As muitas faces do homemduplicado na ps-modernidade

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  • AS MUITAS FACES DO HOMEM DUPLICADO NA PS-MODERNIDADE

    Prof Doutoranda Madalena Machado (UNEMAT-FAPEMAT/UFRJ)

    O romance de Jos Saramago, O homem duplicado (2002) apresenta uma

    viso do ser humano na contemporaneidade propcia de ateno analtico-filosfica.

    O professor de Histria que se transforma na prpria histria por se fazer,

    problematiza a identidade esparsa ao longo da narrativa. As muitas faces da

    resultantes corroboram na configurao do homem na Ps-modernidade que, de

    acordo com nossa abordagem, ressaltam as mscaras do sujeito individual. Com a

    perda de espao e a ausncia do sentimento, o ser fictcio movido por uma espcie

    de euforia por saber de si nos auxilia no traado humano, uma vez desintegrada a

    subjetividade.

    O ator Daniel Santa-Clara que d vida a Antnio Claro, objeto de uma busca

    frentica, sucumbe ao final da histria antes, porm, se torna motivo desencadeador

    de reflexes acerca da vida, do papel desempenhado por cada um. O objetar de

    ambos, frente primazia do outro, j que so iguais na aparncia, leva-os a entrar

    no mundo das dvidas, das imensas interrogaes. Ao indagar sobre o maior

    enigma de suas vidas, os personagens compactuam com a poro ainda no

    desvendada da existncia humana. No incio do romance parece-nos corriqueira e

    banal a vida do professor secundarista. Encontramos nessa primeira impresso

    elementos capazes de inmeras assertivas, afinal, quem Tertuliano, Daniel,

    Antnio? Por que Tertuliano se transforma em Daniel e Antnio em Tertuliano? O

    empenho em descobrir quem nasceu primeiro supera a busca de uma explicao

    cientfica para a situao. No intuito de se conhecer por meio daquele eu

    misterioso, o Daniel tambm sem identidade real, juntamente com Tertuliano e

    Antnio despertam a fim de um entendimento mais amplo de si mesmos. Iguais at

    nas marcas de nascena, os duplos e no gmeos revelam-se unos quando querem

    conhecer um ao outro sem se denunciarem, motivo dos disfarces. Ao se esmerarem

    nessa inteno, deixam suas ocupaes anteriores. H algo em comum entre eles?

    Quem o homem duplicado? Em qual dos dois pode-se dizer que haja uma

    subjetividade singularizante? A autoconscincia exprime os vrios eus criados pela

    imaginao dos escritores perfazendo a humanidade que, apesar de pequena

    consegue ser o ponto de reunio para os conflitos acontecerem.

  • Tal atitude define a ansiedade existencial presente em Tertuliano, beira da

    depresso porque lhe falta coragem para encarar a realidade. De incio, a expresso

    de dvida que o move vem da deciso entre gastar tempo em preparar algo

    comestvel ou sair para jantar; continuar o trabalho em casa ou ler um estudo das

    antigas civilizaes mesopotmicas. Entretanto, no est contente, tem a sensao

    de incompletude. Conforme o narrador faz questo de enfatizar, ele gente

    comum, tanto corajoso quanto covarde. Ao assistir Quem Porfia Mata a Caa, o

    heri duplicado se impressiona com a viso semelhante do ator, isto o assombra

    porque na verdade existe um prenncio de diversidade da vida, da qual ele fugira.

    Preso entre maneiras distintas de ser humano e viver a vida, o protagonista se

    debate com questes tais como: Quem esse homem do filme? Qual o seu nome?

    Como ningum reparou em tal semelhana? O professor ento decide sobre a

    necessidade de encontr-lo apesar do perigo que isso representa. Ele est

    localizado num mundo fragmentado, episdico e hostil, por isso tenta escolher

    embora saiba dos limites, dos recursos escassos mo. Na empreitada, vem uma

    sensao de vazio crescente at sacudi-lo com a revelao da existncia de um

    homem visto como seu vivo retrato, a perturbao inevitvel. Fisicamente v a

    possibilidade do ser humano repetir-se. Mas, a idia de duplicao faz Tertuliano se

    espantar, logo ele que se enxerga como um erro. O quebra-cabea emoldurado pelo

    curso da vida que se tem eu mesmo perfaz a insegurana existencial, nisso h

    um desmoronamento fsico e moral, os problemas se aglomeram e o mais

    contundente se responder: que ser um erro? Aos poucos compreende que as

    escolhas vista tambm significam a probabilidade de uma permanente ansiedade

    de estar errando. O homem duplicado ao apresentar algumas das perplexidades do

    mundo contemporneo, prioriza a aflio do homem atual no somente quanto s

    questes materiais, sobretudo o se sentir vazio e aborrecido com tudo.

    A Literatura marcada pela presena do homem cujas vozes variadas a se

    instalam, fala de um indivduo que perdeu o sustentculo, adequado angstia da

    incerteza. Esse dado extrapola a compreenso do romance um tanto reduzida de

    Sandra Ferreira (2007, p. 03) para quem o livro ecoa as antigas oposies binrias:

    original e cpia; amor e dio; eu e outro; vida e morte. importante ressaltar que

    nosso objetivo estudar o personagem principal do romance enquanto

    representante de certo modelo de mentalidade, base de auto-compreenso da

    contemporaneidade que o Ps-modernismo e como tal, no uma tarefa que

  • possa se estabelecer de imediato ou de forma conclusiva. O escritor no conjunto de

    sua obra v no homem, a possibilidade de se encontrar, provocar mudanas. A

    narrativa ao fazer referncia s questes como a individualidade, acirrada na Ps-

    modernidade (perodo histrico especfico) j se caracteriza como uma questo por

    si s filosfica.

    O professor de Histria antes submisso e amigvel passa a ser outra pessoa.

    Quer se conhecer. Esta uma mudana observada pelo narrador quando defende: o

    homem no havia mudado (SARAMAGO, 2002, p. 43), o mesmo de todos os

    tempos no sentido de se lanar ao desconhecido. O diferencial na narrativa

    contempornea, esse algo que no muda est na vida pessoal do protagonista de O

    homem duplicado, feito uma interrogao. Instaurada a crise da representao, o

    agravante o desnorteio que o atinge na disjuno entre o seu corpo e o do outro

    num ambiente que j no to particular quanto imaginava. Na concepo da gente

    de seu convvio, o professor transmite uma imagem de serenidade, longe, portanto

    daquele turbilho que o atormenta. Pois bem, sabemos de sua intimidade, a esta

    altura estraalhada pela aparncia dividida com outro. Entretanto, no possvel

    dizer que podemos dotar o sujeito individual de um sentido assegurado de seu lugar

    no mundo, uma vez que a distncia existencial entre eles quase imperceptvel, tal

    a semelhana.

    Comportamento este observado na individualidade em teste do personagem

    duplicado, por isso atormentado pela incompreenso. O dissenso que o protagonista

    representa dimana a afirmao da subjetividade descentrada a que o Ps-

    modernismo problematiza. Tertuliano quer se sustentar enquanto no equivalncia,

    ao mesmo tempo tenta recuperar a capacidade de agir e lutar em prol de seu

    objetivo. Embora isto fique mais no nvel da discusso entre ele e a voz

    desconhecida, a estranha presena que o acompanha em momentos crticos, assim

    como a conversao com o senso comum. O que acaba num arremedo porque em

    cada mscara se descobre o sujeito provisrio e plural.

    Diante dessa vida que no se explica, o homem est sempre imbudo mais de

    perguntas do que respostas. Caracterstica intensificada no tempo repleto de

    contradies no qual se insere a escrita de Saramago. Ao tratar a pessoa, homem

    ou mulher em sua obra, muitas vezes o v despedaado no interior, cheio de

    solido, desamparo e timidez. Como na constatao do narrador: H coisas que

    nunca se podero explicar por palavras (SARAMAGO, 2002, p. 60) sendo assim,

  • resta viver aquilo que elas no abarcam, como o faz o protagonista do romance ao

    lidar com a euforia e as intensidades de uma experincia sem par. H na

    conscincia arguta deste ser fictcio, o valor e significado a serem respeitados no

    que concerne diferena e alteridade caractersticos do Ps-modernismo. De certa

    forma, o comportamento pacato e submisso do protagonista interpelado como

    sujeio condio de trabalhador ordeiro, dcil e cidado obediente, atingido pela

    duplicao.

    O personagem principal em dobro se move entre a pouca confiana em si

    mesmo e a volubilidade dos sentimentos. Se no temos herosmo a discutir,

    tampouco podemos cogitar de seus aparecimentos pblicos como desvendamento

    da representao pessoal. Divorciado por causa de um contnuo definhamento do

    casamento, vive num retraimento suscetvel de se envolver nas questes do eu.

    Mas porque no o faz, ou faz de forma inconseqente? Ou ainda, porque adia tanto?

    A fachada de civilidade que o afasta dos outros e ainda mais de si mesmo, gera uma

    opresso crescente medida que parece inadivel voltar-se aos interesses da

    personalidade. No ensimesmamento em que est mergulhado, o ato de assistir o

    filme Quem Porfia Mata a Caa, ao invs de retir-lo deste estado, provocar a

    sensao de diviso, perda de algo que nunca foi seu. A instabilidade, o paradoxo

    nos gestos empreendidos na procura do ator, faz o professor um homem do mundo

    ps-moderno dado ruptura, deslocamento e descontinuidade ao movimento mais

    da mente que do corpo portador de subjetividade delirante, ele o sujeito

    desunificado no que h de horror nisso, tambm descentra o que vive, ama ou

    vilipendia.

    Descobrir a intimidade incrustada em outro homem, pode representar uma

    auto-libertao? As indagaes suscitadas pelo desempenho do personagem

    principal de O homem duplicado nos conduzem a ver esta criatura como viva e

    expressiva, inclusive pelo fato de que a cultura ps-moderna atesta um

    esmaecimento do afeto. Ansiar pela individualidade fora dele, uma vez que

    experimenta o desaparecimento de si enquanto sujeito individual; propor-se o

    enigma e estend-lo ao outro e com isso iniciar uma reviravolta no eu, so

    incumbncias auto-impostas pelos seres ambientados nesse romance.

    Quando nos propomos a pensar o homem na obra do romancista portugus

    devido nosso interesse pelo ser humano, o qual nos faz enxergar nos seres

    ficcionais criaturas que guardam muitas imagens de si sem, no entanto, se identificar

  • a qualquer delas. Apesar ou mesmo por causa, como assinalamos anteriormente, de

    Tertuliano mostrar-se enfraquecido da vontade humana, experimenta ativamente a

    histria que no teve oportunidade de ensinar: a sua. Afirma no saber o que ,

    somente quem , assim mesmo de forma pouco apreensvel. Como o encontramos

    no ir e vir locadora de filmes e o contato inevitvel com o atendente, irnico com o

    nome pouco comum do cliente. Cabe neste momento perguntar com Tertuliano: que

    far depois de saber que esse homem entrou em quinze ou vinte filmes,(...)

    Conhec-lo (SARAMAGO, 2002, p. 75) a resposta que vemos enquanto atitude.

    Conhecimento sinnimo de trabalho, cogitaes a respeito de um eu estranho ou

    de indcios de algum que se v, mas, se retira de cena. Ao tratarmos do

    desnudamento interior de Daniel Santa-Clara, inferimos da a ao direcionada ao

    mesmo Tertuliano. Este assume pela primeira vez correr riscos, por isso o tratamos

    enquanto ser humano apto a sentir com a percepo da personalidade. Ora, muitas

    vezes nos deparamos com esse personagem se vendo incapaz de produzir

    representaes de sua prpria experincia: como corpo ps-moderno duplicado no

    labirinto da cidade onde vive, interminvel nas imagens repetidas.

    de consenso nos textos tericos apontar o sujeito ps-moderno eivado pelo

    provisrio, varivel e problemtico no possuindo uma configurao fixa, essencial

    ou permanente. Entretanto, isto no suficiente para a compreenso do homo fictus.

    Nosso esforo inquiridor ao estudarmos as vicissitudes do protagonista da narrativa

    cujo homem encontra-se duplicado, apreender que isso ocorre em relao direta

    com o senso comum. O mundo mais humano em que a cultura assume a forma de

    uma segunda natureza faz do Ps-moderno a busca por rupturas, eventos ao invs

    de novos mundos. Por esta considerao, vemos que o protagonista pode ser visto

    na disjuno entre o corpo e o ambiente de tal forma que a distncia, abolida,

    provoca o inebriamento na jornada existencial desse sujeito. O tempo vivido pelo

    homem na literatura do sculo XXI enquanto lhe proporciona liberdade, traz a

    impotncia para usufru-la, tamanha sua falta de localizao, no em termos

    geogrficos, mas de se situar numa escala social e espacial passveis da

    individuao que o sujeito ps-moderno se ressente, conforme defende Fredric

    Jameson (2004, p. 79).

    Entre os diversos sentimentos experimentados pelos personagens, h mais

    que desencantamento, a questo irresoluta, a presena de uma verdade que tenta

    de incio suplantar outra. Mximo possui a falsa conscincia de si, preocupao

  • intermitente sobre aquilo que lhe ocorrer na vida, fato essencial para nos

    inteirarmos do contorno humano no livro. Como entender seus passos, a vacilao

    diante de decises inadiveis? A humanidade requerida ao longo da narrativa, o ir

    alm da objetividade vai ao encontro de uma descrena normativa ou qualquer

    espcie de ordenamento, bem como da minorada extenso do pensamento entre os

    personagens. Visto por este ngulo chegamos crtica ao homem duplicado,

    perdido por no entender seu lugar na vida, no caos, ainda assim est investido da

    necessidade de investigar a ordem que possa se encontrar a. Das contradies que

    isto pode oferecer, surge o homem cnscio de que uma parte de si est ausente

    (SARAMAGO, 2002, p. 157). Seriam as emoes, por vezes perturbadas?

    Esquecidas? Desnecessrias?

    Na discusso sobre quem seria o primeiro ou o segundo homem, quando h o

    encontro entre Tertuliano e Antnio Claro, no instante em que se olharam desviaram

    a vista como se temessem encarar a realidade. Por causa disto, nem o professor

    nem o ator sero os mesmos. Eles querem a diferena, at o minuto que os

    separam no nascimento. Podemos afirmar que esta atitude ou posio a demarcar,

    vem questionar aqueles postulados ticos pretensamente universais de fazer do

    homem um conjunto de reaes previsveis. Ao contrrio, depois do encontro dos

    protagonistas, o que emerge na narrativa a luta pela particularidade sem grandeza

    a atingir, aguados em sensibilidade para a diferena, ao mesmo tempo os

    personagens suportam o incomensurvel.

    Entender e exprimir o mundo literrio habitado pelo ente fictcio , alm disso,

    v-lo procurar se ver enquanto uno num mundo contrrio a esta idia. Como se

    fosse duas faces da mesma moeda, os personagens apresentam emoes plurais

    como a covardia de Tertuliano ou a vingana de Antnio em tudo reveladoras da

    humanidade presente na Literatura de Jos Saramago. No nos cabe aquilatar

    quanto h de emancipao na experincia ou na falta dela referente aos

    protagonistas de O homem duplicado, porm, aprender quanto s imagens podem

    ser reveladoras. Entregues a si mesmos, os homens literrios adquirem a

    conscincia de que isto no o bastante.

    O professor que ensina Histria e se encontra enfadado por repetir os

    mesmos contedos do passado, deixa entrever que a Histria humana por demais

    conhecida e a repetio do homem sendo previsvel exige, contudo, interferncia no

    presente. Quer ensinar invertendo os tempos dando nfase na atualidade, mas,

  • ridicularizado nas reunies em que sua opinio descartada. Quando finalmente o

    diretor solicita-lhe a confeco de um estudo defendendo seus pontos de vista, o

    trabalho feito, apenas no vemos a execuo devido o envolvimento com o caso

    do duplicado. O mestre da sala de aula investiga, por fim encontra e conhece o ator

    Daniel Santa-Clara, o outro de Antnio Claro, por sua vez o mesmo Tertuliano.

    Todavia, o reconhecimento em pauta no visa num primeiro momento transformar e

    sim suplantar o igual a fim de garantir a sobrevivncia unvoca. Afinal, haveria

    possibilidade de escolha se fosse o contrrio? Podemos falar em sobrevivncia?

    As imagens do homem em frente a uma porta fechada bem como daquele

    que se olha no espelho e no mais se envaidece a ponto de se inebriar com a

    prpria viso, pelo contrrio, desvia o olhar por ser insuportvel, so ingredientes da

    Literatura envolta nos domnios da criatura ficcional. Fato motivador de interesse por

    causa do silncio sobre a vastido aberta ao imaginrio. Seria a dissoluo do eu

    um aforisma a combater? Ele a causa da duplicao do homem? A expresso

    artstica tpica da Literatura observa os personagens na peculiaridade de insero no

    mundo. Na ocorrncia narrativa vem o sentir mais aguado como em: (...) isto que

    agora estou a sentir poderia no ser mais que uma memria de mim mesmo

    histericamente activada. (SARAMAGO, 2002, p. 82), efetivamente no ? Se

    resgatarmos as palavras do narrador acerca do homem no ter mudado, veremos

    tratar-se de uma vivncia repetida enquanto busca, contudo, se diferencia pela

    recusa das afinidades entre os personagens. Neste caso, os iguais se expelem.

    Verdade, mentira, preciso ou relativo so pontos indicadores do

    apodrecimento das pessoas, segundo o professor de Histria para quem o

    convvio um empecilho para o homem se inteirar de si passamos ento a

    questionar o que seria essencial ou provisrio ad hominem nas concepes

    mutveis do sujeito, encontradas na figura de Tertuliano. Como lhe atribuir um

    sentido? Se no h mais ordem a estabelecer qual lugar podemos lhe assegurar?

    Pelo fato de se colocar em questionamento e de um possvel sentido de si, faz do

    homem duplicado o sujeito humano cuja identificao se desloca medida que se

    v desvinculado da idia de um modelo a seguir. Sozinho, vigilante, ele algum

    impactado pela necessidade de reinveno das diferenas.

  • REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS:

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