as muitas faces do altruísmo: pressões seletivas e grupos humanos

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  • As muitas faces do altrusmo:presses seletivas e grupos humanos

    Lorenzo Baravalle

    resumoNo mbito do debate sobre as unidades envolvidas nos processos seletivos, a controvrsia sobre a possi-bilidade de comportamentos genuinamente altrustas tem um lugar destacado. Partindo de uma posiodeclaradamente pluralista, discutir-se-o, neste artigo, algumas questes relevantes para esse tpico.Em primeiro lugar, o altrusmo ser concebido como uma propriedade fenotpica dos grupos biolgicos,e no apenas de seus membros. Essa caraterizao levar, em um segundo momento, discusso sobre arelao entre grupos em sociedades complexas, como o caso das sociedades humanas. Nesse contexto,ser esboado um modelo sobre como os comportamentos altrustas e os comportamentos egostas sesolapam em nveis diferentes das dinmicas sociais. Finalmente, ser sugerido um mtodo de anlisedirigido a determinar quais foras evolutivas entram em jogo, e sobre que tipo de comportamento, emcasos empricos concretos.

    Palavras-chave Egosmo. Altrusmo. Interatuantes. Unidades de seleo. Populaes.

    Introduo

    No presente artigo, sero discutidas algumas questes relacionadas com o debate so-bre as unidades de seleo em biologia evolutiva, e sua importncia ser estendida aombito das culturas humanas. Em particular, ser tematizada a dicotomia egosmo/altrusmo, que caracteriza a possibilidade, no contexto biolgico, de considerar dife-rentes nveis de complexidade populacional como relevantes nos processos seletivos eque, no contexto social humano, v-se enriquecida por consideraes de carter lin-gustico e psicolgico. A finalidade ltima do trabalho mostrar como um progressivoafinamento das ferramentas conceituais da anlise evolucionria permite lanar luztambm sobre domnios que parecem irredutveis a ela. Com isso, no quero dizer queseja possvel reduzir, em algum sentido corrente do termo, o desenvolvimento das cul-turas (com suas prprias dinmicas e variaes histricas) a um mecanismo seletivo.Nem considero que, no estado atual, seja correto chamar de cientficos os empreendi-mentos tericos que visam identificao (total ou parcial) entre os dois processos

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    (cf. Munz, 1993; Dennett, 1995; Blackmore, 1999). Contudo, acredito que muitos fe-nmenos culturais humanos constituam modelos para certas interpretaes da teo-rias da seleo natural (cf. Cavalli-Sforza & Feldman, 1981; Boyd & Richerson, 1985;Bohem, 1993; Jablonka & Lamb, 2005). Em outras palavras, no minha inteno di-zer nada sobre o que a seleo cultural, se que existe realmente algum mecanis-mo desse tipo, comparvel por abrangncia e universalidade com a seleo natural.Apenas quero mostrar que a aplicao de certas conceitualizaes prprias da biologiaevolutiva aplicam-se com proveito aos contextos culturais. Espero que o sentido des-sas afirmaes fique mais claro depois da leitura do texto.

    Antes de entrar na discusso, preciso assinalar alguns outros obstculos con-ceituais recorrentes, para assim evitar possveis equvocos. O primeiro tem a ver comum mal entendido frequente, na hora de determinar exatamente o objeto da discusso.O debate sobre as unidades de seleo, cujas origens correspondem de alguma manei-ra ao nascimento mesmo da moderna teoria evolucionaria, conheceu uma fase de grandeanimao acerca do estatuto, por assim dizer, ontolgico das presses evolutivas,desde a publicao de Wynne-Edwards (1962), a favor da existncia de uma genunaseleo de grupo, a qual suscitou as crticas de Williams (1966) e o estabelecimento deuma ortodoxia reducionista1 com Dawkins (1976, 1982), at chegar a um novo equi-lbrio com os trabalhos de Sober e Wilson (1994; 2000 [1998]).2 Estes ltimos, a partirdo artigo pioneiro de Hamilton (1975), e mostrando algumas confuses presentes nosmodelos de seleo de parentesco (cf. Hamilton, 1963; Maynard-Smith, 1964), reabi-litaram a noo de seleo de grupo, embora em um sentido diferente daquele defen-dido por Wynne-Edwards. Sem entrar aqui nos detalhes (que sero discutidos no tex-to), podemos dizer que o artigo e o livro de Sober e Wilson formam parte de um conjuntoheterogneo de textos (cf., por exemplo, Lewontin, 1970; Hull, 1980; Sterelny & Kitcher,1988; Sober, 1996 [1993]; Lloyd, 1994; Brandon, 1996), cronologicamente contem-porneos ao mainstream reducionista, que advogavam por um maior pluralismo comrespeito questo das unidades de seleo e pretendiam, assim, deslocar os termos dodebate. Finalmente, nos ltimos 20 anos, e muito embora no seu interior convivamposies por vezes distantes e em contraste entre si, como, por exemplo, acerca da ca-racterizao dos processos seletivos em termos instrumentalistas (cf. Sterelny &

    1 A posio reducionista de Dawkins deve ser entendida em um sentido circunscrito aos elementos causais poten-cialmente envolvidos nos processos evolutivos. Ela estabelece que somente o gene cumpre os requisitos para serpropriamente considerado como unidade de seleo. De acordo com os modelos elaborados nessa tradio, os n-veis superiores de complexidade biolgica (principalmente os organismos) jogam um papel secundrio e derivado,isto , limitam-se a favorecer a expresso diferencial de certos genes (cf. Sterelny & Kitcher, 1988).2 O texto de 1994 tem como primeiro autor D. S. Wilson mas, por comodidade, referir-me-ei sempre, ao longo doartigo, ao trabalho de Sober e Wilson, j que essa a ordem dos autores do texto, mais completo, de 1998.

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    Kitcher, 1988) ou realistas (cf. Shanahan, 1996; Sober & Wilson, 2000 [1998]), a tendn-cia pluralista foi ganhando cada vez mais aceitao, se no entre os bilogos (cf., porexemplo, Ridley, 2004, cap. 11), ao menos entre os filsofos (cf. Diguez, 2012, cap. 10).

    A coletnea editada por Keller (1999) coloca-se, com suas prprias peculiarida-des e idiossincrasias, dentro dessa tendncia. De particular interesse neste contexto,a contribuio de Reeve e Keller (cap. 1) traa com claridade a distino entre um antese um depois no debate sobre as unidades da seleo. Nos textos clssicos, a questo[] qual a verdadeira unidade fundamental de seleo. Essa questo articulou-seem duas linhas principais de debate: (a) se os genes, ou os indivduos, so melhorescandidatos como verdadeiras unidades da seleo, e (b) se os grupos de indivduos po-dem ser unidades de seleo. Assumindo uma posio pluralista, esses problemas, nanova fase do debate, perdem importncia e as questes relevantes vm a ser outras, asaber, (1) como a seleo natural entre unidades biolgicas de mais baixo nvel (porexemplo, organismos) cria unidades de mais alto nvel (por exemplo, sociedades), e(2) dado que existem mltiplos nveis, como a seleo natural em um nvel biolgicoafeta a seleo em nveis mais baixos ou mais altos (Reeve & Keller, 1999, p. 3).Adotando essa perspectiva, no presente artgo ocupar-me-ei apenas de duas sub-questes. A primeira, relacionada com (1), : como as foras evolutivas vinculam osorganismos dentro de unidades sociais? Ou, em outras palavras, por que os organis-mos so levados, em determinadas circunstncias, a subordinar seus prprios inte-resses aos da comunidade? A resposta ser: devido ao potencial adaptativo dos com-portamentos altrustas. A segunda questo, relacionada com (2), : como interagemdistintas foras e interesses, distribudos dentro de uma sociedade humana em vriosnveis (indivduos, famlias, grupos sociais), para formar estruturas to complexas?Nesse caso, a resposta no ser nem to simples nem to direta. Meu objetivo ser ape-nas o de mostrar como uma interpretao evolucionria pode ser til para compreen-der certas tendncias sociais.

    Outro obstculo conceitual, quando se deseja considerar evolutivamente certoscomportamentos, pode ser representado pela carga semntica de termos como altru-smo e egosmo. Por um lado, Sewall Wright (1980, p. 840) refere que o primeiro ausar o termo altrusmo em biologia evolutiva, se referindo a um fentipo que con-tribui vantagem do grupo a expensas de si mesmo, Haldane (1932). Pelo outro, oegosmo do replicante gentico de Dawkins (1976), que usa o veculo do organismopara otimizar a difuso de suas cpias, sem dvida o exemplo mais clebre de como osegundo termo tem sido empregado em biologia. Algum leitor poder-se-ia queixar pelouso descontextualizado desses conceitos, com respeito aos domnios tradicionais datica e, talvez, da psicologia. Concordo com ele que, s vezes, os bilogos evolutivos eos filsofos da biologia so muito liberais no uso de palavras cujo contedo no neu-

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    tro (admitindo que essas palavras existam, poderamos perguntar se no teria sidomelhor Haldane usar, por exemplo, o termo cooperao). Alguns bilogos preferem,de fato, falar de cooperao, sobretudo, ao referirem-se a microrganismos queinteragem de maneira mutuamente coordenada ou ao usar como modelo a teoria dosjogos. A escolha de manter o termo altrusta deve-se preferncia dada a esse termopor parte dos autores envolvidos no debate, o que no casual (cf. Sober & Wilson,2000 [1998], p. 65). Contudo, no considero que, uma vez que o significado das ex-presses seja fixado, surjam mais inconvenientes. Por outro lado, poder-se-ia questi-onar o direito, por parte da tica e da psicologia, de reclamar essas noes como suasprprias, j que no me parece que essas reas do conhecimento tenham alcanado umacordo extenso e duradouro sobre seu significado.

    Um ltimo obstculo para a clareza da discusso o uso nem sempre claro deuma srie de conceitos comumente empregados no debate, muitas vezes com nuancesdiferentes. Por isso, dedicarei a primeira seo a uma breve elucidao dos mes