as muitas faces do compadrio de escravos, cacilda machado

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Compadrio de Escravos

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  • RESUMO

    O cruzamento de registros paroquiais

    (batismo, casamento e bito) com cen-

    sos domiciliares e com a genealogia de

    uma famlia senhorial permite aprofun-

    dar discusses tradicionais na historio-

    grafia, acerca das alianas de parentesco

    ritual efetuadas por escravos. Este arti-

    go sugere que as relaes de compadrio

    dos cativos de So Jos dos Pinhais (PR)

    eram mecanismo de manuteno e de

    ampliao de uma comunidade de ne-

    gros e pardos, e mesmo de brancos po-

    bres. No entanto, o predomnio de pe-

    quenos proprietrios de escravos tornou

    o compadrio estratgico tambm na

    busca de proteo social, por parte dos

    escravos, e instrumento de controle se-

    nhorial. Tais caractersticas acabaram

    por reforar o componente de domina-

    o/submisso e ajudaram a debilitar o

    carter igualitrio que o parentesco es-

    piritual tridentino tambm pressupu-

    nha, contribuindo para a reproduo da

    hierarquia social.

    Palavras-chave: Escravido; Compadrio;

    Hieraquia social.

    ABSTRACT

    Through crossing parochial records

    (baptisms, marriages and deaths) with

    census data (Listas Nominativas de Ha-

    bitantes) and a genealogy of a master fa-

    mily, this article aim to deepen traditio-

    nal historiographical discussions about

    slaves ritual kinship alliances. The arti-

    cle suggest that slaves compadrio rela-

    tions in So Jos dos Pinhais (PR) was a

    mechanism of maintenance and enlar-

    gement of a community of negroes, par-

    dos and white poors. However, in this

    area where predominated owners with

    few slaves, compadrio was useful to social

    protection and also an instrument of

    master control. These characteristics

    reinforced the mark of domination-

    submission, and helped to debilitate the

    equalitarian character also presupposed

    by Catholic ritual kinship, thus contri-

    buting to reproduction of social hie-

    rarchy.

    Keywords: Slavery; Compadrio; Social

    hierarchy.

    As muitas faces do compadrio de escravos: o caso da Freguesia

    de So Jos dos Pinhais (PR), na passagem do sculo XVIII para o XIX1

    Cacilda Machado UFRJ

    Revista Brasileira de Histria. So Paulo, v. 26, n 52, p. 49-77 - 2006

  • Dentre os estudos sobre escravido, h algum tempo vm se destacandoaqueles que dedicam especial ateno s relaes de compadrio. Talvez por-que o batismo foi o sacramento catlico mais comum entre os escravos, queatravs dele multiplicaram os laos de parentesco espiritual, dentro e fora docativeiro.

    A partir dos resultados das pesquisas empreendidas, alguns tpicos dediscusso se destacam, entre os quais a compreenso do compadrio no mbi-to da relao senhor-escravo. Em um estudo pioneiro no Brasil, Gudeman eSchwartz indicaram que, no Recncavo baiano, na dcada de 1780, foi extre-mamente raro o apadrinhamento de cativos por seus senhores.2 Para os auto-res, havia incompatibilidade entre propriedade escrava e parentesco espiri-tual, e a sada para essa incompatibilidade no consistiu em abolir o batismoou a escravido, mas mant-los separados. Dessa forma, tais autores pemem dvida a existncia de relaes paternalistas entre senhores e seus cativos.

    Trabalhos posteriores vm confirmando tais inferncias, pois, em geral,os pesquisadores encontraram pouqussimos casos de compadrio de escravoscom seus senhores.3 Quase todos concordam, igualmente, que a despeito dis-so a instituio no deixava de se constituir em uma aliana hierrquica, jque muito raramente um escravo era padrinho ou madrinha de uma crianalivre, e os cativos tendiam a preferir madrinhas e, especialmente, padrinhosforros ou livres para seus filhos, sobretudo os cativos de unidades escravistasde pequeno porte. Robert Slenes, por exemplo, escreveu que a construo, pe-los escravos, de relaes de compadrio que ultrapassavam os limites do cati-veiro demonstra a necessidade, num mundo hostil, de criar laos morais compessoas de recursos, para proteger-se a si e aos filhos.4 De fato, muitos auto-res j nos forneceram notveis testemunhos de como os laos de compadriocom pessoa de maior importncia podiam beneficiar compadre/comadre ouafilhado, sobretudo mediante heranas. Silvia Brgger, alm disso, demons-trou a complexidade do compadrio, indicando a existncia de laos de soli-dariedade entre padrinhos e afilhados e entre compadres, mas tambm reve-lando o componente de dominao presente nessas relaes.5

    De fato, o compadrio comportava inmeros contedos polticos. Nas re-gies com predomnio de grandes escravarias, por exemplo, o percentual deescravos apadrinhando escravos era bem mais significativo.6 Para Jos Rober-to Ges, nesses casos o compadrio era uma das formas de incorporar os afri-canos recm-chegados, e de propiciar meios de socializao de modo a for-mar uma comunidade escrava.7 No entanto, alguns autores ressaltam que ocarter hierrquico no estava necessariamente ausente no compadrio entre

    Cacilda Machado

    Revista Brasileira de Histria, vol. 26, n 5250

    Jefferson LDestacar

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  • cativos, pois em geral os escravos domsticos ou os que possuam algum tipode qualificao profissional apadrinhavam mais do que os escravos de roa.8

    Neste artigo, procuro discutir tais questes a partir da anlise das rela-es de compadrio estabelecidas por escravos de So Jos dos Pinhais, na pas-sagem do sculo XVIII para o XIX. No perodo, esse vilarejo era freguesia davila de Curitiba, situada a sudeste desta, em direo Serra do Mar. Seus ha-bitantes viviam basicamente da pecuria e da agricultura de subsistncia eabastecimento do mercado interno, e uma caracterstica dessa populao eraa forte presena de pardos entre os livres, oscilando, no perodo, em torno de40 por cento.9

    Em 1782, a populao de So Jos compunha-se de aproximadamentemil pessoas, sendo escravas 15 por cento delas.10 Em 1804, 11,5 por cento dos1.894 habitantes eram escravos; em 1830, estavam nessa condio apenas 10,2por cento dos 3.240 habitantes.11 Em todo o perodo, esses cativos pertenciama poucos senhores: em 1782 e em 1803, no havia escravos em 80,5 por centodos domiclios da freguesia. Esse ndice subiu para 83,7 por cento, em 1827.Alm disso, a maior parte dos escravistas do lugar tinha no mximo quatrocativos, tendncia que se acentuou ao longo do tempo: em 1782, 58 por cen-to dos escravistas da freguesia possuam de um a quatro cativos; em 1803 es-se ndice era de 66 por cento, e de 75 por cento, em 1827.12

    Em todo o perodo o grupo cativo de So Jos dos Pinhais apresentavaum perfil sexo-etrio muito semelhante ao dos livres, compondo-se ambos demuitas crianas e com equilbrio dos sexos. Isso significa que, por ento, com-pravam-se poucos escravos no mercado externo freguesia. Para a reposioou incremento de suas escravarias, portanto, aqueles pequenos senhores de-pendiam basicamente da reproduo endgena da comunidade de cativos.

    Esse quadro talvez possa ser estendido a boa parte da Capitania de SoPaulo, pois os autores que estudam a escravido paulista nas reas econmi-cas de subsistncia e abastecimento costumam encontrar uma estrutura se-xo-etria bastante semelhante de So Jos dos Pinhais. Francisco Vidal Lu-na, por exemplo, ao estudar treze localidades da Capitania de So Paulo, em1776, 1804 e 1829, a partir de listas nominativas, observou que, nas reas deexportao, a razo de masculinidade era mais alta do que nas de subsistn-cia e abastecimento, nas quais existia maior equilbrio quantitativo entre ossexos. As reas de cultivo para exportao apresentaram os menores ndicesde populao cativa infantil. Inversamente, em Curitiba, Mogi das Cruzes,So Paulo e So Sebastio resultaram os maiores valores, a refletir, para o au-tor, a predominncia de atividades pouco voltadas para o mercado externo e,

    As muitas faces do compadrio de escravos

    51dezembro de 2006

    Jefferson LNotaReduo do nmero de escravos, mas maior concentrao de escravos por senhor

  • portanto, com menor capacidade de compra de novos escravos adultos, emidade produtiva, servindo-se, provavelmente, de uma maior parcela de cati-vos nascidos na prpria regio.13

    Um estudo sobre compadrio de escravos tem especial interesse para opresente trabalho, pois resultou de uma ampla pesquisa nos registros de ba-tismo da parquia de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais (em Curitiba), nossculos XVIII e XIX, coordenada por Stuart Schwartz. No artigo em que rela-ta os resultados do trabalho, o autor destaca que, tal como em sua pesquisaanterior, o j citado estudo com Gudeman, na Bahia, tambm em Curitiba opadro era o apadrinhamento de crianas escravas preferencialmente por pes-soas livres ou libertas.

    Esse padro aparece desde fins do sculo XVII, alterando-se entre 1750 e1799, quando a proporo de padrinhos livres caiu para menos da metade,talvez em razo do grande nmero de adultos que chegaram nesses anos os escravos adultos do Brasil raramente tinham padrinhos livres. Depois de1800 ressurgiu o antigo padro. Dos 504 batismos da parquia curitibana en-tre 1800 e 1869, 70 por cento tiveram um par de padrinhos livres, menos de20 por cento tiveram dois escravos como padrinhos, e quando os dois padri-nhos tinham status desigual, o afilhado tinha duas vezes mais probabilidadede ter madrinha escrava e padrinho livre do que o contrrio. Quando se es-colhiam escravos para apadrinhar, na maioria dos casos no eram escravosdo mesmo proprietrio do batizado, talvez porque em geral as escravarias fos-sem pequenas em Curitiba, mas tambm sugerindo a capacidade de formarlaos alm dos limites da propriedade. Segundo Schwartz, o padro da Bahiae do Paran indica que talvez houvesse reconhecimento da importncia so-cial do padri