socioeconmica. Ou seja, existe o

abandono, mas a famlia no quer abandonar. Ela levada a isso em funo de

uma situao financeira difcil que vivencia. Ento esse um dado: a questo

da famlia.

Mas, no encontro, o se fez mais presente e preocupou o grupo foi o que est

acontecendo no Crami, a freqente sada de profissionais, o que impede uma

continuidade. Existe uma equipe de referncia, mas as demais acabam saindo.

Houve um desabafo de todos. Inclusive foi mencionado o prprio salrio e

reforado que a instituio abandona os profissionais, na medida em que no

os reconhece como profissionais que merecem melhores salrios, melhores

condies de trabalho. Foi observado que necessrio acontecer uma

interferncia para isso mudar. Do primeiro encontro at hoje, muitas mudanas

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j ocorreram: a sada da Maressa, Rosana, Ana Lcia e Karla. Quatro pessoas

ficaram.

No final do encontro, aps um momento de desabafo, o grupo retomou a

questo e enfatizou a importncia do seu trabalho na vida das pessoas que so

atendidas pela instituio.

6 encontro

Local: CRAMI Diadema

Data: 24.06.05

Horrio: das 14h30m s 17h

Participantes: Cristina (assistente social), Valria (psicloga), Maria (estagiria

de psicologia), Carla (assistente social) e Neide (assistente social)

Tema: Negligncia

Obs.: Neste encontro as estagirias Patrcia e Ftima j no estavam na

Instituio, conseguiram outros estgios.

Feita a abertura, e foi colocado que, nos ltimos encontros, foi abordada a

negligncia institucional. Nos ltimos encontros, restou presente a importncia

de perceber e tambm de falar e apontar questes sobre o conceito de

negligncia. O grupo concordou em discutir a negligncia ao invs de abordar o

abandono, acreditando que o abandono se configura quando ocorre a

negligncia. Diante disso, a moderadora levou para discusso o texto da

professora Myrian Veras Baptista sobre Aproximaes ao conceito de

negligncia Catarina Volic e Myriam Veras Baptista. Esse texto foi construdo

em abril de 2005. O grupo ficou de fazer a leitura para o prximo encontro.

7 encontro

Local: CRAMI Diadema

Data: 19.08.05

Horrio: das 14h30m s 17h

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Participantes: Christianne (psicloga), Cristina (assistente social), Maria

(estagiria de psicologia), Valria (psicloga), Neide (assistente social), Silvnia

(estagiria de servio social), Ana Paula (psicloga contratada de julho

novembro) e Cristiane (psicloga contratada de julho novembro).

Tema: As mltiplas faces da negligncia

Foi discutido o texto lido pelas participantes, que ressaltaram o fato de existir

diversos aspectos em relao negligncia. Sendo a negligncia uma questo

cultural, emocional, tambm envolve as polticas pblicas. Ela ocorre em

diversas classes sociais.

No Crami, priorizada a questo da negligncia como violncia quando os

responsveis no propiciam os cuidados bsicos para a criana ou

adolescente.

A negligncia multifatorial. Pode aparecer de diversas maneiras,

intencionalmente. s vezes ocorrem situaes de negligncia por algum motivo,

mas isso no significa necessariamente que a pessoa negligente. No que

tange s polticas pblicas, percebe-se um descaso diante das necessidades

fundamentais da sociedade, que negligenciada. Quando casos so

notificados e inicia-se o atendimento no Crami, a famlia recebe a escuta e o

olhar profissional, que propicia a mesma importncia do pensar, refletir, se

perceber, melhorando os aspectos psicossociais. Percebe-se que, muitas

vezes, o indivduo moralmente abandonado. Existem pessoas que so

narcisistas, que no vem as necessidades do outro, e isso ocorre nos cargos

polticos que visam seus prprios interesses, esquecendo os interesses e as

necessidades dos outros.

A negligncia passa pelos princpios e valores, questes ticas e morais. Existe

atualmente uma crise moral. A questo cultural est vinculada negligncia. Na

prpria histria do Brasil, desde o incio, teve-se a viso de ser explorado. A

70

moral uma construo histrica. Quem negligencia tem uma imaturidade

afetiva, uma relao com o desenvolvimento individual. Socialmente, a nossa

poltica no tem equilbrio. O ECA completou quinze anos. Crami entra num

aspecto de defesa, surgiram rgos preocupados com essa causa a partir da

dcada de 80. Criam-se espaos de defesa garantindo que os direitos sejam

atendidos. O Crami tem um papel de maternagem, de acolher, atender, colocar

limites, um mediador de instncias. um rgo de escuta que propicia o olhar

ao outro. Institucionalmente, foi ressaltado a importncia do seu trabalho.

importante o Crami reconceituar o trabalho dos tcnicos diante do valor da

causa para a sociedade ao ser humano. A idia do trabalho contribuir.

8 encontro

Local: CRAMI Diadema

Data: 23.09.05

Horrio: Das 15h30m s 17h

Participantes: Cristina (assistente social), Neide (assistente social), Valria

(psicloga), Carla (assistente social),

Tema: As mltiplas faces da negligncia

Obs.: Por uma falha tcnica no foi possvel gravarmos as discusses, mas,

fizemos alguns relatos.

Nesse encontro, participantes demonstraram muita insatisfao com relao ao

apoio oferecido pela instituio aos profissionais do atendimento direto. Foi

evidenciada a falta de qualificao, fazendo referncia a uma negligncia

velada. No existem benefcios, no existe horrio. Foi reforado que tal

situao se estende durante os oito anos de existncia da entidade. Os grupos

no tm superviso.

71

As apresentaes de projetos foram superficiais nos municpios, no projeto

Crami. Faltou um olhar tcnico. Foi proposto um projeto como se fosse apenas

investigativo, e no de tratamento e cura da instituio familiar.

O atendimento superficial. necessrio criar um diferencial. Existe uma

diretoria alienada do nosso trabalho. H uma distncia. Em uma OCIP, o

presidente se envolve, no existem critrios de avaliao do CMDCA. A

diretoria deve ter um envolvimento com a equipe. necessrio que o poder

pblico garanta as condies materiais. O Crami tem utilidade pblica, foi

votado na Cmara Municipal de Diadema. O problema passa pela prpria

valorizao que a instituio oferece aos profissionais. A instituio parece que

uma mercadoria, e no uma troca.

9 encontro

Data: 21.10.2005

Horrio: 14h s 15h30m

Participantes: Neide (assistente social), Silvnia (estagiria de servio social),

Maria (estagiria de psicologia), Ana Paula (psicloga), Christianne (psicloga),

Cristina (assistente social) e Carla (assistente social)

Tema: As mltiplas faces da negligncia

No que se refere ao projeto, foi interessante ampliar e tratar a questo das

polticas pblicas. A violncia tambm ocorre do macro para o micro, ou seja, e

a negligncia no ocorre s dentro da famlia: esta mesma violentada.

A famlia muitas vezes no se compromete com os atendimentos, ou projetos

scio-educativos, devido ao fato de as polticas pblicas tambm no se

comprometerem com estas.

Foi colocada a questo de as famlias serem selecionadas at para a escola.

Os projetos no comportam. Existe um processo de excluso com os quais

muitas famlias sofrem. Atualmente, o Crami Diadema tem realizado um

trabalho preventivo em relao violncia. Ele exerce um papel poltico, a partir

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do momento em que cobra vagas para crianas na escola, cobra do Conselho

tutelar algo necessrio. Existem vrias causas para a ocorrncia da violncia: a

falta de acesso, a falta de possibilidades, sendo a misria um grande fator.

Ocorre o fato de existirem famlias que no se olham, perdem o interesse e se

negligenciam, no aceitando nenhuma possibilidade. Foi colocada a questo de

o Crami fazer um trabalho especfico voltado para a negligncia. Era necessrio

contratar mais profissionais para isso. Seria importante realizar mais visitas, ter

mais esse cuidado com o outro, pensar sobre o trabalho, com novas

possibilidades de atendimento. Foi feita uma reflexo sobre o papel da

instituio como um todo, do pensar sobre o trabalho, sobre alternativas de

atendimento, reflexo. O Crami surgiu de um movimento que ocorreu em 1987.

Deve ser discutido o papel da instituio. A luta dela pelos direitos da criana

e do adolescente, e deve-se pensar em melhorias para essa luta no que se

refere ao trabalho, ao atendimento, s necessidades dos profissionais e das

famlias atendidas.

10 encontro

Data: 16.12.2005

Horrio: 14h s 17h

Participantes: Christianne (psicloga), Maria (estagiria de psicologia), Silvnia

(estagiria de servio social), Valria (psicloga), Cristina e Neide

Obs.: Neste encontro a Carla j no estava mais como funcionria do Crami, A

Maria estava se despedindo, pois iria para a unidade de Santo Andr e a

Christianne (Teia), tambm estava se despedindo, pois fora transferida sem

querer para a Unidade de So Bernardo do Campo. A Ana Paula e a Cristiane,

tambm, no participaram, pois, o projeto havia encerrado em novembro.

Tema: consideraes finais sobre os encontros

Cristina faz a abertura falando que esse ser o ltimo encontro e que seria

importante que cada um colocasse no que contribuiu e o que aprendeu com a

realizao dos encontros.

73

Neide relatou que acrescentou muito ao trabalho do Crami, diante da reflexo

sobre a questo da negligncia, que no s cultural, mas tambm estrutural.

Teia relatou que o grupo foi importante para discutir e sentir a negligncia,

diante do nosso trabalho no Crami. Seria importante que as outras unidades

pudessem ter a possibilidade de uma discusso sobre esse tema.

Para Valria, a reflexo propicia novas tcnicas de manejo e atuao

profissional no que se refere negligncia. As pessoas que sofrem com a

questo da negligncia necessitam de novas possibilidades, referncias.

Participar da discusso foi importante para trocar informaes, reflexes,

experincias e repensar as questes sociais envolvidas no que tange

negligncia. O grupo propiciou o pensar referente impotncia em relao a

alguns casos e situaes. Foi colocado a importncia do trabalho tcnico e o

interesse da instituio por esse tema. O grupo trouxe muitas informaes e

gratificao a todos os participantes. Pode-se pensar num novo conceito de

negligncia, um conceito do Crami, diante da realidade profissional.

Atualmente, constata-se grande nvel de violncia. Pode-se pensar que isso

pode ocorrer tambm por uma questo de falta de tica social. Torna-se

importante um espao de discusso dentro do Crami para pensarmos na

atuao dos tcnicos, na funo da instituio no que tange ao seu papel em

seu dia-a-dia. O espao de discusso favorece a possibilidade de

transformao na rede das famlias e a importncia do trabalho institucional.

74

CAPTULO 3

AS MLTIPLAS FACES DA NEGLIGNCIA

75

3.1. Do abandono ao significado da negligncia

A sociedade uma totalidade organizada por esferas (totalidades)

cuja (re)produo supe a totalidade maior, mas se efetua de formas particulares, com regularidades prprias.

(Maria Lcia Silva Barroco, 2003: 25)

Considerando o que j foi explanado nos captulos anteriores, neste captulo

abordaremos as mltiplas faces da negligncia: o olhar e os sentimentos que os

profissionais do atendimento nas situaes de violncia domstica contra

crianas e adolescentes desenvolveram sobre a categoria negligncia.

Antes de abordar essa categoria, entendamos que nosso objeto de pesquisa

seria o abandono, por se tratar de um tipo de violncia atendido pela entidade e

tambm porque acreditvamos que merecia uma ateno maior. At

chegarmos questo da negligncia que pode ser considerada um modo

especial de abandono - fizemos uma longa discusso sobre o significado do

abandono, aprofundando o tema a partir do olhar e da vivncia de cada

membro do grupo. esse caminho que descrito a seguir.

No contexto da entidade, a definio de abandono que norteia a ao a

seguinte:

O abandono caracteriza-se como a ausncia do responsvel pela criana ou adolescente. Considera-se abandono parcial a ausncia temporria dos pais expondo-a a situaes de risco. Entende-se por abandono total o afastamento do grupo familiar, ficando as crianas sem habitao, desamparadas, expostas a vrias formas de perigo (Claves Centro Latino Americano de Estudos de Violncia e Sade).

Entendemos que seria importante ir alm dessa definio e partimos para uma

discusso mais aprofundada sobre o tema. Como j foi exposto no captulo

anterior, importante salientar que no estvamos ainda buscando o

desvendar das situaes de negligncia, mas sim a compreenso do significado

do abandono na dinmica de atendimento do Crami.

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As discusses realizadas no grupo focal possibilitaram algumas aproximaes

importantes ao entendimento da categoria abandono. Nessas discusses foram

mobilizados sentimentos e levantadas algumas questes envolvendo as

instituies, a famlia e a sociedade.

Nas discusses dos membros do grupo, foi possvel observar que o abandono

e/ou a negligncia mobilizam quem os percebe, e a equipe profissional do

Crami acabou desenvolvendo uma sensibilidade maior na compreenso dessas

categorias, por se tratar especificamente de algo que se faz presente na

interveno profissional.

Logo no primeiro encontro foi aplicada a dinmica tempestade de idias, para

facilitar a discusso. Foi possvel apontar sentimentos que nos remetiam ao

abandono. Pela fala das pessoas, notamos o quanto o abandono nos mobiliza

e nos leva a apreender mltiplos significados. Permitiu apreender que, para

ns, o abandono:

perda, falta de ateno, no estar presente, vazio, baixa auto-

estima, falta de cuidados, falta de ateno. Essa palavra, tambm, muito complicada, acho que porque carregada de sofrimento. Para mim o abandono est muito ligado ausncia, no somente ausncia fsica, mas ausncia em todas as dimenses da relao. (Cristina, assistente social)

a falta de cuidado, a falta de ateno, deixar de proporcionar os cuidados bsicos (Neide, assistente social)

a falta de cuidados bsicos, mas, no s dos cuidados bsicos, eu

acho que reflete uma ausncia de ateno criana. Eu percebo, na questo do abandono, uma falta de vnculo, uma falta de comprometimento, e isto vai (na minha opinio) ocasionar uma violncia psicolgica30. Ento, o abandono, para mim, traz tudo isso. Ele muito grave. (Christianne, psicloga)

30 o conjunto de atitudes, palavras e aes dirigidas a envergonhar, censurar e pressionar a criana de forma permanente. Ameaas, humilhaes, gritos, injrias, privao de amor, rejeio, etc. (Crami - Campinas)

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Nesse momento, o grupo passa a discutir outros significados para o abandono,

acreditando que ele se configura no s na ausncia fsica, mas tambm na

ausncia de afeto, de ateno, de vnculo, de comprometimento, o que poderia

levar as pessoas que sofrem por causa do abandono a serem vtimas de uma

violncia psicolgica. No Crami de Santo Andr, desde o incio de suas

atividades em 1992 at 2001, foram registradas 272 situaes consideradas

como violncia psicolgica.

As discusses do grupo evidenciam que a famlia vista como um espao que

sofre influncias diretas de um abandono social. Para o grupo, esse abandono

configura-se na ausncia dos cuidados bsicos.

A me faz o filho sofrer, porque ela quer um filho forte. (Ana Lcia, psicloga)

Nas discusses do grupo, o papel da famlia aparece como um importante

espao na educao do indivduo, mas ressaltado que existe uma confuso

na forma de educar. Para o grupo existe uma forma de educar que busca

garantir sujeitos fortes. Em alguns casos apresentados na instituio, o

sofrimento foi justificado como meio de crescimento. Alguns participantes

argumentaram que o abandono comea a ocorrer no processo da educao: os

responsveis transmitem o abandono vivenciado, naturalizando-o os pais

deixam o filho sofrer para torn-lo um indivduo forte diante da vida.

Eu percebo muita confuso na educao das crianas. () Talvez as pessoas confundam o que educar para o mundo e o que educar para a famlia ou educar para o sistema. Assim, as pessoas esto perdidas, no conseguem entender a influncia do abandono social dentro de suas prprias casas. Eu acredito que o abandono social enfraquece as famlias, no sentido de que mesmo famlias que conseguem se adaptar e efetivamente lutar contra todo o sofrimento, toda privao, no conseguem ter fora contra esse abandono maior. Eu acho que o abandono muito mais prejudicial do que as pessoas percebem.(Valria, psicloga)

O sentimento de indignao e de impotncia fica muito presente na discusso.

Fica evidente que, quando vemos as situaes nossa volta, impossvel no

78

nos indignarmos e percebermos que, muitas vezes, tentamos nos neutralizar

para no sentir o quanto o abandono cruel.

(...) A gente tem que ter uma certa neutralidade e no deixar se envolver tanto com a emoo. De repente, quando a gente est indo embora e pra no farol, v aquela criana de uns 5 anos, l abandonada, no frio, suja, sem roupa adequada Eu vou para casa e no consigo no ficar indignada. Eu fico questionando: ser que eu estou comeando a adoecer? Ficando emocionalmente abalada a cada esquina, a cada farol? Vendo essas crianas e tentando s olhar para elas e desviar o olhar? No sentir o que elas esto sentindo, o frio que esto sentindo, a falta de cuidados, falta de proteo que elas esto sentindo ou mesmo a falta de amor, e todas aquelas coisas que elas esto passando? A gente no consegue se sensibilizar o bastante e tentar fazer alguma coisa diante do sofrimento de uma criana de 5 anos: noite, pedindo dinheiro no farol, no meio dos carros, podendo at ser atropelada. Ento, eu vou para casa com aquilo. Ao mesmo tempo que eu quero me desligar eu fico pensando se justa a vida. (Valria, psicloga)

A criana no farol, o adulto, as pessoas em situao de rua aparecem na

discusso como exemplos do abandono social. Pessoas que perderam ou

nunca tiveram acesso aos bens e servios da sociedade. As crianas aparecem

como as grandes vtimas dessas situaes, uma vez que os riscos so maiores,

pela idade ou mesmo pela sua condio fsica.

Diante da legislao vigente, tal situao no deveria ser comum, pois a lei

muito clara no que diz respeito proteo integral criana e ao adolescente.

No artigo 5 do E C A fica estabelecido:

Nenhuma criana ou adolescente ser objeto de qualquer forma de negligncia, discriminao, explorao, violncia, crueldade e opresso, punido na forma da lei qualquer atentado, por ao ou omisso, aos seus direitos fundamentais. (grifo nosso)

Quando nos deparamos com situaes como essas, fica evidente que existe a

omisso do Estado, da sociedade e da famlia. Ficou ressaltado que as pessoas

abandonam essas situaes, muitas vezes tentam desligar-se desses fatos e

no percebem o quanto vo deixando de lado o ser humano.

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Nessa situao, a gente tambm fica naquela angstia: ou eu me desligo ou eu tambm abandono. Porque a gente percebe que o abandono est mais presente na nossa vida do que ns imaginamos. A partir do momento em que a gente anda na rua e tem uma pessoa em situao de rua ou com sua famlia, enfim... Voc passa, e todo mundo passa, e isso no deixa de ser um abandono tambm (...) Voc deixa pra l, a, voc tambm abandona a possibilidade de dar sua opinio e de conhecer pessoas novas (...) ento, eu acho que o abandono sutil e ns no percebemos isso no nosso dia-a-dia, vivendo em uma sociedade capitalista, onde cada um, mesmo que no perceba, levado a uma vida egosta, ou seja, voltada para suas prprias coisas. Em muitas casas, em cada cmodo existe uma televiso, o que contribui para o distanciamento entre as pessoas (...) Ento, dentro dessa questo do abandono na sociedade est muito presente, e a gente acaba reproduzindo sem saber, sem se dar conta, porque muito sutil. A impresso que me d que ela (a sociedade) feita para no percebermos, porque tem a questo da ideologia, que a questo da falsa verdade. No se percebe a verdade, se coloca uma verdade que acaba se tornando natural. Ento, realmente, voc acaba no questionando nada. (Rosana, estagiria de servio social)

A sociedade capitalista marcada pelo acmulo do capital. A relao capital x

trabalho acaba contribuindo para as desigualdades sociais, o que provoca o

aumento de pessoas pauperizadas e sem condies de se manter, buscando a

rua como seu nico refgio. Na discusso, fica evidente o quanto a sociedade

abandona essas pessoas e o quanto todos so responsveis por tais situaes.

Para o grupo h uma falsa verdade, na medida em que no existe um

questionamento sobre esse abandono, sobre os fatos da vida, sobre a violncia

do cotidiano. A ideologia aparece como uma falsa verdade, pois se coloca

apenas uma forma de olhar que acaba naturalizando as situaes, sem um

questionamento que permitiria a ocorrncia das mudanas necessrias e a

transformao do quadro social.

No h um questionamento, no h um momento para se refletir, para pensar como modificar isso, at para se responsabilizar, pois, na medida em que a gente v uma criana no farol, uma pessoa em situao de rua, e todas essas outras questes, ns, enquanto participantes de uma sociedade, tambm temos que nos responsabilizar. Mas, numa sociedade que se constitui no individualismo, ningum se responsabilizar por nada. (Cristina, assistente social)

A questo do abandono vai tomando outra dimenso na discusso, passa a ter

outra conotao, no apenas o abandono do indivduo, da famlia, mas vai

80

aparecendo a responsabilizao de outras esferas, como, por exemplo, o

Estado, os polticos. A questo estrutural e econmica fica presente quando

enfatizada a no-distribuio de renda e a diviso de classes.

Na hora de apontar algum como responsvel complicado, mas o Estado, o poltico... sem se dar conta de que, muito alm dos polticos, existe tambm a questo da no distribuio da renda, da diviso de classes (...) Fala-se muito dos problemas sociais: onde esto os problemas sociais?Bom, a falta de escola, a falta de educao, da famlia. Marx vai dizer que um problema de estrutura, e estrutura o econmico, onde no se divide. Realmente a tendncia abandonar, cada um ficar na sua: no se meta comigo... Ento, eu acredito que muitos problemas surgem da. (Rosana, estagiria de servio social)

Uma das componentes do grupo acredita que nesta sociedade capitalista, o

indivduo levado a se proteger, e acaba perdendo os sentimentos, no

reagindo s situaes de violncia, como, por exemplo, as crianas jogadas na

rua.

(...) O ser humano, dentro do regime capitalista, comea a agir da mesma forma que a massa. Mas exigido dele que se proteja como indivduo, como ser nico. Ele se afasta do sentimento. Ento, ele pode at passar por crianas jogadas na rua. Mas ele tem que se proteger daquilo, ele tem que no sentir, no se emocionar, no levar pra casa. Ento, eu acredito que a individualidade est comprometida por causa da exigncia do individualismo no capitalismo. (...)A luta da gente pra ser um indivduo se perde diante da massa, se perde diante da auto - proteo para sobreviver (...). (Valria, psicloga)

A discusso revela que esse individualismo exagerado que as pessoas acabam

desenvolvendo para se proteger ou mesmo para no sentir o que ocorre sua

volta tambm acaba desenvolvendo outros sentimentos, que muitas vezes so

negativos: alm de no se envolverem com o que estranho a elas, acabam

por nutrir pensamentos destrutivos. Um exemplo citado foi a situao dos

jovens que atearam fogo em pessoas em situao de rua. O grupo entendia

que tais situaes so provocadas pelo tipo de individualismo desenvolvido na

sociedade capitalista.

81

Surgiu um questionamento sobre essas consideraes: o indivduo quer se

proteger, ou ser que ele tem limites?

(...)Em que medida se proteger e em que medida reconhecer limites: os nossos limites individuais, os nossos limites institucionais, o nosso papel enquanto cidado, enquanto pessoa, filha, me, esposa, namorada, enfim, profissional, o nosso papel, o papel do Estado, o papel da sociedade... Porque, quando ns falamos: este eu no posso chegar perto, porque est em situao de rua, fede ou vai me assaltar - voc pode estar se protegendo ou voc pode estar reconhecendo limites... ou, tambm, voc tanto pode evitar como pode agir diferente (...) Ento, seria nosso papel ir l e fazer o qu? Eu, Karla, pessoa, cidad, estou passando e vejo uma criana no farol - eu posso estar me protegendo ou posso acreditar que aquela uma situao social e que eu sozinha nada posso fazer? Se eu no me proteger disso?(Karla, assistente social)

Nessa fala fica evidente a preocupao em definir quais so os limites que cada

instncia possui. Sabemos que no Brasil so vrios os espaos que garantem a

proteo a crianas e adolescentes, espaos esses que apresentamos no

primeiro captulo desta dissertao. Portanto, fundamental que as pessoas, a

sociedade, os profissionais, as instituies, os polticos, o Estado etc. tenham

clara a importncia de notificar tais situaes para que de fato esses rgos

efetivem sua ao. Se deixarmos de lado tais situaes, estaremos nos

voltando para o individualismo e no sentiremos a necessidade de nos

mobilizar para a mudana desse quadro.

Eu acho que a Karla levanta uma questo. O que fazer? Hoje, na nossa sociedade, existem mecanismos de proteo criana que est em uma situao de rua, ou seja, Conselhos Tutelares, o prprio Crami. A partir do momento em que voc v, voc tem um impacto: se todos ns ficarmos pensando que temos que nos proteger sempre, vamos estar sempre nos voltando ao individualismo mesmo, para a nossa vida, e no vamos nos envolver com aquela expresso da questo social, com o abandono social, com o abandono que aquela criana ou que aquele morador, ou aquelas pessoas em situao de rua esto vivenciando naquele momento. Acredito que tem a ver com o que j foi colocado: que quando se percebe, quando se faz uma leitura da sociedade na qual se percebe que os problemas maiores esto ligados a uma estrutura, ento, no d para simplesmente se fechar e pensar no individual, temos que ter uma noo de totalidade mesmo, de estrutura, de conjuntura econmica/social, do macro, para que se possa intervir tambm nos micro - processos, ou seja, naquela criana que est no farol, na famlia que o Crami atende... porque se simplesmente ns formos nos proteger, e considerar que uma

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questo financeira, vamos fechar o vidro do carro e ir embora... qual a nossa responsabilidade enquanto pessoa, enquanto cidado? Acho que a entra uma questo tica, porque, quando nos preocupamos com a tica, acabamos por nos responsabilizar pelas situaes.(Cristina, assistente social)

A questo tica aparece como algo que vai alm do indivduo, vai alm da

atitude individual, ou seja, ela se expressa quando a pessoa se responsabiliza

pelo outro, pelo coletivo. Como Barroco aponta: a tica realiza sua natureza de

atividade propiciadora de uma relao consciente com o humano-genrico

quando consegue apreender criticamente os fundamentos dos conflitos morais

e desvelar o sentido e determinaes de suas formas alienadas; quando

apreende a relao entre a singularidade e a universalidade dos atos ticos-

morais; quando responde aos conflitos sociais resgatando os valores genricos;

quando amplia a capacidade de escolha consciente; sobretudo, quando indaga

radicalmente sobre as possibilidades de realizao da liberdade, seu principal

fundamento. (2003: 56).

Diante de uma estrutura fragilizada, de um sistema que no tico, de um sistema onde tem pessoas que administram o pas, o municpio ou uma famlia que no a utilizam... Quando utilizado esse processo de individualismo como justificativa para no ter uma ao que cobre da estrutura quando se est com dificuldade para lidar com suas habilidades... estamos falando diretamente da pessoa que se responsabiliza pelo outro, por uma ao, uma ao de administrar... ela utiliza a sua fala apoiada num discurso que aparentemente tico, responsvel e politicamente sistematizado, com planejamento para beneficiar a populao, os que necessitam e que, de repente, se corrompe por necessidades individuais e capitalistas. Ento a a gente v que eles facilmente passam pelo farol e passam por uma criana de 5 anos e fecham o vidro... eles no querem pensar se o sistema social e poltico est funcionando, eles no fazem denncias no 0800 porque tambm vo ter que responder por isso. Ento eu acredito que o abandono passa puramente pelo compromisso de cada um. (Valria, psicloga)

O grupo acaba refletindo sobre o papel dos polticos e a ausncia de

compromisso desse segmento da sociedade, o que acaba contribuindo para o

processo de excluso, ou seja, de abandono, na sociedade.

Alm desses pontos que destacamos sobre o significado do abandono, existem

fatores a ele relacionados, tal como este se expressa na sociedade, que podem

83

ser considerados internos (intra-familiares) e externos (extra-familiares). Os

fatores externos do abandono mobilizam os internos: por exemplo, a cultura do

abandono reproduzida nas relaes familiares, seja por meio da educao

(pois, se eu no tiver, no saberei dar), seja por meio da reproduo das idias

pelos mais diferentes meios de comunicao.

Foi observado pelo grupo que, no mundo capitalista, as pessoas esto

fechadas para o outro. As relaes so estabelecidas por intermdio dos meios

virtuais. Mesmo as crianas que mantm esse tipo de relao (virtual) esto se

distanciando das pessoas. Quando as relaes so estabelecidas por meio de

objetos, as crianas e os adultos perdem possibilidades reais de desenvolver

seus valores ticos. Existem diferenas no relacionamento com o meio virtual,

entre a criana rica e a pobre, no entanto, em ambos os casos existem o risco

de afastamento do mundo real.

Tambm, uma conseqncia das relaes do mundo capitalista o fato de

existirem cada vez em maior nmero crianas que no tm recursos e que vo

para a rua e l encontram uma gama de situaes de risco. A criana que sai

para a rua encontra freqentemente pessoas violentas, com as quais poder

aprender a ser violenta. Muito embora essa questo esteja em pauta na nossa

sociedade, ainda so poucos os recursos e cuidados disponveis para o

enfrentamento dessa situao.

Com toda essa discusso, observamos que o abandono apresenta-se de forma

muito prxima na nossa vida. Somos expresso da sociedade, ento o que

acontece nela acontece conosco, no nosso cotidiano. Os participantes do grupo

focal expressaram que, para eles, o abandono sempre ruim: no existe um

lado que possa ser considerado bom nele.

A tempestade de idias possibilitou uma discusso mais ampla sobre o tema, e

o grupo percebeu que o abandono muito maior ou muito mais importante do

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que aparenta. importante discutir as causas que o provocam para que

possam ser superadas. Para o grupo, o abandono aparece em todas as

situaes da vida cotidiana - enquanto falta de compromisso individual e

coletivo, ausncia - e mobiliza sentimentos de angstia. O abandono tambm

aparece em que situaes que, mesmo existindo as condies financeiras para

a famlia suprir suas necessidades, ele se expressa atravs da ausncia, da

falta, como um abandono na abundncia.

Eu vou falar sobre o meu sentimento diante desta tempestade de idias na qual ns tentamos entender o que o abandono. Ficou-me um sentimento de pena. [Pareceu-me] que essa tempestade, ao invs de purificar o ar e de ser uma coisa pela qual a natureza tambm se beneficia, vira enchente e prejudica tanta gente e acaba com os lares de tanta gente, com a vida das pessoas, com a expectativa das pessoas melhorarem... Ento foi isso: a tempestade do abandono deixou esse sentimento em mim. (Valria, psicloga)

O abandono agora [para mim] muito mais significativo do que eu pensava. Vai muito alm, no s do individual, mas tambm do social. Eu ainda penso que o descaso social, o descaso individual, um abandono. (Maria, estagiria de psicologia)

(...) o abandono est ligado a muitas coisas, at mesmo a essa

questo do deixar de lado... tambm est ligado a excluso (...) (Rosana, estagiria de servio social)

(...) penso que o abandono faa parte de uma falta de compromisso

individual e coletivo e que ns abandonamos e estamos abandonadas e no tendo claro o que estamos fazendo e o que deixamos de fazer (...) (Karla, assistente social)

O grupo considerou fundamental essa primeira aproximao para compreender

qual seria o tema central da discusso, a qual esteve baseada na experincia

de cada um, a partir da vivncia nas situaes de violncia domstica contra

crianas e adolescentes. O grupo entendeu que seria importante discutir o

abandono familiar, uma vez que a famlia sofre interferncias diretas da

sociedade na qual est inserida.

A famlia, na verdade, uma instituio. Ela reprodutora da ideologia e a ideologia tambm est na sociedade (...) a famlia traz para dentro aquilo que ela apreende fora (...) (Ana Lcia, psicloga)

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Na verdade a famlia funciona seguindo um padro mundial, ideolgico. S que ela tambm funciona com um cdigo. Ento, eu acredito que existem duas influncias a. uma via de mo dupla. As influncias so exercidas interna e externamente, e cada indivduo influenciado. Essa questo da ideologia fica muito forte, porque faz com que as pessoas acreditem que exista o certo a ser seguido e no uma verdade de cada um. (Valria, psicloga)

Faz com que as pessoas pensem que existe um modelo a ser seguido.

E a famlia foi modificando conforme a histria social. At os modelos de famlia foram modificando (...) (Maria, estagiria de psicologia)

Eu acho que uma questo minha, particular, mas acho que

independente da famlia sofrer essa influncia da parte das polticas pblicas, da parte [das relaes] sociais, externas, muito mais interessante trabalhar a famlia, por vrios aspectos, tanto das influncias que ela exerce e das transformaes que ela participa (...) ela muito mais rica, ento essa estrutura familiar, o que essa estrutura conseguiu transformar, criar, usar. Para que ela foi vista? Qual o objetivo que ela quer alcanar? Qual o papel que ela quer exercer? Ento eu acho muito interessante trabalhar a famlia (...) (Ana Lcia, psicloga)

Um dado da famlia que um ser humano no separado do outro,

comea da. No tem como separar. Voc pode at estudar desmembrando, mas, no final, voc vai ver no geral, tudo junto, no tem como, ento o que acontece dentro, acontece fora, um reflexo... Ento no tem que delimitar famlia, tudo tem uma influncia, voc est num contexto social, situacional do Brasil, de So Paulo, de Diadema. As polticas esto rolando a no mundo ...(Christianne, psicloga)

O grupo vai delimitando o objeto da pesquisa, com algumas discusses. Os

profissionais entendem que esse seria o foco das reunies, diante da real

necessidade da instituio. Mas ressaltam o cuidado que devemos ter, uma vez

que o sentido do abandono para o grupo, pode no ser o mesmo para as

famlias.

O grupo volta a discutir as interferncias da poltica na vida das pessoas, da

ausncia da efetivao das leis voltadas ao atendimento da criana e do

adolescente.

(...) Estamos falando de um sociedade hipcrita que tem o ECA e deixa as crianas na rua, onde existe um estatuto que no

cumprido, e uma hipocrisia danada fingindo que se cuida de crianas dentro no nosso pas e isso no verdade (...) A criana abandonada que vira uma famlia abandonada no tem identidade prpria. Quer dizer: no que no tenha uma identidade prpria, no tem uma identidade onde esteja fortalecida o suficiente para questionar ou mesmo sobreviver a todo esse sofrimento e tenha fora para sair dessa. (Valria, psicloga)

86

importante pontuar que para que a pessoa construa a prpria identidade (e

no vivencie apenas uma identidade atribuda) necessrio ter uma leitura

tico-poltica da realidade, ler por meio da forma como as coisas aparecem e

como realmente so, ter o olhar crtico para o cotidiano, para os

acontecimentos.

Como Martinelli ressalta: as identidades se constroem e se objetivam na

prxis, pela mediao das formas sociais... Condensam largos percursos

identitrios, longas trajetrias histricas de diferenciao e reconhecimento.

So snteses, sempre provisrias porque histricas, de mltiplas identificaes.

Afinal, como as pessoas, as identidades nunca esto prontas, transformam-se

na mesma medida em que se transformam tambm as condies scio-

histricas em que se deu o seu engendramento.31

Na verdade, importante ressaltar que no ser regra uma criana

abandonada virar uma famlia que abandona, mas, nas condies de

precariedade a que esto expostas, muitas vezes essa violncia se configura

intergeracionalmente, ou seja, se reproduz.

O grupo acabou por definir que deveramos discutir o abandono familiar, e

decidimos que estaramos apresentando um atendimento realizado pelo Crami.

3.1.1. Abandono: uma situao em atendimento

A situao apresentada pelos profissionais refere-se a um caso com

caractersticas de negligncia. No Crami, os casos atendidos como abandono

esto vinculados a situaes de negligncia pelo fato de no se ter clara a

dimenso do abandono. O caso foi assim relatado pela equipe:

A famlia tem uma cultura de negligncia. A genitora passiva, tem seis filhos e

um neto. O genitor no se importava com a famlia. Uma das filhas, 31 Fonte: A categoria identidade: uma primeira aproximao, elaborada por Maria Lcia Martinelli; material de apoio para o Curso Servio Social: identidade e contemporaneidade, em agosto de 2004(mimeo)

87

adolescente, apresentava postura parecida com a da me em relao

passividade. Essa filha engravidou, e o parceiro no demonstrou afetividade ou

interesse por esse fato.

O caso foi para o Crami com a notificao de abuso sexual, mas, aps o

primeiro atendimento, foi observada a gravidade da apatia da famlia. Houve o

encaminhamento para vrios projetos, mas a famlia no correspondeu s

providncias.

O beb que a adolescente teve estava desnutrido quando o atendimento foi

iniciado. A famlia no se mostrava preocupada com esse fato.

No histrico dessa famlia, constata-se que, quando a genitora da adolescente

veio para So Paulo, ela estava com mais ou menos 20 anos. Seu casamento

fora arranjado por seu pai. Eles vieram para So Paulo por imposio do

marido. Na poca, a genitora no emitiu opinio prpria. Parecia uma pessoa

anestesiada diante das situaes. Mesmo separada, seu ex-marido, mesmo

tendo outra famlia, s vezes mantinha relaes sexuais com ela.

Os membros da famlia apresentavam indiferena uns com relao aos outros.

As filhas casavam e a famlia sequer sabia onde moravam.

A apatia da famlia se expressa no ramo feminino, ou seja, uma questo de

gnero: as mulheres parecem no se indignar com sua condio de vida. Uma

das crianas da famlia comeou a participar de oficinas ldicas, e em uma

atividade fez o desenho da famlia com figuras masculinas, s com os homens

da famlia, as mulheres no apareciam de nenhuma forma.

A genitora tem trs filhos homens, trs mulheres e um neto (filho da

adolescente). Ningum estuda na famlia. O comportamento comum deixar

tudo acontecer. Todos lidam com as questes instintivamente, sem reflexes

racionais e sem uso de informaes sobre questes bsicas.

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O servio social iniciou os atendimentos e, em seguida, a psicologia comeou a

atender. A genitora mostrou-se depressiva e desmotivada. O beb estava

desnutrido, mas a adolescente e a av pensavam que estavam cuidando bem

dele, no percebiam sua situao orgnica. A criana simbolicamente

demonstrava toda dinmica da famlia, ou seja, a regresso, a desnutrio, a

apatia.

Percebeu-se que a famlia no possui um olhar para as crianas, no percebe o

que cada um precisa, e essa vivncia proporciona o abandono. A psicloga

observou que a genitora da adolescente, em terapia, teve um olhar infantil,

como se precisasse de cuidados, como um movimento de necessidade infantil

para que algo fosse suprido. Aproveitou ento as sesses diagnsticas para, na

medida de suas possibilidades, suprir essas necessidades.

Nos atendimentos teraputicos (quatro sesses) a que essa genitora

compareceu, ela no demonstrou ser negligente, no tendo faltado nem

atrasado s sesses. Foram sendo percebidas pela equipe algumas diferenas:

o beb apresentou melhoras, ou seja, uma reao; a genitora da adolescente

demonstrou interesse em voltar a estudar e falou da sua indignao em relao

ao companheiro.

No entanto, ela mudou de comportamento quando foi encaminhada ao grupo

de pais (procedimento institucional). Ocorreu o que se poderia chamar de

regresso ao estgio anterior. Foi percebido ento que ela precisava de um

espao individual para atendimento em que pudesse trabalhar questes

primrias, antes dos motivos especficos de sua ida ao Crami.

Por essa poca, foram realizados alguns encaminhamentos. Percebeu-se que

ela se sentiu pressionada, o que ocasionou o afastamento da famlia do

atendimento, alegando no consider-lo mais necessrio. O caso foi encerrado

devido a um limite institucional.

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No decorrer da apresentao do caso, foram surgindo alguns questionamentos

sobre a interveno dos profissionais. A criana com desnutrio estava com

nove meses e, segundo os profissionais da entidade e do posto de sade da

regio, era necessria uma interveno urgente.

A me da criana, uma adolescente, estava com 16 anos e, como foi pontuado

pela psicloga, no tinha noo da gravidade do caso, e muitas vezes agia

como a sua me.

A filha mais velha tambm passava pela mesma situao, ela ficava grvida de um rapaz, ficava junto e depois voltava para a casa da me, e em uma situao dessa de no se indignar, de aceitar, de ir levando e ir tocando a vida...(Christianne, psicloga)

Fica clara a questo intergeracional da violncia, como j foi dito anteriormente:

o abandono reproduzido.

A me, quando teve o filho, j estava separada do marido. Todos os outros filhos que ela teve era assim: ele a abandonou, constituiu outra famlia, mas a procurava para manter relaes sexuais e ela engravidava. (Neide, assistente social)

Interessante que ela falava na entrevista que ele (o marido) casou, e

tem outra famlia, e a gente perguntava: mas, escuta, voc no exige dele uma ateno, ou voc no exige que ele venha arrumar o seu tanque? Sim, arrumar o tanque, pois estava caindo no p dela... o banheiro sem vaso sanitrio, sem nada... e a ela respondia: Ah, mas ele no tem tempo, porque a mulher dele muito exigente, no deixa ele vir. (...)

O abandono vai mudando os valores das pessoas. o caso dessa mulher, na

medida em que ela no sente, no percebe o quanto est sendo prejudicada

com a ao do ex-companheiro. Ela no tem recursos para valorizar a sua

condio de mulher.

90

Essa situao se configura como uma forma de violncia, pois, existe uma

sutileza na relao: ele no se sente responsvel por ajud-la, nem aos filhos,

simplesmente os abandona.

Na medida em que a mulher atendida no Crami, ela vai criando um vnculo

com os profissionais e vai se percebendo enquanto pessoa. Ela nota o quanto o

ex-marido a deixa de lado.

Com relao mulher atual dele, a ela falou assim: Ah, mas com ela, ele faz tudo, por que para mim no? Ela no percebia que era uma questo dela, porque ela se largou. (Christianne, psicloga)

Na situao apresentada, os profissionais do atendimento vo analisando como

foi a interveno, os sentimentos deles e da famlia atendida, o que

observaram, o que ficou faltando, os problemas identificados na famlia tida

como negligente.

Estavam caracterizados os vrios tipos de violncia, intra-familiar e extra-

familiar. Essa famlia, conforme foi relatado, no possua condies materiais e

financeiras para sua subsistncia. Suas condies de moradia eram precrias;

inclusive aparece em uma citao que no existia geladeira na casa.

Estava embutido na relao familiar um abandono em torno de todos os

membros. O beb que estava com desnutrio grave no despertava maior

ateno.

Ns percebemos que o filhinho da adolescente de 16 anos estava desnutrido. Pegamos no p mesmo, falamos para lev-lo ao posto; ns acabamos levando-o ao posto, para ver ser acontecia alguma coisa. Arrumamos creche e ela no foi. Foi muito difcil para arrumarmos, mas ela no foi. Ns a questionamos: por que no? A voc pode arrumar um emprego, voc pode fazer um curso. Ela respondeu: Ah, no, eu quero danar hip-hop. (Christianne, psicloga)

Mas, e quando ela fala, por exemplo, com 16 anos que ela quer danar hip-hop, no seria a uma questo de responsabilidade que ela no queria assumir. De repente, acabou se vendo em uma gravidez, e o que ela queria era se divertir? (Cristina, assistente social)

91

Eu acho o seguinte: nos dias atuais ela quer danar, ela quer se divertir e ela tem esse direito... s que estudar... engraado, ns ficamos estimulando a estudar, mas uma coisa muito difcil, porque est impregnado na famlia, ningum ali tem essa tradio; pra que estudar? voc est viajando? (Christianne, psicloga)

Na situao de abandono fica muito presente a questo intergeracional, ou

seja, a violncia faz parte do ciclo da famlia. Para Saraceno (1992: 221), o ciclo

de vida familiar refere-se histria de cada famlia, sua evoluo e

transformaes no tempo. Tem a ver com o tempo cronolgico da durao, do

perodo de vida de uma famlia (ou de um indivduo), bem como com o seu

calendrio: os eventos que demarcam um perodo, ou fase. Implica em adotar

uma viso processual da famlia, quer do ponto de vista da sua estrutura, de

quem vive com quem, quer do ponto de vista das posies nela assumidas

pelos seus membros de vez em quando, quer, enfim, do ponto de vista do

contedo das relaes familiares. Os ciclos de vida individuais e o ciclo de vida

familiar entrelaam-se e so interdependentes.

Para Vitale (1999: 177), os acontecimentos da vida familiar se inscrevem na

multidimenso do tempo histrico, social e do peculiar de cada famlia. A

autora considera ainda que far parte do ciclo familiar algumas questes

centrais: a gerao, o gnero e a classe social, fatos importantes para serem

considerados quando se trata de famlia. Apoiada nas idias de Attias-Donfut32,

considera gerao uma idia universal, complexa e polissmica, que evoca vida

e morte, reproduo, tempo e espao... compreender a histria familiar... seus

smbolos temporais, sociais e histricos.

A questo do gnero, as relaes entre os sexos so ressaltadas no mbito

familiar. neste espao que se configuram as diferenas entre homem e

mulher. A classe social ser percebida a partir do contexto social e econmico

no qual a famlia est inserida. Esse espao privado (famlia) ir exerce uma

32 Ver mais: ATTIAS-DONFUT, C. Sociologie des genrations. Paris: PUF, 1988

92

enorme centralidade na vida das pessoas, mesmo com tantas mudanas no

decorrer da sua histria.

Aps as discusses sobre o atendimento realizado, o grupo passou a refletir

sobre o seu papel enquanto responsvel pelas mudanas nas intervenes

familiares.

Ficou claro que a me da adolescente necessitava de um atendimento

individual teraputico e acompanhamento sistemtico do social, mas, devido ao

limite institucional, foi encaminhada para o grupo de pais, o que a desmobilizou

para a continuidade do trabalho.

A psicloga que atendeu a me se posicionara contra a ida dela para o GOP33,

uma vez que considerava importante que continuasse no atendimento individual

e receava que o seu encaminhamento para tal atendimento levasse a famlia se

a afastar-se da instituio.

interessante: a gente estava falando que ela se nutria, como se ela estivesse mamando; engraado porque agora me veio lembrana o olhar dela para mim; ela via em mim a me, a figura materna. (Christianne, psicloga)

Nesse trecho fica evidente que o adulto se tornou criana por conta do

abandono que vivenciou ao longo da sua vida. O emocional passou

desapercebido. Ela se sentia abandonada pela famlia, pelo ex-companheiro,

pelos filhos, pela vida e por ela mesma. A profissional acabou suprindo essa

necessidade, na medida em que se aproximou e a viu como uma pessoa que

necessitava de ateno.

Mas naquele momento eu olhava para ela com carinho, como se ela

estivesse esperando de mim o mximo que eu podia dar e eu dava 33 O grupo de orientao aos pais- GOP do Crami foi criado em 1.998, com a finalidade de possibilitar um espao de sensibilizao e reflexo sobre a questo da violncia domstica contra crianas e adolescentes a partir da vivncia dos pais e/ou responsveis.

93

ateno... eu senti que era uma criana mesmo, que eu tive que pegar no colo e fazer todo o movimento para que essa criana de alguma forma reagisse. Mas o afetivo muito importante, o olhar do psiclogo, do assistente social... O olhar mesmo, no s tcnico, mas o olhar, o olhar... (Christianne, psicloga)

A sensibilidade e a responsabilidade, porque eu acho que a partir

desse momento em que ela se entregou a voc- e isso quer dizer instituio tambm-, eu acho que esse um ponto para refletir as aes, os atos, de como os profissionais acabam atendendo, envolvendo a pessoa... de certa forma mudando algumas situaes e perdendo. (Cristina, assistente social)

E ela precisava de uma ateno, talvez ela fosse como um beb que

precisa de uma ateno da me. Ali, s para ela... porque ela nunca teve. O pai fez ela se casar com um cara, nunca ningum levou em conta os sentimentos dela... Talvez, num atendimento de grupo, isso ficasse mais diludo. Porque no era ela a pessoa, era o grupo... um trabalho de orientao. Diferentemente do que eu estava fazendo numa entrevista individual: eu perguntei da vida dela, eu me interessei, quis saber a histria dela, a trajetria de vida dela. Pode ser que tenha sido ali, porque eu acho que s vezes a gente tem alguns procedimentos no Crami... Sabe? Essa coisa de ter que ir para o grupo e s vezes no tem que ir. Existem alguns trabalhos que so padronizados.... (Christianne, psicloga)

Mas tambm tem aquela coisa muito padronizada, e eles so

desanimados tambm. No d para atender todos os casos. (Neide, assistente social)

No, no d, por isso que eu acho que entra a avaliao de cada caso:

tem caso que d para ir para o grupo, tem caso que no d. Foi uma avaliao, mas ela ia para uma terapia; na verdade eu no tinha aplicado nenhum teste nela, eu no precisava aplicar, eu j sabia o que ela tinha... ela tinha um abandono total de si mesma, um abandono da famlia, ela sempre viveu isso. Ela precisava dessa ateno, talvez para ela acordar. Depois ela iria para uma terapia. Na verdade, essa avaliao foi praticamente uma terapia, porque estvamos falando de coisas dela. (Christianne, psicloga)

E a, quando voc pediu para ela ir para o grupo, ser que ela no

sentiu como um abandono? (Valria, psicloga) Pode ser, mas eu ia continuar a avaliao com ela... e voc sabe que

depois disso eu comecei a rever um monte de casos e eu estou atendendo... eu falei: olha, Neide, no caso para grupo agora, porque eu percebi no atendimento individual que ela no est preparada, ela vai embora!. A gente s aprende errando. E a acho que nesse caso foi um erro. (Christianne, psicloga)

Na medida em que o grupo identificava os sentimentos, os desejos, os limites

na ao profissional, percebia o quanto estava contribuindo para uma rede de

abandono e negligncia. Percebia tambm que, nos erros poderiam surgir

94

acertos e que muito importante avaliar as situaes e ser flexvel,

principalmente em se tratando da questo da violncia. Ficou evidenciado que a

questo do abandono mobilizava o fazer e a construo de novos saberes.

A ltima entrevista com ela foi em setembro de 2004. Depois ela no veio mais. Elas no levaram o beb na creche. A gente entrou em contato com a Unidade Bsica de Sade, onde eles falaram que a situao do beb era complicada porque elas nunca acatavam as orientaes. As tcnicas da UBS no conseguiram fazer visitas, mas ns fizemos algumas para tentar sensibilizar, levar para a creche, mas no adiantou e pedimos a interveno do Conselho Tutelar, o que tambm no resolveu. Ento, encerramos o caso e mandamos para o Judicirio. Encerramos em fevereiro de 2005, porque esgotaram os procedimentos institucionais. (Neide, assistente social)

Questionando a ao profissional e os limites institucionais, chegamos

concluso de que, para se configurar uma situao de abandono, necessrio

que exista anteriormente uma situao de negligncia.

Nesse encontro foi ressaltada a impotncia do profissional e a fragilidade do

trabalho em rede no atendimento criana e ao adolescente do municpio.

Mesmo quando existe, ainda falta uma efetivao maior para que se garanta a

proteo integral, conforme o Estatuto da Criana e do Adolescente.

Passa a surgir outra dimenso do abandono, ou seja, a responsabilidade das

instituies pelo atendimento direto s situaes de violncia domstica contra

crianas e adolescentes.

Eu acho que o nico perigo da gente ficar falando que limite institucional [ a possibilidade] de se achar que esse limite maior do que se pensa e no encontrar possibilidades de atuao. Ento, eu acho que muito perigoso se falar muito no limite! Porque, assim, o que a gente sabe que tem limites, mas que tem tambm possibilidades deles serem ultrapassados, de ir alm das dificuldades. Ns temos que acreditar nisso... Eu acredito, mas sempre dentro da realidade. o seguinte: tomar cuidado para no ficar sentindo e comear a se comportar da mesma forma que os indivduos [com os quais se trabalha], justamente porque o que acontece, na questo que estamos estudando, que ns ficamos muito dentro da instituio, sem poder discutir [entre ns e com os outros] o que preciso nos atendimentos. Quando a instituio no preza a sade e o desenvolvimento do profissional, ela impede que ele fique, que tenha condies saudveis

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para enxergar outras possibilidades. Porque se a gente est aqui, lidando com recursos limitados, no conseguimos enxergar outra coisa, porque ningum consegue. Agora, a partir do momento que a gente tem contato com coisas novas, alm de conseguir ultrapassar alguns limites, estamos cuidando da nossa sade mental. (Valria, psicloga)

Eu acho que a Instituio abandona a gente. (Christianne, psicloga) A, nesse caso especfico, eu acredito que uma das formas de

realmente estar colocando a responsabilidade dos profissionais seria redigir um timo relatrio. Porque voc o est enviando para o Frum, onde ele passa pelo setor tcnico. E colocar de fato quais so os limites institucionais e quais so os riscos uma forma de voc estar garantindo que eles dem continuidade ao acompanhamento que a gente fez. Isso no ir amenizar o sentimento de impotncia, porque eu acredito que trabalhar em uma instituio que lida com a sade mental- porque o Crami acaba lidando com isso, com os sentimentos, com as mudanas, com as transformaes-, isso traz para os profissionais uma impotncia tremenda. (Cristina, assistente social)

...Existe toda uma rede de ateno, que se o trabalho no estiver junto

quela rede, no ir funcionar... A creche teve o mesmo olhar que o nosso, o departamento de educao ficou sensibilizado... e confirmou a vaga na creche por se tratar de prioridade... confirmou o que a gente colocou. (Neide, assistente social)

Na questo da violncia domstica, devemos ter claro que a nossa atuao

deve ser compartilhada, porque no conseguiremos melhorar as situaes na

famlia de forma individual. necessrio o envolvimento da rede de ateno de

forma integral.

Para mim a questo da reproduo. O que ficou claro neste caso foi a questo da reproduo do abandono, uma reproduo geracional. Para mim fica sempre uma questo no ar: porque o abandono parece no ter limites, sempre esto surgindo algumas questes diferentes, algumas questes para as quais no temos respostas. E, ainda, existem alguns vcuos nos prprios acompanhamentos dessa famlia. Eu acho que ns vamos tentar preencher esses espaos nessas discusses, sem querer achar, logicamente, que vamos modificar a interveno, ou esgot-la. Porque ns no vamos esgotar, mas talvez trazer, nesse grupo focal, alguns subsdios, outras maneiras de intervir, porque so situaes que simplesmente no se consegue conhecer, e pronto, acabou, uma situao que no tem jeito... No, eu acho que existem outras possibilidades de interveno. (Cristina, assistente social)

Eu penso que quando o Crami encerra um caso, tem vrios motivos e,

realmente, algumas vezes a famlia no adere e esse foi o caso. Ns temos mais que refletir: quando a pessoa muda de endereo, tudo bem, mas e os casos que no aderem? A eu acho que sim: nesse sentido, ns acabamos sendo negligentes e abandonamos. Quando

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no paramos para refletir: por que que abandona? por que ele no vem?, nesse ponto eu acho que estamos abandonando mesmo e reproduzindo esse abandono... a gente podia at fazer uma pesquisa: por que se abandona, por que que eles abandonam, por que a gente no pra para discutir isso? Ns estamos abandonando: que horror! E s esperamos o Frum mandar [de volta as situaes para nossa interveno]. A gente tem que pensar nisso, eu acho que temos que parar para refletirmos... (Christianne, psicloga)

Foi pontuada pelos profissionais a questo do refletir, do estudar, da busca de

uma compreenso mais aprofundada sobre o tema, ressaltando inclusive a

possibilidade de mudanas nos critrios institucionais.

A gente priorizava sempre a violncia sexual, porque mais grave. Bom... mais grave por qu? Ser? uma pergunta. Um questionamento, ser? Bem, eu pelo menos estou atendendo vrios casos de negligncia, e o meu olhar sobre essa violncia diferente. Eu acho que o Crami tem que trabalhar mais com esse tipo de violncia, porque tem uma questo cultural muito forte, acho que mais que as outras, de abandono, sabe? Tem o abandono social, macro/micro, que envolve tudo. Acho que o Crami tinha que fazer um trabalho especfico para a negligncia, talvez no encerrar to rpido ... (Christianne, psicloga)

uma questo... ento estamos lidando com seres humanos, certo? E

a vida de um ser humano no tem preo, no tem tempo, ela importante, e eu acho que, por isso, toda instituio que lida com vidas deve ter um outro olhar, uma sensibilidade maior para saber se realmente est atendendo aquela necessidade que chegou at ela. (Cristina, assistente social)

A partir dessa discusso, fomos nos aproximando mais das situaes

configuradas como negligentes, e diante desta reflexo partimos para buscar

uma compreenso dos significados dessa categoria, a negligncia.

97

3.2 As mltiplas faces da negligncia

3.2.1 Na perspectiva dos profissionais de atendimento nas situaes de

violncia domstica contra crianas e adolescentes

O grupo observou que, na grande maioria das situaes em atendimento no

Crami, o fator predominante para configurar negligncia a situao

socioeconmica da famlia. Ou seja, foi analisado que, na verdade, no existe

uma intencionalidade por parte da famlia de abandonar ou mesmo de ser

negligente, mas h um fato concreto, que a ausncia de condies materiais

para suprir suas necessidades reais.

Agnes Heller, baseada em Marx, esclarece que na sociedade capitalista o

aumento da produtividade somente se baseia na correlao da quantidade do

valor de uso: elevando a riqueza material da sociedade, satisfazendo ao mesmo

tempo e produzindo necessidades (1986: 27).

No mundo capitalista se produz muita riqueza e, cada vez mais, mltiplas

necessidades. Dessa forma, as necessidades so parte efetiva das relaes

econmicas, porque possibilitam a produo de mercadorias, transformando-as

em valores de uso e, portanto, em consumo. Para Marx, segundo Heller, a

categoria necessidade est presente tambm nas determinaes da vida social.

Heller aponta que, nos Grundrisse, Marx considera a capacidade de consumo

como fonte das necessidades da sociedade capitalista e distingue as

necessidades produzidas pela sociedade das necessidades naturais. Em

sua aspirao incessante pela forma universal da riqueza, o capital impulsiona

o trabalho para alm dos limites de suas necessidade naturais e cria assim

elementos materiais para o desenvolvimento da rica individualidade, to

multilateral em sua produo como em seu consumo (1986: 29).

Para Heller, desde os Grundrisse at o terceiro livro do capital, a categoria

necessidades naturais no muda de significado, mas seu conceito vai se

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modificando para necessidades necessrias. Nesse texto, as necessidades

naturais se referem manuteno da vida humana (auto-conservao) e so

naturalmente necessrias, uma vez que, sem sua satisfao, o homem no

pode conservar-se como ser natural. Em O Capital as necessidades

necessrias so aquelas surgidas historicamente, e no dirigidas mera

sobrevivncia, na qual o elemento cultural, a moral e os costumes so decisivos

e cuja satisfao parte constitutiva da vida normal dos homens pertencentes

a uma determinada classe de determinada sociedade (1986: 31).

Se tomarmos como ponto central de discusso a categoria necessidades

necessrias, poderemos compreender que a no-satisfao das necessidades

apontadas anteriormente pode ser considerada uma situao negligente. O

sujeito dessa ao pode estar situado na famlia ou nas instituies, na

sociedade ou no Estado.

No decorrer das discusses do grupo, analisamos as situaes de

abandono/negligncia atendidas pela instituio. Pudemos ento observar que

existem vrios outros aspectos que contribuem para esse quadro.

Em uma das discusses do grupo, ficou evidenciada a existncia de uma

negligncia que se poderia considerar institucional. Os prprios profissionais

explicitaram sentimentos em relao a tal situao. No queremos aqui apontar

que a instituio est equivocada na sua interveno, mas importante mostrar

que existe uma relao cclica e compartilhada na violncia. Em se tratando das

situaes de negligncia, isso aparece de forma sutil: nos nveis salariais dos

profissionais e na ausncia de vnculos empregatcios, o que no os estimula

para um trabalho de qualidade e contribui para o permanente revezamento de

tcnicos nas instituies; na diferena salarial entre psiclogos e assistentes

sociais; na falta de apoio logstico para a sua atuao; no no investimento em

formao bsica e em formao continuada (superviso); na no previso de

99

espaos de reflexo, na quantidade de profissionais para o atendimento direto

etc.

Alm desses aspectos, o grupo de profissionais pontua:

Vocs lembram da nossa primeira discusso? O que ficou presente na relao com o abandono foi a questo estrutural, a situao scio econmica, que leva a famlia a abandonar. Alis, existe uma srie de fatores. Ficou evidente que no Crami o motivo pelo qual a famlia abandona a situao financeira, mas observa-se que elas no querem abandonar, ento isso um dado. Mas, hoje, o que vemos aqui que existe uma mudana freqente dos profissionais, e isso tambm um dado, no existe uma continuidade no trabalho, e essa questo no acorre somente no Crami. (Cristina, assistente social)

Dentro do contexto do Crami, como j foi citado no captulo anterior, o que

notamos nas atividades do grupo focal a grande circulao desses

profissionais. Observamos que somente algumas pessoas da equipe estavam

registradas e dentro da legislao trabalhista vigente; outros profissionais

encontravam-se na condio de prestadores de servios, mas cumpriam

horrios e aes como se estivessem registrados na entidade.

As estagirias tambm se mostraram insatisfeitas com o valor do salrio, motivo

que provocava a freqente mudana de pessoal. importante ressaltar que, no

perodo entre novembro de 2004 e dezembro de 2005, saram da instituio

trs assistentes sociais, duas psiclogas, uma estagiria de psicologia e quatro

estagirias de servio social.

Os profissionais expressaram seus sentimentos com relao a essa questo.

Consideram que existe, por parte da instituio, um abandono velado, ou seja,

no se fala, no se discute, no se buscam outros caminhos para a mudana

de tal situao.

Ento, assim, um desrespeito maior da instituio com o profissional. Ele acaba tendo que parar com o trabalho dele, tem que parar com os atendimentos. (Carla, assistente social)

100

O usurio mesmo como que fica? (Christianne, psicloga) Claro! Como que fica nessa situao? Porque o Crami, o objetivo, na

verdade, promover a famlia, em virtude de uma situao especfica, que a violncia. Dessa forma, quando voc trabalha com isso, voc no ir trabalhar de uma forma imediata, voc deve ter contato, tem que realizar o acompanhamento contnuo com a famlia, precisa ter uma certa freqncia no acompanhamento, porque seno no ir atingir o objetivo da instituio. (Cristina, assistente social)

Os profissionais enfatizaram que na interveno junto famlia, vai se criando

um vnculo entre o profissional e os membros dessa famlia. Existe uma

atmosfera para o entendimento da dinmica familiar, e, na medida em que os

profissionais mudam com freqncia, como vem ocorrendo, esses vnculos vo

se modificando, at que a famlia acaba abandonando o tratamento.

... As pessoas no te contam tudo, ento existe um certo descaso... (Carla,assistente social)

Os profissionais ressaltam a importncia de a instituio parar para refletir

sobre essa questo, uma vez que a qualidade do atendimento que est

envolvida.

Eu fico pensando como que fica a auto-estima do profissional, como que ele vai trabalhar com as famlias que abandonam. De uma certa forma, a auto-estima delas est l embaixo, por vrios motivos: econmicos, polticos, sociais, sexual, histrico, cultural... Como que fica? Porque o nosso projeto central, nosso trabalho recuperar a auto-estima, esse amor, esse vnculo, essas relaes, mas somente em dias (de atendimento) fica uma coisa meio esquizide, estranha, eu falo uma coisa e fao outra. (Christianne, psicloga)

Fica enfatizada nessa fala a importncia da continuidade do atendimento e

tambm a relao com o objetivo proposto pela instituio. Emerge tambm o

significado que dado ao trabalho dos profissionais da instituio e o quanto

isso interfere na interveno direta.

Os fatos apontados pelo grupo - a falta de verba, a ausncia de vnculo

empregatcio, a no-garantia do trabalho -.repetem-se em outras organizaes

101

no-governamentais. A situao ocorre em todo o pas, devido questo do

mercado de trabalho.

A carncia de profissionais provoca na demora no atendimento, o que prejudica

a interveno da instituio nas situaes de violncia.

Existem vrias situaes. Tem lista de espera do atendimento psicolgico que est demorando desde 2001. E assim s vezes aquele caso grave, que voc vai l em cinco anos, que a menina j teve o beb, j est casada... o agressor faleceu. E no servio social s vezes tem casos que tem dois anos de espera. (Assistente social)

Existe uma diferena entre a parte administrativa e o corpo tcnico que

est ali, que est prximo no dia-a-dia, que realmente d o seu trabalho... O profissional, por mais que tenha sofrido, ele no demonstra de forma alguma para quem ele est atendendo. Ele est ali, ele est de qualquer forma por inteiro. Seja o que for, ele est ali para dar um atendimento por inteiro. Ento eu acho que diferente a forma de lidar: ah, no ns, nos preocupamos quando entramos no emprego. Como que vai abandonar o caso ?Algum saiu, como que vai ficar? E agora, na parte administrativa, diferente: voc saiu, saiu! (Carla, assistente social)

Aqui n temos uma preocupao. Quando algum sai e no se

preocupa, no est em equipe. O que eu mais admiro, o que eu mais gosto daqui isso. O que eu percebo que os profissionais gostam do que fazem, e parece que o mnimo de resposta que eles tm que dar parece uma grande coisa. Eu acho que isso o trabalho de uma psicloga, de uma assistente social, porque s vezes no conseguimos uma grande coisa. Vamos conseguir uma coisa aparentemente pequena que vai fazer com que acontea futuramente uma grande mudana... uma aproximao... o trabalho da equipe e at a unio da equipe uma das coisas legais do Crami. (Maria, estagiria de psicologia)

fundamental, ainda mais para trabalhar com uma situao de

violncia domstica, que no fcil, pelo fato de ter atendimentos que no so fceis. Tem pessoas que s vezes chegam no Crami e contam situao de caos. (Cristina, assistente social)

E isso mexe com questes pessoais. (Neide, assistente social) Questes pessoais, porque os valores ns no deixamos pendurados

l fora, ns sempre carregamos eles, e o quanto importante sabermos isso para no interferirmos nos atendimentos com os nossos valores. (Cristina, assistente social)

Em uma aula o meu professor disse: vocs no tm que colocar o

valor pessoal de vocs no grupo, porque cada pessoa uma pessoa com sua histria de vida diferente, coisas que aconteceram que iro influenciar na dinmica deles com outras pessoas e nas suas

102

relaes... eu acho que isso em tudo, para todos os tipos de atendimento... voc tem o profissional que tem os seus valores internos, mas esses valores no tm que afetar o outro diretamente. Voc tem que trabalhar com o que o outro traz para voc e sua possibilidade de ajuda. (Maria, estagiria de psicologia)

Eu acho que nessa discusso ns passamos por um processo,

primeiro do desnimo, do descrdito, sentindo-nos desvalorizados, e depois ns dissemos algumas coisas que nos motivaram, que so os atendimentos. Ento, assim, o que mais importante o atendimento mesmo, tentar fazer o melhor pela famlia, e quando estamos no atendimento esquecemos todas as nossas insatisfaes... Deixamos de lado o individual... Deixamos nossas questes com relao instituio e pensamos no atendimento. Eu acho que isso faz o nosso trabalho, e a ns nos motivamos no atendimento... (Neide, assistente social)

O interessante que ns nos motivamos muito, somos profissionais

amadurecidos... e isso percebo em todo mundo aqui, a possibilidade de se indignar, de se comover, de se preocupar muito. E todo mundo aqui assim, vezes nos desanimamos, porque tem o desnimo pessoal, tem o problema pessoal, s que ao mesmo tempo, existe uma motivao da equipe... uma torcida para que aquele ser melhore e consiga sair dessa condio e possa construir novas relaes. Ento assim uma motivao conjunta, um esforo conjunto. (Neide, assistente social)

O grupo, na discusso, fez referncia ao abandono que sente por parte da

instituio, mas em momento algum seus integrantes se colocaram como

pessoas no envolvidas nas situaes. Inclusive, citaram outra situao do

atendimento, na qual os profissionais que realizaram a interveno perceberam

o quanto importante o trabalho do Crami na vida de pessoas que esto

abandonadas.

... Vocs colocaram o sentimento de vocs com relao ao abandono que esto sentindo em relao instituio, o que voc esto sofrendo, mas, olhem onde ns chegamos, num atendimento do dia-a-dia, no cotidiano de atendimento. Existe um acreditar, uma possibilidade de mudana dessas famlias. Acredito que essa situao do abandono que vocs sentem em relao instituio um dado importante que no se pode deixar de discutir. Tem que colocar para fora, tem que tentar discutir de uma forma coletiva, para conseguir uma alternativa de mudana, porque o trabalho importante, surte efeito, a longo prazo. importante um trabalho contnuo. (Cristina, assistente social)

Ficou evidenciada a importncia de se discutir tais situaes, os problemas que

acarretam interveno na medida em que a prpria instituio no assume

103

suas responsabilidades enquanto parte integrante desse ciclo de violncia.

Como j foi apontado anteriormente, a proteo integral criana e ao

adolescente compartilhada, e para que isso acontea necessrio um

envolvimento maior, um comprometimento de todas as instncias envolvidas.

Nas situaes de violncia domstica contra a criana e o adolescente, o fator

tempo importante, pois so vrias as situaes em que o profissional

necessita tomar atitudes rpidas e precisas para garantir a proteo integral,

mas, para que isso ocorra, a instituio deve oferecer respaldo equipe, para

que no acontea uma interveno abandonante.

Olha, eu comecei essa semana, mas estou terminando muito feliz essa semana, por causa dessa adolescente (atendimento realizado) que me tocou muito. Eu acho que sempre tem que ter uma esperana, tem que ter f. Eu acho que o nosso trabalho est diretamente ligado f. No estou falando de f religiosa, ou tambm, de acreditar... Esse momento de reflexo muito importante, ns precisamos desse momento! Acho que isso traz para mim um renascer, para poder falar, desabafar e crescer mesmo, discutindo, colocando... Ns precisamos disso, porque no temos esses momentos. muito corrido aqui no Crami. Ento a gente parar para discutir, muita energia... comear a semana de uma outra forma. (Christianne, psicloga)

3.2.2 Na perspectiva da sociedade e do Estado

Para que o grupo refletisse mais sobre a negligncia da sociedade e do Estado,

foi apresentado um texto sobre as Aproximaes ao conceito de negligncia,

construdo pelos membros do Ncleo de Estudos e Pesquisas sobre a Criana

e o Adolescente da Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo, do qual a

coordenadora a Profa. Dra. Myrian Veras Baptista, orientadora desta

dissertao.

O artigo no havia sido publicado na revista de servio social e foi apresentado

ao grupo focal para leitura e consideraes, como uma contribuio para as

reflexes. O texto foi publicado, posteriormente, na revista Servio Social &

Sociedade n. 83, Ano XXVI Especial 2005.

104

Para o grupo, foi importante a discusso do texto, uma vez que no existiam

documentos que pudessem subsidiar as discusses e que apresentassem de

fato um novo olhar sobre a negligncia.

Algumas consideraes do grupo focal:

Eu acho que foram abordadas muitas questes, e que d para entender que existe um fluxo natural de negligncia na sociedade e que, hierarquicamente, que quanto maior poder, mais condies de conseguir proteger ou ter responsabilidade de assumir dentro da sociedade pela situao da comunidade ou mesmo do indivduo, mas as pessoas, quando no assumem essa responsabilidade, se fazem negligentes. Agora, assim, so vrios aspectos que podem somar a sua responsabilidade. Agora eu fico pensando por que disso, por que as pessoas ficam numa posio em que elas so responsveis pelo outro ser humano, assumem cargos que so responsveis pelo funcionamento da sociedade ou das instituies e num determinado momento no conseguem se responsabilizar pelo prprio contrato, contrato de responsabilidade. Eu fico imaginando por que antes eu pensava assim, que, diante da pobreza e de tanta privao, a pessoa no consegue assumir, porque ela no tem condies mentais e econmicas, mas a eu fico pensando nas pessoas com um melhor poder aquisitivo. Ento por que no assumem? Entra a questo dos vrios aspectos da negligncia, do descaso, de estar desviando o foco de ateno das responsabilidades para questes pessoais... As pessoas desviam os seus valores... E eu acho que a corrupo um outro tipo de negligncia, mas a eu fico pensando: Ser que esse tipo de negligncia, de falta de responsabilidade, tambm no depende de uma sade mental ? Ser que tanto a pobreza como a riqueza no proporcionam essa falta de sade mental? Quando falamos de injustia, quando falamos da pessoa assumir o poder, e comear atravs de benefcios, e de se corromper. Eu acho que existe uma questo de sade mental tanto na pobreza quanto na riqueza, quando a pessoa tenta abdicar atravs da falta de responsabilidade, negligenciando as pessoas que elas tm que proteger. Eu acho que uma questo de sade mental, vai perdendo os seus valores. Porque, quando ela perde os seus valores, ela j no v o outro como uma pessoa de valor. (Valria, psicloga)

O grupo coloca em evidncia a questo da responsabilidade de pessoas ou

grupos que assumem cargos de responsabilidade perante a sociedade e que,

de uma certa forma, no assumem o seu papel e utilizam-se do poder para

atender a suas necessidade individuais. Essa questo permeia toda a

discusso.

105

Parece que a negligncia, ela est em todas as situaes, em muitas situaes, tanto em classes menos favorecidas quanto em classes mais favorecidas, mas o contexto da negligncia muda. Existe a questo da sade mental, existe a negligncia cultural e at a negligncia por falta de condies financeiras, condies adequadas de moradia... (por exemplo). A pessoa quer trabalhar e no tem quem fique com seu filho, tem que deixar a criana sozinha e isso uma questo de negligncia, mas envolve a questo da sobrevivncia. (Maria, estagiria de psicologia)

No texto, apontada uma negligncia intencional e uma no-

intencional, porque a pessoa no poderia ser responsabilizada por aquilo, ou seja, ela no tem o respaldo financeiro, econmico, ela no tem condies de se manter, de manter a criana, ela acaba sendo negligente, e a ela vai ser culpabilizada por isso? Porque no estatuto (ECA), est muito claro quem o primeiro responsvel, a famlia...ser que de fato elas so negligentes ou ser que esto sendo negligenciadas ? (Cristina, assistente social)

O fator intencionalidade importante de se discutir, uma vez que pessoas que

esto em situao de privao, de abandono pela sociedade e pelo Estado no

devem ser culpabilizadas pela negligncia. Podem estar nessa situao pela

ausncia de condies materiais, o que muitas vezes permeia a ausncia de

polticas pblicas que dem conta desses problemas. Entretanto, a

intencionalidade se configurar na medida em que os responsveis pelo

atendimento de uma necessidade, possurem as condies necessrias para

supr-la e no o fizerem.

Eu falei de uma negligncia hierarquizada, mas eu acho que desencadeada... porque eu acho que ela desencadeada de alguma forma pelo poder, pelo poder das pessoas que podem, que poderiam estar protegendo, que poderiam estar fazendo alguma coisa realmente atravs das suas vontades, dos seus valores, do seu poder econmico, financeiro, e acabam negligenciando... (Valria, psicloga)

Essas pessoas seriam o Estado? (Cristina, assistente social) Eu diria o Estado, mas tambm o cidado, porque as pessoas no

assumem as responsabilidades sociais delas, as responsabilidades em que elas realmente possam participar de alguma forma de todo esse fluxo de negligncia... Por exemplo: vamos pegar um administrador pblico que comea ser conivente com os desvios de verba, comea a ser conivente com os interesses polticos partidrios, e ento esse um poder que corrompe e que negligencia a sociedade. Agora, no s o Estado. Ele vem principalmente do indivduo. A falaria assim, na questo da classe mdia, que poderia no ter um poder econmico assim, mas ela poderia ter o poder da prpria vontade de estar participando dos conselhos, de estar participando das reunies. Por qu? Porque ela no negligenciaria a sua atividade como cidad e no

106

fecharia os olhos para tudo o que est acontecendo. E eu diria do pobre que est l, naquela pobreza, que est vendo a sua prpria situao, passa isso para os filhos, de uma forma violenta, como se eles fossem culpados da prpria situao de privao. E a falamos dessa omisso... E a a sociedade est doente, o indivduo est doente. (Valria, psicloga)

O que aparece na discusso que as responsabilidades pelas situaes de

negligncia esto diludas no papel de cidados e Estado. Os espaos dos

conselhos de direitos poderiam propiciar as mudanas no quadro de excluso

existente, mas necessria a participao da sociedade para que de fato

ocorra a discusso e a busca da efetivao desses direitos.

A classe mdia citada como uma classe que resiste em enxergar o que est

acontecendo e assumir suas responsabilidades na mudana.

A classe mdia no Brasil, ela usada como uma vlvula de escape... Por exemplo, se analisarmos o Movimento dos Sem Terra, para a classe mdia a sua ideologia aparece da seguinte forma: eu vou lutar para qu? Eu tive que trabalhar, e eles agora vo invadir aleatoriamente qualquer parte? Ento usado. E essa educao que colocada para a classe mdia como uma vlvula. Ela vai ter que estar segurando a presso da classe um pouco mais favorecida. Ento eu acho que a negligncia muito maior. Eu acho que tambm da forma como colocado na educao, a educao no contexto no s escolar, mas no geral. No discutida a poltica em si... Qual a frase mais ouvida do brasileiro? ah, eu no gosto de poltica, eu odeio poltica... O que a poltica, qual o seu conceito? (Carla, assistente social)

A forma como se discutem as questes relacionadas a poltica vo

determinando o olhar e vo construindo opinies sobre determinados assuntos.

Na discusso fica claro que a educao tem papel fundamental para

transformar e mudar a sociedade. ressaltado pelo grupo que a educao no

est somente no ambiente escolar, mas ela se faz presente em todos os

espaos das relaes humanas.

O grupo cita as palavras escritas na bandeira brasileira: Ordem e progresso,

que do ponto de vista de seus integrantes pode promover o enraizamento de

uma certa passividade, uma obedincia ao poder, uma conformidade e um

107

enfraquecimento daquele que no detm o poder. Tambm acredita que a

negligncia est presente na questo cultural, ou seja, o enraizamento da

cultura apreendida ao longo da vida de cada pessoa se reflete em aes muitas

vezes tidas como negligentes, o que se reproduz no ciclo geracional.

Cultural, mas uma desorganizao interna da pessoa e aquela cultura est to enraizada que, por mais que voc oferea condies, at financeiras, nos nossos programas, parece que a famlia no tem interesse, porque est to acomodada naquela situao que no v sada e no v por que mudar aquela situao, eles no entendem por que tm que mudar, porque para eles est tudo bem... Eu acho que a negligncia uma questo cultural, o que dificulta mais nesse aspecto de elaborao de definies, de todas essas dificuldades que ns temos ao trabalhar com a questo. Por exemplo: l no Nordeste as mes deixam seus filhos pequenos de 7 anos cuidando dos menores; aqui, quando isso ocorre, colocamos como um risco, mas para elas isso normal. Um outro exemplo so meninas de 12 ou 13 anos irem morar com homens mais velhos. Atendemos como abuso, mas, para elas, uma questo cultural. Ento, para mim, a negligncia uma questo cultural, uma coisa com que as pessoas esto acostumadas, que para elas natural, e ns temos outros valores... (Neide, assistente social)

Fica evidenciado o choque de valores culturais das pessoas atendidas pelo

Crami e dos profissionais. Os exemplos citados fazem referncia Regio do

Nordeste, mas sabemos que muitas vezes as pessoas so abandonadas pela

falta de informao e pela ausncia do Estado, o que pode acarretar atitudes

que podem ser consideradas negligentes.

A negligncia passa a ser vista sob vrios aspectos: cultural, social, econmico,

emocional.

Eu no acho que somente cultural. Acho que ausncia do Estado, mas tambm tem a responsabilidade da sociedade civil, de ns, cidados. Voc v criana na rua brincando, fazendo malabarismos, e ningum nem olha. Ah, moleque, sai daqui. Mas eu tambm vejo aqui no Crami pais que tm condies financeiras, no muito altas, mas razoveis, que so negligentes. A aparece mais uma questo emocional... Eu diria que existe essa questo da pobreza, da excluso, mas eu sempre toco nesse ponto, a negligncia de pais que tm condies financeiras at elevadas, que eu vejo na escola da minha filha que estuda em colgio particular e que tem (crianas) que ficam l, no tm ateno... crianas que ficam com a bab sbado ou domingo, e eu perguntei para ela (bab): e a me dela? Ah, nossa,

108

ela fica muito pouco tempo com ele... Ela diz que no tem pacincia no! (Christianne, psicloga)

Com relao questo abordada pelo grupo, foi apresentada pelo jornal O

Estado de S. Paulo34 uma pesquisa que aponta que passar pouco tempo com o

filho, no impor regras ou limites, evitar beijos e abraos pode fazer com que as

crianas tenham baixa auto-estima, experimentam estresse, dificuldade de se

relacionar socialmente e at depresso. A pesquisa foi realizada em 2002, e 3

mil crianas e adolescentes foram avaliados e opinaram sobre os pais. Foi

realizada pelo Ncleo de Anlise do Comportamento da Universidade Federal

do Paran (UFPR).

A pesquisa mostrou que 56,1% das crianas e dos adolescentes que sofrem de

depresso e 73% que esto estressados so filhos de pais negligentes. Os pais

negligentes, nessa pesquisa, seriam pessoas que estabelecem poucas regras e

limites, que oferecem pouco afeto e no se envolvem na vida dos filhos,

passam pouco tempo com eles, abraam e beijam pouco, no participam da

vida escolar da criana ou do adolescente e no conhecem os amigos do filho.

O grupo apontou que existem vrias facetas na negligncia, que ela

multifatorial e est presente entre todas as classes sociais.

Foram abordados os fatores intencionalidade e eventualidade na negligncia.

Seria uma atitude intencional quando o responsvel tem a noo do risco e

coloca a criana e o adolescente nessa situao. Mas, tambm pode ocorrer

uma situao eventual, que seriam momentos, fatos, acontecimentos

envolvendo a criana e/ou o adolescente que provocassem algum acidente,

porm sem uma intencionalidade, e, portanto, os responsveis no poderiam

ser considerados totalmente negligentes.

34 Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo, A30, VIDA&, domingo, 14 de agosto de 2005.

109

Essa questo da intencionalidade aparece nas aes do Estado, como algo que

fica evidente, mas existe um descaso.

Um descaso, porque isso muito evidente, no tem como tapar. A gente no tapa o sol com a peneira porque est escancarado. Vemos crianas necessitando de cuidados com sade, escola, educao, e vemos por outro lado a corrupo, o mensalo, um monte de coisas que impedem que essas verbas cheguem aos seus objetivos, os objetivos necessrios e reais. Agora, quando falo de uma no-intencionalidade, eu no estou falando nem de eventualidade, porque s vezes no d para prever. Por mais que voc queira, no d para prever alguns acidentes que acontecem, e a no-intencionalidade est ligada a uma educao, informao... (Valria, psicloga)

Acho que se importar com o outro. Est faltando essa questo, at

pelo Estado. Essa CPI que estamos vivenciando agora, ningum se importa. No ningum, mas muita gente que est l no poder no tem esse olhar com o prximo, com o outro... Acho que o que voc falou da negligncia, que as pessoas so inconscientes ou ento no tm a informao, mas tem gente que tambm inconsciente do quanto importante e negligencia. Essa violncia invisvel, nem se d conta do quanto importante conversar com o filho,como voc est?, trocar uma idia. As pessoas esto um pouco cegas para algumas questes, porque tem criana que sofre negligncia. Elas tm tudo em casa, mas elas so negligenciadas, e os pais no percebem a importncia de conversar, de ter carinho, de colocar a criana nessa dimenso que a gente tem aqui no Crami, mas dentro de casa no tem; no percebem que importante, acham que no, o importante s dar o que elas precisam ter materialmente. Parece que a sociedade est muito doente. (Christianne, psicloga)

O grupo apontou vrios fatores que influenciam nas situaes de negligncia e

o quanto a sociedade e o Estado interferem nessa relao. Essa discusso

passa pelos princpios e valores morais que so construdos historicamente

dentro dessa sociedade. Uma das componentes do grupo ressalta que o

processo histrico que o pas passou, tambm influenciou as relaes

estabelecidas no Estado, na sociedade e na famlia.

De qualquer forma, eu acho que tudo o que est sendo dito, a gente est falando de cultura. Quando a gente nasce, a gente nasce num lugar que tem uma histria, e somos educados a partir dessa histria. E quem nos educa tambm foi educado a partir dessa histria. E o nosso pas, ele j foi descoberto, j foi colonizado com a idia de explorao do mais fraco, tanto relacionado com a intelectualidade quanto o relacionado com o dinheiro. E a moral tambm foi utilizada para dominar e controlar, porque quando a Igreja foi falar dos jesutas, o

110

interesse era dominar os negros e os ndios. Ento, todas as nossas polticas pblicas e a nossa educao, e mesmo sutilmente, a nossa educao religiosa, ela perpassa pelo interesse do mais forte. Ento as pessoas so educadas para ganhar, para tirar partido de alguma coisa. De certa forma, todos em nosso pas que tm essa miscigenao to grande. Porque eu acho que seria muito difcil criar leis e regras para um lugar, um territrio to amplo, to diversificado. Como ser coerente, como ter regras que consigam alcanar as mais diferentes classes econmicas, intelectuais e demais que a gente tem no pas inteiro? Acho que certa forma, um equilbrio mnimo deve se encontrar, em algum lugar a gente encontra, mas eu acho que existe, de uma forma generalizada, uma imaturidade emocional na populao brasileira. Eu no posso falar de outras, porque eu no conheo outras, porque outros pases com dinheiro, com acesso cultura, quando existe um equilbrio moral, afetivo e religioso, no precisam nem de lei para que o respeito ao prximo acontea. Acho que, quando a gente precisa de muitas leis e muitas normas, porque a gente est precisando de fora de alguma coisa que a gente no adquiriu dentro, e a gente est falando de equilbrio afetivo, emocional, que vai ser permeado um pouco pela moral, mas a moral muda de tempo para tempo, a moral vem baseada nos interesses de algum que conseguiu manipular as emoes, uma construo histrica. Ento eu acho que no nosso pas e nas pessoas que ns atendemos, aquele que est negligenciando, ele tambm imaturo afetivamente, mesmo quando ele tem acesso econmico, quando ele tem acesso cultural, mesmo quando ele teve acesso a estudo, lei, informao. Mas assim, conhecer as regras, uma coisa muito diferente de aplicar as regras. Para aplicar, voc precisa estar preparado. E quem est preparado? Quem que foi educado para prepar-los? Algumas pessoas adquirem no seu prprio amadurecimento pessoal, por fatores diversos, que vrias teorias vo explicar. Acho que algumas pessoas conseguem amadurecer afetivamente e se destacar para aplicar, mas o primeiro passo uma questo de auto-estima: primeiro eu cuido de mim, primeiro eu aprendo a me respeitar e a eu comeo a aplicar fora. Do meu ponto de vista, passa muito pelo desenvolvimento pessoal, individual, porque existem aqueles que no meio da confuso ainda assim conseguem, sem que ningum tenha ensinado a respeitar. Ele sabe, mas ele tem um controle maior de si mesmo, afetivo, no econmico nem intelectual, se bem que no tem como a gente negar que, tendo o acesso cultura e ao dinheiro, isso pode ser facilitado, mas no critrio, no porque tem que vai fazer. Mas o equilbrio emocional, sem sombra de dvidas, onde ele existir, existe o respeito. Precisa do equilbrio individual, emocional. Isso uma construo mesmo de um por um, socialmente. Nem as nossas polticas tm equilbrio, porque aqueles que falam para construir as polticas ainda no tm, porque todos ns somos filhos da histria do pas que no veio com a inteno de desenvolver as pessoas que aqui estavam, veio com o interesse de explorar e continuar deixando todo mundo muito cego, para continuar explorando. Alguns conseguem sair disso, mas s alguns, e acho que a gente j tem muito tempo. Veja l as leis que ns temos, ECA, LDB, e outras tantas. Para comear, elas precisam ser discutidas nos rgos pblicos, entre os profissionais da rea da sade e educao. Leva dez a quinze anos para comearem a ser discutidas e compreendidas. (Cristiane, psicloga)

111

Fica evidenciado tambm o papel do Crami enquanto mediador entre instncias

na questo da negligncia, uma vez que a entidade tem papel poltico-social e

transformador.

O grupo foi finalizando as discusses, observando que, na questo da

negligncia, todos tm sua responsabilidade enquanto parte integrante de uma

mesma sociedade.

112

CONSIDERAES FINAIS ALGUNS APONTAMENTOS

O grupo proporcionou uma nova viso, uma nova percepo, uma reflexo

sobre a negligncia, porque at ento o conceito com que a instituio

trabalhava limitava-se perspectiva de uma situao de violncia domstica

que muitas vezes acontecia porque os pais ou os responsveis eram

negligentes. Mas a discusso em grupo fez com que se pensasse na

negligncia social que ocorria tambm com aquela famlia.

Muitas vezes, uma famlia com comportamento negligente de alguma maneira

tambm viveu esse tipo de violncia, que uma negligncia sofrida em nvel de

sociedade e que, s vezes, at os prprios profissionais sofrem. Talvez ela no

se configure como uma negligncia por parte dos pais, ou da famlia, ou algo

assim, mas resultado de atos polticos, de pessoas que seriam responsveis

por uma melhora na vida social. Nesse sentido, a negligncia tambm pode ser

vista, alm de uma questo cultural, tambm como uma questo estrutural.

As discusses puderam contribuir para o fortalecimento de uma reflexo muito

mais apurada, tendo por base o dia-a-dia difcil do trabalho com a questo da

violncia domstica, porque ela vem de encontro a algumas questes pessoais,

e os profissionais se deparam muitas vezes com a impotncia decorrente das

omisses nos diferentes planos das prticas sociais.

A oportunidade das discusses abriu espao para se pensar em superaes,

em mudanas gradativas, com o envolvimento dos prprios profissionais, agora

mais fortalecidos. O prprio fato de o grupo sentir que pode contribuir para

outro significado para a negligncia e de haver a possibilidade de colocar isso

no prprio manual do Crami, a partir de uma construo conjunta, uma

construo coletiva, apoiada na atividade, na realidade, foi algo pensado,

construdo e atualizado, tendo como ponto de partida um conhecimento

externo, um conhecimento cientfico.

113

Acredito que a discusso sobre a negligncia passa necessariamente por uma

discusso sobre tica: quando algum negligenciado, isso causa sofrimento e

prejuzo. Essa questo envolve tambm direitos: todo homem sujeito de

direitos e de necessidades que precisam ser atendidos. As dimenses dessa

tica ultrapassam os limites pessoais: temos que parar para refletir um pouco

por que o mundo est negligente. Mesmo em questes mnimas, como de uma

me em relao ao filho, ou do empregador em relao ao empregado, do

homem em relao ao mundo... essas aes tm que passar por esse crivo da

tica.

A idia-base da reflexo provocada por esta dissertao esta: como, no dia-a-

dia, no cotidiano do trabalho, se pode alcanar transformaes que garantam

direitos? Isso no significa que os profissionais vo mudar o mundo, mas que

podem contribuir para que ocorram transformaes tanto no ambiente familiar,

quanto no institucional e nas relaes sociais. Esta uma responsabilidade

tica de cada instncia que est relao ao outro, em relao ao trabalho que

se executa.

Essa reflexo no se restringe s relaes com as famlias que so atendidas,

com as crianas, com os adolescentes, mas abrange tambm as aes

parceiras com outras instncias, por exemplo, com o Conselho Tutelar, com a

Vara da Infncia e Juventude e com a sociedade.

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www.forumdca.org.br em 25.07.2006

124

www.conanda.org.br em 25.07.2006

http://www.diadema.sp.gov.br/csp/diadema/reportagem.csp?OBJID=3212 em

26.07.2006

Jornal O Estado de S. Paulo A30 VIDA& Domingo, 14 de agosto de 2005.

125

ANEXOS

Anexo I

Carta ao Crami

Santo Andr, 24 de agosto de 2.004.

Ao

Crami Santo Andr

Att. Dr. Ronaldo Gomes Vasque Diretor Tcnico

Venho atravs do presente, solicitar autorizao para a realizao de pesquisa

junto aos profissionais desta instituio, especificamente, do Crami - Unidade

Diadema.

Informo que estou realizando mestrado na Pontifcia Universidade Catlica de

So Paulo PUC/SP, no programa de Servio Social, com orientao da Prof.

Dra. Myrian Veras Baptista. A proposta de realizar entrevistas com os

profissionais e pesquisa documental, com o intuito de embasar a minha

dissertao de mestrado que estar abordando o tema: Abandono na

abundncia um estudo sobre as situaes de abandono atendidas pelo

Crami.

Sendo s para o momento,

Atenciosamente,

Maria Cristina de Oliveira

Assistente Social

Cress 25382

126

Anexo II

Roteiro para discusso do Grupo Focal

Nos encontros foram utilizadas algumas dinmicas para fomentar a discusso,

utilizamos da tcnica Tempestade de Idias que visa a construo de novos

significados para determinado assunto atravs do jogo de palavras. Cada

participante do grupo contribui com palavras ou idias que se aproximam do

tema discutido. Temas que nortearam as discusses:

Abandono;

A dimenso do abandono familiar;

Discusso sobre um atendimento da instituio;

O abandono Familiar;

Negligncia;

As mltiplas faces da negligncia.

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